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agosto 9, 2012
História sem fim por Nina Gazire, Istoé
História sem fim
Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 3 de agosto de 2012.
Cao Guimarães faz série de paisagens em tributo ao conterrâneo Guignard
Cao Guimarães - Passatempo, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 23/07/2012 a 25/08/2012
Diante das 21 obras que compõem a nova individual do artista mineiro Cao Guimarães, sente-se que o tempo parou de passar. Denominada “Passatempo”, a mostra é um desafio. A começar pelo título: em cada uma das obras expostas, o que se vê não é a passagem do tempo, mas a sua dilatação. Nas fotografias da série “Paisagem Real” – em que o artista registra cimos de prédios envoltos em neblina, em homenagem à série de pinturas “Paisagens Imaginárias”, de Alberto da Veiga Guignard, nas quais o pintor reinventou a montanhosa paisagem mineira destituindo-a de perspectiva –, o que se percebe é o tempo em estado de suspensão. E é à eternidade que o artista se atém especialmente no filme “Limbo”.
Realizado para a 8ª Bienal do Mercosul, o curta-metragem de 17 minutos foi filmado no Uruguai, em 2011, e ganha uma nova versão para esta exposição. O filme parece contar a história de uma criança fantasmagórica. Playgrounds abandonados cujos brinquedos se movimentam sozinhos unidos à paisagem gélida e monótona dos pampas dão a sensação de que pelas paragens uruguaias nada muda e se está para sempre preso na infância. “O que me fascina nos Pampas é que tudo é amplo, dilatado. A impressão que eu tive é de que ali o tempo não passa e o limbo é esse estado de suspensão”, diz o artista à ISTOÉ.
A presença da infância permanece em “Otto”, obra mais recente do artista, dedicada ao nascimento de seu primeiro filho. Guimarães resume, em 70 minutos, o diário audiovisual que realizou da gravidez de sua mulher. Imagens de ultrassom se fundem às de uma história paralela passada na Turquia, onde as construções metafóricas fazem referência ao repetitivo ciclo da vida e da fecundação. E já que o tempo “é uma condição relacionada com a existência do nosso eu”, como afirmou certa vez o cineasta russo Andrei Tarkovsky, o que Cao Guimarães faz afinal é revelar as suas próprias passagens marcadas pela experiência da paternidade e das paisagens imaginárias da infância, partes infindáveis do ciclo maior que é o da vida.
Paisagem ocupada por Paula Alzugaray, Istoé
Paisagem ocupada
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 3 de agosto de 2012.
Em sua nova exposição individual, a artista paulistana Dora Longo Bahia dá continuidade a sua pesquisa sobre a representação da guerra e da violência pelos meios de comunicação
Imagens claras x ideias vagas – Dora Longo Bahia/ Galeria Vermelho, SP/ até 25/8
Em sua nova exposição individual, a artista paulistana Dora Longo Bahia dá continuidade a sua pesquisa sobre a representação da guerra e da violência pelos meios de comunicação. O interesse pelo tema surgiu há dois anos, quando representou em pinturas sobre chapa de metal os conflitos do Oriente Médio. Agora, nos quatro grupos de pinturas expostas em “Imagens Claras x Ideias Vagas”, a artista mergulha alguns metros mais a fundo na investigação sobre o estatuto da imagem na cultura contemporânea.
Centraliza a exposição um mural em grande escala, pintado sobre a parede, de uma estrada que atravessa uma mata. Essa paisagem, deserta e exuberante, é ladeada por duas pinturas de dimensão monumental, em que a mesma paisagem é ocupada por soldados em um tanque de guerra. Embora à primeira vista essas cenas sejam semelhantes às coreografias de soldados americanos em ação no Iraque ou no Paquistão – imagens do trabalho anterior –, as telas “Ocupação (Alemão)” e “Ocupação (Brasileira)” representam cenas de um conflito brasileiro: ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. A confusão não é mera coincidência. Por trás do tratamento semelhante conferido à guerra local e à guerra internacional, a artista aponta para a universalidade dos conflitos.
A grande dimensão das telas (4 m x 6 m) remete à monumentalidade da pintura histórica. O que Dora faz aqui é discutir permanência ou efemeridade de fatos jornalísticos transformados em acontecimentos históricos. “A paisagem natural é justamente a imagem mural e efêmera, que será destruída quando a exposição acabar. O que fica são as paisagens ocupadas pela guerra, que foram pintadas sobre tela”, afirma a artista.
Há um niilismo evidente aqui. O que as pinturas dizem é que a guerra prevalece no espaço e no tempo. A segunda série de pinturas, “Desastres da Guerra”, reforça a tese. Inspirada nas gravuras “Los Desastres de la Guerra”, realizadas por Francisco de Goya em 1746, a série é composta por 80 reproduções pictóricas das maiores fotografias de guerra desde o começo do século XX até o 11 de Setembro – legendadas com as frases das gravuras de Goya. “Avançamos vários séculos, mas as imagens de hoje são tão perversas quanto as de Goya”, diz Dora. Tanto no cruzamento com Goya quanto na escolha do suporte dessas pinturas – o pergaminho –, a artista mais uma vez indaga sobre a eternidade dos fatos diante da inconsistência do conhecimento que temos deles.
O título da exposição, extraído de uma cena do filme “A Chinesa”, de Jean-Luc Godard, é mais uma pista para apreender o subtexto que Dora Longo Bahia escreve sobre essas imagens extremamente fortes. São “imagens claras” os desastres que nos invadem e nos atraem diariamente pela televisão, jornais e internet. Muito mais vagas e imprecisas são as ideias que elas carregam. O pessimismo dessa exposição, portanto, não é em vão. Quando confronta as atrocidades da Espanha de Goya ao fim do sonho do soldado republicano espanhol, fotografado no momento da morte por Robert Capa em 1937, Dora produz uma fricção que desperta essas imagens do sono. Como diria Goya, do sono de uma razão que produz monstros.
Júnior Suci inaugura a mostra 'Película' por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Júnior Suci inaugura a mostra 'Película'
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 9 de agosto de 2012.
Exposição da Galeria Virgílio é formada por desenhos e dois vídeos realizados entre 2011 e 2012
Júnior Suci escolheu o desenho para criar uma obra que pulsa entre a representação de gestos pelo traço a grafite e o gosto pelo dramático. Há até sarcasmo e ironia nos trabalhos do artista, sempre criados por meio de linhas fragmentadas e tensas, como ele diz. Mãos, pés e rostos aparecem nos desenhos como "close-ups" de cenas de uma narrativa de pequenas ações e sentimentos no cotidiano.
Obras como partes de filmes, a referência ao cinema é, na verdade, uma afirmação do próprio artista, que acaba de inaugurar na Galeria Virgílio a mostra Película, formada por desenhos e dois vídeos realizados entre 2011 e 2012.
É uma raridade artistas se dedicarem apenas ao desenho, mas por meio de um gênero tão tradicional Júnior Suci vem apresentando uma produção de destaque, tão contemporânea. "Obras sobre papel ainda são rejeitadas em termos comerciais", diz o artista. Desde 2007 ele vem participando de exposições e o ano passado foi um prolífico, com uma exibição individual no Centro Universitário Maria Antonia e com a aquisição de sete de suas obras pelo Museu de Arte Contemporânea da USP. Nascido em Americana, residente em São Paulo, Júnior Suci, de 27 anos, é formado pela Unesp.
O artista conta que cria seus desenhos, que não são "obsessivos", a partir de performances diárias, de "gestos intimistas das pessoas". O próprio Júnior os encarna, os desenha em sequencias. Para citar alguns exemplos, a série Testei Minha Paciência, de 2012, mescla traços em preto e em vermelho de passagens banais, como colocar linha em uma agulha. Já em Película: Me Livrei da Ilusão, o artista o representa se beliscando para acreditar em alguma coisa.
agosto 8, 2012
Nova York em chamas por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Nova York em chamas
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 8 de agosto de 2012.
Em agosto de 1964, Andy Warhol, artista morto aos 58, em 1987, plantou uma câmera Auricon numa janela do Rockefeller Center em Nova York com vista para o edifício Empire State. Gravou durante oito horas e emendou os rolos de filme na ordem exata de sua exposição.
Nesse marasmo em que a imagem em movimento mais parece congelada, estava fundido um ícone a outro -Warhol e a cidade onde fez fama e fortuna, o epicentro global das artes visuais na virada dos anos 60 para os anos 70.
Sai nesta semana pela Cosac Naify um livro em que Arthur Danto, um dos maiores especialistas na obra do artista pop, explica por que Warhol virou o mito que virou.
Na esteira do lançamento, surge também "City Boy", autobiografia do escritor Edmund White, que faz uma radiografia artística e sexual da Nova York da mesma época.
Um terceiro volume, lançado nos Estados Unidos, conta em detalhes o levante de artistas que transformaram o SoHo pós-industrial, esvaziado e decadente, em usina potente de criação artística.
Juntos, os três títulos mostram como Nova York informou e definiu a produção de artistas que ajudaram a construir a arte contemporânea da segunda metade do século 20, com reverberações que se estendem aos tempos atuais.
Nascido em Pittsburgh, Warhol sabia que, para entrar para o jet set, precisava estar em Manhattan no momento em que a cidade virou ímã das mentes mais brilhantes do Ocidente e também de vastas fortunas que aportavam na ilha para financiar tempos de excessos nas festas, na arte, nas drogas e no sexo.
Mas Warhol, maior nome da arte pop, sabia que se houvesse uma revolução visual ela partiria não da abstração nervosa dos expressionistas então em voga, como Jackson Pollock, mas da simplicidade e aparente inocência de latas de sopa e caixas de sabão.
"Até Warhol, as pinturas americanas falavam de beleza: jardins, jovens meninas e afins", diz Danto, em entrevista à Folha. "Mas Andy tem um realismo que o torna maior do que todos. Não está no estilo, mas no assunto."
"Warhol andava em busca da essência das coisas", escreve o autor. "Ele tinha ampliado o conceito de artista para uma pessoa que não limita seu produto a um meio em particular. Isso não aconteceria com nenhum outro artista dos Estados Unidos."
"NY era um ferro-velho com aspirações artísticas"
Enquanto Andy Warhol ascendia à fama, artistas migravam para o SoHo
Livros recém-lançados mostram evolução da vanguarda artística em Manhattan até a formação do mercado
Quando Andy Warhol já tinha pintado suas latas de sopa Campbell's e copiado as caixas de sabão Brillo, estava entre os loucos da Factory, o ateliê na rua 47 que um dia decidiram pintar de prata.
"Tinta prateada combinava com a cultura jovem dos seus frequentadores, com a música que dançavam, com o tipo de drogas que usavam, com sua promiscuidade ou ansiedade sexual", escreveu Arthur Danto em seu livro.
Warhol dizia que "a cor prata era o futuro -os astronautas vestiam roupas prateadas- e também era o passado-, a cor metálica das telas de cinema e as atrizes de Hollywood fotografadas em seus cenários prateados".
Quase uma década mais tarde e umas 40 quadras ao sul dali, outra cor, também metálica e menos brilhante, dominava o cenário que suplantaria o glamour fajuto das estripulias da Factory.
"Nova York nos anos 1970 era um depósito de ferro-velho com sérias aspirações artísticas", resume Edmund White em seu "City Boy". "Ninguém abaixo da rua 14 jamais usava gravata ou qualquer outra coisa além de camiseta rasgada, calças jeans sujas e uns tênis ou botas de caubói."
Nessa terra despojada, Gordon Matta-Clark, artista que morreu aos 35, em 1978, resistiu à ideia de arte no cubo branco das galerias, cenário então dominado pelos artistas pop como Warhol, e plantou uma cerejeira no porão de uma fábrica abandonada, o hoje mítico número 112 da rua Greene, no SoHo.
Sua árvore, mesmo no subsolo, floresceu em pleno inverno, símbolo de um movimento que nascia ali, uma escola pautada pela performance, a mistura de disciplinas artísticas e uma ocupação do sul de Manhattan por artistas que viam nas fábricas desativadas da região amplos ateliês com aluguéis baratos.
"Foi como uma tempestade", diz Jessamyn Fiore, enteada de Matta-Clark que narra em "112 Greene Street", recém-lançado nos Estados Unidos, a história do endereço que mudou a geografia plástica de Manhattan.
"Esses artistas queriam fazer obras políticas engajadas, que pensassem o estado da cidade, usando materiais descartados, peças cruas."
LASCÍVIA E VOYEURISMO
Mas, além da política, da cerejeira e de uma ilha que se redesenhava em termos imobiliários, a Nova York de Warhol e Matta-Clark era o terreno do auge dos direitos civis, das mulheres, dos negros e dos gays. Também era um cenário de protesto contra a guerra dos EUA no Vietnã.
Era um clima que favorecia a liberdade sexual. Warhol não escondia sua homossexualidade também por saber que as outras grandes estrelas da arte pop, como Jasper Johns, Cy Twombly e Robert Rauschenberg, jogavam nesse mesmo time.
"Essa foi a era dourada da promiscuidade, o período antes da Aids em que as pessoas não tinham medo de transar", lembra White. "Foi a época da emancipação e de um florescimento da arte."
Danto enxerga com clareza essa liberdade sexual na obra de Warhol. "Andy também tinha um lado lascivo, certo voyeurismo tolo", escreve o autor. "É um desejo de ver e tirar fotografias do pênis, dos peitos dos outros."
ARTE DO BUSINESS
Mais para o fim dos anos 1970, tanto Warhol quanto os revolucionários do SoHo começaram a entrar de vez para o mercado da arte como ele se estrutura hoje, e esse furor da Factory e da rua Greene foi dissipando até arte virar o que Warhol, sucinto, classificou como "business art".
Encerrado seu ciclo de vanguarda, Warhol termina pintando cifrões de dólares, que, ironia ou não, foram um fracasso de vendas. (silas martí)
ANDY WARHOL
AUTOR Arthur C. Danto
TRADUÇÃO Vera Pereira
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 49 (224 págs.)
CITY BOY
AUTOR Edmund White
TRADUÇÃO José Rubens Siqueira
EDITORA Benvirá
QUANTO R$ 34,90 (336 págs.)
112 GREENE STREET
AUTOR Jessamyn Fiore
EDITORA DAP-Distributed Art
QUANTO R$ 142,10 (192 págs.)
agosto 7, 2012
Funarte: R$ 161 milhões para as artes, O Globo
Funarte: R$ 161 milhões para as artes
Matéria originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 3 de agosto de 2012.
Verba, a maior na história da instituição, será destinada a ações até 2013
RIO - Acompanhado da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Antonio Grassi, anunciou anteontem, no Palácio Gustavo Capanema, o Programa de Fomento às Artes da instituição. Com orçamento de R$ 161,7 milhões, o maior na história da Funarte, 60% acima do de 2011, o programa contempla diversas áreas com prêmios e bolsas para criação e residência artística, cursos de capacitação técnica, além de ações internacionais como o Ano do Brasil em Portugal e o Ano de Portugal no Brasil, que começa no dia 7 de setembro e termina em 10 de junho de 2013. A agenda internacional inclui a Mostra Personagens e Fronteiras, o 30º Congresso Mundial de Educação Musical, a Bienal de Veneza e a Bienal de Havana, entre outros eventos escalados para acontecer até o ano que vem.
O circo, o teatro e a dança receberão um montante de R$ 43,6 milhões. O valor será dividido em editais para os prêmios Myriam Muniz (de teatro), Klauss Vianna (de dança), Luso Brasileiro (de dramaturgia) e Artes na Rua, entre outros, além de festivais como o Mambembão, bienais, seminários e mostras. A área da música receberá R$ 18,8 milhões em editais que contemplam o Centenário de Luiz Gonzaga, além dos prêmios de composição clássica, música brasileira e outros. As artes visuais receberão R$ 12,5 milhões, usados para os prêmios de Arte Contemporânea, voltado para ocupação de espaços, o Marcantonio Vilaça (de artes plásticas) e o Marc Ferrez (de fotografia).
Além desses valores, R$ 33,8 milhões serão endereçados a programas que mesclam outras atividades artísticas, como o Prêmio de Criação Literária, projetos de residência em Pontos de Cultura, assim como editais de apoio a festivais de outra áreas. A Funarte destinará ainda R$ 43,4 milhões para projetos de restauro e reequipamento de espaços culturais como o Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, e o Centro Cultural Aldeia de Arcozelo, no município de Paty do Alferes, no estado do Rio.
Prorrogado prazo para indicação dos membros da CNIC por Carolina Borralho, site do MINC
Prorrogado prazo para indicação dos membros da CNIC
Texto de Carolina Borralho originalmente publicada no site do MINC em 3 de agosto de 2012.
Inscrições foram prorrogadas até o dia 10 de setembro
O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic), prorrogou até o dia 10 de setembro o prazo de indicação dos membros que comporão a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) para o biênio 2013/2014. O Edital de alteração foi publicado ontem no Diário Oficial da União.
A CNIC é um órgão colegiado de assessoramento integrante da estrutura do Ministério da Cultura, tendo, entre outras funções, a de subsidiar as decisões do MinC na aprovação dos projetos culturais submetidos para captação de recursos via renúncia fiscal da Lei Rouanet.
O processo de habilitação está aberto desde o dia 10 de maio, com metodologia que contempla a representatividade das cinco regiões brasileiras no plenário da Comissão e com caráter democrático, plural e aberto à participação da sociedade, já que cada entidade habilitada indica representante de uma região.
Além da prorrogação do prazo de inscrições, o Edital de alteração flexibiliza o item 2.5.2, que torna alternativas as formas de comprovação de atuação nacional por parte das entidades culturais.
O envio das documentações também foi flexibilizado. Podem participar do processo as entidades de caráter associativo de âmbito nacional representativas de setor cultural, artístico ou do empresariado nacional, devendo preencher o Formulário de Inscrição e encaminhar toda a documentação das seguintes formas:
1- Para o e-mail editalCNIC@cultura.gov.br;
2 – Diretamente para a Caixa Postal nº 8591, CEP: 70.312-970 – BRASÍLIA-DF, aos cuidados da “Comissão Avaliadora do Edital para habilitação de entidades para indicação de membros da CNIC”;
3 – No Protocolo da sede do MinC, na Esplanada dos Ministérios, Bloco B – térreo – Brasília-DF, aos cuidados da “Comissão Avaliadora do Edital para habilitação de entidades para indicação de membros da CNIC”.
Os que encaminharem as documentações eletronicamente, caso sejam habilitados, deverão enviar os originais para a caixa postal supracitada, conforme estabelecido no Edital.
Os demais itens do processo permanecem inalterados, e os documentos já enviados continuam valendo.
Preenchimento de vagas
O processo seletivo visa ao preenchimento de 21 vagas (7 titulares e 14 suplentes) para representantes de entidades associativas de setores culturais e artísticos e das representativas do empresariado, sendo composto de duas etapas: uma fase inicial de habilitação das entidades e uma fase final de indicação dos representantes das entidades, para decisão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda.
A Comissão Avaliadora é composta por gestores do Ministério da Cultura e suas vinculadas: Fundação Nacional de Artes (Funarte), Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), Fundação Cultural Palmares (FCP), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Agência Nacional do Cinema (Ancine) e Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
A avaliação das inscrições é realizada mediante a análise dos documentos apresentados, de forma a averiguar se a documentação comprova a idoneidade na representação e se a atuação na área cultural se dá predominantemente em âmbito nacional.
A divulgação da lista das entidades habilitadas para o processo de indicação acontecerá por meio do sítio do Ministério da Cultura e publicação no Diário Oficial da União.
Mais Informações: (61) 2024-2137 – editalCNIC@cultura.gov.br
Érika Freddi, Coordenadora Administrativa da CNIC, Sefic/MinC
(Texto: Caroline Borralho, Sefic/MinC)
Marchand Larry Gagosian trará as maiores estrelas de sua galeria à ArtRio por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Marchand Larry Gagosian trará as maiores estrelas de sua galeria à ArtRio
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 3 de agosto de 2012.
Quando Larry Gagosian, 67, se mudou de Los Angeles para Nova York no fim dos anos 1970, abriu sua primeira galeria de frente para a Leo Castelli, casa que havia descoberto nomes como Roy Lichtenstein, Jasper Johns e, mais tarde, Andy Warhol.
Hoje, Gagosian --que começou com uma loja de pôsteres na Califórnia-- tem três galerias em Manhattan e outras nove ao redor do mundo, de Londres a Hong Kong.
No elenco, além de Lichtenstein, Johns e Warhol, Gagosian passou a vender Joseph Beuys, Pablo Picasso e estrelas da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons, Takashi Murakami, Cindy Sherman, Richard Serra e todo e qualquer artista com cifras que passam da casa dos milhões de dólares.
É ele quem alavanca as obras a tamanhos valores.
No mercado da arte, Gagosian é o homem mais poderoso do mundo, capaz de elevar preços a patamares inimagináveis. Também foi ele quem produziu exposições em galeria como as dos grandes museus --custe o que custar.
Desde que a Europa e Estados Unidos vêm desmoronando com a crise que se arrasta há quatro anos, Gagosian tem buscado outras frentes de negócios, primeiro com um espaço em Hong Kong e, agora, com sua visita ao Brasil.
Sua galeria terá presença massiva na próxima ArtRio, feira que acontece em setembro na capital fluminense.
Será um teste de mercado para o marchand avaliar se abrirá um espaço no país.
Um primeiro passo desse movimento foi a mostra de concretos e neoconcretos que a filial de Paris da galeria fez há um ano.
"Mesmo que estejamos num momento econômico ruim, há tremendas concentrações de dinheiro em outras partes do mundo", diz Gagosian em entrevista exclusiva à Folha.
"A América Latina se tornou um mercado importante, em que o Brasil lidera."
Para a ArtRio, Gagosian aposta nas obras de Alexander Calder, Lucio Fontana, Jeff Koons, Takashi Murakami, Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein e Andy Warhol, alguns dos artistas que levará a seus dois espaços na ArtRio.
"É mais fácil vender uma pintura de US$ 50 milhões do que uma de US$ 500 mil", diz.
"Tem tanta competição pelas obras-primas no mercado que pessoas com muito dinheiro se sentem mais seguras se estão comprando algo muito caro. Elas sabem que arte nunca perde o valor. Elas acreditam em arte."
Leia a entrevista de Gagosian à Folha:
*
Folha - Mesmo com a crise econômica, vendas de arte vêm batendo recordes. Como explicar o mercado hoje?
Larry Gagosian - Com ou sem crise, há tremendas concentrações de dinheiro nas mãos de poucas pessoas, e elas querem fazer algo com esse dinheiro. Colecionar arte se tornou algo em que as pessoas acreditam. Elas acreditam em arte e no valor da arte. Sabem que arte com importância histórica, boa arte, nunca perde o seu valor.
Colecionadores se tornaram mais importantes do que os museus na legitimação da obra de um artista?
Todo o ritmo hoje é ditado pelos colecionadores. Se você quiser vender algo para um museu, é preciso ficar quieto, porque um colecionador pode entrar na galeria e fazer um cheque a qualquer momento. Eles é quem ditam o ritmo do mercado, e isso é algo recente. Também o volume de dinheiro que eles gastam não tem precedentes.
Essas pessoas têm tanto dinheiro que eles não só podem comprar qualquer obra como também podem construir um prédio incrível para abrigar essa coleção e conseguir recursos para financiar esse novo museu para sempre.
Feiras de arte se multiplicam pelo mundo. Estar em todas elas é importante para sobreviver no mercado global?
Esse é o motivo pelo qual estamos fazendo essa feira [ArtRio] no Brasil, porque é difícil entrar em mercados emergentes. Percebi isso lá atrás, quando comecei em Los Angeles, mas todos os colecionadores estavam em Nova York. Hoje nem Nova York concentra todos eles, as pessoas já não vão lá como iam no passado. Os Estados Unidos ainda são o maior mercado de arte, mas você sai perdendo se não tenta atingir museus e colecionadores em outros mercados.
A geografia do mercado de arte mudou? De onde vem a maior parte do dinheiro hoje?
Eu diria que o dinheiro está na Ásia. China, Coreia e até o Japão são mercados substanciais. Na Rússia, o colecionismo sofreu com a queda no preço do petróleo e a crise.
A América Latina está se tornando cada vez mais importante. O Brasil parece liderar isso pelas feiras que tem, e o México também se inseriu no mercado internacional. Isso tudo é muito recente.
Qual é sua estratégia na representação de um artista? Como escolhe os nomes que entram para o elenco da Gagosian?
Não sei se tenho uma estratégia, acho que sou mais instintivo. Também, se tivesse uma estratégia, não contaria para ninguém qual é. Não há segredo, é só fazer exposições de artistas importantes de um jeito sério. Nem sempre isso rende bons resultados financeiros, mas torna o meu trabalho mais interessante.
Nome forte da arte inglesa chega ao país por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Nome forte da arte inglesa chega ao país
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 7 de agosto de 2012.
Isaac Julien abre mostra com quatro instalações no Sesc Pompeia, em SP, como parte de evento paralelo à Bienal
"Geopoéticas" também vai abrigar 11 filmes realizados entre 1984 e 2008, com estética underground e "queer"
Em 1995, o então cineasta britânico Isaac Julien, entrou na galeria Gagosian, de Nova York, que apresentava uma instalação em vídeo de Douglas Gordon, sem saber que aquilo mudaria os rumos de sua carreira.
"Eu tive um 'clique' e decidi que queria exibir em museus e fazer trabalhos fotográficos, pois o cinema estava muito restrito", diz Julien.
Em abril, ele visitou o Sesc Pompeia, em São Paulo, para conhecer o espaço que vai acolher "Geopoéticas", quatro instalações de sua produção na última década.
A mostra é organizada pelo Videobrasil, em parceria com o Sesc, como exposição paralela à 30ª Bienal de São Paulo, dando sequência à exposição de Joseph Beuys, realizada há dois anos.
Enquanto a mostra de Beuys abordava a criação artística de forma essencialmente política, com Julien, tal questão ganha outra dimensão.
"Ele possui uma forma única de construir uma narrativa no espaço a partir do acúmulo de sons e de imagens, primorosamente captados e editados, e de um uso cada vez mais complexo de projeções e telas", conta Solange Farkas, diretora do Videobrasil e curadora da mostra.
Além de quatro grandes instalações no Sesc Pompeia, "Geopoéticas" vai apresentar 11 filmes de Julien, realizados entre 1984 e 2008.
Eles serão exibidos pelo canal SescTV durante a exposição. Para cada filme, Julien gravou uma pequena introdução, na qual aborda as questões essencial das produções.
A migração para as artes visuais, no fim dos anos 1990, na verdade significou um retorno. Julien, 52, estudou arte na St. Martin's School, em Londres, com figuras como o pintor Peter Doig e o estilista John Galliano.
"Era um período de exploração de diferentes abordagens para a arte, havia uma forma interdisciplinar de pesquisa, diferente do que ocorre hoje", lembra o artista.
"Eu era interessado em pintura e em moda, e escolhi cinema porque ele reunia todos esses aspectos."
Seus primeiros filmes, como "Looking for Langston" (1989), estiveram inseridos na cena underground londrina dos anos 1980 e seguiam uma estética "queer", como o desejo de negros gays, como outros cineastas de sua geração.
Não por acaso, sua mais recente produção para cinema, "Derek" (2008), feito em colaboração com a atriz Tilda Swinton, faz homenagem ao cineasta "übergay" Derek Jarman (1942-1994). "Looking for Langston" e "Derek" serão exibidos pelo SescTV.
A fértil cena independente, contudo, não durou muito. "Acabou e antecedeu a chamada 'Jovem Arte Britânica', a partir de 1993", diz.
O novo grupo foi capitaneado por artistas como Damien Hirst e Tracey Emin, ainda hoje com forte repercussão, mas ganha de Julien a definição: "Crianças fashionistas, conectadas ao mercado de arte."
Exposição reúne obras autobiográficas
As imagens deslumbrantes das paisagens de desertos africanos ou de lagos em florestas chinesas que fazem parte das obras recentes de Isaac Julien, estão longe de ser meros cartões postais.
Tais locais costumam esconder tragédias, que se transformam na matéria central das produções do artista britânico. "Eu sempre estive interessado em alegorias políticas", diz Julien.
Em "Ten Thousand Waves", de 2010, ele parte da morte de 23 chineses em Morecambe Bay, na Inglaterra, em 2004, para tratar da cultura chinesa de forma complexa.
Esse tipo de procedimento é chamado por Julien, de "etnografia poética". "No fim", diz ele, "é um trabalho sobre mim mesmo, sobre a poética do viajar".
A mescla de suas origens -ele nasceu em Londres, em uma família caribenha com origens africanas- resultou em "Fantôme Créole", de 2005, e relaciona expedições coloniais ao continente africano. Suas origens estão ainda em "Paradise Omeros" (2002).
Finalmente, faz parte ainda da mostra "O Leopardo", de 2007, inspirado no filme homônimo de Luchino Visconti (1906-1976).
agosto 6, 2012
Jardins de Inhotim viram alvos de disputa judicial e denúncias na web por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Jardins de Inhotim viram alvos de disputa judicial e denúncias na web
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de agosto de 2012.
Para Justiça, projeto paisagístico é de autoria de Luiz Carlos Orsini; instituição recorreu
Sediado em MG, centro de arte contemporânea é acusado de coleta irregular de plantas; instituto nega crime
Os idílicos jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), tornaram-se tema de dois recentes debates, um na Justiça e outro virtual.
Em 24 de outubro do ano passado, a juíza Claudia de Lima Menge, da 20ª Vara Cível de São Paulo, condenou o centro de cultura contemporânea mineiro a inserir, em qualquer material de divulgação da instituição, o nome de Luiz Carlos Brasil Orsini como autor de 250 mil m² de seu projeto paisagístico.
A Justiça estipulou ainda o pagamento de R$ 50 mil por danos morais, pelo tempo que Orsini não foi devidamente creditado.
O caso foi revelado pelo jornal "O Estado de S. Paulo" na semana passada. O Instituto Inhotim, que credita parte do projeto paisagístico a Roberto Burle Marx (1909-1994), recorreu da decisão.
"O Orsini entrou com a ação porque, além da autoria dele não ser pública, ele sempre precisou se justificar porque as pessoas achavam que ele estava mentindo", diz José Mauro Decoussau Machado, advogado do paisagista.
Segundo ele, a ação se baseia no pressuposto de que "uma obra paisagística é tratada pela lei de direitos autorais com as mesmas prerrogativas de uma obra de arte, e Orsini dedicou quatro anos de sua vida, entre 2000 e 2004, a Inhotim".
No processo movido pelo advogado, consta uma carta de Bernardo Paz, o colecionador e criador de Inhotim, segunda a qual "três especialistas" criaram os jardins de Inhotim: Orsini, com 90% do paisagismo, Roberto Burle Marx, com 4%, e Pedro Nehring Cesar, com 6%. Esse último é conhecido por ter sido um dos autores dos polêmicos jardins da Casa da Dinda, pivô dos escândalos do governo Collor (1990-1992).
BURLE MARX
Inhotim sempre associou seus jardins ao nome de Burle Marx, mesmo que como inspiração. Ele conheceu o local nos anos 1980 e teria dado orientações a Paz.
Parte do material de divulgação, no entanto, era menos discreto. "O parque tropical possui áreas criadas pelo famoso paisagista Roberto Burle Marx", diz um folheto da instituição, distribuído no local há dois anos.
"A edição que você teve acesso [citada acima] foi recolhida dois dias depois da sua distribuição e substituída por outra corrigida", diz Ronald Sclavi, diretor de comunicação de Inhotim.
Em oposição à ação de Orsini, a instituição argumenta ainda que, desde 2010, Inhotim se configurou como um jardim botânico. "Como tal, dificilmente temos condição de creditar o paisagismo a quem quer que seja, tal o dinamismo de plantio de espécies da flora", diz Sclavi.
COLETA SUSPEITA
Já o debate virtual sobre o jardins de Inhotim surgiu a partir de um e-mail que circulou em junho passado.
Enviada por Eduardo Gomes Gonçalves, professor do departamento de Botânica, da Universidade Federal de Minas Gerais, a mensagem afirma que "Bernardo Paz (o proprietário) costumava comprar plantas retiradas da natureza sem autorização, em grandes quantidades".
Gonçalves afirma ainda que palmeiras de Inhotim foram coletadas ilegalmente em Áreas de Proteção Permanente (APP). Ele trabalhou em Inhotim de 2009 até recentemente. No e-mail, diz ter se calado por "questões contratuais" e descoberto "recentemente com advogados" que não precisa se "calar".
No dia 6 de julho passado, Inhotim emitiu uma nota de esclarecimento em seu site na qual contesta as suspeitas levantadas por Gonçalves.
"Todas as coletas realizadas pelo Inhotim foram feitas a partir de licenças ambientais concedidas pelo Ministério do Meio Ambiente", afirma a nota da instituição.
Ainda segundo o comunicado, "as denúncias contidas no e-mail calunioso replicado foram investigadas por autoridades ambientais que atestaram a legalidade das nossas ações".
Criado em 2005 por Bernardo Paz, o centro de arte contemporânea Inhotim bateu recorde de público no mês passado. Foram 46.792 visitantes, um aumento de 48% em relação à julho de 2011.
Bienal terá brancura íntima de Absalon por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Bienal terá brancura íntima de Absalon
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 5 de agosto de 2012.
Com 'manifesto da solidão', ex-soldado israelense radicado em Paris é um dos nomes centrais da próxima edição
Obra de artista que morreu anônimo aos 28 anos mistura ações performáticas, vídeo, arquitetura e escultura
Quando Absalon chegou a Paris e foi morar na rue du Temple em 1987, a primeira coisa que fez foi pintar tudo de branco -chão, teto e paredes-, como se expurgasse qualquer traço do passado.
Na capital francesa, Absalon matou sua identidade antiga. Eshel Meir, soldado israelense que desertou alegando loucura, virou Absalon, artista que teve ascensão meteórica na cena parisiense até sua morte por complicações decorrentes do vírus da Aids em 1993, aos 28 anos.
Numa brevíssima carreira, Absalon -nome que adotou em homenagem ao filho rebelde do rei Davi, que foi à guerra contra o próprio pai- criou um repertório de formas que estarreceu os críticos.
Era uma mistura de arquitetura moderna com escultura minimalista e performance, o embate visceral do corpo contra formas construídas, tudo sempre branco.
"Ele quis começar do zero em Paris", conta Susanne Pfeffer, pesquisadora da obra do artista que realizou uma aclamada retrospectiva dedicada a ele em Berlim. "Tudo se reduz a uma linguagem de formas geométricas, até que seu corpo começa a entrar nisso. Ele tinha muita energia, mas sua obra é mínima."
Tão mínima, branca e imaculada, que Absalon também ficou de fora do radar. É quase impossível encontrar registros de suas ações ou ver obras desse artista que desapareceu sem deixar herdeiros, longe de sua família em Israel, que mal acompanhou o que construiu em Paris.
REPARAÇÃO
Na próxima Bienal de São Paulo, em setembro, essa lacuna histórica será reparada em certo grau, com a vinda ao país de um amplo conjunto de suas obras. A maior parte delas passou pelo museu Boijmans Van Beuningen, em Roterdã, onde a reportagem visitou a mostra.
No conjunto estarão três de suas chamadas células, habitações que ele construiu para uma única pessoa, destinadas a um lugar no centro de metrópoles como Nova York, Paris ou Frankfurt. São espaços autossuficientes, inspirados no vocabulário modernista de Le Corbusier.
"Essas obras realizadas no final do século 20 também falam do fim das ilusões modernas, do fim das utopias românticas", analisa Luis Pérez-Oramas, curador da Bienal. "Elas abordam a intimidade existencial do homem moderno, são um manifesto potente da solidão, de defesa ante um mundo que perdeu a noção de privacidade."
No pavilhão da Bienal, desenhado por Oscar Niemeyer, sua obra de curvas e ângulos modernos terá outra leitura, um embate direto com o país de Lygia Clark e Hélio Oiticica, artistas que também construíram ambientes penetráveis, obras imersivas como solução quase terapêutica.
"É como se esses recintos brancos fossem também espaço de luto", compara Pérez-Oramas. "São como os 'Abrigos Poéticos' de Lygia Clark, que podem ser habitados. Trazer Absalon ao Brasil é buscar outro campo de ressonância para sua obra."
INDIVIDUALIDADE
Mais do que instalações, suas células de habitação eram proposições para a vida solitária, um convite ao isolamento como antídoto à loucura da vida na cidade.
"Ele está interessado em sobreviver como indivíduo na sociedade, como manter a individualidade", diz Pfeffer.
Mas Absalon também entende a angústia dessa solidão. Outra vertente de sua obra parece ser uma resposta do corpo às construções que passou a vida arquitetando, como cenários que podem levar tanto à paz quanto à mais aguda insanidade.
Nos vídeos que fez, Absalon digladia com esses ambientes. Ele aparece gritando até perder a voz, de camisa branca contra um fundo branco, numa de suas performances mais conhecidas.
Ele também aparece lutando contra o vazio num vídeo que estará na Bienal, um exercício solitário de esforço físico e exaustão contra o nada. "A arquitetura vai virando corpo, e o corpo vai virando arquitetura", diz Pfeffer. "Esses trabalhos são brutais."
Da mesma forma que faz esculturas a partir das estratégias da arquitetura moderna, Absalon enxerga a vida dentro desses espaços como um elenco restrito de comportamentos, uma lista de atividades coagidas pelo espaço.
Esse repertório é explorado de cabo a rabo em "Solutions", vídeo que estará na Bienal em que o artista tenta executar sozinho todas as ações possíveis entre quatro paredes. Ele toma banho, fuma, dorme e se masturba. Faz tudo em silêncio, vestido de branco contra fundo branco.
Pivô por Marcos Augusto Gonçalves, Folha.com
Pivô
Coluna de Marcos Augusto Gonaçalves originalmente publicada na Folha.com em 6 de agosto de 2012.
Fui visitar a Bienal de Chernobyl. Fica sob um sinuoso cartão-postal de concreto, com 140 metros de extensão e 118 metros de altura, localizado no centro de São Paulo. É ali, numa área de 3.500 m², em três andares do embasamento do edifício Copan, que um grupo de pessoas entre 25 e 35 anos prepara-se para lançar o Pivô, espaço que pretende ser "uma plataforma de diálogos e experimentações artísticas".
A inauguração vai acontecer no dia 4 de setembro, paralelamente à abertura da 30ª Bienal de São Paulo, com uma exposição que reunirá de representantes da jovem guarda das artes a nomes conhecidos, como Carmela Gross. A galeria Mendes Wood, uma das modernas da cidade, vai ter um salão só para seus artistas. Por enquanto, o cenário é de quebradeira, entulho e obras.
"Por isso começamos a chamar de Bienal de Chernobyl", brinca a artista Fernanda Brenner, 26, idealizadora do projeto, que ela por ora administra com três amigos e o apoio de contadores e advogados.
Em outros tempos, o espaço abrigava uma clínica dentária para funcionários do Bradesco. Depois foi leiloado e permaneceu quase vinte anos fechado, tempo em que o proprietário, sem sucesso, fez algumas tentativas de vendê-lo. Fernanda prefere não entrar em detalhes sobre nomes e relações.
"O que interessa é que fizemos um contrato de comodato e vamos criar um lugar novo no centro da cidade, um espaço cultural múltiplo e aberto", diz ela, enquanto um dos rapazes da diretoria cruza o pavimento em cima de um skate.
"O banheiro fica longe da sala onde funciona o escritório, então compramos esse skate, pra quem quiser ir mais rápido", explica.
A ideia de criar o Pivô formou-se depois de uma primeira ocupação da área, no ano passado, com uma intervenção coletiva chamada "Projeto Imóvel", que reuniu 28 jovens artistas, sem representação em galerias, além de workshops e palestras. Deu mais que certo. Bombou.
No dia da inauguração muita gente não conseguiu entrar, e a festa nas adjacências do Copan foi animada até tarde.
Dia 4 de setembro também será noite de festa, depois da abertura da exposição, que vai se chamar "Da Próxima Vez Eu Fazia Tudo Diferente" e exibir trabalhos de 14 artistas.
Para o curador, o arquiteto Diego Matos, a ideia é "estabelecer atritos na confluência entre arte e arquitetura", já que o evento acontece "num edifício de tamanha carga simbólica como o Copan", num espaço desativado e fantasmagórico, que parece suspenso no tempo.
Curiosamente, o projeto do Copan, que se tornaria um marco da triunfante locomotiva paulista, na década de 1960, nasceu em 1951, ano em que se inaugurava a primeira Bienal. Projetado por Oscar Niemeyer, com apoio de seu escritório em São Paulo, sob o comando do arquiteto Carlos Lemos, a encomenda original era um conjunto com dois prédios interligados, um de apartamentos e um hotel. Uma série de percalços levou o Bradesco a assumir a obra. O projeto sofreu modificações e Niemeyer nunca o assumiu por inteiro, embora reconheça que nasceu de suas mãos a linha curva do edifício, inaugurado em 1966.
Detonado pelo tempo, o Copan, depois de uma fase de decadência, revitaliza-se -e em breve deverá ter sua fachada restaurada. Ali já funciona há anos uma das melhores cozinhas de bar da cidade, o Dona Onça, e pessoas as mais diversas moram em seus 1.160 apartamentos -entre elas a atriz Mika Lins, o fotógrafo Rui Mendes e o diretor da Casa do Saber, Mario Vitor Santos. Agora é a vez da moçada do Pivô.
Caderno 3 Simpósio A arte e o pensamento na encruzilhada contemporânea por Iracema Sales
A arte e o pensamento na encruzilhada contemporânea
Matéria de Iracema Sales originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 6 de agosto de 2012.
Encontro internacional interdisciplinar acontece amanhã e quarta-feira, no Centro Cultural do BNB
Não é de hoje o flerte entre arte, ciência e tecnologia. No entanto, a partir das últimas décadas do século XX e início do XXI, a relação vem sendo cada vez mais próxima, sobretudo com a entrada em cena das novas tecnologias da informação. Do aperfeiçoamento da perspectiva no Renascimento até chegar à arte contemporânea, desenvolvida na sociedade da informação, muito caminho foi percorrido, além do mundo passar por diversas transformações. "Como essa arte contemporânea se relaciona com o mundo contemporâneo?", indaga Cesar Baio, artista, pesquisador e professor de Cinema e Audiovisual do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA/UFC). O questionamento vale, também, como convite para o simpósio internacional "A vida secreta dos objetos", que pretende discutir a mudança de paradigma que se propõe pensar a relação entre homem/ciência/vida contemporânea e arte.
O alemão Siegfried Zielinski, autor de "Arqueologia da Mídia": conferência no CCBNB
O evento, que reúne 20 convidados, entre teóricos da comunicação, filósofos, pensadores e artistas nacionais e internacionais, acontece amanhã e quarta-feira, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). Para mostrar as diversas formas possíveis de diálogo, o simpósio será aberto por uma "pré-conferência performática" - "Outras formas de dizer: performatividades e sonoridades", encenada por um grupo de artistas cearenses, às 16 horas.
Em seguida, o teórico da comunicação norte-americano Richard Grusin profere conferência, às 17 horas. Na sequência, o teórico da comunicação Norval Baitello, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), participa de mesa juntamente com o pesquisador e performer Wellington Júnior (UFC). Encerrando o primeiro dia, o filósofo Graham Harman, da Universidade Americana do Cairo, fala sobre a nova epistemologia das ciências humanas.
Zielinski e Flusser
No segundo dia, Regina Silveira, uma das artistas visuais brasileiras mais conhecidas no cenário internacional faz a primeira conferência do simpósio, que será encerrado com a palestra de Siegfried Zielinski, teórico de mídia alemã, considerado o fundador da arqueologia da mídia. Em outras palavras, a teoria lança o desafio de como pensar os processos midiáticos contemporâneos com os utilizados nos primórdios das mídias, explica Cesar Baio. Antes, acontece a mesa "Vilém Flusser: materialidades emergentes da arte e tecnologia", sobre o filósofo theco que morou 30 anos no Brasil, produzindo até o fim dos anos 1980.
Interseção
Dentre as transformações que vem ocorrendo na atualidade, uma delas chama a atenção da comunidade científica mundo afora: a interseção entre as diversas áreas do conhecimento. Ou seja, como os saberes se inter-relacionam, mas sem perder de vista a arte. Trata-se de uma nova "epistemologia das ciências humanas", explica Cesar Baio, que coloca mais um ingrediente na discussão, como essas propostas artísticas se inserem no contexto do mundo contemporâneo no qual as novas tecnologias da comunicação também se encontram.
Conforme Baio, o projeto é realizado pelo Banco do Nordeste (BNB) com apoio da UFC e circula pelas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Fortaleza. Cada cidade enfocou uma área do conhecimento. No caso de Fortaleza, a arte vai servir para pontuar as discussões em torno dessa mudança de postura de pensar a ciência.
A proposta é discutir um outro caminho para se chegar ao conhecimento no campo das ciências humanas. "Essa nova epistemologia se desdobra na arte", explica Cesar Baio. O desafio maior é tentar construir uma narrativa a partir da junção de discursos produzidos por teóricos da comunicação, antropólogos e artistas. Daí, a palavra de ordem do evento, com duração de dois dias, ser discutir a construção de outras possibilidades de uma nova relação entre arte, ciência e sociedade.
Diferentemente da arte, que sempre manteve uma certa aproximação com outras áreas do saber, "a ciência compartimentava muito o conhecimento", esclarece Cesar Baio, chamando a atenção para essa "divisão" que, aos poucos, vem desaparecendo. Hoje, a interdisciplinaridade, sobretudo quando está em construção a sociedade do conhecimento, vem se tornando mais aceita, destravando as portas das ideias. Tanto nos laboratórios de pesquisa quanto na formulação do pensamento das ciências humanas é possível perceber essa aproximação. O fato demonstra que o "conhecimento não é estanque, sendo essa realidade mais evidente hoje".
A versão cearense do projeto "A vida secreta dos objetos" que foca sua temática na arte, em especial as visuais, é uma demonstração de que é possível um diálogo plural não apenas entre as áreas do conhecimento, mas também das instituições. O projeto é fruto de parceria com o curso de Cinema e Audiovisual e com a Comissão de Implementação do Mestrado em Artes da UFC e mais sete programas de pós-graduação em comunicação brasileiros.
A coordenadora do seminário, Jacqueline Medeiros, afirma que a realização do simpósio é uma maneira de colocar Fortaleza no circuito das discussões que acontecem em outras quatro cidades, além de considerar oportuno o tema. "A arte está no dia a dia das pessoas", revela, destacando a difusão das artes visuais. Outro ponto observado, a participação dos artistas nas discussões, assim podem falar de como se relacionam com o mundo através da arte.
O artista, professor do Ica e um dos organizadores do simpósio, Yuri Firmeza, destaca, ainda, a pluralidade de vozes, ao ressaltar que também participam pessoas que não estão vinculadas a nenhuma universidade. Além de artistas que não estão em instituições. Será um espaço para discutir "essa ideia de deslocamento epistemológico das ciências humanas e o nosso modo de estar no mundo". Fala das novas abordagens do artista com o mundo e sua relação com a ciência. "Como o artista pode se relacionar com essa realidade?", pergunta o artista, que questiona o seu lugar nesse contexto de mundo pautado por relações intermediadas pelas tecnologias.
