|
|
março 11, 2009
Sem começo, meio e fim por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 11 de março de 2009.
Com videoartistas de dez países, mostra investiga loop e narrativa circular no audiovisual contemporâneo (Repeat all / Museu da Imagem e do Som, SP/ até 29/3)
Entrar na exposição Repeat all, no MIS, é como entrar num cinema multiplex e ver todos os filmes ao mesmo tempo. São 14 “filmes” realizados por videoartistas de onze países, que trabalham com o recurso do loop, ou seja, com sucessivas repetições de um mesmo vídeo. Substantivo masculino da língua inglesa, a palavra loop, em informática, é usada para designar um procedimento ou um conjunto de instruções executadas repetidamente, até que um programa seja concluído. Apropriado pelo léxico da videoarte, o loop indica a temporalidade contínua das narrativas circulares. Quando um vídeo é construído em loop, dificilmente identifica-se o padrão “começo, meio e fim”, característico da tradição cinematográfica. Por isso, é o principal recurso das videoinstalações montadas em espaços expositivos.
Com curadoria do crítico suíço Sigismond de Vajay, o objetivo dessa exposição é mostrar a possibilidade de se fazer documentários, animações, videoclipes, videoperformances, obras de ficção ou trabalhos experimentais a partir dessas operações de repetição. Embora essa possibilidade seja efetivamente real, ocorre que as obras selecionadas nem sempre apresentam narrativas circulares. Há várias situações em que apresenta-se um discurso articulado com começo, meio e fim. Esse é o caso, por exemplo, de Tactical disorder, do espanhol Alejandro Vidal; do documentário La visita, de Santiago Sierra, e da belíssima obra performática Disco, da dupla Muntean/Rosenblum, que produz uma versão contemporânea e videográfica da pintura A balsa da Medusa, de Théodore Géricault. Em qualquer um destes casos, fica claro que a sinuosidade narrativa não foi uma questão do artista no momento da realização da obra, mas sim do curador no momento da montagem da exposição.
Entre os pontos altos da mostra está o vídeo Carabanchel Sound System, do coletivo Democracia, e a videoinstalação sonora Em andamento, da dupla de artistas brasileiros Gisela Motta e Leandro Lima, em que a temporalidade é regida não por um padrão narrativo, mas por ritmos musicais. Nessa obra, o desenho de uma onda sonora reconfigura fotografias de paisagens. Mais que abordar o loop, a exposição consegue, afinal, expor as tensões que envolvem essas duas formas narrativas: linear e circular. Um conflito que reflete o embate vivido entre o vídeo e o cinema neste começo de século.
Roteiros
Conexões do design
Rico Lins: uma gráfica de fronteira / Caixa Cultural, RJ / até 15/3
Uma reflexão sobre o design gráfico e suas articulações é a proposta desta exposição. Para isso, evitou-se usar as paredes como “suportes para portfólio” e, juntos, o designer paulistano Rico Lins e o curador Agnaldo Farias procuraram uma maior interação com o público. Nesta retrospectiva, cartazes, capas de livros e discos e publicidades em revistas são organizadas de forma a transformar o espaço de exposição numa grande instalação, onde o visitante pode reconhecer referências visuais das últimas três décadas. “O design é fruto direto do contexto cultural, tecnológico e mercadológico e, por tangenciar tantas áreas criativas, tem uma capacidade ímpar de envolver o espectador”, diz o artista, que começou a carreira no início dos anos 1980.
Não é difícil perceber que nosso repertório visual deve muito aos designers e a exposição reflete essa influência direta que recebemos das produções gráficas. Atente-se,no entanto, para o fato de muitos dos trabalhos expostos trazerem algo cada vez menos óbvio nos produtos de design hoje: a ausência de recursos digitais. “Comecei a perceber que, sem estes recursos disponíveis, cria-se a necessidade de buscar soluções criativas, descobrindo significados novos, originais. Não é uma atitude saudosista. O problema não é dos recursos digitais, mas do desconhecimento de outras opções”, diz o designer, que durante a exposição ministra um workshop de produção gráfica sem uso de ferramentas digitais.
Fernanda Assef
Nada para ver por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 4 de março de 2009.
28ª Bienal de São Paulo, apelidada de "Bienal do vazio", não foi contemplada na retrospectiva sobre o vazio inaugurada em Paris (Vides - une rétrospective /Centre Georges Pompidou, Paris /de 25/2 a 22/3)
O cartaz da exposição Vides - une rétrospective mostra um andar vazio do edifício do Centre Georges Pompidou, de Paris, em fotografia tirada possivelmente quando o museu estava em construção, nos anos 70. A fotografia remete a uma imagem repetida inúmeras vezes na mídia brasileira, no fim de 2008: o segundo andar do Pavilhão da Bienal sem nenhuma obra de arte exposta. Nossa "Bienal do vazio", no entanto, não está contemplada nesta retrospectiva das exposições vazias que aconteceram no mundo ao longo dos últimos 50 anos.
"É claro que nós estávamos cientes da 28ª Bienal e seu projeto ressoa profundamente em nossas pesquisas", afirma Mathieu Copeland, um dos cinco curadores da retrospectiva. "Mas, se me lembro bem, 'apenas' o segundo andar ficou vazio", completa ele, afirmando que um dos critérios de seleção foi o de considerar os eventos que deixaram seus espaços completamente esvaziados.
A mostra propõe um percurso cronológico por nove salas que representam nove exposições em que não havia absolutamente nada a ser visto. O precedente foi aberto pelo francês Yves Klein, que em 1958 pintou de branco a Galerie Íris Clert, em Paris, como uma forma de transpor ao espaço suas pesquisas sobre a pintura monocromática e a sensibilidade pura. Segue-se ao gesto inaugural de Klein uma série de eventos ligados à arte minimalista e conceitual, realizados por Robert Irvin, Robert Barry e pelo grupo Art & Language, nos anos 1960 e 70. "Desde então, o espaço vazio tornou-se um clássico da postura radical e foi reprisado em outros contextos e outros tempos por artistas com intenções similares ou mesmo opostas", explica Copeland.
Segundo o curador, que em trabalhos anteriores também subverte o papel tradicional das mostras de arte (realizou, entre outras curadorias, Une exposition parlée e Une exposition choreographée), "cada um desses vazios tem diferentes naturezas e significados". O de Laurie Parsons, por exemplo, na Lorence Monk Gallery, em Nova York, em 1990, teve a função de anunciar sua renúncia do mundo da arte. Já Maria Eichhorn decidiu dedicar o orçamento de sua individual à reforma da Kunsthalle Bern, na Suíça, em 2001.
"Como acontece frequentemente com os vazios, a Bienal de São Paulo teve uma razão que a legitimou como vazia (financeira, curatorial, arquitetônica...). Mas, sempre que as exposições terminam, o vazio é novamente preenchido com objetos. Esperemos que isso aconteça na próxima bienal", afirma o curador. Embora ausente da mostra, a curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen é citada no catálogo, uma antologia sobre o vazio, com textos de 45 autores abordando o tema de ângulos tão diversos quanto a arte, a ciência, a religião, a música e o cinema.
Roteiros
Remetentes e destinatários
Cartas/Trajetos / Usina Cultural Energisa, João Pessoa / até 31/3
Diante de uma obra de arte, a tendência é considerar o artista como o remetente (de uma informação) e o espectador como o seu destinatário. É fato que entre autor e público ocorrem relações de correspondência e diálogo e esse é um dos temas de Cartas/Trajetos, que acontece em João Pessoa, na Paraíba. A exposição apresenta obras em que a carta é o suporte para a criação, como nos desenhos de José Rufino (foto). Mas a troca entre duas pessoas não é o único foco. As correspondências escritas também são vistas aqui como um veículo para as relações em rede e como um motivo para se discutir outros temas, como a palavra, a paisagem, a cidade e o corpo. "A carta é um corpo em movimento, formado por palavras que elaboram paisagens particulares e transitam por um coletivo maior: a cidade", explica o curador Bitu Cassundé. Assim, videoinstalações, gravuras, esculturas e fotografias ultrapassam as relações diretas com as cartas enquanto tema e se correlacionam numa rede de assuntos diversos. Entre os "destinatários" dessas cartas, os artistas Yuri Firmeza, Waléria Américo e Bruno Farias.
Colaborou Fernanda Assef
Obras em balanço por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 25 de fevereiro de 2009.
Duas exposições coletivas em Porto Alegre e São Paulo apontam para as correspondências entre arte, arquitetura e cidades (Vértice / galleria Millan, SP / até 7/3 - Lugares desdobrados / Instituto Iberê Camargo, Porto Alegre / até 8/3)
Obras para pendurar na parede? Nem sempre se encontram entre as propostas de arte contemporânea. Mais comum é deparar-se com situações em que a própria parede é a obra de arte, como ocorre com a instalação de André Komatsu na mostra Vértice. O artista não apenas construiu um muro no centro do espaço expositivo da galeria Millan, em São Paulo, como deixou-o inacabado, com as camadas da construção à mostra. Komatsu está entre os sete artistas expositores da coletiva. Cada um apresenta uma maneira pessoal de relacionar-se com o espaço arquitetônico.
A pintura do paulistano Fabio Miguez se acopla à arquitetura da galeria como uma peça articulável. No trabalho, elementos geométricos encaixam-se como jogos de montar, contribuindo para a sensação de uma construção executada “em balanço”, com tênues apoios sobre as paredes. Já as pinturas do alemão Henrik Eiben não estão exatamente penduradas, mas sim fixadas à parede por meio de ilhoses. “Comecei a pesquisa para uma exposição de pintura, mas o que mais encontrei foram trabalhos arquitetônicos, que exploravam a pintura de forma espacial. Por isso, acabei focando esse vértice entre a pintura e a arquitetura”, explica a curadora Cristina Candeloro, que também selecionou para a exposição obras de Emannuel Nassar, Lucia Laguna, Thomas Vinson e Lia Chaia. No vídeo Cidade pictórica, de Lia Chaia, uma São Paulo chuvosa é vista através do vidro do carro. A imagem se dilui à medida que as gotas incidem no vidro e a ilusão da cidade impressionista de desfaz na passagem do limpa-párabrisa.
A relação entre arte e cidade também é o fio condutor de Karin Lambrecht, na coletiva Lugares desdobrados. Seus trabalhos com sangue de carneiro nasceram da observação da cidade de Jerusalém e seus abatedouros de carne. Na mesma mostra, Lucia Koch dá seguimento à sua pesquisa com luz ambiente e posiciona filtros coloridos nas janelas e clarabóias do edifício. Já a construção de Elaine Tedesco coloca o Instituto Iberê Camargo no lugar de obra. Sua instalação não é um objeto para ser observado, mas para servir de observatório, na medida em o público é convidado a entrar ali para olhar para o que se passa fora da obra.
Crítica
O eterno retorno da cópia
Por Marisa Flórido Cesar
Vik / MAM RJ, até 8/4 / MASP, de 23/4 a 12/7
A reprodutibilidade e a manipulação infinitas das imagens, sua sedução e poder, são reflexões constitutivas da obra de Vik Muniz. Afinal, a que se deve a fascinação que exerce sobre o público? Fascínio que não se justifica apenas pelo virtuosismo da técnica (no duplo sentido, da “mão” e da máquina), por seus recursos ilusionistas, mas talvez porque o artista introduza no circuito da reprodução e simulação algo que vem transtornar os jogos da representação e da duplicação. Que vem interrogar como somos afetados no mundo da aparição fantasmática da imagem sem rastro, de um original cada vez mais obscurecido. Apagamento que a imagem digital e os programas de manipulação, como o photoshop, só fazem intensificar.
Andy Warhol já havia mostrado o eterno retorno da cópia: no lugar do original, a superfície sem fundo da série, da indústria, da publicidade, reluzindo em sua oca repetição. Investigando a fotografia, Vik Muniz insere, entretanto, outras questões: no lugar das imagens repetidas e rasas da pop art, camadas que se sobrepõem e se anulam incessantemente. É assim que vemos uma imagem da arte, cuja reprodução circula pelo mundo, copiada pela mão do artista com materiais diversos, para ser outra vez reproduzida em uma imagem técnica, uma fotografia; ou percebemos que as relações insólitas das escalas nas fotografias não nos permitem conhecer a proporção do “original”; ou que o uso simbólico dos materiais tanto pode aludir ao que está ali figurado como ao fazer artístico (a exemplo dos catadores de Gramacho feitos com lixo). As imagens extraviam-se em um jogo hiperbólico de espelhamentos e diferenças. O artista exacerba as armadilhas do trompe l’oeil.
Se à cena representada sobre a tela correspondia um sujeito capaz de dominar as aparências, o trompe l’oeil viria perturbar, na fascinação do duplo, as regras da imitação pictórica. As armadilhas de Vik Muniz não nos serenam, encadeiam-se. Não nos devolvem um sujeito apto a julgar a verdade, a distinguir o original: operam o eterno retorno da cópia como conduzem a representação à sua própria desmedida. Fazendo-a voltar-se contra si mesma, implode-a em seu poder alucinante.
Marisa Flórido Cesar é critica de arte e curadora
