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agosto 2, 2012
Arquiteto consegue na Justiça crédito pelo paisagismo do Instituto Inhotim por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo
Arquiteto consegue na Justiça crédito pelo paisagismo do Instituto Inhotim
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 1 de agosto de 2012.
Segundo advogado, instituto omitia projeto de Luiz Carlos Orsini em benefício de Burle Marx, que apresentou sugestões aos jardins em 1984; museu recorreu da decisão
A juíza Claudia de Lima Menge, da 20ª Vara Cível de São Paulo, condenou o Instituto Inhotim, gestor do maior museu de arte contemporânea do País, em Minas Gerais, a dar o crédito de 250 mil m² de seu projeto paisagístico para o arquiteto Luiz Carlos Brasil Orsini, que tem escritórios em São Paulo e Belo Horizonte. Além disso, a juíza arbitrou uma indenização de R$ 50 mil pelo tempo em que esse crédito esteve ausente nas peças de divulgação do museu (uma multa de R$ 20 mil por menção do projeto sem o nome do arquiteto).
O advogado de Orsini, José Mauro Decossau Machado, disse que a ação se originou no fato de o Inhotim omitir o nome de Orsini em benefício do paisagista Roberto Burle Marx (1909- 1994). "Provavelmente o Inhotim adotou essa postura porque o nome de Burle Marx atrai mais atenção do público e da imprensa", afirmou.
A obra de paisagismo tem proteção legal como criação intelectual. O Instituto Inhotim recorreu da decisão ao Tribunal de Justiça de São Paulo e o julgamento do recurso ainda não tem data. Segundo a coordenadora de Imprensa de Inhotim, Isabela Marschner, o paisagismo de Inhotim tem uma "assinatura institucional", e por isso conta "com a colaboração de uma equipe composta por cerca de duas centenas de pessoas como curadores botânicos, biólogos, engenheiros agrônomos, paisagistas e jardineiros, sem falar ainda em trabalhadores que já deixaram a instituição e também contribuíram com essa obra, um feito coletivo e mutável (...)".
Segundo Isabela, com uma área de visitação de mais de 110 mil m², o centro de artes está em "constante transformação paisagística em função da expansão da entidade, inaugurações de galerias, obras externas e consequente ampliação da infraestrutura de visitação (alamedas, trilhas, caminhos)".
Tal paisagismo é elogiado internacionalmente. "Poucas instituições se dão ao luxo de devotar milhares de acres de jardins e montes e campos a nada além da arte, e instalar a arte ali para sempre", assinalou o New York Times.
A indenização de R$ 50 mil é simbólica. "Trata-se de uma indenização pela violação do direito do autor de ter o seu nome ligado à obra, o qual é garantido pela Lei de Direitos Autorais. Esse valor não se refere a todo prejuízo financeiro que o Orsini sofreu por conta da conduta do Inhotim, o que ainda poderá ser cobrado em ação própria", afirmou o advogado Machado.
O dono de Inhotim, o empresário Bernardo Paz, conta que foi amigo de Burle Marx, que visitou o local e o aconselhou sobre o paisagismo. O vínculo estava destacado no site do Inhotim, acessado pela juíza do caso. Ali, dizia-se o seguinte: "Em 1984, o local recebeu a visita do renomado paisagista Roberto Burle Marx, que apresentou algumas sugestões e colaborações para os jardins".
A juíza compreendeu que a botânica é um dos focos principais de atuação do centro de artes. A estratégia de composição desse acervo botânico teria então a participação de Burle Marx (8 mil m²), Pedro Nehring (12 mil m²) e Luiz Carlos Brasil Orsini e o próprio Bernardo Paz no restante. "Como poderia fazer apenas 20 mil m² , como o instituto alega, se fiquei lá de 2000 a 2004, quatro anos completos?", indagou Orsini. "Vejo que não só se tratou de simplesmente excluir a autoria do promovente, mas sim de atribuí-la a outrem, indevidamente", diz a sentença.
Segundo Robério Dias, ex-diretor do Sítio Burle Marx e maior especialista na obra do grande paisagista, não há conhecimento de projetos pelo País que usem indevidamente seu nome. "O que tenho mais visto é quase o contrário disso, isto é, jardins que foram realmente projetados por Burle Marx e que, praticamente, às vezes por esquecimento, são ‘desatribuídos’ a ele. Cada vez menos gente sabe que foi ele quem projetou. O Largo do Machado, o Açude da Solidão e a Orla da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro são bons exemplos disso".
Obras-primas impressionistas do Museu d'Orsay são expostas em SP por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Obras-primas impressionistas do Museu d'Orsay são expostas em SP
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de agosto de 2012.
Telas de Renoir, Monet, Cézanne, Van Gogh e Manet integram conjunto que chega ao CCBB
Mostra começa no sábado, com clássicos como 'Le Fifre', de Manet, e 'La Gare Saint-Lazare', de Monet
Nas décadas que vieram depois da invenção da fotografia em 1840, artistas libertaram a pintura do peso do real e fizeram da Paris da virada para o século 20 o centro do mundo da arte com um movimento de vanguarda que fundou o olhar moderno.
Impressionistas, que pintavam a partir de sensações do contato direto com a paisagem, sem se preocuparem com a fidelidade à retina, enquadraram o mundo em cores vibrantes e contornos fugidios -o movimento da vida moderna capturado nas duas dimensões da pintura.
Mestres dessa escola, como Pierre-Auguste Renoir, Claude Monet e Vincent van Gogh, serão todos reunidos agora na maior mostra do movimento já realizada no país.
São obras-primas do Museu d'Orsay, em Paris, que chegam neste sábado ao Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, espaço que teve um andar inteiro esvaziado para receber a exposição.
"Esse foi o primeiro momento em que a França teve uma arte de vanguarda", resume Guy Cogeval, diretor do Museu d'Orsay, em entrevista à Folha. "Agora que o mundo enxerga o Brasil como superpotência também na cultura, é hora de essas peças chegarem a uma cidade global como São Paulo."
Obras atmosféricas, pintadas sob a luz solar ou céus estrelados, essas peças escandalizaram uma Paris ainda viciada nos fru-frus dos românticos e na crueza do realismo de artistas como Gustave Courbet, que tentaram retratar a vida como ela era.
Mas Monet, Renoir, Cézanne e a trupe impressionista estavam mais interessados na vida como ela era sentida.
Uma das peças mais importantes da coleção do d'Orsay e obra central da mostra, "La Gare Saint-Lazare", vista da estação ferroviária de Paris que Monet fez em 1877, resumia a velocidade e o espírito industrial da época em locomotivas que se perdiam em nuvens de fumaça violeta.
Noutra vertente do movimento, Edouard Manet, que causara escândalo com sua Olympia e "O Almoço na Relva", foi recusado no Salão de Paris em 1866 com o singelo retrato de um garoto em uniforme militar tocando pífaro, uma espécie de flauta.
Jurados do salão consideraram o quadro "vulgar" e "ridículo", embora estivessem ali os primeiros acenos ao japonismo que informou os impressionistas, figuras arquetípicas contra planos de cor sólida e uma verticalidade fluida, além de uma luminosidade ampla e expressiva.
"É um menino anônimo, num quadro sem qualquer traço decorativo, muito moderno", diz Cogeval, que assina a curadoria com Caroline Mathieu. "Ele foi o ponto de partida de questões-chave do movimento."
Mais impressionista de todos eles, Monet tem na mostra, além da estação de trem, também uma das vistas de seu famoso jardim japonês, de plantas que quase afogam um lago sob uma ponte.
Renoir, outro nome potente do impressionismo, faz de sua representação da pele dos personagens quase um manifesto da escola. São colorações entre o branco e o rosado, figuras que parecem feitas de luz, a sensação de movimento fugaz em cada rosto ou expressão em cena.
EMBRIÃO DA VANGUARDA
Mas a mostra não fica presa ao apogeu do movimento e destaca também a transição dos primórdios do impressionismo para obras que serviram de embrião para as vanguardas que chacoalharam Paris no início do século 20.
Van Gogh e Paul Gauguin, que conviveram em Arles, no Sul da França, deram feições mais rudes aos traços e transformaram seus personagens em quase caricaturas, sem medo de subverter o retrato.
Paul Cézanne fez a ponte das impressões fugidias de Renoir e Monet para a geometria das figuras do cubismo de Pablo Picasso. Estão na mostra seu autorretrato contra fundo rosa, uma das obras mais célebres do artista, além de paisagens e naturezas-mortas que já demonstram como ele decupou o que via em cubos, esferas e cilindros.
julho 31, 2012
Bispo do Rosário lidera time de brasileiros em Londres por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Bispo do Rosário lidera time de brasileiros em Londres
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 30 de julho de 2012.
Quando Arthur Bispo do Rosário foi internado na colônia Juliano Moreira em 1938, ganhou o apelido de Xerife e foi encaminhado à ala dos pacientes mais violentos do hospital psiquiátrico. Isso porque antes de seu diagnóstico de esquizofrenia, o artista fora campeão de boxe.
Esse lado esportista de Bispo do Rosário, artista que morreu em 1989 no manicômio no Rio, onde fez quase toda sua obra, será visto agora em Londres no Victoria & Albert, museu conhecido pelo acervo de design e arte têxtil.
Nos últimos anos, Bispo do Rosário vem perdendo a aura mística de louco e sendo reconhecido cada vez mais como artista singular do século 20, autor de uma poética do improviso que serviu de base para sua obra coerente.
"Temos de parar com essa tese de loucura, que diminui a obra dele", diz Wilson Lázaro, curador da mostra que começa em 13 de agosto. "Ele era um negro, nordestino, não poderia fazer essa obra em outro lugar, então usou a instituição como um ateliê."
No museu londrino, estarão roupas de esportista que ele costurou adaptando o uniforme do hospital, faixas de miss que inventou para hipotéticas mulheres, miniaturas de barcos a vela e outras peças de um conjunto que soma 83 trabalhos do artista.
Nome central da próxima Bienal de São Paulo, onde terá mais de 300 obras em exibição, Bispo do Rosário encabeça agora durante as Olimpíadas em Londres um time do primeiro escalão de artistas contemporâneos do país.
ESTÉTICA DA GAMBIARRA
Suas peças forjadas da transformação de materiais precários, aliás, tem proximidade com uma das discussões centrais da mostra na Somerset House, em Londres, com nomes como Regina Silveira, Nelson Leirner, Adriana Varejão e Laura Lima.
Contrastando a noção britânica de "craftsmanship" e a gambiarra dos brasileiros, Rafael Cardoso, curador da mostra, tenta desfazer estereótipos sobre a arte do país.
"Não estou tentando promover nenhuma 'estética da gambiarra' e muito menos uma visão 'macunaímica' da arte brasileira", diz Cardoso. "Acho necessário confrontar essas questões para tentar entender melhor as tensões profundas da nossa cultura."
Nesse sentido, a obra de Laura Lima que vai a Londres é uma síntese potente desse discurso. Ela transforma cadeiras clássicas do mobiliário moderno, peças de Charles Eames e Marcel Breuer, em cadeiras de roda, injetando um grau de fragilidade e improviso no que se propôs como desenhos utópicos.
Noutra ponta da mostra, obras de Adriana Varejão e Rodrigo Braga levam a reflexões sobre um Brasil entre o civilizado e o selvagem --um barroco redivivo, em Varejão, ou uma natureza avassaladora, como nas peças de Braga.
"Do Limiar à Margem: Arte e Design Brasileiros no Século 21" está em cartaz na Somerset House. Veja detalhes em somersethouse.org.uk.
Sérvia Marina Abramovic busca captação de R$ 15 milhões para abrir instituto por Audrey Furlaneto
Sérvia Marina Abramovic busca captação de R$ 15 milhões para abrir instituto
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Globo em 31 de julho de 2012.
Aos 65, principal nome da performance mundial vai dedicar um ano para buscar dinheiro
RIO - Marina Abramovic já desenhou no corpo, com uma navalha, a estrela-símbolo do comunismo. Penteou-se até ver sangrar o couro cabeludo, deitou-se numa esfera em chamas, passou 700 horas sentada no MoMA de Nova York olhando nos olhos de 750 mil pessoas. Aos 65 anos, o principal nome da performance mundial parece ter experimentado tudo, testando os limites do corpo e desafiando o público de incontáveis formas. Mas, agora, ela se prepara para algo completamente novo, um projeto que diz ser o maior desafio de sua vida: conseguir US$ 15 milhões em um ano.
— Levantar esse dinheiro é definitivamente um projeto artístico. Nunca fiz algo parecido. Não é o tipo de coisa que artistas fazem, mas é parte do meu sonho criar um legado, e não tenho escolha. Não sei como as pessoas fazem isso, não sou uma mulher de negócios, mas quero ver se, como artista, posso fazê-lo — diz a sérvia ao GLOBO, por telefone, de Amsterdã, onde descansava na última semana à espera do visto para os Estados Unidos (ela é cidadã holandesa, e seu escritório fica em Nova York).
A empreitada para levantar os US$ 15 milhões tem como objetivo erguer o Marina Abramovic Institute for the Preservation of Performance Art, em Hudson, a duas horas de Manhattan. A ideia é que o espaço, projetado pelo escritório do arquiteto Rem Koolhaas, abra em 2014. Para realizar o feito, ela fez uma lista de objetivos.
— Vou cumpri-los como um soldado, um a um. Não me importo com o tempo que vai levar. Para mim, é processo de criação. Vou a um lugar a que nunca fui antes: negócios, dinheiro. Não sei o que isso significa! Não sei sequer o que são US$ 15 milhões (risos). Mas a ideia de fazer algo que vai mudar a forma como a arte é recebida no mundo é muito estimulante — diz, para já emendar uma ressalva: — Não vou me sentar em jantares com pessoas ricas para pedir dinheiro. Não faço isso. Quero um jeito novo.
A artista já bloqueou a agenda de 2013 para dar conta da empreitada e abriu uma única exceção — para o Rio. Marina, que desde o início dos anos 1990 visita o Brasil frequentemente em busca de matérias-primas para suas obras, como cristais e pedras preciosas, diz que só vai interromper a busca pelos US$ 15 milhões para preparar um grande projeto que chegará ao Rio em 2014, em cinco endereços diferentes, ainda não definidos. Em outubro, virá à cidade para a estreia do documentário “The artist is present”, no Festival do Rio, e aproveitará para visitar alguns lugares.
Em maio, ela passou por aqui para encontrar o secretário municipal de Cultura, Emilio Kalil, e conhecer espaços, como o Imperator, no Méier, que poderiam abrigar seu projeto na cidade. Marina quer ensinar no Rio o “Método Abramovic” — segundo ela, “uma forma de obter um estado mental de completa clareza para desenvolver as próprias ideias” —, trazer a exposição homônima, que acaba de ser mostrada pela primeira vez, em Milão, na Itália, e apresentar trabalhos novos — além de montar por aqui a peça “Vida e morte de Marina Abramovic”, em que é dirigida por Robert Wilson ao lado do cantor Antony Hegarty (do Antony and The Johnsons).
— Já é hora de o Brasil ver essas obras que são mostradas no mundo todo, mas nunca aí. Vocês terão uma overdose de mim, aliás — diz, rindo.
Depois de outubro, Marina voltará ao Brasil em dezembro. Ficará dois meses pela Amazônia e por Alto Paraíso, em Goiás, para se encontrar com xamãs ou com “todas as possibilidades de aprender diferentes percepções do mundo”. Quer melhorar os “conhecimentos sobre energia”. Virá acompanhada de cinco pessoas, entre elas um fotógrafo e um diretor de cinema. O plano é criar um diário da viagem e talvez um filme. Quando for embora, em janeiro de 2013, voltará à busca pelos US$ 15 milhões. O principal desafio será fazer isso sem recorrer a patrocinadores milionários (“Pessoas que dão muito dinheiro querem algum retorno. E esse projeto não é sobre obter dinheiro ou fama, é sobre dar dinheiro até mesmo anonimamente porque você acredita nisso”, diz). A saída é seu público “extremamente jovem”.
— Tenho 70 mil pessoas no meu Facebook. Obama levantou o dinheiro para a campanha presidencial apenas com doações em seu site. Vamos ver qual é o poder desses jovens.
Para ela, “o sonho é fazer o que fez Andy Warhol com sua Factory” — “mas sem drogas”, avisa. Ela diz que passou incólume pelos anos 1970, quando criou performances emblemáticas (e arriscadas, como aquela em que se deitou sobre chamas), tudo sem drogas ou álcool.
— Realmente não gosto de drogas. Acho que é tão importante ter a mente limpa. Mas sabe? É tão fácil ser egoísta, ou seja, quem se importa? Eu me importo e realmente acredito que se pode ter uma consciência maior. Eu poderia apenas aproveitar meu sucesso, passar os dias viajando e tendo bons momentos. Mas não acho que isso seja bom. Todo o conhecimento e a experiência que tenho podem ser formalizados e ajudar outra geração a adquirir experiência.
Buscar milhões para o instituto é algo um tanto distante dela, que, nos primeiros trabalhos, fazia tudo sem dinheiro, com o então marido e artista Ullay (“Meu corpo era minha arte. Isso não custa muito”, brinca). Depois da retrospectiva no MoMA, em 2010, passou a vender mais e se animou a investir tudo no instituto.
— Gastei os US$ 170 mil que ganhei nessa prosperidade só para consertar o telhado (do prédio do instituto). Percebi que o projeto está além das minhas possibilidades.
Marina diz não se ressentir com o fato de a arte ter se aproximado tanto dos negócios (“A arte sempre foi ligada a negócios, não é algo novo”) e menos ainda que isso não tenha chegado de forma intensa à performance (“Ninguém tinha dinheiro, especialmente os performers, e isso não mudou muito”). Ela própria vive da arte apenas há 15 anos — foi professora durante 25 anos.
— Hoje, trabalho tanto para fazer da performance uma arte do mainstream que é natural que eu consiga viver disso. Mas também não é que eu viva exatamente de performance, porque vivo da venda das fotos, dos objetos. E ainda assim meus preços são tão mais baixos do que, por exemplo, jovens artistas que fazem pintura. Meu trabalho é 20 vezes mais barato — diz, dando uma longa gargalhada.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/servia-marina-abramovic-busca-captacao-de-15-milhoes-para-abrir-instituto-5634793#ixzz22DYNpvlp
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Bhering: dois decretos da prefeitura garantem presença de artistas no prédio, O Globo
Bhering: dois decretos da prefeitura garantem presença de artistas no prédio
Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 30 de julho de 2012.
Eduardo Paes assinou documentos determinando tombamento e desapropriação do espaço
RIO - Depois de se manifestar no Twitter em favor dos mais de 50 artistas que ocupam o prédio da antiga fábrica Bhering, no Santo Cristo, o prefeito Eduardo Paes assinou dois decretos nesta segunda-feira que garantirão a presença dos ateliês de arte no edifício.
Com os decretos — um de tombamento e outro de desapropriação —, que serão publicados no Diário Oficial nesta terça-feira, o prédio da Bhering passa a ser patrimônio histórico e cultural, além de agora pertencer à prefeitura. Os empresários que arremataram o espaço em leilão serão indenizados.
— Os artistas permanecem no prédio. Esse era o objetivo da prefeitura desde o início, com a recuperação do porto. Todo o trabalho é para ter mais gente naquela região, e ainda mais quando se trata de força criativa, como é o caso dos artistas — diz Washington Fajardo, secretário municipal do Patrimônio Público. — Seria um contrassenso tirar os artistas dali.
O prédio da Bhering havia sido leiloado e arrematado pela Syn-Brasil Empreendimentos Imobiliários em meados de 2011. Desde então, a dona do imóvel vinha tentando impugnar a venda, sem sucesso.
julho 30, 2012
Mostra de Caravaggio chega ao Masp por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Mostra de Caravaggio chega ao Masp
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 30 de julho de 2012.
O museu abre nesta quinta-feira ao público a maior exposição do pintor italiano no Brasil
Violência, drama, erotismo, genialidade, maestria na técnica do claro-escuro na pintura - Caravaggio “punha em cena a humanidade atormentada, envolvida pelas trevas, junto aos eventos salvadores por onde se libertava a luz”, como define a superintendente do Patrimônio Histórico do Polo de Museus de Roma, Rosella Vodret. Há sempre algo de teatral nas telas de um dos maiores pintores do século 17 - por meio de um estilo revolucionário, Caravaggio colocava as figuras de seus temas em primeiro plano, fazendo com que um fecho de luz “forte e direto” sobre a cena deixasse a composição com uma “realidade vital”.
Na última vez que o Brasil recebeu obras do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), em 1998, vieram ao Masp só duas telas do artista, Narciso e Os Trapaceiros. Agora, após mais de uma década, o País abriga novamente suas pinturas, com a mostra Caravaggio e Seus Seguidores, que o mesmo Masp inaugura na quarta-feira para convidados e na quinta-feira para o público. Foram dois anos de negociações para que a exposição pudesse reunir um conjunto expressivo de sete obras do pintor - entre elas, São Jerônimo Que Escreve (da Galeria Borghese de Roma), São Francisco em Meditação (do Palazzo Barberini da capital italiana) e Medusa Murtola (de colecionador privado).
Primeiramente, a exposição foi apresentada em Belo Horizonte, na Casa Fiat de Cultura, onde recebeu quase 90 mil visitantes. Quando inaugurada em Minas, em maio, abrigou seis pinturas de Caravaggio porque a sétima obra do artista, São João Batista Que Alimenta o Cordeiro, de coleção particular, chegou ao Brasil apenas em meados de julho para integrar-se à mostra. “Atravessamos muitas dificuldades”, diz o museólogo Fabio Magalhães, que assina a curadoria da exposição ao lado do italiano Giorgio Leone, do Patrimônio Histórico do Polo de Museus de Roma. Rosella Vodret, superintendente do órgão, foi fundamental também no projeto. “Na verdade, a seleção de obras de Caravaggio foi o que pudemos trazer ao Brasil”, conta Magalhães. Pelas leis de incentivo, foram utilizados R$ 5,5 milhões para realizar a exposição.
Apesar de a mostra ser considerada a primeira grande exibição de Caravaggio no País - em 1954, no 4.º Centenário de São Paulo, a cidade recebeu três pinturas do artista (Sacrifício de Isaac, Cena in Emmaus e Davi com Cabeça de Golias); e em 1998, Narciso e Os Trapaceiros -, há no conjunto duas obras que ainda são apenas atribuídas ao pintor: São Januário Degolado (1610), do Museu Diocesano de Palestrina, e cópia de São Francisco em Meditação (1606- 1618), de coleção particular de Malta. “As revisões de autoria são constantes na história da arte, ainda mais agora, com as possibilidades novas para pesquisa como o uso de raio X e de infravermelhos”, afirma Magalhães.
Nesse sentido, a exposição abriga duas peças recentemente creditadas a Caravaggio, Medusa Murtola (1597), atribuída ao artista no ano passado, em Milão, e agora considerada a primeira versão da famosa obra do pintor, criada sobre um escudo de madeira, e Retrato do Cardeal (1599- 1600), da Galleria degli Uffizi, de Florença. “Há apenas cerca de 70 Caravaggios no mundo”, diz Magalhães. O Masp não possui em seu acervo nenhuma obra de Caravaggio.
De todas as telas reunidas na exposição, São Jerônimo Que Escreve (1605-06) é a que mais encarna as características de Caravaggio. “Representa drama muito tenso, com poucos elementos, naturalismo, jogo de luz sobre o personagem com a caveira e o texto”, analisa Magalhães. “Faltou na exposição o erotismo de Caravaggio, mas há um pouco de carnalidade no dorso nu do santo e seu tema de recondução da morte, como na representação do São João Batista jovem”, continua o curador. Já o “caráter mais violento” da obra do pintor é identificado na Medusa mitológica, representada sobre o elmo em que se viu prestes a ser degolada (há a teoria de que seja autorretrato do artista). “Caravaggio era indignado com o poder. Para ele, não importa que o vitimado seja vilão, herói ou santo”, define Magalhães sobre o pintor de temperamento explosivo, que tem em sua biografia um homicídio, cometido em 1606 (até a sua morte, em Porto Ercole, o artista fugiu de sua condenação à morte).
Como diz seu título, a mostra Caravaggio e Seus Seguidores ainda exibe 15 pinturas realizadas por artistas contemporâneos do pintor, de gerações distintas e de origens italiana, francesa, espanhola e flamenga. Temas e estilo de Caravaggio são reverenciados nesse segmento, que tem como destaque Madalena Desmaiada, de Artemisia Gentileschi, filha do pintor Orazio Gentileschi.
Sem acordo no prédio da Bhering, O Globo
Sem acordo no prédio da Bhering
Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 30 de julho de 2012.
Comprador do edifício ocupado por artistas diz que não vai negociar e exige desocupação
RIO - Não há chance de negociar. O empresário Marcelo Rodrigues, um dos sócios da Syn-Brasil Empreendimentos Imobiliários, que comprou em leilão o prédio da antiga fábrica Bhering, no Santo Cristo, disse ao GLOBO que não aceitará a permanência dos artistas no edifício, ocupado por mais de 50 ateliês e cerca de 20 empresas há 12 anos. Segundo ele, a intenção é criar ali um “centro cultural, com teatro, restaurante e cervejaria”. Sua família é dona de uma fábrica de cerveja em Teresópolis.
— A vocação do prédio é cultural. Vamos explorar uma parte comercialmente, com a cervejaria, e vamos dar espaço a artesãos. Mas eles serão selecionados por nós — afirma.
Atualmente, os artistas que mantêm ateliês no prédio e algumas das empresas lá instaladas organizam mostras, shows e lançamentos de livros. Todos terão 30 dias para deixar o prédio, por determinação da Justiça. O edifício, leiloado para sanar dívidas tributárias dos donos, acabou arrematado por R$ 3,2 milhões pela Syn-Brasil.
A Bhering tenta impugnar o leilão desde o ano passado, mas, segundo Rodrigues, não há mais possibilidade de recorrer da decisão judicial. A Bhering reclama que o valor da venda é abaixo do de mercado. O empresário se defende afirmando que não houve outra empresa interessada na compra, daí o valor abaixo do estimado (segundo a Bhering, de R$ 32 milhões).
De acordo com Rodrigues, quando a reforma for feita, artesãos serão aceitos, mas pagando aluguéis reajustados para as “novas condições”. do prédio.
— Meu interesse é gerar dinheiro, sou um empresário — argumenta Rodrigues.
Justiça determina desocupação da Bhering por Audrey Furlaneto, O Globo
Justiça determina desocupação da Bhering
Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no jornal O Globo em 28 de julho de 2012.
Locatários de mais de 50 ateliês na antiga fábrica, artistas têm 30 dias para sair do prédio, leiloado por dívida com a União
RIO — Mais de 50 artistas que têm seus ateliês instalados na antiga fábrica de doces Bhering, no Santo Cristo, podem ser despejados do edifício em 30 dias. O prédio, que ficou conhecido como ponto de encontro e produção artística no Rio, foi levado a leilão e arrematado por R$ 3,2 milhões por uma incorporadora imobiliária, a Syn-Brasil Empreendimentos.
O leilão judicial, em duas etapas, ocorreu no ano passado para sanar um débito tributário de cerca de R$ 150 mil dos donos do edifício com o governo federal — mas o caso só veio à tona nesta semana, quando os artistas receberam os documentos pedindo que desocupassem o edifício.
Tentativas de cancelar a venda
Desde meados do ano passado a Bhering vem tentando cancelar a venda, alegando que já vinha pagando, em parcelas, sua dívida com a União. Em junho, porém, o Tribunal Federal Regional negou o pedido.
Em comunicado oficial enviado ao GLOBO anteontem, a Bhering afirmou que tem extratos para comprovar que, desde 2009, está dentro da lei que autoriza o parcelamento da dívida tributária. Segundo a nota da empresa, ao autorizar a realização do leilão, o tribunal "não intimou a Prefeitura do Rio de Janeiro e os locatários do imóvel, que são partes diretamente interessadas, ignorando formalidades indispensáveis ao processo". Ainda segundo a Bhering, o valor pelo qual o imóvel foi vendido é considerado "vil" — "cerca de dez vezes inferior às avaliações de mercado, ou R$ 32 milhões". No entanto, na ação que negou o pedido de anulação do leilão, a juíza Fernanda Duarte Lopes Lucas da Silva escreve que o preço pelo qual o prédio foi arrematado supera em 50% o valor de sua avaliação.
Para os artistas que há mais de dois anos ocupam o prédio de 20 mil metros quadrados, a notícia causou surpresa — eles não haviam sido informados sequer do leilão, em 2011. Muitos se reuniram anteontem, com advogados da Bhering e da incorporadora que adquiriu o imóvel, para entender a situação. Alguns já haviam recebido a ordem para desocupar o prédio, mas boa parte deve receber o documento nos próximos dias.
— São mais de 50 artistas e 20 outras pequenas empresas, como uma livraria e uma editora, que estão ali tentando entender o que acontece — diz o artista plástico Barrão, que tem ateliê no prédio há dois anos. — É um lugar que se consolidava como centro de produção de arte no Rio. Acho uma pena que isso esteja acontecendo, que não se tenha percebido que na Bhering há um movimento cultural espontâneo.
A fábrica já é incluída nos roteiros de arte propostos pela ArtRio, divulgados para os visitantes da feira, entre 12 e 16 de setembro. Há ainda pequenos eventos no prédio, que reúnem artistas e produtores culturais. A Bolha Editora, por exemplo, vinha realizando encontros aos sábados no terraço do edifício, com apresentações de música e divulgação de livros de arte.
Segundo Barrão, o advogado da Syn-Empreendimentos Imobiliários, George El- Khouri, teria dito no encontro com os artistas que a ideia da incorporadora é reformar o edifício e criar ali um centro cultural, do qual os artistas poderiam participar, pagando aluguéis reajustados. El-Khouri não retornou as ligações da reportagem do GLOBO até o fechamento desta edição.
— Fico preocupado porque em todos os bairros que foram transformados, como é o caso do que ocorre agora nessa região da Bhering, os artistas foram os primeiros a ser expulsos, junto com a comunidade local carente — diz Barrão.
O artista Cadu, que também tem ateliê na fábrica, se preocupa com a especulação imobiliária, já que a área é o "filé da cidade no momento":
— É um bairro extremamente sujeito à especulação. E a memória das pessoas é curta. Daqui a pouco, abrem um shopping ali, com uma praça de alimentação e, pronto, passou. Aquele centro espontâneo de arte e cultura será esquecido.
