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novembro 9, 2007
Centro de Arte Hélio Oiticica em questão, resposta de Luiz Camillo Osorio, O Globo
Resposta de Luiz Camillo Osorio à carta de César Oiticica, originalmente publicada na seção Cartas, do Segundo Caderno do Jornal O Globo, do dia 8 de novembro de 2007.
A propósito de HO
A carta do Sr. César Oiticica respondendo à minha crítica ao atual abandono do Centro de Arte Hélio Oiticica - que, no momento, expõe para um público ridículo a obra magnífica de seu pai, José Oiticica Filho - merece uma tréplica, pois está cheia de interpretações equivocadas.
Vamos a elas:
1. Não fui eu quem disse que o CAHO foi construído para abrigar a obra do artista. No catálogo de inauguração do Centro, está escrito pela então secretária de Cultura, Helena Severo: "Esta nova instituição carioca vai abrigar todo o acervo do artista (Hélio Oiticica) e colocá-lo à disposição do público, em caráter permanente, além de promover exposições e eventos de relevância para as artes plásticas nacionais e internacionais.
Adotando critérios interdisciplinares promoverá também simpósios, seminários através de seu Centro de Documentação".
2. Há alguns anos, o projeto HO decidiu retirar as obras do artista do CAHO em função de a prefeitura não ter cumprido com suas obrigações no que dizia respeito a uma reserva técnica de qualidade e outras demandas do projeto HO. Muito justo. Entretanto, de uma hora para outra resolveu-se dizer que são coisas autônomas e que a prefeitura não tem obrigação nenhuma perante o acervo. Não quero retirar a autonomia do projeto HO, quero que a prefeitura cumpra com suas obrigações iniciais e faça o possível para manter na cidade a obra deste artista em exposição permanente.
3. As "nossas mãos" do meu texto referem-se ao cidadão carioca.
Pagamos com "nossos" impostos a criação e manutenção, nos últimos dez anos, do CAHO e temos a expectativa de poder ver com alguma sistematicidade as obras de Hélio Oiticica. Mais do que isso, queremos um centro de arte dinâmico, à altura do artista que lhe dá o nome. O meu sonho era que a restauração primorosa das suas obras feita pelo Museu de Houston, com justa parceria da Petrobras, pudesse ter sido feita aqui. É bom que se diga que acho fundamental para a arte brasileira expor e pertencer ao acervo de um museu da qualidade do de Houston. Uma coisa (termos instituições fortes) não impede a outra (ter visibilidade e presença internacional).
Muito pelo contrário.
4. O Sr. César leu apressadamente a passagem em que mencionei o "museu americano" e compreendeu mal. Não me referia a Houston, mas ao Guggenheim, pondo em questão nossa capacidade (e interesse) de levar adiante aquele projeto da prefeitura, uma vez que mal conseguimos manter as nossas principais coleções no país. Todavia, não vai ser introduzindo uma legislação conservadora que vai se resolver este problema, ou impedindo a saudável circulação da arte brasileira lá fora, mas com uma política cultural de médio e longo prazo que comprometa o poder público e a iniciativa privada.
5. Não tenho "interesses" velados a não ser defender e valorizar a melhor arte brasileira. O que não posso é ficar quieto diante do abandono de um centro de arte que deveria, entre outras coisas, abrigar e expor a obra de um dos maiores artistas do século XX, que temos a sorte de ser brasileiro e de ter tido com o Rio de Janeiro uma relação afetiva e poética. Recomendaria ao Sr. César, para conhecer melhor o que acho da obra de seu irmão, ler a crítica que escrevi sobre a exposição de Houston para o site do Canal Contemporâneo ou as inúmeras outras que escrevi para O GLOBO quando o CAHO ainda expunha o artista.
Pedir que lesse minha tese de doutorado, que inclui um capítulo sobre ele, seria exagero.
Talvez, ao contrário do que foi dito, eu esteja, isto sim, entre os que mistificam a obra de HO. Não me incomodo com isso, ela merece e sustenta todas as mistificações. Pena que o meu filho dificilmente poderá vê-la na sua cidade e entender o fascínio do pai.
Luiz Camillo Osorio
Um espaço em busca da identidade perdida, por Suzana Velasco, O Globo
Diretor do Centro de Arte Hélio Oiticica reconhece dificuldades, mas diz que local voltou ao 'ritmo normal'
Matéria de Suzana Velasco, publicada originalmente no Segundo Caderno do Jornal O Globo, no dia 8 de novembro de 2007
Com a mostra de fotografias de José Oiticica Filho, o Centro de Arte Hélio Oiticica (CAHO), inaugurado em 1996, voltou a ter uma programação de destaque, que sobressai depois da escassez de exposições nos últimos dois anos. O centro voltou ao debate na semana passada, quando o crítico de arte do GLOBO, Luiz Camillo Osorio, elogiou a alta qualidade da mostra, lamentando que não haja público para apreciá-la, já que o centro, nos últimos anos, não tem exposto com regularidade o acervo de Hélio Oiticica privado, pertencente à pela família do artista, que desde 1981 comanda o Projeto Hélio Oiticica ou de outros artistas. A crítica de Osorio foi rebatida por César Oiticica, irmão de Hélio, no último sábado, e agora é respondida pelo crítico do GLOBO (leia a carta).
O centro foi criado para abrigar o escritório do Projeto Hélio Oiticica e expor freqüentemente as obras do artista. A promessa não cumprida de uma reserva técnica para os trabalhos de Oiticica fez com que a família retirasse as peças dali, em 2002, e construísse sua própria reserva. Não deveria haver qualquer prejuízo para a programação do CAHO, mas essa retirada coincidiu com o declínio na freqüência das mostras.
Diretor do centro desde 2003, Luciano Figueiredo - excurador do Projeto Hélio Oiticica - admite que nos últimos dois anos a programação contínua foi interrompida, devido a uma redução no orçamento da secretaria das Culturas, impedindo a realização de exposições e a publicação de livros.
- Com a exposição de José Oiticica Filho, o centro supera o período difícil por que passou e retoma o ritmo normal, com a previsão de novas exposições de obras inéditas de Hélio Oiticica e outras de artistas internacionais, com programa a ser anunciado em breve - promete Figueiredo.
Procurado pelo GLOBO para falar da atual situação e dos rumos do centro, o secretário municipal das Culturas, Ricardo Macieira, não deu entrevista ao jornal, limitando-se a enviar um e-mail burocrático: "O Centro de Arte Hélio Oiticica nunca esteve abandonado. Nos últimos dez anos, foram realizadas 170 ações culturais importantes para a cidade do Rio de Janeiro: 35 lançamentos de livros; 94 palestras, seminários e cursos; e 41 exposições (...), consagrando o CAHO como um dos mais importantes espaços culturais do Rio de Janeiro dedicado às artes visuais (...)". À lista de mostras realizadas, seguem-se considerações sobre a importância de José Oiticica Filho.
De 2005 para cá, CAHO abrigou apenas duas mostras
Figueiredo, diretor do CAHO quando o centro foi criado, desligouse do espaço em seis meses, voltando a ele em 2003, a convite de Macieira e César Oiticica.
Sua gestão começou com a mostra "Hélio Oiticica: cor, imagem, poética", que ficou um ano e meio cartaz, seguida da retrospectiva de François Morellet, e de "Cosmococas", de Hélio Oiticica e Neville D'Almeida, em 2005. A partir de então, o CAHO só cedeu espaço para galerias de arte do Rio realizarem a exposição "Arquivo geral", no ano passado, e agora abriga a mostra de José Oiticica Filho.
- Um contrato intitulado "termo de permissão de uso" previa a implantação de reserva técnica a ser construída pela secretaria de Cultura da época (de quando o centro foi criado, em 1996) para abrigar o acervo de obras de Hélio Oiticica. Como isso nunca se deu, desliguei-me do CAHO - diz Figueiredo.
- Após o desligamento, a secretaria continuou a ignorar os termos do contrato, desvirtuou por completo os objetivos principais do CAHO e negligenciou o apoio ao acervo de obras de Hélio Oiticica, de propriedade de César e Claudio Oiticica.
O que tanto Figueiredo como César Oiticica rebatem é o argumento de que a retirada das obras da reserva do CAHO tenha relação com a falta de atividades do local. Segundo eles, não faz diferença a localização do acervo, mas sim o modo como ele é utilizado. César conta que tenta captação de recursos na Lei Rouanet para montar uma exposição dos penetráveis de Hélio Oiticica: - A mostra do José Oiticica Filho estava programada há três anos, mas custa R$ 250 mil. Nem a prefeitura tem todo o dinheiro nem nós conseguimos captar tudo. Eu mesmo anunciei exposições que não foram realizadas - reconhece.
- O centro não foi construído com dinheiro público para abrigar a obra do Hélio. A prefeitura estava com um elefante branco, um prédio bonito e restaurado. Surgiu a idéia de abrigar o escritório e o acervo do Projeto Hélio Oiticica, que estava num apartamento alugado no Flamengo. Mas o contrato da prefeitura nunca nos obrigou a manter as obras lá.
Além da falta de verbas, a maior parte das obras de Oiticica estava sendo restaurada no Museu de Houston, que prepara um catálogo raisonée do artista. Depois seguiram para a Tate Modern, em Londres, que acabou de realizar uma grande exposição de Oiticica.
Agora, as obras voltam ao Projeto Hélio Oiticica.
- Preferia fazer como a Tate, mas primeiro há que se equacionar as políticas públicas de artes plásticas e conseguir dinheiro.
Vai mudar o governo, vão botar outro cara lá. E tem tudo pra dar errado, porque os governos não têm continuidade das políticas - diz César.
novembro 7, 2007
PF prende cinco acusados de cobrar propina no MinC, por Andréa Michael, Folha de São Paulo
PF prende cinco acusados de cobrar propina no MinC
Matéria de Andréa Michael, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 7 de novembro de 2007
Segundo a polícia, grupo pedia dinheiro para acelerar trâmite de projetos que buscavam os benefícios da Lei Rouanet
Esquema atuou no interesse de ao menos 20 produções; por enquanto, não há indícios de envolvimento dos proponentes na fraude
A Polícia Federal prendeu ontem, em Brasília, quatro empresários e uma servidora pública acusados de montar um esquema de cobrança de propina para garantir a aprovação, no Ministério da Cultura, de projetos com incentivos fiscais previstos na Lei Rouanet. Eles responderão por corrupção passiva e ativa e formação de quadrilha (pena total de até 15 anos de prisão, se condenados).
Pela investigação, o grupo atua há pelo menos um ano. O teor de escutas telefônicas feitas pela PF indica que as pessoas presas atuaram no interesse de ao menos 20 projetos que tramitaram ou tramitam na Cultura, atrás de financiamento pela Lei Rouanet, que garante ao investidor abater o valor destinado aos projetos (até 4% do Imposto de Renda devido).
O delegado Gustavo Bucker, que conduziu a investigação (Operação Mecenas), disse que o grupo escolhia os projetos pelo valor, sem área fixa. O interesse começava por aqueles acima de R$ 300 mil.
"Há projeto até de R$ 2 milhões", afirmou Bucker, sem dar o nome das produções. Segundo ele, o esquema cobrava do interessado de 2% a 5% do valor total do projeto.
Segundo a PF, o esquema começava pela servidora Adriana Barros Ferraz, da área de avaliação de projetos do ministério. Ela identificava as propostas com aprovação quase certa, do ponto de vista técnico. Depois, encaminhava os dados para o policial civil Paulo Cesar Guida, da produtora brasiliense Mecenas, por meio do qual as informações também chegavam aos empresários José Ulysses Xavier e Raul e Jair Santiago, da produtora G4.
Os empresários, segundo a PF, contatavam os proponentes e ofereciam assessoria para agilizar a aprovação do negócio. Não haveria projetos da G4 sob apuração, pois o ganho da produtora seria na intermediação.
Se houvesse negativa, o grupo dava uma demonstração de força: a servidora apontava alguma pendência burocrática. Assim, a proposta saía da pauta da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, que aprova ou não as propostas.
"A característica principal era dificultar, e não facilitar. O esquema não era na avaliação, mas sim no trâmite burocrático", disse o secretário-executivo da Cultura, Juca Ferreira.
Quanto ao alcance da fraude (8.000 projetos são inscritos por ano na Lei Rouanet), Ferreira observou: "O fato é grave, mas é circunscrito e limitado".
O ministério vai pedir à Justiça acesso à investigação e analisar se há irregularidade nos projetos que despertavam o interesse do grupo preso. Por ora, não há indícios de participação dos proponentes na fraude.
Em nome da servidora, o advogado Divaldo Teóphilo disse que ela "não admite participação no esquema e que apenas prestava favores a amigos, sem obter vantagem". O advogado dos sócios da G4, Ronaldo Cavalcanti, não respondeu à Folha. A reportagem não localizou o defensor de Paulo Guida.
novembro 6, 2007
Conferência Municipal de Cultura de Goiânia: Encontrado esqueleto no armário do MINC, por Deolinda Taveira
Conferência Municipal de Cultura de Goiânia: Encontrado Esqueleto no Armário do MINC
No dia 12 de outubro, Goiânia comemorou além do dia da Santa Padroeira do Brasil, o dia da criança e ainda o aniversário de dois anos da fraude em que consistiu a III Conferência Municipal de Cultura.
Dois anos de embate entre a Prefeitura de Goiânia e entidades representativas do setor cultural poderiam ter sido evitados se a Prefeitura tivesse acatado a decisão judicial, cancelado a conferência marcada para aquela data.
A prefeitura preferiu outro caminho. Pediu e obteve do Presidente do Tribunal de Justiça decisão que tornou sem efeitos a liminar do juiz, para que pudesse participar da Conferência Nacional de Cultura.
Porém para participar da 1ª Conferência Nacional de Cultura era preciso uma Conferência Municipal que fosse considerada válida pelo MINC e delegados eleitos. E não havia uma Conferência valida e menos ainda delegados eleitos para participar da CNC.
Em 28 de outubro de 2005 apoiado no silêncio do MINC , o prefeito nomeou os novos conselheiros de cultura de Goiânia.
Apenas no dia 14 de dezembro, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça manteve, por unanimidade, a decisão do seu presidente que permitira a nomeação e posse do Conselho. O TJ - GO, ainda desconhecia a existência de um esqueleto nos armários do MINC.
Uma semana antes, no dia 07 de dezembro, os novos membros do Conselho Municipal de Cultura já haviam tomado posse e a decisão do Órgão Especial do TJ apenas servia para legalizar o que acontecia de fato, porém não de direito.
No dia 09 de dezembro, O POPULAR publicou uma matéria extensa, em que a Agepel dizia que não concordava com a realização da CNC por isso não organizara a participação do Estado, e a SECULT reafirmava o envio de 33 delegados de Goiânia. Mas que delegados? A conferência começou no dia 13, sem eles.
Em m 24 de janeiro de 2006 , o MINC enviou um e-mail à FETEG (veja aqui), confirmando que a Comissão Organizadora da 1ª CNC invalidara a conferência de Goiânia. Em 8 de junho saiu a sentença definitiva do juiz, confirmando a anulação da III Conferência Municipal, o que tornou sem efeito as decisões do Presidente e do Órgão Especial do Tribunal de Justiça (leia aqui). Até hoje, porém, esta sentença não foi cumprida pela prefeitura, nem confirmada pelo Tribunal de Justiça, a sociedade ganhou mas não levou.
O esqueleto encontrado
Em 24 de outubro de 2007, data comemorativa de 74 anos de fundação da cidade de Goiânia, o blog ENTRETATOS http://entreatos.blogspot.com/2007_10_01_archive.html notícia que havia sido encontrado um esqueleto nos armário do MINC.E relata que depois de intensas buscas foi localizado o documento que declarou invalidada em 2005 a 3ª Conferência Municipal de Cultura de Goiânia.
"Numa visita pessoal ao Minc, foi possível, finalmente, obter uma cópia da Resolução nº 001/2005, de 9/12/05, com 4 páginas, que invalidou a III Conferência Municipal de Cultura.
Segundo o documento (leia aqui), a decisão foi a propósito de e-mail, enviado por Deolinda Taveira, naquele mesmo dia, relatando irregularidades e com cópia da matéria de O Popular daquela data. No dia seguinte, a decisão, foi comunicada à prefeitura de Goiânia (veja aqui)."
Tal documento foi mantido em sigilo e mesmo a remetente, que aparentemente motivou a decisão, até agora não conhecia o teor . E Mais: o MINC não menciona os pedidos feitos anteriormente, nem que naquele dia, não foi só ela quem procurou o ministério - o presidente da FETEG, entidade que conseguira as decisões judiciais anulando a conferência, falou por telefone com vários funcionários e, como não obtivesse sucesso, enviou um e-mail no fim da manhã, com cópia da matéria de O Popular (veja abaixo). A FETEG também não recebeu cópia do documento.
Mas a prefeitura, que recebeu cópia no dia 10 de dezembro, não a divulgou, fazendo com que o Tribunal de Justiça, no dia 14 de dezembro, decidisse a seu favor. O Tribunal de Justiça de Goiás decidiu, desconhecendo por completo a existência da Resolução Nº 001/2005 de 09/12/05, que deliberadamente foi ocultada pela Prefeitura de Goiânia e esquecida no armário do MINC.
Desconhecer esse documento, que propositadamente foi oculto pela Prefeitura de Goiânia com a finalidade de garantir para si o ganho do litígio em pauta, não inocenta o Tribunal de Justiça da acusação de protelar o julgamento final do processo (200602567151 (13881-9/195) até que o mesmo perca o seu objeto. Adormecido na gaveta do DES ZACARIAS NEVES COELHO da 2ª Câmara Civil, a causa da Cultura em Goiânia dorme o sono dos injustiçados e as espertezas locais assumem proporções nunca vistas na história do Estado de Goiás.
Deolinda Taveira
Conservadora Restauradora de Bens Culturais e Esp. Gestão de Patrimônio Cultural Integrado
SOS Parque Lage, por Alessandra Duarte, O Globo
SOS Parque Lage
Matéria de Alessandra Duarte, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 5 de novembro de 2007
Espaço fará mostra e leilão de 40 obras de artistas brasileiros para ajudar em sua revitalização
A partir de hoje, o público poderá conferir obras de arte que devem ser o início da salvação do Parque Lage. Até o próximo domingo, dia 11, o privilegiado espaço no bairro do Jardim Botânico vai abrigar uma exposição gratuita com cerca de 40 trabalhos de alguns dos principais artistas brasileiros; nesta sexta-feira, as obras serão leiloadas, e a renda, utilizada na revitalização do parque. Esta é a primeira ação da nova diretoria da Associação de Amigos do Parque Lage (Ameav), que assumiu no primeiro semestre de 2007, para sanar as finanças do local, hoje com um déficit mensal de cerca de R$20 mil. O leilão beneficente integra ainda um processo maior de recuperação do Parque Lage e de sua Escola de Artes Visuais, que inclui a ida de recursos do Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fecam) para a reforma do espaço, de propriedade do Ibama. A concessão do imóvel federal ao governo estadual, vencida desde maio, também será renovada.
As obras expostas nas instalações do Parque Lage e que serão leiloadas levam a assinatura de um time formado por 37 artistas plásticos contemporâneos, a maioria de reconhecimento internacional, como Tunga, Ernesto Neto (integrante da nova Ameav), Anna Bella Geiger, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Cildo Meireles, Daniel Senise, Nelson Leirner e Raul Mourão. Os lances mínimos devem ser de R$3 mil, com convites a R$500 (nesta sexta-feira, dia do leilão, a exposição não será aberta à visitação pública).
Como meta, a criação de responsabilidade cultural
Para convencer muitos dos artistas a doarem suas obras para o projeto, a Ameav chegou a levar umas duas horas de conversa com cada um. A resistência a participar é explicada pela situação do Parque Lage nos últimos dez anos: um rombo que faz a administração só conseguir pagar metade de seus custos por mês; a conservação inadequada da estrutura física do imóvel; a falta de condições de ensino, como ausência de computadores e de equipamento audiovisual nas salas de aula; e o imbróglio com o Ibama, já que é permanente a necessidade de renovações da concessão ao estado.
- Nos últimos anos, o Parque Lage foi abandonado pelo governo estadual. E sua Associação de Amigos sempre foi voltada para o próprio parque, sem conversa com a sociedade. Quando os artistas ou colecionadores participavam, era apenas como mecenas, para ajudar com dinheiro o parque e a escola a "irem indo" - ressalta Márcio Botner, diretor da galeria Gentil Carioca e um dos integrantes da nova diretoria da Ameav. - O que mais queremos é, além de obter ajuda financeira, fazer com que as pessoas desenvolvam uma responsabilidade cultural.
- É por isso que pensamos nesse leilão como o primeiro de outros - acrescenta o colecionador Fabio Szwarcwald, outro novo diretor da Ameav (que conta ainda com Paulo Vieira, Jaqueline Vojta e Guilherme Gonçalves; o novo diretor da escola é Carlos Martins), citando mais uma ação planejada pela entidade. - Queremos fazer com que artistas se tornem padrinhos das salas de aula da escola do parque: cada sala levaria o nome de um deles, em troca de ajuda financeira. Isso é feito em muitos museus pelo mundo. Nunca foi pensado para cá porque o Parque Lage nunca foi visto como uma empresa cultural, só como algo dos seus professores e alunos, o que é bonito mas não sustenta.
A relação dos professores com o parque também está na mira da nova diretoria. Até hoje, o Parque Lage nunca trabalhou com professores fixos, contratados. Agora, está estudando a possibilidade de manter o antigo vínculo apenas para parte dos professores, fazendo um contrato de trabalho com outros, para dar mais capacidade de planejamento aos seus cursos.
Os novos ares para o parque vêm ainda da Secretaria estadual de Cultura. A secretária Adriana Rattes, que assumiu há dois meses, planeja transformar a Ameav numa organização social, para que ela funcione legalmente dentro do modelo que Adriana pretende implantar nos equipamentos culturais estaduais: fundações e órgãos que se mantêm públicos, mas que passam a ser geridos por organizações sociais ou por grupos privados.
- As instituições estaduais que funcionam como escolas de arte, como a do Parque Lage, estavam espalhadas pela estrutura do governo. A Escola de Teatro Martins Pena, por exemplo, foi parar na Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica)! Queremos incluir as escolas nessa nova gestão da cultura estadual - diz Adriana Rattes, adiantando que no início de 2008 enviará à Assembléia Legislativa projeto de lei que cria a possibilidade de gestão pública compartilhada com organizações sociais e entes privados. - No caso do Parque Lage, vamos também financiar sua reforma com verba do Fecam e tentar com o Ibama uma renovação da concessão por mais 20 anos.
Uma das artistas com obras no leilão, Beatriz Milhazes acompanhou de perto o parque por 27 anos. Ela se diz otimista com a ação no local, mas alerta:
- O Parque Lage precisa encontrar uma solução definitiva para a relação com o Ibama. Enquanto isso não for feito, será como gastar energia e dinheiro numa casa que não é sua.
novembro 5, 2007
Centro de Arte Hélio Oiticica em questão, O Globo
Hélio Oiticica
Resposta de César Oiticica à matéria de Luiz Camillo Osorio, originalmente publicada na seção Cartas, do Segundo Caderno do Jornal O Globo, do dia 3 de novembro de 2007
Hélio Oiticica
Em relação à crítica de Luiz Camillo Osorio publicada no Segundo Caderno de 28/10/2007, cabem alguns esclarecimentos;
1) O Centro de Arte Hélio Oiticica (CAHO) não foi construído para abrigar a coleção de Hélio Oiticica. O prédio foi restaurado pela prefeitura, que, em 1996, depois de pronto e após outras tentativas de utilização, resolveu fundar o Centro de Arte Hélio Oiticica, no qual foi previsto um espaço para abrigar o Projeto Hélio Oiticica e o acervo de obras e documentos que são propriedade privada de César e Cláudio Oiticica.
2) Nunca foi obrigação da prefeitura restaurar, preservar, pesquisar, expor ou divulgar a obra e os documentos do artista. Essas são as finalidades do Projeto Hélio Oiticica, tal como formuladas em seu estatuto, feito em 1981, pelos irmãos do artista e que é do conhecimento de todos. O Projeto Hélio Oiticica é uma associação sem fins lucrativos, privada, que tem seu regulamento próprio e cujo compromisso é somente com a obra do artista. Seu desempenho tem sido inigualável nesses quase 26 anos de trabalho, como atestam suas inúmeras realizações.
3) Não é finalidade da prefeitura nem do CAHO manter a coleção em mãos de quem quer que seja. Aliás, de quem serão as "nossas mãos" a que o Sr. Luiz Camillo se refere?
4) O "museu americano", citado pelo articulista, é o Museum of Fine Arts, de Houston, que restaurou as obras, as expôs em Houston e na Tate Modern, em Londres. A exposição na Tate constituiu um momento único para a cultura brasileira com o reconhecimento explícito de Hélio como um dos maiores artistas do século XX em todo o mundo. O Projeto Hélio Oiticica é o único responsável pela política de exposições de Hélio Oiticica. E sua obra continuará a ser exposta no exterior.
Quais serão os reais interesses do Sr. Luiz Camillo? Substituir o artista que dá nome ao CAHO por um artista mais do seu agrado? Faz sentido: coincide com a última estratégia de uma parte da crítica de arte no Brasil, que é dizer que Hélio Oiticica e Lygia Clark estão superexpostos, que há uma mistificação de curadores internacionais sobre a importância da obra de Hélio. Impedir que a obra de Hélio Oiticica seja exibida em outros países ou até em outras cidades?
César Oiticica, diretor do Projeto Hélio Oiticica
José Oiticica Filho: Centro Hélio Oiticica exibe uma das produções mais importantes da história da fotografia brasileira
Matéria de Luiz Camillo Osório, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 28 de outubro de 2007
A exposição de fotografias de José Oiticica Filho, no Centro de Arte Hélio Oiticica, é maravilhosa, porém lastimável. Explico-me: a produção do pai de Helio Oiticica é das mais importantes da história da fotografia brasileira, merecendo, há tempo, uma retrospectiva como esta. Todavia, daí a nota negativa, está sendo visitada por um público inexpressivo, no espaço quase abandonado que deveria abrigar a coleção do seu filho.
É inexplicável o que se passa no CAHO. Deveria ser dos pontos culturais mais prestigiados da cidade, construído para abrigar a obra do artista brasileiro mais respeitado internacionalmente - que acaba de ter uma retrospectiva no museu de Houston e na Tate Modern de Londres. Por que a obra de HO não "mora" no centro que tem o seu nome e que foi feito com dinheiro público para ter tal finalidade? Não há contrato obrigando as partes - a prefeitura e o projeto HO - a um conjunto de obrigações no sentido de restaurar, preservar, pesquisar, expor e divulgar a obra - e os documentos - do artista? Se algo não foi cumprido, isto deveria ter sido explicado e negociado de modo a se resgatar o compromisso com este acervo.
Nossas políticas culturais estão sempre correndo atrás do prejuízo. A prefeitura do Rio, por exemplo, propôs criar uma filial do Guggenheim aqui na cidade. Independentemente do mérito da proposta, como defendê-la se não se consegue manter uma coleção que já esteve em nossas mãos e que tem muito mais a ver com o Rio do que o museu americano? Restam explicações: da prefeitura, em relação ao que pretende fazer com o CAHO e do projeto HO se tem vontade de manter algum vínculo com esta cidade que está tão entranhada na poética do artista. Sem negociação possível, isto seria uma pena, desfaz-se o contrato e procura-se uma nova identidade para aquele espaço. O que não pode é ficarmos nesta enganação de que se tem na cidade um Centro de Arte Hélio Oiticica. A memória do artista e a população carioca não merecem isso.
Voltemos a José Oiticica Filho, que não tem nada a ver com a história. O rigor do entomólogo, reconhecido na comunidade científica pelas pesquisas com borboletas, deslocou-se da análise de insetos para a construção da imagem fotográfica. Para além do registro de uma cena ou de algum objeto, sobressai nas fotografias de José Oiticica uma incansável pesquisa de laboratório, buscando encontrar texturas e luzes singulares. As microfotografias da década de 40 revelam que a atenção científica e o encantamento artístico combinavam-se. Saindo da documentação de microorganismos, temos na mesma década fotos memoráveis como "Luz dançante" de 1942, "Na praia" de 1948, "Triângulos semelhantes" de 1949 e "Um que passa" também de 1949, que mostram toda a sua sensibilidade no manuseio da luz.
Na década de 1950, sua fotografia embarca na abstração, em perfeita sintonia com os encaminhamentos do concretismo que corria em paralelo - que ele certamente acompanhava de perto através de seus filhos César e Hélio. A série Derivação de 1958, por exemplo, é muito próxima dos "meta-esquemas". O trabalho de textura, que singulariza sua poética, surge na série Ouropretense de 1956 e nos magníficos reflexos em vidro das fotografias abstratas intituladas Formas também de meados da década de 50.
Se as Derivações partiam de uma cena fotografada e desconstruída pela combinação de positivos e negativos, a série seguinte, "Recriações", parte de algo criado pelo próprio artista e retrabalhado no laboratório. Este é o momento mais original de sua obra, em diálogo aberto com o melhor da fotografia abstrata internacional. Acompanhando de perto a urgência expressiva do começo da década de 1960, suas Recriações vão fugir da geometria e ganhar um aspecto informal, seja com uma grafia solta e automática, seja partindo de grossas pinceladas brancas.
Completa a exposição algumas tentativas de José Oiticica com a pintura, também deste começo dos anos 60. O uso da madeira como suporte enfatiza as pinceladas de cor. Entretanto, não é como pintor que sua obra se afirma. A fotografia é o seu instrumento poético, o meio pelo qual ele contribuiu definitivamente para a história da arte brasileira. Não fosse a indigência do CAHO, esta era a ocasião perfeita para se fazer uma publicação decente e à altura desta obra. Apesar das nossas dificuldades institucionais, o público não deve perder esta exposição.
