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Como atiçar a brasa

 


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outubro 31, 2011

Sobre como domesticar o imprevisível por Felipe Scovino, Diario do Nordeste

Sobre como domesticar o imprevisível

Artigo de Felipe Scovino originalmente publicado no Caderno 3 do em 30 de outubro de 2011.

Crítico de arte reflete sobre a pintura contemporânea através do trabalho "Projeto para uma pintura com temporal #4", do artista visual Thiago Rocha Pitta

Experimentação e invenção soam cada vez mais como qualidades amplamente visíveis no campo da produção das artes visuais. Tornou-se fácil atualmente, aos olhares de certos críticos e curadores, a expansão de obras que abordam essas categorias. Quase um lugar comum ao se elogiar uma exposição contemporânea, invenção e experimentação parecem terem perdido a sua qualidade de serem raras (não que elas quisessem), frutos de uma intensa pesquisa que de certa forma qualificaria e apontaria uma inovação ao trabalho daquele artista.

Por outro lado, a cada vez que ouço que a pintura morreu, pergunto pelo cadáver. Nenhum desses delatores conhece o túmulo, mas são uníssonos em afirmar que a bidimensionalidade não mais o surpreendem. Talvez uma indicação para o surgimento (e logo excesso) de exposições, feiras e bienais com cara de parque de diversão. Há algo de previsível no reino da arte.

O recente trabalho de Thiago Rocha Pitta para as Cavalariças do Parque Lage comprova que uma ideia de previsibilidade também se depara com desvios inesperados. Projeto para uma pintura com temporal #4 é uma pintura que se coloca como expansão da própria ideia que se faz dela. Convertendo-se em uma instalação ambiental "com dados atmosféricos do lugar", como salienta o artista, a obra altera permanentemente a imagem que se faz dela: parte da ideia de um relevo topográfico que, produzido com limalha de ferro em um tecido de dimensões monumentais, sofre lentamente uma erosão pela excessiva umidade do local. Aqui a experimentação se coloca como minimalidade (e não confundir com minimal art). Portanto, com uma economia de gestos e métodos, o artista ativa uma potência que assim como a vida é vítima do tempo. Não percebemos mudanças, a não ser pelo contato prolongado e íntimo com aquele corpo-obra. Estar diante dele, apreender suas transitoriedades, é tê-lo como ser vivente. Fazer gravitar a instauração desse mundo sensível é estarmos abertos à nossa condição como habitantes do mundo. Parafraseando Merleau-Ponty, ser-no-mundo significa habitar o mundo, o que, originariamente falando, significa "estar condenado ao sentido, vivendo o mundo como já feito, antes de qualquer tematização, antes que qualquer pensamento sobre ele nos seja dado." Pitta nos alerta que o mundo não é o que eu penso, é o que eu vivo e ao viver é a experiência que me permite um saber primordial do real. Há a suspensão de uma qualidade de tempo para que o mundo se faça e seja percebido naquele tecido. Nessa experiência de tempo-duração, o cronológico fica em suspenso. As modificações no tecido - suas marcas, texturas e manchas - tecem a passagem de um corpo vidente e visível, meio geral de possuir um mundo. Essa temporalidade visível em marcas encontra ressonâncias no campo das artes visuais brasileiras nas obras de Amilcar de Castro, nas monotipias de Carlos Vergara e nas "pinturas" oxidadas sobre lona de José Bechara, entretanto Pitta funda o seu lugar da diferença: apesar de não haver o contínuo e marcante embate entre tela e pintor, essa obra nunca deixou de ser pensada como pintura. A sobreposição de volumes, a cor, a textura e o gesto da pincelada estão presentes, mas agora sendo decifrados por meio de camadas sobrepostas de oxidação, tons variáveis de ferro "corroendo o tecido" e numa estrutura que cada vez mais quer deixar de ser tela (o que é irredutível) para tornar-se pele.

Pitta constrói um tipo de discurso que escapa às armadilhas da pura reflexão, combinando estratégias variadas de ação que permitem passagens e conexões entre os campos da produção e da percepção. Em Projeto para uma pintura com temporal #4, o objeto não existe simplesmente no momento em que o artista o fabrica. Ele passa a existir a partir daquele momento e sempre se tornando diferente. Quer dizer, ele continua a ser objeto mesmo depois de feito. E isto marca um desvio nos estados de criação da história da pintura: a temporalidade registra agora mudanças (físicas e fenomenológicas) em um objeto que estabelece um compromisso íntimo e indelével com a diferença. Como configuração de estímulos dotada de uma substancial indeterminação, essa pintura habita a instância de um corpo, e como tal é reversível, ambíguo e em constante manifestação. Não satisfeito com a sua condição de ser objeto, essa pintura de Pitta é desejosa do imprevisível. É dominante entre as pinturas do artista uma busca em "aceitar o caos." Não há qualquer controle por parte do artista em determinar o espaço que aquela operação pictórica ocupará assim como a forma e o tamanho que passarão a existir. Pitta nos lembra que a arte habita esse território do desconhecido e a "função" do artista seria avançar em direção ao desconhecido mais fértil e melhorar cada vez mais a qualidade desse estado. O imprevisível se conecta com uma condição de tempo onde a criação artística é sinônimo dos verbos (de ação) operar e transformar, "sob a única reserva de um controle experimental onde só intervêm fenômenos altamente ´trabalhados´, e que os nossos aparelhos produzem, em vez de registrá-los."

Pitta cria um espaço que deixou de ser lugar de representação para se tornar ambiente de ação. Portanto, essa vontade de subverter se confunde muito com uma vontade de ficar indiferente aos movimentos do mundo. Nesse anseio, o artista inaugura uma família de ideias novas. Não é mais uma ideia que se acrescenta à quantidade de ideias no mundo; mas uma ideia que duvida de todas as outras ideias. Estamos diante de uma produção que possui uma espécie de elasticidade que a impulsiona no sentido da produção de novas formas, há uma compulsão à proliferação: a narrativa de suas obras não se esgota, se desdobra. Em seu processo artesanal de construir o espaço, o ferro articula e nos revela camadas sucessivas de tempo. Entre sutilezas e suavidades (por conta da oxidação do ferro), estamos diante de um território cambiante, mas essencialmente de um corpo que demonstra sua fragilidade e maturidade ao "envelhecer" e numa relação fenomenológica, por meio dessas rugas e deformidades, tornar visível o tempo.

A permanente construção daquelas ilhas de oxidação sob o tecido nos revela os campos de vazio que percorrem essa obra. O vazio se impõe como ativo; definitivamente, ele não é, como se poderia supor, algo inexistente, mas um elemento dinâmico e atuante. A forma como o vazio está inserido no sistema de reversibilidade e descontinuidade dessa obra, permite às unidades que o compõem, ultrapassar a oposição rígida e o desenvolvimento em sentido único e oferecer ao mesmo tempo a possibilidade de uma aproximação totalizadora com aquelas "ilhas" que compõem a obra.

Percorrendo esse campo da investigação, a obra de Pitta sempre se manifesta como uma pintura de paisagem, independente do suporte com o qual trabalha ou do sentido de invenção que constrói. Uma paisagem que se modifica ao mesmo tempo em que essa pintura se questiona se ela continua sendo pintura ou amplia a sua pesquisa para outros campos de produção poética. Crítico de arte, curador e pesquisador.

FELIPE SCOVINO
ESPECIAL PARA O CADERNO 3
Pesquisador. Parte do texto publicado, inicialmente, para a exposição do artista Thiago Rocha Pitta, nas Cavalariças do Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 2010

Posted by Marília Sales at 6:55 PM

Questões da pintura por Ana Cecília Soares, Diario do Nordeste

Questões da pintura

Entrevista de Ana Cecília Soares originalmente publicada no Caderno 3 do em 30 de outubro de 2011.

Curadora Daniela Labra discorre sobre as questões da pintura contemporânea. Ela acredita que, hoje, há espaço para as mais diferentes vertentes da pintura. A produção pictórica deve acompanhar o leque de possibilidades que a arte contemporânea oferece, sejam elas formais ou temáticas

Gostaria que você falasse sobre esses "altos e baixos" da produção pictórica.

A "Morte da Pintura" é um termo que tem a ver com a decretação do possível esgotamento dessa prática frente às experimentações formais e conceituais possibilitadas por diversas mudanças do entendimento acerca da arte, que são propostas por artistas e pensadores no início do século XX. Desde então a pintura, até hoje compreendida como obra de arte ´a priori´ (quando vemos uma pintura, sabemos que "é" uma obra de arte, independente de suas qualidade plásticas, estéticas), tem sido tratada com amor e ódio por artistas que insistiram na pesquisa pictórica, e por outros que simplesmente chutaram a velha prática consagrada desde o renascimento como plataforma nobre para a representação de cenas mitológicas, bíblicas, épicas, políticas, aristocráticas, entre outras. Se examinarmos rapidamente os períodos da arte nos últimos 100 anos, iremos constatar que os "altos e baixos" da pintura também estiveram de acordo com oscilações do sistema da arte moderno, o qual vai se complexificando ao longo do século XX. Podemos associar a dita morte da pintura a momentos em que o experimentalismo com outros suportes e as discussões acerca da representação na arte estiveram mais prementes.

Qual o lugar da pintura na arte contemporânea?

De certo modo, acho que estamos vivendo esse momento de retomada da produção pictórica após muitas experimentações formais e temáticas nos anos 90 (que veio após o boom da pintura pop e pós-expressionista dos anos 1980). O mercado de arte e a arte compreendida como "commoditie" é algo que está muito forte atualmente, e me parece que a pintura nesse contexto, sendo ela uma forma de arte mais convencional, ganha destaque nas galerias. Por outro lado, é interessante como artistas contemporâneos traduzem sua visão de mundo nesse suporte tão clássico. Ao mesmo tempo, a pintura se apresenta como mero suporte de transposição de imagens, de grafismos sobre tela, que nada tem a ver com uma discussão sobre a própria pintura, posto que o formato é "vendável". E o mercado está cheio disso, especialmente quando se trata de algo aparentemente despretensioso de conceito, como é o caso da produção de ´street art´ em geral, que sai da rua e vai para uma tela com chassi do mesmo modo que iria parar numa camiseta. É claro que há artistas excelentes que saíram das ruas, mas o trabalho deles se torna realmente interessante, como pintura, quando se dão conta que estão fazendo pintura - com toda a carga histórica desse suporte - e não apenas grafismos sobre tela.

A pintura contemporânea surge como contraponto em relação à arte moderna ou como resíduo de uma continuidade?

A pintura contemporânea, como prática artística, tende a ser colocada no mesmo patamar da videoarte, da fotografia, dos objetos, entre outros. Não do ponto de vista formal, claro, mas do ponto de vista de que não há mais uma hierarquização de práticas, de acordo com a crítica. Já para o mercado, a pintura e a escultura únicas e originais, sempre serão mais valiosas do que um desenho em papel ou uma fotografia com tiragem limitada.

Será que a pintura contemporânea esta fincada no presente sem ter projetos futuros?

O futuro da pintura vai depender da trajetória de cada artista como individuo. Não há uma "verdadeira" pintura nem um "movimento pictórico" contemporâneo. É o artista que deve cuidar de sua trajetória, independente de sua pesquisa artística, e disso vai depender o futuro de sua obra. Se ela perdurará ou não.

Em 2009, você desenvolveu a curadoria da exposição "Investigações Pictóricas". Como foi essa experiência? De que forma você desenvolveu o diálogo com as obras expostas?

Desde 2003, desenvolvo projetos relacionados a formatos menos convencionais como intervenções urbanas, performances e obras interdisciplinares, e discutir pintura numa exposição foi a possibilidade de pesquisar um pouco mais o assunto. A exposição ocorreu no MAC de Niterói, sob a direção de Guilherme Bueno, e reuniu sete artistas. O foco estava na diversidade temática e formal das obras, e pretendeu um recorte despretensioso da produção atual e das pesquisas possíveis. Assim, tínhamos obras quase escultóricas, em suportes tridimensionais, e também grandes pinturas que se aproximavam mais de uma noção clássica de pintura figurativa.

Posted by Marília Sales at 6:42 PM

Artista de São Paulo mostra no Recife desenhos que se confundem com esculturas, Diário de Pernambuco

Artista de São Paulo mostra no Recife desenhos que se confundem com esculturas

Matéria da Equipe do diarioriodepernambuco.com.br originalmente publicada no caderno Viver s do Diario de Pernambuco em 30 de outubro de 2011.

O crítico de arte Lorenzo Mammi escreveu certa vez que os desenhos do artista plástico paulistano Claudio Cretti são esculturas e, por outro lado, as esculturas são desenhos. É isso mesmo que vai perceber quem for à exposição Coisa livre da coisa, em cartaz até 26 de novembro na Galeria Mariana Moura (Rua Professor José Brandão, 163, Boa Viagem).

O título da mostra é uma referência ao poema Origem, do livro de 1962, Lição de coisas, de Carlos Drummond de Andrade. “Desde 1997 trabalho com esculturas, embora os desenhos sempre estejam presentes. As obras têm relação, por exemplo, com a arquitetura, com o fato de eu morar em São Paulo, uma cidade que está sendo construída e descontruída a todo tempo”.

A exposição pode ser visitada, com entrada grátis, de segunda a sexta, das 10h às 19h. Aos sábados, a galeria abre das 10h às 14h.

Posted by Marília Sales at 12:45 PM

Verdades e desmemórias por Paula Alzugaray, Istoé

Verdades e desmemórias

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 28 de outubro de 2011.

Yuri Firmeza - Este lado para cima / Casa Triângulo, SP/ até 12/11

Em janeiro de 2006, o Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza anunciou a exposição de um influente artista japonês chamado Souzousareta Geijutsuka. A imprensa local comprou a ideia e veiculou diversas resenhas produzidas a partir do press-release e também entrevistas realizadas por e-mail com esse artista versado em robótica e arte eletrônica, que citava Duchamp como sua maior influência. Acontece que, no dia da abertura, nada havia no MAC do Centro Dragão do Mar. Um dia depois, descobriu-se que Souzousareta Geijutsuka era uma ficção, criada pelo artista cearense Yuri Firmeza, dentro do projeto Artista Invasor. O caso repercutiu como nenhuma exposição de arte contemporânea jamais repercutira. Tachada de “molecagem”, “provocação infeliz”, ou “um estranho conceito de criatividade”, o fato é que a obra teve o indiscutível mérito de desvendar os padrões que regem as escolhas da imprensa cultural, e, acima de tudo, escancarar sua negligência.

Esse enfant terrible da arte cearense faz agora sua primeira individual em uma galeria paulistana. Desta vez, sem sustos nem surpresas e repleta de objetos no espaço expositivo. A mostra gira em torno do conceito da fragilidade como potência política e como condição criativa, reunindo trabalhos inéditos e realizados nos últimos cinco anos. Entre eles chama especial atenção a videoinstalação “Vida da Minha Vida” (foto), de 2011, em que Firmeza trabalha com um tema bastante reincidente na produção artística contemporânea: a memória. Sua estratégia, no entanto, é particularmente instigante por ter escolhido abordar a perda da memória por uma paciente de Alzheimer. Em três telas, o artista projeta seu ensaio poético sobre essa experiência temporal sensorial e imprecisa, conferindo-lhe uma qualidade criativa.

Posted by Marília Sales at 12:26 PM | Comentários (1)

Política em duas dimensões por Nina Gazire, Istoé

Política em duas dimensões

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 28 de outubro de 2011.

Retrospectiva de Maria Bonomi reúne 250 trabalhos e resgata as dimensões pública e política de sua obra

Em 1938, o líder comunista Leon Trotski, o surrealista André Breton e o artista Diego Rivera se reuniram para debater o papel da arte em um mundo pré-guerras. O resultado foi o manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente, que pregava a importância dos grandes murais – arte na qual Rivera é mestre – como um instrumento de tomada de consciência. Naquele período ainda não se falava em arte pública ou arte de rua como as concebemos hoje. A ideia estava mais ligada aos efeitos pedagógicos provocados pelo impacto da monumentalidade. Na exposição “Maria Bonomi em Brasília – da Gravura à Arte Pública”, retrospectiva que abarca 60 anos da produção dessa importante artista nascida na Itália e radicada em São Paulo, é possível perceber essa concepção política e revolucionária da arte pública.

Para Maria Bonomi, o que vale na arte é seu efeito político: seja ele produzido pelo mural, seja pela gravura em pequena dimensão, seu formato mais praticado. “É possível transformar uma gravura pequena da Maria em um tamanho grandioso, e o trabalho, ainda sim, resiste à mudança de escala. Você tem um objeto denso e admirável”, diz o historiador Jorge Coli, curador da mostra. A retrospectiva é organizada em três núcleos conceituais: os anos de formação, a arte política e o universo feminino. Em qualquer um deles, percebe-se que Maria Bonomi possui uma constância formal e conceitual em sua produção como poucos artistas em longa atividade.

No primeiro segmento, estão expostas as obras de caráter monumental, além das matrizes que geraram trabalhos em grande formato. Há também uma projeção de imagens de suas obras públicas, como o painel “Etnias”, que integra o Memorial da América Latina, em São Paulo. Entre os trabalhos que a artista assumidamente dedicou à questão feminina, convivem elogios e críticas. Em 1969, ela produziu “Homenagem a Nara Leão” e, hoje, ela aborda o mundo das celebridades na série em bronze “Paris Rilton”. Já na terceira e última sala, a Sala Política, se concentram gravuras produzidas durante os anos de chumbo.

Para além da retrospectiva, a mostra também apresenta o trabalho mais recente da artista plástica, a xilogravura “A Ponte”, na qual ela tece um comentário sobre a transitoriedade da vida, além de uma nova série de 20 esculturas inéditas em metal. “A ideia é mostrar que esses objetos, que foram e continuam sendo criados a partir da gravura, formam uma obra inacabada”, diz Coli, enfatizando que, aos 76 anos, Maria Bonomi está em pleno processo, produzindo uma obra que está longe de se esgotar.

Posted by Marília Sales at 11:43 AM

A Gentil Carioca Lá exibe a partir de hoje dez vídeos na parede de um edifício vizinho por Audrey Furlaneto, O Globo

A Gentil Carioca Lá exibe a partir de hoje dez vídeos na parede de um edifício vizinho

Matéria de Audrey Furlaneto originalmente publicada no segundo caderno do O Globo em 28 de outubro de 2011.

Crianças brigam na chuva, e Cao Guimarães as observa de dentro de casa. O artista e sua visão em Super 8 ganham, agora, outra janela, bem maior do que a primeira: “Da janela do meu quarto” será projetado na parede externa de um prédio na Lagoa, como parte da mostra “Curta Gentil”, da galeria A Gentil Carioca Lá. Em parceria com o Curta Cinema, importantes exemplares da videoarte nacional serão exibidos, de hoje a 6 de novembro (dia do filme de Cao), sempre a partir das 20h30m, no edifício vizinho à filial da galeria, entre as ruas Joana Angélica e Vinicius de Moraes.

Dez curtas compõem a programação e poderão ser vistos de diversos pontos da Avenida Epitácio Pessoa (a parede tem 12 metros). Na lista há nomes conhecidos da arte, como o próprio Cao, Marcos Chaves, Matheus Rocha Pitta e Marcellvs L., e do cinema, como Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. A abertura, hoje, será com “Cópia/Colares”, de Marcos Chaves.

— Temos a ideia de ocupação pública da arte. Penso a arte como uma bomba de cultura, seu alcance se dá a partir da vizinhança — diz Márcio Botner, da Gentil Carioca, que inaugurou o “braço” na Lagoa em agosto.

As projeções remetem ao projeto Parede Gentil, que usa como base uma parede de dez metros de comprimento na sede da galeria, no Centro. Em seis anos, o espaço foi tela para 15 trabalhos. Agora, além das projeções, a mostra “Curta Gentil” exibirá, dentro da galeria da Lagoa, obras de sete artistas de seu acervo. A programação inclui palestras sobre arte e cinema, nos dias 1º e 2 de novembro.

Posted by Marília Sales at 11:01 AM

outubro 25, 2011

A viagem como bandeira por Paula Alzugaray, Istoé

A viagem como bandeira

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 14 de outubro de 2011.

O 32º Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP, elege a estética da viagem como moeda comum da produção contemporânea

Itinerários, itinerâncias – Panorama da Arte Brasileira 2011/ Museu de Arte Moderna de São Paulo, SP/ até 18/12

Nos últimos dez anos, vivemos uma grande aceleração do tempo por conta das novas mídias e da globalização. O Brasil cresceu economicamente, a classe C ganhou lugar ao sol, os aeroportos estão um caos e as filas de táxi não param de crescer. Com essa introdução espirituosa, o curador Cauê Alves argumenta sobre as razões que o levaram, em parceria com a curadora Cristiana Tejo, a eleger o tema das viagens e deslocamentos para guiar as escolhas do Panorama da Arte Brasileira 2011. “Para além desse pano de fundo, o que nos interessa mesmo é o nosso circuito de arte, que amadureceu com leis de incentivo, editais, prêmios, residências, feiras, formando redes”, completa ele. A constatação dessa nova paisagem institucional levou os curadores a orientar a escolha dos 40 artistas em exposição no MAM a partir daqueles que integram coletivos e redes de trabalho ou que acabaram de viver a experiência de produzir as suas obras durante uma viagem ou residência artística.

Integram a mostra coletivos de artistas que trabalham juntos há cerca de dez anos, como o GIA (Grupo de Interferência Ambiental) ou o Ateliê Aberto, que apresenta a obra “Imagens Transportadas” – fotografias adesivadas em caminhões que estão em circulação pelo Brasil afora –, concebido para ser visto em movimento. Sendo o tema da mobilidade tão vasto quanto onipresente na cultura contemporânea, é natural que essa seja uma exposição repleta de mapas, relatos e roteiros – que, por mais intensos que tenham sido para o viajante, nem sempre compensam ser revividos pelo espectador. Mas, entre eles, há gratas exceções como a viagem de Pablo Lobato, que fez uma rota de igrejas abandonadas do interior de Minas Gerais, acompanhado do percussionista Djalma Correa, em um périplo que resultou numa composição musical para sinos, em forma de videoinstalação em três telas. Entre as descobertas da viagem a identificação de células rítmicas africanas nos toques religiosos.

“Partimos de três perguntas: quando a itinerância da arte resulta em redes? Quando ela resulta em sobras, relatos, vestígios? E quando resulta em fatos estéticos?”, continua o curador Cauê Alves. Esta última pergunta talvez seja a que tenha rendido os melhores frutos à exposição, já que implicou em obras que avançam alguns passos em relação ao clássico “caderno de notas” – já tão explorado pela arte contemporânea. É quando o artista se pretende mais inventor do que observador do mundo. Esse é sem dúvida o caso da escultura de Wagner Malta Tavares, feita com cadeira e vela de barco. “Nave” (2009-11) é um objeto contraditório, que articula iconografias relacionadas ao movimento ou à impossibilidade dele. A cadeira, que não sai do lugar, serve de suporte para uma imponente vela prateada que mais parece um estandarte ou um emblema de uma viagem impossível.

Também trabalhando com a estética dos vestígios, Rodrigo Matheus cria, com os restos da montagem do Panorama, um roteiro de canteiros de obras, em trajeto que culmina em um obelisco iluminado, na porta de saída do MAM. Esse é um grand finale (arrematado pela trilha sonora do duo Chiara Banfi e Kassin, lá fora, sob a marquise do Ibirapuera), que vem oportunamente chamar a atenção para a institucionalização da viagem, na forma do monumento turístico.

Não é incomum que as grandes exposições de arte optem pela estratégia de munir o público com perguntas, sem arriscar respostas. Esse é o caso de ‘Itinerários, Itinerâncias”, que supre o público com três boas perguntas e, assim, redime-se da “pretensão” de definir o que é a arte brasileira hoje. A tarefa cabe ao espectador atento, se fizer direito a lição de casa.

Posted by Marília Sales at 12:50 PM

ARTE, S.O.S. por Silas Martí, Folha de S. Paulo

ARTE, S.O.S

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 25 de outubro de 2011.

Arqueólogos com treinamento militar e agentes de restauro vão a zonas de guerra pelo mundo para proteger obras de arte em risco

Dias antes de deflagrarem os primeiros ataques aéreos à Líbia em março, na guerra que levou à morte o ditador Muammar Gaddafi na semana passada, tropas da Otan receberam um relatório com coordenadas dos sítios arqueológicos do país para evitar que fossem bombardeados.

Quando o conflito avançou e rebeldes tomaram Trípoli, dois agentes militares com especialização em arqueologia foram à Líbia para ver de perto os estragos da guerra.

Agora, com o leste do país sob controle das forças aliadas, uma nova missão, com restauradores e outros especialistas, está sendo planejada, para ver o que ficou de fora das primeiras inspeções.

Cada vez que uma guerra ou desastre natural ameaça o patrimônio histórico e artístico de um país, agentes do Escudo Azul, órgão internacional que tem o mesmo peso que a Cruz Vermelha nas Nações Unidas, entram em ação em missões desse tipo.

"Este foi um momento intenso para nós, com a Primavera Árabe, o tsunami no Japão e as ações de rescaldo do terremoto no Haiti", afirmou France Desmarais, diretora do International Council of Museums (Icom), que representa museus de 140 países, numa entrevista em Brasília.

Ela é uma canadense fluente em árabe, que, de Paris, coordena as ações do Escudo Azul e do conselho global de museus. Desmarais esteve em Brasília na semana passada num seminário sobre prevenção de risco a obras de arte.

"Quando algo acontece, fazemos uma advertência oficial e uma lista de obras em perigo", diz Desmarais. "Uma das listas já evitou que 1.500 peças históricas fossem traficadas do Afeganistão para Londres, todas apreendidas no aeroporto de Heathrow."

Em tempos de guerra, esse é o segundo destino mais comum de obras de arte. Ou são destruídas no conflito ou acabam surrupiadas para engrossar coleções ilegais -o tráfico de obras movimenta, segundo Desmarais, cerca de R$ 10,6 bilhões a cada ano.

E agentes trabalham nas duas frentes. Foi o Escudo Azul que repassou as coordenadas de sítios históricos aos militares na Líbia, enquanto o Icom, associado a esse órgão, elabora listas de peças em risco e repassa a informação a agentes da Interpol.

No levante contra o ditador Hosni Mubarak, no Egito, houve saques ao Museu Egípcio e sítios arqueológicos também estavam ameaçados.

"Houve um grande tumulto e danos graves aos museus", conta Thomas Schuler, cérebro das missões à Líbia e ao Egito e responsável pelo recrutamento dos agentes do Escudo Azul.

"Nem a Interpol sabia o que estava havendo. Precisávamos entrar como observadores e ver se boatos de destruição eram verdadeiros."

DESASTRES NATURAIS
Em casos de desastres naturais, como o terremoto que arrasou o Haiti no ano passado, grupos como o Escudo Azul ou o Instituto Brasileiro de Museus, órgão do Ministério da Cultura, também coordenam ações de resgate.

Na presidência rotativa do Ibermuseus, conselho dos museus ibero-americanos, o Brasil está envolvido na reconstrução de um museu de arte naïf em Porto Príncipe.

Nos primeiros dias depois da catástrofe, homens do Escudo Azul foram à ilha avaliar os danos, convocando arquitetos de todo o Caribe numa equipe de 80 pessoas.

"Havia enormes rachaduras nas paredes e não pudemos entrar em muitos museus", lembra Schuler. "Tivemos de trazer mais especialistas para resgatar objetos."

Posted by Marília Sales at 11:39 AM

outubro 24, 2011

Europalia dá visibilidade ao Brasil, mas sofre com desorganização e interferências do governo por Suzana Velasco, O Globo

Europalia dá visibilidade ao Brasil, mas sofre com desorganização e interferências do governo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada na seção de Cultura do jornal O Globo em 23 de outubro de 2011.

RIO - O designer Tulio Mariante levou um susto na última quarta-feira, quando, ao abrir o convite para a exposição "Design Brazil", da qual é curador no festival Europalia, na Bélgica, deu de cara com uma cristaleira do designer paulista Maurício Arruda, com quem nunca falou. No dia seguinte, descobriu que uma escultura de Hugo França embarcaria à sua revelia e que uma das obras selecionadas por ele, do designer Pedro Braga Leitão, ficaria de fora. Era apenas um capítulo de um conflito entre o Ministério da Cultura (MinC) - organizador do evento dedicado ao Brasil e aberto no último dia 4 - e curadores das exposições, como Alfredo Brito, Lorenzo Mammi, Guy Bueno, Guy Veloso, Sonia Salcedo e Flora Sussekind, selecionados por Adriano de Aquino, curador-geral do festival. Alguns deles agora se organizam para entrar com uma ação judicial em conjunto contra o MinC, para receberem os R$ 50 mil combinados com Aquino sem contrato. No mês passado, eles foram informados por e-mail de que o cachê seria menor.

Há dois dias fui procurado por três curadores que, assim como eu, estão dispostos a ir à Justiça para receber os R$ 50 mil que nos foram prometidos - afirma Guy Veloso, fotógrafo, advogado e curador da mostra de fotografia "Extremes". - Só me informaram que eu receberia R$ 30 mil quando a exposição já estava no avião.

Curadoria em xeque

Aquino diz que o valor de R$ 50 mil estava na perspectiva de gastos aprovada pelo comissariado da Europalia no Brasil e que serviu de base para a captação de financiamento via Lei Roaunet. Mas, em setembro, sem a sua participação, o governo criou uma tabela baseada no teto estipulado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), dividindo os curadores em três níveis. Os que montaram as exposições grandes receberão os R$ 50 mil; os responsáveis por mostras de médio porte ganharão R$ 30 mil; e os de mostras pequenas, R$ 15 mil.

O cachê dos curadores é parte do orçamento de R$ 30 milhões - R$ 21 milhões dos ministérios da Cultura e das Relações Exteriores e R$ 9 milhões via Lei Rouanet. Mas, como esses recursos foram liberados menos de um mês antes do início da Europalia, os gastos, a produção e a comunicação entre curadores, governo e produtoras foram afetados. Até 15 de janeiro de 2012, o evento reunirá 18 exposições, como "Art in Brazil (1950-2011)", que reúne obras de Hélio Oiticica a Henrique Oliveira, além de 45 grupos musicais, 40 apresentações de teatro e 57 de dança, mais 90 palestras e conferências, que o MinC espera que atraiam dois milhões de pessoas. Como as exposições - que reúnem arte moderna e contemporânea, entre pinturas, esculturas, fotografias, projetos de design e arquitetura e peças indígenas - foram as primeiras atrações do festival, as artes visuais foram as mais prejudicadas pela correria.

Se por um lado a Bélgica está vendo uma programação de qualidade, com curadores e artistas de renome, chamam atenção as falhas nos aspectos mais básicos. Além da mudança no pagamento estipulada pelo MinC, houve problemas de embalagens no tamanho errado, de falta de passagens e hospedagens para artistas e de troca de obras, no caso da exposição com curadoria de Tulio Mariante. O diplomata Marcelo Dantas, que ocupa o posto de diretor-executivo da Europalia no Brasil, assume-se como o responsável pelas alterações na mostra "Design Brazil":

Os belgas se queixaram da seleção do Tulio. E, como a exposição não é dele, mas do MinC com a Europalia, pedi à produtora que fizesse as cinco modificações indicadas. Curador nenhum é dono de exposição alguma na Europalia. Ele está fazendo tempestade em copo d'água, e eu não vou ouvir piti por causa disso (leia entrevista com Marcelo Dantas abaixo).

Segundo Adriano de Aquino, a troca de obras é "inadmissível":

Escolhi curadores com farta experiência e estabeleci com eles uma relação de confiança e autonomia. Ao colocar em xeque as escolhas do curador Tulio Mariante, põem em xeque a minha também.

Os problemas decorrentes da produção apressada, entretanto, não se limitam aos curadores. Convidados para seis apresentações na Europalia, os 12 índios da aldeia Mehinaku viajaram por nove dias entre a Reserva Florestal do Alto Xingu, onde vivem, e Bruxelas. Segundo Makaulaka Mehinako, de 31 anos, eles foram de carro até a pequena cidade de Canarana, onde passaram uma noite até descobrirem a melhor forma de chegar a Bra$ília. No dia seguinte, acionados pelo MinC, representantes do Museu do Índio os levaram de ônibus até a capital federal, numa viagem que durou 14 horas.

Lá passamos cinco dias providenciando nossos passaportes. Ficamos hospedados numa pensão bem simples, sem água quente - diz ele, da Bélgica, aonde chegou no dia 11. - Mas nos apresentamos de cueca, não nus como na aldeia.

O artista Antonio Manuel também teve problema de transporte, mas com suas obras. Convidado para participar da exposição "A rua" pelo curador belga Dieter Roelstraete, que esteve duas vezes em seu ateliê, o artista desistiu de ir depois de receber as embalagens das obras no tamanho errado. Foi no dia 28 de setembro, dez dias antes da abertura.

Era impossível transportar as obras. Foi um improviso, um tratamento amador, indiferente com os artistas - reclama Antonio Manuel, cujo nome ainda está no site da Europalia, assim como o de Arthur Barrio, que também desistiu de participar.

Outros dois artistas também não embarcaram. Convidado pela curadora Sonia Salcedo para fazer uma performance, Romano recebeu a passagem três dias antes do voo. Já Ricardo Aleixo, que também participaria da programação de literatura, nunca foi contactado pelas produtoras responsáveis.

Não consigo entender por que um artista que foi convidado por dois curadores, um de artes visuais e um de literatura, não foi contactado por ninguém, não recebeu passagem e não sabe nada sobre cachê - diz Aleixo. - Deixar de ir não foi uma decisão minha. Mas não tenho todo o tempo do mundo para esperar as coisas acontecerem.

Posted by Marília Sales at 4:19 PM | Comentários (3)

outubro 21, 2011

Gabriela Mendes faz performance nesta sexta, misturando miçangas, areia colorida e projeções por Fabiano Moreira, O Globo

Gabriela Mendes faz performance nesta sexta, misturando miçangas, areia colorida e projeções

Matéria de Fabiano Moreira originalmente publicada na seção de Cultura do jornal O Globo em 21 de outubro de 2011.

Meio roots, meio tecnológico, algo entre o natural e o digital, como explica a própria artista, o trabalho de Gabriela Mendes mistura areia colorida a live P.A., sonoplastia minimalista e projeções de vídeo em tempo real. Pé no chão e plug na tomada.

- É como se fossem várias camadas, um mesmo pensamento de explosão, cor, movimento e transformação - explica ela, sobre a performance "Explosões", que apresenta nesta sexta, a partir das 19h, no Ateliê da Imagem.

Gabriela começou a trabalhar dessa forma em 2004, quando morava em Pequim, e descobriu as miçangas coloridas, dessas usadas em guias de candomblé.

- As miçangas reverberam, fazem barulho, batem no chão e saltam. Já a areia colorida é mais relacionada à nuvem e ao etéreo - diz Gabriela. - Na performance, vou trabalhar com os dois materiais, jogando essas cores no ar, observando sua flutuação momentânea e sua sedimentação no chão.

Enquanto Gabriela espalha suas nuvens de miçangas e areia colorida no ar, uma equipe mostra o lado transcultural e contemporâneo do projeto. Nado Leal faz um live P.A. usando alguns sons de miçangas pipocando, captados por Júlio Lobato, enquanto Pedro Meyer fotografa, e Daniel Chiavas comanda duas câmeras, uma delas sobre um tripé tipo girafa, altíssimo. As imagens serão projetadas em tempo real, "como se me olhassem de cima manipulando as nuvens", conta Gabriela.

A performance acontece durante a abertura da exposição "Tempo futuro/futuro do tempo", com obras de vídeo e fotografia de Ana Angelica Costa, Claudia Hersz, Claudia Tavares, Eduardo Delfim, Joana Traub Czekö, Keyla Sobral, Luiza Baldan, Rebeca Rasel, Renata Ursaia, Tom Lisboa e Patricia Gouvêa.

Posted by Gilberto Vieira at 1:28 PM

outubro 19, 2011

Faces de Modigliani por Nina Gazire, Istoé

Faces de Modigliani

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 14 de outubro de 2011.

Exposição com obras nunca expostas na América Latina apresenta Amedeo Modigliani ao público brasileiro

Modigliani: imagem de uma vida/ Museu a Céu Aberto, Vitória (ES) de 18/10 a 18/12

Ao contrário de grandes pintores do século XX, como, por exemplo, seu contemporâneo Picasso, o pintor italiano Amedeo Modigliani ­obteve o reconhecimento postumamente. Dono de um estilo único, ele é frequentemente definido por estudiosos de sua obra como um artista sem mestre e sem discípulos. Sobre Modigliani reza a lenda que teria morrido na pobreza, causada pelo excesso de álcool e haxixe.

“A lenda gosta de 'ver' no artista um miserável. Mas na realidade ele não era mendigo nem alcoólatra. A sua maneira de ser era a de um ator que representava o personagem da marginalidade”, desmistifica Christian Parisot, responsável pelo espólio de Modigliani e curador da exposição “Modigliani: Imagem de uma Vida”, que abre em Vitória, no Espírito Santo, as comemorações do ano “Momento Itália no Brasil”. Essa é a ocasião para conhecer melhor este artista um tanto obscuro e controvertido.

São apresentadas 12 pinturas, cinco esculturas, além de diários, desenhos e fotos nunca antes expostas na América Latina. Além da influência da arte africana, Modigliani compartilhou com Picasso a vida boêmia na Paris dos anos 1900 a 1920, episódio que teria comprometido sua saúde – já frágil desde a infância –, levando-o à morte precocemente, aos 34 anos. “Picasso reinava como mestre do cubismo, enquanto a fama de Modigliani se deu como escultor que entalhava cabeças rudimentares em granito”, diz o curador.

O fato é que o estilo criado por Modigliani é tão facilmente reconhecido quanto o de Picasso. Isso se dá especialmente entre suas figuras femininas, delgadas e de olhos vazios. Talvez a exceção seja a pintura “Grand Nu Allongé – Retrato de Céline Howard”. Presente na mostra, a tela pintada em 1918, já nos últimos anos de vida do pintor, resgata a tradição acadêmica dos grandes nus, fugindo do cânone criado pelo próprio artista. Segundo Parisot, há uma interpretação errônea de que o pintor transferia para as figuras humanas suas limitações e angústias. A grande questão na obra de Modigliani sempre foi o traço escultor, mesmo nas pinturas. “A primeira preocupação de Modigliani foi sempre a escultura, uma força irresistível o empurrava a esculpir. As figuras emergiam da pedra sem que tivesse necessidade de um modelo de terra ou gesso. Sentia-se predestinado a ser escultor”, explica. A exposição chega ao Rio de Janeiro no início de 2012 e a São Paulo em junho do mesmo ano.

Posted by Gilberto Vieira at 11:48 AM

A paisagem invadida pelo turismo por Paula Alzugaray, Istoé

A paisagem invadida pelo turismo

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 14 de outubro de 2011.

Massimo Vitali/ Galeria Baró, SP/ até 5/11

Um bom projeto para o ano da Itália no Brasil seria convidar Massimo Vitali para fotografar um baile funk carioca. Discotecas, piscinas públicas, festas populares, domingos de praia, piqueniques no jardim e visitas a atrações turísticas estão entre as especialidades desse fotógrafo que começou a registrar grandes aglomerações sociais em 1993, após ter trabalhado durante duas décadas como fotojornalista e diretor de fotografia em filmes ­publicitários. Mas, desde que elegeu a fotografia de grande formato como instrumento e a paisagem invadida pelo turismo como tema, suas imagens mais parecem composições pictóricas, em que cada personagem tem sua ação e posicionamento milimetricamente estudados. Como acontece nas grandes telas renascentistas. O fato é que Vitali dá à sua lente a qualidade de pincel.

A construção de uma linguagem própria rendeu-lhe reconhecimento como artista e suas obras foram assimiladas pelas coleções Guggenheim, Centre Pompidou, Foundation Cartier, entre outras. Hoje suas multidões captadas em praias italianas, em praças florentinas e nas Ramblas barcelonesas podem ser vistas pela primeira vez no Brasil na Baró Galeria, em São Paulo. Não perca.

Posted by Gilberto Vieira at 11:32 AM

Museu de Arte Contemporânea exibe 150 obras sobre o modernismo por Ana Rita Martins, O Estado de S. Paulo

Museu de Arte Contemporânea exibe 150 obras sobre o modernismo

Matéria de Ana Rita Martins originalmente publicada na Ilustrada do jornal O Estado de S. Paulo em 18 de outubro de 2011.

Mostra levanta discussão sobre mitos e estereótipos do movimento

Segundo o discurso ensinado na escola, o modernismo brasileiro foi um movimento marcado pela Semana de Arte Moderna, que ocorreu em São Paulo, em 1922. Propunha a abolição da tradição e a criação de uma arte original, visceralmente brasileira. Fazia parte dessa filosofia voltar às origens, valorizando o indígena e a linguagem falada pelo povo. Os artistas ditos modernos chamavam para si a responsabilidade de construir uma identidade nacional.

Não se pode dizer que a definição esteja errada, mas o fato é que ela mais estereotipa do que representa todas as riquezas e contradições inerentes ao modernismo brasileiro. Para apresentar facetas pouco exploradas do movimento e questionar mitos a respeito dele, o Museu de Arte Contemporânea apresenta a mostra Modernismos no Brasil. São 150 obras do acervo que propõem um olhar mais amplo e integral. Há contraponto também com obras internacionais de nomes como Pablo Picasso (1881-1973) e Paul Klee (1879-1940), mostrando influências e paralelos formais com os quais o modernismo flertou.

Em primeiro lugar, não se pode restringir o movimento a São Paulo, como prega a visão tradicional do livro De Anita ao Museu (1974), de Paulo Mendes de Almeida, que ainda é referência no assunto. Na exposição, há obras de Vicente do Rego Monteiro (1899 - 1970), artista recifense ligado a temas da religiosidade, e de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), carioca, que retratou paisagens e festividades brasileiras. Ambos, vale frisar, participaram e semearam, em suas terras, as concepções e a filosofia do modernismo.

Filosofia, aliás, que nem sempre foi radical na prática. "O modernismo se propunha a romper fronteiras, mas o fato é que 99% dos artistas ainda se atinham aos suportes tradicionais como a pintura, o desenho e a escultura", diz Tadeu Chiarelli, curador da mostra. O que Chiarelli quer dizer é que os padrões das belas-artes, com poucas exceções, foram respeitados. Inclusive, pode-se ver nas produções modernistas as tradicionais alegorias, retratos, paisagens e naturezas-mortas.

Traços surrealistas. Outra questão levantada é a diversidade das obras. A série de nove desenhos Minha Mãe Morrendo (1947), de Flávio de Carvalho (1899-1973), por exemplo, exibe um caráter performático ao escancarar o processo do ato de desenhar. É uma proposição diametralmente oposta à arte de Tarsila do Amaral, que tanto em A Negra (1923) como em outras obras, apresenta a criação, sem vislumbres do processo de produção. Apesar de serem suportes diferentes, o que teoricamente tornaria complicada uma comparação, o fato é que os dois artistas põem em jogo questões diversas, independentemente de participarem do mesmo movimento.

Da mesma forma, a exposição mostra a diversidade do trabalho de Di Cavalcanti (1897 - 1976), exibindo desenhos que passam longe do estereótipo de pintor de trabalhadores e minorias. Traços eróticos e surrealistas, movidos a impulsos motores, trazem uma perspectiva mais livre e experimental de seus desenhos. Essa liberdade formal também pode ser vista nas obras de Geraldo de Barros (1923 - 1998). Ao lado delas, na mostra, estão os trabalhos de Paul Klee, de quem Barros buscou referências de desenho infantil.

Apesar de se concentrar na questão da diversidade e dos mitos do movimento, Modernismos no Brasil traz um pouco da produção que, de fato, rompeu as fronteiras na arte. A obra Plano em Superfícies Moduladas nº 2 (1956), de Lygia Clark, por exemplo, questiona os limites da tela ao extrapolar a própria moldura. É, aliás, uma das primeiras obras com a qual o visitante se depara ao entrar na exposição. O rompimento está ali. No resto da mostra, no entanto, ela vai ceder espaço para propostas muito mais conservadoras.

'Modernismos no Brasil'. Até 29/01. Museu de Arte Contemporânea. Parque do Ibirapuera. Pavilhão Ciccillo Matarazzo, 3º piso. De terça a domingo, das 10h às 18h.
Grátis. Classificação livre.

Posted by Gilberto Vieira at 11:22 AM

outubro 18, 2011

Dinamarquês convida a novo olhar sobre velhos lugares por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Dinamarquês convida a novo olhar sobre velhos lugares

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 18 de outubro de 2011.

Desde meados dos anos 1960, artistas buscam romper com os lugares tradicionais de exposição, os chamados cubos brancos. O objetivo, então, era acabar com os limites entre arte e vida, impostos pela ideia modernista da arte como campo autônomo.

"Seu Corpo da Obra", mostra do dinamarquês Olafur Eliasson dividida em três espaços de São Paulo, dentro do 17º Festival Sesc Videobrasil, é uma aplicação desses conceitos no século 21: suas 12 obras dialogam profundamente com suas localizações.

No Sesc Pompeia, as intervenções respeitam a circulação e a ocupação do espaço, uma das ideias centrais da arquiteta Lina Bo Bardi, que projetou o local.

A obra "Hemisfério Compartilhado", por exemplo, composta por seis lâmpadas dispostas sob as mesas da sala de leitura, é tão integrada ao espaço que pode passar despercebida por quem não utiliza aquele ambiente.

Nesse sentido, as obras de Eliasson ganham um caráter funcional, que atualiza os princípios dos anos 1960.
A preocupação com o entorno também ocorre na Pinacoteca. Os caleidoscópios no belvedere levam o visitante a observar a região com um filtro de cores e espelhamentos que a transforma.

A marca central de Eliasson está nessa suspensão: levar o visitante a observar velhos locais de maneira totalmente distinta, por efeitos surpreendentes, ainda que com materiais banais.

SEU CORPO DA OBRA
ONDE Sesc Belenzinho (r. Padre Avelino, 1.000; tel. 0/xx/11/2076-9700)
QUANDO de ter. a sex., das 9h às 22h; sab., até 21h; dom., até 20h; até 29/1
QUANTO grátis

ONDE Sesc Pompeia (r. Clélia, 93; tel. 3871-7700)
QUANDO de ter. a sáb., das 9h30 às 21h; dom., até 20h.; até 29/1
QUANTO grátis

ONDE Pinacoteca do Estado (pça. da Luz, 2; tel. 3324-1000)
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 17h30; até 8/1
QUANTO R$ 6 (grátis aos sábados)

AVALIAÇÃO ótimo

Posted by Gilberto Vieira at 10:47 AM

outubro 17, 2011

Diego de Santos expõe pela primeira vez no Recife por Eugênia Bezerra, Jornal do Commercio

Diego de Santos expõe pela primeira vez no Recife

Matéria de Eugênia Bezerra originalmente publicada no Caderno de Artes Plásticas do Jornal do Commercio em 11 de outubro de 2011.

Diego de Santos nasceu em Caucaia, cidade da região metropolitana de Fortaleza, mas queria morar na capital para desenvolver mais sua carreira nas artes plásticas. Esta experiência de divisão, entre a cidade em que ele dormia e a em que precisava ir para trabalhar, é representada de maneira figurada nos desenhos que formam a exposição Um mundo aqui dentro. Ela será inaugurada oficialmente hoje (11/10), às 20h, na Galeria Amparo 60 (a visitação começou dia 15 de setembro, para aproveitar os últimos dias do SPA das Artes).

Na maioria dos trabalhos, uma figura humana aparece entre elementos como escadas, janelas e buracos. Apenas parte dela fica visível, como se fosse alguém tentando entrar, se encaixar nestes lugares. “Comecei a fazer estes trabalhos desde 2008. Antes lidava com outras técnicas, como a fotografia. O meu desafio era trabalhar com um material simples”, resume Diego.

As obras são feitas com papel sulfite, caneta esferográfica e grafite. Ao invés de traçar linhas simples, o artista experimenta texturas (resultado do desgaste provocado pelo uso repetido do lápis). As ondulações e até pequenos rasgos são aproveitados nas composições. Às vezes ele também desenha nas duas faces do papel.

Posted by Gilberto Vieira at 1:25 PM

Maria Bonomi ganha retrospectiva à altura, com 330 obras, no CCBB de Brasília por Gilberto Scofield, O Globo

Maria Bonomi ganha retrospectiva à altura, com 330 obras, no CCBB de Brasília

Matéria de Gilberto Scofield originalmente publicada no caderno de Cultura do jrmal O Globo em 17 de outubro de 2011.

BRASÍLIA - Os olhos da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi, 76 anos, brilham à medida em que ela percorre a maior e mais importante exibição de seus 60 anos de carreira como gravurista, escultora, pintora, muralista, cenógrafa, figurinista, curadora e professora. Nos cerca de mil metros quadrados espalhados em quatro salões do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, ela vai revisitando, uma a uma, as quase 300 obras da exibição "Maria Bonomi em Brasília - Da gravura à arte pública", inaugurada na semana passada e em cartaz até janeiro.

Diante dos trabalhos, desfia o que pensa sobre sua arte - "gravura para mim não é técnica, é linguagem de expressão artística. A matriz é a grande obra, onde você coloca o seu gestual" -, sobre o mercado brasileiro - "o eixo Rio-São Paulo é bem menos independente das imposições comerciais do que se pensa" - e sobre as relações entre poder e arte - "Falta arte pública para as pessoas verem na rua, sem pagar". Ali está, como diz o curador da mostra, Jorge Coli, uma artista cuja obra se equilibra em duas grandes vocações: a artesanal, ligada à forma como produz, e a social, ligada a como as obras se relacionam com a sociedade.

Feminismo e política

Foi exatamente por isso que Coli organizou a mostra não por fases cronológicas, mas por afinidades em torno de temas caros à artista, como o universo feminino, os temas políticos - Maria foi presa pelo governo militar em 1974 após uma viagem à China -, os painéis que produziu para espaços públicos - 20 das mais de 30 obras monumentais estão em São Paulo - e a evolução de sua produção em gravuras, reunidas na Sala Panorama.

- Os trabalhos dialogam entre si, por isso abandonei a lógica cronológica. Ela faz muito o que Lina Bo Bardi chamava de metagênese, que é a capacidade de extrair novas obras de obras já existentes - diz Coli.

De fato. Na sala feminina, chamada Útero, é impossível não relacionar os pequenos quadros que Maria pintava quando ainda tinha 15 anos, como "Fugindo da escola", com as ilustrações que a artista fez para o livro "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles (1964), as gravuras das séries "Medusa" (1997) e "Hydra" (2001) e o recentíssimo "Paris Rilton", uma escultura oval em bronze interativa. Abrindo pedaços da obra, o visitante acha objetos de consumo feminino, de boás a sapatos de salto alto.

- Eu criei a obra especialmente para a mostra porque precisava criticar essa idiotização da figura feminina, relegada a um consumismo desenfreado estimulado pela propaganda preconceituosa - diz ela.

Pena que no CCBB não caibam as obras monumentais que hoje enfeitam locais públicos (objeto de sua tese de doutorado na USP em 1999). Mas um vídeo explica seu processo criativo e mostra as principais, como o painel "Epopeia Paulista", na Estação da Luz, em São Paulo.

- Não entendo por que o Brasil não faz como o México, onde os canteiros de obras são obrigados a aproveitar os materiais na elaboração de obras de arte para espaços públicos - afirma.

Se na Sala Calabouço, onde ficam obras de viés político, o ambiente é sombrio pelo impacto de gravuras antigas que falam de torturas ("Balada do terror", de 1970), crises ("Cairo January", de 2011, gravura digital em cima de uma foto da Praça Tahir, no Egito) ou violência ("Tetraz - Dança das facas", de 2003, uma instalação interativa de facas na terra), na Sala Panorama, totalmente solar, apreende-se a trajetória daquela que é considerada a maior gravurista viva do país.

São dezenas de xilogravuras e litogravuras que deixam para o visitante a intepretação maior das formas e cores. Uma das peças mais fascinantes é "A ponte", de 2011, que Jorge Coli chama de "obra em progresso" porque Maria decidiu, na hora, usar matrizes das ondas na gravura para criar figuras em aço, colocadas na extensão da obra, como membros, enquanto a gravura em si é cercada das matrizes em madeira que a geraram.

- Já fiz tiragens de litogravuras para democratizar obras, mas é errado pensar em gravura como técnica, uma maneira de multiplicar uma imagem, mais ou menos como fazia Volpi. Volpi nunca foi gravurista - diz ela.

"Da gravura à arte pública" (mesmo nome do livro de 2008 sobre a autora, organizado por Mayra Laudanna) foi uma ideia da produtora e fotógrafa Maria Helena Peres - casada com a artista há dez anos - quando, em 2007, iniciou o trabalho de catalogação de sua carreira. Em 2008, a artista ganhou uma retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo, mas Lena sabia que havia fôlego para um trabalho maior.

- Percebi que o material, finalmente organizado, era um painel da vida dela, artística e pessoal - diz Lena.

Se algo pudesse melhorar a retrospectiva seria a presença constante da própria artista, uma fonte inesgotável de histórias. Como a vez em que foi premiada na Bienal de Arte de São Paulo, em 1967. Aproveitou a cerimônia e a presença do presidente Castelo Branco para entregar ao general uma carta pedindo a libertação de alguns presos políticos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- Os anos 1960 e 70 foram especiais para mim: não fui concretista, não fiz concessão e também não morri, apesar de ter sido presa e encapuzada - ri.

Ou a vez em que Salvador Dali foi à sua primeira exibição em Nova York, em 1958, e encantado com o trabalho, explicou que também fazia gravuras. Só que usava uma escopeta com cartuchos carregados com o cabelo de sua mulher Gala para "dar um toque" nas imagens. Discípula de Lívio Abramo, Maria Bonomi diz que evita rotinas - faz apenas pilates e corre na esteira três vezes por semana - porque tem "um tempo longo de criação".

- Eu nunca acabo os trabalhos. As obras têm que ser tiradas de mim - diz.

Posted by Gilberto Vieira at 1:12 PM

outubro 14, 2011

Inhotim se abre a novos diálogos por Ana Clara Brant, Estado de Minas

Inhotim se abre a novos diálogos

Matéria de Ana Clara Brant originalmente publicada na seção de Cultura do Estado de Minas em 4 de outubro de 2011.

Público já pode conferir novidades do acervo do museu de arte contemporânea de Brumadinho, criadas por 10 artistas

O que há de comum entre A bica, do artista plástico baiano Marepe, Elevazione, do italiano Giuseppe Penone, e Strassenfest, da alemã Isa Genzken? Aparentemente nada, mas as três são novas aquisições das galerias de Inhotim. Apesar de a inauguração oficial estar marcada para depois de amanhã, a partir de hoje elas poderão ser conferidas pelo público.

Para Júlia Rebouças, curadora assistente do museu, considerado o maior centro de arte ao ar livre da América Latina, apesar de as peças não integrarem mostra específica, a intenção é criar uma relação entre elas, além de provocar o diálogo com trabalhos instalados no espaço. “Temos obras muito interessantes, como o Beehive bunker, do artista norte-americano Chris Burden, que passa a fazer parte da exposição permanente. É um bunker feito com sacos de cimento, ou seja, uma obra de arte feita com a própria matéria-prima. Isso é bem curioso”, comenta.

Destaca-se A origem da obra de arte, da mineira Marilá Dardot, formada por 1,5 mil vasos de cerâmica no formato das letras do alfabeto, com sementes e material de jardinagem. O visitante poderá plantar, além de construir palavras e frases num enorme campo gramado. “O público vai dar vida ao trabalho da Marilá. Ele vai sendo construído aos poucos”, explica Júlia Rebouças.

Outra obra que promete chamar a atenção é Elevazione: peça de bronze, similar a um tronco, é aparentemente sustentada por quatro árvores. Fica em nova área de visitação, entre a galeria Cosmococa e a obra Beam drop. A união desses dois espaços era planejada pela curadoria há algum tempo. “Todos os anos, a gente acrescenta esculturas, instalações e quadros a nosso acervo, que deve ter em torno de 500 obras. Nenhuma delas foi produzida especialmente para Inhotim, mas são superimportantes. Cada vez que chega uma novidade aqui, ela vai se incorporando, acrescenta uma outra ideia ao Museu”, conta Júlia.

Entre as novidades estão trabalhos de Giuseppe Penone, Chris Burden, Marilá Dardot, Cinthia Marcelle, Marepe, Eugenio Dittborn, Lothar Baumgartgem, Isa Genzken, Susan Hiller e Thomas Hirschhorn. Quinta-feira, durante a abertura oficial, haverá show do cantor e compositor Tom Zé.

INHOTIM
Arte contemporânea. Em Brumadinho, acesso pelo km 500 da BR-381. Terça a sexta, das 9h30 às 16h30; sábado, domingo e feriado, das 9h30 às 17h30. Informações e visitas agendadas: (31) 3227-0001. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Crianças até 5 anos não pagam. Assinantes do Estado de Minas têm 50% de desconto na compra de dois ingressos.

Posted by Gilberto Vieira at 1:56 PM

Irã de cabeça para baixo por Paula Alzugaray, Istoé

Irã de cabeça para baixo

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de outubro de 2011.

Pulso iraniano/ oi Futuro, RJ/ até 30/10

Peyman Hooshmandzadeh vive em Teerã, capital do Irã, onde trabalha como fotojornalista para vários jornais locais. Além da atividade como fotógrafo e editor de imagem, Hooshmandzadeh desenvolve um trabalho pessoal de fotoperformance em que se autorretrata em posição invertida em diversas situações: dentro do metrô ou diante de cartões-postais de Teerã (como a parede grafitada, na foto abaixo). Ao lado de outros 22 artistas, ele integra a mostra “Pulso Iraniano”, no Oi Futuro, no Rio de Janeiro, e com sua atitude expressa bem a intenção do curador Marc Pottier. “A arte do Irã não tem só a política e o exílio como temas. Quero focar o pulso, o dinamismo, a criatividade”, diz o curador francês, que, desde Paris, observa como os artistas iranianos têm ocupado cada vez mais o mercado de arte internacional.

Além de exibir um panorama bastante completo da arte iraniana hoje, realizada em fotografia, vídeo e cinema, a mostra ainda revela a produção resultante de um circuito de exibição independente, crucial em um país controlado por uma ditadura militar que não apoia as artes. “Nós não queremos apoio do governo. Não queremos a responsabilidade de ter que corresponder a esse apoio”, diz o artista Amirali Ghasemi, que, além de mostrar seu trabalho em “Pulso Iraniano”, é o curador de uma mostra de obras de 26 videoartistas. Em Teerã, Ghasemi coordena um espaço de arte na garagem de sua casa, a Parking Gallery (www.parkingallery.com).

Embora a pauta não seja a política, ela está presente na maior parte dos trabalhos em exposição no Oi Futuro. Até mesmo no segmento dedicado à poesia, já que a escritura no Irã é uma forma de resistência. No módulo centrado na mulher, o tema é ainda mais premente. A obra da cineasta Shirin Neshat aborda as barreiras culturais e religiosas erguidas entre homens e mulheres em sociedades islâmicas contemporâneas, e o faz não de forma a vitimizar a mulher oriental, mas sim para salientar sua coragem e audácia. O mesmo efeito têm as videoperformances da artista Ghazel, quando representam a mulher – e seu inseparável chador, a vestimenta negra islâmica – em situações tão banais quanto ousadas: no supermercado, na guerra, na montanha de ski.

Posted by Gilberto Vieira at 1:48 PM

Arte de criar diálogos por Paula Alzugaray, Istoé

Arte de criar diálogos

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 7 de outubro de 2011.

Curadoria de Tadeu Chiarelli propicia novas comparações entre obras brasileiras e estrangeiras do século XX, na coleção do MAC-USP

Modernismos no Brasil/ Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), Ibirapuera, SP/ até 29/1/2012

"Conceito Espacial", a impactante tela perfurada por Lucio Fontana em 1965, é uma das primeiras imagens com que o visitante se depara ao entrar no MAC USP Ibirapuera. Cercam a obra de Fontana outras com a mesma carga de experimentalismo: entre as quais, um plano em superfícies moduladas de Lygia Clark e uma escultura móbile de Alexander Calder. “Na entrada, estão as obras cronologicamente mais tardias e também as mais radicais da coleção do MAC. Obras que, juntas, anunciam que esse é um museu de arte contemporânea que está revendo sua coleção de arte moderna”, afirma o curador Tadeu Chiarelli para um grupo de estudantes do primeiro ano de artes visuais da Escola de Comunicação e Artes da USP, em visita à montagem da exposição. Com “Modernismos no Brasil”, Chiarelli – que é professor da ECA-USP e diretor do MAC-USP – coloca em prática a vocação universitária do museu. Em cartaz desde a sexta-feira 7, a mostra está prevista como a última montagem do acervo antes da inauguração da nova sede, no Detran, prevista para março de 2012.

Segundo o curador, o propósito é apresentar o modernismo brasileiro de maneira problematizadora. Ou seja, romper com a cronologia estabelecida pela história da arte e demonstrar que a arte brasileira esteve sempre em diálogo franco com a arte internacional. Para isso, ele selecionou 150 obras e organizou-as em cinco grupos. Heterogêneos, eles promovem encontros bastante improváveis – porém contundentes – entre gêneros, linguagens e movimentos artísticos. No segmento “Arte como suspensão do real aparente”, por exemplo, aproximam-se trabalhos que têm em comum a dimensão alegórica. Ali encontram-se duas das obras mais valiosas da coleção: “A Negra” (1923), de Tarsila do Amaral, e “O Enigma de um Dia” (1914), de Giorgio De Chirico, em que, segundo Chiarelli, a dimensão simbólica da arte encontra seu ápice dentro da coleção do MAC. “O título ‘A Negra’ tem uma dimensão descritiva, mas essa obra de Tarsila é uma alegoria da terra, da população brasileira”, diz o professor. No centro das cinco salas, que são desenhadas na bela forma de uma estrela, está situada a escultura “A Soma de Nossos Dias” (1955), de Maria Martins, que funciona como farol ou alegoria do pensamento curatorial:
o desafio de mostrar um modernismo sem mol­duras e sem linearidade.

Posted by Gilberto Vieira at 1:37 PM

Sob a lupa de Liliana Porter por Nina Gazire, Istoé

Sob a lupa de Liliana Porter

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 30 de setembro de 2011.

Liliana Porter - The Enemy e Outros Olhares Oblíquos/ Galeria Luciana Brito, SP/ até 22/10

Kitsch é um termo alemão para denominar objetos e estilos que se dão pelo exagero ou ainda a cópia de qualidade inferior ao original. Mas nas obras recentes da argentina Liliana Porter, radicada em Nova York, esse exagero kitsch – presente nos pequenos bibelôs de porcelana e brinquedinhos de plástico que compõem esculturas e instalações –transforma-se em seu oposto. A artista realiza criações que dão a esses símbolos redundantes da cultura de massa o poder de representar aquilo que há de mais simples e imperceptível na realidade. Para isso, ela transforma situações comuns, como o trabalho ou o trânsito, em composições miniaturizadas, que deslocam essas atividades do contexto repetitivo do cotidiano.

Exemplo desse trabalho de síntese social realizado por Liliana é a série “Forced Labor” (Trabalho forçado). A construção civil ou a agricultura tem a banalidade de seus gestos deslocada quando as pequeninas figuras humanas lidam com ferramentas de trabalho em tamanho agigantado. “As figuras minúsculas acabam por exigir certa intimidade do espectador, que tem de se aproximar para vê-las melhor. Estou interessada na relação entre o tamanho dos personagens e a tarefa que realizam que, muitas vezes, acabam por engoli-los”, diz Liliana.

Além dos brinquedos, a artista se apropria de outros objetos da cultura kitsch, como os bordados florais, que enfeitam os ambientes domésticos. Na obra “Knot” (Nó) ela os desconstrói, interrompendo-os em um emaranhado de fios, como forma de combater a noção de que a realidade é feita apenas de atos sequenciais e organizados. “Há uma consciência de que o tempo não é linear. A realidade é composta por aquilo que vemos, imaginamos e tudo isso acontece simultaneamente”, comenta Liliana, cuja mostra “The Enemy e Outros Olhares Oblíquos” possui curadoria de Adolfo Montejo Navas, crítico espanhol, radicado no Brasil.

Posted by Gilberto Vieira at 1:10 PM

outubro 13, 2011

Antifotografia por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Antifotografia

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 13 de outubro de 2011.

Artistas embaralham noções de realidade e ficção e questionam ideia de autoria ao roubar, destruir e manipular imagens

Na fotografia do século 21, não existe mais o instante decisivo. Está aposentada a noção clássica de autoria, e a realidade mergulha na ficção.

Expoentes dessa antifotografia misturam imagens alheias, manipulam registros documentais, resgatam arquivos esquecidos e defendem a destruição da foto.

Na série que mostra agora no MoMA, em Nova York, Doug Rickard registra a "ruína do sonho americano" pelas lentes do Google. Ele se apropria de imagens de cidades devastadas pela crise econômica como autores da Grande Depressão retrataram a miséria, num "híbrido de tradição e apropriação".

"Queria uma nova forma de olhar para a América", diz Rickard. "Essa é uma dinâmica estranha, porque mesmo com imagens prontas tenho a liberdade de percorrer esses cenários com meu olhar."

Penelope Umbrico, fotógrafa que esteve no último Paraty em Foco, rouba imagens do Flickr em que casais se retratam diante do pôr do sol, mostrando que são quase iguais mesmo quando há uma intenção autoral. "Essa cultura de remixar imagens é hoje como respirar", diz Umbrico. "A responsabilidade de um artista é entender essa estrutura e saber operar e trabalhar com ela."

Noutro remix, o coletivo Cia de Foto refotografou e reenquadrou imagens de anônimos encontradas num arquivo do Bom Retiro e criou uma narrativa sobre o bairro.

"Tem a fotografia independente do fotógrafo", diz Rafael Jacinto, da Cia de Foto. "O clique é minimizado, deixou de ser o ponto importante e o processo que vem depois é maior do que o instante em que a foto se baseia." Resumindo, fotografia é ficção. Esse mesmo coletivo transformou imagens de um trio elétrico no Carnaval de Salvador em espécie de procissão fantasmagórica e fotografou São Paulo sob o impacto de uma guerra fictícia.

Reinventando a memória, Ivan Grilo garimpou arquivos de sua família e misturou casais em montagens fotográficas na instalação que expõe agora no Paço das Artes.

"É muito mais sobre apagamento do que sobre imagem", diz Grilo. "Essas imagens estão na iminência do apagamento da memória." Em linha semelhante, Pedro Victor Brandão cria espetáculos de destruição ao expor imagens de um arquivo à luz ultravioleta, que corrói o negativo, questionando a noção de permanência da foto.

E realidade também vira abstração em imagens de Tchernobil e do polo Norte. Alice Miceli, que esteve na última Bienal de São Paulo, criou uma série de composições cinzentas ao expor negativos à radiação da cidade ucraniana onde aconteceu o grande desastre nuclear.

"É fazer a radiação documentar isso", diz Miceli. "É uma memória traumática." São resquícios e farpas de uma tragédia que orientam as imagens de Miceli. Elas se tornam quase um aceno ao minimalismo, de pretos e brancos numa série neutra.

Na mesma estratégia metonímica, da parte pelo todo, Letícia Ramos viaja agora pelo polo Norte em busca de tons de azul e branco. Ela inventou uma câmera capaz de registrar só essas cores, como se resumisse um território a uma lembrança cromática. "Queria uma imagem pura, como se construísse um experimento no laboratório", diz Ramos. "Estou investigando uma região, e essa câmera surge como parte de uma poética exploratória."

Veja obras dos antifotógrafos
folha.com/no989552

Posted by Gilberto Vieira at 2:43 PM

outubro 11, 2011

Para belga ver por Daniela Rocha, Folha de S. Paulo

Para belga ver

Matéria de Daniela Rocha originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 11 de outubro de 2011.

Exposição central da Europalia exibe panorama da arte brasileira desde o tempos da colônia até o modernismo

Entre aquarelas de Debret sobre o cotidiano dos escravos no Brasil Colônia e uma série de telas de Tarsila do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti e Volpi, a exposição "Brazil.Brasil", no Palácio Bozar, em Bruxelas, consegue traçar um fio condutor que revela a arte brasileira e os seus principais movimentos entre os séculos 18 e 20.

Um andar abaixo, a arte brasileira dos anos 50 até hoje está em destaque na exposição "Art in Brazil", que abre ao público amanhã.

As duas mostras integram a programação do festival bienal Europalia, consagrado este ano ao Brasil.
Até 15 de janeiro, o festival oferecerá mais de 600 eventos de artes plásticas, música, teatro, dança, literatura e cinema brasileiros em várias cidades da Bélgica, França, Holanda e Alemanha.

"Brazil.Brasil" pode ser dividida em três movimentos: o barroco como arte religiosa, tendo como emblema o imponente "São Jorge", de Aleijadinho; o Brasil nação, representado no quadro "A Primeira Missa no Brasil" (1860), de Victor Meirelles; e a expectativa de modernização num país ainda agrário.

"O modernismo ocorreu apenas 30 anos após a Abolição da escravatura. Artistas buscaram a compreensão do que somos, no manifesto 'Tupi or not Tupi', destacado na mostra", diz a curadora Ana Maria Belluzzo.

"Foi um exercício de diálogo. Para nós, era importante traduzir ao público europeu o que é o Brasil fora dos seus clichês, conciliando, claro, com a forma como o Brasil quer se apresentar", explica o diretor de exposições da Europalia Internacional, Dirk Vermaelen.

Segundo ele, esta é a primeira vez que a Europa exibe uma perspectiva brasileira sobre a sua arte contemporânea, já que a "Art in Brazil" é assinada por nove curadores, todos brasileiros.

Dividida em quatro módulos cronológicos, a exibição destaca momentos históricos que repercutem na produção artística, como a ditadura militar (1964-1985) e a inauguração de Brasília (1960).

A próxima grande mostra da Europalia é a "Índios no Brasil", a ser inaugurada no dia 14 de outubro, no tradicional Museu do Cinquentenário, que propõe ao visitante uma "exposição que o levará ao coração da floresta amazônica".

Ainda com foco na natureza, a exposição "Terra Brasilis", com cocuradoria do brasilianista Eddy Stols, será aberta no dia 20 e coloca em evidência a influência recíproca entre a Europa e o Brasil no período do Descobrimento e a exploração da fauna e da flora brasileiras.

Posted by Gilberto Vieira at 2:00 PM

outubro 10, 2011

Americano cria Jesus Cristo musculoso por Anna Virginia Balloussier, Folha de S. Paulo

Americano cria Jesus Cristo musculoso

Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de outubro de 2011.


Artista plástico Stephen Sawyer recebe críticas por transformar filho do Deus cristão em "bad boy" tatuado

Jornal define obras como "Chuck Norris de sandálias"; criador defende que força está descrita na Bíblia

A fé é mesmo capaz de mover montanhas? Se depender do tamanho dos bíceps que Jesus Cristo adquiriu na arte de Stephen Sawyer, 58, pode apostar que sim.

Americano morador de Kentucky e "criado na tradição cristã", Sawyer deu contornos bem literais à superforça do chamado filho de Deus. Em seus retratos, ele mostra um Jesus musculoso, boxeador e com tatuagem típica de marinheiro: um coração vermelho cruzado por uma faixa onde se lê "PAI".

"Um Chuck Norris de sandálias", na definição do jornal britânico "The Guardian", ou "o Messias machão", segundo o "New York Times". Afinal, esse Jesus é ou não é um "bad boy"?

"O que isso significa? Um causador de problemas? Alguém que desafia a autoridade religiosa? Hmmm...
Talvez ele fosse e ainda seja um 'bad boy'", diz o artista à Folha.

Mas logo vem a ressalva: "Porém, todos esses eventos que acabaram em confusão sempre foram em nome da liberdade espiritual e da salvação dos outros".

A intenção deste senhor cristão, de aparência até bem convencional, é "confrontar o preconceito teológico" sobre certos tipos de pessoa.

Para Sawyer, "preocupar-se com tatuagens" é cisma de quem não absorveu um dos ensinamentos mais básicos da cristandade. "Jesus deixou claro que Deus liga para o que está dentro do corpo, e não fora dele", afirma.

SANTA POLÊMICA
Mas críticas continuam a transbordar desse corpo cheio de santa testosterona. Sawyer afirma que sua versão sarada de Jesus angariou certo mal-estar entre cristãos.

Os detratores costumam sacar citações bíblicas contra sua arte. Entre elas, uma do Levítico, livro do Antigo Testamento: "Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo imprimireis qualquer marca".

Outra passagem é associada ao profeta Isaías e fala de um Jesus que "não tinha formosura nem beleza", bem diferente do aspirante a galã de novela criado por Sawyer.

O americano defende seu Jesus como uma figura mais próxima da realidade descrita na Bíblia. Ele sustenta que algumas narrativas da religião não poderiam ser obra de um Jesus mirrado e "paz e amor".

Como no episódio em que o filho de José e Maria entra no templo de Jerusalém para expulsar comerciantes dali, furioso com a troca de dinheiro e o comércio de produtos feitos no local.

O barulho em torno dessa visão peculiar de Jesus remete a outras obras controversas, como uma foto de 1987 do conterrâneo Andres Serrano: um Cristo na cruz atingido pelo jorro da urina do artista.

Nas duas últimas décadas, Sawyer rodou o mundo para garantir justamente o contrário. Ele diz não correr atrás de polêmica gratuita, mas de "verdade, beleza e bondade".

Assim caminha a humanidade de Sawyer: "Focar nas diferenças apenas valida nossos medos, preconceitos, intolerâncias e outros assuntos que acabam em violência".

Chances de nocaute?

Posted by Gilberto Vieira at 5:26 PM

Gagosian faz sua primeira mostra de brasileiros em Paris por Leneide Duarte-Plon, Folha de S. Paulo

Gagosian faz sua primeira mostra de brasileiros em Paris

Matéria de Leneide Duarte-Plon originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 10 de outubro de 2011.

Filial francesa da rede de galerias do maior marchant do mundo comercializa obras e pratica sigilo de preços

Para crítico, artistas neoconcretos são obrigatórios a todos os 'acervos internacionais de importância'

Seis grandes artistas desembarcaram na galeria Gagosian -e lá ficam até 5 de novembro-, numa das mais belas exposições consagradas ao Brasil feitas em Paris nos últimos anos.

Quarenta obras de Lygia Clark, Amilcar de Castro, Sérgio Camargo, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Mira Schendel foram reunidas em "Brazil - Reinvention of the Modern", primeira exposição de brasileiros na Gagosian.

Para Camargo (1930-1990)e Lygia Clark (1920-1988), que moraram em Paris, é uma volta à cidade onde se formaram.

Foi na capital francesa que Clark estudou com Fernand Léger. Segundo texto do crítico Paulo Venancio Filho no catálogo da mostra, a obra da artista é inclassificável.

"Os Bichos, as famosas esculturas que Lygia Clark realizou nos anos 1950, ocupam um lugar central nas transformações que mudaram a escultura do século 20", escreveu num dos textos de análise das obras.

Venancio destaca que ainda hoje "se percebe e se surpreende com a inquietude, a voracidade, a liberdade de atitudes, procedimentos e problemas artísticos que envolviam os neoconcretos".

A política da prestigiosa Gagosian é de sigilo absoluto em torno de preços, de compradores e dos colecionadores que emprestaram as obras para a mostra.

Não são informadas quais das obras da mostra estão à venda nem seu valor.

"A única coisa que posso dizer é que uma grande parte está à venda, mas nossa política é não comentar preços. O sigilo faz parte do negócio", diz Serena Cattaneo Adorno.

Posted by Gilberto Vieira at 5:03 PM

Neoconcretos na vitrine por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Neoconcretos na vitrine

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 10 de outubro de 2011.

Interesse da maior galeria do mundo e exposição em Paris ampliam assédio de estrangeiros por ícones da arte brasileira como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape

A filial parisiense da maior galeria de arte do mundo, a Gagosian, abriu uma exposição dedicada a artistas neoconcretos brasileiros.

Não é um "território cru". Serena Cattaneo Adorno, diretora da Gagosian francesa, diz saber onde está pisando ao falar de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel, Lygia Pape e Sergio Camargo.

"Eles viam a arte como organismos vivos e queriam um contato direto com os espectadores", diz Cattaneo Adorno. "Aí está a natureza radical do neoconcretismo."

Tão radical que museus como MoMA, em Nova York, Tate Modern, em Londres, e Reina Sofía, em Madri, dedicaram mostras a Schendel, Oiticica e Pape.

Hoje, o mercado de arte se volta a eles como nunca.

Sinal disso foi a venda em junho deste ano de uma obra de Lygia Clark por cerca de R$ 4,1 milhões, recorde histórico para um brasileiro, na última edição da Art Basel, a feira de arte suíça que é prioridade máxima na agenda dos colecionadores.

No mês passado, representantes das maiores galerias do mundo circularam pelo país. Uma sócia da galeria britânica White Cube foi vista nos vernissages mais importantes da temporada, enquanto a Gagosian mantém um olheiro no Rio, que monitora o mercado para a matriz em Nova York.

"Tenho interesse crescente pelo Brasil e sua cena artística", afirmou Larry Gagosian, dono da galeria, à Folha. "Espero que essa exposição em Paris seja a base para maior associação da galeria com essa cultura."

Não são de hoje, aliás, os boatos de que a Gagosian tenta abrir filial no Brasil, e essa exposição seria um passo adiante no flerte.

Os impostos sobre obras de arte praticados no país -até 42% do valor da obra-, no entanto, azedam a relação.

"Essas regras de importação deixaram o mercado interno extremamente forte, elevando os preços do país ao patamar da Europa e dos EUA", diz Cattaneo Adorno. "Mas há também uma grande perda para o mercado internacional, que está menos presente no Brasil por causa dessas restrições."

Por ora, galerias como White Cube e Gagosian ficam com as feiras no país, como a SP-Arte e a ArtRio. Ao negociar isenção temporária de impostos, a feira carioca anunciou ter vendido R$ 120 milhões em obras em sua estreia, no mês passado.

Enquanto isenções como essa e mudanças nas regras de importação de obras de arte não acontecem, casas estrangeiras vão fazer o que a Gagosian faz agora em Paris: vender brasileiros a europeus com preços da Europa.

Posted by Gilberto Vieira at 4:26 PM

outubro 5, 2011

Viagem à terra do Marlboro por Paula Alzugaray, Istoé

Viagem à terra do Marlboro

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 30 de setembro de 2011.

Fundação Bienal traz importante coleção de museu de Oslo e promove viagem não linear à arte norte-americana dos últimos 30 anos

Em nome dos artistas – Arte contemporânea norte-americana na Coleção Astrup Fearnley/ Fundação Bienal de São Paulo, SP/ até 4/12

Habituados que estamos às irregularidades e aos sobressaltos entre as obras das bienais de São Paulo, torna-se surpreendentemente tranquilo caminhar pelas arejadas salas dedicadas a Matthew Barney, Jeff Koons, Cindy Sherman, Doug Aitken, Felix Gonzalez-Torres, Nan Goldin, Richard Prince – entre outros artistas icônicos norte-americanos dos anos 80 e 90 – no terceiro andar da exposição “Em Nome dos Artistas – Arte Contemporânea Norte-Americana na Coleção Astrup Fearnley”. Programada em comemoração aos 60 anos da Bienal de São Paulo, a mostra expõe um recorte de 219 obras do acervo do museu norueguês. A escolha do curador Gunnar Kvaran, diretor da instituição, se deu sobre 50 artistas norte-americanos ativos entre 1980 e 2010 e mais uma “concessão poética”: uma coleção de obras do artista britânico Damien Hirst de tirar o fôlego.

A exposição está dividida em três “capítulos”. A introdução – triunfal – fica por conta do britânico Hirst, que foi tachado de sensacionalista depois de incendiar a arte e a opinião pública nos anos 90 com seus animais dissecados e conservados em tanques de formol. “Decidimos trazer Hirst porque ele tem uma posição especial na coleção”, afirma o curador Kvaran. “Em 1993, quando ele surgiu, fomos provavelmente a primeira instituição europeia a adquirir suas obras.” Por esse motivo, a coleção Astrup Fearnley tem uma boa representatividade de seu trabalho e, assim, torna-se possível ao público compreender a trajetória e as motivações escatológicas desse artista controvertido. “Além do mais, há um link entre Hirst e a nova geração norte-americana”, sugere Kvaran.

O link fica evidente no terceiro andar do Pavilhão da Bienal, onde o curador instalou o capítulo dos grandes nomes dos últimos 30 anos. Se Hirst colocou animais em aquários nos anos 1990, o norte-americano Jeff Koons começou a instalar ícones da vida americana dentro de vitrines já no início dos anos 1980. Em “Three Ball Total Equilibrium Tank” (1985), ele coloca três bolas de basquete em um aquário e antes disso, em 1981, criou um tanque de luz fluorescente para os aspiradores Hoover e as enceradeiras Shelton. Com clara influência das sopas Campbell’s de Andy Warhol, os altares domésticos de Koons são bem anteriores à série que fez dele o grande artista pop depois de Warhol e antes de Hirst: “Made in Heaven” (1991), em que se autorretrata em cenas de sexo tórrido com a atriz pornô italiana Cicciolina, com quem foi casado entre 1991 e 1992. Em uma sala proibida para menores, há duas fotografias do love de Koons com Cicciolina.

O roteiro da arte produzida na terra do Marlboro continua no segundo andar, onde Kvaran optou por instalar a nova geração, ainda não consolidada – embora o suficiente para ser introduzida em grandes coleções, como a do colecionador Hans Rasmus Astrup, que está entre os 200 maiores do mundo. No segmento “young americans” há muito mais experimentalismo – o que faz desse andar um espaço mais parecido ao das bienais – e gratas revelações, como Paul Chan, com sua magnífica instalação luminosa “The Seven Lights”, dividida em sete salas.

Posted by Cecília Bedê at 4:12 PM

Andrea Matarazzo fala das controvérsias de sua gestão em entrevista exclusiva por João Luiz Sampaio, Maria Eugênia de Menezes e Ubiratan Brasil, www.estadao.com.br

Andrea Matarazzo fala das controvérsias de sua gestão em entrevista exclusiva

Entrevista de João Luiz Sampaio, Maria Eugênia de Menezes e Ubiratan Brasil originalmente publicada no caderno Cultura do Estadão em 8 de setembro de 2011.

Secretário de Estado da Cultura de São Paulo fala sobre polêmicas e mudanças em projetos

Leia também : Dossiê MIS e Paço das Artes: A morte anunciada de um modelo de gestão

Na entrevista a seguir, o secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo, aborda temas como o Festival de Inverno de Campos do Jordão, a nova sede do Museu de Arte Contemporânea e as trocas no comando do Museu da Imagem e do Som, em declarações repercutidas na classe artística paulista.

Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão

"Pretendo transferir o comando do festival, hoje feito pela Santa Marcelina e pela Escola Tom Jobim, para a Osesp. A Santa Marcelina estava sobrecarregada. Como teremos uma ampliação do projeto Guri, preferimos redistribuir o festival. A Osesp ainda está preparando o projeto, mas a intenção é manter a orientação pedagógica atual."

O Estado apurou:

A Osesp já está sobrecarregada. Tem tocado mais e ensaiado menos. Aumentou consideravelmente seu número de concertos. Em 2009, segundo o Relatório Anual de Compromisso Social, foram 228 apresentações, além de 51 ensaios/concertos didáticos; em 2010, o número subiu para 252, mais 60 ensaios/concertos didáticos. Esses dados não incluem as sessões de gravações. Por conta do acúmulo de trabalho, os ensaios de segunda-feira foram cancelados. A Osesp também não tem experiência pedagógica na execução de um evento nos moldes de Campos do Jordão. Sua academia, bastante recente, conta com apenas 20 alunos e ainda não apresentou resultados pedagógicos consistentes.

O tamanho do festival

"O festival terá a dimensão de sempre. Não terá a dimensão que teve em 2010, quando cresceu muito. Na última edição, não houve redução, mas uma volta ao tamanho usual."

O Estado apurou:

Havia um processo de crescimento do festival, anunciado em 2009 e interrompido em 2011. Houve redução no número de concertos, que passou de 83, em 2010, para 55, em 2011. Também houve diminuição de orçamento - de R$ 6,5 milhões para R$ 5,5 milhões -, de duração - de 29 para 20 dias - e do número de bolsistas - de 170 para 164.

Nova sede do MAC

"O prédio está pronto. Negociamos R$ 10 milhões para a manutenção. Mas tive a surpresa de receber uma carta falando do problema do centro acadêmico da Faculdade de Direito da USP. Mas terei uma reunião com o reitor para definir uma data. Vazio o prédio não vai ficar. Poderíamos instalar uma coleção contemporânea da Pinacoteca, por exemplo."

O Estado apurou:

Diante da relutância do reitor, a Secretaria começou a negociar com a Pinacoteca. O prédio seria destinado a acomodar coleções privadas contemporâneas. As negociações entre Secretaria e USP só foram retomadas após interferência direta do Palácio dos Bandeirantes. Reitor e secretário se reuniram na Casa Civil.

Complexo Cultural da Luz

"Não houve corte de 30%. O complexo nasceu com um tamanho, mas foram acrescentando coisas nele: uma escola de dança, uma central de produção de cenários. O contrato assinado não previa o tamanho do prédio. Agora, chegamos às medidas ideais. São 71 mil m², que é o tamanho do Lincoln Center."

O Estado apurou:

O contrato assinado entre a Secretaria e o escritório Herzog& deMeuron, em 2008, baseava-se em um programa elaborado pela empresa inglesa Theatre Project Consultants. Nesse documento, que consta como anexo do contrato, estavam previstas a Escola de Dança e a Central de Produção. Havia também tamanhos especificados para todas as áreas.

Escola Tom Jobim

"A sede da escola dentro do Complexo Cultural da Luz foi reduzida porque estava superdimensionada. Havia espaço previsto para 4 mil alunos. Mas a escola só tem 1.800. Ela vai abrigar a escola integralmente, com capacidade para até 2 mil alunos."

O Estado apurou:

A área prevista para a escola dentro do complexo não se baseava em uma previsão de crescimento, mas nas necessidades do número atual de alunos. Em abril de 2010, a área destinada à Tom Jobim era de 5.900 m². Em julho deste ano, essa previsão caiu para 2.580 m², um tamanho inferior à área que a escola já ocupa em sua sede atual: 3.700 m².

Museu da Imagem e do Som

"A troca de diretoria no MIS foi necessária, pois o museu era caro e restrito. Então, fomos ajustando as diretorias, apertando os controles. André Sturm não foi indicado por mim. Apenas sugeri o seu nome ao conselho, que aceitou minha sugestão. A Organização Social do MIS não estava cumprindo metas. Eu poderia ter simplesmente descredenciado e colocado outra no lugar. Sempre que sentir que os recursos públicos não estão bem aplicados, vou interferir sem cerimônia."

O Estado apurou:

"Não foi apenas uma sugestão. Houve pressão política para que o conselho aceitasse o nome de André Sturm", diz Eide Feldon, ex-presidente do Conselho do MIS. "Faltou negociação." Ela também assegura que não houve descumprimento de metas por parte da OS. "Tivemos crises, mas todas as metas estavam sendo cumpridas. Ele não tinha motivos para descredenciar a OS." A lei que dispõe sobre as Organizações Sociais do Estado, assinada pelo governador Mario Covas em 1998, é clara: apenas o Conselho Administrativo da OS pode "designar e dispensar os membros da Diretoria". O professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Mario Engler, explica que a legislação não prevê que caiba ao governo nomear ou destituir os membros de uma OS. "Essa influência do poder público até pode acontecer, mas em um cenário de descumprimento reiterado das obrigações por parte da OS."

SP Escola de Teatro

"O novo prédio, na Praça Roosevelt, está pronto. Só tivemos uma dificuldade na compra dos móveis e do elevador. Eles não mudaram ainda porque estão enrolando um pouco. Existe espaço suficiente para todas as atividades da escola. Eles é que fizeram o projeto do prédio. Eu herdei isso. Eles é que dimensionaram, agora tem que caber."

O Estado apurou:

A diretoria da escola nega ter participado diretamente da elaboração do projeto da sede na Praça Roosevelt. Não haveria, no novo prédio, área suficiente para abarcar todas as atividades que hoje são desenvolvidas pela SP Escola de Teatro em sua sede provisória, no Brás.

Conselho da Osesp

"Não vou me meter no Conselho da Osesp. Se aceitaram a indicação de Lilia Schwarcz é porque ela tinha qualificações. Não me parece que haja algo estranho no fato de ela ser mulher de Luiz Schwarcz. Não há impedimento legal."

O Estado apurou:

Em agosto, deixaram a Fundação Osesp os conselheiros Luiz Schwarcz, Pérsio Arida, José Ermírio de Moraes Neto e Celso Lafer, que foram substituídos por Lilia Schwarcz, Alberto Goldman, Fábio Barbosa e José Carlos Dias. A troca seria uma maneira de manter Schwarcz, que foi o principal responsável pela escolha da maestrina Marin Alsop para o posto de regente titular, ligado à instituição, já tendo em vista o encerramento do mandato de Fernando Henrique Cardoso na Presidência do conselho.

Posted by Marília Sales at 9:57 AM

outubro 3, 2011

Pintor retrata artistas pernambucanos como criminosos em exposição no Recife por Júlio Cavani, Diário de Pernambuco

Pintor retrata artistas pernambucanos como criminosos em exposição no Recife

Matéria de Júlio Cavani originalmente publicada no jornal Diário de Pernambuco em 3 de outubro de 2011.

Na exposição Capturados: retratos de 25 artistas pernambucanos, o pintor Roberto Ploeg mostra colegas como Gil Vicente, José Cláudio, Tereza Costa Rêgo, Gilvan Samico e Badida, entre outros, retratados como criminosos que acabaram de ser presos. As pinturas os apresentam com rostos baixos, como quem foge da câmera. Uma metáfora da prisão que é o retrato e da relação de fuga-aparição dos artistas com o público.

A exposição fica em cartaz até 29 de outubro na Galeria Mariana Moura (Rua Professor José Brandão, 163, Boa Viagem). Visitação: De segunda à sexta-feira, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 13h Informações: 3465-5602

Leia o texto de apresentação da mostra:

Capturados
Os padrões visuais do fotojornalismo policial são traduzidos para a linguagem da pintura nesta série de retratos de artistas contemporâneos pernambucanos. As definições de enquadramento e iluminação são baseadas em fotos de criminosos que acabaram de ser levados para as delegacias. A gestualidade corporal expressada pelos "modelos" vem das "poses" dos indivíduos recém-encarceirados. O vocabulário espacial da foto de jornal (espontânea, imediata, instantânea, quase mecânica) transforma-se em uma premissa estética a ser adotada por Roberto Ploeg ao pintar seus semelhantes.

Esconder o rosto, evitar olhar para a câmera, cobrir a cabeça com a camiseta e ocultar as mãos algemadas são reações comuns de bandidos que não querem ser reconhecidos nas páginas dos jornais. Para artistas, revelar e tornar pública a identidade pessoal pode ser algo incômodo, supérfluo ou, pelo contrário, até mesmo essencial. A obra sempre é mais importante que o criador, que se sentirá livre para se esconder atrás (ou fora) dela, a não ser nos trabalhos de natureza performáfica ou explicitamente autorreferente (como os autorretratos). O verbo separa o sujeito do objeto, mas ao mesmo tempo cria uma ligação sintática entre os dois.

Apesar de Pernambuco ter atravessado duas décadas como o estado com maior número relativo de homicídios no Brasil (estatística digna de parâmetros internacionais, dado o grau de violência urbana do país), foram poucos os artistas locais a abordarem o assunto em suas produções poéticas. Na série de pinturas Ecce Homo (2007), por meio de telas inspiradas em reproduções de fotos policiais jornalísticas, Ploeg registrou o sentimento onipresente de insegurança da população. A experiência daquela época serviu de pesquisa prévia para os procedimentos cênicos agora simulados. No lugar de pintar homens presos, porém, ele passa a simbolicamente incriminar a própria comunidade artística de que faz parte e assim se projeta na questão.

Com influencia visível e assumida de David Hockney, artista inglês que equipara a fotografia casual à pintura em trabalhos como os Polaroid Portraits, Roberto explicita marcas fotográficas (luzes de flash e sombras recortadas) em suas telas. Antes de pintar os artistas, ele os fotografou e usou as fotos como referência direta para a confecção dos quadros. A câmera, portanto, tem papel determinante sobre o resultado final.

Os retratados são usados, de certa forma, como atores. Há uma direção por parte daquele que os pinta (e os fotografa). A naturalidade está em suas personalidades físicas, traços faciais e estruturas anatômicas, mas não em suas posturas dramáticas no momento da captura. A ficção se impõe sobre o realismo.

A referência ao universo policial não deve, apesar de tudo, quebrar algumas intenções celebrativas evidenciadas pelas obras, pois há um indisfarçável desejo de confraternização por parte de Ploeg, que aceita o risco de brincar com coisa séria. A própria intimidade necessária para a realização de tais pinturas aponta para a amizade existente entre os envolvidos no processo. O ato de prender pode estar simplesmente no gesto de retratar, aprisionar dentro de um retrato, enquadrar.

Todas essas tensões se dilatam em maior ou menor grau de acordo com cada artista apresentado. Os temperamentos pessoais interferem sobre a pertinência simbólica do retrato e a própria obra artística de cada um pode repercutir sobre a exposição dos rostos e corpos. Gil Vicente e Carlos Melo já retrataram a si mesmos em suas obras, seja por desenhos ou fotografias. Ao transportá-los para suas pinturas, Ploeg cria uma consequente continuação daqueles autorretratos ou performances públicas. Reynaldo Fonseca e Gilvan Samico, apesar de consagrados, não costumam mostrar a face na mídia. Assim, evitar olhar para a câmera do pintor seria um comportamento mais comparável ao de uma celebridade resistente diante de um paparazzi do que ao de um criminoso comum. Há casos em que a imagem midiática da pessoa em questão é desconstruída: Thina Cunha, mulher elegante, que sempre figurou em colunas sociais, é recontextualizada em trajes domésticos informais; Tereza Costa Rego, bastante evidenciada publicamente e aberta às lentes de todos, vira o rosto, de óculos escuros, e usa as mãos para tentar bloquear a abordagem do fictício fotógrafo.

Ploeg é um pintor no sentido consagrado do ofício. Figurativo, perfeccionista, narrativo. Sua missão essencial é representar o mundo por meio da aplicação equilibrada de tinta sobre uma superfície. O interesse pelo retrato, mais do que um exercício de gênero, vem de sua formação humanista herdada dos estudos da Teologia da Libertação, que o trouxeram da Holanda ao Brasil há 32 anos. Retratar (pintar o outro) é estar disposto a passar horas debruçado sobre o corpo e o espírito de alguém. Se os personagens da exposição são artistas de Pernambuco, é porque são esses que estão ao seu redor, sem regionalismos. Caso ele vivesse em outra cidade ou país, seu interesse recairia sobre os colegas daquela suposta situação geográfica. Não há como assegurar, contudo, que ele encontraria tanto acolhimento afetivo em outra paisagem.

Posted by Cecília Bedê at 2:28 PM

Interior de SP entra no circuito da arte por Juliana Coissi, Folha de S. Paulo

Interior de SP entra no circuito da arte

Matéria de Juliana Coissi originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 3 de outubro de 2011.

Instituto Figueiredo Ferraz exibe coleção particular com Adriana Varejão, Tunga, Iole de Freitas e outros

Inaugurado em Ribeirão Preto, novo museu terá parceria com instituições de arte da cidade de São Paulo

O colecionador João Carlos de Figueiredo Ferraz, 59, abre ao público amanhã em Ribeirão Preto, no interior paulista, o instituto que leva seu nome e pretende pôr a região no mapa das artes do país.
Com um acervo de quase mil obras, entre quadros, esculturas e instalações, Ferraz, paulistano que vive na cidade do interior desde os anos 80, pode ser considerado um dos maiores colecionadores do país, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

Entre os artistas de seu acervo estão Leda Catunda, Adriana Varejão, Vik Muniz, Tunga, Iole de Freitas e Nuno Ramos, além de estrangeiros.

Agnaldo Farias faz a curadoria de "O Colecionador de Sonhos", mostra de abertura do museu, com 154 obras do acervo de Ferraz. A visitação, de terça a sábado, é gratuita.

Segundo Farias, um acordo com a Pinacoteca do Estado, o Instituto Tomie Ohtake e o Itaú Cultural deverá propiciar a ida de exposições desses espaços, na capital paulista, para exibição no Instituto Figueiredo Ferraz.

"Vamos receber e também propor exposições", afirma Farias, que já foi curador da Bienal de São Paulo.
Fora do eixo Rio-SP, a referência para a arte contemporânea é Inhotim, instituto próximo a Belo Horizonte, com um acervo de 500 obras.

"Boa parte das obras lá foram elaboradas para aquele espaço. No meu caso, é o oposto: eu tinha já coleção e faltava espaço para ela." O colecionador quer, agora, concretizar um segundo desejo: promover em 2013 uma exposição inédita que reúna obras de artistas que despontaram na década de 1980 em torno do ateliê Casa 7. Nuno Ramos, que fez parte do grupo e está na mostra atual, diz que faltam ações no país como a de Ferraz.

"Vejo um número razoável de colecionadores, mas poucos que conseguem mostrar a coleção ao público."

Posted by Cecília Bedê at 1:59 PM | Comentários (1)

Mostra na Bienal reúne o que há de mais valorizado no mercado de arte por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Mostra na Bienal reúne o que há de mais valorizado no mercado de arte

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de outubro de 2011.

Ao trazer ao país um conjunto de obras praticamente impossível de ver num só local, a exposição já se justifica

Estranho apenas é que o time com que se comemoram os 60 anos da bienal tenha estado fora de suas 29 edições

"Em Nome dos Artistas" é não só uma mostra, mas um grande compêndio da produção mais valorizada pelo mercado de arte nas últimas duas décadas.

Pode-se até duvidar que Matthew Barney, Jeff Koons, Richard Prince ou Cindy Sherman, alguns dos ícones em exibição no edifício do Ibirapuera, permaneçam referências tão importantes como são hoje nos futuros livros de história da arte.

Entretanto, os valores que suas obras já alcançaram os colocam na história de qualquer jeito.
Assim, a mostra, com o acervo de um dos grandes colecionadores de arte contemporânea do mundo, o norueguês Hans Rasmus Astrup, ganha no país feição especial.

Salvo raras exceções, essas obras milionárias nunca estiveram por aqui e são conhecidas ao vivo apenas por quem já saiu do país.

Mesmo para os viajantes, no entanto, seria praticamente impossível ver num só local o grupo de obras e artistas ali reunidos. Por isso, ao trazer ao país esse acervo, a exposição já se justifica.

SEGMENTOS
Organizada pelo curador Gunnar Kvaran, também responsável pelo museu Astrup Fearnley, que é a sede da coleção, em Oslo, a mostra divide-se em três segmentos.

O primeiro, do artista inglês Damien Hirst, reúne oito trabalhos de várias fases de sua carreira, entre eles "Mãe e Filho Divididos", uma vaca e um bezerro cortados ao meio, dispostos em vitrines de formol.
A obra sensacionalista do polêmico artista britânico, um das primeiras da mostra, dá o tom espetacular que segue nos demais pisos.

No segundo andar do pavilhão, estão 39 artistas da nova geração norte-americana, dispostos em uma montagem dinâmica, que busca provocar diálogos.

A diversidade de temática e de suportes imprime aí um ritmo mais próximo do que se costuma ver no pavilhão em tempos de Bienal.

Finalmente, no último piso, estão os consagrados. Aí, a cenografia da mostra, a cargo de Daniela Thomas e Felipe Tassara, replica uma montagem bastante museológica.

Conjuntos significativos de obras de Prince e Sherman, artistas que levaram a discussão da fotografia ao limite, ganham destaque, assim como a montagem de Barney, desenhada por ele mesmo.

Estranho apenas é o caráter esquizofrênico da exposição, que comemora os 60 anos da Bienal de São Paulo com um time que, majoritariamente, esteve fora de suas 29 edições -talvez por pertencer a uma tendência da arte marcada pelo comércio.

Posted by Cecília Bedê at 1:42 PM | Comentários (2)

Artista faz árvore de bronze em Inhotim por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Artista faz árvore de bronze em Inhotim

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de outubro de 2011.

Giuseppe Penone rodeou escultura com plantas reais que vão incorporar obra à paisagem real de Minas Gerais

Italiano integrou a 'arte povera', movimento italiano dos anos 70 conhecido pelo uso de materiais precários

Debaixo de uma tenda, Giuseppe Penone foge do sol e olha para sua árvore de bronze. Ela está suspensa por hastes metálicas entre cinco plantas de verdade num descampado de terra vermelha.
Sua ideia é que as copas das árvores reais em torno da sua artificial acabem engolindo a escultura e fundindo as formas naturais às pensadas pelo homem, numa espécie de arquitetura ao contrário.
"Usei a árvore como matéria que se plasma no tempo", diz o artista italiano, que acaba de construir o trabalho no Instituto Inhotim, em Brumadinho, no interior mineiro. "É um material fluido."

Não é a primeira vez que ele usa árvores em seus trabalhos, mas, no caso do Inhotim,paraíso do magnata Bernardo Paz que mistura selva e arte contemporânea, a obra do artista se transforma.

Penone integrou a escola estética da "arte povera" (arte pobre) surgida na Itália nos anos 70. Pertenceu à geração de artistas que via na natureza ou em descartes do cotidiano as formas quase prontas de seus trabalhos. Uma ideia de que arte se constrói com nada ou quase nada.

Os conceitos do movimento ganham outras dimensões ao entrar em contato com a paisagem local, que vai dos descampados ainda não ocupados por obras aos jardins transformados por artistas como Doug Aitken, Cildo Meireles e Adriana Varejão.

IMAGENS AUTOMÁTICAS

"São imagens automáticas da nossa existência, toda obra parte da ideia de que ela é já existente", diz Penone. "Quando faço uma escultura, estou mostrando seu processo de fatura, é esse processo que se torna o conteúdo."

Em seus primeiros trabalhos, por exemplo, o artista interferia no crescimento das árvores, pregando objetos aos troncos para que fossem engolidos no desenvolvimento da planta.

Também embaralhou as raízes de três árvores, para que crescessem juntas.

Penone começa sem saber o resultado final, pensando a escultura como ato em transformação ao longo dos anos, da mesma forma que o corpo humano cresce e definha.

Seu próprio corpo está em muitos trabalhos. Ele chegou a replicar as formas das mãos e dos pés em argila e a estampar em chapas de vidro toda a extensão da própria pele num trabalho dos anos 70.
Duas décadas depois, reproduziu a textura da casca de árvores em pedaços de couro, na tentativa de mesclar peles vegetal e animal.

"São todas motivações ligadas à ideia de escultura, formas que ocupam um espaço", diz Penone. "Até a respiração produz formas diretas."

Essa ideia ele explorou em outra série, feita de vasos de argila com o mesmo volume de ar que ele calculou caber em sua boca. Agora, espera ver surgir, nas copas de suas árvores, uma espécie de catedral de folhas.

Centro mineiro inaugura série de obras na quinta

Muito perto da árvore de bronze de Giuseppe Penone, será inaugurada também nesta quinta uma espécie de colmeia feita de sacos de cimento pelo artista norteamericano Chris Burden.

Na mesma pegada natural, a brasileira Marilá Dardot criou vasos de flores no formato de letras do alfabeto, que visitantes poderão mover para compor frases e palavras num dos amplos gramados de Inhotim.

Penone, Burden e Dardot engrossam a lista de novas aquisições, que conta ainda com o brasileiro Marepe, que construiu uma espécie de calha d'água tortuosa, e o suíço Thomas Hirschhorn.

No caso de Hirschhorn, a obra que ele apresentou na Bienal de São Paulo em 2006 ganha nova versão no Instituto Inhotim: uma espécie de labirinto que mistura referências filosóficas e atrocidades de guerras recentes, como imagens de corpos destroçados.

Na mesma galeria, um vídeo de Cinthia Marcelle retrata um grupo de malabaristas que bloqueiam um cruzamento no trânsito, enlouquecendo motoristas.

Noutro espaço, estão obras dos alemães Lothar Baumgarten e Isa Genzken. Enquanto ele reinterpreta e classifica paisagens da Amazônia nas telas do holandês Albert Eckhout, ela reapresenta sua obra da última Bienal de São Paulo.

Também entra para o acervo uma série das famosas pinturas enviadas por correio do artista chileno Eugenio Dittborn, homenageado com uma retrospectiva na Bienal do Mercosul agora em Porto Alegre.


Posted by Cecília Bedê at 1:28 PM