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novembro 16, 2007
O vazio não deve ser visto como o nada, por Marcio Doctors, Folha de São Paulo
O vazio não deve ser visto como o nada
Texto de Marcio Doctors, originalmente publicado na Folha de São Paulo, no dia 14 de novembro de 2007
O crítico Marcio Doctors explica o seu projeto curatorial para a 28ª Bienal de São Paulo e os motivos de sua retirada
Como estive envolvido durante dois meses nas negociações da 28ª Bienal Internacional de São Paulo, gostaria de tornar pública minha participação neste processo e expressar meu ponto de vista a respeito do projeto e das soluções que eu e Ivo Mesquita apresentamos, visando solucionar o impasse em que a Bienal se encontra.
Ao juntar esforços e dividir a curadoria, nossa intenção era enfrentar a falta de tempo que teríamos para a realização da próxima Bienal. Após análise dos dois anteprojetos, decidimos juntá-los e propor uma conferência e uma exposição, cujo tema seria o vazio.
Nossa primeira idéia foi a de manter a conferência, nos moldes tal como está sendo divulgado, e uma exposição sobre o vazio no segundo andar do Pavilhão.
Como as negociações avançavam lentamente para o pouco tempo que restava e como ficava cada vez mais evidente que havia limitações financeiras que inviabilizariam os custos de uma Bienal "completa", julgamos que seria oportuno dividir a 28ª Bienal em duas etapas: em 2008, uma conferência, e, em 2010, uma exposição. O que ligaria estes dois momentos seria o tema do vazio.
Em 2008, a exposição do vazio como manifesto espacial -esta é a razão do segundo andar vazio- e como gesto radical de afirmação de que a Bienal instauraria o vazio para se repensar. Importante: o educativo trabalharia com a idéia do vazio como a energia que permite a invenção na arte; e a conferência incluiria uma linha de trabalho sobre o tema, fortalecendo o conceito da segunda etapa.
Em 2010, a exposição sobre o vazio. Preenchendo e justificando o gesto inaugural da primeira etapa e consolidando a pertinência da proposta, a apresentação do vazio como uma instância ativa e não niilista -como o outro que propicia que as coisas aconteçam no processo inventivo da arte. A exposição estaria estruturada em 3 núcleos:
1- O sempre outro. Artistas que não temem o imponderável e o mistério e que buscam na mudança o fio condutor de seu pensamento plástico. Este núcleo teria como centro a artista Lygia Pape.
2- O vazio ativo (Mira Schendel). O vazio como elemento ativo na constituição da obra plástica e do processo de invenção do artista e que garante a dimensão metafísica da obra de arte como imanência e não como transcendência.
3 - Rede de afetos. A arte como forma de dissolver o massacre do cotidiano e estrutura capaz de rearticular as relações do homem com o mundo, ao trazer à superfície da visibilidade, situações que são percebidas como invisíveis. A Bienal em duas etapas tinha como objetivo imediato resolver as limitações econômicas e de tempo que a Fundação Bienal nos apresentou. Haveria três anos para realizar a 28ª edição de maneira tranqüila e conseqüente. E como objetivo conceitual, explicitar que no processo inventivo da arte o "vazio" não pode e não deve ser confundido com o nada porque é a possibilidade de tornar visível, o invisível.
Durante todo o processo de negociação fui buscando soluções que abrissem portas e que permitissem superar as dificuldades porque meu compromisso fundamental é com a Bienal. Na última reunião, o presidente da Fundação Bienal, Manoel Pires da Costa, declarou que não tinha como garantir o projeto da 28ª Bienal em duas etapas e que só poderia se comprometer com a conferência em 2008. Diante deste fato, de fragmentar o projeto original, julguei que seria mais coerente me retirar porque não via sentido dissociar o projeto da conferência e da exposição do segundo andar vazio (2008) de uma exposição sobre o vazio (2010).
novembro 15, 2007
Lucas discute ordem britânica, por Rafael Cariello, Folha de São Paulo
Lucas discute ordem britânica
Matéria de Rafael Cariello, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 14 de novembro de 2007
Artista brasileira faz intervenção com árvores e arbustos no jardim da Tate Modern, em Londres
Renata Lucas confunde fronteiras entre público e privado, mudando ordem de espaços; na última Bienal de SP, duplicou uma calçada
"Mind the gap", em inglês algo como "tenha em mente, não se esqueça do intervalo" entre o trem e a plataforma, é provavelmente a frase mais ouvida em todo o Reino Unido. Repete-se nas inúmeras paradas do extenso metrô de Londres a cada estação.
Serve também como síntese de uma cultura em que as distinções e as diferenças são sempre muito bem demarcadas. A artista plástica brasileira Renata Lucas, 36, resolveu desrespeitar o aviso.
Ela participa desde o final do mês passado da mostra coletiva "The World as a Stage" (o mundo como palco) numa das mais importantes instituições da arte contemporânea, a Tate Modern, às margens do rio Tâmisa.
Descoberta em São Paulo por uma das curadoras do museu quando participava da última Bienal, e convidada a criar uma obra a ser exibida por aqui, Renata inventou "The Visitor".
Num dos jardins completamente simétricos plantados à frente do museu, entre árvores que alinhadas recortam espaços retangulares de grama, ela fez atravessar o tal "visitante".
Interferência
Trata-se de uma confusão de árvores locais, samambaias, mato e outras plantas misturadas e desalinhadas, que parecem invadir a calma e atrapalhar a ordem do lugar, apontando na direção da porta principal da Tate.
No espaço de exibição da mostra, alguns andares acima e dentro do amplo prédio, o espectador tem que dar as costas para o restante das obras e ir até as janelas que dão para o rio para poder descobrir, ao lado de uma delas, uma pequena placa que indica a obra que está lá embaixo.
Intervindo nos jardins dos ingleses, Renata usa um tema local para dar seqüência ao tipo de projeto que já desenvolvia no Brasil. "O tema paisagístico é importante por aqui. Os ingleses têm obsessão por jardinagem", ela diz.
Ao mesmo tempo que têm obsessão por ordem e por limites rígidos e fronteiras claras entre diferentes espaços, entre o que é e o que não é institucional, entre público e privado. A confusão dessas fronteiras é justamente o método de trabalho da artista, o que torna o Reino Unido um espaço privilegiado -e difícil- para as suas obras.
Fundo contra fundo
Na Bienal, por exemplo, ela "instalou" uma nova calçada, contígua à que já existia, numa das ruas do bairro da Barra Funda, na capital paulista. Tudo foi duplicado: o meio-fio, a linha de postes, os canteiros. Novos canteiros às vezes esbarravam com os antigos, e ficava difícil para quem chegava a essa calçada pela primeira vez saber qual era a original e qual era a duplicata.
É essa duplicação e esse questionamento do espaço original que, embora demandando enormes e caras intervenções, torna a sua obra de certo modo sutil. "É fundo contra fundo. Não tem um contraste muito grande", ela diz.
"É uma espécie de colagem. Tento traduzir um lugar em outro. Trazer uma faixa de um lugar no outro. Quando você faz isso, na verdade faz com que tudo pareça muito ficcional. Essa instância de dúvida faz com que você questione tudo: o real e o ficcional."
Um dos riscos que ela corre com essa idéia de fundos duplicados é que as pessoas simplesmente não percebam suas obras. No caso da exposição da Tate Modern esse risco é claro, já que é preciso que o espectador "desista" dos outros artistas para, por sorte, encontrar, sua obra misturada ao jardim lá fora. Concorda?
"Totalmente", ela diz. "Mas gosto muito dessa idéia de uma pessoa contar para a outra o que viu. "Nossa, perdi", alguém pode dizer. Acho que as pessoas precisam prestar atenção."
CIRCUITO
The World as a Stage
Andrea Fraser, Catherine Sullivan, Cezary Bodzianowski, Dominique Gonzalez - Foerster, Geoffrey Farmer, Jeppe Hein, Jeremy Séller, Mario Ybarra Jr, Markus Schinwald, Pawel Althamer, Renata Lucas, Rita McBride, Roman Ondák , Tino Sehgal, Trisha Donnelly, Ulla Von Brandenburg
24 de outubro de 2007 a 1° de janeiro de 2008
Tate Modern - Starr Auditorium
Bankside, SE1 9TG, Londres - Inglaterra
+44-20-78878888 ou visiting.modern@tate.org.uk
www.tate.org.uk
Domingo a quinta, 10-18h; sextas e sábados, 10-22h
novembro 14, 2007
Gil confirma que sai do Ministério da Cultura em 2008, O Globo Online
Gil confirma que sai do Ministério da Cultura em 2008
Matéria originalmente publicada no O Globo Online, no dia 13 de novembro de 2007
BRASÍLIA - O ministro da Cultura, Gilberto Gil, confirmou nesta terça-feira que deixará o ministério no próximo ano. Segundo ele, a decisão foi motivada por um problema de voz.
- Tive a reincidência de um pólipo (calo) de voz que tinha sido removido há dez anos - disse Gil.
Em entrevista a emissoras de rádio parceiras da Radiobrás, ele afirmou estar satisfeito com o trabalho no Ministério da Cultura, especialmente com o reconhecimento pelo governo e pela sociedade do papel estratégico da cultura. No entanto, para Gil, o momento é de fazer um recolhimento.
- Eu especializei a minha voz em cantar, e ultimamente tenho usado mais para falar.
O ministro ainda detalhou o Programa Mais Cultura, que prevê investimentos de R$ 4,7 bilhões até 2010.
Segundo ele, esse orçamento será utilizado em diversos ministérios, que vão se dedicar parcialmente a programas culturais. Como exemplo, Gil lembrou que o Ministério da Justiça vai fazer 300 pontos de cultura em áreas de risco para evitar o envolvimento da juventude com a violência.
O ministro disse que o programa foi desenvolvido em associação com os programas sociais do governo federal, dando atenção aos locais de maior vulnerabilidade social.
- Os programas culturais vão estar trabalhando em função do aprimoramento da abordagem social geral que o governo lula vem fazendo - afirmou.
Gil ressaltou que o conceito de cultura vem sendo ampliado nos últimos anos no Brasil e no mundo. Segundo ele, até pouco tempo, eram consideradas culturais apenas as manifestações ligadas a artes e ao patrimônio.
- Muita gente que não se achava culta, não se sentia parte da cultura, hoje se sente porque é parte da cultura.
novembro 12, 2007
28ª Bienal de São Paulo em brasa
28ª Bienal de São Paulo em brasa
Esta é uma série de reportagens acerca das mudanças na organização e na curadoria da 28ª Bienal de São Paulo
Bienal na mira , por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Curadores anteriores criticam proposta, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
"Agora a casa está arrumada", diz presidente, por Gustavo Fioratti, Folha de São Paulo
"Não há tempo para Bienal tradicional", por Gustavo Fioratti, Folha de São Paulo
Bienal de 2008 promete abrir as portas sem expor obras de arte, por Márcia Abos, Globo Online
Novo curador quer colocar a Bienal em "quarentena", por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Em crise, 28ª Bienal não terá exposição, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Bienal na mira, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 12 de novembro de 2007
Curadores, críticos e artistas se dividem em relação à proposta da 28ª edição da exposição, em que não haverá obras de arte exibidas e andar inteiro ficará vazio
A proposta do curador Ivo Mesquita de deixar de organizar a 28ª Bienal de São Paulo num formato tradicional divide o meio artístico nacional.
O projeto prevê em 2008 um andar dedicado a uma espécie de arquivo histórico, com documentos e livros, um andar completamente vazio e o térreo do pavilhão aberto para performances e exibições de vídeos.
"Acho que é um luto internacional, a conclusão de uma administração ausente e desastrada, o Ivo está fazendo o papel de defunto em um enterro, é uma cooptação absurda", diz Nelson Aguilar, curador da 22ª e da 23ª Bienal de São Paulo. "Esse é um problema de cidade, é um erro de todos nós, não só dos conselheiros, as pessoas deviam ir para a rua e fazer alguma coisa."
Já Sheila Leirner, curadora da 18ª e da 19ª edição do evento, apóia o projeto: "Ivo foi um dos responsáveis por nossas bienais, tenho confiança no trabalho e nas idéias dele".
Responsável por uma das edições mais polêmicas da mostra, em 1985, a curadora vê semelhança entre os dois projetos. "De forma simbólica talvez à "Grande Tela", e no mesmo 2º andar, afinal teremos, 23 anos depois, o "Grande Vazio". Nada é mais necessário neste momento do que o vazio e pode ser bem mais difícil lidar com o vazio do que com o cheio."
A proposta de uma "quarentena" para a Bienal agrada alguns críticos e curadores, mas uma mostra sem arte seria o ponto fraco do projeto.
"Dada a crise vivida pela fundação, com dívidas financeiras e simbólicas, como a não-publicação dos catálogos da última Bienal, o que resta neste curto espaço de tempo é propor este "parar para pensar". Cabe sublinhar que a arte vai bem, o público tem comparecido em massa, o que anda mal das pernas é a instituição, mas uma coisa é certa: bienal "sem arte" é triste", afirma o curador e crítico carioca Luis Camillo Osório.
Segundo o curador pernambucano Moacir dos Anjos, "Em Vivo Contato", nome da 28ª Bienal, "poderá redefinir a missão da Bienal na contemporaneidade e recuperar a confiança e o respeito esgarçados em anos recentes".
Edição esvaziada
Mas nem todos os curadores gostam dessa idéia. "Eu preferiria ver trabalhos de arte que tratassem do vazio em vez de encontrar uma Bienal literalmente esvaziada, mas acho que a curadoria encontrou uma saída inteligente. Discutir estratégias das bienais interessa mais aos profissionais da arte do que ao grande público. Espero que a discussão sobre a instituição não ofusque a discussão sobre arte", diz Cauê Alves.
Galeristas também divergem. "Acho admirável o Ivo aceitar e tentar realizar algo viável frente ao caos da administração dessa presidência, mas acho lamentável que seja roubado de nós um dos poucos eventos de caráter internacional do país", diz a galerista Márcia Fortes, da Fortes Vilaça.
Para Eduardo Brandão, da galeria Vermelho, "frente à espetacularização das exposições, acho que é quase óbvio pensar nesse formato, exposições grandiosas estão falidas".
Entre os artistas, a divisão de opiniões também ocorre. "A idéia de um pavilhão vazio já é em si uma grande atitude artística conceitual", diz Paulo Climachauska. "É uma ampliação no entendimento do que é uma bienal, um movimento importante em favor da reflexão e uma afirmação a respeito do papel da instituição na cidade e no circuito artístico internacional", defende Carla Zacagnini.
Maurício Dias, da dupla Dias & Riedweg, é um dos críticos ao projeto: "Em São Paulo não faltam bons simpósios e praças vivas, o que falta é vigiar e conter a sucessão de erros administrativos e políticos da Fundação Bienal".
"Acho que um processo de reflexão pode ser bom, mas pensar criticamente a partir de documentos históricos, espaços vazios ou abertos à participação requer tempo e intensidade de trabalho e deveria ser um pressuposto para a realização de uma mostra de arte do porte da Bienal e não estar no lugar desta", afirma a artista paulistana Carmela Gross.
Contudo, segue ela, "enquanto os artistas e suas obras aparecerem como figuração fantasmática dentro uma estrutura fortemente armada em termos não-artísticos, acho difícil avançarmos".
Curadores anteriores criticam proposta, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 12 de novembro de 2007
Equipe responsável por edição de 2006 reclama de falta de publicações
Co-curadora espanhola ainda não recebeu por sua participação; "Obrigação era terminar o processo da 27ª Bienal", diz colombiano
A equipe curatorial da última Bienal de São Paulo, "Como Viver Junto", critica a instituição por iniciar um novo projeto sem ter concluído o anterior.
"Antes de começar qualquer outro projeto, inclusive a participação nas Bienais de Valência e Veneza, a obrigação da Fundação Bienal era terminar o processo da 27ª Bienal", afirma o colombiano José Roca, um dos co-curadores da mostra.
Para a curadora geral da 27ª Bienal, Lisette Lagnado, "é inadmissível que ainda se mantenha uma administração desacreditada, que não conseguiu honrar suas dívidas para com a última edição da Bienal. A falta de tempo e de dinheiro é conseqüência de uma incapacidade de captar recursos".
Quase um ano após o fim da mostra, os curadores aguardam as publicações programadas. "Até agora não se publicou o catálogo, parte da proposta de Lisette e do time curatorial, pois havia artistas que teriam participação apenas no projeto editorial. Tampouco se publicou o texto dos seminários, um espaço de discussão e reflexão da 27ª Bienal", diz Roca.
Participante da organização de várias bienais, a co-curadora espanhola Rosa Martinez diz ter sido a primeira vez que enfrentou situação parecida.
"Parece-me muito triste que a instituição mais prestigiada da América Latina esteja passando por essa crise lamentável, na qual se misturam corrupção, má gestão e falta de respeito aos trabalhadores. Não sou a única a não ter recebido os honorários, há dívidas com outros co-curadores e artistas. Isso não é só um problema econômico, mas de falta de ética institucional."
Mesquita, porém, é poupado das críticas. "Ainda bem que surgiu um profissional competente para aceitar a missão de dar continuidade a um evento historicamente tão importante. Se a instituição conseguir recuperar sua reputação internacional, terá valido a pena", diz Lagnado. Ele também é apoiado por outros curadores da Bienal anterior. "É uma proposta radical, mas coerente com este momento", diz o alemão Jochen Volz.
"Ela me parece bastante pertinente para um ano em que a Bienal está com o orçamento apertado e atravessa uma crise de identidade. O que me parece belíssimo, porém complicado para uma bienal sem muitos recursos, é o projeto de se retirar os vidros do piso térreo", diz Adriano Pedrosa, co-curador de "Como Viver Junto".
Na história das Bienais de São Paulo, a próxima terminaria um ciclo: "A 25ª e a 26ª mostraram os limites do modelo bienal em sua vertente espetacularizante, enquanto a 27ª sofreu as conseqüências institucionais de tentar recriar sua estrutura; já a 28ª tem a oportunidade de mostrar a instituição em toda sua nudez, literal e metaforicamente", avalia Roca.
"Agora a casa está arrumada", diz presidente, por Gustavo Fioratti, Folha de São Paulo
Matéria de Gustavo Fioratti, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 10 de novembro de 2007
O jeito foi embarcar no espírito de um velho ditado otimista que diz: "Há males que vêm para o bem". O presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Manoel Pires da Costa, assumiu, em entrevista coletiva na sexta, que a crise de 2007 -sua administração teve de responder a uma série de denúncias ao Ministério Público- pesou na decisão de aceitar a proposta de curadoria de Ivo Mesquista, uma bienal sem artes plásticas.
No entanto, para o presidente, mesmo tendo surgido de um "verdadeiro vendaval", o projeto é "extremamente moderno".
Ivo Mesquita, também presente na coletiva, deu continuidade à defesa da idéia. Ele acha que o modelo da Bienal de Veneza, referência mundial das bienais, envelheceu.
"Os museus, galerias e espaços culturais, muito deles criados no entorno das bienais, já estão fazendo um papel muito parecido. As bienais precisam apontar um novo caminho."
Mesquita disse ainda que essa "reflexão" seria proposta mesmo no caso de haver tempo para o planejamento de uma bienal convencional. "É um projeto que eu faria de qualquer maneira. Uma espécie de grande conferência, para pensar de forma profunda."
A mostra de 2008, para o curador, funcionaria, portanto, como um "hiato" necessário para colocar os velhos padrões em xeque. "Não dá mais para seguir um modelo do século 19 em pleno século 21", disse.
"Acho que o modelo da primeira Bienal, de 1951, com sua proposta de lançar nossos artistas no exterior, já está logrado, já foi realizado."
Em relação à dívida financeira da Bienal com artistas, profissionais técnicos e diversas instituições, que participaram da última edição da mostra, Pires da Costa prometeu pagá-las até o fim do ano. Já sobre o catálogo da 27ª edição, diz que ele acabou de ser editado e está sendo impresso.
"Tive de enfrentar um verdadeiro vendaval, responder denúncias ao Ministério Público, conversar com autoridades, com o prefeito, com o governador. Mas agora a casa está arrumada e já estamos passando por um período de tranqüilidade", disse.
"Não há tempo para Bienal tradicional", por Gustavo Fioratti, Folha de São Paulo
"Não há tempo para Bienal tradicional"
Matéria de Gustavo Fioratti, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 10 de novembro de 2007
Para Pires da Costa, presidente da Fundação Bienal, projeto que descarta exposição é "extremamente moderno"
Pires da Costa afirma, em coletiva, que "falta de tempo no fim foi positiva, pois vai permitir reflexão sobre o papel da Bienal"
O presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Manoel Pires da Costa, afirmou ontem que não há tempo para a realização de um projeto para a Bienal Internacional de Artes de 2008 no modelo usado para mostras anteriores. "Nosso tempo não é escasso a ponto de não podermos fazer uma Bienal, mas também não é suficiente para fazermos uma Bienal tradicional."
Segundo o presidente da fundação, esse foi um dos fatores centrais para a decisão de escolher um projeto -assinado por Ivo Mesquita, curador-chefe da Pinacoteca do Estado- que quebra uma tradição de mais de 50 anos: desde 1951, a Bienal se dedica a abrir espaço para artistas plásticos, nacionais e estrangeiros, das mais diferentes vertentes; para 2008, a curadoria deixa esses artistas em segundo plano. O projeto prevê um andar dedicado a uma espécie de arquivo histórico, com documentos e livros, um andar completamente vazio e o térreo do pavilhão aberto para performances, exibições de vídeos ou até mesmo festas. A programação ainda não foi definida.
Ao justificar sua escolha, Pires da Costa também se propôs a discutir o papel da Bienal Internacional de Artes de São Paulo, reafirmar sua função de apontar novos rumos no meio artístico. "Essa falta de tempo no fim foi positiva, pois vai nos permitir uma reflexão, não só sobre o papel da Bienal, mas sobre o papel das 200 bienais espalhadas pelo mundo. Todas elas estão procurando um caminho. Nós vamos fazer alguma coisa diferente. Considero o projeto do Ivo [Mesquita] extremamente moderno", disse.
Sobre a falta de tempo hábil, o presidente da fundação diz que 2007 foi um ano atípico, em que teve de responder várias denúncias relativas a sua administração, principalmente sobre a contratação de parentes para prestação de serviços à fundação e de uma empresa da qual é sócio, a editora TPT Comunicações, para produção de produtos da Bienal. O Ministério Público considerou que negócios entre a empresa de Pires da Costa, a TPT Comunicações, e a Bienal não trouxeram prejuízos à fundação.
Sobre as dívidas da fundação (cerca de R$ 3 milhões), Pires da Costa prometeu quitá-las até o fim do ano. A crise financeira também foi citada como um dos motivos da escolha do projeto, que, segundo o presidente da fundação, deve ter orçamento menor do que as mostras de anos anteriores.
"Cara a tapa"
Sentado a seu lado durante a coletiva, Ivo Mesquita diz que espera reações dos mais diversos tipos à sua idéia de curadoria. "Estou dando a cara a tapa", diz. "Mas espero que as pessoas se manifestem mesmo, espero um grande debate sobre o trabalho. Estou propondo um vazio, um hiato que funcione como um tempo de reflexão. Ou uma quarentena, por isso a Bienal vai ficar em cartaz por 42 dias." Em tom de brincadeira, Pires da Costa disse esperar uma divisão de opiniões no exterior. "Serão 20% contra a proposta e 80% a favor".
Durante a coletiva, Ivo Mesquita também foi questionado sobre uma possível rejeição do meio artístico a uma parceria assumida com uma administração que respondeu a tantas denúncias e que ainda tem dívidas financeiras com artistas chamados para a última Bienal. "Espero que falem na minha cara e não pelas costas. Sou um profissional técnico. Posso responder apenas pelo meu projeto, que é propor um espaço para reflexão", disse.
Bienal de 2008 promete abrir as portas sem expor obras de arte
Matéria de Márcia Abos, publicada originalmente no Globo Online, no dia 9 de novembro de 2007
A maior Bienal de Arte da América Latina está doente e vai passar literalmente por uma quarentena em sua próxima edição. O diagnóstico e a prescrição são do próprio curador da 28ª Bienal Internacional de São Paulo, Ivo Mesquita, que anunciou nesta sexta-feira que a mostra abrirá as portas ao público em outubro de 2008 sem expor uma única obra sequer. É polêmica à vista.
- Estou propondo um debate, chamando para uma conversa. Resolvi assumir e dar a cara para bater. É uma Bienal bastante polêmica e entendo se ela for controversa. Não haverá exposição no sentido formal. Odiaria ter que fazer uma exposição tampão, convidando artistas sem fazer uma pesquisa. Tive dez meses para preparar a Bienal, quando o prazo normal é dois anos. Fiz o que pude no tempo que tenho - disse Mesquita, que é o atual curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
De acordo com o projeto de Mesquita, a 28ª Bienal vai durar 42 dias - o período clássico da quarentena. O térreo e o primeiro pavilhão do prédio serão transformados em uma praça. Os caixilhos e vidros que fecham a rampa de descida e o térreo serão removidos, seguindo o projeto original de Oscar Niemeyer. Nestes espaços, podem acontecer performances, concertos, apresentações de teatro, exibições de cinema e vídeo e shows. O segundo pavilhão estará totalmente vazio. O terceiro andar vai abrigar uma imensa biblioteca, contendo os arquivos de todas as Bienais de São Paulo desde a primeira, de 1951, e catálogos com informações sobre as cerca de 200 bienais de arte que existem hoje no mundo.
- A Bienal é um modelo de exposição do século XIX e estamos no século XXI. É preciso parar e repensar o que este modelo está fazendo e que tipo de imagem de arte ele passa. Será um exercício de reflexão sobre qual o lugar da Bienal hoje. Não acho que o modelo esteja esgotado, mas que ele precisa ser revisto. Estou propondo uma reflexão. Sei que estou fazendo uma curadoria mão pesada, pois teremos uma única instalação, que será o próprio prédio da Bienal, reformado segundo a proposta original de Niemeyer, e o imenso vazio do segundo pavilhão - explicou Mesquita.
A escolha do curador e do projeto da 28ª Bienal sofreu uma atraso de mais de um ano devido à profunda crise pela qual passa a atual administração da Fundação Bienal de São Paulo, presidida por Manoel Pires da Costa. Ele foi acusado de nepotismo ao contratar a seguradora na qual trabalhava seu genro, e uso da Fundação em benefício próprio, por usar serviços editora da qual é dono para prestar serviços à Bienal.
Alguns artistas até hoje reclamam que não receberam pagamentos da Fundação e um dos catálogos que trata dos seminários ocorridos na 27ª Bienal ainda não foi publicado. Manoel Pires da Costa passou a maior parte da entrevista de apresentação da 28º Bienal defendendo-se destas acusações, que segundo ele são quase todas mentirosas e motivadas por objetivos políticos de adversários que queriam seu cargo. Disse que foi inocentado das denúncias pelo Ministério Público.
- A Bienal de São Paulo tem graves problemas institucionais e de gestão, mas é a segunda maior e mais antiga do mundo. Sua importância permite que ela lance luz a todas as outras bienais do mundo. É tão importante quando a Bienal de Veneza - explicou Márcio Doctors, curador da Fundação Eva Klabin.
Doctors apresentou uma proposta para ser o curador da 28ª Bienal, mas acabou retirando sua candidatura. Chegou a cogitar fazer a curadoria em conjunto com Ivo Mesquita, dividindo a Bienal em doia períodos: a primeira parte em 2008, que abrigaria seminários e debates, e a segunda em 2010, quando aconteceria a exposição de fato.
- Não quero ser lembrado como o curador da Bienal que não fez uma exposição, por isso desisti da curadoria. A fragmentação do projeto original esvazia a noção de vazio criativo, fazendo com que o vazio seja sinônimo de nada - disse, explicando ainda que seu projeto visava preservar a Bienal em um momento de crise. No entanto, ele acredita que a fragmentação do conceito original em dividir a Bienal impedirá a compreensão do público.
- Tendo o projeto completo, as pessoas entenderiam o conceito. O segundo pavilhão vazio seria até uma afirmação de força. Com o projeto fragmentado, perde-se a clareza do conceito - concluiu.
Novo curador quer colocar a Bienal em "quarentena"
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 8 de novembro de 2007
Ivo Mesquita diz que, com seu "gesto radical" de deixar vazio um andar do evento, pretende pôr em xeque a história da instituição
Conselheiros dizem que a proposta apresentada fere o estatuto da Bienal, que prevê a realização de exposição de artes plásticas
Ao deixar um andar inteiro do prédio da Bienal de São Paulo vazio, o curador Ivo Mesquita pretende causar uma pausa na história da instituição. "É uma quarentena, suspende-se um processo para colocar tudo em xeque. Creio que, do ponto de vista da imagem, é um gesto radical, que será bem acolhido", disse Mesquita, por telefone, de Buenos Aires, sobre o evento previsto para entre outubro e dezembro de 2008.
Ontem, conselheiros da Fundação Bienal se manifestaram contra a proposta de Mesquita, pois ela não seguiria o estatuto da Bienal, que prevê em seu objetivo a "exposição de artes plásticas". No projeto de Mesquita, "Em Vivo Contato", anunciado anteontem, em vez de uma mostra no formato tradicional, prevê-se um ciclo de seminários que irá durar 40 dias, além de uma praça para concertos e performances, e um andar que se transformará em biblioteca e arquivo.
"Meu projeto é esse, e é preciso entender que não há tempo para fazer uma exposição, pois é preciso pesquisa. A Lisette [Lagnado] fez o que considero uma boa bienal, pois teve dois anos para pesquisa a partir de um projeto", disse Mesquita.
Um dos curadores convidados a apresentar um projeto para a 28ª Bienal, Mesquita não entregou o projeto no tempo previsto. "Dois dias antes de encerrar o prazo, recebi uma carta da presidência pedindo para manter as representações nacionais e me posicionei contra essa imposição", afirmou. O único a apresentar o projeto foi Marcio Doctors, que desistiu ao saber ser o único candidato.
"Nós dois fomos procurados por conselheiros para reapresentar juntos um projeto, e achei que seria uma boa idéia. Em meu primeiro projeto, eu já previa um ciclo de seminários", disse o curador. Na última segunda, Doctors renunciou ao cargo, deixando Mesquita sozinho. Sem a lista de convidados definida, o curador indica como pretende usar a praça: "Imagine um espetáculo do Ivaldo Bertazzo, uma procissão do Zé Celso Martinez Corrêa, ou um show do Fischerspooner".
Mesquita assume a 28ª Bienal em meio a uma crise financeira da instituição, que não pagou grande parte dos gastos da edição passada, inclusive com curadores estrangeiros, nem tem previsão de publicação do catálogo do ciclo de seminários. Isso não pode afetar a imagem da instituição? "Não sei, mas vou verificar", disse o curador. O presidente da Fundação Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa, realiza hoje à tarde entrevista coletiva na qual se pronunciará sobre o assunto.
Em crise, 28ª Bienal não terá exposição
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 8 de novembro de 2007
Seminários irão ocorrer em 2008; mostra não vai seguir modelo usual
Estão previstos concertos, performances e andar inteiro vazio no pavilhão; Ivo Mesquita foi anunciado ontem como curador
A 28ª Bienal de São Paulo, que será realizada entre outubro e dezembro do próximo ano, não terá uma exposição no formato usual e um andar inteiro do edifício projetado por Oscar Niemeyer ficará vazio durante os dois meses do evento.
O curador Ivo Mesquita foi anunciado, ontem, como responsável pelo projeto, denominado "Em Vivo Contato", que prevê ainda um ciclo de conferências, uma praça, no térreo, para encontros e acontecimentos, como performances e concertos, e outro andar composto por uma biblioteca e um arquivo. Desde a primeira edição, em 1951, é a primeira vez que uma Bienal deixa de expor obras.
O processo de seleção do curador desta edição foi bastante tumultuado. Diversos curadores foram convidados a apresentar um projeto e se recusaram a entregar -entre eles Mesquita, que chegou a ser o responsável pela 25ª Bienal, e no centro de uma polêmica com o então presidente, Carlos Bratke, em 2000, saiu do posto.
Para a 28ª Bienal, apenas Marcio Doctors entregou um projeto para a instituição. Ao saber que havia sido o único, recusou-se a continuar no processo, mas, acatando um pedido do presidente da instituição, Manoel Francisco Pires da Costa, aceitou realizar um projeto em parceira com Mesquita.
Na última segunda, Doctors renunciou ao cargo, afirmando que o projeto proposto não seria cumprido na íntegra, pois ele teria um segundo momento, em 2010, com uma mostra que tivesse o vazio como tema.
"Propusemos deixar o segundo andar vazio, no próximo ano, para simbolizar a crise pela qual atravessa a instituição", disse Doctors à Folha.
Além do prazo exíguo para a organização da Bienal, diversos curadores não aceitaram participar em razão dessa crise. A atual presidência da Bienal esteve envolvida em várias polêmicas, neste ano, e chegou a assinar um ajuste de termo de conduta com o Ministério Público, por cometer irregularidades com a publicação "Bien'Art" e a contratação de parentes de Pires da Costa.
Financeiramente, a Fundação também atravessa dificuldades, pois ainda não pagou grande parte dos gastos com a 27ª Bienal, realizada no ano passado, como os de transporte ou os honorários da curadora espanhola Rosa Martinez, além dos catálogos da mostra não terem sido publicados.
No projeto divulgado ontem pela Fundação Bienal, Mesquita, que se encontra no exterior, afirma que "faltando menos de um ano para a próxima edição, não é mais viável montar uma grande exposição nos moldes habituais". Ainda de acordo com o projeto, "a Bienal precisa de um momento para reflexão, para sistematizar conhecimento e pertinência, uma vez que seu modelo original parece criticamente exaurido".
Ironicamente, as galerias paulistanas que organizam a mostra "Paralela", evento simultâneo à Bienal, já têm um curador, o mineiro Rodrigo Moura, e a exposição está sendo preparada. Contudo, sem uma exposição na Bienal, galeristas avaliam que o afluxo de curadores e colecionadores estrangeiros caia sensivelmente, colocando em questão a própria "Paralela".
Projeto curatorial 28a. Bienal de São Paulo
Projeto curatorial 28a. Bienal de São Paulo
"Em vivo contato"
Curador: Ivo Mesquita
Curadores adjuntos: Ana Paula Cohen e Thomas Mulcaire
Datas (a confirmar): 19 de Outubro a 30 de Novembro de 2008
As Premissas
Em 1951, no texto de abertura do catálogo da I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Lourival Gomes Machado, Diretor Artístico do museu, escrevia:
"Por sua própria definição, a Bienal deveria cumprir duas tarefas principais: colocar a arte moderna do Brasil, não em simples confronto, mas em vivo contato com a arte do mundo, ao mesmo tempo em que, para São Paulo se buscaria conquistar a posição de centro artístico mundial". (pg. 14).
O tom otimista, a retórica cheia de esperanças, o engajamento e o compromisso com um tempo de reconstrução do mundo depois dos terríveis episódios da II Guerra Mundial, soam hoje como uma profecia, o lançamento de uma utopia, que cinqüenta e oito anos depois parece ter constituído o seu lugar: São Paulo converteu-se sim num centro artístico internacional, uma cidade cosmopolita, uma referência na cena artística globalizada, enquanto o Brasil tornou-se um ponto de atração para artistas, curadores, galeristas, colecionadores internacionais, e artistas brasileiros consolidaram presenças sólidas no debate sobre a produção de visualidade contemporânea. Está claro, portanto, que aqueles objetivos foram alcançados, a tarefa a que ela se propunha em 1951 parece estar terminada.
Então, a pergunta que se coloca é: não seria o momento da Bienal de São Paulo avaliar suas produções e, talvez, considerar a possibilidade de ter que se re-colocar diante de uma cidade com seis museus de arte, centros culturais ativos e diversificados, todos os espaços com programações sistemáticas de arte contemporânea local e internacional (Vários com orçamentos proporcionalmente maioroes que o da FBSP)? Sem deixar de lembrar o panorama de coleções particulares importantes e representativas, e o mercado respeitável, com presença internacional, que ela ajudou a consolidar, a Bienal não é apenas de São Paulo, portanto, que papel ela desempenha hoje, como instituição pioneira no país e no continente, uma vez que também esses circuitos cresceram e se profissionalizaram, sendo parte de um sistema cultural globalizado? Talvez, um processo de auto-reflexão pudesse apontar para a compreensão e possível solução de ajustes pontuais da instituição.
Os processos da globalização chegaram aos territórios da cultura e as bienais tornaram-se, desde o final dos anos 80 do século passado, a estratégia mais usada por cidades e suas elites econômicas e políticas para ganharem visibilidade na aldeia global. O mesmo modelo de exposição de arte - e vale lembrar que ele vem do século XIX - que orientara a criação da Bienal de São Paulo, com o intuito de estabelecer um centro artístico internacional e promover a cultura local em um circuito ampliado, parece ainda ser eficiente ao tempo do fim das fronteiras nacionais. Já são quase duas centenas de bienais ao redor do mundo, algumas das quais inspiradas não só na de Veneza, mas também na de São Paulo, todas mais ou menos trabalhando questões semelhantes, mostrando as diversas práticas artísticas que constituem os territórios da visualidade hoje. Está evidente que é preciso definir caminhos. Que avaliação faz a Bienal de São Paulo desse fenômeno cultural, que se propaga pelos países até então chamados de periféricos ou em regiões de grande tensão política e cultural? Qual o papel de uma bienal na era da globalização? Qual o papel das bienais na indústria cultural, do turismo e do espetáculo? Que contribuição a Bienal de São Paulo pode trazer ao debate dessa questão com base na sua experiência, já que ela é a terceira organização mais antiga e a primeira fora dos centros hegemônicos? Sistematizar uma reflexão sobre as bienais hoje, re-avaliando suas próprias qualidades e objetivos, revendo a sua vocação, pode representar uma possibilidade da Bienal de São Paulo definir um novo papel de protagonista entre as tantas mostras de artes visuais periódicas que povoam o mundo no século XXI.
Recentemente, um novo fenômeno no circuito, as feiras de arte, parece também ter entrado em competição com as bienais. Artistas freqüentam ambos os eventos, enquanto curadores incluíram a primeira como espaços privilegiados de pesquisa e levantamento de perspectivas para ler a contemporaneidade. Mas elas não são a mesma coisa: enquanto a primeira é um espaço eminentemente comercial, de venda, a segunda quer ser de trocas e confrontos entre artistas, curadores, críticos e o público de Arte. O que há sim é uma relação pouco transparente entre essas duas instâncias, embora nada de grave ou errado, até aqui. Afinal é notável o fato de que muitos dos projetos importantes desenvolvidos por artistas e apresentados em bienais, só foram possíveis porque foram financiados por suas galerias. E isso não é mau em si. O problema está em as bienais, tradicionais instâncias legitimadoras da arte contemporânea, só sobreviverem como agentes de ponta de um mercado ávido por carne fresca e pela última insolência de artistas rebeldes, coladas com fita crepe, mas com potencial de mercadoria sofisticada. Pior, considerando a perspectiva local inserida num circuito global em que as bienais operam, elas correm o risco de se tornar provedoras do exotismo para consumo, de espaços de interação com a alteridade (diversidade cultural, racial, econômica), e dos álibis políticos e sociais para a economia globalizada do capitalismo transcontinental.
O modelo parece criticamente exaurido, banalizado (nada de novo, pois já se falava disso ao final dos anos 60, e então elas, as bienais, eram pouco mais que doze!).
Talvez, neste momento, todas as bienais careçam de uma pausa para reflexão, de sistematizar conhecimento e experiência, e procurar especificidade, pertinência, uma vez que Diante do fluxo incessante da produção de imagens e trabalhos, da diversidade das práticas artísticas, da voracidade da economia que alimenta o circuito, talvez as bienais pudessem ser ainda agentes da internacionalização e do cosmopolitismo, se fundadas nas singularidades do seu lugar de origem, nas demandas imediatas da região em que se inscrevem, no conhecimento e aprofundamento de questões, sintomas, referências que informam a produção de visualidade no mundo contemporâneo. Trata-se, talvez, de redirecionar sua vocação para, em lugar de tentar produzir uma visão totalizante e representativa do fenômeno da Arte da atualidade, delinear especificidades, produzir cartografias detalhadas, pondo em marcha um processo de trabalho investigativo e crítico, regular e sistemático, que acompanhe e dê conta de modo produtivo dos movimentos e transformações percebidos num circuito determinado, assim como das reverberações que eles causam e ecoam.
A Proposta
A proposta para a 28ª BSP é que seja repensada a mecânica com que a FBSP vem produzindo as sucessivas bienais desde 1951, abrindo desse modo um intervalo na história da exposição, para dar lugar à meditação, considerando o curto período para planejamento e organização de uma mostra nos padrões tradicionais da Fundação, as possíveis limitações na captação de recursos, e, principalmente, o aparente descompasso entre o modelo atual da mostra e a realidade onde ela se inscreve, seja local, seja internacionalmente. Um processo de análise da sua condição atual poderá apontar perspectivas para um novo tempo na história da Fundação Bienal de São Paulo, revelando mais uma vez uma atitude audaciosa e vanguardista, instaurada por Ciccillo Matarazzo, respondendo aos desafios que se apresentam a ela no século XXI, e honrando sua tradição de renovação ao longo de 56 anos de vida.
A 28BSP se articulará a partir de quatro componentes: uma biblioteca e arquivo sobre a questão das bienais no circuito artístico contemporâneo, centrados no acervo do Arquivo Wanda Svevo da FBSP, e que servirá de suporte para o ciclo de conferências a ser realizado entre outubro e novembro (período de 40 dias); uma praça, o espaço aberto à cidade, um lugar para encontros e acontecimentos, marcando uma abertura da instituição às energias que vêm do seu entorno; entre eles, o segundo andar do pavilhão, totalmente vazio, materializando o gesto de busca por novos conteúdos e publicações, que sistematizarão as idéias e trabalhos desenvolvidos. O objetivo é colocar a Bienal de São Paulo "em vivo contato" com a sua história, com a sua cidade, com seus pares, com o mundo e o seu tempo.
A - Praça
Os espaços do primeiro andar e do térreo na extremidade do edifício terão uma ocupação diferente, abrindo para outra disposição e uso, desenhando outra proposta de relação da Bienal com o seu entorno, o parque, os outros museus, a cidade. No primeiro andar, na parte que corresponde ao princípio da rampa de acesso ao segundo andar e se estende até o mezanino, que se projeta como observatório sobre o térreo, serão colocados os serviços da exposição (bilheteria, receptivos, livraria, informações, meeting point, monitores, banheiros, lanchonete, elevadores etc) e um conjunto de lounges para internet, vídeo, dvds, com mobiliário especialmente desenhado para o espaço, uma extensão da Biblioteca no terceiro andar.
A partir da rampa descendente ao térreo, serão removidos os caixilhos e vidros que hoje fecham aquela área (eles serão reinstalados posteriormente), restauradas as magníficas jardineiras que ali um dia existiram, e o espaço será reabilitado como uma grande praça, conforme o desenho original do projeto de Oscar Niemeyer. Aí terá lugar uma série de acontecimentos pelo período de seis semanas da exposição. Articulada a partir de um mobiliário, criado especialmente para permitir a construção de pequenos palcos, arenas, salas de conversa, a praça será um espaço polivalente, onde acontecerão performances, apresentações musicais, conversas com artistas, críticos, curadores, músicos, escritores, arquitetos, pontuadas por projeções de filmes, performances, grandes festas públicas, por artistas nacionais e internacionais.
A praça quer ser um espaço democrático, a ágora na tradição da polis, um território de encontros, confrontos, fricções. Um espaço para gerar energia, permitir a aeração do prédio, dos objetivos e programas da instituição. Como já mencionado acima, abrir esta parte do edifício tem, além do sentido simbólico da Bienal de São Paulo abrir-se para rever e reafirmar seu lugar na cidade, ele é gesto de resgate do projeto original do pavilhão, pensado como uma praça para exibição de grandes equipamentos industriais, a serem contemplados dos terraços do mezanino.
B - O Vazio
A exposição do espaço vazio do segundo andar do pavilhão será um gesto radical de afirmação deste momento para elaborar e analisar sobre o modelo das bienais, seu papel no mundo contemporâneo. Esse gesto simbólico toma o vazio como o lugar onde as coisas são em potência, por isso pleno e ativo, ao contrário de uma manifestação niilista, onde as coisas deixam de ser e perdem o sentido. Ele é fonte geradora, o território do devir, com possibilidades de múltiplos caminhos para ser cruzado.
Apresentado com teatralização para acentuar seu caráter simbólico para que a exposição instaure um momento de reflexão, o espaço vazio remete primeiro à avaliação de um processo de verificação do seu estado ou qualidade, e, segundo, à intensa atividade artística que toma a cidade por ocasião das bienais.
C - Biblioteca: Conferências, Documentos, Arquivo, Website
No terceiro andar, no espaço climatizado, será instalada uma grande biblioteca, composta por um arquivo, um auditório, uma arena, uma sala de reuniões, uma sala de leitura grande, uma sala fechada para computadores e acesso a rede eletrônica, e uma coleção de catálogos, se possível, de todas as bienais no mundo hoje. Com o mesmo espírito da Praça no térreo, esse segmento tem como função ser o centro gerador de um conhecimento sistematizado sobre a própria Bienal de São Paulo, o modelo das bienais, o que elas representam, para pensar que futuro se pode querer para elas. Se a praça no térreo é o espaço do encontro, da energia epidérmica, sob a regência da intuição e dos sentidos, o conjunto do terceiro andar é o território da razão, o tempo e o lugar do registro da experiência, de colher e sistematizar o conhecimento, e pôr em prática uma reflexão organizada. Este segmento será articulado a partir do acervo dos Arquivos Históricos Wanda Svevo, o único e mais valioso patrimônio da Fundação Bienal de São Paulo, a sua memória. É ele quem melhor pode contar o valioso trabalho realizado pela FBSP na formação do meio artístico brasileiro, desde a constituição do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1949.
Se essa Bienal se propõe como um momento de reflexão sobre o papel da instituição e seu projeto para arte contemporânea, levando em conta uma nova realidade local e internacional, ele requer uma revisão histórica das bienais de São Paulo, seu lugar no quadro das instituições de arte no Brasil, assim como uma discussão aprofundada sobre o modelo em que ela opera, replicado a todo instante em algum lugar no planeta. A Biblioteca se constituirá de um conjunto de documentos, livros, depoimentos (ex-curadores, artistas, críticos, intelectuais) selecionados e organizados com a colaboração de artistas, e propostos ao público como possíveis entradas para a história das Bienais de São Paulo, de outras bienais, da economia e cultura que elas representam. Será um espaço de pesquisa e reflexão, aberto ao público, e que deverá prover subsídios para o conhecimento e a compreensão da instituição e do modelo cultural que representa.
Assim como os outros componentes da mostra, o mobiliário e equipamentos para esse segmento também será objeto de trabalho encomendado a artistas/designers/arquitetos. Por outro lado está sendo considerado o convite a alguns artistas, que investigam por meio de seus trabalhos os limites entre documento e representação, linguagem e leitura, a história e a ficção, para, a partir do material existente nos arquivos da FBSP, produzirem leituras dele, em trabalhos e intervenções que serão incorporados posteriormente ao acervo dos Arquivos Wanda Svevo.
O ciclo de conferências será organizado a partir de quatro grandes entradas:
1) a BSP e o meio artístico brasileiro;
2) agentes oficiais e privados da globalização reunindo agencias governamentais, ONGs, fundações públicas e privadas, todas organizações fundamentais nas estratégias das bienais;
3) o modelo e o sistema das bienais, reunindo diretores e curadores do maior número possível de organizações;
4) uma conferência ou painel, de caráter mais teórico e filosófico, visando organizar uma reflexão sobre conceitos e parâmetros envolvidos no projeto curatorial da 28BSP.
Os trabalhos desenvolvidos serão registrados em publicações específicas, documentando os e produzindo um documento atualizado sobre o sistema das bienais, sua economia, desempenho e possibilidades no século XXI. No quadro dessa proposta de trabalho, o website da 28BSP será um dispositivo de fundamental importância por criar na rede, além de um espaço de difusão do evento e acompanhamento do seu processo de produção, um instrumento eficiente para acesso e troca de idéias com interessados no tema em toda parte do mundo.
As Publicações
As publicações são parte integrante do projeto da 28ª BSP, constituindo um de seus elementos fundamentais. Os volumes principais só poderão ser lançados depois do fim exposição, com o encerramento dos programas realizados na Praça e na Biblioteca durante o período da mostra. Para a abertura, estarão disponíveis o guia da exposição e o programa das conferências, além de depoimentos e atividades na praça.
O Programa Educativo
Um dos principais desafios da 28BSP será o seu programa educativo. Considerando que o tema da Conferência é a própria Bienal e o que será apresentado é o 2º andar vazio entre dois campos de intensa energia (a Praça - a intuição e os sentidos; a Biblioteca - a razão sistematizada), pode-se pensar que esse conjunto permitirá o desenvolvimento de uma série de atividades em torno a experiências do vazio como o território da criatividade. Em outras palavras, o território do vazio é o lugar onde a intuição e a razão encontra solo propício para fazer emergir as potências da invenção na arte. Outro caminho importante será a recuperação das memórias das bienais de São Paulo para o público. Serão desenvolvidos uma série de atividades que mostrem as contribuições dessas mostras para a formação do meio artístico brasileiro e para a história da arte.
