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março 16, 2009
Bruscky em consagração internacional por Olívia Mindêlo, Jornal do Commercio
Matéria de Olívia Mindêlo originalmente publicada no Caderno C do Jornal do Commercio, em 11 de março de 2009
Em cartão postal ou museu, a obra de Paulo Bruscky já rodou o mundo. A relação do artista pernambucano com o território internacional é tão intrínseca à sua trajetória que soa lugar-comum falar a respeito de sua participação numa mostra fora do País. Mesmo assim, o reconhecimento com passaporte carimbado é algo bem recente na carreira de Bruscky, ainda marginalizado na história da arte. E este é um ano bem sintomático nesse sentido. Além de ter sido convidado para participar da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, ele será o único brasileiro a ganhar uma sala especial na Bienal de Havana, evento de peso no cenário latino-americano de artes visuais.
“É de fato um movimento de consolidação da carreira de Paulo internacionalmente”, reafirma Cristiana Tejo, curadora do projeto expositivo da sala, cuja abertura está marcada para 28 de abril. Uma galeria inserida numa biblioteca da cidade cubana foi o espaço oferecido pelos organizadores da grande mostra para abrigar as obras do artista – cerca de 150 ao todo. O espaço vem a calhar com a própria poética de Bruscky, um obcecado por arquivar tudo que encontra pela frente.
Diferente do que aconteceu em 2004, durante a Bienal de São Paulo, na qual ele também teve uma sala especial, o ambiente vai ser composto por obras de várias épocas, cujo diálogo se dá numa lógica de retrospectiva. Aliás, menor somente que a realizada pelo MAC-USP, na capital paulista. “A proposta é diferente da Bienal de São Paulo, porque lá foi só o meu ateliê. Desnudaram o meu processo criativo. Em Cuba, só os trabalhos serão mostrados”, compara o artista, que prefere não ligar muito para essa história de reconhecimento nacional ou internacional.
Com projeto cenográfico de Eduardo Souza, a exposição será montada no local em formato de “u”, com uma vitrine na frente. Dois documentários sobre vida e obra de Bruscky (da Globo News e TV Cultura), autorretratos, postais de arte correio, trabalhos de poesia visual, intervenções sonoras e filmes de artista estão entre os trabalhos a serem expostos na sala especial. Alguns inéditos ainda estão sendo feitos em seu ateliê.
Além dele, mais 11 nomes brasileiros vão participar da Bienal de Havana, incluindo o pernambucano José Paulo. No entanto, só Bruscky tem espaço exclusivo, ao lado de oito nomes de fora. O privilégio está garantindo não só a sua ida, mas de toda a equipe de sua exposição para a ilha. Por ser convidado de honra, os governos brasileiro e pernambucano toparam arcar com um custo de R$ 240 mil, já que o País anfitrião só dá o espaço e a viagem de volta das obras. O valor inclui, por exemplo, transporte de todo o material da mostra, do martelo aos aparelhos eletrônicos, difíceis de serem conseguidos em Cuba. Em contrapartida, o artista vai realizar ação no 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, no segundo semestre.
Esta não é a primeira vez que Bruscky expõe na Bienal de Havana. Aliás, quando participou, à distância, da primeira edição do evento, sua obra Teste poético ficou embargada na saída da ilha durante três anos, porque o Brasil não mantinha relações diplomáticas com Cuba. O tal álbum não vai estar nessa mostra, porque, segundo ele, estava muito ligado ao contexto brasileiro de ditadura. “Hoje não faz sentido expor”, diz. Mas a veia política está presente até como uma preocupação curatorial. A censura ficou bem longe desta vez. “Onde há censura eu não entro”, avisa o artista.
Rumos mostra nova arte do país por Mario Gioia, Folha de S. Paulo
Matéria de Mario Gioia originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 11 de março de 2009
Mapeamento de 45 artistas realizado pelo Itaú Cultural não encontra regionalismos e política explícita
Mostra, que tem abertura hoje para convidados, é fruto de trabalho coordenado pelo crítico Paulo Sergio Duarte
Mapeamento da nova arte nacional, o projeto Rumos Artes Visuais tem aberta sua exposição hoje no Itaú Cultural celebrando o cruzamento de linguagens -pintura, fotografia, vídeo, gravura, escultura, instalação, desenho e performance- como uma das principais características das 72 obras dos 45 nomes da mostra.
Mas esse não é o único traço comum. O esvaziamento dos regionalismos e a ausência de trabalhos de teor explicitamente político são outros aspectos que surpreenderam a equipe curatorial.
"A arte militante de cunho político-social acabou, ao menos nesse nosso mapeamento", afirma Paulo Sergio Duarte, 62, crítico de arte radicado no Rio e coordenador do grupo. "Nem entre os trabalhos descartados havia esse viés", diz ele, que contou com a ajuda de quatro curadores de outros Estados -Alexandre Sequeira (PA), Christine Melo (SP), Marília Panitz (DF) e Paulo Reis (PR).
Na entrada do último andar da exposição, o diálogo entre linguagens é destacado pelos curadores. Em uma das paredes, quatro fotografias da paulista Sofia Borges, 24, são influenciadas pela luz e pela composição da pintura. E, na frente delas, duas pinturas do paulista Rafael Carneiro se apropriam de imagens registradas por câmeras de um circuito interno de segurança.
"As fotos da Sofia têm uma luz barroca, guardam algo das pinturas dos séculos 16 e 17, de antigas naturezas-mortas", avalia Panitz, 50. "Já as pinturas do Rafael se apropriam dos frames do vídeo, são opacas." Borges concorda com a avaliação de Panitz. "Faço construções fotográficas.
Duplico figuras, faço sobreposições, coloco elementos. De certa forma, o meu método se apropria muito mais do "arbitrário" da pintura que do "instantâneo" da fotografia", diz a artista, um dos 16 nomes de São Paulo, o Estado com mais representantes no Rumos. Logo depois, vem o Rio, com seis, e o Pará, com cinco.
E é do Pará que são exibidos outros bons trabalhos da mostra, como o vídeo "Efêmera Paisagem", de Alberto Bitar, que, em quatro minutos, reconstrói o caminho de 70 km que o artista percorria com a sua família de Belém a Mosqueiro. "Poderia ter sido feito em qualquer lugar, tem uma velocidade próxima do mundo urbano", diz Sequeira, 47. "Por isso acreditamos que os regionalismos mais antigos foram suplantados. O artista usa um discurso que é forte em qualquer ambiente."
Uma noção de precariedade também parece aproximar as obras do paulistano Nino Cais, 39, que faz esculturas com baldes e objetos domésticos, e do gaúcho Ernani Chaves, que exibe tacos empilhados. "Busco o equilíbrio, mas há uma tensão permanente, pois as varas que sustentam o trabalho são frágeis. Um esbarrão mais forte, e desaba tudo", diz Cais.
Senise explora ateliê e arquitetura em exposição por Mario Gioia, Folha S. Paulo
Matéria de Mario Gioia originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de março de 2009
Pintor carioca surgido na geração 80 ganha mostra na Estação Pinacoteca, em SP
Além de reunião de 24 pinturas de Senise, museu abre individuais de Fabrício Lopez, que exibe grandes gravuras, e de Amelia Toledo
Um banco de plástico no meio de uma massa de tinta. Diversos planos em perspectiva que estão no centro de uma grande tela. Esses elementos de dois quadros de grande dimensão dão a chave da mostra que o artista carioca Daniel Senise, 53, faz na Estação Pinacoteca, em São Paulo. A exposição, com 24 pinturas, segue até o dia 10 de maio no museu.
"Eu queria ter essa situação do meu ateliê. Esse banco ficou lá por muito tempo. A tinta ao lado é uma forma de reconstrução do chão do espaço", diz o artista sobre a tela "Legenda", que fica na entrada de uma das salas expositivas. "E pensei que uma arquitetura de planos que se dividem e sugerem novos espaços, sendo colocada em um outro extremo em relação a "Legenda", pudesse dar uma configuração interessante à mostra", completa o artista, comentando a pintura que abre o espaço da outra sala.
Os movimentos de imersão no próprio local de trabalho e de expansão por arquiteturas fictícias dão ao espectador duas leituras complementares. Egresso da geração 80, conhecida pela renovação da pintura, Senise já teve essas obras exibidas no Museu de Arte da Bahia, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul e na Casa do Conde, em Belo Horizonte.
"Não quero que a exposição tenha um tom de retrospectiva, apesar de ter trabalhos de diversas fases da minha carreira", diz o artista. De fato, ele mostra telas como as da série "Bumerangue", de 1997, que simulam as trajetórias do brinquedo pelo ar. O tom vermelho oxidado se dá pela corrosão de pregos sobre a superfície do quadro.
Também muito diversa da produção atual é "Paisagem com Levitação" (1995), em que uma figura humana levita à frente de uma paisagem com pequenas cruzes ao fundo.
Gravuras
Grandes dimensões também são exploradas pelo paulistano Fabrício Lopez, 32, que ganha exposição a partir de hoje. Em 20 obras - algumas delas chegam a medir 2,20 m x 4,80 m-, Lopez explora as paisagens do Valongo, bairro portuário de Santos.
"Gosto desses tamanhos porque dão a ideia de um embate com a matéria. Mas faço uma xilogravura impressa em papel japonês, bem fino, colada diretamente nas paredes. Isso dá a cada mostra uma configuração diferente", diz o artista, que também tem obras exibidas no Rumos Artes Visuais, no Itaú Cultural, em São Paulo.
Outra exposição que é aberta na Estação é a de Amelia Toledo, com 20 trabalhos, entre pinturas, colagens e objetos, que foram doados ao museu.
Contra crise, Bienal do Mercosul cresce por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na sessão Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 12 de março de 2009
Apesar de corte no orçamento, evento amplia participação de artistas, que também estão na curadoria
Em vez de sujeitar-se ao colapso econômico mundial, a 7ª Bienal do Mercosul irá ampliar seu formato. Programada para ser inaugurada em 26 de setembro, em Porto Alegre, a mostra denominada "Grito e Escuta", com curadoria da argentina Victoria Noorthoorn e do chileno Camilo Yáñez, mesmo com um corte em seu orçamento, terá ampliada a participação de artistas.
"A crise foi uma grande sacudida, mas a Fundação Bienal decidiu manter o projeto, e nossa decisão foi aumentar o número de artistas para mostrar a pertinência da arte em abordar o que se passa hoje", disse Noorthoorn à Folha, no ateliê de Lenora de Barros, uma das cocuradoras da mostra, na semana passada. A lista dos selecionados será divulgada em maio, mas a curadora estima que, no total, haja cerca de 150 participações, contando autores de trabalhos sonoros.
Segundo a assessoria de imprensa da mostra, o orçamento da Bienal previa a captação de R$ 14 milhões, e agora se trabalha com a previsão de R$ 10 mi. Para chegar a tal economia, entre outras ações, o período da mostra foi reduzido, caindo de três para dois meses, e a abertura às segundas foi extinta.
"Essa crise até ajudou na definição do título, pois se trata de abordar a criação, o grito, e a reflexão, a escuta, tensionando assim os limites da arte contemporânea", diz a curadora.
Nessa edição, o projeto foi selecionado por concurso internacional e artistas ocupam toda a estrutura da mostra. Da equipe curatorial, de dez pessoas, apenas Noorthoorn é curadora de fato. Os demais são artistas: do Brasil, além de Barros, responsável pela programação de uma rádio, denominada Rádio Visual, participam Artur Lescher e Laura Lima, como curadores-adjuntos; da Argentina, Marina de Caro é curadora pedagógica e Roberto Jacoby, adjunto; do Chile, Mario Navarro é adjunto.
Os curadores editoriais são o mexicano Erick Beltrán e o colombiano Bernardo Ortiz. Uma das inovações é que os curadores editoriais serão responsáveis também pelo projeto gráfico e pela identidade visual da Bienal. Em geral, essas são áreas a cargo de publicitários, que muitas vezes elaboram projetos até contraditórios com os conceitos das mostras.
Para Noorthoorn, "os artistas estão ocupando um território que geralmente não é deles, mas isso tem a ver com o desafio de se repensar o sistema das bienais por meio de uma forma distinta, que é colocar o artista no centro do processo".
Além do Santander e dos armazéns do cais, já tradicionais, o recém-inaugurado Museu Iberê Camargo também funcionará como sede do evento. Estão programadas seis mostras distintas para essa edição, todas com foco na produção contemporânea.
