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Como atiçar a brasa

 


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fevereiro 4, 2009

O lugar das utopias em tempos de mudanças, por Camila Molina, Estado de São Paulo

Matéria de Camila Molina, originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, no dia 31 de janeiro de 2009

Sete Intelectuais na Floresta de Bambu, videoinstalação do chinês Yang Fudong no Paço das Artes, é densa narrativa sobre as experiências de grupo de jovens

Numa linha fronteiriça entre o cinema e o vídeo, o artista chinês Yang Fudong vem criando, desde o início da década de 1990, filmes em preto-e-branco e em 35 mm, de estética e de complexidade narrativa que poderiam remeter ao que se costuma caracterizar de filmes de arte. O próprio Fudong, nascido em Pequim, em 1971, afirma que suas criações são ora exibidas em festivais, ora estão no espaço das exposições de artes visuais, mas essa elasticidade de meios de exibição não é para ele um problema. Pelo contrário, já que desde antes de se formar em pintura na Academia de Arte da China em Hangzhou, em 1994, o gênero audiovisual lhe interessou mais a ponto de se dedicar totalmente a esse meio, e atualmente ser um artista de renome internacional. Felizmente, agora em São Paulo, é possível ver um de seus mais ambiciosos trabalhos, a videoinstalação Sete Intelectuais na Floresta de Bambu, em cartaz no Paço das Artes. A mostra, com curadoria do holandês Maarten Bertheux, apresenta uma obra de fôlego, formada por uma narrativa feita em cinco partes, projetadas em grandes telas.

Fudong começou a desenvolver o projeto de Sete Intelectuais na Floresta de Bambu em 2001 e só o concluiu em 2007, quando o trabalho foi exibido em sua totalidade na 52ª Bienal de Veneza. Nessa obra, o artista recorre a uma história milenar chinesa, Os Sete Sábios no Bambual, do século 3º a.C., para tratar pela vertente contemporânea uma questão que lhe é tão cara: como viver com as mudanças, as utopias e os ideais? (“A utopia, o paraíso e o ideal são como a Lua. Alguns a deixam pendente nos céus enquanto outros a puxam para baixo e a acolhem entre as mãos”, já disse o artista. )

Na primeira cena, como numa espécie de “quadro vivo” (tableau vivant) –define o curador –, belo e em preto-e-branco, um grupo de jovens nus na Montanha Amarela começa a colocar suas roupas (de estilos e épocas diversos). É a chave para entrarmos na narrativa da trajetória de sete jovens que se desconectam da cidade em busca do entendimento das “grandes coisas” em experiências de isolamento na natureza, numa fazenda e numa ilha de pescadores até regressarem novamente a Xangai. Cada passagem é retratada separadamente e quase sem nenhuma fala, numa atmosfera de colagem de imagens com certos toques surreais. Há uma ideia romântica na oposição entre cidade e campo, mas, afinal, esses jovens, os intelectuais meio ingênuos, que vivem na dicotomia entre “seguir o coração e cumprir o dever”, realmente se transformam nos interstícios de suas passagens?

“Fudong fala de sua geração por meio da criação de uma realidade artificial, evocando uma sensação de alheamento e atemporalidade”, diz Maarten Bertheux. Por isso, como completa, não interessa nesse trabalho retratar o indivíduo,o que seriam as personalidades representadas pelos atores. A obra fala do lugar da utopia numa China que entra na vida moderna a toda velocidade, mas, ela também, ao misturar os tempos e as realidades, abre a reflexão para ocampo universal.

Posted by Ananda Carvalho at 6:15 PM

Espaços reinventados, por Paula Alzugaray, Revista Isto É

Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2046, no dia 28 de janeiro de 2009

Museus encomendam obras site specific para ocupar átrios, corredores e outros espaços fora dos padrões

Chelpa Ferro/ Espaço Octógono Arte Contemporânea, Pinacoteca do Estado, SP/ de 25/1 a 15/3

TH.2058 by Dominique Gonzales-Foerster/ Turbine Hall, Tate Modern, Londres/ até 13/4

Pipilotti Rist: pour your body out (7354 cubic meters)/ Donald B. and Catherine C. Marron Atrium, Museum of Modern Art, Nova York/ até 9/2

Ano de 2058. Uma coleção de esculturas, livros e filmes são resgatados das chuvas torrenciais que assolam Londres há anos e guardados sob o teto de uma usina elétrica desativada. Os livros são épicos e os filmes, clássicos. Sob o efeito das águas, as esculturas crescem como plantas tropicais. Tudo é grandiloqüente aqui. Fazer com que as coisas atinjam proporções gigantescas e catastróficas é a maneira que a artista francesa Dominique Gonzalez-Foerster encontrou para preencher o espaço monumental da Turbine Hall, na entrada Tate Modern de Londres. Nesta ficção, o público veste o papel de refugiado que lhe foi designado e ocupa os beliches da instalação em seus horários de almoço e descanso. O projeto TH.2058 é um site specific, isto é, uma obra concebida especificamente para o hall das turbinas do museu. Quando for removida, dificilmente encontrará outra área museográfica com 35 m de altura e 152 m de extensão. Mesmo que encontrasse, o projeto perderia o sentido, já que foi pensado para o contexto chuvoso de Londres. Ou seja, quando for removido da Tubine Hall, TH.2058 se auto-destruirá automaticamente.

O site specific, que em geral nasce com tempo de vida contado, é uma prática comum nas artes plásticas desde os anos 60. Existe desde que artistas norte-americanos começaram a trabalhar diretamente sobre a paisagem, esculpindo a natureza. Mais recentemente a prática foi assimilada por museus, que lhe dedicam áreas de circulação, átrios e outros espaços “difíceis”, que fogem aos padrões expositivos.

Quanto mais incomum, mais estimulante para alguns artistas. Esse é o caso do grupo carioca Chelpa Ferro, cujo desafio é, via de regra, preencher grandes espaços com instalações sonoras. Desde Sábado 25, o grupo ocupa o Espaço Octógono da Pinacoteca com uma escultura robótica de caixas de som que movimenta-se acionada por um guindaste.

“Nosso intuito é aproveitar o potencial vertical do espaço”, diz Luiz Zerbini, que integra o grupo com Jorge Barrão e Sérgio Mekler. A Pinacoteca destina sua sala octogonal a trabalhos encomendados desde 2003. O MAM SP tem o Projeto Parede, atualmente ocupado por Mabe Bethonico. A Fundação Iberê Camargo seguiu a tendência e iniciou seu Programa Átrio com uma instalação da artista mineira Iole de Freitas, até 8/2. Esta é também a última semana da intervenção da artista suíça Pipilotti Rist, que foi convidada a transformar o átrio do MoMA-NY em uma videoinstalação imersiva.

Bate papo

Paulo Monteiro A pintura espacial

Um dos ícones da pintura neo-expressionista paulistana dos anos 80, Paulo Monteiro mostra trabalhos recentes na galeria Marilia Razuk, até sexta 30, e faz retrospectiva de 20 anos de carreira na Estação Pinacoteca, até 22/2. A exposição apresenta obras de 1989 a 2008 e mostra como a pintura ainda alimenta suas criações em outros suportes.

Nos anos de formação, a dificuldade financeira foi um incentivo à experimentação?

Não. A dureza é mais um problema que um incentivo. É claro que, ao procurar uma saída numa situação adversa, você encontra coisas interessantes, mas eu perdi mais de 34 esculturas, porque foram feitas de restos de madeiras e, com o passar do tempo, foram quebrando. O fator financeiro agia como um limitador.

A pintura dos anos 80 ainda está refletida na sua produção atual?

A experiência pictórica que tive conta muito na hora de fazer uma escultura. O barro, o chumbo, essas matérias meio moles que eu uso nas esculturas são uma aproximação do óleo, das tintas, das massas de pintura. Mas o que conta na escultura é o material e não a cor. Trabalhar o tri-dimensional não é como o quadro, que já te dá um suporte de antemão. A escultura é mais complexa que a pintura.

Fernanda Assef

Posted by Ananda Carvalho at 2:50 PM

Olhares cruzados, por Paula Alzugaray, Revista Isto É

Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2045, no dia 21 de janeiro de 2009

Exposição itinerante mapeia a fotografia documental realizada por coletivos da América Latina, Espanha e Portugal (Laberinto de miradas - coletivos fotográficos ibero-americanos / Galeria Olido, SP/ até 1º/3)

Diversidade é a tônica dominante, sempre que se fala em América Latina. Mas entre as preocupações de artistas, fotojornalistas e documentaristas da região, que trabalham em âmbitos de ação social, é possível detectar pelo menos três grandes temas comuns: a identidade, os fluxos migratórios e os relatos das fronteiras. Essas são as questões que conectam os 15 coletivos de fotógrafos participantes da exposição Laberinto de miradas.

A idéia de labirinto é perfeita para orientar o visitante no roteiro dessa viagem, formada por 15 subcuradorias, já que cada grupo propõe seu próprio tema de exposição. Os territórios são muitos: há desde os coletivos que abordam temas e projetos sociais de maneira mais "clássica" e tradicional - o que não diminui seu interesse - até aqueles com propostas mais experimentais e artísticas. A Cooperativa Sub, por exemplo, que se autodefine como uma "mistura de agência de fotos, banda de rock e família", apresenta a exposição Ciudad invento, formada por imagens de um lugar inventado, com características fragmentárias de várias culturas. Mexican way of life, do coletivo Mondaphoto, do México, se utiliza de uma estética editorial e publicitária para fazer uma autocrítica sobre a forma com que os sonhos dos mexicanos são influenciados pelo gigante vizinho. Já a agência espanhola Pandora ilustra uma realidade antagônica àquela defendida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Composto por três exposições itinerantes - no roteiro, mais de 20 países da América e da Europa -, o projeto Laberinto de miradas é também uma ótima oportunidade de jogar um foco de luz sobre o fenômeno recente dos coletivos de fotógrafos. "Organizar- se em coletivo é uma maneira de fugir de um mercado saturado e criar uma alternativa comercial que seja funcional.

Num coletivo conseguimos uma produção muito maior porque somamos forças e nos dividimos em funções para responder a uma demanda de encomendas de todo tipo, ensaios de fotografias comerciais ou artísticas, publicitárias ou jornalísticas. É um processo muito colaborativo", diz João Kehl, fotógrafo da paulistana Cia da Foto.

Colaborou Fernanda Assef

Posted by Ananda Carvalho at 2:41 PM

O pacto entre o grafiteiro e o gravurista na terra do cordel, por Paula Alzugaray, Revista Isto É

Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2044, no dia 14 de janeiro de 2009

Exposição no Recife revela a presença da xilogravura popular na obra do gravador Gilvan Samico e do grafiteiro Derlon (Narrativas em madeira e muro / Espaço Cícero Dias – Museu do Estado de Pernambuco, Recife/ até 18/01)

O que a xilogravura e o grafite podem ter em comum?

O imaginário nordestino, com seus costumes e lendas fantásticas, narrados pela literatura e pela xilogravura de cordel. O traçado simples, que ilustra a vida sertaneja com encanto e eficácia, é o tema de Narrativas em madeira e muro, exposição que aponta para a influência da xilogravura popular na obra dos artistas Gilvan Samico e Derlon Almeida. A mostra inaugurou o 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco e promove uma espécie de repente entre esses dois pernambucanos de diferentes trajetórias e gerações.

O encontro é descrito por ambos como inusitado e interessante. Aos 80 anos, Samico vê as xilogravuras que realizou na década de 60 – quando a influência do cordel fez-se mais afirmativa em seu trabalho – em franco diálogo com os grafites de Derlon, de 23 anos. “Por que não? Meu trabalho pode ter uma afinidade com o dele, bebemos na mesma fonte da gravura popular. É uma experiência válida e um resgate do espírito da literatura de cordel”, diz Samico. Por sua vez, Derlon, que tem se destacado no panorama do grafite por substituir a usual relação com o hip-hop pela citação à iconografia popular nordestina, reverencia seu interlocutor. “A miscigenação dessas linguagens permite novas leituras. Conhecer o Samico estimulou meu trabalho. E acredito que ver o grafite como arte também foi bom para ele”, diz o jovem artista.

Se o grafite é uma manifestação urbana, o trabalho de Derlon imprime à estética do cordel uma qualidade própria da vida na cidade. O artista apresenta na exposição as pinturas em papel jornal que costuma colar nos muros da cidade, um grande mural inédito e fotografias de suas grafitagens em muros de Olinda e do Recife.

“Seu trabalho lembra as ilustrações do J. Borges. Derlon transporta aquelas gravuras para um suporte novo e aos poucos vai encontrando uma identidade própria”, diz Samico, que renovou a gravura brasileira ao aproximar a tradição nordestina da linguagem expressionista que aprendeu com os mestres Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo – de quem foi aluno nos anos 1950. A associação ao cordelista J. Borges é um atestado de qualidade para o grafiteiro. Mas, tanto nos desenhos de um quanto nas gravuras do outro, é possível vislumbrar os temas das xilogravuras de J. Borges, o contador de histórias mais cobiçado de Pernambuco, que certa vez declarou a um documentarista: “Gosto de escrever mentira. A mentira é que me alimenta, consigo viver dela. Mas mentira com fundamento. Mentira que tenha condição de ter acontecido, de estar acontecendo ou de futuramente acontecer.”

Colaborou Fernanda Assef

Roteiros

Era uma casa muito engraçada

Saudade/ Fundação Eva Klabin, RJ até 18/1

José Bechara – Sobremirada/ Lurixs: Arte Contemporânea, RJ/ até 17/1

À entrada da Fundação Eva Klabin, a casa que pertenceu à colecionadora Eva Klabin até sua morte, em 1991, e que guarda um acervo de 50 séculos de história da arte, temos a sensação de que algo está fora de ordem. No salão principal, os sofás organizam-se em ziguezague e uma escada de serviço impede o acesso à cristaleira, em plena sala de jantar (foto abaixo). Dentro do quarto, no andar superior, uma estante está despencada no chão, esparramando roupas, chapéus e sapatos sobre os tapetes kilin de Eva. Em toda a casa do bairro da Lagoa, no Rio, objetos pessoais ocupam lugares esdrúxulos e próteses brotam em cantos inesperados. Essa espécie de poltergeist que parece ter tomado conta da casa chama-se, na realidade, Saudade, e trata-se de uma intervenção do artista José Bechara, convidado da nona edição do Projeto Respiração, que estabelece uma ponte entre o acervo clássico da fundação e a arte contemporânea. Segundo o artista, a desordem é o sintoma do “desamparo” da casa diante da ausência de sua proprietária. “A casa desperta o imaginário literário dos artistas”, afirma o curador Marcio Doctors, autor do Projeto Respiração. “Os artistas são convidados a se relacionar não só com a casa e a coleção, mas com a personagem Eva Klabin”, diz ele.

Os móveis da colecionadora adquirem vida aos olhos de Bechara, mas sua experiência com objetos domésticos “animados” começou muito antes, em 2002, no projeto A casa, durante uma residência artística no Paraná. Nesse trabalho, o artista transformou a casa que estava ocupando em uma escultura de grandes dimensões, que cuspia seus móveis portas e janelas afora. De lá para cá, essas operações de exorcismo de armários, colchões, mesas, poltronas, etc. ganharam diversas versões no trabalho de Bechara. A escultura Cega, em alumínio fundido (foto acima), é o mais recente desdobramento dessa série, em cartaz na individual do artista da galeria Lurixs: Arte Contemporânea, no Rio.

Posted by Ananda Carvalho at 2:30 PM

Entre mares, por Paula Alzugaray, Revista Isto É

Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2042, no dia 24 de dezembro de 2008

Lívia Flores mostra seu “cinema sem filme” e Sandra Cinto fala de ética e politica, em exposições individuais no Rio (Livia Flores – Sandra Cinto/ Galeria Progetti, RJ/ até 21/2)

Depois de inaugurar a galeria Progetti com uma exposição do artista grego Jannis Kounellis, a galerista italiana Paola Colacurcio se aventura pelos mares do sul, apresentando individuais de duas artistas brasileiras: a carioca Livia Flores e a paulista Sandra Cinto. As duas criaram trabalhos especialmente para a galeria, situada no centro histórico do Rio. Livia Flores, que surgiu no contexto das artes visuais na mostra Como vai você, geração 80?, no Parque Lage, em 1984, fazendo pintura (como boa parte de sua geração), partiu depois a explorar projeções de filmes super-8, e hoje define seu trabalho como a prática de “fazer cinema sem filme”. Nessa exposição, a qualidade cinética de seu trabalho pode ser notada nos padrões geométricos dos papéis de presentes esticados em chassis e colocados nas paredes – pendurados como se fossem pinturas ou como telas de LCD. O cinema faz-se presente, especialmente, em uma escultura de espelhos, na forma de um rebatedor de luz, que poderia perfeitamente ser o instrumento de um fotógrafo. O objeto, que segundo a artista “rebate a imagem do ambiente”, foi instalado estrategicamente no vão livre da galeria, assumindo a função de “observatório”. De posicionamento articulável, a escultura pode, inclusive, refletir o trabalho de Sandra Cinto, instalado no andar térreo da galeria.

Sandra Cinto, que faz sua primeira individual em uma galeria carioca em vinte anos de carreira, começou e termina o ano de 2008 realizando instalações que têm o oceano como tema. A artista encerra aqui sua série Travessia difícil, inaugurada em janeiro na galeria Tanya Bonakdar, em Nova York. Lá, a artista representou um mar em fúria com milhares de barquinhos de papel que convergiam para uma série de reproduções da pintura A balsa da Medusa, de Théodore Géricault. Ela traz ao Rio uma variação sobre o mesmo tema. Utilizando os recursos da pintura, do desenho, da gravura e da fotografia em uma grande instalação, Sandra Cinto desenvolve a mesma narratividade realizada pelo pintor romântico naquela que é considerada a primeira pintura de teor abertamente político da história da arte francesa. Mas o que está em pauta aqui não é o drama específico das pessoas que tiveram que praticar canibalismo para sobreviver ao naufrágio da fragata Medusa, em 1816, por causa da ingerência de um capitão protegido por Luis XVIII . Através de Géricault, Sandra Cinto fala de fronteiras geo-políticas, do drama de imigrantes nas fronteiras da Europa e dos Estados Unidos, dos abusos de poder, do naufrágio da ética na sociedade contemporânea. “Esse naufrágio, que aconteceu por questões políticas no século 19, acontece hoje. Estamos vivendo essa crise!”, diz Sandra.

Diante da instalação, pensamos na população brasileira que vive à deriva e lembramos da deriva em que ficou a população do Complexo da Maré, desde que, há duas semanas, o menino Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, foi morto a queima roupa por um tiro de fuzil, quando saia de casa para comprar pão. O trabalho de Sandra Cinto tem um significado político que deve ser absorvido.

Roteiros

A Baía de Todos os Santos como moldura

15o SALÃO DA BAHIA / Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ de 19/12 a 1o/3/09

Com direito a um jardim de esculturas de frente para a Baía de Todos os Santos, o 15º Salão da Bahia inaugura seu panorama anual da arte, apresentando 40 artistas de dez estados. O Salão, que acontece no histórico Solar do Unhão, sede do MAM-Bahia desde 1966, oferece este ano R$ 223 mil em prêmios, a maior premiação de sua história. Os vencedores do Prêmio Aquisição terão seus trabalhos incorporados ao acervo do museu, atualmente com 1133 obras que acabam de ser inventariadas e catalogadas em livro recém lançado pelo Banco Safra.

O Salão esse ano conta ainda com a reinauguração de seu Parque de Esculturas restaurado e reconfigurado. A coleção de esculturas modernistas e contemporâneas desse museu a céu aberto conta com obras de Tunga, Rubem Valentim, Mestre Didi, Cildo Meireles, entre outros, e recebe a nova escultura da portuguesa Gabriela Albergaria, primeira artista internacional convidada a fazer uma Residência Artística no museu. A obra, uma estrutura de vidro no chão que permite ver as raízes de uma árvore, receberá junto às outras esculturas iluminação especial e visitas monitoradas. “Seja por falta de vontade, seja por falta de paisagem, poucos museus no mundo integram suas obras de arte ao entorno, ao meio ambiente, à natureza”, afirma Solange Farkas, diretora do MAM-Bahia.


Roteiros

É permitido brincar

ARTE PARA CRIANÇAS / Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília / até 18/1

“Não toque em nada!”, “Cuidado”. É isso o que as crianças costumam ouvir dos pais nas exposições de arte. O mesmo acontece com adultos quando as advertências vêm de seguranças. Felizmente, Arte para crianças, no CCBB, recupera a tradição da “arte participativa” dos anos 60 e reúne um conjunto de obras que foram criadas para entrar em interação com o público. Há dezesseis artistas brasileiros e norte-americanos que comprovam que a arte contemporânea é, sim, acessível. Inclusive para crianças. Em Onochord, Yoko Ono pede a visitantes que enviem sinais de luz que significam “Eu te amo”. A artista também convida a todos para pendurar pedidos na obra Árvore dos Desejos. Já o carioca Ernesto Neto seduz o público a entrar em um ambiente “uterino”, em Uni Verso Bebê II Lab, mais uma de suas instalações imersivas, construída com tecido e espuma. Mais que interagir, há obras que convidam à invenção. Em De corte e dobra, de Amílcar de Castro, esculturas podem ser recortadas e remontadas. Depois de Brasília, a exposição segue para o Sesc Pompéia, em São Paulo.

Colaborou Fernanda Assef

Posted by Ananda Carvalho at 1:53 PM

Destinos da pintura, por Paula Alzugaray, Revista Isto É

Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista Isto É edição 2041, no dia 17 de dezembro de 2008

Exposição panorâmica da arte emergente na última década privilegia a pintura realizada por essa geração (Nova arte nova/ CCBB RJ - até 4/01/09 / CCBB SP - de 27/01/09 a 12/04/09)

Se em anos recentes o vídeo e a fotografia têm presença marcante em salões, bienais e coletivas – em certos casos, preponderante até –, temos hoje uma panorâmica em que a pintura é o destaque. Com o intuito de mapear a arte contemporânea produzida por jovens artistas nesta primeira década do século 21, a mostra Nova arte nova reconhece a diversidade de técnicas e propostas dessa geração, apresentando esculturas, objetos sonoros, desenhos, fotografias, vídeos e instalações (poucas). Mas a marca da pintura é aqui incontornável. Um terço dos 56 artistas de 14 estados brasileiros, em exposição no CCBB Rio, apresentam trabalhos em pintura ou obras desenvolvidas a partir de questões próprias do âmbito da representação pictórica. Esse é o caso, por exemplo, das fotografias do amazonense Rodrigo Braga, que elabora arranjos com peixes, frutas e legumes, remetendo ao gênero clássico da pintura de natureza-morta; ou das esculturas do carioca Felipe Barbosa, que faz composições com casas de pássaros, em citação às bandeirinhas do pintor Alfredo Volpi.

Entre os jovens pintores selecionados pelo curador Paulo Venâncio Filho há desde aqueles já inseridos no circuito, como Tatiana Blass, Vânia Mignone, Henrique Oliveira e Marcone Moreira, até artistas que estão colocando seu primeiro pé no mercado, como Bruno Miguel, Gisele Camargo ou Alice Shintani. Ao cercar as várias expressões contemporâneas da pintura, Venâncio assume uma direção bem definida e deixa de se aprofundar em outros campos muito transitados pelos artistas hoje: os terrenos conceituais, imateriais, virtuais ou digitais, que efetivamente representam o “fenômeno novo” perseguido pelo curador. Mesmo diante dessa lacuna – um panorama é, afinal, um recorte que não pode dar conta da totalidade de um contexto –, a exposição enche os olhos pela qualidade e quantidade de suas obras e atesta a vitalidade do que está surgindo no horizonte. Um vigor que a 28ª Bienal de São Paulo, encerrada Sábado 6, definitivamente não apresentou.

Crítica: A possível revoada, por Marisa Flórido Cesar
Fuga/ A Gentil Carioca, RJ/ até 20/12

Um homem, atado a árvores por cordas que atravessam a janela, tentava, em vão, puxar a paisagem para dentro do espaço expositivo. O puxador, de Laura Lima, nos confrontava a questões da pintura: ser a janela rasgando o mundo e o espelho onde esse mundo se refletia. Aquelas cordas, como linhas de fuga convergindo para um ponto ilusório no infinito, ensaiavam inutilmente emoldurar a dispersão da paisagem. No ponto de fuga da perspectiva linear, os horizontes sonhavam ancorar-se no olhar e na medida do homem. Derrisória presunção.

Fuga, em exposição em A Gentil Carioca, lembra O puxador, realizado anos atrás pela artista. Na entrada, desenhos de pássaros, colocados nas mais variadas alturas. Na galeria, transformada em um enorme viveiro, caminhamos entre uns 50 pássaros, algumas esculturas – para pássaros e homens! – (foto) e pinturas de paisagem com os horizontes oblíquos. Em meio ao canto das aves, os “bípedes sem penas” - como Platão chamou certa vez o homem - participam, emoldurados, da obra viva. Coadjuvantes, decerto, pois desenhos e quadros seguem o horizonte dos pássaros, a sinuosidade de seus vôos, a elevação de seus olhos. Somos, ali, matéria pictórica.

Laura Lima trabalha com “coisas vivas”, como costuma dizer, desde os anos 90. Já colocou pavões e faisões no CCBB do Rio de Janeiro, já aplicou plumas de carnaval em “galinhas de gala”. Para essa exposição, a artista, em parceria com um criador, ambientou pássaros, acostumados a espaços pequenos, em grandes viveiros para que “reaprendessem a arte de voar”.

Se O puxador se esforçava para trazer as fugas do mundo para dentro da galeria, em Fuga o viveiro transborda pelas janelas, projetando-se sobre a rua. Talvez os pássaros possam “descobrir a passagem mimética que os conduza à fuga”, como diz o texto de apresentação. E, quem sabe, o bípede implume descubra com seu parceiro de penas, na abertura da janela e no estilhaço do espelho, o infinito das cintilações e dos desvios. Inversão da perspectiva: as fugas irradiando-se para a infinidade de um homem sonhador de vôos. O artista? O que abre a janela e quebra os espelhos para a possível revoada.

A exposição de Laura Lima tem o acompanhamento do IBAMA e de profissionais especializados para o bem estar dos animais e do público.

Marisa Flórido Cesar é crítica de arte e curadora independente

Posted by Ananda Carvalho at 1:27 PM | Comentários (1)

fevereiro 3, 2009

Vik Muniz leva cariocas de volta para o MAM, por Miguel Conde, O Globo

Matéria de Miguel Conde, originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, no dia 2 de fevereiro de 2009

Museu tem a maior média de público dos últimos anos com exposição

É sábado de sol no Rio de Janeiro, mas a exposição no Museu de Arte Moderna (MAM) está lotada. Postada diante do quadro, a mulher se concentra e examina a imagem por alguns segundos antes de se decidir:

— Geleia e doce de leite!

Uma discreta expressão de ceticismo surge no rosto da amiga a quem o comentário é dirigido. A mulher então resolve se aproximar para confirmar.

— Ah, não: é geleia e manteiga de amendoim — reconhece o erro, explicando-se. — Também, manteiga de amendoim é uma coisa que nunca pegou por aqui. Lembra daquele Amendocrem?

Dirigindo-se à próxima obra, elas prosseguem com entusiasmo o jogo de adivinhação, numa atitude que parece estranha se considerarmos onde estão, mas que é típica entre os visitantes da exposição do brasileiro Vik Muniz, em cartaz no MAM desde o último dia 23. A mistura meio infantil de encanto e perplexidade é uma pista para entender o sucesso da exposição, que tem atraído em média pouco mais de mil pessoas por dia. Foram 4 mil já no primeiro fim de semana, recorde desde a exposição “Picasso — Anos de Guerra”, que teve 8 mil visitantes no fim de semana de estreia em 1999.

A divulgação, com painéis espalhados pela cidade e anúncio em horário nobre, certamente ajudou. Mas os níveis de entusiasmo dos visitantes sugerem que o boca a boca também está fazendo sua parte.

— Várias amigas vieram e disseram que era imperdível — diz Therezinha Borges, acompanhada pelas amigas Maricilla Lamounier e Ely Norbert.

Não só diante da “Mona Lisa dupla” de geleia e amendoim, mas por toda parte surgem entre os visitantes polêmicas na linha “como diabos ele fez isso?!”. Apesar dos monitores por perto, há os que preferem investigar por si mesmos se aquelas bolinhas formando o rosto de um catador de lixo são tampinhas de refrigerante, rodinhas de metal ou sabe-se lá o quê.

— Não pode ser tampinha, olha o tamanho do chinelo do lado! — um homem discute com a namorada diante de uma foto da série “Imagens do lixo”.

Muitos dos visitantes confessam não serem grandes fãs de arte contemporânea. Caso de Leticia Jarlicht, de 6 anos, arrastada para o museu pelos pais, Carla e Isaac. Exposições são “sem graça”, ela resume, mas se interessa ao saber que há ali a foto de uma pintura feita com macarrão e molho de tomate.

— Uma vez eu fiz um rei com estrogonofe — anima-se, enquanto seus irmãos Leonardo e Guilherme, gêmeos de 12 anos, mascam chiclete e olham em volta, aparentemente ainda tentando decidir se estão gostando ou se devem manter o ar blasé padrão para ocasiões assim.

Já os adolescentes Victória Reis e Thales Fonseca, de 17 anos, estavam completamente decididos, ainda que lacônicos.

— Incrível — ela disse.

— Muito impressionante — ele completou.

Ali por perto, uma senhora comenta com a amiga:

— Realmente, um dos grandes artistas do nosso tempo.

Descansando num banco com a namorada Andréia Pereira, o militar Anderson Soares Pinho concorda.

— É a melhor exposição que já vi até hoje. É uma coisa clara, não é só para aquelas pessoas que já se aprofundaram no assunto. Você consegue entender.

Um discurso afinado com o do próprio Vik Muniz:

— Quando crio meus trabalhos, não imagino um público específico: pode ser o cara da padaria, o vigilante do museu ou um filósofo. Tento partir de coisas primárias, básicas, e daí construir algo que seja ao mesmo tempo inteligente e acessível. Não são todos que consideram importante esse compromisso do artista com o público. Para muitos, o diálogo do artista consigo mesmo é até mais importante. No meu caso é diferente — afirma.

Os produtores Leonel Kaz e Nigge Loddi dizem que se guiaram por essas ideias ao montarem a exposição e escreverem os textos para as obras.

— São textos fáceis de ler, sem aquele ranço do especialista que se acha superior às outras pessoas — diz Kaz.

Numa iniciativa coerente para um artista preocupado em ser acessível, a exposição tem usado um ônibus para levar moradores de comunidades de baixa renda ao museu nos dias de semana. Na semana que vem, quando começam as aulas na rede estadual, haverá também visitações escolares.

— As diretoras já estão brigando para marcar visitas — conta Rosane Cantanhedes, do projeto educativo.

Dono de uma loja de design no museu, Tulio Mariante está feliz com o movimento.

— O carioca fez as pazes com o MAM. Há muito tempo não via tanta gente por aqui.

Posted by Ananda Carvalho at 6:44 PM

Uma janela para as artes plásticas, por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco, originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, no dia 1 de fevereiro de 2009

Artistas de Rio, Niterói, São Paulo, Belém e Ourinhos ganham o Prêmio Marcantonio Vilaça

É raro que artistas plásticos tenham a chance de ganhar R$30 mil, o acompanhamento de um crítico de arte por um ano, uma exposição itinerante pelas cinco regiões do Brasil e a publicação de um catálogo. Trinta tinham a chance, mas cinco foram os vencedores da terceira edição do Prêmio CNI-Sesi Marcantonio Vilaça, entregue na quinta-feira no Museu da Indústria, de Fortaleza. No dia seguinte, o carioca Eduardo Berliner, a niteroiense Rosana Ricalde, o paraense Armando Queiroz e os paulistas Yuri Firmeza e Henrique Oliveira aproveitaram para conhecer um pouco do trabalho um do outro.

— Ouvindo o Eduardo falar sobre seus cadernos de desenhos, pensei no meu processo de acumulação de objetos, que ficam num quarto de serviço — comentou Queiroz.

Quatro dos cinco já tinham tentado ganhar o prêmio

Com trajetórias de oito a 15 anos de criação, os cinco já têm parte de seus quartinhos de objetos particulares preenchida. Estão num momento crucial da carreira, em que já não são mais iniciantes, mas ainda podem ver suas vidas mudarem a partir de um prêmio. Persistentes, quatro deles já tinham se inscrito no prêmio, que homenageia o galerista e colecionador Marcantonio Vilaça, morto em 2000.

Quando se inscreveu pela primeira vez, Berliner já se dedicava à pintura, após ter se formado em design pela PUC-Rio, onde hoje dá aulas. Enquanto fazia um mestrado na Inglaterra, ele começou a experimentar aquarelas e colagens.

— Passei um ano fazendo colagens, mas pensando em forma de pintura. Quando experimentava no computador, às vezes me proibia de usar o comando “desfazer”, porque isso não seria possível na pintura — conta Berliner, de 30 anos. — Na faculdade, meus trabalhos já eram muito pessoais. O projeto final, em 1999, foi um livro com textos e desenhos meus, e desde então mantenho a prática diária de desenhar.

É um processo que se relaciona com o de Queiroz. O artista paraense também começou fazendo anotações regulares, porém sob a forma do acúmulo de objetos com os quais tinha um vínculo afetivo.

— Já passei quatro anos sem entrar no quarto de objetos. Eu acumulo, e às vezes vem uma água e limpa tudo — diz o artista, que, do trabalho com objetos diminutos, iniciado em 1993, passou a intervenções nas ruas de Belém, como numa instalação no telhado do mercado Ver-o-Peso, em 2005. — Percebi que os objetos poderiam dialogar com os espaços e as pessoas.

Queiroz, de 40 anos, também cria poemas visuais, com objetos e palavras. É aí que ele vê um vínculo com a obra de Rosana. A artista, que hoje vive em Rio das Ostras, faz um trabalho todo vinculado à palavra. Para ela, o momento em que conseguiu unir o conteúdo do texto à sua forma foi na obra “Alfabeto de verbos” (2000), em que todos os verbos da língua portuguesa foram datilografados em painéis.

— Ali eu comecei a fazer algo consciente. Mas, ainda hoje, o resultado visual da minha obra é consequência da escrita — diz ela, que, aos 37 anos, já fez obras inspiradas em textos como “Cidades invisíveis”, de Italo Calvino, e “As palavras e as coisas”, de Michel Foucault.

Rosana se inscreveu na primeira edição do prêmio, mas não foi selecionada. Agora, como os outros quatro, ela foi escolhida pelo crítico de arte Paulo Herkenhoff, pela historiadora e crítica de arte Aracy Amaral e pelo artista plástico Eduardo Frota. Originalmente, foram 353 artistas inscritos.

Premiado ficou famoso ao inventar artista japonês

O único entre os cinco que ainda não havia concorrido ao prêmio é Yuri Firmeza, cuja obra foi chamada de audaciosa e “sem empáfia” por Herkenhoff. Nascido em São Paulo, Firmeza morou 22 dos seus 26 anos em Fortaleza, onde estudou artes na faculdade. Seu nome se tornou conhecido há dois anos, quando ele inventou um artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, e divulgou para a imprensa cearense uma exposição no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, com a chancela da instituição. Muitos jornais publicaram reportagens sobre o genial japonês.

— Isso tem repercussão até hoje — conta ele, que costuma se inserir na obra, seja em fotos, vídeos ou performances, muitas vezes nu. — Começaram a dizer “o Yuri é aquele que fica nu”, então vesti roupa de novo.

Também nascido em São Paulo, porém no interior, em Ourinhos, Oliveira foi se fazendo artista aos poucos. Depois de estudar comunicação e artes, ele fez um mestrado em artes na USP, onde, num tapume que viu se decompor durante dois anos, criou sua primeira pintura sobre madeira. Hoje, sua obra ganhou escala monumental e está no limiar entre a pintura e a escultura.

— Até hoje meu pensamento se constrói na pintura. Trato a sobreposição dos planos de madeira como pinceladas, mas essas texturas acabam influenciando minhas telas também.

Posted by Ananda Carvalho at 6:02 PM

fevereiro 2, 2009

A nova tela das artes, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo

Matéria de Fábio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 27 de janeiro de 2009

Artforum.com lidera lista de melhores sites de artes plásticas em votação feita pela Folha com profissionais

Não há dúvida de que é a tela do computador o suporte mais visto pelos profissionais das artes plásticas. Por meio de newsletters gratuitas, revistas on-line ou mesmo um "YouTube das artes", como é chamado o site UbuWeb, pode-se acompanhar não só a produção atual como o debate sobre ela e seus reflexos no mercado.

Artistas, curadores e galeristas foram solicitados pela Folha a indicar os sites que visitam com maior frequência.

O líder, com seis indicações, foi o site da revista norte-americana Artforum, mencionada pelos curadores Adriano Pedrosa, Rodrigo Moura, Lisette Lagnado e Solange Farkas, além das galeristas Márcia Fortes e Luisa Strina."Esta é a revista "mainstream" mais "mainstream" da arte. Americanófila e um tanto leviana, é uma mistura estranha entre a "Vogue" e a "October". A versão on-line tem conteúdo diferenciado de resenhas e relatos de viagem e, felizmente, menos anúncios que a impressa", afirma Moura, curador do Instituto Cultural Inhotim, em Minas Gerais.

A Artforum.com noticiou, por exemplo, o caso dos pichadores na Bienal e o roubo das obras do Masp, o que não ocorreu em sua versão impressa.

Já em segundo lugar, com quatro indicações, ficaram empatados E-flux, UbuWeb e a revista brasileira Trópico.

O E-flux é uma newsletter gratuita que, diariamente, envia por e-mail, a seus 40.116 mil cadastrados, duas ou três mensagens com aberturas de exposições ou outras informações do circuito. O serviço gratuito é possível pois se trata de anúncios pagos por instituições como o Museu de Arte Moderna de Nova York, o Guggenheim e mesmo a Bienal de São Paulo.

A precisão na qualificação de seus afiliados é interessante. Segundo o site, do total de cadastrados, 47% são europeus, 42% norte-americanos, e 11% de outros continentes, sendo que 18% são críticos de arte, 16% galeristas, 16% curadores, 15% membros de museus, 12% artistas, 10% consultores e 8% colecionadores.

Newsletter por assinatura

Outro serviço de newsletter, mas pago, é o Baer Faxt, usado pela galerista Márcia Fortes. "O Josh Baer, figurinha das antigas de Nova York, começou isso no início dos anos 1990, enviando informações por fax e agora migrou para um e-mail semanal", conta Fortes.

A assinatura anual do serviço está em US$ 200 (R$ 471). Numa de suas edições de dezembro, em pesquisa com seus leitores, a mostra de Cildo Meireles na Tate foi indicada como menção honrosa por melhor exposição em museu europeu.

Já o UbuWeb, também com quatro indicações, é considerado pelo curador Fernando Oliva uma "espécie de YouTube das artes": "Ele reúne milhares de trabalhos em vídeo, áudio e poesia experimental, em obras que remontam aos anos 1920".

O acervo do UbuWeb é de fato impressionante, ao reunir de performances de Marina Abramovic a conferências de Yves Klein (1928-1962).

Site brasileiro com mais indicações, a revista Trópico tem como responsável o editor de Moda da Folha, Alcino Leite Neto. "É um dos raros exemplos brasileiros de jornalismo cultural de qualidade feito na web, não apenas a seção "Em Obras", dedicada às arte plásticas, mas todo o conteúdo é bem pautado e conta com excelentes autores", afirma Moura.

Em terceiro lugar, com três indicações, ficaram empatadas a versão digital da revista inglesa Frieze, do mesmo estilo da Artforum, e o brasileiro Fórum Permanente, uma plataforma com artigos, informações e eventos próprios.

Com duas indicações, aparece ainda o Canal Contemporâneo, que se apresenta como uma "comunidade digital focada na arte contemporânea brasileira para promover sociabilidade", com afiliação paga ou gratuita, que dá direito a newsletters diferenciados.

Também com duas indicações foi mencionado o site do Itaú Cultural, que contém a maior enciclopédia virtual das artes plásticas brasileiras.

Posted by Ananda Carvalho at 5:34 PM

Exposição de artista chinês indica ascensão do Paço das Artes, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo

Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 1 de fevereiro de 2009

Crítica Sete Intelectuais na Floresta de Bambu: Série de filmes de Yang Fudong, exposta em projeto de Álvaro Razuk, é a mais sofisticada mostra da instituição

Instituições públicas de arte estão passando por um radical processo de transformação em São Paulo. Após a consolidação da Pinacoteca do Estado, com uma programação que obscureceu os museus privados paulistanos, o que se percebe agora é a vez do Centro Cultural São Paulo, do Museu da Imagem e do Som (MIS) e do Paço das Artes alcançando o mesmo patamar.

No caso do Paço das Artes, isso fica patente com a exposição "Sete Intelectuais na Floresta de Bambu", com cinco projeções de Yang Fudong, realizadas entre 2003 e 2007, e curadoria de Maarten Bertheux. Trata-se da montagem mais sofisticada já vista na instituição, realizada por um dos mais renomados artistas chineses na cena contemporânea.

O único senão é a injusta falta de crédito para o arquiteto Álvaro Razuk, responsável pela cenografia, que transformou o Paço num local à altura de qualquer museu digno para a arte contemporânea. As cinco projeções de Fudong podem ser tanto vistas individualmente como em seu conjunto, através de um conjunto de rampas que partem de um mesmo ponto e se transformam em locais adequados para se assistir aos filmes -uma maratona de quase cinco horas em seu total.

Antonioni

Fudong é um mestre na produção da imagem em movimento, criando situações oníricas em filmes preto e branco, hipergranulados e que têm muito a ver com a estética de Michelangelo Antonioni (1912-2007) e seu "neorrealismo interior". O vazio pequeno-burguês dos personagens de Antonioni se transforma na alienação dos jovens "intelectuais" urbanos, que se repetem nos cinco filmes, testemunhas da acelerada ocidentalização da China.

Ainda da mesma maneira que Antonioni, o silêncio -só dois filmes possuem diálogos e, mesmo assim, escassos- é uma forma de fazer com que o espectador tenha um papel mais atuante frente às projeções, cheias de situações ambíguas.

No início da primeira parte, por exemplo, os jovens estão nus, sentados em meio a rochas e, lentamente, se vestem de roupas elegantes, num confronto entre natureza e cultura, que vai se repetir diversas vezes não só naquele como nos demais filmes, especialmente na terceira parte.

Cenários encantadores, que levam ao êxtase, são o pano de fundo para os "intelectuais" habitantes da cidade, situação propícia para que o observador se identifique com diversas situações. Aliás, outro trunfo da montagem, que permite ver, de dentro do Paço, o verde abundante da Cidade Universitária, mimetizando a problemática dos filmes de Fudong.

Posted by Ananda Carvalho at 4:59 PM | Comentários (1)