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agosto 14, 2009
Depois do que Suzana me contara por Ana Maria Maia
ANA MARIA MAIA
Especial para o Canal Contemporâneo
Semana a semana, acompanho aqui pelo Canal Contemporâneo o abre e fecha de eventos e exposições no Rio de Janeiro. Primeiro recebendo material de divulgação para a Agenda e os Enformes e depois lendo a imprensa local, que abastece, junto com a pequena parcela de veículos que pautam arte contemporânea no país, o blog Como atiçar a brasa. Vinha, à distância, admirando-me com o vigor dos espaços e da produção carioca recente, até que tive a oportunidade de ir à cidade e otimizar visitas em dois dias de estada.
Como já chegara de certa forma pautada por leituras prévias, resolvi assumir este relato de viagem como uma costura de textos, um pretenso diálogo com as considerações feitas por jornalistas como Suzana Velasco (O Globo), Monique Cardoso (Jornal do Brasil) e Camila Molina (O Estado de S. Paulo). Resolvi atiçar eu mesma esta brasa, já que, nas visitas que fiz, pude fertilizar pensamentos e memórias, agora em leituras vivas, in loco. Abaixo narro meu roteiro, midiático e físico, depois do que a imprensa me contara.
Iran do Espírito Santo na Artur Fidalgo
A Artur Fidalgo é aparentemente a galeria carioca que abre mais cedo. Eram 10h quando cheguei a En passant, quarta versão da obra cromática e ambiental de Iran do Espírito Santo. A instalação está na coleção de Inhotim e também já foi montada nas galerias do artista em São Paulo (Fortes Vilaça) e em Nova York (Sean Kelly). Na Artur Fidalgo, ela adequa às pequenas proporções do espaço seu degradê de 54 tons de cinza, entre o branco inicial e o preto final.
Em “Crítica ao mercado dentro de uma galeria”, publicada n´O Globo de 23 de julho, Suzana Velasco esclarece, citando entrevista com Iran: “para o artista, não se trata de uma briga com o mercado, mas um comentário sobre a contaminação da produção de arte pelas exigências de feiras e galerias”. Confesso que nunca tinha enxergado esse comentário naquele trabalho, apesar de considerar os limites que, a despeito da polidez objetual das demais obras do artista, impõe a qualquer intento expográfico e colecionista.
Estando numa galeria, tabelada e catalogada conforme todo o resto do acervo, a instalação de fato polariza suas atribuições institucionais e comerciais. De dentro desta célula de um ramificado sistema econômico-cultural, ela não só desafia a instituição a lidar com as simbioses da era dos patronatos público-privados, mas também desvela o incorporar de estratégias institucionais, como as curadorias e, neste caso, a exposição de artigos dificilmente vendáveis, pelo mercado.
Diante dessa contaminação mútua, diria, o campo de ação do artista e do crítico da cultura, como bem aponta Iran, parece mesmo estar nos cinzas.
Carlos Contente na Gentil Carioca
De cinzas é feita a Gentil Carioca, para onde segui para ver Compradores de mundo, de Carlos Contente. Galeria pensada por artistas –Ernesto Neto, Laura Lima e Márcio Botner-; fora da Zona Sul, vizinha ao Saara, no Centro, a Gentil articula produção e mercado recorrendo à problematização e à proposição de alternativas para o modelo tradicional de circuito de arte.
Esta postura crítica e auto-referencial dá a tônica das pesquisas de alguns dos artistas de seu casting, como Ricardo Basbaum e o próprio Carlos Contente, que reúne nesta individual algumas de suas já conhecidas sátiras sobre a relação entre personagens tais quais o artista, o colecionador, o galerista.
Em narrativas autorais, Contente comenta episódios e sentimentos seus na qualidade de artista pertencente ao sistema. Seus desenhos, esculturas e objetos indicam o vínculo inicial com os quadrinhos e o grafite, mas agora tematizam a obediência às regras do universo formal da arte. “Apesar das constatações, Contente não adotou o tom de reclamação. Faz questão de frisar que não se vê, e que não vê o artista em geral, na condição de vítima. É uma peça no tabuleiro”, completa Monique Cardoso, em matéria de 10 de julho para o Jornal do Brasil.
Laura Lima na Laura Alvim
Em Nuvem,me deparo com um braço repousante, luminária a punho, sobre uma prateleira adaptada a uma parede. Era mais um “corpo” de Laura Lima, agora exposto na condição de parte. Seu claustro, junto aos de mais alguns corpos ali presentes, todos exercendo alguma função, aumentavam a sensação de arrepio naquele ambiente igualmente lúdico e soturno. Lúdico porque ativado para uma cooperação criativa com o público. Soturno porque não se sabe ao certo a origem e a duração desse trato de cooperação.
Dentro da galeria, existem, além dos “corpos”, fotografias de um livro sobre art nouveau manipuladas digitalmente; esculturas de chocolate e bala de menta submetidas à ação da beira mar; e janelas abertas para o aviso negligente de “permitido fumar”. No fomento à fumaça e à cinza, a artista, naquele dia ali presente, fumando diante de uma tabacaria montada numa das salas, aponta para seu interesse pela escultura. “Existe uma oscilação na disposição das obras, relacionada à própria fumaça, que num momento é tão concreta, mas logo se dissipa”, diz, não a mim, mas a Suzana Velasco em “É permitido fumar e ter delírios na galeria surrealista de Laura Lima”, de 29 de julho.
Assim, não só as obras de Nuvem mas também o próprio espaço físico da Laura Alvim têm suas materialidades redefinidas por Laura Lima. Como nas fotografias em que salas e quartos do século XIX ganham elementos da intervenção da artista, a arte e a arquitetura aparecem, nesse caso, também como eventos a serem significados.
Gary Hill no Oi Futuro
Sobre materialidade, posso imaginar que também pensa Gary Hill. Ao menos, ao visitar a individual O Lugar sem tempo, até setembro em cartaz no Oi Futuro, no Rio, e a partir de janeiro de 2010 montada no MIS de São Paulo, penso que ele deve pensar. O consagrado artista americano parece criar em vídeo aberturas para o real. Viver na tela projetada o sentido corpóreo da presença.
As cinco videoinstalações que apresenta, feitas entre 1996 a 2008, são exemplos desse uso que faz da linguagem vídeo em substituição à experiência. Dentre elas, destacaria, no entanto, Up against down, em que o próprio Gary, em vídeo-performance, tensiona seu corpo contra cada uma das paredes do vão expositivo. Em entrevista a Camila Molina, do Estado de São Paulo, o videasta diz querer promover nesta e nas demais obras a interatividade, ou a “sanfonização do tempo”, como chama.
Com essa figura espacial, Gary me convence de que, mais do que narrar a ausência de linearidade do tempo própria às produções em vídeo, está atento aos efeitos que esta narrativa expandida impõe sobre a percepção do lugar de convívio entre os homens.
Atiçando a Brasa, por fim
Volto do Rio agora tendo dialogado, a minha maneira, não só com Suzana Velasco, Monique Carsoso e Camila Molina, mas também com Iran do Espírito Santo, Carlos Contente, Laura Lima e Gary Hill.
Parti da imprensa e volto para ela de modo a encerrar este percurso pensando nossas monologias, de escrita e de leitura. Se, por um lado, emitimos mensagens encerrados em nossos gabinetes de trabalho, por outro as recebemos também sozinhos e calados, desapercebidos da rede que nos une através de estratégias de comunicação pública como a imprensa e as comunidades digitais, vide este Canal Contemporâneo.
Minha experiência foi motivada pela vontade de repercutir falas de outros e exteriorizar os efeitos dos agendamentos que criaram sobre mim. A busca, o contato, as leituras in loco. O encerramento de um ciclo para abertura de outros possíveis, quem sabe, de volta a este blog.
agosto 13, 2009
Abandono e incompreensão ameaçam legado de Burle Marx por Daniel Jelin, estadao.com.br
Matéria originalmente publicada no site estadao.com.br, em 03 de agosto de 2009.
SÃO PAULO - Haruyoshi Ono não pode acreditar. Um dia depois de contar ao estadao.com.br que o Parque do Flamengo, no Rio, era a "menina dos olhos" do paisagista Roberto Burle Marx, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, postou no Twitter a intenção de promover justamente por lá a etapa inaugural da temporada 2010 de Fórmula Indy. "Só posso achar que é brincadeira. Somos totalmente contra", reage o ex-assistente e depois sócio do mais célebre paisagista brasileiro, cujo centenário de nascimento é lembrado nesta terça-feira (4).
O episódio ilustra bem a constante ameaça que ronda o legado de Burle Marx, inventor do jardim moderno brasileiro. O parque é, entre mais de 2 mil projetos, um dos mais bem sucedidos de Burle Marx. É exemplo único de projeto tombado mesmo antes de ser concluído, nos anos 60, tamanho o impacto da obra. Mas isso nem o livrou de intervenções imprevistas - como a Marina da Glória, que se fez por uma canetada durante regime militar - nem garante sua devida manutenção. Há uma década, o parque passou por obras de recuperação, mas hoje seu estado, na descrição do arquiteto Eduardo Barra, é "lastimável". "Se isso ocorre num parque daquelas proporções, imagine nos espaços menores, mais escondidos", diz.
Esta inquietação levou a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas em 2007, então presidida por Barra, a solicitar o tombamento de toda a obra de Burle Marx no Rio, cidade em que o paisagista imprimiu uma série de marcas: o calçadão da Avenida Atlântica, os jardins do MAM, do Largo da Carioca e outras dezenas de obras. "É uma forma de frear esse arroubo de criatividade de nossos governantes e mesmo de alguns profissionais que ainda não compreenderam a importância do legado do mestre", diz Barra, dando por exemplo a intenção de um colega de interferir em uma obra de Burle Marx "transformando-a de contemplativa em interativa, seja lá o que isso venha a significar".
O pedido de tombamento foi encampado pela prefeitura e - surpresa - resistiu à troca de administração, em 2008. Mas ainda está no papel: estuda-se agora uma relação de 80 a 100 obras para o tombamento, mas não há previsão para que seja concluído.
Recife, em que Burle Marx também imprimiu uma forte identidade paisagística, está na frente. O inventário de obras está pronto e aguarda-se para este ano o tombamento de seis praças públicas, tanto no âmbito estadual (Fundarpe) como federal (Iphan). E o mais importante: três praças já foram reformadas, uma já tem o plano de restauro pronto e em outras duas nem precisa mexer porque estão razoavelmente bem conservadas, informa a arquiteta Ana Rita Sá Carneiro, especialista em Burle Marx e coordenadora do Laboratório da Paisagem, da Universidade Federal de Pernambuco.
Outros jardins de Burle Marx não tiveram a mesma sorte e sumiram completamente da paisagem: desde jóias privadas, como os da residência de Carlos Somlo, em Teresópolis, até os pátios da Unesco, em Paris, que foram destruídos em uma criticada reforma nos anos 90. Outros se desfiguram e somem aos poucos, como o Jardim das Nações, em Viena, cuja ruína é testemunhada pelo arquiteto paisagista Erich Proglhof, brasileiro de São José dos Campos que mora há 22 anos na capital austríaca. Seu estado atual é "deplorável", conta.
EFÊMERO
"Paisagismo é arte efêmera", diz o arquiteto Guilherme Mazza Dourado. "Se você não tiver um cuidado sistemático, desaparece", ensina. Dourado está lançando o livro 'Modernidade Verde'. A obra é resultado de uma longa pesquisa que teve por ponto de partida uma entrevista concedida por Burle Marx em 1991, três anos antes de sua morte, e cujo registro em áudio o estadao.com.br publica agora pela primeira vez.
O arquiteto tem boas memórias do encontro. "Cheguei temeroso", escreve, na apresentação do livro, "sem saber como proceder diante de uma figura mítica do paisagismo moderno". Acabou por descobrir "um senhor muito afável, espontâneo, comunicativo e que não fazia a menor questão de manter uma cerimoniosa distância de mortais como eu".
O trabalho de Dourado tem o mérito de manter distância do folclore que envolveu o trabalho e a vida do paisagista e se apoiar numa pesquisa cuidadosa e documentada, que, antes do livro, lhe rendeu em 2000 o título de mestre pela Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo. Centrou foco no que chama a maturidade profissional de Burle Marx, cobrindo dos jardins públicos do Recife, nos anos 30, à implantação do Parque do Flamengo.
VIVER A ARTE
Roberto Burle Marx nasceu na Vila Fortunata, na Avenida Paulista, de mãe pernambucana (Cecilia Burle) e pai judeu alemão (Wilhelm Marx, de longínquo parentesco com o famigerado Karl, segundo o folclore familiar). Em 1914, a família mudou-se para o Leme, no Rio, e dessa mudança o pequeno Burle Marx guardou a imagem da mãe transplantando roseiras de uma cidade a outra. Tal cultivo Burle Marx mais tarde iria combater, em favor de espécies da flora brasileira. Dizia que não se pode esperar que uma rosa repita nos trópicos o desempenho que lhe é natural em clima temperado. De qualquer forma, o paisagista creditava à sua mãe o amor às plantas e a lição de que "a arte deve ser vivida".
Foi bem o que ele fez. Antes de se tornar o notório paisagista, já era um premiado pintor, depois escultor, gravurista, figurinista, tapeceiro, ceramista, designer de joias e, informalmente, ainda cantava. Criança, foi vizinho de frente de Manuel Bandeira, a quem divertia com seus desenhos. Foi amigo de infância - e por toda a vida - de Lúcio Costa. Estudou com Oscar Niemeyer e Hélio Uchoa. Foi aluno de Leo Putz e Portinari. Deu aula para Ligia Clark.
Quer dizer, Burle Marx exerceu diversas formas de expressão e dialogou com alguns de seus mestres, e a pesquisa de Dourado é bem sucedida ao apontar conexões entre seu paisagismo e o meio cultural da primeira metade do século 20. Como outros modernos, ele também descobriu o Brasil no exterior, ao encantar-se com espécies da flora nacional em uma estufa na Alemanha. Como outros modernos, também alimentou-se das vanguardas europeias, em particular do repertório de curvas de pintores abstratos, marca de seus trabalhos mais conhecidos. Finalmente, também procurou imprimir em seus jardins certo caráter brasileiro, "como Tarsila do Amaral na pintura e Villa-Lobos na música", explica Dourado.
O pesquisador anota que, à época em que Burle Marx se decidia pelo paisagismo, "os poetas, os pintores, o movimento moderno em geral também estava olhando para a paisagem, e alguns elementos vegetais se tornaram muito emblemáticos."
CACTOS
Um destes elementos emblemáticos é o cacto, presente em Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Manuel Bandeira, entre outros. Pois Burle Marx, convidado a assumir a direção de Parques e Jardins de Recife em 1935, foi justamente propor o Cactário da Madalena, que espantou Recife ainda mais que seus lenços e paletós coloridos. Depois rebatizada Euclides da Cunha, a praça resume bem uma questão cara ao movimento moderno, a expressão da identidade brasileira, e outra especificamente importante para o paisagista: o sucesso ecológico de um jardim.
Era a ruptura. Era o fim do paisagismo de importação. Daí em diante Burle Marx passaria a explorar sistematicamente espécies das matas tropicais, de restinga, do cerrado. Passou a viajar o País a fim de alargar seu vocabulário botânico e acabou alargando a própria botânica: descobriu diversas espécies e batizou pelo menos 14 e ainda todo um gênero novo, o Burlemarxia spiralis. Adquiriu em sociedade com o irmão Guilherme o Sítio Santo Antônio da Bica, em Barra de Guaratiba, que se tornaria um fabuloso laboratório paisagístico e, por fim, sua residência, onde chegou a colecionar 3,5 mil espécies de plantas.
O livro de Dourado é repleto de projetos originais que permitem conhecer este rico repertório (incluindo um índice botânico), mesmo no caso de obras que nunca saíram do papel, como a Praça Santa Rosa, em Belo Horizonte. É um caso exemplar. A área destinada ao projeto, nos anos 40, não parecia prestar: seca e pedregosa. Mas para Burle Marx isso foi antes um estímulo, a que respondeu empregando seu mais extenso programa vegetal, com 191 espécies diferentes, incluindo uma vasta série de plantas adaptadas aos rigores da região. "Era a vegetação das Minas, de cerrado", diz Dourado. "E não havia viveirista que oferecesse. Acho que isso foi um dos motivos que inviabilizaram o projeto."
A ESCOLA
Das viagens pelo Brasil e do interesse botânico, nasceu sua militância pela preservação ambiental. Desde os anos 40, Burle Marx aproveitou toda oportunidade para alertar contra o desmatamento. "É preciso proteger a natureza como repositório da beleza", pregava. "Ninguém quer confinar as pessoas em suas áreas de origem ou impedir a instalação de fábricas, mas é preciso mais talento para que essa ocupação ocorra sem prejuízo generalizado" Às vezes, parecia se render: "O brasileiro não gosta de planta. É um grande depredador." Mas a cada nova entrevista, cada nova premiação, voltava à carga, cobrando ora o combate ao desmatamento, ora a criação de mais áreas verdes nas cidades, ora a conservação de sua própria obra.
Embora preferisse os parques públicos, de um modo geral foram os jardins privados que tiveram melhor sorte, como o da residência Odete Monteiro, atual Fazenda Marambaia, no Rio de Janeiro. Em impecável estado de preservação, este jardim era um dos mais queridos do paisagista, na lembrança de Haruyoshi. É também um dos mais premiados, desde a Bienal de São Paulo. "Burle Marx traz o cenário das Serra dos Órgãos para dentro do jardim", descreve Dourado. "É assombroso."
Por lá Burle Marx experimentou uma de suas últimas paixões, as veloziáceas - como a canela-de-ema. "Ele gostava de todas as plantas, mas tinha suas preferências", conta Haruyoshi. "Uma época ele gostava muito das aráceas (dos filodendros e antúrios). Depois passou para marantáceas, bromeliáceas, palmáceas e, principalmente no final da vida, as veloziáceas." Ao morrer, em 1994, Burle Marx já havia deixado sua marca por diversas cidades, um sítio tombado como patrimônio histórico e uma escola: "Ele inovou o aspecto da composição de um jardim, utilizando a flora brasileira, a exuberância das folhagens", diz Haruyoshi.
RETROCESSO
Mas tanto Dourado, em São Paulo, como Proglhof, em Viena, enxergam certo retrocesso na influência exercida por Burle Marx. "Vou ao Brasil pelo menos duas vezes ao ano e percebo que muita gente o venera sem realmente entender seu trabalho", diz Proglhof. "Basta observar como o gosto geral vem regredindo para a estética medíocre americanizada de jardim 'limpo' de condomínio", completa - ressalvando, claro, que muitos profissionais nem vivem à sombra de Burle Marx, nem se rendem ao que chama de "disneyficação" da paisagem.
"Estamos vivendo um momento retrógrado", confirma Dourado. "Hoje, novamente, se voltou a valorizar muito mais o que vem de fora." E não se trata dos jardins temáticos saídos das revistas especializadas. "É pior. É uma imitação do jardim clássico francês, que chega até nós via Miami, com plantas podadas, para adquirir volumes, elementos geométricas, imitando pequenas paredes", descreve. "Estamos reproduzindo o pior que tem nos Estados Unidos e filtrando uma tradição francesa que nem tem a ver com o que era a tradição francesa."
"O QUE O PODER PÚBLICO COSTUMA FAZER"
Haruyoshi teme pela obra do mestre. Receia que um dia ela só seja conhecida em livros como o de Dourado. Ou em mostras, como 'A Permanência do Instável', que está em cartaz em São Paulo, no Museu de Arte Moderna, e 'Burle Marx por Gautherot', que será aberta dia 8 no Rio, no Instituto Moreira Salles (que, diga-se, exibe um de seus mais belos e bem conservados jardins). Não seria surpresa nenhuma para Burle Marx. Dizia que no Brasil jardim é feito para a festa de inauguração, a que se segue "o que o poder público costuma fazer com suas obras: abandoná-las".
"Modernidade Verde - Jardins de Burle Marx", de Guilherme Mazza Dourado (Senac São Paulo, Edusp; 320 páginas; R$ 90). Lançamento: 18 de agosto, 19h, Livraria Martins Fontes.
"Roberto Burle Marx 100 Anos: A Permanência do Instável", Museu de Arte Moderna, Pq. do Ibirapuera, portão 3, tel. 11 5085-1300. Das 10h às 17h30 (fecha 2ª). Até 13/9. Ingresso: R$ 5,50 (dom. grátis).
"Burle Marx por Gautherot", IMS-RJ, Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea, tel.: 21 3284-7400. De 8 de agosto a 27 de setembro de 2009.
agosto 11, 2009
Cravo Neto transgrediu códigos da fotografia por Eder Chiodetto, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 11 de agosto de 2009.
Artista, que morreu domingo, buscava manifestações cósmicas no cotidiano
"UM MOMENTO de beleza é um momento de encontro", escreveu o artista Mario Cravo Neto, morto no último domingo em Salvador, aos 62 anos. E a beleza de sua arte, de fato, se explica em boa parte pela criação de um espaço simbólico de celebração de encontros. Sua fotografia promove de forma singular a junção entre realidades visíveis e as fronteiras do ficcional, entre mito, vida e arte. Sua percepção aguçada o levou a perceber, nos gestos cotidianos, manifestações cósmicas onde se podia entrever a origem do universo. O ancestral embutido no banal.
Esse caráter metafísico de seu trabalho foi gestado, não há como negar, pelo ambiente artístico e sincrético de Salvador, na Bahia, onde nasceu, foi criado, viveu e, por fim, transformou no pano de fundo de sua obra. "Na Bahia encontra-se o que a gente tem carinhosamente em comum e não agressivamente o que tem de diferente", escreveu nos agradecimentos do livro "Laróyè" (Áries Editora, 2000), sem dúvida, um dos mais belos, importantes e vigorosos livros de fotografia já editado no Brasil. "Laróyè" é uma saudação em iorubá para o exu, entidade controversa adorada por Cravo Neto.
Além do cenário, havia a família e seu entorno a contribuir. O escultor Mario Cravo Junior, seu pai, ao saber naquele abril de 1947 que sua mulher estava em trabalho de parto no hospital, optou por ficar em casa, de frente para o mar, ouvindo "Prélude à l'Après-midi d'un Faune", de Claude Debussy. Depois, levaria seu pequeno "fauno" para conviver com artistas e intelectuais de sua geração como Jorge Amado, Pierre Verger, Carybé e Pietro e Lina Bo Bardi, entre outros tantos.
Trabalhando em paralelo com a escultura e a fotografia desde os 17 anos, Mariozinho, como seria sempre chamado pelos mais íntimos, aprimorou seus estudos após morar em Berlim com o pai e rodar a Europa. Estudou com o fotógrafo Max Jacob e com o pintor modernista italiano Emilio Vedova (1919-2006). Em 1968, estudou na Arts Students League, em Nova York.
Num dado momento da carreira, percebeu que seria impossível manter em paralelo as atividades de escultor e fotógrafo. Optou pela segunda. "Jorge Amado, assim como outros, gostavam de minhas fotos e diziam que eu devia me dedicar só a ela", contou.
Um sério acidente de carro em 1975 o deixou com as duas pernas quebradas e sobre uma cama por cerca de um ano, levando-o à fotografia de estúdio. Iniciou assim as séries em preto e branco "O Fundo Neutro" e "Meus Personagens", as mais conhecidas de sua trajetória e que constam nas mais prestigiadas coleções particulares e públicas do mundo como a do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), a do Tokyo Institute of Polytechnics, a da Fundação Cartier (Paris), entre muitas outras.
Arte colecionável
No contexto da fotografia de arte brasileira, Cravo Neto tem uma importância fundamental: foi um dos primeiros a ter sua obra valorizada pelo mercado de arte internacional, a introduzir no Brasil a ideia da fotografia como objeto de arte colecionável, a discutir tiragem, qualidade de cópia etc.
Para além desse aspecto, a obra de Cravo Neto continuará a ser uma chave fundamental para se discutir um tipo de arte que utiliza elementos mínimos para expressar a ancestralidade do homem, seu lugar no universo, a poética que envolve a noção de passado e futuro etc.
Foi assim, por exemplo, que se deu sua incursão no candomblé. Ao fotografar os ícones ritualísticos da religião afro-brasileira, Cravo Neto buscava de forma muito peculiar conectar objetos, pessoas, atmosfera, símbolos e mitos organizados em sua beleza escultórica para celebrar a pulsão de vida da matéria. A morte como parte dessa pulsão, um ciclo que não cessa.
Com Cravo Neto, a fotografia transgrediu códigos e ampliou suas possibilidades de representação. São raros os artistas que conseguem ampliar o repertório de sua arte dessa maneira. E raros artistas não morrem jamais. Laróyè!
Iconoclastia de Paulo Brusky é sintetizada em livro, Jornal do Commercio
Matéria originalmente publicada no Jornal do Commercio, em 20 de julho de 2009.
O artista plástico Paulo Bruscky era um homem com pressa. Sua obra – pouco compreendida e isolada em Pernambuco, na sua época – precisou de novos meios para se fazer existir. Foi assim, meio por necessidade, meio por alinhamento às ideias da arte conceitual em formação, que Bruscky aderiu e ajudou a formatar a arte postal.
Durante anos, ele trocou correspondências com artistas de vários países. Em microcartas, cartões postais e envelopes, o artista, a seu modo – iconoclasta, sintético e irônico – também ajudou a denunciar a ditadura militar no Brasil. Parte desta história está contada no livro Paulo Brusky: arte em todos os sentidos, um registro da sua exposição na última Bienal de Havana, escrito pela crítica e curadora de arte Cristiana Tejo, que será lançado nesta segunda-feira (20), às 18h, no Museu do Estado.
Embora a arte postal represente uma parte significativa do trabalho de Paulo Bruscky, ela não é a única tratada pelo livro. Outras obras, como poemas-perfomances, os livros de artista, as pichações e as experiências com xerogravuras (gravuras feitas em máquinas de xérox) também estão presentes na obra, que é publicada com apoio dos governos do Estado de Pernambuco e Federal. A diversidade de materiais, suportes e formatos disponíveis no trabalho de Paulo Bruscky está ligada à maneira livre como o artista sempre explorou as possibilidades criativas da arte contemporânea.
Apesar de toda essa pluralidade de imagens, o livro ressalta que é no pensamento, na linha de condução de todas essas peças, que Bruscky mantém sua unidade. O artista é um autor de não-manifestos por excelência. Entre as suas criações há frases-título como “O que é arte? Para que serve?” e a obra Limpo e desinfetado, na qual se lê: “Artistas prontos para exposições, salões, bienais, convenções, debates, acontecimentos, performances, cursos, sessões de tempestade cerebral, etceterarte...”.
“A arte é uma forma de ver, não de fazer” é outra máxima repetida por Bruscky – e que bem expressa tanto seu pensamento quanto sua estética, como lembra Cristiana na abertura do livro. O Museu do Estado fica na Av. Rui Barbosa, 960, Graças.
Mostra revela mundo onírico de Marc Chagall por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 07 de agosto de 2009.
Maior exposição do artista russo já feita no país está em cartaz em Minas Gerais
Mais de 300 obras do artista, mestre do século 20, estão em museu mineiro e vão depois ao Rio, para o Museu Nacional de Belas Artes
Mesmo a morte em Chagall é sublime. Suas flores carregadas de cor não parecem, mas são símbolo de vida frágil. Estão sempre ao lado de amantes, como se marcassem o tempo que resta de êxtase sobre a Terra. Talvez porque o tempo do artista também pareceu medido a conta-gotas. Escapou aos massacres de judeus em sua Rússia natal, fugiu de tropas nazistas que invadiram a França onde se radicou. Numa ironia feliz, Marc Chagall morreu de velho: fez a última gravura, almoçou e dormiu para sempre aos 97.
Na mesma placidez, Chagall escondeu todo o horror sob mantos vibrantes de azul marinho, cor-de-rosa, verde e púrpura. Mais de 300 obras, entre telas, gravuras e esculturas, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, dão as coordenadas desse universo onírico: homens e animais flutuantes, contornos esmaecidos, luz matizada. "Ele tem essa vibração da cor", diz Fábio Magalhães, curador da mostra. "Por isso, num mundo tão escatológico quanto o da arte contemporânea, Chagall desperta tanto interesse."
Vacas voadoras
Destoa de tudo hoje e destoava então. Em pleno auge do construtivismo russo, no começo do século 20, bolcheviques perguntavam a Chagall o que suas vacas voadoras tinham a ver com a Revolução Russa. Ele rompe com os líderes do movimento, mas não descarta certa geometrização em suas telas com animais, violinistas e amantes em voo livre.
Se não tem a ver com a revolução, tem a ver com a tradição do hassidismo judaico, que pregava a busca do êxtase nas relações com Deus e suas criações no mundo terreno. Chagall mescla tradições e arma um universo cor-de-rosa -a série de gravuras "Dafne e Cloé" é talvez o exemplo mais sólido, na mostra, desse mundo paralelo, embevecido de cores.
Filho de açougueiro, Chagall não esquece bezerros, vacas e os animais de sua vila. Mais tarde, em Paris, tudo ressurge como sonho, cenário pastoril fundido à metrópole que embala toda a sensualidade delicada.
Chagall acabou sendo um amálgama de vanguardas. Nas primeiras paisagens, banais e um tanto esquemáticas, tenta seguir a arquitetura visual de Cézanne -cilindros, cones, esferas. Mais adiante, descobre a selvageria dos campos cromáticos de Matisse. Não chega a destruir a lógica, como os surrealistas, mas desloca tudo de lugar e reorienta o olhar.
O jornalista Silas Martí viajou a convite da Casa Fiat de Cultura
Vale, Cultura? Vale! por Marcos Sampaio, O Povo
Matéria de Marcos Sampaio originalmente publicada na seção Vida e Arte do O Povo, em 08 de agosto de 2009.
Com a chancela de "urgência urgentíssima", foi enviado ao Congresso Nacional o projeto de lei que cria o Vale Cultura. A iniciativa propõe inverter a lógica de incentivo cultural, passando a investir no consumo. O Vida & Arte Cultura de hoje descreve como funciona a nova lei e mostra quem sai ganhando, caso ela seja aprovada
E já se vão 18 anos desde que foi criada a lei nº 8.318, conhecida como Lei Rouanet de Incentivo à Cultura. Infelizmente, esta lei federal chega à sua maioridade cercada por uma série de críticas. Entre elas, o privilégio aos realizadores do Sudeste e o fato de ela incentivar a produção, e, não, o consumo. Nas palavras do ministro da Cultura, Juca Ferreira, ela é “imperfeita, perversa e pouco democrática”. Após tantas divergências, o que mais se fala entre os produtores de cultura é em reforma desta lei ou na criação de novos mecanismos de democratização da cultura.
No último dia 23, numa cerimônia realizada no Teatro Raul Cortez, na sede da Federação do Comércio de São Paulo, um passo decisivo foi dado nesse sentido. Diante de uma plateia repleta de celebridades políticas, foi lançado oficialmente o projeto de lei que cria o Vale Cultura. De acordo com o texto do projeto, os trabalhadores terão direito a um crédito mensal de até R$ 50 para serem gastos exclusivamente com produtos culturais.
“O Vale Cultura é um mecanismo de reforma da Lei Rouanet criado dentro de um novo modelo de financiamento que prevê o incentivo ao consumo de cultura”, explica Roberto Nascimento, secretário federal de fomento e incentivo à Cultura. Segundo ele, pelos dados oficiais, a lei, se aprovada pelo Congresso, poderá atingir algo em torno de 12 milhões de trabalhadores formais. Caso todos os trabalhadores brasileiros optem por utilizar o benefício, isso terá um custo de R$ 2,5 bilhões por ano aos cofres públicos e injetará R$ 7 bilhões no mercado de cultura. “Não existe o hábito de se consumir cultura como teatro, cinema. Por isso, temos potencial para crescer”, avalia.
Todo trabalhador de carteira assinada terá direito ao Vale Cultura, desde que seu empregador esteja disposto a oferecê-lo. E é direito do trabalhador optar entre receber, ou não, o valor correspondente ao benefício. Caso queira, o trabalhador que ganha até cinco salários mínimos poderá arcar com até 10% do valor do crédito (R$ 5). Para os demais, que ganham acima desse patamar, o desconto poderá variar entre 20 e 90% e só vão ter direito o assegurado com a condição de que fique garantido o atendimento à totalidade dos empregados que ganham abaixo desse valor. O restante será coberto pelo empregador.
As empresas que declaram imposto de renda com base no lucro real, que decidam oferecer o Vale Cultura aos seus empregados, serão beneficiadas com a renúncia de até 1% do total. Outros empregadores, que não têm regime tributário com base no lucro, também podem conceder este direito, embora não sejam beneficiados com a renúncia fiscal. Quem ainda não está contemplado pelo projeto são os funcionários públicos, mas já se está pensando numa forma de inclusão deste grupo. O próprio presidente Lula já demonstrou interesse em incluir o segmento.
De acordo com Roberto Nascimento, um dos pontos positivos da adesão dos empregadores é que este benefício não é incorporado ao salário, por isso a empresa não paga tributo extra. “Isso já é um incentivo. Existem muitas empresas que oferecem sem descontar nada do trabalhador”. Segundo ele, os sindicatos já estão ansiosos porque interessa a eles agregar mais um benefício aos trabalhadores. “Não estamos falando de um benefício a mais. E, sim, de um que agrega qualificação à força de trabalho de uma empresa. Com um universo de trabalhadores consumindo mais cultura, você desenvolve o seu senso crítico. Isso impacta positivamente na produtividade, no comprometimento com a empresa, e se coloca como um diferencial competitivo junto a sua concorrente. Vivemos a era do conhecimento. É importante que os trabalhadores possam se inserir nessa era. Todos ganham com isso”.
Experiência
Antecipando-se à aprovação da lei, em abril de 2007, a Sodexo Cheques e Cartões de Serviço lançou o Cultura Pass, que, segundo o diretor de marketing José Roberto Arruda, serviu como modelo para o projeto do Governo. Entusiasta assumido do Vale Cultura, ele conta que o produto surgiu num momento de preocupação com o que chamou de “geração Hommer Simpson, que tem televisão e cerveja, mas não lê um jornal”. Ele citou também a preocupação com o analfabeto funcional, que sabe ler, mas não entendem o que está escrito. “Há saindo uma geração que é tida como alfabetizada, mas que é analfabeta. Quando entram no mercado de trabalho, essas pessoas não decolam”.
Na sua opinião, o maior mérito do Vale Cultura está na inclusão cultural. “Todo mundo paga um pedaço e o resultado é o dinheiro novo entrando no mercado e para a cultura. Que as pessoas comprem o que quiserem, mas vão entrar onde antes não entravam. O trabalhador vai poder escolher entre comprar um disco na loja ou ir a uma peça de teatro mais cara”. Quanto à Lei Rouanet, conclui: “Garante a produção, mas não garante o público. Quando o poder de escolha vai para o consumidor, tudo muda. As pessoas vão começar a ser cobradas por qualidade de espetáculo”.
MUBE demite o curador Jacob Klintowitz e revela falta de rumo, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 10 de agosto de 2009.
Diretor do museu, Jorge Landmann, diz que novo eixo será "arte-terapia"
Deve ficar mais vazio o Museu Brasileiro da Escultura. Na quinta passada, o curador Jacob Klintowitz foi demitido, seguido de um anúncio que o MuBE não terá mais alguém fixo nesse cargo -decisão que deixa evidente a falta de rumo que vem abalando o museu.
Faz dois anos que a direção da instituição cassou o mandato da ex-presidente Marilisa Rathsam e pôs no lugar Jorge Landmann, que indicou Klintowitz para o cargo de curador. Era uma tentativa de reerguer o espaço, que ficou conhecido como "museu de aluguel".
Mas não parece ter funcionado. "O museu agora acha que todas as exposições têm de ser lucrativas, e eu não entendo de lucro, só entendo de arte", disse Klintowitz à Folha. "Museu sem curador não existe, é como um hospital sem médico."
Landmann discorda. Diz ser "conceitualmente" desnecessária a figura de um curador.
Mesmo assim, Klintowitz diz ter devolvido o museu ao panorama cultural da cidade, passando de "buraco negro" a "galáxia". A frequência do MuBE, de fato, aumentou, mas continua baixa -cerca de 70 mil visitantes por ano. Também é esquizofrênico o programa de exposições, que vai de mostras sobre jovens grafiteiros à homenagem aos 50 anos de carreira de Mauricio de Sousa.
"Nós colocamos coisas boas, coisas que chamaram público, coisas que interessam aos patrocinadores", define Landmann. "Foi um misto grande."
Nesse "misto", não cabe um curador. Alegando não ter verbas para manter alguém no cargo, o MuBE decidiu então extinguir a função. Klintowitz diz deixar o museu sem ter recebido um ano de salários.
Mesmo se a trajetória de Klintowitz está longe de ter sido exemplar, a falta de um curador é um "retrocesso" na opinião do secretário municipal da Cultura, Carlos Augusto Calil.
"Pelo visto, o MuBE é impermeável a projeto cultural", diz Calil. Ainda corre na Justiça um processo que tomaria de volta o terreno e o prédio do MuBE, projeto de Paulo Mendes da Rocha, construído com verbas públicas (cerca de R$ 35 milhões foram investidos ali).
No lugar de um projeto curatorial, Landmann quer agora instituir a "arte-terapia" como eixo central do museu. "É trabalhar via arte a deficiência de uma pessoa, para ela se sentir mais inserida no mundo", diz.
Em outras palavras, seriam mostras para deficientes visuais, auditivos, paraplégicos, sem uma definição clara do que haveria em cada exposição. "Isso foge um pouco a uma curadoria, é uma ação cultural para a sociedade", diz Landmann.
"Arte-terapia não pode ser um eixo, é um complemento de política cultural", rebate Calil. "Jamais o projeto cultural do MuBE se completou; é mais uma prova que as pessoas [no museu] estão desorientadas."
Landmann, que integrou a diretoria anterior e está há dois anos como o titular do MuBE, diz que ainda está tentando traçar um perfil para a instituição. "Nenhum museu é o que quis ser", afirma. (SM)
agosto 10, 2009
MPE condiciona presidência da Bienal a rescisão de contrato por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado de S. Paulo, em 20 de julho de 2009.
Fundação tem acordo com evento dirigido pela mulher de Heitor Martins, eleito em maio.
O Ministério Público Estadual (MPE), por meio de ofício do promotor Airton Grazzioli, da curadoria de Fundações do órgão, indeferiu ontem os registros da eleição e posse do consultor Heitor Martins como presidente da diretoria executiva da Fundação Bienal de São Paulo. O principal argumento é o "conflito" entre o cargo de Martins e o contrato entre a Bienal e o evento SP Arte - Feira Internacional de Arte de São Paulo - dirigido por Fernanda Feitosa, mulher do presidente eleito. Segundo Grazzioli, há três alternativas: eleger um novo presidente para a diretoria executiva; entrar, em até dez dias, com processo judicial contra a decisão; ou revogar o contrato com o SP Arte, que só venceria em 2015.
Heitor Martins foi eleito em 28 de maio presidente da diretoria executiva da Bienal e empossado em 27 de julho. O contrato entre a Bienal e a SP Arte foi firmado em 2004 e desde 2005 o evento - uma feira de arte moderna e contemporânea que envolve galerias nacionais e estrangeiras - ocorre anualmente no prédio da instituição, no Ibirapuera.
"Fico surpreso e triste com a decisão do MPE", diz Martins. "Tenho uma profissão (é sócio-diretor da empresa de consultoria McKinsey), o cargo de presidente da diretoria é uma posição não remunerada e a relação entre o SP Arte e a Bienal é legítima." Segundo ele, quando foi convidado a se candidatar à presidência da instituição, sua primeira pergunta foi a questão da SP Arte, que a instituição não considerou um problema pelo fato de o contrato de cessão (ou aluguel) de espaço para a realização do evento no prédio ter sido firmado antes, na gestão de Manoel Francisco Pires da Costa. "Vinha colocando todos os meus melhores esforços para revitalizar a Fundação, mas agora o caso é matéria do conselho da instituição." O presidente do Conselho Administrativo da Bienal, Miguel Alves Pereira, não quis fazer nenhuma declaração. "Vamos estudar e não sei quando faremos uma reunião. Fico chocado com a impertinência do MPE, porque a Bienal está há anos em crise e quando se consegue uma equipe profissional é tudo barrado", diz Pereira. Martins já levava adiante o projeto de realização da 29ª Bienal de São Paulo, mostra programada para ocorrer em 2010 (leia ao lado).
"Há conflito de interesse porque o presidente da diretoria executiva vai ter de fiscalizar o contrato, as obrigações que seriam da feira", diz Grazzioli. "Enquanto isso a Bienal fica no limbo", afirma o promotor. Segundo Fernanda Feitosa o fato é um "absurdo". "As pessoas que alugam o prédio não negociam com o presidente. Existe um contrato, todo ano ele é corrigido com os índices que a Bienal estipula", diz a diretora da feira, que fala em "indenizações" caso haja algum encerramento do evento. Segundo ela é "ingenuidade achar que o presidente da instituição, que tem coisas mais sérias para fazer, seja a pessoa responsável por fiscalizar." "Se meu marido fosse membro do conselho em 2004, tudo bem, mas minha relação com a Bienal é anterior à eleição." Fernanda ainda diz que já realiza desde julho pagamento de dez parcelas do aluguel do prédio para a SP Arte de 2010, marcada para ser inaugurada em 29 de abril.
Em 17 de julho o MPE enviou à Bienal ofício pedindo esclarecimentos envolvendo a eleição de Martins. Além da questão da SP Arte, também questionou os membros estatutários da equipe de sua diretoria e a eleição de novos sete conselheiros (Alfredo Egydio Setúbal, Carlos Jereissati, José Olympio Pereira, Paulo Sérgio Coutinho Galvão Filho, Susana Leirner Steinbruch, Tito Enrique da Silva Neto - indicados por Martins - e Cacilda Teixeira da Costa), também ocorrida em 28 de maio. Grazzioli, ainda no ofício de ontem, rejeitou a ata que elegeu os conselheiros.
Impasse pode comprometer realização da Bienal em 2010
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado de S. Paulo, em 20 de julho de 2009.
A confusão jurídica que se formou pode atrapalhar os planos para a próxima edição da Bienal de Arte de São Paulo, que já estavam bem encaminhados. O recifense Moacir dos Anjos foi anunciado oficialmente no dia 14 como coordenador geral da 29ª Bienal, marcada para ser inaugurada entre o fim de setembro ou início de outubro de 2010.
Anjos já havia definido até o projeto curatorial da exposição, por enquanto tendo como título "Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar", verso da obra Invenção de Orfeu (1952), do alagoano Jorge de Lima. De Londres, em apresentação por teleconferência, ele adiantou duas diretrizes principais para a mostra: o destaque para o que o curador chama de "política da arte", invocando criações de cunho político; e a mistura de obras de criadores consagrados e jovens na exposição.
Heitor Martins já estava programando para anunciar daqui a uma semana o restante da equipe que faria toda a mostra: o arquiteto da exposição, o designer gráfico, o curador de arte educação, um cocurador brasileiro e três ou quatro internacionais. O projeto da 29ª Bienal de São Paulo é o de se fazer uma exposição grande, com cerca de 200 artistas, e com forte caráter internacional. O orçamento previsto é de R$ 40 milhões - R$ 25 milhões para a mostra, R$ 5 milhões para o projeto educativo e R$ 10 milhões para obras de manutenção do prédio e outras atividades.
O processo de captação de recursos já estava sendo iniciado. No fim de julho a Prefeitura de São Paulo liberou verba de R$ 1,8 milhão e foram feitas captações de R$ 700 mil ( Banco ABC e da Oi). Ainda para 1º de setembro estava programado um jantar na Bienal para arrecadar fundos, com entre 400 a 500 convidados, cada um fazendo contribuição de R$ 2,5 mil.
