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setembro 18, 2009
Inhotim, um projeto de interesse público, resposta do Instituto Inhotim
Resposta do Instituto Inhotim às matérias veiculadas na imprensa recentemente.
Veja as matérias:
Minas dá benefício a suspeito de sonegação por Breno Costa e Mario Cesar Carvalho, Folha de S. Paulo
Empresa recebeu R$ 230 mi de paraíso fiscal, Folha de S. Paulo
Mecenas de Inhotim nega ser réu em ação penal, Folha de S. Paulo
Empresário diz que cumpre legislação, Folha de S. Paulo
Inhotim, um projeto de interesse público
Matérias recentes publicadas em jornais de São Paulo ocupam-se do Instituto Inhotim. Em vista das muitas incorreções presentes nos textos veiculados, da evidente tentativa de denegrir a imagem do Instituto e do uso de uma linguagem jornalisticamente inusitada, alguns esclarecimentos, a bem da verdade, se fazem necessários.
Como é sabido, e comprovado pelo crescimento exponencial e socialmente diferenciado da visitação, Inhotim reúne, em um espaço singular, acervos em arte contemporânea e em botânica. A estes acervos, de reputação internacional, o Instituto Inhotim acrescenta a responsabilidade por um amplo programa educativo, destinado a professores e estudantes das escolas públicas, em Brumadinho – sede, zona rural, distritos e povoados - e em Belo Horizonte, programa este que atendeu, ao longo de 2008 e 2009, mais de
30 mil alunos. E mais: além dos programas educativos, são desenvolvidas múltiplas atividades de inclusão e fortalecimento da cidadania, no campo cultural e turístico, todas encaminhadas de maneira a robustecer sempre mais a autonomia das comunidades parceiras. Os números comprovadores de tudo isto são públicos e estão disponíveis, daí a perplexidade causada pelas citadas matérias.
Inhotim já é uma realidade indiscutível. Portanto, usar, para caracterizá-lo, o termo delírio é, recorrendo a uma expressão que a cortesia mineira obriga, uma impropriedade. Inhotim é um destino já consolidado e, junto com Ouro Preto, lidera o fluxo turístico em Minas Gerais e começa a se colocar como destino turístico nacional. Aos valores normalmente agregados aos espaços turísticos, Inhotim adiciona um expressivo valor cultural em arte e botânica.
Inhotim está crescendo, como é de esperar de todo museu qualificado e novas aquisições ampliam incessantemente os seus acervos em arte e botânica. A consulta à mídia internacional no campo das artes evidencia o lugar singular que Inhotim ocupa no conjunto dos grandes museus internacionais em arte contemporânea. A título de exemplo, vale lembrar que as inaugurações previstas para outubro próximo constituirão um expressivo acréscimo ao já importante parque de arte contemporânea.
Inhotim é uma experiência inédita no campo da cultura. Sem perder nada do seu caráter de referência internacional, atua em todo o entorno de Brumadinho, certo que está de que a distinção entre o local e o global deve ser vista de forma complementar e não como uma cisão inevitável.
Comprometido com os valores que marcam a contemporaneidade, o Instituto Inhotim vem procurando conferir um caráter sempre mais público a cada uma das atividades nele desenvolvidas.
O museu com seus acervos, idealizado e construído por Bernardo Paz, que é tratado de forma inaceitavelmente jocosa na matéria, é caso raro de mecenato num país onde a riqueza raramente assume alguma responsabilidade pública. A irradiação da experiência que deu lugar a Inhotim certamente
seria um serviço à cultura de nosso país.
Ataca-se o Instituto Inhotim, ataca-se seu idealizador, Bernardo Paz, ataca-se o governo de Minas Gerais. Em outros tempos, reclamava-se de Minas Gerais por um suposto atraso em relação a outros estados da federação. Desta vez, Minas é atacada pela sua contemporaneidade. Curioso sinal dos tempos, mas nem por isto o ataque é mais aceitável.
Instituto Inhotim
Incentivo perde abatimento de 100% por Jotabê Medeios, O Estado de S. Paulo
Matéria Jotabê Medeiros originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 18 de setembro de 2009.
Segundo Ministério da Cultura, texto que vai ao Congresso deve fixar participação privada em pelo menos 20% no mecenato
O texto da reforma da Lei Rouanet deve trazer uma novidade que promete gerar acalorada discussão: não haverá mais a possibilidade de dedução de 100% do valor investido num projeto com renúncia fiscal.
No início do plano de reforma, anunciado no primeiro semestre, o novo texto previa 6 faixas de dedução do imposto devido para fins de renúncia fiscal: 100%, 90%, 80%, 70%, 60% e 30%. Os debates subsequentes, no entanto, teriam criado a sensação de que era preciso exigir uma contrapartida maior da iniciativa privada.
Segundo o Ministério da Cultura, os próprios empresários pleitearam a participação de no mínimo 20% de dinheiro privado no processo de incentivo fiscal. "É um piso mínimo. Dessa forma, o mecenato será de fato uma parceria público-privada", diz o ministro interino da Cultura, Alfredo Manevy.
Manevy diz que prefere não falar no "fim dos 100%" de abatimento, para não criar um "pavor injustificado" entre os produtores culturais. Segundo o governo, o fato de que o novo sistema de incentivo fiscal terá fundos de incentivo direto (sem a necessidade de captação no mercado) será suficiente para dar segurança às artes.
Pela nova legislação, metade do dinheiro arrecadado pelo Fundo Nacional de Cultura deverá ser obrigatoriamente repassado a Estados e municípios. Mas trata-se de um dinheiro "carimbado", ou seja, não poderá ser utilizado em despesas de custeio dos Estados e municípios - terá de ser necessariamente transferido a artistas e produtores por meio de editais públicos.
A extinção dos 100% de dedução fiscal já provoca uma grita forte em alguns setores da cultura. "Vai ser um apagão cultural", brada Odilon Wagner, presidente da Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTI). "Eles vão dar o golpe fatal e enterrar a cultura de vez", reclamou
Segundo Wagner, as grandes empresas que propuseram a contrapartida mínima de 20% já têm condições de bancar esse investimento, mas é um universo pequeno entre os financiadores da cultura. "E as pequenas? Temos entre 3 a 4 mil empresas apenas apoiando a cultura, e a maioria são pequenas. Com 100% de dedução fiscal a gente já não consegue patrocínio, então imagina com 80%", afirmou o ator, que diz que sua reivindicação é referendada por mais de 50 entidades do País.
A posição de Odilon não é majoritária. Movimentos de teatro como o Grupo 27 de Março e o Movimento Redemoinho (que une grupos teatrais de 14 Estados do País) querem a supressão pura e simples do mecanismo de renúncia fiscal. A Cooperativa Paulista de Teatro defende um sistema mais sólido de apoio federal à cultura, com a aprovação da PEC 150 (emenda constitucional que destinaria 2% do Orçamento da União para o setor. Outros produtores ouvidos pela reportagem perguntam se a decisão foi acompanhada de um estudo de impacto no emprego do setor. "As empresas dizem que topam entrar com 20%, mas manterão volume de investimentos? Essa é a questão", disse um consultor.
A reforma da Rouanet (Lei n.º 8.313, criada em 1991 e principal fonte de incentivo cultural no País) atrasou em relação à previsão inicial. Nem os próprios dirigentes de fundações e institutos ligados ao ministério conhecem seu teor completo. Segundo o MinC, esta semana haveria a última reunião na Casa Civil para formatar o projeto.
setembro 17, 2009
Empresário diz que cumpre legislação, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 17 de setembro de 2009.
Outras matérias sobre o assunto:
Minas dá benefício a suspeito de sonegação
Empresa recebeu R$ 230 mi de paraíso fiscal
Mecenas de Inhotim nega ser réu em ação penal
Leia íntegra da nota enviada pela assessoria de Bernardo Paz:
1) Sobre a Horizontes Ltda:
A Horizontes Ltda é uma empresa mineira, sediada em Belo Horizonte. Foi constituída em 7/12/ 2000 obedecendo a todas as exigências da legislação comercial brasileira e tem por principais objetivos o desenvolvimento e implantação de projetos que preveem a administração, construção, incorporação e venda de empreendimentos imobiliários em geral, bem como a prestação de serviços com ênfase em turismo, para acomodações temporárias, hotelaria e serviços de bar e restaurante.
Para dar suporte ao desenvolvimento de seus negócios, a Horizontes Ltda tem registrado junto ao Banco Central do Brasil diversos contratos assinados com fundo de investimento estrangeiro, o que potencializa a opção de conversão em capital social da empresa.
A Horizontes Ltda também é uma das associadas mantenedoras do Instituto Inhotim (Oscip), por reconhecer e considerar a atuação da entidade como de vanguarda cultural e de significativa contribuição para o turismo na região metropolitana de Belo Horizonte, em particular para o desenvolvimento econômico da região de Brumadinho, local onde possui imóveis e terrenos.
Pautada por essa sua filosofia de ação, a Horizontes Ltda possui outros imóveis e terrenos dentro e fora da região metropolitana de Belo Horizonte, como reserva imobiliária, destinada à consecução de seu objetivo social. Por estratégia, a empresa não comenta seus projetos antes da efetiva mobilização e consecução de ações necessárias à devida divulgação e lançamento.
2) Sobre Bernardo Paz e dívidas de empresas por ele controladas:
Bernardo de Mello Paz é empresário mineiro que atua nos ramos de mineração e siderurgia (maior produtor independente de ferro-gusa do país), figurando como sócio-controlador em mais de vinte empresas, há mais de 25 anos.
Algumas dessas empresas têm dívidas contraídas com a União e com o Estado de Minas Gerais decorrentes de impostos correntes devidamente declarados e não recolhidos por contingências financeiras e/ou macroeconômicas vividas ao longo do referido período.
Por meio da adesão já formalizada ao Refis, toda a dívida com a União, no conjunto das empresas controladas por Bernardo Paz, será devidamente quitada nos termos da Lei 11.941/2009, portanto não há inadimplência.
A dívida existente para com o Estado de Minas Gerais, igualmente, vem sendo amortizada e será quitada em conformidade com os parcelamentos previstos na legislação.
Oportuno ressaltar que o segmento de gusa foi fortemente afetado pela crise internacional em outubro de 2008 com perda de faturamento anual da ordem de US$ 200 milhões, comprometendo a adimplência de alguns parcelamentos no último ano. A partir de meados de agosto de 2009, o mercado vem demonstrando uma recuperação progressiva e consistente de retomada de pedidos e preços, possibilitando igual retomada dos compromissos assumidos no passado pelas empresas de modo geral.
3) Sobre ação penal:
Com relação à citada ação penal em tramitação na 11ª Vara Criminal de Belo Horizonte, Bernardo de Mello Paz, até a presente data, não exerceu sequer direito de defesa, pois foi apenas e tão somente mencionado na condição de representante legal das empresas Itasider Usina Siderúrgica Itaminas S/A e MGS Minas Gerais Siderurgia Ltda, em processo distribuído em 11/05/ 2004.
No processo em questão, Bernardo Paz e suas empresas não figuram como réus, mas apenas como supostos beneficiários de atos de terceiros.
Mecenas de Inhotim nega ser réu em ação penal, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 17 de setembro de 2009.
Outras matérias sobre o assunto:
Minas dá benefício a suspeito de sonegação
Empresa recebeu R$ 230 mi de paraíso fiscal
Empresário diz que cumpre legislação
A assessoria do empresário Bernardo Paz, que não quis dar entrevista à Folha, confirmou as dívidas com o Estado de Minas, mas negou que ele seja réu em ação penal. Segundo nota enviada por e-mail, a assessoria diz que Paz nem sequer "exerceu direito de defesa" na ação que responde, ao lado de outros 33 réus, por fraude fiscal e que, portanto, não é réu.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais confirmou a condição de réu de Paz.
O governo de Minas nega que esteja beneficiando Paz com a construção do centro de convenções em Inhotim.
O governo mineiro diz que, apesar de a administração executiva e operacional do futuro centro de convenções ser do Instituto Cultural Inhotim, a gestão do espaço ficará com o poder público, por meio de um conselho formado por três integrantes: dois do Estado e um de Inhotim. Eventuais prejuízos serão arcados pelo instituto, enquanto a destinação dos lucros será definida por um conselho gestor, segundo a assessoria.
Na apelação que fez ao TCU (Tribunal de Contas da União) para mudar sua posição sobre a concessão, o Estado argumenta que existe prazo para uso do dinheiro do Ministério do Turismo e que um atraso pode inviabilizar o centro de convenções. Alega que a irregularidade constatada pelo tribunal não foi considerada "grave".
O governo também nega que a doação com encargos tenha configurado uma aquisição onerosa, o que obrigaria uma aprovação legislativa prévia. De acordo com a assessoria do governador Aécio Neves, o Estado é "diretamente beneficiado" e será proprietário da área.
Sobre a dívida de Paz, a Advocacia Geral do Estado disse que ela "foi parcelada e vem sendo equacionada". A nota do governo ainda afirma que "o convênio com o Instituto Inhotim não interfere em procedimentos de natureza fiscal, jurídica ou fiscalizatória".
A diretora-executiva do Inhotim, Ana Lúcia Gazzola, disse que, se for constatada irregularidade na doação do terreno para a construção do centro de convenções pelo Estado, o termo pode ser assinado novamente. "Se houver qualquer problema, corrige-se", disse.
A assessoria de Paz não respondeu por que a Horizontes Ltda. é controlada pela Vine Hill Financial Corp nem quem controla a offshore. Questionada, também não explicou que garantias a empresa apresentou para conseguir, com capital de R$ 650 mil, empréstimos de US$ 126 milhões de fundo nas Ilhas Cayman.
Sobre as operações de empréstimo, diz só que eles foram contraídos "para dar suporte ao desenvolvimento de seus negócios", sem especificar onde os dólares foram aplicados.
Em nenhum momento a nota afirma que o dinheiro captado em Cayman é aplicado em obras de arte, apesar de seu objetivo social incluir "promoção de arte" e "manutenção e administração de museus".
Sobre a dívida com o Estado, diz que ela foi formada pelo não recolhimento de impostos "por contingências financeiras e/ou macroeconômicas" decorrentes da crise econômica. No entanto, 68% das dívidas executadas pelo Estado começaram a ser cobradas judicialmente antes de 2008.
A assessoria de Paz diz que a dívida vem sendo amortizada e será quitada.
Empresa recebeu R$ 230 mi de paraíso fiscal, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 17 de setembro de 2009.
Outras matérias sobre tema:
Minas dá benefício a suspeito de sonegação
Mecenas de Inhotim nega ser réu em ação penal
Empresário diz que cumpre legislação
A Horizontes Ltda., administrada por Bernardo Paz, dona de fato do Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, e que tem capital social de R$ 650 mil, tomou emprestado em um ano e dez meses US$ 126,4 milhões (R$ 231 milhões). O dinheiro saiu de um fundo de investimentos das Ilhas Cayman, um paraíso fiscal no Caribe.
Dois especialistas em direito financeiro ouvidos pela Folha dizem não ser comum uma empresa com capital de R$ 650 mil receber um empréstimo de R$ 230 milhões.
Segundo registros públicos do Banco Central, todas as remessas feitas até hoje pelo Flamingo Fund ao Brasil tiveram como destino a empresa administrada pelo dono de Inhotim.
A Horizontes Ltda. é dona da estrutura do Centro de Arte Contemporânea de Inhotim e tem sede no mesmo prédio onde funciona a administração do Instituto Cultural Inhotim, entidade sem fins lucrativos responsável pela gestão do centro.
A empresa é controlada pela Vine Hill Financial Corp, uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, também paraíso fiscal, que detém 92,7% das ações da Horizontes. Emílio Walter Rohrmann, advogado da Horizontes e do Instituto Inhotim, assinou documentos como procurador da Vine Hill no Brasil, mas diz estar "impedido de dar informações".
Minas dá benefício a suspeito de sonegação por Breno Costa e Mario Cesar Carvalho, Folha de S. Paulo
Matéria de Breno Costa e Mario Cesar Carvalho originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 17 de setembro de 2009.
Outras matérias sobre o tema:
Empresa recebeu R$ 230 mi de paraíso fiscal
Mecenas de Inhotim nega ser réu em ação penal
Empresário diz que cumpre legislação
O governo de Minas concedeu um benefício de cerca de R$ 20 milhões ao empresário e mecenas Bernardo Paz, devedor do Estado e réu numa ação judicial em que é acusado de participar de um esquema de fraudes fiscais que resultou num prejuízo de R$ 74,7 milhões ao governo mineiro.
Paz criou em 2004 o Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, em Brumadinho (60 km de BH). É o mais importante centro cultural de arte contemporânea do país, com um acervo que inclui artistas como Hélio Oiticica (1937-1980), Cildo Meireles e Matthew Barney.
Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, duas siderúrgicas de Paz se beneficiaram de um esquema de sonegação de impostos. O suposto esquema envolvia empresas fantasmas, laranjas e o uso de notas falsas para pagar menos ICMS.
Ele foi indiciado pela polícia sob suspeita de formação de quadrilha e fraude fiscal. Num estágio posterior, o Ministério Público excluiu o crime de formação de quadrilha por considerar que não havia provas.
Os advogados de Paz disseram à Folha que não consideram que seu cliente seja réu, já que não lhe foi dado o direito de se defender. O empresário também é cobrado na Justiça pelo Estado de Minas por dívidas de R$ 8,2 milhões de impostos.
Negócio da China
O governo mineiro acertou com o Instituto Cultural Inhotim, que gerencia o centro e cujo conselho de administração é presidido por Bernardo Paz, a construção de um centro de convenções orçado em R$ 19,6 milhões. O prédio ficará ao lado do centro cultural.
Para isso, o instituto doou ao governo de Minas, em dezembro passado, um terreno de 25 mil m2, avaliado em R$ 20 mil. Mas a doação veio acompanhada de uma série de condicionantes -entre elas, que o governo construirá o centro e entregará a administração do espaço ao próprio Inhotim.
"É um negócio da China", afirma Maria Sylvia Zanella di Pietro, professora da Faculdade de Direito da USP e uma das maiores especialistas em direito público no Brasil.
Ela e Carlos Ari Sundfeld, professor da PUC-SP, dizem que há uma irregularidade na doação. Na interpretação dos dois, o negócio precisaria ser aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas, como determina a Constituição do Estado, já que se trata de doação que implica gastos para o governo.
Para erguer o centro, o Estado firmou dois convênios com o Ministério do Turismo, que entra com R$ 14,6 milhões, enquanto o governo mineiro dá contrapartida de R$ 5 milhões.
O TCU (Tribunal de Contas da União), que audita recursos federais, decidiu que o centro não poderá ser administrado por uma entidade privada. O governo de Minas já entrou com recurso para que o TCU mude de posição.
Não é exatamente por falta de recursos que Paz fez o acordo com o governo Aécio. Ele é sócio de mais de 20 empresas e o maior produtor independente de ferro-gusa do país, segundo sua assessoria.
As duas siderúrgicas acusadas de fraudar o governo mineiro (Itasider e MGS) têm capital social de R$ 35,1 milhões e R$ 4,76 milhões, respectivamente. O centro cultural Inhotim vale US$ 200 milhões (R$ 365 milhões), de acordo com a assessoria de Paz.
O maior comprador
Desde que decidiu investir em arte contemporânea, nos anos 1980, Paz tornou-se o maior comprador desse mercado, posto que tomou do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira.
O braço financeiro do Instituto Cultural Inhotim é uma empresa chamada Horizontes. Ela era dona do terreno onde será erguido o centro de convenções até três meses antes da doação ao Estado. A Horizontes é controlada por uma offshore chamada Vine Hill Financial, criada nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal no Caribe. Offshore é um tipo de empresa que funciona em paraíso fiscal para pagar menos impostos e para dificultar que as autoridades saibam quem são os seus proprietários.
Foi outra empresa de fora do Brasil, a Flamingo Investment Fund, aberta nas Ilhas Cayman, que fez os maiores aportes financeiros na Horizontes.
Em menos de dois anos, a Flamingo emprestou US$ 126,4 milhões (R$ 231 milhões) à Horizontes, cujo capital é de R$ 650 mil (350 vezes menos que o valor emprestado). Dois especialistas em direito financeiro ouvidos pela Folha dizem que o dinheiro emprestado deve ser do próprio Paz.
Não dá para saber se todo esse valor foi investido em arte e no centro cultural. Se o recurso foi para comprar obras de arte, é um dos maiores investimentos privados já feitos no Brasil, similar apenas aos recursos usados para comprar a coleção do Masp, em 1947. O acervo do MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo, o principal do país em arte contemporânea, é avaliado em US$ 37 milhões.
Bienal de Lyon celebra o cotidiano por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo
10ª edição tem trabalhos de tom político e quase foi adiada, em razão de desligamento de ex-curadora.
Seis crianças são vistas refletidas em um espelho, até que uma delas pega um estilingue do bolso e o quebra. Então, todas correm com os cacos e sobem numa imensa árvore. O forte sol faz com que os reflexos desses estilhaços brilhem, transformando-se, magicamente, na árvore.
"Per Speculum", projeção do albanês Adrian Paci, é não só a obra mais falada da 10ª Bienal de Lyon, aberta ontem para o público, como a que melhor sintetiza seu tema, "O Espetáculo do Cotidiano", organizada pelo curador chinês Hou Hanru e que fica em cartaz até 3 de janeiro de 2010.
A mostra chegou a correr risco de ser adiada, quando a curadora Catherine David, até então responsável pela Bienal, desligou-se da instituição, em fevereiro passado. Hanru, curador recordista em bienais -já esteve envolvido em 20-, foi convocado e aceitou.
"Tive medo, claro. Organizar uma bienal em seis meses é um grande desafio, mas convoquei muitos artistas com os quais já trabalho há muito tempo", disse ele à Folha.
Distribuída por quatro espaços da cidade, entre eles o Museu de Arte Contemporânea e a Sucrière (um antigo depósito de açúcar), a Bienal reúne 59 artistas, agrupados em quatro temas: A Magia das Coisas, Elogio à Deriva, Um Outro Mundo É Possível e Vivendo Junto.
"O Espetáculo do Cotidiano" almeja ser conceitual. "A crítica à sociedade do espetáculo nasceu na França, mas a arte contemporânea vive um constrangimento pela perda de pertinência intelectual em vista de sua crescente mercantilização", disse o curador.
Contra esse panorama, Hanru selecionou coletivos e trabalhos com caráter político, como "A Boa Vida", do colombiano Carlos Motta, com 400 entrevistas, em 12 cidades, entre elas São Paulo. Em seis monitores, pessoas comuns discutem o papel da democracia e dos governos.
A Bienal de Lyon possui ainda um outro vetor denominado Veduta, voltado à periferia da cidade. "Serão 390 eventos e um fórum, para criar um vinculo mais forte entre arte e sociedade", diz Thierry Raspail, diretor artístico de todas as edições da Bienal e do MAC.
George Brecht (1926-2008), membro do grupo Fluxus, presente na mostra com várias obras, torna-se outra importante inspiração. "Os eventos mais importantes são as pequenas coisas que ocorrem nas ruas", costumava dizer o artista.
setembro 16, 2009
''Bienal será lembrada por inovar'' por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 16 de setembro de 2009
Setembro começou bem para a Bienal de São Paulo: no dia 1º, a instituição recebeu o ministro da Cultura, Juca Ferreira, que oficializou mais uma vez seu apoio à direção executiva da entidade, anunciando verba de R$ 4 milhões para que já se iniciem neste ano as reformas necessárias no prédio e colocando a fundação como peça-chave do Programa Brasil Arte Contemporânea, do Governo Federal. Mais ainda, Juca Ferreira apresentou o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp, como representante do Ministério na diretoria da Bienal, presidida pelo consultor Heitor Martins. Naquele mesmo dia, a Bienal realizou um jantar que arrecadou cerca de R$ 1,1 milhão para a instituição. E já pretende fazer outros eventos desse tipo, como um jantar beneficente este ano no Rio.
A todo vapor, Martins e sua equipe vão dando os passos para reestruturar a instituição, desgastada por crise de longa data, e ainda levando adiante o projeto de realização da 29ª Bienal de São Paulo, prevista, segundo ele, para ser inaugurada dia 21 de setembro de 2010 e encerrada em 13 de dezembro de 2010, tendo entrada gratuita. Com curadoria geral de Moacir dos Anjos, será mostra de fôlego, contando com participação em torno de 150 artistas (muitos deles já definidos, segundo a diretoria) e itinerâncias da exposição por outras cidades do País em 2011. A seguir, leia entrevista que Martins, acompanhado de Miguel Chaia, membro de sua diretoria, concederam ao Estado.
Depois do apoio oficial e direto do Ministério da Cultura, há já alguma novidade no projeto da Bienal de São Paulo? Poderia explicar melhor a entrada de Laymert Garcia na diretoria executiva da fundação, como representante do governo federal e qual será seu papel?
A entrada do Laymert foi excelente. Eu não o conhecia. Ele já participou de nossa reunião no dia 7 e foi ótima a discussão, já está totalmente integrado. A sugestão do nome dele foi do próprio Ministério, mas isso é a porta de entrada: uma vez na direção, ele participa como todos os outros.
Essa é a entrada do Governo Federal na Bienal como o sr. afirmou ser seu desejo colocar o poder público, de cada esfera, na instituição. Mas esse é o único?
É o primeiro, não vamos dizer que por enquanto o único. Nossa diretoria é colegiada, todas as discussões são trazidas para a mesa e todos os diretores debatem e dão seu voto. Laymert passa a ser integrante no time e ele, por afinidade, por ter em sua formação os temas institucionais, estará relacionado ao fortalecimento da portaria Brasil Arte Contemporânea.
A Bienal já pediu que os outros poderes públicos indiquem nomes para a diretoria da instituição?
Pedimos que cada poder indicasse um nome. O governo do Estado seria muito interessante que participasse, ele precisaria formalizar uma parceria mais próxima com a Bienal para que isso acontecesse. O município tem, é o proprietário do prédio e nos fornece uma verba anual (de R$1,8 milhão).
E já há alguma ação concreta feita com as verbas, como a do Governo Federal, de R$ 4 milhões?
A parceria com o Governo Federal é algo que vem de um diálogo de muito tempo. Temos uma agenda de reuniões quinzenais com o Ministério. Desde o princípio, na minha eleição, o ministro fez seu sinal de apoio em duas notas; desenhamos os programas de Lei Rouanet com eles e já submetemos à lei nosso projeto, de R$ 2 milhões para curadoria e pré-projeto e R$ 27 milhões para a mostra principal. Começamos há dois meses os diálogos sobre a necessidade de se reformar o prédio e o anúncio dos R$ 4 milhões para isso é, de uma certa forma, um passo de uma conversa que já vinha ocorrendo, já temos um pré-plano de obras, que devemos começar ainda no fim deste ano. Vamos também começar o diálogo com o BNDES, como o ministro falou, para ver se a gente consegue os recursos para a climatização do prédio (R$ 10 milhões).
Qual será o papel da Bienal no programa Brasil Arte Contemporânea lançado pelo Ministério?
Tem um aspecto muito importante para o Brasil, que vai além da Bienal. Quando os artistas brasileiros são convidados para mostras importantes, como a Bienal de Veneza ou a Documenta de Kassel, nós não temos no País um mecanismo estruturado de apoio a eles, que acabam dependendo de suas galerias, ou de institutos de outros países, ou aportam recursos próprios. A ideia da portaria em parceria com a Bienal é criar um mecanismo de apoio para artistas brasileiros para que possam participar desses tipos de mostra. Eles entram com pedido de apoio e a gente terá um processo definido para decidir se apoia e como apoia. Idem com publicações lá fora. A maior parte das publicações sobre arte brasileira é feita aqui no Brasil e poucas publicadas no exterior. O MinC cria um marco regulatório para isso com o programa, com aporte de recursos e um comitê. A Bienal fornecerá um tipo de estrutura para isso, será um braço executivo. A Bienal poderá contribuir, fazer seu papel institucional, além de preparar a mostra.
E a questão do Pavilhão Brasil da Bienal de Veneza?
Estamos finalizando a renovação do convênio da Bienal de São Paulo com o Ministério da Cultura e com o Ministério das Relações Exteriores, é tema que nos próximos dois meses a gente resolve.
Já estão definidas as itinerâncias da 29ª Bienal para 2011?
Serão entre 9 e 12 mostras itinerantes. Possivelmente, um núcleo vai itinerar pelo interior de São Paulo e dois pelo Brasil, passando por três ou quatro cidades. Antes da itinerância, também teremos uma coordenação com as outras instituições de São Paulo. Vamos apresentar aos diretores das instituições esboço de plano de divulgação conjunta, contemplando uma campanha de marketing no exterior e uma publicação, tipo um jornal ou uma revista da Bienal, para a época do evento que contemple as outras mostras da cidade e, eventualmente, até um catálogo conjunto.
A 29ª Bienal poderá ter um perfil mais conservador depois de a instituição ter passado por um período de desgaste e crise tão intenso que se refletiu com a Bienal anterior, a apelidada Bienal do Vazio? Falou-se também na expectativa de 1 milhão de visitantes.
Acho que a 29ª Bienal será muito importante, porque consolidará um novo modelo das bienais, que vem em gestação desde a década passada: sem representações nacionais, sem núcleos históricos, uma mostra dedicada ao estudo da arte contemporânea.
Como estão as dívidas da Bienal de São Paulo?
Estamos pagando as da 28ª Bienal, que são por volta de R$ 800 mil, por meio de recursos da Lei Rouanet e doação do Banco ABC e da Oi. As da 27ª Bienal, em cerca de R$ 200 mil, vamos liquidar com recursos do jantar. Temos também dívidas com fornecedores, de R$ 200 mil.
E a dívida de R$ 500 mil ao ex-presidente Manoel Pires da Costa?
Nós ainda não entramos nesse tema.
PRÓXIMOS PASSOS
CURADORES: Ainda este mês serão anunciados os três curadores internacionais da equipe da 29.ª Bienal, coordenada por Moacir dos Anjos. O curador brasileiro Agnaldo Farias já faz parte, assim como a arquiteta Marta Bogéa, Stela Barbieri (programa educativo) e Felippe Crescenti (projeto gráfico).
JANTAR: Até o fim do ano, será realizado no Rio um jantar para a apresentação do projeto da Bienal aos cariocas e, também, arrecadar fundos.
setembro 15, 2009
Inhotim e a grande arte do privilégio por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 15 de setembro de 2009
Delírio de um multimilionário mineiro da área de mineração, Bernardo Melo Paz, o Instituto Cultural Inhotim é tão grande quanto privilegiado. O centro mineiro de arte contemporânea, desde que se instalou no cenário da arte contemporânea nacional, vem colecionando largos privilégios de verbas e ajudas oficiais. O mais recente: para facilitar o acesso ao local, que fica a cerca de 60 km de Belo Horizonte, o governo de Minas primeiro construiu a estrada Barreiras-Brumadinho. Agora, Inhotim queixou-se que a pontezinha que dava acesso ao gigantesco museu era estreita. Não teve problema: o governo de Minas Gerais começou a construir em tempo recorde, 180 dias, uma portentosa ponte de R$ 2,5 milhões sobre o Rio Manso, além de pavimentar o trecho. Na semana passada, caminhões e tratores trabalhavam furiosamente para finalizar o acesso, embora a velha ponte dê conta do serviço tranquilamente.
A direção do museu considera que, como o Inhotim é o museu mais visitado de Minas Gerais e referência na arte contemporânea, é um fator de desenvolvimento, "o que justificaria qualquer apoio do governo de Minas", considera a diretora executiva do Instituto Inhotim, Ana Lúcia Gazzola.
Do Governo Federal, Inhotim ganhou recentemente a possibilidade de obter renúncia fiscal da ordem de R$ 13 milhões para gastar no seu plano anual de atividades de 2010 a 2011 (vem sendo habilitado para tanto desde 2008, quando captou R$ 1.595.000,00). Somente para a agenda de 2009, teve aprovado R$ 1,1 milhão da Lei Rouanet. Tem patrocínios generosos da Petrobrás e outras estatais mineiras, e subsídios do Fundo Estadual de Cultura. Ainda assim, cobra R$ 15 pela entrada.
Inhotim é como um buraco negro espacial, vai crescendo e engolindo matéria. Mas às vezes encontra resistência. No mês passado, o Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu que Inhotim pretendia fazer a municipalidade construir um Centro de Convenções em um dos seus terrenos. Detalhe: doaria o terreno, mas em troca queria o usufruto do Centro de Convenções durante 20 anos. O TCU brecou a manobra.
"Vedado o estabelecimento de condição que confira à entidade privada a gestão do empreendimento que será construído, cuja exploração é prerrogativa do poder público", escreveu o juiz auditor, Augusto Sherman Cavalcanti, ao negar o pedido.
Apesar do percalço, Inhotim continua crescendo pelas beiradas. No dia 29, o centro de arte apresenta 9 novas aquisições de arte contemporânea, obras de gente como Matthew Barney, Doug Aitken, Chris Burden e Yayoi Kusama.
"Muitas das obras foram adquiridas há vários anos, pagas parceladamente ao longo do período e não há estimativa atual de valor venal", explica Ana Lúcia Gazzola. "São obras muitas vezes comissionadas e realizadas pelos artistas no próprio local com custo de material, instalação, além das despesas de viagem e hospedagem. Muitas obras, por suas dimensões, sequer poderiam ser postas a venda, o que dificulta estimar o valor da obra".
No pequeno município de Brumadinho (no Vale do Paraopeba, a 50 km de Belo Horizonte), não pega bem falar mal de Inhotim. Para uma economia baseada na cachaça e na extração mineral, com tímida produção cultural local, o megacentro é uma redenção em todos os sentidos. São 513 empregos diretos gerados. Só para orientar os visitantes nos pavilhões dos artistas, foram contratados 68 estudantes das faculdades locais.
"Até o fim do ano, serão contratados mais uns 30", disse um dos garotos que trabalham como monitores. "É gente das faculdades de Artes, de História, mas tem também gente de Matemática, de setores que não têm nada a ver com arte".
Dona Inês, que vende artesanato de barro na estrada Barreiras-Brumadinho, não titubeia quando é indagada sobre quanto houve de incremento na venda de suas modestas peças após a abertura do Centro de Arte Contemporânea. "Ah, cresceu 100%", jura.
O museu conta com agressiva política de residências artísticas. Mas nem sempre mete a mão no bolso para realizar seus projetos. Na semana passada, teve aprovado pelo Iphan o projeto Manifestações Culturais Quilombolas do Vale do Paraopeba, pelo qual concorria com outras 95 propostas do País. É um programa de patrimônio cultural imaterial. Mas o Iphan entra com R$ 105 mil, e a contrapartida de Inhotim é de apenas R$ 4,3 mil.
Segundo a administração do Instituto Inhotim, o museu é atualmente uma entidade privada, sem fins lucrativos e qualificada pelo governo do Estado de Minas Gerais como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Bernardo Paz, seu criador, atua hoje somente como diretor da instituição. O acervo que compõe o complexo foi formado a partir da década de 1980, e tem como foco obras criadas a partir dos anos 1960. Algumas obras do acervo, segundo a direção, foram doadas por artistas ao Inhotim, outras foram cedidas por Bernardo Paz ou empresas associadas a ele. As obras monumentais (fixadas no solo) estão sendo colocadas em comodato de longo prazo.
O museu vende a ideia de que o Parque Tropical possui áreas que seguiram conceitos sugeridos pelo paisagista Roberto Burle Marx. Em 1984, Burle Marx visitou o local e teria apresentado algumas sugestões e colaborações para os jardins. Mas o atual projeto paisagístico é bastante diferente daquela ideia original de Burle Marx. A área é imensa, quase 10% da de todo o município de Brumadinho.
Criador de museu era empresário, hoje vive enfronhado com a arte
Na quinta-feira passada, por volta das 14 h, um homem de cabelos compridos, camisa-bata branca, calça de tecido mole e chinelos brancos caminhava em direção ao restaurante de Inhotim - um bufê de 5 estrelas, metade das mesas ao ar livre, com peras recheadas de gorgonzola, saladas de endívias e doces típicos mineiros.
Cabelos grisalhos e longos, andar arrastado e seguro, o homem de uns 50 e poucos anos parecia um pouco uma mistura de Oswaldo Montenegro com Kris Kristofferson. Ele entrou e se dirigiu a uma mesa nos fundos, dedicando-se a algo que parecia uma séria reunião de negócios enquanto almoçava. Depois, com um cigarro apagado entre os dedos, caminhou em direção ao espelho d’água que fica no teto do Centro Burle Marx. Ali, começou a abrir caixas de papelão e espalhar pessoalmente, assistido por funcionários, as bolas metálicas que compõem a novíssima instalação da japonesa Yayoi Kusama, "Jardim de Narciso".
O homem era o empresário Bernardo Paz, figura controversa das artes nacionais, um mecenas que já declarou publicamente não gostar de "artista morto". Paz é irmão de Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério (o operador do chamado "mensalão") na SMP&B e DNA Propaganda.
Entretanto, forçar uma associação imediata da gestão de Inhotim com esse grupo, sem comprovação, pode servir somente a interesses políticos. Recentemente, um jornal da região reproduziu declaração do senador José Nery (PSOL-PA), afirmando que este protocolaria requerimento para incluir Inhotim na CPI da Petrobrás. Nery diz que nunca deu a declaração e nem integra a CPI.
Paz é dono da Itaminas, que já esteve entre as maiores produtoras de ferro de Minas. No ano passado, colocou à venda um dos principais ativos da empresa, uma mina de ferro com reservas de 1,3 bilhão de toneladas. Segundo o jornal "Valor Econômico", a Itaminas é do fim dos anos 50 e de controle familiar. Em Sete Lagos e Itatiaiuçu, o grupo opera três produtoras de ferro-gusa, e essa produção fez com que o grupo fosse acusado de agressão ao meio ambiente.
Paz vive literalmente enfronhado entre arte contemporânea (reside ali mesmo). E foi ali que, em 2005, casou com a artista Adriana Varejão, numa festa para 300 convidados. Adriana, é claro, tornou-se dona de um dos mais portentosos pavilhões do centro.
Mercado de arte migra para a internet com galerias virtuais por Silas Martí, Folha Online
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Folha Online, em 11 de setembro de 2009.
Está mais elástico, e mais cheio de pixels, o cubo branco. Na esteira do crescimento do mercado de arte, que viu galerias brasileiras ganharem peso internacional, galeristas põem obras à venda na internet.
Focados em nichos diferentes de mercado, sites como o Invest.art e a Galeria Magenta estão no ar há cerca de dois meses. Juntos, vendem obras originais de mais de 20 artistas e planejam ampliar esse quadro.
Antecipando a concorrência, galerias tradicionais aumentam a presença no mercado on-line. As paulistanas Casa Triângulo e Nara Roesler, por exemplo, estudam abrir um braço de vendas dentro de mercados virtuais como o Submarino. Outras, como a Virgílio e a carioca Novembro Arte Contemporânea, já estão até no Facebook.
Outro braço do mercado também já está on-line: o site InArts cuida do licenciamento de imagens de obras para publicação em livros e catálogos.
"Recebo e-mails todo dia de gente querendo entrar para a galeria", diz Tato DiLascio, dono do Invest.art, que representa artistas como Anaisa Franco e Marcela Tiboni, com obras de R$ 230 a R$ 60 mil. "A internet é mais uma possibilidade."
No ar, mas ainda longe de "bombar", a Galeria Magenta se concentra na produção de jovens ilustradores, com preços mais modestos, de R$ 9 a R$ 6.000. "Não existia mercado específico para isso", diz Fernanda Guedes, da Magenta.
"Galeria de arte não é o lugar mais acolhedor do mundo, tem toda uma aura de sofisticação em que as pessoas muitas vezes não se sentem bem", diz Guedes. "Criar esse ambiente talvez tire esse ranço do exclusivo. Na internet, o cliente pode olhar, observar sem pressão."
Sem pressão nem precisão. Se ficou mais fácil digitar o número do cartão de crédito e esperar a obra chegar pelo correio, pode ser bem mais difícil analisar um trabalho original pela tela do computador.
"Tem um tipo de obra que o colecionador precisa tatear, vivenciar em pessoa para decidir se vai comprar ou não", opina a galerista Luciana Brito. "Seria bom talvez para algumas obras mais baratas ou múltiplos."
Eduardo Leme, da galeria Leme, também prefere o mundo real. "Não sou simpático à ideia", diz. "Tem uma negociação muito mais ampla do que só chegar e apertar o "enter"."
Também tem a ver com descer do pedestal. Arte não se mistura fácil à oferta de passagens aéreas, DVDs, livros e outros itens recorrentes nos carrinhos de compra virtuais. "A gente tem arte em outro patamar", diz Ricardo Trevisan, da Casa Triângulo. "Você não entra na internet para comprar um refrigerador e uma obra de arte. O virtual é virtual, mas a gente está trabalhando na real."
"Surpresa bacana"
Real ou virtual pouco importam para a galerista Luisa Strina, uma das primeiras a oferecer obras de seus artistas pelo site norte-americano Artnet. "Fora do Brasil, tem regras: a pessoa paga, a gente manda a obra de arte", conta. "Mas aqui as pessoas têm muito medo que a gente mande uma obra estragada, de a coisa não chegar."
Sobre a visualização on-line, Strina acredita que já é possível ter uma boa noção da qualidade do trabalho pela internet. "Tem obras das quais você não precisa ver detalhes", diz. "Cada vez mais as pessoas vão comprar trabalhos pela internet."
Ainda com certo receio, Eliana Finkelstein, da galeria Vermelho, diz que já chegou a vender obras a colecionadores que viram o trabalho pela internet, mas que já conheciam o artista em questão. De virtual, por enquanto, quer vender só os livros e múltiplos do anexo Tijuana.
No mundo só da internet, Fernanda Guedes, da Magenta, admite que "nada substitui ver a coisa ao vivo", mas adianta que é possível observar, pelo site, detalhes ampliados das ilustrações. Tato DiLascio, do Invest.art, diz que comprar on-line leva sempre a uma "surpresa bacana". "Quando chega à sua casa, vê que saiu ganhando."
A performance dos outros por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 13 de setembro de 2009
Laura Lima usa o corpo de homens e mulheres como esculturas vivas em ações artísticas
Primeira a ter performance comprada por um museu no país, artista tem duas mostras em cartaz e faz curadoria da próxima Bienal do Mercosul
Laura Lima não encontra palavras para descrever o que faz. Mal toca no doce que pediu no café enquanto dava esta entrevista, como se esperasse alguém para comer em seu lugar. Também é uma artista de corpo ausente da própria obra. Só o corpo, porque define, de forma cerebral, até o último milímetro as tarefas que suas "pessoas-carne" terão de executar. Lima não faz performances, mas põe gente em ação.
Foi a primeira artista no país a ter uma dessas ações compradas para o acervo de um museu. Agora tem duas individuais em cartaz, uma em São Paulo e outra no Rio, e está na curadoria da próxima Bienal do Mercosul -sinal de que não para, mesmo que fique por trás das cenas.
Na obra que primeiro deu projeção a esta mineira radicada no Rio, uma menina de oito anos vestia uma camisola branca e brincava de pular corda numa piscina de gelatina vermelha. "Parecia um parto às avessas", diz Lima sobre a ação no parque Ibirapuera em 1996. "Não pensei que ela se sujaria inteira, foi algo indomável."
É o aspecto volúvel, o curso do trabalho na mão de terceiros, que define toda sua obra. Lima diz buscar a "energia vital" em tudo que faz, mas fica um passo antes da performance, já que mostra o corpo vivo como se fosse escultura. Obriga suas "pessoas-carne", como define os executores de suas tarefas, a passar horas a fio instaladas no espaço expositivo, algo como múmias que respiram.
"Não tem início, meio e fim", diz. "Esse corpo está ali, vivo, mas num sentido museográfico, como se fosse uma pintura." Ou escultura. "Puxador" era um homem nu amarrado às colunas do Museu da Pampulha por uma série de cordas, como se fosse deslocar o prédio com a tração do corpo. Noutra versão do mesmo trabalho, ele entrava no espaço amarrado às árvores e postes do lado de fora. "É a pessoa-carne que puxa as paragens para dentro da galeria", descreve. "É o que muitos pintores de paisagem já fizeram."
Mas já incomodou a nudez desse homem, tanto que um museu pediu à artista que cobrisse as carnes de sua pessoa. Ela recusou e cancelou o trabalho. "É em torno disso que se constrói a imagem", diz ela. "É o corpo ali na situação mais crua, uma pesquisa primordial que faço em torno da matéria."
Essa matéria é carne, e a crueza mostra que está viva. Lima se liga de maneira umbilical ao performer Vito Acconci por suas preocupações arquitetônicas, sua obsessão pela incerteza do instante e pelo recurso à nudez como expressão formal. Mas também confeccionou muitas roupas, seus chamados "Costumes", para embalar a carne -ação que lembra o brasileiro Flavio de Carvalho, outro pilar que sustenta sua obra.
Como ele, que foi arquiteto, artista, performer e escultor, Lima diz não se encaixar em lugar nenhum. "Estou tão focada nas minhas questões, que não existe nem uma palavra para descrever o que estou fazendo", pondera. "Talvez o glossário da arte esteja um pouco aquém."
Não espanta que ela gaste tanto tempo explicando o trabalho a cada "pessoa-carne" que aparece para executar suas ações, o momento de "moldar" o performer. Com medo de que museus acabem descartando essa ação e mostrando só os instrumentos do trabalho, como cordas e roupas numa vitrine, Lima pretende gravar depoimentos para a posteridade. "Não vou fazer uma coisa totalitária, mas os desvios serão apontados", diz. "Eu construo aparatos para o corpo, mas é proibido mostrar só o aparato."
Só que ela sabe que corre o risco de tudo virar fetiche quando não estiver mais por perto, por isso assiste às ações como o público. "Eu sou mais um que olha", resume. "Aquilo tudo é risco, a coisa inexorável daquele instante sem ensaiar."
Quadrado negro por Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo
Matéria de Ferreira Gullar originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 13 de setembro de 2009
Malevitch rompeu com a figura para expressar a sensibilidade da ausência do objeto
KASEMIR MALEVITCH , juntamente com Wassily Kandinsky e Marc Chagall, é um dos mais representativos nomes da vanguarda russa do começo do século 20. Mas o que o distingue daqueles dois outros pintores é o caráter radical de sua experiência artística, que o levou ao limite da expressão pictórica. Nos anos iniciais do século 20, era intenso o intercâmbio cultural entre as capitais europeias -especialmente Paris- e a Rússia ocidental, cujos principais centros de cultura eram São Petersburgo e Moscou.
Na verdade, a elite econômica e intelectual russa vinha beber na Europa ocidental as novidades artísticas, as expressões inovadoras que sacudiam a vida cultural europeia. Assim como, para a surpresa de Karl Marx, as ideias comunistas encontraram na Rússia terreno fértil para se implantarem e se desenvolverem, mais do que nos países europeus desenvolvidos, também o cubismo e o futurismo ali se implantaram e floresceram, dando origem a movimentos inovadores, em espantosa quantidade, que surpreenderiam os parisienses ou berlinenses.
A exposição "Virada Russa", que esteve no Rio e agora pode ser vista no Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo, permite ao visitante constatar isso: as obras expostas surpreendem pela vitalidade e pela audácia criativa de seus autores, que, influenciados pelas vanguardas europeias, ultrapassaram o que elas propunham, ou inovando ou levando às últimas consequências o que, em Paris, Berlim ou Milão, ainda eram simples possibilidades ou potencialidades irrealizadas.
Deve-se observar, também, que essa ebulição estética, na Rússia, coincidia com a efervescência revolucionária, no plano social, que culminaria com a Revolução de 1917. Kandinsky e Chagall tomaram rumo próprio, inovadores que eram, mas voltados mais para uma poética do sonho (Chagall) ou da espiritualidade (Kandinsky). O rumo tomado por Malevitch, Tatlin, Lissitzky e Rodchenko, entre outros, parte das possibilidades implícitas tanto no cubismo quanto no futurismo e as levam à ruptura com a linguagem da pintura e da escultura.
A obra "Quadrado Negro", de Malevitch, exposta na referida mostra, é um dos momentos extremos dessa radicalidade. Outro momento é o "Contra Relevo", de Tatlin -que também integra a exposição-, e cuja denominação e concepção inspirou uma série de obras de Hélio Oiticica. O "contra relevo" é uma invenção do artista russo, que dá consequência a uma questão posta aos escultores modernos, ou seja, a concepção de uma forma abstrata, sem a base que a sustenta e, ao mesmo tempo, separa do mundo real. Dentro dessa problemática, mais tarde, Moholy Nagy conceberia a escultura que se mantinha no ar graças ao impulso do ar comprimido.
Mas voltemos ao "Quadrado Negro". Malevitch -que inicialmente pintou quadros por ele intitulados de cubofuturistas- rompeu radicalmente com a figura ao criar o movimento suprematista, em que pretendia expressar "a sensibilidade da ausência do objeto". Assim que, no referido "Quadrado Negro", pretendia nos dar o objeto ausente. Não obstante, aquele quadrado, se não era a figura de um objeto, era ainda uma figura -uma figura geométrica. Por isso, a pretensão malevitiana de chegar a uma linguagem essencial, totalmente não figurativa, mostrou-se inviável.
Já antes, em 1918, havia levado essa tentativa a seu extremo limite, quando pintou o "Quadrado Branco sobre Fundo Branco", pois o passo adiante seria a tela em branco, o fim da pintura ou seu recomeço. Foi quando abandonou a tela e passou a construir, no espaço real, as "arquiteturas suprematistas", de que há alguns exemplares na referida mostra.
A mesma radicalidade levou Lygia Clark ao quadro todo negro e, depois, ao quadro todo branco, que significava, como o foi para Malevitch, o impasse. Também ela abandonou a tela para construir os seus "Bichos", no espaço real. Isso, sem saber do que fizera o artista russo, décadas atrás. É que ela, como Malevitch, havia enveredado pelo mesmo caminho: a utopia de uma arte autônoma, desligada da representação da realidade exterior.
Até a década de 1950, o mundo conhecia mal as vanguardas russas, que haviam sido subitamente tiradas de cena, depois de 1924, quando morreu Lênin e assumiu Stálin. A arte russa retrocedeu para o figurativismo retórico do realismo socialista. Foi o livro "L'Art Abstrait", de Michel Seuphor, publicado nos anos 50, que me revelou o que hoje nos mostra a exposição aberta agora no CCBB de São Paulo.
Retrospectiva percorre caminho da alegria por Noemi Jaffe, Folha de S. Paulo
Matéria de Noemi Jaffe originalmente publicada em colaboração para a Ilustrada do jornal Folha S.Paulo, em 11 de setembro de 2009.
Na apropriação estética de materiais e objetos de uso cotidiano, de consumo fácil, existe um caminho que não é nem o da ironia mordaz à reprodutibilidade nem o do adesismo fácil e fetichista ao kitsch. Na retrospectiva de Leda Catunda, na Estação Pinacoteca, que reúne 70 obras que vão de 1983 a 2008, é possível encontrar esse terceiro caminho.
Diria, temerosamente, que é o caminho da alegria. Temerosamente, porque, em arte, além de ser difícil conquistar a alegria, também é passível de preconceitos aquele que diz encontrar alegria num trabalho artístico. "Mas só alegria? Sem densidade, opacidade?" Sim, a alegria é tão ou mais difícil de ser conquistada que o dramático e, sim, "só" alegria.
Esse terceiro caminho, quando se passeia entre Cebolinhas, Pernalongas, biribas, cobertores, almofadas, Adão e Eva e El Greco, é o caminho das possibilidades, dos encontros inesperados entre coisas, pessoas, paisagens e materiais. Uma espécie de infinita pergunta que diz:
"Como seria se eu misturasse o Corcovado com um guardanapo? Um teto de fusquinha com veludo vermelho?". E o resultado, assim, não é irônico nem kitsch, mas possível. Daí a alegria; da conversa surpreendente que pode surgir entre tudo.
Obras em que os espaços vazios, que são muitos, não significam o grande vazio, o impreenchível, mas, ao contrário, espaços para preencher, como numa brincadeira de ligar os pontos. São vazios lúdicos, não trágicos. E, contrastando com os espaços vazios entre os materiais, os buracos, os vãos, há, na mesma quantidade, os vasos comunicantes. Em quase todos os trabalhos encontramos vesículas, ligações, tubos, conexões: são a explicitação dessas possibilidades. Tudo se liga de alguma maneira e um grande pensador também dorme sobre um colchão barato.
Natureza
Vendo várias obras, como "Mundo Macio", "Almofadas Amarelas", "Duas Luas", dá vontade de se lançar sobre esses materiais-paisagens, e de se refestelar na "poética do macio", como a artista denominou suas obras. Como se uma almofada de loja de departamentos fosse uma campina de grama fofa e vice-versa.
Os caminhos da natureza são também formas, como a estrada entre duas montanhas, um lago japonês, três montanhas e, reversivelmente, os materiais são também paisagens. Olhando para essas obras amorosas, nos títulos, nos encontros, nas tramas, nas surpresas, é fácil lembrar-se de uma canção em que tudo isso também comparece, inclusive um certo nonsense: "Deu meia-noite, a luz faz o claro/ eu assubo nos aro/ vou brincar no vento leste/ A aranha tece puxando o fio da teia/ a ciência da abeia, da aranha e a minha/ muita gente desconhece".
"O corpo já não é mais tão importante" por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha S.Paulo, em 11 de setembro de 2009.
Vito Acconci, referência da body art, fala sobre o fim da era das performances e de como quis "grudar na arquitetura"
Artista norte-americano que agora trabalha como arquiteto dá palestra hoje em festival de performances que vai até domingo no Rio
Quando se escondeu sob o piso de uma galeria e se masturbou oito horas por dia gritando fantasias sexuais por entre as frestas do chão, Vito Acconci tentou fundir arte e arquitetura. Sêmen foi a argamassa da construção, um dos pontos de partida da chamada body art.
"Seedbed", sua obra de 1972, veio um ano depois que Chris Burden levou um tiro no braço em outra ação artística em galeria e pouco antes de despontarem performers como Ana Mendieta e Marina Abramovic.
"Era a linguagem do tempo, todos faziam isso na época", diz Acconci, em entrevista exclusiva à Folha. Ele participa hoje, no Rio, do festival Presente Futuro Vol. 2, no Oi Futuro.
Se havia então uma "corrente do tempo" ligando o artista a Burden, Bruce Nauman e até ao rock de Neil Young, Acconci está por trás do amálgama de arte com arquitetura que se desdobra agora como vertente turbinada na arte contemporânea. Não à toa, faz tempo que não se diz artista e comanda um escritório de arquitetura.
"Minha presença nas performances estava começando a me incomodar, não queria que me vissem toda hora, num culto à personalidade", diz Acconci. "Preferi me fundir ao espaço, fazer parte da arquitetura."
Depois de se vendar e ameaçar espectadores com barras de chumbo e de ações em que tentava abrir à força os olhos bem fechados de sua namorada, quis sair de cena e tornar o público em usuário de sua obra.
"Nessa onda de me autoexaminar, descobri que a personalidade não é essa joia preciosa que tentamos lapidar, o corpo já não é mais importante", afirma. "Nunca tive um lugar na arte porque não queria espectadores, queria participantes, habitantes das minhas obras."
Acconci também morou numa espécie de obra. Viveu anos no mesmo loft em que Gordon Matta-Clark testou suas alterações arquitetônicas. Era o artista que ficou conhecido por furar, rachar e desconstruir prédios em Manhattan e pelo mundo. Esse frescor voraz vai respingar depois nos projetos arquitetônicos de Acconci.
"Ele fazia suas obras no espaço urbano removendo coisas, não acrescentando", lembra.
"Arquitetura totalitária"
Acconci então passou a esvaziar galerias e destacar a construção do espaço. Na instalação "Instant House", visitantes acionavam um mecanismo que fazia brotar do piso portas, paredes, janelas. "Queria grudar na arquitetura a todo custo."
Mas uma vez colado nela, perguntava o que fazer. Uma de suas obras era uma mesa no espaço expositivo que se prolongava para fora da janela, uma espécie de trampolim sobre a cidade lá embaixo. Sua voz gravada era um discurso sem rumo, como se antecipasse a angústia da vida coagida pela arquitetura e convidasse seu público a mergulhar no asfalto.
"A arquitetura pode ser totalitária", diz Acconci. "Hoje em dia eu tento dar mais escolhas aos habitantes das minhas obras." (SILAS MARTÍ)
