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agosto 21, 2009
Para Juca, sucessão não afeta MinC por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo, em 21 de agosto de 2009.
Ministro, em entrevista ao Estado, disse confiar que ex-ministro Gilberto Gil não vai sair candidato e critica o próprio partido
Na quarta-feira à tarde, na sede da Funarte, nos Campos Elísios (centro de São Paulo), o ministro da Cultura, Juca Ferreira, encontrou-se com artistas e produtores de artes cênicas e anunciou que o texto da nova Lei Rouanet já está pronto, na Casa Civil, esperando pareceres da área financeira do governo. Segundo Ferreira, o projeto pretende "inverter a equação" que vigora atualmente no incentivo à cultura - em vez de 80% dos recursos saírem via renúncia fiscal e 20% serem pelo orçamento direto, serão 80% para o Fundo Nacional de Cultura.
Também declarou que sua gestão está apoiando "o processo de revitalização da Bienal de São Paulo". Atualmente, a diretoria da bienal está impedida de tomar posse por conta de uma decisão da Curadoria de Fundações do Ministério Público do Estado de São Paulo. "Não há a possibilidade de a gente ver a decadência desse evento. Com a Bienal de Veneza, é um dos mais importantes do planeta, é o maior evento globalizado de artes do País."
Ferreira, que é filiado ao Partido Verde, também falou ao Estado sobre a possibilidade de a ex-senadora do PT Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, sair candidata à Presidência da República pelo seu partido. "O PV não está à altura de Marina", afirmou.
O ministro considerou que não há ameaça à estabilidade do Ministério da Cultura com a eventual candidatura dela e de Gilberto Gil como seu vice. Primeiro, ele não acredita na candidatura de Gil. Como ele é um ministro verde, ficaria numa situação difícil na pasta - o PT de São Paulo já insufla nomes para uma eventual substituição, como os de Sergio Mamberti e Angelo Vanhoni. Mas as críticas do ministro ao próprio partido mostram que ele está mais fechado com a candidatura de Dilma Rousseff (PT).
Ferreira veio a São Paulo para anunciar recursos extraordinários de R$ 18,4 milhões para editais de fomento às artes em todo o País pela Funarte. Disse que sua ambição, em relação à cultura, é fazer com ela "o deslocamento de algo insignificante em algo central no processo de desenvolvimento".
Ferreira falou para uma plateia que incluía o maestro John Neschling; o diretor do Instituto Tomie Ohtake, Ricardo Ohtake; e dirigentes de associações artísticas, como Eduardo Barata (APTR-RJ) e Ney Piacentini (Cooperativa Paulista de Teatro).
Eis alguns dos principais pontos da entrevista:
REFUNDAÇÃO
"O partido tem que ser refundado, não está à altura de Marina. O PV perdeu bastante dos nossos vínculos com os princípios e os programas do partido."
JUNTOS NO PALANQUE
"Depende (o apoio dele a Marina). Se significar uma fissura na luta pela inclusão social e a luta contra a desigualdade e a questão da sustentabilidade, não apoio. (A sustentabilidade) tem que ser articulada com outras demandas humanas. Os ambientalistas não podem ter uma postura da luta por uma causa tão transcendental que substitua as outras."
CHICO MENDES
"A saída da Marina não tem a ver com o (convite do) Partido Verde. Há um precedente histórico: pouco antes de ser assassinado, Chico Mendes estava trocando o PT pelo PV. Não foi o convite que foi a motivação da saída dela, mas as próprias preocupações ambientais dela."
GILBERTO GIL
"Conversei com ele ontem à noite. Não vai sair como vice (Fui ver um filme de ficção chamado Besouro, que tem a música dele como trilha sonora. Nos encontramos e conversamos. O filme trata de um lendário capoeirista que havia na Bahia. Diziam até que tinha a propriedade de se tornar invisível, o Besouro. Fiquei bastante satisfeito com o filme e com a música dele). Ele tem a mesma posição que eu: Gil teme que a candidatura de Marina signifique uma ruptura entre a luta pela inclusão social e a luta pela sustentabilidade. A luta ambiental, na política, também tem de desenvolver alianças. Ele não me autorizou a dizer isso, mas prefere que a luta ambiental se realize dentro de um processo crítico."
ALIANÇAS
"Alguns setores do Partido Verde preferem alianças com os tucanos. Eu prefiro o compromisso com as lutas sociais. Mas esse não é o principal problema. Hoje, o fisiologismo está presente dentro do PV, e a ação política parte dos quadros mais fisiológicos do partido. O aparato de poder está nas mãos dos que têm uma tendência fisiológica."
TROCA DE PARTIDO
"Essa é mais a vontade do desejo de alguns do que a realidade (Juca Ferreira deixar o PV para filiar-se ao PT). Ou eles têm poder adivinhatório, ou então é um convite. Ou é apenas a manifestação do desejo, como eu acredito."
OLHO NO OLHO
"Eu olhei bem no olho dela e perguntei: você é capaz de abdicar da luta pela redução das desigualdades? E ela me respondeu: Você acha que eu sou maluca? O que ela fez até agora? Ela queria trabalhar a agenda ambiental fora do PT. E foi ela mesma quem disse que o PV precisa ser refundado programaticamente. A senadora não demonstra intenção de romper com as preocupações sociais dela."
FERNANDO GABEIRA
"Gabeira está entre ser candidato ao Senado ou ao governo do Rio de Janeiro. Eu disse a ele que se ele for candidato ao governo, será usado como uma escada para a oposição, e que eu preferia que fosse candidato ao Senado. No Senado, ele pode cumprir um papel político de maior grandeza."
VICE NA CHAPA
"O Partido Verde tem um minuto de TV, tem de buscar alianças (para fazer campanha efetiva na televisão). Então, não acredito que Gabeira queira ser vice."
Funarte recebe recursos, mas artistas pedem regularidade
Governo anuncia suplementação de verba de R$ 18,4 milhões para a fundação
O "risorgimento" da Funarte, um dos compromissos assumidos pelo ministro da Cultura já em sua posse, parece estar ensaiando os primeiros passos. Anteontem, com os recursos de R$ 18,4 milhões adicionados aos editais de artes, já são R$ 36,2 milhões repassados à instituição na gestão de Sérgio Mamberti.
"Para subir a escada, é preciso subir o primeiro degrau. E depois outro, e mais outro", disse Juca Ferreira. A estratégia de conta-gotas, no entanto, não agrada a alguns dirigentes teatrais. "Por que nós todos não nos unimos numa grande causa, maior e mais efetiva, em torno da aprovação da PEC 150, por exemplo?", sugeriu Ney Piacentini, da Cooperativa Paulista de Teatro, discursando para os colegas na Funarte. O ministro concorda com a ação coletiva, mas sugeriu que as próprias entidades enviem mensagens ao Congresso, onde está o projeto, e ao presidente, pedindo apoio à aprovação.
A PEC 150 é uma proposta de emenda constitucional que garante, na própria Constituição brasileira, e que fixa o patamar das receitas para a cultura em pelo menos 2% do Orçamento da União. "Atualmente, está em menos de 0,6%", revelou Juca Ferreira. "É algo em torno de 0,58%."
O ministro também disse que está tendo conversas com o presidente Lula buscando medidas para diminuir o impacto da fuga de patrocinadores da Lei Rouanet. "Com o retraimento do empresariado, é preciso agir, para minorar os impactos da crise na nossa área", afirmou. Ele disse que a Petrobrás, o principal patrocinador da área estatal, deve anunciar a retomada dos investimentos na cultura com um grande pacote nos próximos dias, apesar da queda drástica do preço do petróleo no mercado, que afetou o lucro.
Ferreira espera que o debate em torno da nova Lei Rouanet, agora que considera ter aparado as principais arestas do texto, corra com menos passionalismo durante o trâmite na Câmara. Segundo Alfredo Manevy, secretário executivo do Ministério, um dos mecanismos que haverá no novo texto diz respeito ao equilíbrio dos recursos destinados ao Fundo Nacional de Cultura: "O Fundo nunca poderá ter menos recursos do que a renúncia fiscal, isso é um ponto-chave."
Manevy disse que os temores de dirigismo cultural não têm fundamento. "Não há antecedentes nem razão alguma para se desconfiar que o governo Lula esteja preocupado em molestar estética ou politicamente os artistas, é um governo republicano, democrático."
Ele concorda que alguns textos podem dar margem a esse tipo de ação. "Para tanto, é preciso produzir vacinas. Mas qual é a principal vacina? São os próprios critérios da nova legislação, que vai qualificar as decisões dos departamentos de marketing. Os critérios que vamos adotar regulam o próprio Estado e as relações dentro do novo sistema de fomento."
O governo também diminuiu as críticas em relação ao setor privado no incentivo cultural. Em vez do confronto, quer seduzir os orçamentos que hoje são destinados aos departamentos de marketing por meio de atrativos financeiros, buscando uma "parceria de fato".
Funciona assim: o governo investirá dinheiro do Fundo Nacional de Cultura em produções que tenham viabilidade comercial. O lucro dessas produções realimentará o próprio fundo, e dará suporte a outras atividades que não tenham visibilidade de mercado. A renúncia fiscal sem contrapartida não é mais considerada uma boa política cultural pelo MinC.
O Vale Cultura também foi objeto de debate. Juca Ferreira acha "antidemocrático" que se faça restrição a produtos culturais populares na adoção do mecanismo.
VAI A PLENÁRIO LEI QUE TIRA TAXAS DA ARTE
SUPER COMPLICADO: O secretário executivo do MinC, Alfredo Manevy, garantiu ontem que finalmente vai a plenário o Projeto de Lei Complementar que altera a LC nº 128/2008. A nova proposta desfaz alteração realizada em dezembro do ano passado, a chamada Super Simples, que passou a tributar mais pesadamente produtores culturais. O Ministério da Cultura disse que o projeto agora vai tramitar em regime de urgência.
Martins será presidente da Bienal por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Folha de S. Paulo, em 21 de agosto de 2009.
Termo proposto pelo Ministério Público vai ser aceito por empresário, que teve indeferida a sua posse no início do mês
Documento elaborado por promotor faz fundação voltar atrás e aumentar de 40 para 60 o número de membros de seu conselho
A partir de hoje, o empresário Heitor Martins passa a ser de fato presidente da Fundação Bienal de São Paulo. Há duas semanas, sua posse foi indeferida pelo curador de Fundações do MPE (Ministério Público Estadual), Airton Grazzioli, por "conflito de interesses".
A mulher de Martins, Fernanda Feitosa, tem contrato com a instituição, que vigora até 2015, para realizar todos os anos no pavilhão da Bienal a feira SP Arte. Isso violaria o estatuto da fundação, que proíbe a contratação de parentes.
Martins, que chega hoje de uma viagem ao Chile, deve assinar, ainda no aeroporto, segundo Grazzioli, o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) proposto pelo promotor. O documento teve o apoio de Elizabeth Machado, presidente em exercício do Conselho de Administração da Bienal.
Anteontem, Miguel Pereira, presidente do conselho, renunciou ao cargo, alegando que não aceitaria assinar o TAC por considerar "abusivas e falsas algumas teses do MP" contidas no documento.
"O que o Miguel afirma são ilações, fruto de uma pessoa que não tem conhecimento jurídico", disse Grazzioli à Folha.
Segundo o TAC, os poderes e atribuições para a gestão do contrato com Feitosa serão exercidos pelo vice-presidente da diretoria executiva, o economista Eduardo Vassimon.
Caso Martins viole esse acordo, deverá pagar uma multa de R$ 800 mil. Uma comissão independente foi constituída para fiscalizar o cumprimento do contrato com a feira.
Quando indeferiu a posse de Martins, Grazzioli também não aceitou a indicação de seis novos membros do Conselho indicados por Martins, segundo a alegação de que não havia vagas para esses membros, já que o novo estatuto da fundação diminui de 60 para 40 a quantidade de seus membros.
Pelo TAC, contudo, o estatuto volta a ter 60 vagas, e os conselheiros são aceitos. "Com isso, a instituição passa por uma reengenharia estrutural e está apta para a organização da próxima Bienal", disse Graziolli.
Segundo a Folha apurou, Machado deve convocar uma reunião do conselho para o próximo dia 8, quando deve abrir mão do cargo. Está cotado para a presidência do conselho o promotor aposentado Carlos Francisco Bandeira Lins, tendo como vice o banqueiro Alfredo Egydio Setubal.
agosto 20, 2009
S.O.S esculturas por Suzana Velasco, O Globo
Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 16 de agosto de 2009
Abandonadas, obras de arte públicas do Rio precisam de limpeza, restauro e sinalização
Pichações, cartazes colados, placas roubadas, corrosão pelo tempo, poças de urina, tinta descascada, falta de iluminação e sujeira, muita sujeira, foram alguns dos problemas encontrados num passeio por esculturas públicas do Rio, na semana passada. O estado decadente das obras de arte mostra que não há uma conservação permanente, justamente num momento em que artistas e críticos do Rio discutem uma política para a instalação de monumentos na cidade. A gota d‘água foi um projeto de escultura de Romero Brito para Ipanema (veja quadro).
A secretária municipal de Cultura, Jandira Feghali, afirma que uma comissão que deveria discutir políticas públicas de ocupação, mas está inativa, será reativada até o fim de agosto, com membros da prefeitura e do meio artístico. A medida — originada de reuniões entre artistas, críticos e representantes da prefeitura — tiraria a atribuição de instalar monumentos públicos da Fundação Parques e Jardins, que, entretanto, mantém a responsabilidade pela manutenção das obras. Diretora de conservação de monumentos e chafarizes da fundação, Vera Dias reconhece que essa manutenção é feita de acordo com a reclamação do público, que, segundo ela, costuma pedir reparos a bustos e estátuas — como a de Carlos Drummond de Andrade, que frequentemente tem seus óculos roubados, na Praia de Copacabana.
— O critério real é priorizar aquelas que são alvo de mais queixas do público — admite Vera. — Também avaliamos se o dano é muito evidente.
A diretora não considera, por exemplo, que a corrosão que se espalha pela escultura de Angelo Venosa na Praia do Leme esteja na categoria de um dano evidente, já que, criada em aço corten, seria sujeita à corrosão pela ação do vento e do sal. Segundo Venosa, esse tipo de aço é justamente um material resistente para o ar livre, mas, de frente ao mar, a obra está num ambiente muito mais agressivo do que aquele em que foi instalada originalmente, a Praça Mauá.
— Quando transferiram a obra para o Leme, havia uma promessa de dar um trato na escultura, mas isso nunca aconteceu — conta o artista, cuja obra se tornou um mictório da praia e, na última quinta-feira, tinha não apenas poças de urina, mas também fezes. — O projeto original também previa um projeto de luz. Se houver iluminação e a área for limpa, as pessoas não vão voltar para urinar. Mas, se tiver cheiro de urina, elas vão institucionalizar o lugar como mictório.
Faltam luz e sinalização
Não há iluminação apropriada para as esculturas da cidade. No caso da obra de Franz Weissmann em frente ao Real Gabinete Português de Leitura, no Centro, até existe um espaço para luz no chão, que iluminaria a obra de baixo para cima. Mas ele está quebrado e sem lâmpadas. A escultura sofre ainda com pichações, sujeira e tinta descascada — que revela outra camada por baixo, mostrando que a obra original tinha um tom diferente de amarelo. Segundo Vera, a equipe que limpa as pichações dos monumentos estava desativada de abril a julho, mas já voltou para as ruas.
— Houve uma interrupção temporária, porque a nova administração resolveu fazer uma avaliação dos orçamentos. Por isso você viu muita coisa pichada — diz Vera. — As que sofrem mais são a da Uruguaiana (de Ivens Machado) e “O passante” (de José Resende, no Largo da Carioca), que estão cheias de papel colado. O problema do xixi também é muito grave. Foi por causa disso que cercamos a escultura do Mestre Valentim na Praça Quinze, que passou 200 anos sem precisar disso. Não é um problema com a arte contemporânea, está na cidade toda.
Outra escultura de José Resende, na Rua do Rosário, no Centro, não sofre com a colagem de propaganda, mas com o abandono. Como o entorno estava em obras, a peça foi deslocada em alguns metros e posta num local de passagem, que leva os pedestres a pisarem na obra, cujo aço está rasgado. Na obra de Ivens Machado, além de cartazes e sujeira, as ferragens de sustentação estão aparentes. Assim como a obra de Venosa, a de Machado também não seguiu todas as recomendações do projeto original.
— Na época, a escultura deveria ter recebido uma camada de impermeabilização, mas não recebeu — conta o artista, que diz não se importar com as apropriações que as pessoas fazem da escultura, como um homem que, na última semana, vestia roupa de bruxo e pedia dinheiro aos pedestres encostado nela. — Isso não me incomoda. O que deveria haver é um cuidado da prefeitura, de cortar as árvores para não cobrir a obra, fazer uma iluminação apropriada e limpá-la.
A placa de metal instalada junto com a obra de Machado para identificá-la, em 1995, foi roubada e nunca substituída, nem por uma sinalização em concreto, ou num material menos sujeito a roubo. O mesmo ocorreu com a placa que identificava a obra de Amilcar de Castro próxima à Praça Tiradentes. Na maior parte dos casos, não há sequer uma preocupação com a identificação de escultura, artista e ano de criação.
Para o escultor Ascânio MMM, o cuidado de reparar uma obra só existe quando as obras são privadas:
— As minhas esculturas em hotel, shopping e edifícios estão bem conservadas, são restauradas. A única mal conservada é justamente a que fica em frente à prefeitura. Há uns cinco anos, ela só é limpa pela água da chuva — afirma o artista.
No Parque da Cidade, um espaço municipal, as esculturas de Celeida Tostes estão num estado tão degradado que os desavisados podem facilmente não entender o que são aquelas formas espalhadas no jardim. As obras estão quebradas, caídas no chão, e nelas crescem musgos e plantas.
— Ali, o problema é o parque inteiro, não apenas as esculturas — diz a diretora da Fundação Parques e Jardins. — A frequência do parque é ruim, quase ninguém mais vai lá.
agosto 19, 2009
Intervenção urbana em documentário, O Povo
Matéria originalmente publicada na seção Vida e Arte do O Povo, em 18 de agosto de 2009.
Ainda sem previsão de estreia no circuito local, o documentário Ouvindo Imagens, de Michel Favre, tem lançamento oficial hoje. O enredo do filme é costurado por impressões de anônimos e famosos, que pegam carona em um inusitado trajeto.
O projeto foi filmado a partir de uma intervenção urbana da artista plástica Fabiana de Barros, realizada dentro de um táxi que circulou pelas ruas de São Paulo. Em vez de pagar pela corrida, o passageiro precisava contar uma história diante da câmera, a partir de algumas imagens mostradas por Fabiana de Barros.
Em um outro carro, uma câmera colhia cenas e sons da cidade, que foram intercalados aos depoimentos. O cantor Paulo Ricardo, a jornalista Barbara Gancia e o cineasta Hector Babenco estão entre os personagens mais famosos da aventura.
Folhapress
O corpo como linguagem por Angélica Feitosa, O Povo
Matéria de Angélica Feitosa originalmente publicada na seção Vida e Arte do O Povo, em 18 de agosto de 2009.
O convite é para um passeio pelo que há de comum nas obras de dois jovens artistas nordestinos. A exposição A imagem do outro olhar é uma proposta de diálogo entre Marina de Botas e Rodrigo Braga
A imagem do outro olhar, em cartaz no Centro Cultural Banco do Nordeste a partir de hoje, propõe mais que uma mostra. A exposição é um convite para que dois jovens artistas que se fizeram nordestinos, a paulista radicada no Ceará, Marina de Botas, e o manauara radicado em Recife, Rodrigo Braga, possam, de fato, reunir aquilo que há de diálogo nos seus trabalhos. A seleção de fotografias e de um vídeo, em cartaz até o final do mês no CCBN, é apenas o primeiro passo de um processo que deve persistir até agosto de 2010. As ações fazem parte da terceira edição do BNB Agosto da Arte, dentro do projeto Arte em Processo, idealizado pelo curador Bitu Cassundé.
“Nós reunimos outros trabalhos que o curador percebeu que se comunicavam bastante. A partir dessa exposição, nós vamos criar uma produção inédita, um trabalho em conjunto, resultado de um processo que deve desaguar ano que vem”, conta Rodrigo Braga, por telefone, enquanto realizava os últimos acertos no CCBN. A proposta de unir as duas produções veio do curador Bitu Cassundé e o projeto já começa a ser trabalhado essa semana, com a consultoria do escritor e pesquisador cearense Eduardo Jorge.
A exposição A imagem do outro olhar pretende conectar a produção de arte contemporânea nordestina. O que se apresenta é a pesquisa em desenvolvimento, aberta a intervenções e mudanças. Para o público, o projeto tem o objetivo de proporcionar a possibilidade de acompanhar o processo de elaboração e construção das obras. Amanhã, também às 19 horas, os dois artistas, Eduardo Jorge e o curador Bitu Cassundé participam de uma troca de ideias também no CCBN.
Antes disso, no entanto, já será possível enxergar essas conexões pelos trabalhos unidos num mesmo espaço. “O gancho de trazer a literatura é produzir outros olhares para a arte contemporânea”, aponta o curador. Enquanto Marina passeia por uma poética do cotidiano e por um realismo mágico, Rodrigo elabora uma tensão ou estranhamento ao compor um repertório ficcional. “Existem muitas confluências nos trabalhos dos dois. Um deles é o uso do corpo como suporte para o desdobramento da poética, a construção do imaginário poético que usa o corpo associado a um elemento da flora e da fauna”, descreve o curador.
Novos suportes
Na série apresentada por Rodrigo, retirada do trabalho solo Da alegoria perecível (2005), o rosto do artista é utilizado como suporte para composições plásticas. Elementos animais e vegetais são usados para criar alegorias da máscara e maquiagem. Outros trabalhos presentes na mostra são Hiato (2007) e a série Paisagens, do ano passado.
Já o trabalho de Marina de Botas experimenta o cotidiano. Qualquer situação pode transformar-se no pontapé para as performances, desenhos e imagens da artista. No vídeo Programa para Nutrição da Pele, que faz parte da exposição, uma cozinha e seus condimentos são a desculpa para uma maquiagem. Emoldurando o gestual da maquiagem uma composição plástica cenográfica, o vídeo faz referência a uma natureza morta composta por frutas e legumes. Elemento presente o tempo inteiro no trabalho de Rodrigo Braga.
A imagem do outro olhar
Marina de Botas e Rodrigo Braga
Curadoria de Bitu Cassundé
19 a 30 de agosto de 2009
Centro Cultural Banco do Nordeste - Fortaleza
Rua Floriano Peixoto 941, Centro, Fortaleza - CE
85-3464-3108
Terça a sábado, 10-20h; domigo 10-18h
Jardins cubistas por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 7 de agosto de 2009.
A geometria e a flora que guiaram Burle Marx hoje orientam pesquisas de Miguel Chevalier com tecnologia e vida artificial
ROBERTO BURLE MARX 100 ANOS: A PERMANÊNCIA DO INSTÁVEL/ Museu de Arte Moderna, SP/ até 13/9 SEGUNDA NATUREZA - Miguel Chevalier/ Espaço Cultural Marcantônio Vilaça, Brasília/ Estação Galeria do Metrô, Brasília / até 22/8
Roberto Burle Marx transplantou as diretrizes do cubismo e do abstracionismo geométrico para a organização de seus jardins de plantas nativas brasileiras. Com isso, correspondeu aos anseios antropofágicos de sua época modernista: devorar as influências estrangeiras para apropriar-se delas, transformando-as ao gosto local. Com 180 itens - entre pinturas, fotografias e projetos -, a exposição comemorativa do centenário de Burle Marx, atualmente em cartaz no MAM-SP, é uma excelente oportunidade de conferir como ele fez de seu paisagismo tropical uma linguagem moderna e internacional. Em Brasília, duas instalações interativas mostram como a mesma flora brasileira e a geometria que conduziram a arte de Burle Marx hoje influenciam as pesquisas de ponta que o mexicano Miguel Chevalier realiza com sistemas generativos e arte interativa.
Natureza ordenada Geometrias organizam tramas de jardins e da orla carioca de Burle Marx
"Jardim é ordem. É impulso ordenado", escreveu Burle Marx, para quem o jardim era um modo de organizar e compor a pintura, utilizando materiais menos convencionais. A ordem determinada pelas formas geométricas aparece cedo em Burle Marx: é visível desde as pinturas em óleo sobre tela dos anos iniciais até o traçado do calçadão da orla carioca, do Aeroporto Santos Dumont ao Posto 6, em Copacabana. "As pessoas passam a compreender melhor o paisagista ao conhecer o artista plástico. São mídias diferentes, mas existe uma unidade", afirma Lauro Cavalcanti, curador da exposição, que depois segue para Recife, Brasília, Estados Unidos, França e Itália.
Chevalier, um pioneiro no uso da arte digital, também apresenta uma proposta de ordenação da natureza e reconhece identidade comum com Burle Marx. "Sua destreza cromática e formal mostra grande interesse pelo cubismo, como ocorre na minha "Fractal Flowers", um jardim virtual em que as flores são levadas ao extremo de sua geometrização. As calçadas do Rio de Janeiro são como uma prefiguração do pixel. A justaposição desses mosaicos cria uma vibração, como nas telas dos computadores", afirma o artista, que se inspirou na "luxúria da flora brasileira" para criar seus jardins virtuais interativos.
Virtuais
Corpos videográficos
Exquisite Corpse Video Pro ject / DConcept Escritório de Arte, SP/ de 11/8 a 22/8 www.vimeo.com/excorpse www.artreview.com/profile/excorpse
Os surrealistas franceses inventaram um jogo que até hoje é praticado e reinterpretado em todo o mundo. No cadavre exquis - ou exquisite corpse, em inglês -, uma folha de papel é dobrada de forma que cada jogador veja apenas uma pequena fatia do desenho realizado pelo jogador anterior. No final do jogo, o papel é desdobrado, revelando a estranheza de um corpo híbrido, construído coletivamente. Nos tempos de compartilhamento de dados virtuais em que vivemos, o método sequencial surrealista pode ser considerado um precursor dos processos de criação coletiva que proliferam na rede mundial de computadores.
A sacada é do grupo Exquisite Corpse Video Project (ECVP), criado e coordenado pela videoartista paulistana Kika Nicolela, que produz vídeos colaborativos inspirados no método surrealista: cada participante cria um vídeo de dez segundos, em resposta aos dez segundos recebidos de outro participante. A soma desses fragmentos resultou em nove vídeos, que estão hospedados no site vimeo e serão exibidos na DConcept Escritório de Arte, em São Paulo.
"O projeto nasceu de minha vontade pessoal de formar comunida des", conta Kika. Ela convidou 36 artistas de 16 países a integrar um grupo na plataforma virtual da Art Review. Entre os artistas figuram o indiano Ambuja Magaji e o dinamarquês Michael Chang. "Criei um grupo de videoartistas entre as pessoas que tinham perfis no site e lancei a ideia da colaboração", diz a artista, que tem no histórico outras iniciativas de formação de espaços colaborativos, fora das instituições oficiais de arte. Em 2006, ela foi uma das coordenadoras das mostras "Paris é aqui" e "Marte é aqui" - esta última mobilizou 72 artistas em exposição na casa da artista.
Fernanda Assef
Museus com grife por Maíra Magro, Istoé
Matéria de Maíra Magro originalmente publicada na revista Istoé, em 14 de agosto de 2009.
O Brasil se alinha à tendência mundial ao criar espaços culturais espetaculares e projetados por famosos arquitetos
Orla futurista
Projetado pelo escritório americano Diller Scofidio + Renfro, a futura sede do MIS, no Rio de Janeiro, terá rampas inspiradas nas calçadas de Burle Marx
Frequentar museus é um programa excelente em todo o mundo. No Brasil não é diferente e, seguindo uma tendência já testada no Exterior, o País começa a investir em espetaculares centros culturais idealizados por arquitetos famosos. O exemplo mais recente é o anúncio do projeto vencedor para a construção do novo Museu da Imagem e do Som (MIS), que será erguido em Copacabana, mudando completamente a paisagem da zona sul do Rio de Janeiro. O concurso envolveu uma grande disputa entre sete importantes escritórios nacionais e internacionais.
O movimento se repete pelo País. Em Vitória será construído até 2011 o Cais das Artes, complexo cultural assinado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, vencedor do Pritzker, o mais importante prêmio da arquitetura mundial. Também é dele a intervenção em um dos prédios tombados do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em fase de implantação em Belo Horizonte. Em Campinas, no interior de São Paulo, o Museu Exploratório de Ciências terá como sede um edifício arrojado - o projeto acaba de ser eleito em um concurso com mais de 115 concorrentes de 19 países. "Esse é um momento de muita visibilidade para a museologia brasileira", diz José do Nascimento Junior, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). São iniciativas bem-vindas, pois o setor nunca teve tratamento tão vip como agora.
MAPA DAS ARTES Um dos prédios do Circuito Cultural, em Belo Horizonte, o Cais das Artes, em Vitória, e o Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre: a cultura pensada como incremento ao turismo
Novos tempos se anunciam. Por trás da arquitetura de ponta, está a ideia de transformar esses centros em grandes atrações turísticas, estratégia já testada com o Museu Iberê Camargo, em Porto Alegre, que traz a grife do arquiteto português Álvaro Siza. O governo fluminense, por exemplo, aposta na nova sede do MIS como futuro símbolo cultural de Copacabana. "Temos a ambição de que seja uma referência para nós e para os turistas", diz a secretária estadual de Cultura do Rio, Adriana Rattes. O projeto vencedor é do escritório Diller Scofidio + Renfro, de Nova York, que desenhou a fachada do edifício com rampas e paredes em desnível.
Número de museus no País 2.700
Número de visitantes
2003 - 15 milhões
2008 - 33 milhões
Investimentos do governo no setor
2003 - R$ 24 milhões
2008 - R$ 119 milhões
A arquiteta Elizabeth Diller diz que se inspirou nas calçadas de pedras portuguesas do paisagista Burle Marx. Além de um museu interativo, a nova sede irá reunir os setores de memória, conservação e estudos, atualmente divididos em dois edifícios do MIS.
Outra obra prevista para começar este ano é o Cais das Artes, que será construído na Enseada do Suá, região aterrada em Vitória. Serão dois edifícios com uma estrutura suspensa por pilotis a quatro metros do solo e andares ligados por rampas de vidro. "Há um contraponto interessante com os navios que entram e saem do porto", diz Mendes da Rocha, que já deixou sua assinatura no Museu da Escultura, em São Paulo. Com o mesmo objetivo de tornar a cultura um polo de turismo, Belo Horizonte fez diferente: aproveitou o charmoso conjunto arquitetônico, que deixará de abrigar a sede administrativa do governo de Minas Gerais, para criar ali o Circuito Cultural Praça da Liberdade, conglomerado de cinco espaços para as áreas de ciências, mineração, metalurgia, história, artes plásticas e arte popular.
agosto 18, 2009
Bienal no PR atesta ascensão do Sul por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 18 de agosto de 2009.
Mostra em Curitiba reúne grandes nomes da arte contemporânea, como Bruce Nauman, Kcho e Marina Abramovic
Dois meses antes da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, Bienal VentoSul inaugura temporada de grandes mostras na região
Do outro lado da grade que montou em frente ao Passeio Público, um artista do coletivo Interluxartelivre fala de como sua obra pensa as coerções do espaço urbano. É uma estrutura metálica com arame farpado, réplica agressiva das cercas do parque no centro de Curitiba.
Falar de dentro de sua armadilha enfatiza a posição de uma obra de arte na cidade e, por extensão, o lugar das exposições. "Trabalho o território, o espaço que conduz a uma questão política", diz Ticio Escobar, curador da Bienal VentoSul, em cartaz na capital paranaense. "São lugares com intensidade muito forte, mas excluídos."
Dois meses antes da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, a mostra curitibana tenta rever essa exclusão e atesta a ascensão do circuito de arte no Sul do país. Tanto a mostra paranaense, agora em sua quinta edição, quanto a gaúcha bateram a marca dos 500 mil visitantes na última edição, número expressivo para cidades fora do eixo. Também há mais dinheiro.
Se a Bienal do Mercosul trabalha com R$ 7,5 milhões para abrir em outubro -e já chegou a custar quase R$ 12 milhões antes da crise econômica-, Curitiba conseguiu R$ 2 milhões para a Bienal VentoSul, o dobro de sua edição anterior.
"Essas bienais estão se firmando na América Latina", diz Escobar, curador paraguaio que também já esteve à frente da Bienal do Mercosul. "Estão se tornando um lugar de debate, não só de espetáculo." No lugar do espetáculo, Curitiba monta uma Bienal especular, com obras espalhadas pela cidade, das grades no Passeio Público a uma estrutura no parque Barigui. É uma sofisticação curatorial que às vezes esbarra na fraqueza das obras, mas que produz um efeito.
Seria uma "nova regionalização", nas palavras de Ivo Mesquita, curador da última Bienal de São Paulo. "Depois que globalizou tudo, vem uma tendência de bienais menores", diz. "São pequenas mostras que trabalham regiões específicas." "As pessoas participam dessa irrupção nas cidades", diz Escobar. "Muitos pensam que uma bienal deve mostrar as últimas novidades, mas deve, na verdade, envolver as cidades."
Transparência
No caso de Curitiba, cidade de lagos e capital brasileira mais próxima de Itaipu, a água virou o fio condutor da mostra. Quando visto de forma literal, esse tema dá vazão às piores obras na exposição: fotos das cataratas do Iguaçu, animações de chuva, até uma releitura da cena do banho de Janet Leigh em "Psicose", de Hitchcock.
Mas vista como metáfora para circulação, coerção, movimento, transparência e reflexo, a ideia da água articula obras mais potentes, começando pelas grades do Interluxartelivre. No Solar do Barão, casarão do século 19, o cubano Kcho constrói uma sala de aula suspensa, sustentada por remos. É uma arquitetura visual que toma partido direto do movimento aquático ou da falta dele. Nessa vertente arquitetônica, o japonês Yukihiro Taguchi desmonta uma casa destinada à demolição e reorganiza piso e paredes em pleno pátio do Solar. Um vídeo em "stop motion", que mostra a destruição e reconstrução da casa, vira uma análise intimista do ritmo da cidade e seus espaços.
A arquitetura vulgar das favelas é revista em obra do maltês Norbert Attard, que recria em Curitiba uma versão das cabanas de caçadores de sua ilha. Sem água, essas, que são as obras mais expressivas da mostra, fazem papel de lago e espelham a circulação atravancada das grandes cidades -um desejo de transparência latente e ainda muito distante.
O jornalista Silas Martí viajou a convite da Bienal VentoSul.
agosto 17, 2009
Interpol abre banco de dados sobre bens culturais roubados, Folha Online
Matéria originalmente publicada na Folha Online, em 17 de agosto de 2009.
A Interpol liberou o acesso on-line a seu banco de dados mundial sobre as obras de arte roubadas, ou seja, cerca de 34 mil peças, para lutar contra o tráfico ilícito, anunciou nesta segunda-feira em comunicado a organização internacional de cooperação policial.
Assim, bastará fazer uma solicitação on-line para obter uma senha que permite acessar o site onde estão registrados os bens culturais roubados em todo o mundo.
"O acesso ao banco de dados não será mais limitado aos serviços de repressão, mas também oferecido a todos os órgãos culturais e profissionais do ramo [ministérios da Cultura, museus, galerias de arte, fundações, colecionadores]", diz o comunicado da Interpol, com sede na cidade francesa de Lyon.
O banco de dados permite consultar descrições e fotografias de obras de arte roubadas.
Este avanço, assim como o previsível aumento do registro de bens culturais roubados, deverão constituir um obstáculo importante ao tráfico ilícito, pois cada obra de arte roubada será mais difícil de vender, explicou Karl-Heinz Kind, coordenador do serviço da Interpol encarregado das obras de arte.
"Também será muito mais difícil para um vendedor ou um comprador afirmar que não tinha como verificar se um objeto foi registrado como roubado", concluiu a Interpol.
Por um mundo macio por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 14 de agosto de 2009.
Quando Leda Catunda surgiu, em 1983, pintando sobre toalhas e lençóis estampadas com figuras infantis, foi imediatamente notada. Olívio Tavares de Araújo, um dos principais críticos de arte do período, escreveu, na Isto é, que Leda figurava entre os mais "articulados e brilhantes" participantes da mostra "A pintura como meio", no MAC USP. "Leda não se tornará apenas uma das artistas mais reconhecidas de sua geração pelo seu talento, mas, igualmente, pela persona que a mídia criou para ela", escreveria o crítico Tadeu Chiarelli em monografia publicada pela CosacNaify. O livro, de 1998, faz jus ao peso e relevância da obra desta artista paulistana nascida em 1961. Mas é surpreendente que até hoje ela não tivesse recebido uma panorâmica em um museu brasileiro. Com 70 pinturas, aquarelas e colagens, a exposição na Pinacoteca preenche essa lacuna.
fotos: divulgação
É verdade que a maneira como ela aplicava tinta acrílica sobre almofadas, tapetes, cobertores, capachos e todo o repertório de tecidos domésticos foi determinante para a sedução midiática de sua produção. Era irresistível e surpreendente o modo como ela relançava o conceito de "pintura figurativa", sem pintar figuras, mas aproveitando padrões de estampas industriais que encontrava nos tecidos apropriados. Ao utilizar como tela um quebra-cabeça com a reprodução de "Ronda Noturna", famoso quadro de Rembrandt, Leda referia-se à banalização da imagem e anunciava sua filiação à arte pop crítica e conceitual de Nelson Leirner, de quem foi aluna.
É fundamental conhecer Leda Catunda para entender a arte contemporânea brasileira, simplesmente porque ela reinventou tudo o que mexeu: da pintura figurativa à fotografia. Nos últimos dez anos, depois de muita pesquisa com materiais "moles" e da invenção de uma "poética da maciez", segundo suas próprias palavras, ela começou a revisão do retrato fotográfico. Suas formas arredondadas hoje contêm impressões de fotos sobre voile como um recurso a mais de uso de imagem nas pinturas. "Gosto de pensar numa poética da maciez quando me refiro ao meu trabalho, considerando que são feitos de tecidos, são moles, projetam volumes macios e possuem formas orgânicas sendo geralmente arredondados.
Acredito que a busca pelo conforto é uma característica natural das pessoas e que envolve assuntos relacionados ao gosto e demandas afetivas. É para isso que eu olho no mundo, para as escolhas que resultam soluções confortáveis que cada um desenvolve em torno de si na eleição de imagens, personagens, mitos e paisagens", diz Leda Catunda.
Bienal do Paraná amplia seu mapa por Evandro Fadel, O Estado de S. Paulo
Matéria originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 15 de Agosto de 2009.
Em Curitiba, a VentoSul, na 5.ª edição, torna-se internacional, com convidados de 30 países, e privilegia questões ambientais
A quinta edição da Bienal Latino-Americana de Artes Visuais - VentoSul, aberta na segunda-feira em Curitiba, e que se estenderá até o dia 11 de outubro, pretende ser um marco. Deixa de se restringir à América Latina, torna-se internacional e apresenta artistas dos cinco continentes para comprovar que a arte não tem local fixo. "Antes era uma mostra, agora dá a virada", afirmou uma das curadoras, a jornalista Leonor Amarante. São mais de 100 convidados de 30 países que expõem obras e fotografias, realizam intervenções urbanas, participam de programação educacional e, sobretudo, proporcionam discussão sobre a arte contemporânea.
Com o título Água Grande: Os Mapas Alterados, a mostra propõe agora a discussão do tema da água e as modificações geográficas pelas quais o mundo está passando.
"Em Curitiba nasce o Rio Iguaçu (água grande, em guarani), que atravessa o Estado e chega às cataratas, na Tríplice Fronteira. Além de representar a integração dos países, o ciclo prova a importância da água no dia a dia, ela é estratégica não só nas questões ambientais, mas também na política e na economia", disse o curador Tício Escobar, ministro da Cultura do Paraguai.
Leonor Amarante não tem dúvidas de que "num futuro próximo, a água será moeda de troca". Esse tema se une à discussão do espaço da arte e à alteração dos mapas. "Alguns artistas trazem a cidade para dentro dos museus, enquanto outros, ao contrário, vão para a praça pública", destacou. Ela optou por ampliar o horizonte dos expositores, buscando-os em várias partes do mundo, não para fixar os lugares geográficos de cada um, mas para dar um sinal de diversidade. "Quis que fosse aberta", salientou. "A arte altera os mapas, inventa lugares, levanta limites e transfere locais." Mensagem direta em relação à propalada futura escassez de água e à importância que o tema ganhou no centro dos debates geopolíticos vem do canadense Jean-Yves Vigneau. No lago que circunda a Ópera de Arame ele apenas cravou em grandes placas: "H2O = $." Um alerta e uma discussão pretendida pelo curador Tício Escobar. "À obra não basta ser só estética, porque ela é um meio, um momento e não um fim", acentuou. "A arte mostra os conflitos e também o possível, aquilo que poderia chegar a ser." Segundo ele, a água é um ótimo ponto de partida para se discutir as mudanças que ocorrem com a globalização. "Dentro dela nada pode ser fixo, ela é um território instável, flutuante", ressaltou.
Uma das propostas artísticas destacadas pelos curadores é a transgressão dos limites geográficos estabelecidos pelos mapas, a discussão sobre o sentido da imagem no contexto em que foi massificada pelo mercado e a custódia da poesia em mundo desencantado. Por isso, não se restringiu qualquer proposta de discussão conceitual. "Tudo se transforma em arte", destacou Leonor Amarante.
Em uma das salas do Solar do Barão, no centro de Curitiba, o visitante poderá levar um susto ou até sentir-se profundamente chocado. O colombiano Fernando Arias apresenta, em duas televisões, cirurgias reais de vasectomia e de laqueadura. Entre elas, uma fotografia do Oceano Pacífico banhando a floresta colombiana. "As imagens são de uma realidade que choca, mas são humanas", disse o artista. "E ali está a mãe Terra." Apesar de entender que "somos muitos na Terra", Arias afirmou não estar "incentivando nada". "A interpretação é aberta", salientou. "O artista tem que ser neutro." O japonês Yukihiro Taguchi tem andado pelo mundo a reorganizar espaços. Em Curitiba, ele desmontou uma casa em um dos bairros da cidade e, com as tábuas, vigas e telhas recriou uma espécie de tenda no Solar do Barão. Dentro, o visitante poderá assistir a vídeos mostrando todos os passos do trabalho que realizou. "O importante é o momento da construção e eu espero que todos tenham o sentimento de realização igual ao meu."
A búlgara radicada na Alemanha Mariana Vasileva trouxe o vídeo Toro, que pode ser apreciado no Memorial de Curitiba. Nele, um homem tenta tourear o mar. "É para mostrar como o mar é grande e o ser humano tão pequeno", destacou a artista. Com o tema Mais Respeito e Menos Violência, o cubano Kcho montou uma sala de aula. Mas as carteiras foram colocadas sobre remos de 1,80 metros. Pretende mostrar que os homens, alunos da vida, podem enxergar o que existe além de si mesmos.
Os remos dão a sensação de movimento, de travessia. "É importante que a arte sempre tenha uma mensagem positiva, pois ela é uma das conquistas mais importantes do homem", afirmou ainda.
O grupo Interluxartelivre não precisou andar muito. Formado por dez artistas e intelectuais curitibanos, eles chamaram a atenção com uma apresentação em bicicletas, em um dos cruzamentos da cidade, chamando a população a sair da "bolha". "É um convite a sair do carro e vir se divertir", disse Juan Parada, um dos integrantes da trupe. "É um questionamento sobre a mobilidade urbana e um estímulo ao uso de bicicletas." A trupe também instalou uma espécie de labirinto feito de grades próximo ao Passeio Público. "Este era o local de passeio das famílias, que agora se transferiram para o shopping em frente", informou Cláudio Celestino.
A Bienal VentoSul ocupa vários museus e espaços artísticos de Curitiba, além de praças e ruas. É uma promoção do Instituto Paranaense de Arte, em conjunto com a Fundação Cultural de Curitiba. Todas as atividades são gratuitas. Após o encerramento em Curitiba, algumas obras e eventos selecionados serão apresentados em Foz do Iguaçu, Florianópolis, Fortaleza, Brasília, Assunção e Buenos Aires.
