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junho 10, 2009
Ovação, vaia, polêmica e histrionismo por Jotabê Medeiros, O Estado S. Paulo
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 10 de junho de 2009.
Nova Lei Rouanet deflagra confrontos e aglutina apoios, em teste de fogo em SP
Foi o maior e mais quente debate sobre as mudanças na Lei Rouanet até agora. Cerca de 400 pessoas, entre artistas, produtores culturais, intelectuais, políticos e ministros, lotaram a conferência pública sobre a reforma da legislação de incentivo à cultura, no auditório da Associação dos Advogados de São Paulo, Centro de São Paulo, anteontem à noite.
Manifestantes do Grupo 27 de Março, responsável pela invasão da Funarte há três meses, agitaram o encontro com vaias, ovações e palavras de ordem ("Abaixo a baixaria, cultura não é mercadoria!", gritavam). Entre os participantes estavam as atrizes Beatriz Segall, Rosi Campos, Ester Góes, o ator e produtor teatral Odilon Wagner, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), a socióloga Maria Vitória Benevides (USP), o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Ubiratan Aguiar, além dos ministros Juca Ferreira (Cultura) e Fernando Haddad (Educação).
O debate começou às 19h30 e terminou por volta das 23 h. A temperatura chegou a subir em alguns momentos, especialmente entre Juca Ferreira e o ator Odilon Wagner, que preside a Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTI).
O ministro acusou produtores que usufruem de privilégios na formatação atual da Rouanet de não querer nem ouvir falar em mudanças. Wagner retrucou, afirmando que o próprio Ministério da Cultura (MinC) reproduz a concentração que denuncia - nas mãos de 3% dos produtores e essencialmente no Sudeste brasileiro - quando usa o atual Fundo Nacional de Cultura.
Segundo Odilon Wagner, a cultura é mais vigorosa no Sudeste porque estão aqui as empresas mais rentáveis. Ferreira disse que Wagner não soube ler os dados disponíveis. "Não adianta buscar cabelo em ovo, Odilon", disse o ministro. "É impossível defender tamanha concentração (de dinheiro)."
"Tentaram desmoralizar o novo projeto antes que fosse apresentado. Mas a atual legislação permite desvios e práticas ilegais", completou Ferreira, que disse que teve de fazer "grande esforço para manter o ministério íntegro", face ao sem número de abordagens que recebeu de artistas e produtores em busca de privilégios.
Nesse trecho de sua fala, Ferreira ficou emocionado e conclamou os produtores de cultura a mudar o sistema "para evitar que esses despachantes fiquem corrompendo o Ministério da Cultura brasileiro".
Predominou o apoio explícito ao ministro e à proposta, mas produtores contrários ao novo texto reclamaram de espaço para se manifestarem. "É um evento controlado. Uma plateia amiga, um programa de auditório, e não um debate", acusou Paulo Pélico, dramaturgo e cineasta, diretor da Apetesp (Associação de Produtores Teatrais do Estado de SP).
Pélico se retirou do auditório em protesto. Mas o fato é que quase todos os inscritos para falar - havia filas diante de dois microfones na plateia - conseguiram se manifestar até o final do encontro.
O ator Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, disse que uma "minoria que tem acesso aos meios de comunicação" é que faz a mais forte oposição a uma reforma na legislação cultural. Ari Brandi, do Teatro Grafite, recusou com destempero a afirmação, ironizando as intervenções dos colegas favoráveis ao projeto aos gritos, na frente da mesa.
Os sociólogos Renato Ortiz, da Unicamp, e Maria Vitória Benevides, da USP, participantes da mesa, defenderam com verve acadêmica as reformas. "É um projeto emancipatório", afirmou Maria Vitória. "Se a lei não existisse, ela deveria ser inventada", afirmou Renato Ortiz, que desdenhou da acusação de "dirigismo cultural" que se faz à nova lei. "O dirigismo cultural é impossível no contexto contemporâneo. Esse espaço já está ocupado pela grande mídia, pela Rede Globo", disse. "Vai ser muito difícil estabelecer um vínculo dirigista com um grupo indígena que queira fazer um filme."
Frases
Você saiu daquela reunião no MinC dizendo que não havia um projeto novo, era blefe. Lembra daquela sua declaração, Odilon?
Vocês agora estão passeando nos intestinos do Ministério da Cultura, mas não sabem ler.
O outro ali reclama do excesso de debates. Isso é falta de cultura democrática. JUCA FERREIRA - MINISTRO DA CULTURA
A área cultural não tem corrupção? O risco é o mesmo de qualquer área. Onde há o agente privado e o dinheiro público, há o risco. É preciso auditoria e gerenciamento dos projetos. CLAUDIO WEBER ABRAMO - ONG TRANSPARÊNCIA BRASIL
Aqui é uma plateia amiga, um evento controlado, um programa de auditório e não um debate. PAULO PÉLICO - PRODUTOR CULTURAL
Não há um só número verdadeiro entre esses que o Ministério apresentou até agora sobre concentração de recursos. ODILON WAGNER - PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE TEATRO INDEPENDENTE (APTI)
Pelo menos desde a Revolução Francesa, que não passou por aqui, sentimos falta dessa característica: solidariedade. Mas como exigência democrática. Não é caridade, não é benevolência. MARIA VITÓRIA BENEVIDES - SOCIÓLOGA DA USP
Não podemos tornar isso ideológico, o bem contra o mal. Nada do que está sendo discutido aqui está no projeto. E essa dicotomia é insuperável. MAURICIO FITTIPALDI - ADVOGADO
Projeto de lei fica pronto em 2 semanas
NOVA ARENA: Segundo o ministro da Cultura, as modificações na Lei Rouanet devem ser enviadas ao Congresso até o fim deste mês, antes do recesso parlamentar. Juca Ferreira disse que tem pressa e que 16 pessoas, em Brasília, trabalham no aprimoramento da lei.
O novo texto, que modifica a atual Lei Rouanet, já foi debatido em 19 capitais brasileiras. Aberto à consulta pública desde março, recebeu cerca de 2 mil sugestões de todo o País.
Segundo planilha exibida pelo ministro, a Nova Lei Rouanet terá R$ 2 bilhões de orçamento no primeiro ano, enquanto o Vale-Cultura (que será criado por meio do mesmo texto legislativo) receberá uma injeção de R$ 7 bilhões (fruto de parceria entre governo e empresas).
Hoje, segundo dados do MinC, apenas 3% dos proponentes ficam com 50% dos recursos disponibilizados pela lei. A mudança visa a distribuir recursos de forma igualitária. "Quando vejo artistas felizes, orgulhosos com seus certificados de captação, fico com pena, porque sei que mais de 80% deles não captarão nada", afirmou o ministro. "A cultura brasileira não cabe dentro da renúncia fiscal. A Lei Rouanet promove uma falsa parceria público-privada. Nós não somos contra a iniciativa privada. Mas o mecenato é quando se mete a mão no próprio bolso, e não no bolso do governo. Ao ser aprovado (um projeto), dá logo o dinheiro e o camarada vai fazer seu projeto", disse.
O ministro da Educação, Fernando Haddad, esteve no debate para fazer um apelo: que as obras financiadas pelo Ministério da Cultura sejam liberadas, após sua vida comercial, para uso nas escolas públicas brasileiras. Ele disse que não vê sentido em o governo financiar a feitura de uma obra artística e depois ter de comprá-la para uso educacional. "É muito triste o Ministério da Educação pagar direitos por aquilo que o Estado já financiou", ponderou.
A nova lei deverá adotar critérios na avaliação de obras culturais, o que tem suscitado o temor de que provoque dirigismo. "Atualmente, a lei tem critérios objetivos. A adoção de critérios subjetivos significaria a volta da censura no Brasil", disse Odilon Wagner. "E aqui se falou em dirigismo cultural? E o dirigismo privado?", questionou o ministro Ubiratan Aguiar, do TCU, que acha uma tolice o argumento.
Veneza abre sua ''feira de instalações'' por Camila Molina, O Estado S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado S. Paulo, em 8 de junho de 2009.
É o que virou a Bienal deste ano, por incentivo dos curadores, que pediram aos artistas para criar a partir do espaço concedido
Numa quantidade extensa de traduções, Fare Mondi, título da 53ª Bienal de Arte de Veneza, aberta ontem para o público, agrega uma série de significados, como diz o alemão Jochen Volz, que, ao lado do sueco Daniel Birnbaum, assina a curadoria desta edição. Volz faz uma lista de possibilidades em torno do tema: Fazer Mundos, em português, poderia remeter a algo mais prático; em alemão, a um ato grandioso; em sueco, a uma construção de caráter espiritual; em francês, a ação mais pragmática, e assim por diante. Ele vai elencando conotações, não deixando de chamar a atenção para aquele ideal de que as atuações dos artistas podem carregar todas as significações ao mesmo tempo.
Uma medida dos curadores foi levar os criadores a fazerem suas obras pensando no espaço específico que teriam na mostra e, assim, Fare Mondi se transformou, principalmente, numa Bienal de instalações (algumas grandes e poucas de impacto), repleta de trabalhos de 2009 e com intervenções por vários pontos do Arsenale. Um exemplo é o zepelim "entalado" pelo mexicano Héctor Zamorra (ele vive no Brasil) em um dos corredores do local.
Outra ideia foi a de que não existe uma linha reta da história da arte, mas confluências de pesquisas entre consagrados e jovens ao mesmo tempo. Só que a base da mostra são as experimentações do terreno conceitual a partir dos anos 1960. "Pensamos em quais artistas têm uma atualidade, são vivos, e ao mesmo tempo, referência", diz Volz ao Estado. Por isso, não há as obras do chamado caráter histórico nas exposições.
O italiano Michelangelo Pistoletto, nascido em 1933, participa no Arsenale com uma instalação de 2009, Vinte e Dois Menos Dois, em que coloca grandes espelhos emoldurados quebrados pela ação de uma marretada (ela está lá para remeter ao frescor da ação). Em cada espelho, material que aparece na obra do artista desde a década de 1961, faz-se um desenho diferente, os estilhaços ficam no chão, nesse trabalho espetaculoso e conceitual.
Em todos esses sentidos, a participação da brasileira Lygia Pape (1927-2004) nesta Bienal de Veneza ganhou grande destaque, tanto que ela ganhou uma das menções honrosas, no sábado à tarde, na cerimônia de premiação, que culminou com os troféus Leão de Ouro para a japonesa Yoko Ono e para o americano John Baldessari. O de melhor artista ficou para o alemão Tobias Rehberger, que fez intervenção na cafeteria dos Giardini; a de artista jovem para a sueca Nathalie Djurberg,que exibe a instalação Experiment, um jardim surreal de plantas e bichos agigantados feitos de papel marché, animações e música, tudo se reunindo numa atmosfera organizada e propositalmente de mau gosto; e aos Estados Unidos coube o prêmio de melhor representação nacional por apresentar em seu pavilhão, nos Giardini, a mostra Topological Garden, de Bruce Nauman, com obras de 1967 até 2005, com suas famosas frases ou palavras em néon e trabalhos escultóricos de temática em torno da cabeça e das mãos.
A instalação Ttéia (2004), de Lygia, é a primeira obra do Arsenale (em amplo espaço escuro, fios de ouro saem de formas quadradas, se transformando em feixes de luz de quase imaterialidade). A obra tornou-se ponto de partida para que os curadores pensassem todo o espaço do Arsenale. Foi assim com a obra do argentino Tomas Saraceno, a grande instalação Galáxias Formadas por Fios, Como Teias de Aranhas (numa tradução livre), mas esta no pavilhão Biennale, nos Giardini - é uma das mais chamativas para o público: uma construção com fios de náilon preto toma toda uma sala e obriga que o público circule por dentro dela.
Além da Ttéia, o Livro da Criação (1959) de Lygia, no pavilhão Biennale, é uma preciosidade. Como afirma Volz, este trabalho de formas geométricas feitas em cartão e acompanhadas de breves escritos compõe uma narrativa essencial: "No princípio tudo era água", assim começa. Ele diz que é "obra-prima do neoconcretismo brasileiro" e agrega ao mesmo tempo o caráter formal e a relação com o público e trata da "dimensão social" da arte. "Não existe uma divisão entre o politicamente ativista e a rigidez formal. Sempre há uma urgência do artista em criar a partir de uma relação com a vida atual sem abandonar a pesquisa de visualidade", defende Volz, de 37 anos - há 5 ele é diretor artístico do Instituto Cultural Inhotim em Minas Gerais, o que explica sua proximidade com o Brasil.
A instalação inédita do carioca Cildo Meireles, "Pling Pling", de 2009, também é um grande destaque, no Arsenale. Seis salas coloridas, vibrantes e em sequência - roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho - têm cada uma em seu interior, numa das quinas de suas paredes, um monitor de TV onde está projetada a imagem filmada daquela mesma quina. Num momento inesperado, a cor do lugar projetado se transforma em outra e Cildo faz, na verdade, um sistema de contrastes - o espaço roxo fica com a tela amarela, o verde, com a tela vermelha, e assim por diante. O visitante vai passando por ele, sala a sala. "Talvez seja seu trabalho mais formal, mas é político também", diz Volz, lembrando também a relação com a pintura.
A Bienal de Arte de Veneza é a mais tradicional de todas. Nos pavilhões dos chamados Giardini, ficam as representações de cada país. A do Brasil, deste ano, selecionada pelo curador Ivo Mesquita, exibe fotografias do paraense Luiz Braga e pinturas do alagoano Delson Uchôa, jogando, nos dois casos, luz para certa poética da cor, chave da criação de ambos. Além da representação premiada, dos EUA, com mostra de Nauman, vale destacar o pavilhão da Polônia, com a videoinstalação Hóspedes, de Krzystof Wodiczko, sobre a imigração.
Veneza abre com instalações de brasileiros por Suzana Velasco, O Globo
Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, em 7 de junho de 2009.
Pavilhão geral da bienal tem obras de Lygia Pape, Cildo Meireles e Renata Lucas, que fez intervenção na arquitetura
A53ª Bienal de Veneza, mais tradicional exposição internacional de artes plásticas, será aberta hoje para o público com três artistas brasileiros, de três gerações diferentes, no pavilhão principal. Entre Lygia Pape (1927-2004) e Cildo Meireles, nomes consagrados da arte nacional, a paulista Renata Lucas, de 37 anos, firma na Itália uma carreira que esteve em ascensão nos últimos anos, marcada por ousadas intervenções em espaços públicos.
Numa cidade sem asfalto, Renata criou “Venice suitcase” (“Mala Veneza”), estradas sobre o solo de Veneza, nas alamedas das áreas do Arsenale e do Giardini. Propícia ao nome desta edição da bienal, “Criar mundos”, a instalação é, segundo a artista, um jogo entre História e ficção, natureza e cultura:
— Como num processo arqueológico, ao retirar parte da areia que recobre a alameda, encontra-se o pavimento característico de uma via moderna, asfaltada — explica Renata, por e-mail, após a montagem. — É um jogo de profundidades numa cidade em que não há subsolo, afinal de contas escava-se a areia da alameda (construída) para chegar à estrada (igualmente construída). É uma espécie de arqueologia ao contrário, onde, surpreendentemente, o que se encontra nas camadas subjacentes de uma cidade antiga como Veneza é futuro. Como uma poça de água no chão, a parte de solo retirada contém uma estrada. Para mim, foi importante deixar ver que essa estrada passa por toda parte.
Problemas com as regras de preservação em Veneza
Os artistas Delson Uchôa e Luiz Braga, escolhidos pelo curador Ivo Mesquita para o pavilhão brasileiro, quase não foram à Veneza pela Bienal de São Paulo — responsável pelo pavilhão desde 1993 —, por falta de patrocínio, resolvido na última hora com o apoio de R$350 mil do Ministério da Cultura. No pavilhão geral, Renata também teve problemas, mas de outra ordem. Mesmo já na cidade para criar sua instalação, ela ficou à espera por uma autorização, já que praticamente toda Veneza tem regras rígidas de preservação — e a artista queria construir uma estrada em plena área histórica.
— Veneza é muito limitada, não apenas porque é tombada, mas também porque não permite que certos equipamentos circulem pela cidade, pois só podem desembarcar máquinas leves. Há restrições de toda ordem. Aqui, inclusive o que é absolutamente novo finge que é antigo, e tradição e preservação são palavras que valem para tudo, sem distinção — conta Renata, que já plantou árvores nos jardins da Tate Modern, em Londres, e ocupou cruzamentos de ruas do Rio com placas de compensado.
O pavilhão italiano da bienal vai expor ainda o histórico “Livro da criação” (1959), de Lygia Pape, pranchas de papel que contam a História do mundo. Uma das mais belas instalações de Lygia, “Ttéia ”, também será exposta, na primeira sala do Arsenale, porta de entrada para a exposição. A obra é uma escultura de fios metalizados sobre placas de madeira e luz.
Cildo Meireles mostrará em Veneza a obra inédita “Pling Pling”. Cada uma das seis salas do espaço de Cildo é pintada de uma cor diferente — lilás, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho — e transmite, numa tela, uma gravação ao vivo de outra sala, com sua cor complementar.
Dos 500 artistas de dois anos atrás, a Bienal de Veneza — que será realizada até 22 de novembro — passou para 90 nomes, reunidos pelo curador sueco Daniel Birnbaum e pelo cocurador alemão Jochen Volz. Entre eles estão o sueco-brasileiro Öyvind Fahlström (1928–1976), os americanos Gordon Matta-Clark e Miranda July, a espanhola Sara Ramo, o argentino Tomas Saraceno, os italianos Rosa Barba e Simone Berti e a japonesa Yoko Ono, que este ano recebe o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra, junto com o americano John Baldessari. A exposição se completa com os 77 pavilhões nacionais, cada um com artistas escolhidos por cada país.
Crítica/Bienal de Veneza: Seleção de artistas evoca potência e fragilidade por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 9 de junho de 2009.
Mostra principal tem conjunto de obras coeso, mas falha ao evitar controvérsias
"T téia 1", de Lygia Pape, a obra que abre a mostra "Fazer Mundos", de Daniel Birnbaum, na 53ª Bienal de Veneza, resume bem tudo o que se vai ver daí em diante: uma seleção elegante, construída de forma frágil e ao mesmo tempo potente.
A elegância da obra de Pape, com fios dourados que constroem pilares quadrados, está também no vídeo da italiana Grazia Toderi, "Orbite Rosse" (órbitas vermelhas), uma imagem ovalada com milhares de estrelas, que parece um mapa de uma galáxia, mas que, vista de perto, são bombardeios de guerra, um dos trabalhos mais fortes da mostra.
O argentino Tomas Saraceno, em operação semelhante, constrói uma das mais surpreendentes instalações da Bienal, com fios que se transformam em globos, e dificultam o caminhar dos visitantes.
"Fazer Mundos" -a mostra tem 47 línguas no título, para tratar a arte como forma de tradução- se vale também da fragilidade, como os fios de Pape, o que faz com que a ideia de desenho seja recorrente, como nas obras de Marjetica Potrc, Öyvind Fahlström ou Richard Wentworth, entre outros.
A fragilidade/potência está também nas formas de expor, como nas fotos de vários formatos, algumas coladas na parede com fita adesiva, na sala de Wolfgang Tillmans, na invisibilidade da obra de Renata Lucas, ao asfaltar partes do chão da exposição, por onde muitos caminharam sem perceber.
Mas a qualidade na seleção dos 77 artistas de Birnbaum, com o assistente Jochen Volz, também se revela problemática: a delicadeza das obras evita controvérsias, como se o fazer mundos na arte ocorresse num sentido paralelo ao seu contexto. "Fazer Mundos" diagnostica bem a fragilidade que o mundo enfrenta, mas fica aí.
Brasil exótico
Já as representações nacionais seguem com disparidades gritantes. Por um lado, pavilhões como o dos Estados Unidos, que merecidamente ganhou o Leão de Ouro com Bruce Nauman, gastam milhões de dólares numa demonstração de poder -dessa vez, os EUA além de seu próprio espaço ocuparam outros dois na cidade.
Por outro lado, alguns pavilhões se rendem a estereótipos, como aconteceu desta vez com o Brasil, visto de forma exótica, por meio da produção de Delson Uchôa e Luiz Braga, seleção a cargo de Ivo Mesquita.
Esse "Brasil profundo", por conta da temática regionalista e um tanto folclórica, que parece propaganda governamental, tornou-se ainda mais arcaico perto de escolhas radicais, como Teresa Margolles, no México, que abordou a violência de execuções ligadas ao narcotráfico; Elmgreen & Dragset, artistas que curaram o pavilhão nórdico e dinamarquês, recebendo menção honrosa do júri, com uma abordagem sarcástica sobre colecionismo; ou Shaun Gladwell, na Austrália, levando a cultura pop a um rigor formal impressionante.
Mesmo assim, a diversidade continua exercendo uma forma de oxigenação em Veneza. E, felizmente, Renata Lucas, Sara Ramo, Cildo Meireles e Lygia Pape, apresentam um Brasil muito mais complexo que o do pavilhão nacional.
Paralela tem antigos e modernos
Em 2007, a mostra paralela mais falada da Bienal foi "Artempo: Quando o Tempo se Transforma em Arte", no Palazzo Fortuny, organizada por Axel Vervoordt. Ele volta a ocupar o mesmo espaço agora com uma exposição tão surpreendente quanto, "In-finitum", que segue a mesma linha da anterior: ocupa o palácio gótico, misturando os objetos de seus primeiros proprietários, criadores de tecido e cenógrafos, com arte contemporânea, muitas vezes confundindo o visitante. Bill Viola, Anish Kapoor, James Turrel e mesmo o brasileiro Vik Muniz estão ao lado de modernos como Pablo Picasso, Mark Rothko e Paul Cézanne. Um novo pavimento da casa foi incorporado à mostra, com concepção do arquiteto Tatsuro Miki, que criou o "Santuário do Silêncio", coberto com lama de lagoas venezianas.
Museu de bilionário francês une arte e demonstração de poder
A arte contemporânea, cada vez mais, vem se tornando uma das formas de exposição de poder e influência. Não por acaso, circulam pela Bienal de Veneza bilionários como o norte-americano Paul Allen (32º mais rico do mundo segundo a "Forbes") e o russo Roman Abramovich (51º). Mas quem ocupou o centro das atenções foi o francês François Pinault (60º), com a inauguração de seu novo espaço expositivo, na Punta della Dogana, projeto do arquiteto japonês Tadao Ando.
Há dois anos, Pinault já havia inaugurado uma sede de sua fundação em Veneza, no Palazzo Grassi, após romper com o governo francês. Sua intenção original era criar um museu, projetado por Ando, em Paris, mas por conta dos altos impostos cobrados pela França, o dono da Christie's foi a Veneza.
O novo local, um antigo armazém das docas, construído em 1631, com 5.000 m2, foi totalmente remodelado por Ando, a um custo de 20 milhões (cerca de R$ 60 milhões) e inaugurado em quatro dias diferentes, na última semana, para os VIPs de Veneza, com a mostra "Mapping the Studio".
Com obras da coleção de Pinault, a exposição, que ocorre também no Palazzo Grassi, reúne praticamente todos os nomes com maior sucesso comercial na cena contemporânea, como os japoneses Takashi Murakami e Hiroshi Sugimoto, o italiano Maurizio Cattelan, os norte-americanos Jeff Koons, Richard Prince e Cindy Sherman. Em arte contemporânea, difícil encontrar maior demonstração de poder. (FC)
Renata Lucas abre estrada em Veneza por Marcos Augusto Gonçalves, Folha S. Paulo
Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 9 de junho de 2009.
Artista brasileira fez trechos de asfalto na Bienal depois de ter projetos vetados
Mostra não autorizou fazer piscina em canal da cidade, mas pôs ideia em livro; Renata optou então por pavimentar caminhos na área dos Giardini
O catálogo da 53ª Bienal de Veneza, aberta anteontem para o público, traz imagens surpreendentes de obras de Renata Lucas, 38, brasileira que vem ganhando cada vez mais reconhecimento no circuito internacional da arte contemporânea. Numa das imagens, vê-se uma convidativa piscina construída dentro de um dos canais da cidade. Em outra, duas comportas interrompem o fluxo de água, deixando aparecer no fundo da laguna um insólito pedaço de estrada asfaltada.
Mas nenhuma dessas intervenções tornou-se realidade. Como outras propostas apresentadas pela artista à Bienal, não puderam ser construídas. Não por que fossem consideradas ruins pelos curadores da exposição, mas por parecerem caras e de difícil realização.
Intervenções na arquitetura e no espaço público são marca registrada de Renata, que na 27ª Bienal de São Paulo duplicou uma calçada numa rua da cidade, com postes e arbustos.
Em Veneza, algumas de suas ideias não chegaram sequer às mesas das autoridades que poderiam aprová-las: diante das restrições que cercam as construções da cidade histórica, a própria direção da mostra tratou-as como inexequíveis.
"Trabalhei muito, mas nada podia ser levado adiante. Até coisas mais simples, que pouco mexiam com o espaço público, foram recusadas", conta ela, que contesta a idéia de que suas propostas são difíceis e podem alterar de maneira definitiva os locais onde são realizadas. "Todos os meus projetos são reversíveis", diz a artista.
Ainda que seja assim, o fato é que quando a Bienal foi fechar o catálogo da exposição (em Veneza, diferentemente de São Paulo, ele pode ser adquirido na abertura do evento), Renata ainda não tinha um trabalho definido. "Sugeri então que publicassem no catálogo as imagens de todos os projetos que eu havia proposto, e dei o nome à série de "Venice Suitcase" (mala de Veneza)."
Depois de uma negociação que classifica como "exaustivo", ela conseguiu, enfim, sinal verde para uma obra de execução menos complexa do que uma piscina, mas de resultado não menos interessante.
Estrada
Nos dois principais espaços da Bienal, os Giardini (jardins) e o Arsenale, a artista instalou pedaços de uma estrada de asfalto sob o solo -ainda que a pouca profundidade. No início, a autorização para a camada de asfalto no piso dos Giardini (originalmente de terra e pedrisco) era para apenas 20 m2, mas a Bienal conseguiu que chegasse a 90 m2. No Arsenale, são menores, com menos de 10 m2, e ficam dentro do pavilhão.
"Grandes mostras como a Bienal de Veneza são quase sempre um quebra-cabeça, uma negociação entre o desejo do artista e a realidade. Mas essas dificuldades também têm um lado interessante. Tudo isso me fez lembrar um filme do Lars Von Trier chamado "Five Obstructions", que tem como tema uma série de restrições ao trabalho de um cineasta. Foi cansativo, mas no final fiquei satisfeita com o resultado", diz Renata.
As instalações dão o que pensar. Uma das ideias que suscitam -da qual a artista particularmente gosta- é a de se poder encontrar sob a superfície da velha cidade não uma camada do passado, mas alguma coisa do futuro, uma estrada de asfalto. "É como escrever a história ao contrário", diz.
Renata recebeu o convite para participar da Bienal em julho de 2008, quando estava em Barcelona. Logo a seguir fez uma primeira visita à cidade, retornou em novembro e, em janeiro, alugou um quarto para ficar. "Eu sou demorada, custo a fazer, preciso de tempo para pensar", explica. Durante os meses em que se defrontou com Veneza, descobriu um lugar labiríntico, histórico e, ao mesmo tempo, artificial.
"As camadas que não podem ser mexidas nem sempre são tão históricas assim. Há coisas que foram feitas há pouco tempo, mas são tratadas como se fossem muito antigas. Embora tenha um lado muito legal, Veneza é uma cidade-souvenir, um parque de diversões, e a Bienal, de certa forma, reflete tudo isso", diz.
Fechada a mala de Veneza, Renata vai passar um período em Berlim. Ela ganhou o prêmio Ernest Young, que lhe oferece estadia na cidade e uma exposição na Kunstwerk. Um outro prêmio, da Dena Foundation, vai resultar num livro, que deve ser publicado em novembro.
Brasileiro Cildo Meireles leva instalação "penetrável"
A instalação que o artista brasileiro Cildo Meireles mostra na Bienal de Veneza é uma espécie de "penetrável", conceito desenvolvido pelo também carioca Hélio Oiticica (1937-1980) para seus ambientes -obras nas quais o espectador é convidado a entrar.
No caso, trata-se de uma sequência em linha reta de seis salas interligadas, pintadas com cores impactantes, que o visitante pode atravessar numa direção ou noutra.
Em cada uma das salas, o artista, que não esteve presente na abertura do evento, afixou uma tela de TV reproduzindo uma a uma as cores escolhidas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.
A instalação não faz parte do pavilhão brasileiro -é uma escolha da curadoria geral da Bienal, assim como os trabalhos de Lygia Pape (1927-2004), Renata Lucas e Sara Ramo, todos exibidos no Arsenale, um grande pavilhão que foi em outros tempos um arsenal militar.
Ramo, artista brasileira de origem espanhola, tem duas obras no local. No interior do pavilhão, ela exibe um vídeo (que foi mostrado na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, no ano passado) intitulado "Quase Cheio, Quase Vazio".
Do lado de fora do prédio, criou uma casa-instalação inspirada na célebre história infantil de João e Maria.
A artista, que vive e trabalha em Belo Horizonte, considera que esse é o "mais narrativo" de seus trabalhos. "A ideia", diz Ramo, "é que as pessoas entrem fisicamente na historia deles". (MAG)
MinC agrega sugestões a projeto de Lei Rouanet por Marcio Aith, Folha S. Paulo
Matéria de Marcio Aith originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 10 de junho de 2009.
Versão terá critérios expressos para que o ministério aprove ou rejeite propostas
Juca Ferreira, titular da Cultura, nega dirigismo cultural; promoção explícita de marca será vetada na nova legislação
Três meses após colocar em discussão pública o anteprojeto de reforma da Lei Rouanet, o MinC (Ministério da Cultura) aceitou sugestões e mudou o texto original da proposta colocada em debate público em março passado.
Ao contrário da primeira versão, o novo anteprojeto trará critérios expressos para que o MinC aprove ou rejeite projetos culturais a serem incentivados por renúncia fiscal.
Pela versão original, estes critérios não passariam pelo Congresso. Seriam definidos por decreto ou dentro do próprio MinC, posteriormente à aprovação da lei.
A Lei Rouanet prevê incentivos fiscais para que empresas e pessoas financiem projetos culturais aprovados pelo MinC. Ela foi aprovada em 23 de dezembro de 1991.
Entre outras medidas, permite que o investidor deduza do Imposto de Renda até 100% do valor que investe em cultura. Em outras palavras, o Estado renuncia à cobrança de impostos para que o contribuinte invista em projetos culturais.
Dirigismo
A primeira versão da proposta do MinC vinha sendo muito criticada pelos setores que querem manter a lei como está.
Segundo eles, a proposta original abriria espaço para o dirigismo cultural e para o poder discricionário do Estado.
"Dirigismo cultural não cabe na minha biografia", disse o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em evento realizado na noite de terça para discutir a Lei Rouanet em São Paulo.
Segundo Ferreira, a discussão do projeto permitiu a ele entender a necessidade de explicitar os critérios na própria lei. Ele não especificou que critérios serão estes. A Folha apurou cinco:
1 - Capacitação técnica: esse item visa impedir a captação de recursos, via Lei Rouanet, por pessoas sem capacidade comprovada de realizar projetos.
2 - Preços acessíveis: o objetivo é impedir o patrocínio, via renúncia fiscal, de projetos que, depois de realizados, cobram preços altos para a população de baixa renda.
3 - Desconcentração: por esse critério, o MinC poderia aprovar ou vetar um projeto com o objetivo de assegurar o equilíbrio da produção cultural entre todas as regiões do país. Hoje, o MinC acredita que o Sul e o Sudeste são privilegiados.
4 - Permanência: o MinC poderia privilegiar grupos de teatro ou espetáculos itinerantes em detrimento de projetos de curta duração.
5 - Promoção de marca: por esse critério, projetos poderão ser rejeitados por promoverem explicitamente a marca de seus patrocinadores.
Governo
Nas últimas semanas, o MinC tem tentado convencer o governo a elevar, via suplementação orçamentária, os recursos do ministério e de seu Fundo Nacional de Cultura.
É com esse dinheiro que o ministro espera compensar, caso a lei seja aprovada, eventuais reduções do patrocínio cultural via renúncia fiscal. Na visão ideal do ministro, o fundo, e não a renúncia fiscal, deverá ser o instrumento principal para as políticas públicas de sua área.
OAB critica declaração de secretário sobre advogados
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) divulgou uma nota de repúdio a declaração feita à Folha pelo secretário-executivo do MinC (Ministério da Cultura), Alfredo Manevy.
Em entrevista à Ilustrada publicada no último dia 30, Manevy disse que a resistência do setor privado às mudanças da Lei Rouanet não vem de empresários, mas de "intermediários e advogados que funcionam como despachantes de projetos culturais".
Manevy comentava reportagem da Folha mostrando que o projeto, se aprovado em seu formato original, reduziria o apetite do setor privado por investir em cultura.
Manevy respondia a empresas, que, consultadas pela Folha, anunciaram que, nessa hipótese, devem reduzir seus investimentos na área, tanto os incentivados por redução de impostos quanto os feitos com recursos próprios.
Segundo a nota da OAB, a afirmação de Manevy é "descabida" e "infeliz". "Na condução dos projetos incentivados, o advogado é mais um dos prestadores de serviço fundamental para a boa consecução desses empreendimentos."
Para a entidade, o secretário-executivo, "como agente público, por imposição legal, deve portar-se conforme os padrões éticos da probidade e decoro".
A nota diz ainda que "equiparar a função do advogado à de meros intermediários diminui o importante papel desempenhado pelos advogados" na prestação da Justiça no país.
