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Como atiçar a brasa

 


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janeiro 28, 2010

Lei Rouanet sai da gaveta e enfrenta Congresso por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno2 do jornal O Estado de S. Paulo em 28 de janeiro de 2010.

É uma mudança radical na filosofia de incentivo à cultura no País. A nova Lei Rouanet, cujo texto foi assinado anteontem pelo presidente Lula, prevê que o Fundo Nacional de Cultura (FNC) nunca poderá ter menos do que 40% do orçamento do MinC. Até hoje, o fundo (que permite o incentivo direto, sem que o produtor precise captar dinheiro no mercado) recebe valores irrisórios e aleatórios. A maior parte dos recursos chega via renúncia fiscal - empresas adiantam o dinheiro aos produtores culturais, e depois são reembolsadas na hora de declarar o seu Imposto de Renda (IR).

Foram criados 9 fundos setoriais - Artes Visuais, Artes Cênicas, Música, Acesso e Diversidade, Patrimônio e Memória, Ações Transversais e Equalização, Audiovisual, Inovação do Audiovisual (o que compreende curtas-metragens, médias-metragens e experimentalismo) e Livro, Leitura, Literatura e Humanidades (cuja divisão, para separar literatura do mercado, será definida em lei específica).

Desses 9 fundos, sete terão entre 10% a 30% do total dos recursos - o restante irá para o audiovisual, segundo o texto. Para decidir quais projetos serão incentivados, haverá CNICs setoriais, com representação paritária do governo e da sociedade civil. O Fundo Nacional de Cultura também poderá receber dinheiro de doações, legados e subvenções, e esse dinheiro não seguirá o critério de partilha acima. Não será permitido o incentivo a obras, produtos, eventos circunscritos a coleções particulares ou circuitos privados que tenham limitações de acesso.

A União deverá enviar 30% dos recursos do FNC para fundos públicos de Estados, municípios e do Distrito Federal (com a observância de serem destinados no mínimo 10% para cada região do País, como forma de promover a descentralização do investimento). Mas, para receber o dinheiro, Estados e municípios deverão constituir órgãos colegiados e observar as regras da lei.

A renúncia fiscal continua existindo, mas também mudou. Os contribuintes (pessoas físicas ou jurídicas tributadas com base no lucro real) poderão deduzir 40%, 60% e 80% do imposto de renda devido quando financiarem um projeto cultural (valor limitado a 6% do imposto devido, quando se tratar de pessoa física, ou 4% do imposto devido, quando se tratar de pessoa jurídica). Um sistema de pontuação definirá em qual faixa (40%, 60% ou 80%) o incentivador se encaixa.

O recebimento dos projetos culturais será feito mediante editais de seleção pública, e a lei estipula um prazo de 30 dias para que sejam avaliados - um desafio extra para o governo, já que atualmente os atrasos são constantes por falta de pessoal técnico qualificado. Para a análise dos projetos, o governo prevê na lei contratar especialistas ou instituições.

Os projetos culturais com potencial de retorno comercial (filmes como os da Xuxa e dos Trapalhões, por exemplo, enquadram-se nessa categoria) poderão ser financiados em um sistema de parceria, que poderá tomar até 20% da dotação anual do FNC. Para tanto, serão direcionados para os Fundos de Investimento Cultural e Artístico (Ficarts). O Banco Central do Brasil será o gestor dessa parceria, e os lucros obtidos voltarão para realimentar o FNC.

Os institutos e fundações (ligadas a bancos ou grandes empresas) estão enquadrados na faixa dos 40%, e todos têm de colocar pelo menos 20% do próprio bolso (antes, a renúncia era de 100%).

Projetos da administração pública só poderão captar até 10%, para evitar concorrência com os mercados. É o caso, por exemplo, dos museus paulistas, que agora terão de reformular seus orçamentos - a Pinacoteca do Estado pediu, para 2009, R$ 13 milhões, e obteve autorização para captar R$ 12 milhões. Entretanto, os fundos públicos dos Estados e municípios poderão redirecionar seus recursos para essas instituições.

"Na medida em que existe um fundo que tem recursos que serão repassados aos governos, não faria sentido que o setor público captasse. Com um fundo novo, forte, que cumpre um papel importante, esta restrição nos parece natural", disse Alfredo Manevy, ministro interino da Cultura, ao site do Grupo de Institutos e Fundações (Gife). Segundo estimativa do governo, inicialmente o fundo vai ter cerca de R$ 800 milhões, a renúncia será de R$ 1 bilhão e o orçamento, excluída a renúncia, de R$ 2,2 bilhões (o maior da História, conforme antecipou o Estado no dia 15).

Posted by Cecília Bedê at 1:29 PM

Nova Rouanet é enfim enviada ao Congresso por Larissa Guimarães, Folha de S. Paulo

Matéria de Larissa Guimarães originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 28 de janeiro de 2010.

Projeto foi assinado pelo presidente Lula e seguiu ontem para análise na Casa

Expectativa oficial é que a proposta seja aprovada até o segundo semestre; para o governo, essência do texto é a mesma do fim de 2009

A nova Lei Rouanet foi enviada ontem ao Congresso Nacional. O projeto de lei chegou a ser entregue simbolicamente no fim do ano passado [como mostrou reportagem da Folha em 22 de janeiro deste ano], mas a proposta só foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva anteontem.

O ministro interino da Cultura, Alfredo Manevy, afirma que faltavam apenas "formalizações" para que a proposta fosse mandada ao Congresso -que só deverá começar a analisá-la na semana que vem.
"Na essência, é o mesmo projeto do fim do ano passado. Sempre existem cobranças por prazos, mas o mais importante é que o texto foi fechado com seriedade", afirmou o ministro.

A expectativa do governo é que o projeto entre em tramitação em regime de urgência urgentíssima, e seja aprovado até o segundo semestre.

Após a aprovação no Congresso e a sanção do presidente Lula, haverá ainda um prazo de transição de três meses para que as novas regras passem a valer para o mercado cultural.
A nova proposta do governo prevê que a renúncia fiscal seja apenas um dos mecanismos de financiamento de cultura. A ideia, segundo o ministro interino da Cultura, é fortalecer o FNC (Fundo Nacional da Cultura) na nova lei.

Com o fundo mais forte, o Ministério da Cultura terá mais mecanismos para repassar dinheiro direto aos produtores. Projetos culturais poderão receber dinheiro público via bolsas e prêmios. Hoje, quem quiser receber dinheiro pela Rouanet tem, praticamente, só a opção de buscar patrocínio na iniciativa privada.
Pelas estatísticas do Ministério da Cultura, a cada ano menos de 20% dos projetos conseguem captar algum recurso. "A maioria fica sem patrocínio, principalmente os iniciantes e mais inovadores", argumenta.
O FNC contará neste ano com R$ 800 milhões, que serão distribuídos entre sete fundos setoriais, que abrangem desde artes visuais a literatura.

As secretarias estaduais de Cultura receberão também 30% dos recursos do Fundo Nacional de Cultura. A proposta do governo prevê que esse dinheiro só poderá ser aplicado em projetos culturais, e não poderá ser usado para outras despesas, como pagamento de pessoal, por exemplo.

"É preciso haver uma descentralização nos recursos da Cultura, assim como vem acontecendo em outras áreas, como saúde e educação", alega.

O mecanismo da renúncia fiscal também vai mudar com a nova Rouanet. As empresas terão de dar uma contrapartida maior ao patrocinarem projetos culturais. Hoje, só existem duas faixas de renúncia -100% e 30%. O empresário pode abater todo o valor do patrocínio em imposto ou precisa desembolsar 70% do montante total. Com as mudanças, fica extinta a renúncia fiscal de 100% e os projetos poderão ser classificados em três faixas diferentes -80%, 60% e 40%.

Posted by Cecília Bedê at 1:15 PM

janeiro 27, 2010

De corpo e mistério por Júlia Lopes, Jornal O Povo

Matéria de Júlia Lopes originalmente publicada no caderno Vida&Arte do jornal O Povo em 16 de janeiro de 2010.

Já faz 34 anos que Efrain Almeida se mudou para o Rio de Janeiro. Foi por lá que viveu a adolescência, o início da carreira de artista (a primeira exposição no XI Salão Carioca de Arte, em 1987), as aulas no Parque Lage, as experiências de uma vida. Por lá continua. Mas ele sempre volta: seja em suas obras ou em incursões para Boa Viagem, no interior do Ceará, cidade onde nasceu e onde ainda residem os pais. ``As referências pessoais de Efrain são transpostas para obra, reverbera na produção um diálogo fluente com sua cidade natal``, identifica Carlos Bitu Cassundé, que é cearense & mas mora em Recife e por lá dirige o Museu Murillo La Greca.

Também atento à obra de Efrain, Marcelo Campos, crítico de arte e curador, aponta essa intensa relação entre os aspectos pessoais e poéticos do artista & que pode ser, inclusive, complexa e até paradoxal. ``Efrain tem uma relação ambígua com aquela paisagem: de fastio e reverência. Ele é um homem urbano, adora música eletrônica, ficou deslumbrado com Tóquio, é fã de São Paulo… E está no Rio. Mas guarda pelo sertão uma relação ao mesmo tempo real, mítica e afetiva``. É de lá, portanto, que chegam os elementos fundamentais para a construção dessa poética. ``É lá que ele vai colher a madeira umburana que o próprio pai planta, nos terrenos da família, destinada às esculturas. Mas o sertão, para ele, também é o lugar que ele teve de vencer, de superar, de se livrar para voar mais alto``, continua Marcelo.

A produção de Efrain é marcada principalmente por pequenas esculturas. Como a série de beija-flores, da década de 90. São cerca de 30, com os pássaros em diferentes posições, dando a sensação de suspensão no ar. A sequência, para Marcelo, é fundamental para a entrada do artista no universo da arte contemporânea. ``Enquanto alguns artistas buscavam conceitualismos chatos e inférteis, ele permaneceu atento à sua história, sincero, chegando então a um resultado bem particular. A instalação é única, um dos mais belos exemplos da arte contemporânea brasileira depois dos anos 1990. São esculturas em madeira, mas, ao mesmo tempo, fazem movimento de cinema, de fotografia, como em Muybridge``.

Muito presente em suas obras é a representação do corpo ou partes dele, como os ex-votos tão comuns no sertão. ``Um trabalho que considero fundamental na sua recente produção é a escultura apresentada na exposição Contraditório do Panorama da Arte MAM-SP, em 2007. A pequena escultura é um auto-retrato em umburana de corpo inteiro do artista desnudo. Até suas tatuagens são registradas``, descreve Cassundé. ``É de um realismo que chega a incomodar, provocador, corajoso. Mas não é a nudez que choca e sim a complexidade do discurso que se abre para o espectador, o diálogo que se estabelece entre o artista e o outro, e as referências sugeridas pelo trabalho margeiam questões bastante presentes em nossas micropolíticas contemporâneas como: desejo, solidão, afeto etc.``.

São essas questões do corpo também são inquietantes para Marcelo. Ele lembra Caetano Veloso: ``Todo corpo em movimento está cheio de inferno e céu``. E continua. ``Nestas figurações ele faz declarações de vida: observações da natureza, dos quintais, das viagens para o interior do Brasil ou para o exterior. Ao mesmo tempo, o corpo é a dádiva do trabalho de Efrain, o presente que ele oferece a si mesmo, à sua história e aos espectadores. O corpo é a troca e carrega marcas, estigmas, da religiosidade que ele observa desde criança, nas procissões da sua cidade natal. É, também, o corpo do desejo, das pessoas, da erotização. É o mesmo corpo, muitas vezes, nu, mas entregue religiosamente, como uma heresia, ao sexo, ao outro, declarando-se, mas escondendo-se, cheio de mistério``. E pronto para ser observado.

Posted by Cecília Bedê at 4:51 PM

A Arte da Guerra por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 27 de janeiro de 2010.

Inspirados pela guerra ao terror, artistas visuais retratam os soldados anônimos que perderam a vida no Iraque e no Afeganistão

Nos seis dias que passou numa base militar de Basra, no Iraque, Steve McQueen não teve acesso às linhas de combate. Ficou sozinho no quartel, à espera de notícias. Eram mortes que se amontoavam nas pilhas de estatísticas da presença britânica na guerra ao terror.

Estava lá a convite do governo, para produzir uma obra de arte que só ganhou formas em casa. Ele voltou a Londres disposto a dar rosto aos números anônimos que identificam os mortos em conflito. Britânico que estará na próxima Bienal de São Paulo, McQueen tenta há sete anos fazer circular no Reino Unido selos postais com as caras de homens e mulheres que perderam a vida.

"Queria que todos no país participassem desse ato", conta o artista, em entrevista à Folha. "Teriam um abalo muito maior sobre a psique se vissem a cara desses soldados todo dia, quando pegassem suas cartas."

Isso não deu certo até agora. Mas "Queen and Country", que virou uma instalação com selos reunidos num grande gabinete, engrossa um movimento de artistas que tentam sublimar o anonimato das baixas de guerra por meio de retratos, filmes e fotografias.

Num eco distante do impacto provocado pela Guerra do Vietnã entre artistas dos anos 70, que turbinaram a linguagem da performance, conflitos ressurgem como motor potente por trás de uma nova arte política.
"As pessoas continuam usando o próprio corpo como arma", diz o artista. "Agora também usam esse corpo como protesto, é uma situação que não descarta a presença física e o uso dela para fazer guerra."

Suas cartelas de selos nunca enviados transitam por museus em gavetas de madeira. Quase 22 mil pessoas assinaram um manifesto pressionando o Royal Mail, o correio britânico, a adotar os selos, mas em vão. Enquanto isso, a National Portrait Gallery, em Londres, volta a exibir esses soldados numa exposição em março.

Desenhos
Vai disputar a atenção do público com rostos dos norte-americanos que morreram no Iraque e no Afeganistão. São desenhos da americana Emily Prince, agora na Saatchi Gallery, em Londres. Desde que estourou a guerra no Iraque, em 2003, ela visita sites com retratos dos mortos e refaz à mão contornos de suas caras.

Na série, espécie de performance obsessiva, Prince já retratou mais de 5.000 anônimos que encontrou on-line em páginas como Military City. "A questão era tornar mais real essas estatísticas", conta a artista em conversa com a Folha.

"Ver a imagem de um desconhecido ainda é abstrato, mas é menos que números."
Prince tenta aniquilar essa abstração. Encara cada retrato como cartografia da memória apagada por números e relatórios. Anula o que poderia ser só efeito retórico tentando construir o mais exato arquivo de desenhos, humanos, no lugar de fotos, maquinais.

"Desenho quase em tempo real, porque me irritam as ausências", diz Prince. "É um arquivo imperfeito, sei que nem todos eles estão ali, mas costumo voltar para ver se esqueci alguém."
Enquanto McQueen examina os desdobramentos do corpo como arma, Prince destrincha a natureza desse corpo. Enxerga o Exército como grande entidade anônima, de indivíduos com personalidades distintas engolidas no rolo compressor das táticas de guerra.

"Pensava no soldado como o garoto que já pagava de machão no colegial, mas agora vejo que são normais", diz Prince. "O Exército, como corpo, é capaz de cometer atrocidades, mas espero que entendam que há indivíduos ali, que não têm culpa."

Em Fort Hood, no Texas, a maior base militar dos Estados Unidos, esses garotos, com ou sem culpa, tentam garantir a individualidade. Embaixo dos uniformes, tatuam seus próprios medos, desejos, esperanças.

Uma documentarista de Austin viu no ritual pré-embarque um possível retrato da guerra. Passou três anos visitando um estúdio de tatuagem vizinho à base, entrevistando os soldados.
"Com a agulha cavando na pele, eles revelam coisas que não diriam numa entrevista comum", diz Nancy Schiesari, diretora de "Tattooed Under Fire" (tatuado sob fogo), que pode ser visto no YouTube. "É uma forma de arte: esses tatuadores canalizam os sentimentos dos soldados em desenhos que encaixam sobre os músculos."

Depois do corpo como arma e do corpo anônimo do Exército, Schiesari estuda o corpo ameaçado, tingido para a batalha. Um soldado mandou gravar o desenho de um feto numa jarra, outro fez uma caveira, mas o mais comum é fazerem o próprio nome, em partes do corpo que esperam ficarão intactas caso sejam mutilados.

Posted by Cecília Bedê at 2:37 PM

Artistas da próxima Bienal de São Paulo também destacam violência por Silas Martí, Folha de São Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de São Paulo em 27 de janeiro de 2010.

Não é a primeira vez que Steve McQueen usa a violência como ponto de partida para uma obra. Em seu filme "Hunger", premiado há dois anos em Cannes, dramatizou a greve de fome de Bobby Sands, ativista do IRA, o Exército Republicano Irlandês, que morreu em protesto contra o governo de Margaret Thatcher nos anos 80.

Sem muitas palavras e com cenas que evocam o expressionismo agudo de um Francis Bacon, causa desconforto. Põe a miséria humana, o corpo que definha, no centro da ação.

Ainda inédito no Brasil, o longa pode ser exibido na próxima Bienal de São Paulo, junto de uma obra que McQueen ainda está produzindo para esta edição da mostra paulistana, que começa em setembro.
Violência e guerra também aparecem na obra de outros artistas já confirmados na Bienal de 2010. Harum Farocki, videoartista alemão, está de olho nos traumas de guerra dos soldados norte-americanos em combate no Oriente Médio.

José Antonio Vega Macotela expõe o sofrimento atrás das grades de um presídio na Cidade do México, trocando favores do lado de fora da prisão por obras feitas pelos detentos trancados em suas celas.
Na dimensão econômica do conflito, a cineasta belga Chantal Akerman vai explorar as origens da crise imobiliária que descambou para o colapso financeiro a partir do retrato de uma comunidade norte-americana, a parte pelo todo, que tenta entender como um lado desperta a ira do outro.

Posted by Cecília Bedê at 2:10 PM

Sem prazo para pagar dívidas por Thiago Corrêa, diariodepernambuco.com.br

Matéria de Thiago Corrêa originalmente publicada no diariodepernambuco.com.br em 26 de janeiro de 2010.

política cultural // Presidente da Fundarpe reflete sobre os desafios do último ano de gestão, comemora o que considera avanços na área pública de cultura contra a política de balcão e reconhece dívida com artistas

O quarto ano de gestão de Luciana Azevedo como presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) começou sob a turbulenta reabertura do Cinema São Luiz e as denúncias de atraso no pagamentos de cachês de artistas que participaram de atividades promovidas pela entidade em 2009.

Nesta entrevista ao Diario de Pernambuco, Luciana responde a essas polêmicas, apresenta o modelo de gestão do Cinema São Luiz, explica as dívidas com os cachês, pede desculpas aos artistas, garante o pagamento, mas não estipula um prazo para realizá-lo. A gestora ainda analisa o futuro do Conselho Estadual de Cultura, comenta as dificuldades encontradas no poder público, a falta de estrutura para lidar com o setor cultural, critica a política de balcão, fala da resistência da área em aceitar as novas ideias e defende a política de cultura implantada em sua gestão como uma conquista democrática para o setor, que deve ser garantida com a aprovação da Lei Estadual de Cultura, em março. Além disso, Lucianarevela quais os principais desafios da Fundarpe em 2010, que pode ser o último sob seu comando, em função do processo eleitoral.

Cachês

2009 era um ano estratégico e foi um ano difícil, por conta da crise. Todo mundo começou criticando a marolinha de Lula e hoje estão aplaudindo. O governador apostou nisso e não contingenciou. Só que houve um grande problema, as prefeituras todas contingenciaram. A gente faz um instrumento para elas assinarem, mas as prefeituras quebraram. Então a gente tinha duas decisões: se retrair e perder o 2009 estratégico ou imprimir as mudanças de que precisávamos. Falhou a primeira prefeitura, falhou a segunda; então começamos um movimento interno de convencimento para ampliar o orçamento. Terminamos o orçamento em R$ 111 milhões, quando estavam previstos R$ 72 milhões. Mas para isso, tem todo um processo, tem a demora dos rituais e o processo legal. Tive reuniões e reuniões com os consultores para saber como poderia pagar a dívida, porque até nisso o poder público é complicado. Estou com o dinheiro em caixa e estou fazendo todo o ritual. A gente construiu o caminho de reconhecer a dívida, com toda documentação, reconhecer na Fazenda, da Procuradoria-Geral. Posso dizer que o que ficou para pagar é em torno de 1,5% do nosso orçamento executado no ano de 2009. Não é sendo irresponsável nem dizendo que isso não é importante para o artista, mas desafio qualquer órgão público que tenha só 1,5% de dívida, de tudo o que foi executado no ano. A grande diferença é que a gente está trabalhando num processo democrático, e aí as pessoas estão falando. Mas ai de quem falar de alguma dívida da prefeitura, de qualquer uma. Por que estão falando só da dívida da Fundarpe, que ampliou o orçamento em 500%?

Prazo de pagamento

A gente não pode dar um prazo definido, porque tem um ritual a ser cumprido. A gente tem consciência da nossa dívida, o governador garantiu os recursos, estamos fazendo o ritual dentro da legalidade. Vamos pagar. Pedimos desculpa a esses artistas. temos consciência do que estamos construindo para a cultura de Pernambuco. E este ano vamos ser mais duros na negação de pedidos que venham de trampolim.

Cinema São Luiz

Foi criada uma comissão que tem representantes ligados ao audiovisual e aos produtores. Ela vai estruturar as ações que vão ocorrer no Cinema São Luiz. Algumas ações básicas estão definidas. Durante a manhã, formação de novas plateias críticas, com os alunos das escolas públicas, com a exibição dos filmes seguido de debates. A tarde, a gente vai dedicar à produção audiovisual pernambucana. E durante a noite se cumprirá o papel de fruição cultural, para que a população tenha acesso, já que no Brasil apenas 13% da população tem acesso ao cinema. Com filmes do circuito, com o ingresso menor: R$ 4 e R$ 2.

Equipamentos

O Cinema São Luiz não é um brinquedinho na mão de uma pessoa, mas um espaço de política pública de cultura. É uma estação cultural que quebra modelos.

Precipitação

Não foi precipitado. Foi uma abertura corajosa. Você não espere em nenhum lugar a coisa estar pronta para poder colocar na rua, porque não bota.

Desperdício

Ainda tem muita coisa para corrigir. Gastamos R$ 25 mil para alugaro gerador por um ou dois dias, mas a gente avaliou que seria melhor que o desgaste desse sai não sai. Dentro do jogo de quebrar impossibilidades, você tem que fazer alguma coisa desse tipo. É preciso ter coragem.

Lula Cardoso Ayres Filho

Sou amiga de Lula, mas ele não pode ser o centralizador de um processo. Aquilo (o São Luiz) não é um instrumento dele. O cinema é um equipamento de política pública. A gente tem todo respeito por Lula e ainda vamos discutir. Ele pode compor, se ele topar ser coletivo, com os outros.

Circuito comercial

O papel da economia da cultura é avaliar as nossas metas e a eficácia delas. Nosso objetivo é formar plateias em relação à cultura pernambucana e fazer com que a população tenha acesso a ela. Um dos eixos prioritários é a questão da circulação, porque não adianta produzir e não dar acesso à produção.

Modelo de política pública

Política pública é deixar tudo aberto para que todos possam participar, para que todas as estéticas sejam potencializadas. Não pode ser concentrada emgrupelhos, tem de ir para todas regiões. Se não fere o princípio. A mão do estado entra para que todos tenham acesso, porque aquilo era uma bagunça, parecia uma empresa privada que escolhe o que vai financiar. Nós usamos dinheiro público, então todos precisam ter acesso à disputa.

Conselho Estadual de Cultura

O que a gente tem é um Conselho de Cultura que é referência histórica, que foi criado na época da ditadura, em 1967, representou uma conquista muito grande dentro de um modelo onde não existia política pública. Mas esse Conselho vai de encontro ao Sistema Nacional de Cultura. Para você participar do sistema, você tem que ter os canais de participação como manda o sistema. E esse conselho estadual não pode cumprir este papel. A gente está construindo algo de outra envergadura, com outra lógica. Se esse conselho passar a ser consultivo, ligado à Secretaria de Educação, para assuntos da área de cultura, enfim, essa é uma discussão que vai ser tratada. Na lei, o que se fala de conselho não é esse conselhoque existe.

Novo conselho

É uma representação do poder público e da socidade, uma representação institucionalizada num modelo de cogestão, partilhada. Ele vai fazer parte do Sistema Estadual de Cultura, que é estruturado num modelo de gestão participativa, com representação do tecido social e do poder público. O governador vai indicar o representante do poder público, que é o poder que lhe cabe, os outros serão eleitos nos fóruns por região, por linguagem. Desse conselho sai uma representação para o conselho nacional. Atualmente, quem representa Pernambuco é um cara que só fala com ele mesmo, ainda disputa para ver se é maior que Deus. Marcus Accioly é a cultura de Pernambuco, é contra a lógica. E é uma contradição, porque somos referência de modelo, tudo que produzimos, nós passamos para os secretários e a única coisa negativa de Pernambuco é essa referência.

Desafios do último ano

A aprovação da lei na Assembleia Legislativa, para garantir que o princípio social tenha um instrumento de luta. No momentoem que se está discutindo essas questões (dos cachês), acho que eles (os deputados) não podem se negar a discutir uma lei de política pública que vai institucionalizar algumas críticas que eles estão fazendo. Esse é o grande desafio. De ponto de vista interno, é a reestruturação da Fundarpe e o concurso público.

Posted by Cecília Bedê at 1:17 PM