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Como atiçar a brasa

 


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julho 30, 2009

É permitido fumar e ter delírios na galeria surrealista de Laura Lima por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada por Suzana Velasco no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 29 de julho de 2009.

Artista reconfigura espaço de exposição e cria um fumódromo em frente ao mar

Esqueça o que você conhece por uma galeria de arte. Na exposição “Nuvem”, de Laura Lima, a galeria da Casa de Cultura Laura Alvim ganha paredes tortas, fotografias penduradas em desnível, além de uma orelha e mãos (reais) como suporte de obras. Um dos corpos presentes — coberto, como os outros, por paredes — revela apenas as mãos, que, a partir de amanhã, enrolam fumo e acendem cigarros para os visitantes, numa sala de frente para o mar de Ipanema, de janelas abertas, para quem quiser fumar.

— Existe uma oscilação na disposição das obras, relacionada à própria fumaça, que num momento é tão concreta, mas logo se dissipa — diz Laura. — O que se discute na exposição são questões razoavelmente formais: a altura em que se penduram as imagens, a apropriação das fotos de alguém, o status da galeria, que é um lugar tão formal, mas, aqui, apresenta mistérios que saem das paredes.

As fotos apropriadas por Laura foram retiradas de um livro sobre art nouveau, e alteradas por photoshop. A artista fez delas cenários para pequenas exposições, num jogo com o espectador sobre o que é original e o que foi alterado. Imagens de obras da artista se misturam aos objetos de uma tabacaria, cadeiras ganham novas pernas, esculturas voam, a fumaça se espalha pelos ambientes.

Laura já expôs mulher dopada com comprimido para dormir

A manipulação digital de imagens de outra época, em preto e branco, a disposição das obras na galeria, a fumaça e os membros de corpos humanos dão um clima surrealista à exposição. Laura reconhece a relação, mas diz que não quis transportar qualquer influência direta do movimento para a galeria. Para ela, muitas das propostas da mostra estão ligadas a discussões sobre escultura, inclusive o fumódromo, que reúne elementos com o objetivo de criar fumaça. Charutos, cachimbos, fumo de rolo e cigarros estão à disposição do público, que tem um banco para se sentar, ao lado de um grande cinzeiro, onde as cinzas podem ser apagadas num castelo de areia — uma escultura tão temporária quanto a fumaça que se forma no ambiente.

Os oito homens e mulheres que cedem seu corpo como suporte de quatro peças são divididos em dois turnos, revezando-se em cada peça. O uso do corpo — que, para Laura, é o pilar desta exposição — é constante na obra da artista, que nunca usa a si mesma. Em “Dopada”, da série Homem=Carne / Mulher=Carne, ela expôs uma mulher adormecida depois de tomar um comprimido, uma obra hoje pertencente a Inhotim, em Minas Gerais. Em “O puxador”, da mesma série, cordas saem de uma mochila, vestida por um homem como sua única roupa, e são presas em árvores do lado de fora do espaço de exposições.

— Não são performances. Se for necessária uma classificação, têm mais a ver com a esculturas — afirma Laura, que, apesar disso, foi a primeira artista a ter um trabalho considerado performance comprado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. — O corpo é visto como matéria para se construir algo.

Não só o corpo, mas a ideia de elemento vivo perpassa suas obras. Vencedora do Prêmio Marcantonio Vilaça de 2006, a artista já reuniu pavões e faisões que comiam uma refeição preparada por um chef, com louças que criou, e 70 pássaros num viveiro em que se transformou a galeria A Gentil Carioca, da qual é sócia, desde 2003, com os artistas Márcio Botner e Ernesto Neto.

Além de ser galerista, a artista, que já participou da Bienal do Mercosul de 2003, será uma das curadoras da exposição deste ano, inaugurada em 16 de outubro, em Porto Alegre. Ela diz que está montando uma surpresa, que vai reunir dez artistas, como Cabelo, Romano, Márcia X. e Ricardo Ventura, em torno do absurdo:

— O delírio é fundamental.

Posted by Ananda Carvalho at 3:57 PM

Manifesto acusa ausência de política cultural por Leonardo Lichote, O Globo

Matéria de Leonardo Lichote originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 28 de julho de 2009.

Assinado pelo Conselho Estadual de Cultura, documento pede mais eficiência do Estado no incentivo ao setor

O Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro (CEC) divulgou ontem um manifesto para “alertar a comunidade cultural do país” sobre a ineficiência do Estado brasileiro em promover o desenvolvimento cultural. O documento — assinado por integrantes do órgão, como Edino Krieger, Haroldo Costa, Heloísa Lustosa, Hermínio Bello de Carvalho e Ziraldo — afirma que “é precário e insuficiente o que se produz culturalmente no país, considerando-se a presença do Estado”.

Ana Arruda Callado, presidente do CEC, explica que o manifesto não foi motivado por nenhuma medida específica dos governos federal ou estadual:

— Não estamos aborrecidos com nada — afirma. — Vemos até iniciativas interessantes do Ministério, como os Pontos de Cultura, e da Secretaria. Mas elas não configuram uma política cultural. O ministro (Juca Ferreira) tem um plano com 300, 400 metas. Isso não existe!

“Queremos criar um debate”

Antes de divulgar o manifesto, o CEC encaminhou-o à secretária Adriana Rattes. Ao receber o texto, Adriana marcou uma reunião com o conselho, na qual apresentou a ele o projeto de um plano para a cultura, que será lançado no ano que vem.

— O fato de hoje haver apenas um esboço de plano indica que nós estamos certos — argumenta Ana, que ressalta que não tem nada contra a secretária ou o ministro. — Como o Rio ainda é a capital cultural do país, achamos que tínhamos a responsabilidade de chamar atenção para essa ausência de política. Queremos criar um debate.

O manifesto lamenta o fim de projetos como o Pixinguinha (ainda em vigor, mas não nos moldes antigos, com caravanas que uniam artistas experientes e novos) e o Salão Nacional de Artes Plásticas.

— A cultura brasileira está ótima, as pessoas continuam produzindo. Mas cadê o apoio institucional? Não queremos dirigismo, mas o Estado tem que mostrar que cultura quer incentivar — afirma a presidente do CEC, apontando como um dos principais fatores responsáveis pela atual situação a falta de continuidade dos projetos nas mudanças de governo.

No documento, o CEC pede ainda a revisão das leis de incentivo “que, apesar de importantes para a história do desenvolvimento das ações culturais no Brasil, têm, por sua complexidade, permitido distorções cruéis, que interferem numa mais justa e adequada distribuição de recurso pelas diferentes regiões do país”.

Posted by Ananda Carvalho at 3:48 PM

Proliferação de estátuas no Rio é posta em xeque na EAV por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 24 de julho de 2009.

Artistas e críticos pedem um projeto amplo para a cidade

Num debate acalorado anteontem na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), artistas, críticos e representantes dos governos municipal e estadual discutiram os problemas da ocupação de arte pública no Rio, que nos últimos anos tem sido invadido por estátuas em homenagens a escritores, políticos e músicos.

Diante de uma plateia lotada, os críticos Paulo Herkenhoff e Fernando Cocchiarale e os artistas Ernesto Neto e Everardo Miranda pediram a elaboração de uma política de ocupação da cidade por obras de arte ao subsecretário municipal de Patrimônio, Washington Fajardo, e à secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, presentes ao debate.

O encontro foi organizado após um abaixo-assinado ter sido realizado há algumas semanas, pedindo atenção para a multiplicação sem critérios de esculturas pela cidade.

Sem citar nomes, os debatedores deixaram claro que o estopim foi a proposta de uma escultura de Romero Britto retratando a Garota de Ipanema, que estaria sendo negociada com o governo do estado. Mas a insatisfação é antiga: - Nos últimos 15 anos, o Rio viveu seu pior momento em termos de ocupação pública. Não há zona a salvo. É preciso um movimento de retirada dessas estáutuas - disse Herkenhoff, com ironia, criticando o "hiperrealismo idiota" dos bustos e estátuas que reproduzem personalidades.

- Este momento é uma etapa decisiva nesse processo. Se não assumirmos a responsabilidade de alertarmos o prefeito e o governo do estado, teremos a continuidade das políticas de Cesar Maia.

Os participantes criticaram a comissão criada pelo último governo Cesar Maia após os protestos contra a instalação de obras da escultora Mazeredo em Copacabana. Participante dessa comissão, Ernesto Neto disse que ela foi criada só para calar os que protestavam, mas nunca teve efetividade.

Como Herkenhoff, ele afirmou que é necessária uma concepção maior de ocupação pública, que não se limite à mera distribuição de esculturas. — Qualquer objeto que é colocado carrega uma carga simbólica, representa a nossa sociedade. Se aceitarmos a escultura daquele que ninguém quer dizer o nome, ela vai representar a gente - disse ele, referindo-se a Britto. - Estamos discutindo coisas pequenas, em vez de discutir um projeto para o Rio. Aqui, o projeto é sempre de quatro anos.

Adriana Rattes: "As pessoas adoram os bonequinhos"

Everardo Miranda, participante de uma comissão bem sucedida em 1995 - que instalou na cidade esculturas de artistas como Ivens Machado e Waltercio Caldas, no primeiro governo Cesar Maia -, pediu que a ocupação de obras de arte pública seja definitivamente um assunto da Secretaria de Cultura, e não de setores ligados a Riourbe ou Parques e Jardins.

Apesar da boa vontade, o secretário municipal de Patrimônio se mostrou um tanto perdido com as reclamações, mas mostrou, com um mapa da cidade e suas esculturas, que a ocupação no Rio é feita só na Zona Sul e no Centro. Segundo ele, ao se pensar num política pública nesse tema, é necessário avaliar primeiro que áreas da cidade devem ser privilegiadas.

- Recebo muitos pedidos de bustos e estátuas, mas estou recusando. Só que isso não pode ser proibido com um decreto, temos que pensar em qual tipo de cidade a gente quer - disse, ressaltando que se deve tomar cuidado para não recair em elitismo. - Queremos retomar uma comissão, mas precisamos pensar no seu desenho, em como incorporar a diferença no espaço, para que a gente não produza uma polícia, um fórum de alta erudição somente. Os critérios precisam incorporar a complexidade da cidade.

Fajardo foi interrompido pelo escultor Ivens Machado: - O senhor, como uma pessoa do poder público, pode apoiar ou não uma posição que seja contra essa carnavalização da cidade - gritou. A secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, disse que não defendia o vale-tudo, mas que deve-se atentar para o fato de que as estátuas agradam à população.

- As pessoas adoram as esculturas dos bonequinhos! Eles não aparecem só porque alguém doou, mas porque a sociedade gosta - disse Adriana, que, depois de contestada sobre a aparente defesa das estátuas de personalidades, explicou: - Sou absolutamente a favor das elites, principalmente das elites artísticas e intelectuais, elas existem para liderar.

Ansioso para formar ali mesmo uma comissão, Fajardo recebeu uma sugestão do artista plástico Carlos Zilio, um dos organizadores do abaixo-assinado: - O que a gente pede de imediato ao setor público é que pelo menos não atrapalhe - disse. - A proposta da estátua da Garota de Ipanema é um fato extremamente sério, não é anedótico. É simbólico da decadência do Rio.

Posted by Ananda Carvalho at 3:28 PM

Crítica ao mercado dentro de uma galeria por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 23 de julho de 2009.

Iran do Espírito Santo expõe no Rio pintura que questiona as íntimas relações entre a arte e o comércio

Em sua primeira exposição numa galeria comercial do Rio, o artista paulistano Iran do Espírito Santo critica o ritmo desenfreado do mercado de arte. Os objetos e desenhos mais vendáveis estão lá, numa segunda sala, mas o salão principal da galeria Arthur Fidalgo (no shopping dos antiquários, em Copacabana) tem suas duas principais paredes ocupadas por uma pintura que, em 54 tons de cinza, passa gradativamente do branco ao preto. Aberta hoje ao público, essa é a quarta versão da obra "En passant", que já foi apresentada em duas outras galerias - em São Paulo e em Nova York - e está exposta em Inhotim, uma das mais importantes instituições brasileiras de arte contemporânea, em Minas Gerais. Para o artista, não se trata de uma briga com o mercado, mas um comentário sobre a contaminação da produção de arte pelas exigências de feiras e galerias.

- Foi uma resposta bastante pessoal em relação à voracidade do mercado. É até irônico fazer esses trabalhos em galerias, mas estava bastante cansado dessa velocidade do consumo, apesar de depender dele - diz o artista, que não limita a obra a essa motivação. - É claro que não se explica de maneira tão simplista. Existe uma articulação formal com o espaço arquitetônico e com a pintura.

Iran do Espírito Santo começou a trabalhar como artista nos anos 1980, alternando pinturas de parede, desenhos e esculturas como as exibidas na galeria, em que reduz objetos do cotidiano, como um copo ou uma lata, a seus elementos essenciais. Mas o artista só entrou para o circuito comercial na década seguinte.

Segundo ele, foi boa essa demora para conseguir se manter com a própria arte: - Esse tempo criou uma distância necessária, deu para experimentar bastante. Cada vez mais cedo se deve estar inserido no mercado. Toda essa loucura das feiras cria uma pressão sobre os artistas que segue o tempo do mercado, da bolsa, não o tempo da arte.

Artista se decepcionou com a última Bienal de São Paulo

Na exposição, o jogo de sombra e luz de pretos, brancos e cinzas também é explorado em quatro desenhos, parte de uma série de mais de cem, e num fotograma, que resgata as experiências do artista num laboratório fotográfico, onde trabalhou quando era adolescente.

E esculturas das séries de latas, copos e espelhos mostram a relação do artista com os objetos do cotidiano, que, reduzidos a linhas e volumes, exigem atenção do espectador, que muitas vezes se pergunta: "Isso é uma obra de arte?". ? Na minha primeira exposição, em São Paulo, uma mulher passou pela galeria e perguntou: "Onde estão as obras?" ? lembra ele, que não gosta da classificação "minimalista", frequentemente usada para esses objetos. ? O minimalismo exclui qualquer representação, mas ela existe no meu trabalho, apesar de ele ter uma estética reducionista.

Espírito Santo estará na próxima Bienal do Mercosul, em outubro, em Porto Alegre, também com uma pintura de parede que lida com gradações de claro e escuro. Já participou de duas bienais de Veneza, em 1999 e 2007, e esteve na última Bienal de São Paulo, no ano passado.

Para ele, em geral as bienais também têm se contaminado com as exigências do mercado, aproximando-se de feiras e galerias, e sendo mais influenciadas pelo discurso de curadores do que pelas obras dos artistas. O artista acreditava que a última Bienal de São Paulo, apelidada de "bienal do vazio", pudesse ser uma crítica a essa multiplicação sem freio de obras de arte.

Mas se decepcionou: ? A exposição acabou tendo uma mão muito pesada da curadoria. O que havia de arte ficou tímido, entulhado. As obras não conseguiram falar por si só.

Posted by Ananda Carvalho at 3:11 PM

julho 29, 2009

Esculturas em jogos de escalas por Maria Hirszman, O Estado S. Paulo

Matéria de Maria Hirszman originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 27 de julho de 2009

O carioca José Damasceno expõe três séries de novos trabalhos, após quatro anos de ausência

A mostra Complementar, que José Damasceno acaba de inaugurar no Galpão Fortes Vilaça, quebrando um jejum de quatro anos sem realizar exposições em São Paulo, é um interessante exercício de concisão, que revela muito de sua forma de pensar e fazer arte. Com apenas três trabalhos, ou séries, a mostra trabalha questões recorrentes na trajetória do artista carioca, como o jogo entre diferentes escalas, a elaboração de ordens geométricas e espaciais, uma atuação na fronteira entre o mundo da representação e o mais abstrato nível projetivo.

O mais impactante deles, que dá título à mostra, é composto por uma série de mais de 50 cilindros, em dois diferentes tamanhos, que literalmente pontuam o amplo espaço do galpão, fixando-se no chão e parede de forma a criar relações de escala e perspectiva. "Afinal, o que é o espaço? Ele pressupõe a existência de coordenadas diferentes e produzir; descobrir essas coordenadas me interessa bastante", sintetiza. Esse trabalho remete a outras experimentações desenvolvidas pelo artista ao longo do tempo, na tentativa de potencializar e investigar as relações espaciais, como, por exemplo, na instalação composta por uma série de vírgulas em mármore afixadas nas paredes de um galpão na 4ª Bienal do Mercosul (2003). Mas agora o trabalho adquire um caráter ainda mais desafiante, ao deixar de lado o caráter metafórico, gráfico, da vírgula e substituir o nobre mármore pelo industrial polipropileno.

Como durante muito tempo não teve ateliê, Damasceno habitou-se a desenvolver seus trabalhos - muitas vezes grandiosos - por meio de desenhos, esboços e projetos, vendo o resultado final apenas no espaço expositivo. Essa estratégia acabou tornando-se elemento fundamental do segundo grupo de obras que o artista expõe agora. Iniciada em 2006, os trabalhos da série Projeto-Objetos tem por base exatamente a estrutura do sistema de representação projetiva. O artista parte sempre de uma unidade similar - a caixa de madeira da moldura - e da base reticulada do papel milimetrado. A partir daí, derivam as combinações mais variadas, investigações amplas sobre os mais diversos sistemas de representação, mesclando abstrações de caráter construtivo a poéticas figuradas, de caráter até lírico como a tentativa de fuga da estatueta antiga de mulher, que parece tentar escapar do mundo abstrato e frio da caixa de vidro. "A pessoa é desafiada a tentar entender tudo isso", afirma o artista, que também se considera de certa forma um espectador em sua própria exposição.

Satélite é o terceiro trabalho da exposição. Trata-se de uma estrutura semelhante a um mostruário de cartões-postais, mas cuja haste foi tão prolongada que se torna impossível alcançar os cartões, lá no alto. Mais um dos jogos de escala de Damasceno, com o intuito de estimular a percepção do espectador e que ele considera totalmente natural em seu trabalho. "Afinal, sou um escultor", brinca.

Quem se interessar em ter a imagem exibida pode adquiri-la por um preço "de custo" e a receberá pelo correio ao fim da exposição. Trata-se de uma única e bela foto em preto e branco, feita do mesmo mostruário, colocado na praia do Leme (Rio) e tendo por fundo o mar e o céu. Instigante transformação da paisagem em matriz de representação do espaço, reforçada ainda mais pela circularidade sem fim da linha do horizonte, quando disposta nos dispositivos da estrutura metálica circular.

Essa é a única obra da exposição que não é inédita, e foi concebida para a grande exposição individual realizada pelo artista no Museu Reina Sophia, em Madri, por ocasião do Ano do Brasil na Espanha, em 2008. Essa mostra foi tomada como uma confirmação da posição de destaque de Damasceno no cenário internacional. Em vez de assustar-se ou fascinar-se com tal situação, o artista procura encarar essa fase promissora com distanciamento, considerando o sucesso como mais um fator da série de "armadilhas" que se colocam ao artista ao longo de sua trajetória. "Não quero cumprir com expectativas que são depositadas em mim, mas estar o mais próximo das questões que me motivam", explica.

Posted by Ananda Carvalho at 6:57 PM

Hora de crescer – mudanças a vista

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Hora de crescer – mudanças a vista

A partir de hoje e, enquanto for necessário, publicaremos os e-nformes apenas duas vezes por semana: segundas e quintas-feiras.

A equipe editorial do Canal está hoje baseada em São Paulo, e não mais no Rio de Janeiro, e agora é constituída por jovens artistas, críticos e educadores.

O homedocanal no Twitter será, como o nome já diz, a nossa "primeira página".

Novo projeto do Canal, ainda em fase de captação, propõe novas formas de leitura do circuito de arte e da história da arte com visualizações de redes sociais.


Ao contrário do que afirma a matéria da Ilustrada de ontem, “Arte-tecnologia tem auge financeiro”, estamos nos adequando à crise financeira como todo mundo.

A sustentação financeira de um trabalho de netarte de continuidade é um constante desafio. Como manter um trabalho de arte que se alarga ao longo de nove anos?

Seja pelo difícil e novo modelo de negócio da gratuidade da informação na internet, ou pelo histórico modelo do mecenato e nossa dependência do Estado brasileiro, ou ainda, pelo vazio na geração de uma economia de mercado para o segmento de arte contemporânea, este desafio impõe a nossa coletividade muitas questões a serem trabalhadas.

A economia brasileira sai da letargia de décadas e o Brasil ganha importância no cenário internacional. Como o mercado de arte brasileiro recebe e trabalha esta nova situação? Como podemos desenvolver uma economia própria de um segmento complexo por ser ele mesclado à atuação de instituições? Como mostrar a instituições que, dentro de um modelo econômico, elas são agentes fomentadores e distribuidores de uma produção? Como estimular o uso da propaganda por um segmento quase avergonhado em tratar de cifras e consumo? Como manter publicações sem a prática da publicidade? Como refletir sobre sustentabilidade junto a um segmento tão voltado para o passado? Como acordar uma coletividade para o seu próprio potencial econômico quando ela ainda se quer tutelada?

E, como sempre, chamo a comunidade para a troca de ideias na publicação de comentários no Como atiçar a brasa.

Patricia Canetti
Artista e criadora do Canal Contemporâneo


HORA DE CRESCER
Programa de assinaturas semestrais para a sustentabilidade do Canal Contemporâneo

Agradecemos a estes artistas, críticos, colecionadores, professores, galerias e instituições pela sua participação efetiva no crescimento do Canal Contemporâneo. Veja as listas de usuários e organismos associados na seção Comunidade, totalizando 256, sendo 230 indivíduos e 26 organismos.


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Posted by Patricia Canetti at 8:49 AM | Comentários (2)

julho 23, 2009

Cinco confrontos com Gary por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado de S. Paulo, em 20 de julho de 2009.

Gary Hill, celebrado criador no campo da arte multimídia, inaugura hoje no Rio a mostra O Lugar Sem o Tempo, segunda individual que traz ao Brasil e que estará em São Paulo em janeiro

Com suas videoinstalações, o americano Gary Hill quer promover confrontos: pode ser barulhento e violento, como na obra Wall Piece (2000), feita da imagem de um homem que se joga contra a parede, falando a cada vez uma palavra diferente (foto maior da página); ou algo silencioso e desconcertante, como Viewer (1996), projeção, em telas que somam 14 metros, de uma fila de 15 homens, trabalhadores das camadas subjugadas e exploradas, que encaram o público, quase imóveis. Confrontar, para Hill, é a raiz da interatividade - e é sua maneira de "instigar acontecimentos" na mente das pessoas, trazer à tona os "interstícios de situações". Como diz ao Estado, usando outra expressão curiosa, ele quer promover a "sanfonização do tempo", alongando-o para mexer com nossa percepção.

Quebrando a barreira do que o enclausuraria no campo do vídeo, ou da arte tecnológica, o artista multimídia Gary Hill está inscrito na história da arte contemporânea como um criador já antológico, alguém que, não por acaso, faz parte da geração de Bill Viola e Bruce Nauman, outras duas referências para qualquer que seja o pensamento artístico atual. Por isso, é de se celebrar que este californiano, de 58 anos, que foi skatista e surfista, esteja agora pela segunda vez no Brasil, depois de um pulo de mais de uma década, quando fez por aqui, em 1997, sua primeira mostra individual, O Lugar do Outro.

Hoje, às 19h30, Gary Hill inaugura no espaço Oi Futuro, no Rio, a exposição O Lugar Sem o Tempo, formada por cinco grandes videoinstalações, entre elas, Wall Piece e Viewer, e ainda Accordions - The Belsunce Recordings (2001/2002), Up Against Down (2008) e Language Willing (2002). Em sua passagem pelo País, ele faz também duas palestras, uma amanhã, às 18 horas, no Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63, Rio); e outra na quarta-feira, às 19 horas, no Museu Oscar Niemeyer de Curitiba (Rua Marechal Hermes, 999).

Em 1997, o videoartista e produtor Marcello Dantas realizou a mostra O Lugar do Outro, exibida no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com quatro obras de Hill. "Quando voltei de Nova York, no início dos 90, a gente estava na porta da história da arte contemporânea, coisas novas estavam acontecendo como a explosão do próprio Gary Hill, Bill Viola, Jenny Holzer. A gente não tinha informação, não tinha internet. Hoje eles se tornaram a coisa mais importante da arte e me deu a vontade de restabelecer esse link, entender até o que aconteceu com a nossa percepção. Quando você vai a uma Bienal de Veneza, ou à Bienal de São Paulo, o vídeo, a arte eletrônica viraram a coisa", afirma Dantas.

Para ele, curador também agora de O Lugar Sem o Tempo, orçada em R$ 500 mil e que a partir de janeiro de 2010 será exibida no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, Hill está entre os artistas que trabalham na chamada "time based art" ou arte em que a questão do tempo é fundamental, "seja lá qual for o suporte".

"Há duas questões específicas no trabalho do Gary que podem ser vistas nessa exposição: obras em que ele encara o outro e, por outro lado, obras que são muito performáticas e nas quais ele lida com o si mesmo, ou seja, com o próprio corpo, coloca e confronta o outro", tenta explicar Dantas, ressaltando também um caráter sensorial das videoinstalações do artista. Gary Hill, de forma simples, explica a raiz do confronto: "Quando encaramos o outro, refletimos sobre as verdadeiras ideias que temos de nós, fazemos essa projeção."

Escultor por formação, Gary Hill, que vive desde 1985 em Seattle, fez sua primeira videoinstalação, Hole in Wall, em 1974, obra que na época quebrou o muro que ainda emperrava a aceitação do vídeo como arte. Nascido em Santa Monica, na Califórnia, em 1951, ele se mudou para Woodstock, no Estado de Nova York, no final da década de 1960, onde começou a experimentar o vídeo como ferramenta. "Qualquer um que use a mídia de sua época, que faz filmes, está esculpindo o tempo, exceto os que são feitos em Hollywood", diz Gary Hill, concluindo que, unindo a tecnologia, sempre pensa seus trabalhos como um escultor. "Wall Piece, em que o homem bate seu corpo contra a parede enquanto diz uma palavra, vejo como algo escultórico, penso em como, com essa ação, se pode mudar a forma de uma palavra."

Sempre que se fala na obra do artista, explicita-se que sua pesquisa está fincada na relação entre a imagem e a linguagem. A questão da palavra, portanto, na obra de Hill - que faz seus trabalhos em colaboração com escritores e poetas - é fundamental. "O que é poesia e o que ela pode ser? A maneira como as palavras trabalham em nossa mente e no espaço, quando se lê, se escreve, se descreve, se pensa, é muito diferente, acontece em outro nível. Linguagem, poesia e pensamento têm vizinhança estranha", afirma. No texto de Wall Piece, por exemplo, Hill escreve: "Uma palavra vale um milésimo de uma imagem. Embasbacar-me deixou de ser uma opção. De certa forma, estou cego. Vivencio o tempo por meio de uma série de imagens que conheço desde sempre. Mas é exatamente esse ?desde sempre? que me assombra." Nas camadas do alongamento do tempo e da percepção, algo pode acontecer e Hill arremata: "Quando você perde as palavras é quando experimenta a verdadeira natureza da linguagem."

Entenda Cada Uma das Videoinstalações da Mostra

VIEWER (1996): Conhecido trabalho do artista, é uma grande obra que ocupa cerca de 14 metros de uma sala e é feita a partir de cinco videoprojetores. Em escala humana real, homens identificados como trabalhadores que podemos dizer serem das minorias raciais - imigrantes latinos, etc. - estão em fila, de frente para os espectadores e encarando-os. Eles ficam quase imóveis porque seus gestos são apenas aqueles relacionados à ação involuntária de descanso do corpo. Nesse trabalho, silencioso, simples e potente, Hill joga com a questão do "encarar o outro" - afinal, quem é o espectador de quem?

UP AGAINST DOWN (2008): Este é um trabalho performático e no qual está o próprio Gary Hill. Imagens de partes de seu corpo são projetadas em diferentes lugares, todas elas em cenas de pressão do corpo em tensão com um espaço neutro. A obra também tem o uso do recurso do som.

LANGUAGE WILLING (2002): O poeta australiano Chris Mann recita texto atuado por um par de mãos que mexem dois grandes discos projetados em grande formatos dispostos lado a lado. Os discos são cobertos com papel de parede padrão floral, um vermelho e outro um branco creme. A ação é entremeada com som, que fica mais e menos contundente, criando situação perturbadora.

ACCORDIONS (2001/2002): A obra foi gravada na pequena Belsunce, comunidade franco-argelina em Marselha. O trabalho, formado por cinco projeções não sincronizadas de imagens e sons, é feito a partir de cenas do cotidiano da vida no bairro.

WALL PIECE (2000): Também uma obra diretamente performática, é a projeção da imagem de um homem, de calça, paletó e camisa, que vai se jogando, como flashes, contra uma parede. A ação é acompanhada, a cada vez, de uma palavra pronunciada em voz alta, depois se transformando em texto.

Posted by Ananda Carvalho at 6:35 PM

Ministro da Cultura critica oposição e revela planos por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado de S. Paulo, em 21 de julho de 2009.

Juca Ferreira diz que não vai manchar sua biografia com dirigismo cultural e anuncia ampliação do Vale Cultura, que precisa da aprovação do Congresso

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, garantiu ontem, em conversa com o Estado, que o projeto de revogar e substituir a Lei Rouanet de incentivo à produção cultural vai aumentar os recursos à disposição da cultura, hoje em torno de R$ 1,3 bilhão. Por telefone, comentando um artigo publicado anteontem no caderno Cultura, sobre a discordância de autoridades e representantes de empresas paulistas a respeito da nova Lei Rouanet, Ferreira garantiu que o governo "ganhou uma batalha" contra aqueles que, durante o processo de consulta pública sobre a sua reformulação, criticaram o governo de dirigismo cultural, ao propor que a decisão final sobre a concessão de incentivos a obras caiba a seu ministério e representantes da sociedade, e não aos departamentos de marketing de empresas.

É certo que o projeto, que deveria ser enviado ao Legislativo em junho, ainda terá de ser submetido à aprovação de deputados e senadores, provavelmente no próximo mês, mas o ministro mostra confiança em sua aprovação, após os ajustes feitos com base na avaliação de sugestões colhidas durante a consulta pública feita por seu ministério. "Os que discordam do projeto de reformulação são os maiores beneficiários da lei atual", argumenta o ministro, classificando o enfrentamento dos empresários paulistas de "belicoso". Ele garante que sua biografia política é um atestado contra qualquer tentativa de dirigismo cultural e que a atual legislação, com critérios de análise um tanto vagos, é que permite a distribuição aleatória de recursos, não cumprindo o compromisso democrático.

Ferreira defendeu a instituição de um modelo híbrido de financiamento cultural em que o Fundo Nacional de Cultura e fundos setoriais que serão criados pelo governo irão permitir uma melhor avaliação dos projetos culturais. Respondendo a uma crítica do setor empresarial, de que o governo não tem pessoal para julgar esses projetos, Ferreira lembrou que será aberto um concurso público para pareceristas.

Nesta quinta, o Congresso deverá receber outro projeto de lei do MinC, que institui o Vale Cultura, mecanismo para subsidiar o consumo de produtos culturais. O projeto do vale corre paralelo à nova lei e já desperta o interesse das centrais de trabalhadores, mas precisa de aliados políticos na Oposição para ser aprovado - algumas mudanças previstas não agradam aos setores empresariais, que certamente receberão menos patrocínios.

Posted by Ananda Carvalho at 6:27 PM

Fundação Bienal se explica a promotores por Ana Paula Sousa e Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Ana Paula Sousa e Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 22 de julho de 2009.

Se Ministério Público não aprovar atas, posse de nova diretoria está ameaçada

"O MP está querendo procurar pelo em casca de ovo", diz o conselheiro Jorge Wilheim, que lançou candidatura de Heitor Martins à presidência

A seis dias da tomada de posse da nova diretoria, presidida por Heitor Martins, a Fundação Bienal de São Paulo está às voltas com pedidos de explicação do Ministério Público.

Em ofício enviado à Bienal na sexta, o MP questiona o contrato da mulher de Martins com a fundação, o aumento no número de conselheiros, sua isenção em relação à diretoria e o número de diretores estatutários.

A mulher de Martins, Fernanda Feitosa, aluga o pavilhão para realizar a feira SP Arte. Pelo estatuto recém-aprovado pela Fundação Bienal, deveria cair o número de conselheiros de 50 para 40. Martins, no entanto, indicou seis novos nomes para integrar o grupo.

Após receber as respostas da Bienal, o MP decidirá se aprova ou rejeita as atas da reunião que elegeu a nova diretoria em 28 de maio. Se rejeitadas, a posse, prevista para a próxima segunda, seria suspensa. "A data de posse está mantida. Só por ordem do MP haveria um adiamento", diz Miguel Pereira, presidente do conselho.

Ele enviou ontem ao MP uma carta de sete páginas em que procura responder às perguntas da promotora Ana Maria de Castro Garms e traça um histórico da Bienal, enredada em problemas administrativos e denúncias de irregularidades.

"O contrato [de Fernanda Feitosa] foi renovado ainda na gestão comandada pelo Manoel Francisco Pires da Costa e se estende até o ano de 2015", afirma Pereira. "Nenhuma ingerência teve Heitor Martins na discussão das cláusulas."

Ao citar Martins, o presidente do conselho diz que o empresário foi o único a aceitar o posto, lembrando que, antes dele, todos os postulantes "acabavam por desistir". A única exigência de Martins foi autonomia para "formar uma sólida corrente de apoio". "Tal equipe não se cingia a quatro ou cinco pessoas, mas abrangia um número maior", afirma Pereira.

Outros conselheiros e pessoas ligadas à Fundação Bienal dizem que houve, no entanto, um atraso no registro do novo estatuto e os conselheiros indicados por Martins puderam entrar para o grupo ainda sob o estatuto antigo, que previa sete lugares vagos.

"O conselho não foi incongruente quando antes tinha dito que não iria preencher as vagas e depois resolveu preenchê-las", diz um conselheiro ouvido pela Folha.

"Nos dois momentos, ele agiu pensando no bem da fundação, na necessidade de aportes financeiros." Um dos conselheiros indicados por Martins, Tito Enrique da Silva Neto, do banco ABC Brasil, já doou, via Lei Rouanet, R$ 300 mil para ajudar a sanar as dívidas da Bienal.

Pelo em ovo

Segundo apurou a Folha, alguns conselheiros veem no questionamento do MP uma manobra da atual gestão para adiar a posse de Martins. "Alguém está interessado em dificultar as coisas para a diretoria", diz um conselheiro que não quis ser identificado.

Em resposta, o atual presidente Manoel Francisco Pires da Costa afirma que está "trabalhando sem parar desde quando essa diretoria foi eleita". "Eu fiz tudo para que realmente acontecesse uma transferência de cargo", afirma.

Para o conselheiro Jorge Wilheim, que lançou a candidatura de Martins à presidência, o MP está "querendo procurar pelo em casca de ovo". "As perguntas feitas têm resposta; é uma coisa corriqueira", afirma. "Não estou vendo como fazer grande drama em torno disso."

Posted by Ananda Carvalho at 3:29 PM

Nova Rouanet empaca no calendário por Silvana Arantes, Folha de S. Paulo

Matéria de Silvana Arantes originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha de S. Paulo, em 20 de julho de 2009.

Prevista para chegar ao Congresso em junho, proposta que altera lei de incentivo à cultura só ficará pronta em agosto

Ministério da Cultura diz que sugestões apresentadas pela sociedade atrasaram a confecção de nova legislação de patrocínio

O projeto do Ministério da Cultura (MinC) de revogar e substituir a Lei Rouanet, que canaliza cerca de R$ 1 bilhão por ano à produção cultural, via subvenção fiscal, empacou no calendário.

O objetivo era enviar o documento ao Legislativo em junho. "Há uma questão de tempo político. O projeto precisa chegar ao Congresso no máximo até o meio do ano", afirmou à Folha, em março, o secretário-executivo do MinC, Alfredo Manevy. Agora, o ministério estabelece agosto como novo prazo para submeter a proposta a deputados e senadores.

O atraso, segundo o MinC, deve-se ao fato de que tornou-se mais complexo do que se supunha o processo de ajustes que estão sendo feitos no texto, levando-se em conta as cerca de 2.000 sugestões recebidas na consulta pública realizada entre março e maio passados.

Embora a chamada Nova Lei Rouanet ainda esteja na gaveta ministerial, o Congresso deverá receber, nesta quinta, um outro projeto de lei do MinC. Trata-se de um desmembramento das medidas previstas na Nova Rouanet, com as quais o ministro Juca Ferreira (Cultura) pretende reconfigurar o modelo de financiamento à produção cultural no país.

O ponto a ser antecipado ao Congresso institui o Vale Cultura, um mecanismo semelhante ao do Vale Refeição, que subsidia o consumo, no caso, de produtos culturais. Segundo o MinC, essa é uma proposta "consensual", que tem, portanto, chances de tramitação e aprovação velozes. Daí a explicação para o fato de ser apresentada em separado e antecipadamente à Nova Rouanet.

Outro aspecto leva a crer que o MinC prevê embate no Congresso em relação ao projeto de modificar a Lei Rouanet, que dá mais poder ao ministério de decidir onde aplicar o dinheiro.

A pasta prepara para breve uma reunião para discutir o projeto com os representantes das empresas que mais investem em cultura no país.

De um lado, o MinC gostaria de obter dos patrocinadores o compromisso de que investirão mais dinheiro privado e menos "recursos incentivados" na cultura. Os empresários, por sua vez, argumentam que muitas das mudanças previstas na lei a tornam menos atraente e acenam com menos patrocínios.

Dedos e anéis

A Folha apurou que o MinC adotará na reunião a estratégia de não ceder a pressões. Avalia que "o risco é perder os anéis agora, e os dedos lá na frente".

Negociando em diversas frentes simultaneamente, o ministro Juca Ferreira divulgou ter obtido neste mês uma moção de apoio de governadores do Nordeste e do de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), além da promessa de que irão pressionar as bancadas de seus respectivos Estados para aprovar o projeto da Nova Rouanet.

Diante do atraso no cronograma de substituição da Lei Rouanet -objetivo declarado do MinC desde a primeira gestão do governo Lula-, o ministério diz ter optado por "consertar o avião enquanto ele voa", conforme diz Manevy.

Uma das iniciativas para aperfeiçoar o funcionamento do mecanismo foi tomada na semana passada, quando o MinC lançou edital para a contratação de avaliadores.

A medida é, de acordo com o MinC, uma tentativa de profissionalizar e qualificar o método de avaliação dos projetos que aspiram ao benefício da lei. "O ministério tem pareceres hoje, mas são ruins. O sistema não funciona bem", diz o secretário-executivo da pasta.

Ministério muda artigo polêmico

O Ministério da Cultura reescreveu o mais polêmico artigo de seu projeto que revoga e substitui a Lei Rouanet -o que estabelece o direito de uso, pelo governo, de obras produzidas com o incentivo da lei federal.

Na forma anterior, que desencadeou uma onda de reações negativas e a suspeita de ilegalidade por advogados consultados por patrocinadores, o artigo 49 estipulava que "o Ministério da Cultura e demais órgãos da Administração Pública Federal poderão dispor dos bens e serviços culturais financiados com recursos públicos para fins não-comerciais e não-onerosos, após o período de três anos de reserva de direitos de utilização sobre a obra".

O prazo para o usufruto pelo governo de obras financiadas pela lei caía para 18 meses, em caso de "fins educacionais, igualmente não-onerosos".

Novos critérios

A nova redação desse artigo estabelece que "a União poderá exigir, como condição para a aprovação de projetos financiados com o mínimo de 80% de recursos públicos, que lhe sejam licenciados, em caráter não-exclusivo e de forma não-onerosa, determinados direitos de utilização das obras intelectuais resultantes da implementação de tais projetos".

No esforço de atenuar a preocupação de produtores culturais de que essa exigência comprometerá a exploração comercial de seus produtos, o MinC acrescentou dois parágrafos ao artigo.

O primeiro determina que "o uso previsto neste artigo será permitido após decorrido um prazo não inferior a três anos do encerramento do projeto, conforme disposto no regulamento, e deverá ser para fins institucionais e não-comerciais, tais como educacionais, culturais e informativos".

Por fim, o texto afirma que "a licença de que trata este artigo refere-se a uma autorização voluntária restrita a certos direitos de utilizar a obra intelectual, nos termos e condições fixados, sem que se caracterize transferência de titularidade dos direitos".

Posted by Ananda Carvalho at 3:22 PM

julho 17, 2009

A arte de dar a volta por cima por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 10 de julho de 2009.

Sophie Calle, a francesa que faz da frustração o motor de sua arte, traz ao Brasil trabalho gerado a partir de email de rompimento relação amorosa e reencontra aqui o pivô dessa história

Cuide de você/ SESC Pompéia, SP/ de 11/7 a 7/8
Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ de 22/8 a 22/11

Em junho de 2004, depois de tomar um fora do namorado por email, a artista francesa Sophie Calle fez uma consulta no Hospital Público de Paris. A médica que a atendeu anotou que não via razão para prescrever anti-depressivos. “Você está simplesmente triste. A solução não é química”, escreveu a Dra.

Catherine Solano em uma receita médica em tom de carta pessoal. A médica finalizava com a sugestão: “Você encontrará recursos para reagir”. A reação de Sophie Calle ao fim de sua história de amor com o escritor franco-argelino Grégoire Bouillier pode ser conferida pelo público paulistano a partir de sábado, 11, na exposição “Cuide de você”. Intitulada com as últimas palavras de Bouillier, a exposição reúne as interpretações que 107 mulheres deram à carta de rompimento.

“Meus projetos nascem da frustração e da impossibilidade”, explica Sophie Calle. “Não entendi essa carta, não pude respondê-la, então pedi a outros que o fizessem por mim”. Lida e relida 107 vezes, a carta passou por uma análise literária e lingüística, por revisão gramatical, por interpretação jurídica, por leitura de tarô. Foi transformada em partitura musical, em código numérico, em passos de dança. Foi dissecada por mulheres famosas como Vitória Abril, virou picadinho nas mãos da atriz Miranda Richardson, e até comida em bico de cracatua. “Não gosto de choro. Encontrei uma forma de manter um distanciamento pedindo que outras mulheres lessem a carta utilizando seu vocabulário profissional”, conta.

As reações integram a mostra na forma de textos, fotos e vídeos. Há desde reações lacrimejantes e indignadas – as mais previsíveis -, até performances notáveis e surpreendentes – que realmente sacodem a poeira – como as da artista multimídia Laurie Anderson e da cantora Camille.

Os trabalhos de Sophie Calle nascem sempre como uma reação. “Podem vir de meu fracasso no amor ou de meu fracasso em encontrar uma idéia”. Seu primeiro projeto, “Suíte Vénitienne” (1979), em que perseguiu um homem de Paris até Veneza anotando todos os seus passos como um detetive, veio da ausência de iniciativa própria. “Eu estava tão passiva que precisava usar as pessoas como motor para minha atividade”. Em “Unfinished” (2005), sua incapacidade de lidar com imagens de câmeras de vigilância tornou-se o motor para um documentário sobre uma crise criativa que durou 15 anos levou um trabalho a permanecer inacabado.

O reencontro entre Sophie e Bouillier na Feira Literária de Paraty, no sábado 4, poderia dar a impressão de que “Cuide de você” é também um trabalho inacabado, pronto para uma possível retomada. Sophie nega. “Dez dias depois de começar o trabalho, eu tinha medo de que ele voltasse para mim. O trabalho se tornou muito mais importante do que a nossa relação. O trabalho está acabado e eu amo outra pessoa”.

Estante

Duas autobiografias e um encontro

Sophie Calle e Grégoire Bouillier dividiram uma mesa na Feira Literária de Paraty para discutir a relação em público. Por trás do debate, dois livros autobiográficos, em que a ficção empresta seu tom à realidade.

O convidado surpresa/ Grégoire Bouillier/ CosacNaify/ R$ 35
Grégoire Bouillier narra a história de uma única noite: a experiência de transformar-se em personagem de uma das obras de Sophie Calle. No dia em que a artista fez 37 anos, ele foi o convidado número 37 de sua festa de aniversário, como parte de ritual que a artista inventou para sentir-se menos só.

Histórias reais/ Sophie Calle/ Agir Editora/ R$ 34,90
Com 30 textos curtos e contundentes – com uma imagem fotográfica dedicada a cada um deles –, este primeiro livro de Sophie Calle editado no Brasil expressa bem o estilo da artista: sem sobras, nem excessos. Trata-se da narrativa de uma vida em que cada fato cotidiano é feito de uma pequena performance.

Dez verbos para Sophie Calle
A vida artística de Sophie Calle sempre foi mediada por ações reincidentes. Selecionamos dez dessas ações para ela comentar. À lista, Sophie acrescentou, no final, mais uma palavra.

Listar
Faço isso como uma maneira seca de colocar as emoções; um modo de tomar distância em relação aos fatos.

Documentar
Não sou documentarista. Documento as regras dos jogos que organizo com um propósito mais poético que jornalístico.

Ficcionalizar
Não invento histórias. Mas as histórias são sempre fictícias. Se escolho uma palavra no lugar de outra, já estou fazendo ficção.

Roteirizar (a própria vida)
Escolho um sujeito completamente arbitrário. Um homem para perseguir. Esse homem não significa nada para mim, mas ele se torna uma obsessão graças à regra do meu jogo. Quando o jogo acaba, ele está fora da minha vida. As regras são uma forma de criar emoção com controle. Em minha vida normal, não tenho esse controle.

Fotografar
Na minha primeira foto eu não vi o que fotografei. Quando estava vivendo na Califórnia, fotografei uma tumba num cemitério, onde estava escrito: “irmão, irmã”. Só me dei conta disso quando voltei à Paris e revelei a foto. Vinte anos depois, voltei ao cemitério e me dei conta de que as tumbas não continham nomes, mas vínculos familiares: “pai, mãe”; “mãe, filha”; irmão, irmã”.

Observar e ser observada
Isso foi há 30 anos atrás. Eu não persigo alguém para observá-lo desde 1979.

Vagar
Comecei a seguir pessoas porque estava perdida, não sabia para onde ir, não tinha desejo nenhum. Pensei que seguindo pessoas descobriria novos lugares. Tomei gosto por não ter de decidir nada, por deixar as pessoas decidirem por mim. Essa foi uma forma de conhecer Paris novamente.

Citar
Eu faço citações? Também não presto atenção a citações ao meu trabalho.
Colaborar

Em “Cuide de você”, quis que outras mulheres respondessem à carta por mim. Minha resposta seria a soma, o acúmulo de todas essas respostas.

Arquivar
Eu arquivo tudo. Guardo tudo, a princípio, porque tenho uma ausência patológica de memória. Leio um livro cinco vezes, fecho o livro e não me lembro o nome do personagem. Sempre fui assim, desde a escola. Arquivo tudo para me lembrar.

Ausência
A palavra que eu diria que mais fala sobre o que eu faço é “ausência”. Eu adicionaria essa palavra à minha lista. Mas não posso dizer nada sobre a ausência.

Roteiros

Game também é cultura

GAMEPLAY/ Itaú Cultural, SP / até 30/8

Não é de hoje que o game ganhou espaços expositivos de centros culturais destinados a obras de arte. Desde o início da década, os games integram mostras de arte e tecnologia, como o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE) e o evento Emoção Art.ficial. Desta vez, os jogos ganharam uma exposição exclusiva, no Itaú Cultural, com onze videogames e seis instalações.

Mesmo que alguns trabalhos se aproximem da já conhecida “game-art”, os organizadores da mostra insistem em não haver aqui a intenção de pensar o game como obra de arte. “Este não é um evento estético. Não entramos na discussão do ser ou não arte, apenas assumimos o vídeo-game como parte da cultura contemporânea e desejamos pensar o conceito da ‘gameplay’ ou ‘jogabilidade’, que nós definimos como a interação do humano com a máquina”, explica Guilherme Kujawski, gerente do núcleo de Arte e Tecnologia do Itaulab. Na seleção, há desde jogos comerciais, como o “FIFA Street 3”, em que o jogador organiza um time de craques do futebol jogando uma pelada no meio da rua, ao famoso “Mario Kart Wii”.

Uma versão do clássico da Nintendo, o jogo é um simulador de corrida com Mario Bros e seus famosos colegas.

Por outro lado, reforçam a idéia da game-art, trabalhos como “KinoArcade”, do coletivo Windows Media Players, em que o jogador entra numa espécie de fliperama para re-editar com joysticks o filme “Encouraçado Potemkin”, de Serjei Eisenstein. Ou ainda “Velvet strike”, concebida pelos artistas Marie Schleiner, Brody Condon e Joan Leandre, do qual o público não participa ativamente e é considerada, segundo os organizadores da mostra, um clássico da video-arte. Arte ou não, a mostra é um enorme sucesso de público, com filas de espera de até duas horas para interagir com as máquinas.

Fernanda Assef

Posted by Ana Maria Maia at 7:42 PM

Nova safra argentina por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 3 de julho de 2009.

Panorama da arte contemporânea argentina elege a figuração como principal tendência da produção atual

Argentina hoy/ Centro Cultural Banco do Brasil, SP/ 6/7 a 30/8

O pintor e engenheiro Prilidiano Pueryrredón (1823-1870) teve na Argentina importância semelhante a Almeida Júnior (1850-1899), no Brasil. Um foi pioneiro em documentar nas telas a figura do gaucho argentino, a vida nos Pampas e nas margens do Rio de La Plata; outro foi o primeiro artista plástico brasileiro a retratar o homem da roça. Pueryrredón teve enorme influência sobre o desenvolvimento da arte na Argentina e nomeou sua Escola Nacional de Bellas Artes, onde diversas gerações de artistas tiveram sua formação. O pintor foi fundamental para traçar as diretrizes que acompanhariam a produção daquele país durante todo o século 20: o figurativismo e a narratividade. Até hoje, pelo que atesta a mostra Argentina hoy, esses valores determinam uma boa parte da produção artística do país. A exposição traça um panorama da arte contemporânea argentina, mas elege a figuração como seu partido principal. Tradicionalmente, a figuração divide-se em três grandes eixos: a paisagem e o retrato e a natureza morta.

Na exposição, nota-se uma predileção especial pelas paisagens (urbanas e rurais) e pelos retratos. Como a pintura e a fotografia são os meios que dão melhor resolução à expressão da figura, é natural que eles sejam preponderantes na exposição do CCBB. Artistas como Nicola Constantino, RES e Constanza Piaggio usam a fotografia para questionar alguns pressupostos da perspectiva e da pose. Na fotografia “A Dama” (2005), RES e Constanza Piaggio re-encenam uma tela de Leonardo da Vinci, pintada entre 1483 e 1490, na tentativa de desmantelar alguns mitos gerados pela perspectiva renascentista. Em “La cena” (2008), a artista Nicola Constantino dá um tratamento erótico à uma cena muito próxima ao enquadramento tradicional de uma Santa Ceia.

Entre as figuras de Argentina hoy, encontra-se de tudo, mas muito pouco relacionado à vida da Argentina campestre, tão bem representada pelo mestre Pueryrredón. Sinal de que a produção do país abre-se para o contexto internacional, assim como acontece com a arte brasileira. Entre os 33 artistas presentes na mostra, há desde Jorge Macchi, Tomás Saraceno e Leandro Erlich, de grande projeção internacional, aos jovens talentos Ariel Cusnir e Mariana López, que ainda não fizeram 30 anos. Com obras na coleção Daros Latinamerica e individuais no PS1-MoMA de Nova York e no Museo Nacional Reina Sofia, em Madri, Erlich é considerado, mais que argentino, um artista internacional. Mesmo com a lamentável ausência de artistas de enorme representatividade como Guillermo Kuitca, Roberto Jacoby, León Ferrari e Liliana Porter, a exposição é uma ótima aproximação à uma produção que infelizmente ainda nos é desconhecida e distante.

Roteiros

Moby Dick paulistano

JOÃO LOUREIRO: BLUE JEANS/ Pinacoteca do Estado, SP /até 23/8

Melville não acreditaria. Uma baleia encalhada na Pinacoteca do Estado de São Paulo é uma ficção de tamanho peso, quase tão grande quanto a mais célebre baleia da literatura de todos os tempos. A instalação “Blue Jeans”, de João Loureiro, que ocupa praticamente todo o espaço octógono do museu é uma baleia em escala real, feita de uma tonelada de isopor e revestida com 200 metros de jeans. O tecido, segundo o artista, é fundamental porque representa a cultura de massa e contribui com sua intenção de discutir as relações entre arte e entretenimento, consumo e natureza.

“A baleia é um animal que a gente conhece mais por imagem que pela presença, o que torna ela um ser meio mítico”, explica Loureiro, que já havia trabalhado com instalações de animais em tamanho real na sua primeira individual “Zootécnico”, que esteve em exposição na Galeria Vermelho até o final de semana passado. Na Pinacoteca, “Blue Jeans” faz parte do Projeto Octógono Arte Contemporânea, em que projetos dialogam com o espaço. “Essa instalação é uma resposta direta ao espaço monumental do octógono, que permite o tamanho colossal de uma baleia. Além disso, a Pinacoteca tem uma variedade de exposições de arte contemporânea, arte tradicional, botânica, arqueologia... em fim, achei interessante dar a impressão de um museu de história natural no meio disso tudo”, diz Loureiro.

Fernanda Assef

Posted by Ana Maria Maia at 7:34 PM

Três vezes performance por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 26 de junho de 2009.

Mostra reúne Laura Lima, Pilar Albarracín e Regina José Galindo, três artistas que tem o corpo como forma de expressão

Corpos estranhos/ Memorial da América Latina, SP/ até 26/7/
MAC USP/ de 6/8 a 4/10

Poucas palavras têm tanto uso e aplicação quanto performance. Se na língua portuguesa, performance é o índice que avalia o desempenho – de um atleta, um profissional, uma máquina, um instrumento, um ator; o termo também consta do glossário da história da arte desde a década de 1960, referindo-se a manifestações que têm o corpo como principal forma de expressão. De lá para cá, a performance já se desdobrou em “categorias” como o happening, a aktion, o ritual, a destruction art, o acionismo, a body art, a street art, o skate art, etc etc. Com curadoria de Claudia Fazzolari, a mostra “Corpos estranhos”, em cartaz em São Paulo até outubro, reúne três artistas com diferentes utilizações do termo.

A vulnerabilidade do corpo e a crítica social são os fatores que aproximam os trabalhos da guatemalteca Regina José Galindo, da espanhola Pilar Alabarracín e da brasileira Laura Lima. Regina Galindo testa os limites do corpo como forma de denúncia social: a instalação sonora “(279) Golpes” emite o som de açoites que a artista empreendeu contra o próprio corpo; um para cada mulher assassinada num período de 6 meses, na Guatemala. No vídeo “Reconocimiento de un cuerpo”, a artista permanece nua e anestesiada sob um lençol, à mercê dos visitantes da exposição. Com a performance, faz uma menção aos desaparecidos nas ditaduras militares na América Latina.

Se Regina Galindo é a protagonista de seu trabalho, Laura Lima precisa do envolvimento do público para que sua obra se realize plenamente. A artista desenvolve esculturas “vestíveis” pelo público, mas, dessa vez, seu trabalho “Nômades” é uma belíssima coleção de máscaras penduradas na parede, que funcionam mais como pinturas do que como roupas. Mesmo que não fique evidente à primeira vista, a tortura e a história política da America Latina também são subjacentes às máscaras de Laura Lima, na medida em que elas apresentam formatos estranhos e ameaçadores, que desafiam o corpo.

Os clichês sobre a mulher espanhola, a mulher latina e a mulher árabe são o objeto da crítica de Pilar Albarracín. “Não trabalho com a dor corporal, mas com uma dor psíquica, os problemas relacionados com a imigração ilegal e as dificuldade de exportação de uma cultura a outro contexto. Me interessa, por exemplo, a forma como a cultura árabe é exportada para a Europa”, diz ela. Estereótipos hibéricos como a dança flamenca e o presunto Pata Negra estão entre seus ícones favoritos.

Saiba mais

Muito além da dança

O evento VERBO, na galeria Vermelho, em São Paulo, já é lugar cativo para os amantes e praticantes da performance, esse gênero artístico que aproxima as artes plásticas, dramáticas, musicais e audiovisuais. A 5ª edição, que acontece entre 6 e 10 de julho, reúne 50 artistas brasileiros e internacionais e promove o lançamento de duas publicações – o livro de artista “O Performer”, de Fabio Morais, e a revista “Marte #3” –; além de dois DVDs com compilações de performances de Mauricio Ianês e marco Paulo Rolla.

Roteiro

Ligue os pontos e descubra a figura

Objeto imaginado/ Centro Cultural São Paulo, SP/ até 16/8

Ver a exposição “Objeto imaginado” é como procurar carneiros no céu. Ou como jogar o jogo do “Ligue os pontos e descubra a figura”. Tome, por exemplo, as duas esculturas de Laura Husak Andreato: uma, no chão, reproduz um beiral da fachada de uma casa, com uma luminária acesa; a outra representa um degrau, feito em lajota de cerâmica. Entre os dois objetos, o vazio. Ou melhor, uma casa imaginária, talvez com grades ou cortinas na janela, talvez com a porta entreaberta. Ao lado da possível casa de Laura Andreato, outras obras apresentam espaços em branco. “Em muitas das obras aqui apresentadas, a noção de vazio aparece como a principal razão de ser do objeto”, afirma o curador Paulo Monteiro.

A exposição faz um recorrido pelas produções da década de 1970 até 2000, presentes na Coleção de Arte da Cidade de São Paulo, mas está longe de produzir um panorama da arte contemporânea brasileira.

Felizmente, o curador optou por ser excludente em vez de abrangente e, com apenas 27 obras, traça uma história bem contada dos acontecimentos artísticos dos últimos 30 anos. Em um acervo de 2.800 obras em diversas técnicas e seis coleções de arte postal com 3.500 peças, Monteiro primou pela economia e elegeu a imaterialidade como questão fundamental para a compreensão da arte contemporânea.

A mostra parte das idéias da “morte da pintura”, que ganharam força nos anos 1960 e incentivaram produções arrojadas como a performance (uma ausência lastimável na coleção e na curadoria) ou a arte postal. Entre os pioneiros da arte imaterial, há presenças notáveis, como a serigrafia “The desert”, de Antonio Dias (foto), ou os “Jornais clandestinos” (1975), em que Antônio Manuel inventa noticias chamadas jornalísticas de primeira página, como “Pintor mostra pós-arte”. O “objeto imaginado” aqui é a história do pintor que não pinta mais e entra nu no museu de arte moderna para “mostrar a coisa viva”. Entre os contemporâneos, os “objetos imaginados” da fotografia da série “Fazendo estrelas”, de Albano Afonso, são os céus estrelados das telas de Van Gogh, apenas sugeridas pela fotografia.

Posted by Ana Maria Maia at 7:29 PM

Um filme noir em Porto Alegre por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 19 de junho de 2009.

O cineasta Pierre Coulibeuf faz filme-instalação inspirada na arquitetura de Álvaro Siza e na pintura escura de Iberê Camargo

Dédale/ Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre/ Até 30/8

Iberê Camargo começou a pintar paisagens na década de 1940, mas os azuis profundos e os tons fechados só entrariam em sua paleta no final dos anos 1950, quando uma hérnia de disco encerrou-o dentro de casa por um longo período. A imobilidade e a convalescência, na cama, trouxeram-lhe, além das cores escuras, as lembranças da infância e a memória de um elemento que passaria a fazer parte de toda a sua obra: os carretéis que roubava da caixa de costura de sua mãe e logo viravam brinquedos. A escuridão das pinturas dos anos 1960 e a circularidade dos carretéis foram a fonte de inspiração para o artista cineasta francês Pierre Coulibeuf produzir o filme-instalação “Dédale”, em cartaz em Porto Alegre. O trabalho é um site-specific, ou seja, foi concebido e montado de acordo com a arquitetura do edifício do Instituto Iberê Camargo, projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza. Composto por três projeções de vídeo e uma série de 12 fotografias, o filme-instalação é um encontro de três artes: a pintura de Iberê, a arquitetura de Siza e o cinema de Coulibeuf. “Tentei realmente me apropriar da arquitetura e do movimento produzido por esta extraordinária espiral. Siza propiciou-me o conceito e a estrutura do filme: o labirinto”, diz o cineasta.

O filme desenvolve, de maneira não-linear, a narrativa do mito de Dédalo, o arquiteto que construiu o labirinto para o rei Minos aprisionar o Minotauro, seu filho monstruoso. Os dois personagens fazem referência a Ariadne e Teseu, interpretados pela atriz portuguesa Vânia Rovisco e o ator brasileiro Matheus Walter. Mas um terceiro personagem, o Minotauro, pode ser reconhecido na aparição das pinturas escuras de Iberê Camargo, freqüentemente enquadradas pela câmera de Coulibeuf. “Eu me atraí particularmente pelas “pinturas escuras”, que representam para mim uma espécie de enigma. Elas aparecem como forças obscuras que assombraram o pintor”, afirma ele.

Coulibeuf é um cineasta que expõe em museus, monta seus filmes em forma de instalações com múltiplas telas, e trabalha no limite entre o cinema, a literatura e as artes visuais. O convite para trabalhar em Porto Alegre partiu do curador Gaudêncio Fidelis, como uma forma de reintroduzir a obra de Iberê no universo contemporâneo, para além de seu contexto moderno. Depois, o filme-instalação “Dédale” será adaptado para exibição no Museu de Arte Moderna de Saint-Ethienne, na França.

Roteiros

Antes tarde

DIÁLOGOS EM MOVIMENTO: VÍDEO-ARTE CUBANA CONTEMPORÂNEA/ Museu de Arte Contemporânea Dragão do Mar, Fortaleza/ de 23/6 a 13/9

Para os críticos e historiadores, o uso do vídeo com fins artísticos começou em meados dos anos 60. Mas em Cuba, principalmente por causa do difícil acesso à tecnologia com o embargo econômico, a videoarte teve sua primeira “aparição pública” apenas em 1994, no Festival de Vídeo Arte. Hoje, a intenção da mostra “Diálogos em movimento”, em Fortaleza, é fazer um apanhado geral da produção contemporânea cubana do gênero. São quinze vídeos de quinze artistas reconhecidos no cenário artístico cubano e mundial, mas em sua maior parte desconhecidos do público brasileiro.

As obras selecionados pelo curador cubano Rafael Acosta de Arriba não possuem um vínculo temático. Pelo contrário. A mostra explora temáticas e estilos bem diferentes. O nacionalismo cubano aparece em “Havana Solo”, de Juan Carlos Alom, também conhecido por seus trabalhos em fotografia experimental. O vídeo aborda a música como formadora da identidade cultural nacional. “Tiempos Modernos”, de Fernando Rodriguez, tem a ironia como fio condutor e faz uma sátira sobre a sociedade moderna. “A dream without”, de Luis Gómez, é um exercício surrealista que recria o clássico “Nosferatu” de Murnau.

Freqüentemente, os artistas têm no vídeo uma linguagem complementar a seus trabalhos em pintura e escultura. “Como não poderia deixar de acontecer, muitos códigos artísticos foram incorporados na vídeo-arte cubana, que é assumidamente híbrida. Não é possível definir com precisão características deste gênero em Cuba – como não podemos determinar o que é a vídeo-arte européia ou latino-americana – mas é possível sinalizar algumas características comuns, como, por exemplo, o diálogo com mitos da história da arte, o questionamento social, a veia poética, as referências surrealistas, a ironia”, comenta o curador. A mostra faz parte do projeto “Americanidades”, do MAC-Dragão do Mar, que procura divulgar a produção latino-americana no nordeste brasileiro.

Fernanda Assef

Posted by Ana Maria Maia at 7:24 PM

“Não deixo mais vocês brincarem” por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 12 de junho de 2009.

Em entrevista, Nelson Leirner diz que esta é sua exposição mais séria e repleta conceito

Ocupação Nelson Leirner/ Itaú Cultural/ até 28/6

Quando Nelson Leirner enviou seu “Porco” para o 4º Salão de Arte Contemporânea de Brasília, em 1966, fazia parte da obra – alem do porco empalhado, propriamente dito – uma peça de presunto que desapareceu no trajeto São Paulo-Brasília. Mas a suposta devoração do presunto não estava totalmente fora dos planos do artista, que naquela época dedicava sua criação à participação do público. Hoje, na revisão que fez do trabalho, o presunto está engradado e inacessível. A obra integra a “Ocupação Nelson Leirner”, novo projeto do Itaú Cultural que convida artistas veteranos, dando-lhes liberdade para ocupar o primeiro andar do edifício na av. Paulista. Leirner decidiu por fazer uma revisão contemporânea de alguns de seus clássicos. Depois do artista plástico, será a vez do diretor teatral José Celso Martínez.

A citação, especialmente a Fontana ou a Duchamp, sempre foi importante em seu trabalho. Mas como é citar-se e recriar–se a si mesmo?
A idéia é conversar comigo mesmo e mostrar para o público esse diálogo: o Nelson, de quase 50 anos atrás, sentado numa cadeira, e o Nelson hoje, de cabelo branco, barba branca. Eu fico mudando de cadeira e conversando comigo mesmo.

Você fez versões contemporâneas das obras dos anos 60?
É um dialogo entre obras com 50 anos de diferença entre si. As intenções que eu tinha não são as mesmas. Aliás, são totalmente opostas. Há 50 anos, eu propunha o interativo: o trabalho tinha que ser mexido, tocado, violentado. Hoje eu dialogo com esses trabalhos dando-lhe a impossibilidade dessa interatividade.

Realmente, é impossível interagir com obras como “Homenagem a Fontana”, que contem zíperes que não podem mais ser abertos.
Mas eu não fiz com essa intenção. Esse é o efeito do valor comercial que a obra adquiriu. O dono da obra pede, pelo amor de deus, não me deixem abrir o zíper. Então o que eu faço? Uma série de obras que mostram zíperes que não mexem. No “Porco”, você não pode saborear o Pata Negra. Originalmente, a obra tinha um presunto que foi comido. Hoje eu coloquei o presunto de tal maneira que você não pode mais comer. Na cadeira (de “Tronco com cadeira”, de 1964), você não pode sentar. É como se eu dissesse pra vocês: eu quis que vocês brincassem, mas minha vontade não foi respeitada. Agora eu não deixo mais vocês brincarem.

Mas ao substituir o presunto comum pelo Patanegra, o presunto mais caro do mercado, você não está sugerindo que nesses 50 anos “evoluímos” para um consumismo selvagem?
O próprio “Porco”, se estivesse hoje na minha mão, seria o grande item de consumo. Se me devolvessem o porco hoje, a sociedade me compraria por uma fortuna.

Por que naquela época fazia sentido declarar guerra ao sistema de galerias e instituições e hoje não mais?
Porque não existe mais esquerda e direita, não existe mais bifurcação. Hoje você anda numa linha reta, você não tem mais escolha de lado. Você é um andarilho solitário numa estrada.

Por que não temos uma discussão pública nos jornais como a que tivemos entre você e Mario Pedrosa no jornal “Correio da Manhã”, sobre o “Porco”?
Porque a discussão era provocada pelos artistas e hoje ela é provocada pelas próprias instituições, o artista não tem palavra. O artista não está mais envolvido, como estava antes.

Mas ainda temos gestos como a retirada do Cildo Meireles da 27ª Bienal em protesto à reeleição de Edemar Cid Ferreira ao conselho da Bienal.
Mas não tem mais efeito. O consumo dismistifica. Ele faz isso hoje, mas, na próxima Bienal, quando for convidado, ele pode estar lá. Pergunte-se se hoje em dia um artista pensa antes de aceitar qualquer coisa. Todo convite de instituição ou de galeria deveria ser rejeitado, se você se posicionasse. Mas aí você morreria. Duchamp já falava: trabalho sem interlocutor não existe. E a instituição virou nosso interlocutor.

Antes você ainda tinha o mail art, o outdoor, o jornal, todos outros meios para fazer o trabalho existir fora da instituição. E hoje?
Tudo é consumido. Faça um outdoor hoje, se consome. Faça uma performance, se consome. Faça o grafiti, veja o que aconteceu com o grafiteiro hoje. Já começou com Basquiat.

Mas a pixação parece que ainda não foi consumida.
Mas já está em livros, já está documentada. Você vai na livraria, já existe uma sessão especial de livros de pixação. Enorme.

Mas os pixadores que invadiram a 28ª Bienal argumentam que a única maneira da pixação entrar numa instituição de arte é através da invasão.
Até o dia que o Agnaldo Farias (curador da mostra “Ocupação: Nelson Leirner) for curador e fazer uma Bienal toda pixada. Aí os pixadores vão lá pixar. Assim como o grafiti entrou. É só ter alguém que tenha coragem de fazer a Bienal da pixação.

Com quantos gigabytes se faz uma torre

47º SALÃO DE ARTES PLASTICAS DE PERNAMBUCO - O LUGAR DISSONANTE/ Torre Malakoff, Recife / até 26/7

Em Recife, na Torre Malakoff, um dos mais antigos observatórios astronômicos das Américas, acontece a exposição de arte-tecnologia “O lugar dissonante”, parte da programação anual do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. Com curadoria de Lucas Bambozzi, esta é a segunda mostra do Salão, que no início de 2009 concedeu 21 bolsas para pesquisa e produção e 24 prêmios para pesquisas teóricas em artes visuais.

As cinco obras que integram a mostra “O lugar dissonante” enfatizam a presença e interação do público com a obra de arte. “Ouvidoria”, de Lourival Cuquinha em parceria com o Grupo Hrönir, usa a tecnologia e a interatividade para relativizar a autoria. Os artistas instalaram cinco orelhões em frente à Torre, com um aviso: “Você me cederia sua informação pela possibilidade de não pagar para emiti-la?”. A proposta é trocar ligações gratuitas pelo direito transmitir as conversas em caixas de som espalhadas numa sala escura de exposição. “O público não paz parte da obra, ele é a obra”, diz Thelmo Cristovam, do Grupo Hrönir.

Em “Suíte 4 Mobile Tags”, a artista Giselle Beiguelman também usa o telefone, mas para fazer música. Quadros com imagens de QR-code – código com informações – são interpretados por câmeras de quatro celulares usados pelo público. Essas imagens são, então, enviadas para outros aparelhos, posicionados sobre os quadros. Cada aparelho tem um ringtone especialmente composto para o ocasião. “O mais gostoso é trabalhar com a possibilidade de uma suite composta de forma aleatória e espontânea entre os quatro ringtones”, diz Giselle.

Motivação similar guiou o uruguaio Fernando Velázquez em “Your Life, Our Movie”. O visitante escreve uma palavra no computador que gera uma busca na internet. E em cada uma das três telas, colocadas lado a lado, se intercalam três imagens selecionadas de páginas do Flickr. O resultado é um filme interativo, criado coletivamente, em tempo real. Para o curador Lucas Bambozzi, “Teia” de Paulo Nenflídio simboliza o mote da exposição. “É uma obra que usa de tecnologia rudimentar e se torna instrumento de interação do público com o espaço através do som. Além disso, a imagem de teia é um símbolo da construção colaborativa”, explica.
Fernanda Assef

Posted by Ana Maria Maia at 7:15 PM

Como usar uma cidade por Alan Santiago, O Povo

Matéria de Alan Santiago originalmente publicada na seção Vida e Arte do O Povo, em 14 de julho de 2009.

Para espaços vazios, os artistas Louise Ganz e Breno Silva criaram uma utilidade. A exposição Ambulantes em espaços vagos traz manuais com possibilidades outras para utilizar as áreas urbanas

Primeiro passo: escolha um espaço vago na cidade. Segundo passo: transforme seu carrinho em um salão de beleza ao ar livre em poucos segundos. Caso não seja lá muito afeito ao cuidado com as unhas, escolha outro manual. Uma piscina portátil, talvez. Um equipamento de som ou ainda uma mesinha para comer na rua, quando a fome corroer as paredes do estômago. Esses kits, que ensinam a converter espaços vazios em áreas de utilidade, são reais. E são arte. Compõem a exposição Ambulantes em espaços vagos que, logo mais, às 19h30min, estará disponível, no Centro Cultural Banco do Nordeste.

O projeto inicial - surgido pelas mãos dos arquitetos e artistas plásticos Breno Silva e Louise Ganz - tem quatro anos. Nasceu em Belo Horizonte, mas veio ocupar os interstícios urbanos por aqui. Ano passado, a intervenção conversou com proprietários de terrenos sem utilidade e os tornou públicos por um tempo. Foram oito ao todo. Disso, brotou o vídeo sobre a intervenção que a exposição exibe junto com os manuais - ou kits, como prefere chamar Louise. “É uma releitura do trabalho anterior. Antes, se a gente partia a negociar com os proprietários, agora lidamos com equipamentos pra uso de espaço vago. Ainda gerando a mesma lógica, que é de ocupar com diversas funções”, reflete a artista, que possui uma palavra na manga para classificar o que vem desenvolvendo: “propositivo”.

Utilizar-se dos kits para uma vida mais, digamos, divertida. Ela mesma andando por aqui tem vontade de desdobrar uma cadeira e se resguardar do calor na sombra de uma árvore qualquer. Opção que, certamente, a dureza do calçamento não vai dar. Então, que se crie, é o que ela acredita. Com inventidade sempre.

Para ela, nossas cidades são espaços de ilegalidade. Estão aí os camelôs e comerciantes que ambulam vendendo DVDs, chaveiros, carregadores de celular que não a deixam mentir. “Mas a cidade é mais rica, no sentido de mais interessante, justamente porque tem esse uso ‘ilegal’”. Por isso é que os artistas espalham elementos de estranhamento, condenados aos espaços privados.

Entretanto, muito maior do que propor possibilidades outras de povoar as artérias de uma cidade, Louise e Breno convidam também a pensar esses vãos citadinos como quem passeia por eles. “Está acontecendo cada vez mais segregação no Brasil. Eu vejo muito em São Paulo e Belo Horizonte grandes condomínios onde há tudo lá dentro. A pessoa não precisa sair para conseguir nada. E, quando sai, anda pela cidade de carro. Não tem embate, não tem encontro. A intenção do trabalho é justamente eliminar o medo e o preconceito de que quem usa espaço público é camelô, é pobre”, critica Louise para completar, em seguida: “As cidades são inciativas das próprias pessoas, de querer mudá-las, reinventá-las, transformá-las nem que seja um cantinho de dois por dois; e provocar um desejo de atuar, de ser atuante pra gerar qualidades”.

EMAIS

- Os kits não ficarão estampados apenas nas paredes do CCBNB. Na abertura da exposição, alguns deles serão usados.

- Pouco antes de começar a Ambulantes em espaços vagos, às 18h30, haverá o lançamento do Concurso Mário Pedrosa que premia, até R$ 30 mil, textos inéditos de pesquisa sobre Arte e mundo após a crise das utopias.


Posted by Ana Maria Maia at 5:56 PM

Chris Marker apresenta a sua face de fotógrafo por Camila Molina, Estado de S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo, em 17 de julho de 2009.

MIS abre a exposição Staring Back, com 200 imagens realizadas entre 1952 e 2006 pelo cineasta francês, autor de filmes como Sans Soleil, La Jetée e Cuba Si!

Cineasta, fotógrafo e escritor, o francês Chris Marker, que está para completar 88 anos, é considerado autor de uma obra inovadora no cinema, foi um "outsider da nouvelle vague", como definiu o crítico Luiz Zanin Oricchio no Estado, responsável por trabalhos com "toques de mistério" e tendo como tema recorrente a memória. Até há pouco, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, foi apresentada uma retrospectiva de sua produção cinematográfica, incluindo filmes, vídeos e programas de televisão. Mas agora, no Museu da Imagem e do Som (MIS) é possível ver uma mostra dedicada ao lado fotógrafo de Marker, a exposição Staring Back (Com o Olhar Fixo no Passado), que reúne 200 fotografias feitas pelo francês durante 1952 e 2006.

A exposição, já apresentada em outros países, nasceu de uma simples troca de e-mails entre Bill Horrigan, diretor do Wexter Center for The Arts da Universidade de Ohio, nos EUA, e Marker, em 2006. O artista, durante a conversa, anexou algumas de suas imagens à mensagem e daí foi surgindo a ideia de se fazer uma mostra com suas fotografias, guardadas em um "enorme arquivo". Em Staring Back as obras são em preto e branco e, curiosamente, quase todas no mesmo formato, pequeno, característica que Horrigan, autor da curadoria da mostra (apesar de Marker ter feito a seleção das imagens), considera a definição de um estilo "modernista e doméstico" natural da produção fotográfica do cineasta.

É o retrato do ser humano que interessa a Marker como se pode ver na ampla exposição, um olhar "nada melodramático", ainda diz Horrigan, em que se dá destaque nas imagens aos rostos e olhos de seus retratados. "Basicamente seu foco são pessoas de todo o mundo, sejam anônimas ou não", afirma o curador, ressaltando que Marker continua ativo, apesar de sua idade, mas, ultimamente, explorando mais a mídia digital - entre sua produção recente, cartoons.

Uma grande parte da mostra é dedicada a esses retratos de rostos, nos quais estão apenas as faces no enquadramento da fotografia. São pessoas de diversos lugares do planeta, de épocas diferentes. Conhecidos ou não, todos se misturam - entre eles estão a atriz Alexandra Stewart, o compositor Michel Legrand, o cineasta Andrei Tarkovsky -, mas há também uma série relacionada a animais, principalmente aos gatos, que na "cosmologia" do autor, estão entre as "divindades dominantes e enaltecidas acima dos meros seres humanos". Um viés mais poético sobressai, ou seja, a representação simples feita por um observador que define seus trabalhos como algo fora da chamada "belas artes". Ao mesmo tempo há também fotografias tiradas de seus filmes e vídeos como La Jetée (1962), Sans Soleil (1983) e Cuba Si! (1961) - não frames da película, como frisa Horrigan, mas experimentos do artista.

Por outro lado, a exposição ainda contempla imagens de caráter diretamente documental, como os registros dos protestos políticos da marcha ao Pentágono contra a Guerra do Vietnã, em 1967. Entretanto, o curador considera que mesmo nesses casos o olhar de Marker - que afirmou que a única arma razoável contra a polícia em ato de 1962 só poderia ser uma filmadora - é político num sentido mais amplo, o que inclui a poética. Isso se reforça com a presença de excertos de textos escritos pelo francês com as imagens.

Posted by Ana Maria Maia at 5:42 PM

julho 14, 2009

Depois do vazio, a vez da política por Camila Molina, Estado de S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do Edtado de S. Paulo, em 14 de julho de 2009.

Esse é o mote do projeto de Moacir dos Anjos, coordenador-geral da 29ª edição

O recifense Moacir dos Anjos foi anunciado ontem oficialmente como coordenador geral da 29ª Bienal de São Paulo, marcada para ser inaugurada entre o fim de setembro ou início de outubro de 2010. Ainda em Londres, onde ficou por um ano fazendo seu pós-doutorado pelo Transnational Art, Identity and Nation (Train), centro de pesquisa da universidade de artes da capital britânica, Moacir dos Anjos falou por teleconferência com a imprensa sobre o projeto curatorial da exposição, por enquanto tendo como título Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar, verso da obra Invenção de Orfeu (1952), do alagoano Jorge de Lima. Duas diretrizes principais alavancam a proposta para a mostra, destaque para o que o curador chama de "política da arte", invocando criações de cunho político; e a mistura de obras de criadores consagrados e jovens na exposição.

Moacir dos Anjos, nascido em 1963 e economista por formação, tem o perfil de curador que a Fundação Bienal São Paulo necessita neste momento de "recuperação e reafirmação" da entidade, desprestigiada por crise institucional. Com passagens por projetos de instituições de peso brasileiras, como ter feito a edição de 2007 do tradicional Panorama da Arte Brasileira do MAM de São Paulo e a cocuradoria, no mesmo ano, da bem-sucedida 6ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre - pode-se citar também que foi diretor entre 2001 e 2006 do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam), do Recife, o escolhido, que não é um nome surpreendente, tem a capacidade de fazer uma Bienal de São Paulo que possa ser atrativa, a partir de uma "poética do encantamento", e de diálogo com a chamada "discussão atualizada" com o que se faz no exterior, ingredientes que contam para se chamar a atenção de um espectro amplo de público, especializado ou não - sua motivação é deixar o tema da arte fora do campo do hermético. "Acredito na capacidade da arte contemporânea falar das coisas próximas da vida, como, por exemplo, do corpo, dos conflitos, das dúvidas, das questões urbanas", afirma Moacir, desde os anos 90 pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco.

Como coordenador geral da 29ª Bienal, ele terá 30 dias para formatar a equipe curatorial da mostra, inclusive, os responsáveis pelo projeto educativo, arquitetônico e de design gráfico. Heitor Martins, presidente eleito da diretoria executiva da Fundação Bienal - sua posse ocorrerá no fim deste mês depois de processo de transição com a gestão anterior de Manoel Pires da Costa -, afirma que o coordenador poderá escolher entre ter equipe tríplice de curadores ou time com curadores assistentes sediados em outras localidades, mas diz que com certeza haverá a presença de pelo menos um estrangeiro entre eles, porque existe a ideia de internacionalização como parte do projeto da edição. O convite para Moacir foi feito a partir de escolha de Miguel Chaia e Justo Werlang, membros da diretoria encabeçada por Martins.

Há Sempre um Copo de Mar para um Homem Navegar não é um tema, mas título provisório que se pretende ponte para uma metáfora que enfatiza a "natureza política" das criações artísticas - sem ser ilustrativa de situações - e sua "direção utópica". "O ponto de partida é fazer a arte ter potência para ser como copo de mar, possível de se navegar apesar de toda a adversidade." Dentro desse escopo, Moacir dos Anjos, que chega esta semana ao Brasil e vai se dividir entre Recife e São Paulo, afirma que a mostra, com participação de 100 a 150 artistas e orçamento prévio de R$ 30 milhões, terá a arte brasileira como presença importante, permeando toda a exposição. "É possível dizer que será uma mostra de arte brasileira invisível", diz o coordenador, " pensar a história recente da produção nacional pelo viés que une política e estética". Uma das razões fundamentais de seu projeto curatorial é a ideia de apresentar a arte contemporânea brasileira por outro prisma, contra a classificação de que a produção nacional só foi política nos anos 60 e 70, deixando de ser depois disso.

Além do verso de Jorge de Lima, outra frase tida como referência é a do crítico Mário Pedrosa, "arte é um exercício experimental da liberdade". Como uma Bienal de arte se situa num terceiro lugar - ou terceira margem, fazendo a citação de Guimarães Rosa - entre o museu e a ebulição vazia do circuito do mercado/feiras, o experimentalismo é parte possível, necessária e obrigatória de um projeto desse tipo de mostra. Performance, vídeo e cinema terão presença forte na exposição, define o coordenador, e ocorrerão também conferências e workshops. Ao mesmo tempo, ainda não foi renovado o convênio pelo qual a Bienal de São Paulo escolhe a representação nacional brasileira na Bienal de Veneza, mas pelo projeto de gestão de Heitor Martins, Moacir dos Anjos indicará o artista ou artistas que estarão no pavilhão brasileiro do evento italiano em 2011.

Posted by Ana Maria Maia at 4:33 PM

Curador da Bienal quer arte política por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 14 de julho de 2009.

Evento, que deve ocorrer entre setembro e outubro de 2010, terá ainda outros cinco nomes para o projeto curatorial

"Um tema costuma constranger as obras", diz Moacir Dos Anjos, explicando que a 29ª terá uma "plataforma discursiva"

Política, sem a institucionalização de um museu ou o afã pelo novo de uma feira de arte. Em síntese, essas são as linhas gerais que vão direcionar a organização da 29ª Bienal de São Paulo, segundo o curador Moacir dos Anjos, anunciado hoje pelo presidente da Fundação Bienal, Heitor Martins, conforme a Folha havia adiantado.

De Londres, via Skype, o pernambucano Dos Anjos, 46, explicou o projeto inicial que irá conduzir a preparação da mostra, ainda sem data de abertura definida, mas que deve ocorrer em fins de setembro ou começo de outubro do próximo ano. "O Moacir é o coordenador do grupo curatorial, outros cinco nomes ainda devem ser incluídos, três deles estrangeiros. O conceito de equipe é importante para marcar um pluralismo de visões", afirmou ontem Martins, na sede da Fundação Bienal. Os demais curadores serão anunciados em agosto.

A 29ª Bienal não terá um tema específico, mas será organizada como uma "plataforma discursiva", disse Dos Anjos. "Um tema costuma constranger as obras a um ponto específico e por seu tamanho." De acordo com o projeto apresentado pelo curador, isso significa que "o aspecto central dessa plataforma será o reconhecimento do caráter ambíguo que a arte exibe desde que se viu liberta de sua função de meramente representar o mundo".

O curador trabalha a exposição com um título ainda provisório, "Há sempre um copo de mar para um homem navegar", verso do poeta alagoano Jorge de Lima. "Vamos dar ênfase à arte como produtora de uma visão de mundo que, em potência, pode transformar a realidade", disse o curador, ao explicar o caráter político da mostra.

Ao preparar o projeto da 29ª Bienal, Dos Anjos falou que teve em mente outras mostras, com as quais pretende dialogar: "Não sou ingênuo ou arrogante para achar que vou inventar a roda. A Documenta 11, de 2002, a última Bienal de Sydney, e a 24ª e 27ª Bienais de SP são as mostras que tive em mente para elaborar o projeto."

Sobre a Documenta 11, Dos Anjos ressaltou a mescla entre os vínculos estabelecidos da arte feita no presente com a produção do passado, o que deve ocorrer também na 29ª Bienal. Outro viés importante da exposição, também segundo o curador, será seu caráter experimental, que foi lembrado a partir da concepção do crítico Mário Pedrosa em sua famosa formulação "a arte é o exercício experimental da liberdade".

A produção brasileira também será fortalecida, sem ser organizada em gueto. "Pretendo romper com a leitura crítica dominante que a arte política brasileira ocorreu só nos anos 1960 e 70."

Segundo Martins, a exposição deve custar cerca de R$ 25 milhões, além de R$ 5 milhões para o setor educativo. O curador volta amanhã para Recife. Ele não terá residência permanente em São Paulo.

Posted by Ana Maria Maia at 4:26 PM

Moacir assume a Bienal SP, Jornal Commercio

Matéria originalmente publicada no Caderno C do Jornal do Commercio, em 14 de julho de 2009.

Fundação anunciou o crítico e curador pernambucano Moacir dos Anjos para o desafio de organizar edição de 2010

O economista e crítico pernambucano Moacir dos Anjos, 45 anos, é o curador da 29ª Bienal de Arte de São Paulo, prevista para estrear entre setembro e outubro de 2010. A mostra tem como título provisório Há sempre um copo de mar para um homem navegar, verso extraído de Invenção de Orfeu, do poeta alagoano Jorge de Lima. Ex-diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) de 2001 a 2006, ele começou sua trajetória dentro das artes na Fundação Joaquim Nabuco, na década de 90. Atualmente, está em Londres, finalizando um pós-doutorado sobre as relações entre o local-regional e o global-universal na arte contemporânea. Ele volta da capital inglesa esta semana e deve assumir o posto imediatamente. A notícia foi divulgada oficialmente ontem, pela Fundação Bienal de São Paulo, organizadora do evento.

O primeiro convite para coordenar uma das maiores exposições do mundo chega para o crítico como uma prova de fogo. A Fundação Bienal atravessa uma crise sem precedentes, que desembocou em críticas de todos os tipos para a 28ª edição da mostra – apelidada de “Bienal do Vazio”, vista por apenas 162 mil pessoas. O curador terá dois desafios simultaneamanente: produzir uma Bienal em pouco mais de um ano e estabelecer um formato viável para uma megaexposição de arte contemporânea, devolvendo-lhe a credibilidade.

META AMBICIOSA
Moacir dos Anjos participou ontem de videoconferência sobre seus planos para a Bienal de São Paulo. Ele apresentou metas ambiciosas dentro do seu empenho em resgatar a relevância da mostra “Nosso objetivo tem que ser o máximo possível, atingir um milhão de pessoas”.

Essa marca que quase foi alcançada pela edição de 2004 (917 mil visitantes), mas que desde então vem caindo (em 2006, foram 535 mil visitantes), apesar de ter se tornado gratuita há três anos. “Temos que elaborar formas de atrair o público mostrando que a Bienal não é lugar de cultura de massa, mas tampouco é elitista. A arte contemporânea tem a capacidade de falar das coisas da vida cotidiana, o que possibilita que seja entendida por todos”.

A 29ª Bienal não terá um tema, mas uma plataforma, como nas duas edições anteriores. “A intenção é enfatizar a natureza política da arte enquanto algo que possui autonomia. A plataforma pretende reafirmar a potência da arte, seu poder de reconfigurar visões de mundo”.

Para o curador, apesar da grave crise institucional na Fundação, do grande número de bienais no mundo e dos debates sobre o esgotamento do formato, há um lugar importante a ser ocupado pela Bienal de São Paulo, “não apenas por sua história, mas por ser realizada no Brasil, um dos principais centros de produção artística mundial”.

O custo previsto para a realização da 29ª Bienal é de R$ 25 milhões. Mais R$ 5 milhões serão investidos no programa de arte educação. Segundo Martins, serão necessários ainda R$ 10 milhões para custeio de despesas e saneamento de dívidas. Ele também tenciona captar recursos para reformar o prédio criado por Niemeyer.

ARTE INVISÍVEL
Dentro desse escopo, Moacir dos Anjos, que vai se dividir entre Recife e São Paulo, afirma que a mostra, com participação de 100 a 150 artistas e terá a arte brasileira como presença importante, permeando toda a exposição. “É possível dizer que será uma mostra de arte brasileira invisível”, diz o coordenador, que pretende “pensar a história recente da produção nacional pelo viés que une política e estética”.

Artistas e curadores pernambucanos que já trabalharam com Moacir dos Anjos não têm dúvidas a respeito da sua capacidade de levar o projeto adiante. Para a crítica e curadora de arte Cristiana Tejo, o título de curador da Bienal de São Paulo é um dos maiores reconhecimentos dentro da área, não apenas no Brasil, mas também no contexto internacional. “Há muitas pessoas no mundo que gostariam de ocupar esse lugar. Apesar das dificuldades que enfrenta, a Bienal é um espaço de projeção internacional para artistas e pensadores da arte”, ressalta.

Cristiana acredita que a crise em torno da Bienal não atinge tanto a mostra quanto a Fundação Bienal. “A instituição tem vários problemas de administração. O desgaste evidenciou que ela não é tão sólida quanto se pensava. Não tem raízes. Seu papel é o produtora de eventos, mas não é assim que se constrói uma bienal.” A curadora explica que uma exposição desta grandeza precisa de tempo e de verba assegurada para acontecer. Para ela, as falhas que vieram à tona na última edição tiveram o papel importante de tornar pública a crise.

A Fundação Bienal trocou várias peças-chave envolvidas na realização da exposição, inclusive o presidente da diretoria-executiva, elegendo Heitor Martins para o cargo. Graduado em administração pública pela FGV-SP, e com mestrado de administração de empresas na Universidade de Michigan, espera-se que ele consiga imprimir um perfil administrativo mais profissional. “Vejo esse mea culpa da Fundação como algo positivo. Pelo que percebi do novo presidente, acredito que ele e Moacir consigam trabalhar bem em conjunto. Um projeto curatorial é reflexo das pretensões do presidente. É preciso ter clareza da relevância dessa função”, completa Cristiana Tejo.

Pernambucanos comemoram a escolha do curador

O artista plástico José Patrício, que já participou de edições anteriores da Bienal e trabalhou com Moacir dos Anjos na Fundaj, comemora a notícia da nomeação. “Ele chega a esse cargo merecidamente, porque é um curador muito comprometido com o resultado do trabalho, não com outras questões paralelas, que às vezes atrapalham o desenvolvimento de um projeto como este. Ele tem condições de fazer um trabalho excelente”, reforça Patrício. O artista acrescenta que Moacir tem um diferencial em relação a outros curadores brasileiros: “Ele teve sua formação cultural no Recife, mas é um cidadão do mundo, com um olhar amplo. É a primeira vez que alguém cuja carreira foi construída fora do eixo Rio-São Paulo assume esse cargo”.

“Fico muito feliz, pelo reconhecimento de seu trabalho extremamente sério e competente. Moacir hoje é um nome nacional inquestionável, com trânsito internacional. Ele está altamente preparado para realizar uma Bienal”, afirma o artista plástico Gil Vicente, que participou, em 2002, da 25ª edição da Bienal. Gil não teme que a crise tire o brilho da atuação do curador pernambucano. “Se ele aceitou o convite, sabe o que vai fazer e terá condições de dar prosseguimento ao desafio de encontrar novos modelos para exposições do estilo das bienais”, pontua.

Outro artista local que comemora a indicação é Rodrigo Braga. “Moacir ajudou bastante a construir o nosso meio de arte contemporânea em Pernambuco. Ele promoveu várias boas exposições de artistas de outros Estados, e nos possibilitou adquirir esse conhecimento e proporcionou que nomes daqui participassem de exposições em outros lugares, fazendo a arte circular”, diz Rodrigo.

Posted by Ana Maria Maia at 4:08 PM | Comentários (2)

julho 13, 2009

Moacir dos Anjos dirige Bienal de SP por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 13 de julho de 2009.

Leia mais:
Depois do vazio, a vez da política por Camila Molina, Estado de S. Paulo
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Moacir assume a Bienal SP, Jornal Commercio

Crítico de artes plásticas foi escolhido diretamente pelo presidente da fundação, Heitor Martins, e será anunciado hoje

Dos Anjos deve indicar pelo menos mais dois nomes, provavelmente vindos do exterior, para trabalharem na 29ª edição, em 2010

O presidente da Bienal de São Paulo, Heitor Martins, anuncia, hoje, Moacir dos Anjos como o curador da 29ª Bienal de São Paulo, que será realizada no próximo ano, segundo apurou a Folha.

Diferentemente das últimas duas edições, que tiveram seus curadores, Lisette Lagnado (27ª) e Ivo Mesquita (28ª), escolhidos por processo seletivo, desta vez a indicação ocorreu diretamente pelo presidente.

Na entrevista coletiva marcada para hoje, na sede da Bienal, Dos Anjos não estará presente. Atualmente ele vive em Londres, onde realiza um pós-doutorado em arte transnacional, identidade e nação na Camberwell College of Arts.

Segundo a Folha apurou, o curador deverá apontar nos próximos dias, ao menos outros dois curadores para trabalhar com ele na Bienal, provavelmente nomes estrangeiros.

De acordo com Martins, o motivo da indicação sem processo seletivo foi facilitar o trabalho do curador, que terá pouco mais de um ano para organizar a exposição. O atraso na escolha, contudo, não tem a ver com o novo presidente, que foi eleito há pouco mais de dois meses, por conta da difícil situação financeira em que a fundação se encontrava.

Economista por formação, da graduação ao doutorado, Dos Anjos começou a se projetar no cenário artístico como diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), de Recife. Entre 2001 e 2006, ele organizou mostras de artistas como Rosângela Rennó e Nelson Leirner.

Em 2004, ele foi curador da mostra Paralela, evento organizado pelas galerias paulistas simultâneo à Bienal de São Paulo, que chegou a ser considerado melhor que ela própria. Em 2006, ele foi curador da exposição de Cildo Meireles, na Pinacoteca do Estado, umas das mais importantes mostras do artista no país.

Já em 2007, foi um dos cocuradores da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, além de responsável pela mostra bienal Panorama da Arte Brasileira, do MAM de São Paulo, intitulada "Contraditório", também exibida em Madri, em 2008.

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Bienal de São Paulo importa modelo gaúcho de gestão por Silas Martí, Folha S. Paulo

Matéria de Silas Martíoriginalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 13 de julho de 2009.

Não causou espanto a escolha de Justo Werlang para integrar a nova diretoria da Bienal de São Paulo. O empresário e colecionador, que esteve até agora à frente da Bienal do Mercosul, entrou na chapa do novo presidente, Heitor Martins, para modernizar a gestão fraca e datada da mostra paulistana, afundada em dívidas.

Embora evite fazer críticas às gestões de Manoel Francisco Pires da Costa, que presidiu a Fundação Bienal de São Paulo até maio deste ano, Werlang reconhece que os planos do novo presidente são parecidos com o que se fazia em Porto Alegre.

"É muito difícil falar de fora, com a visão de um outsider", diz Werlang. "Objetivamente [a nova gestão paulistana] é o que nós gostávamos de praticar na Bienal do Mercosul."

Fundado em 1997, o evento em Porto Alegre teve público comparado ao da Bienal de São Paulo em suas últimas três edições, com mais de 1 milhão de visitantes em 2003. Custou em média R$ 8 milhões por edição, com maior parte dos recursos captados via Lei Rouanet, seguida de verbas do Estado do Rio Grande do Sul e de patrocinadores -o maior deles é a empresa metalúrgica Gerdau.

A edição atual da Bienal do Mercosul está orçada em R$ 7,5 milhões e terá cerca de 200 artistas. Numa comparação rasteira, a última edição da Bienal de São Paulo custou R$ 11 milhões e teve cerca de 40 nomes.

Estrutura fixa
Segundo Werlang, manter uma estrutura fixa entre uma edição e outra da mostra é parte do sucesso do evento gaúcho. Em vez de dissolver as equipes como faz a Bienal de São Paulo, a do Mercosul mantém um projeto pedagógico funcionando, além de outros setores.

"Existe uma estrutura fixa", afirma Werlang. "Em todas as áreas, há pessoas que operam durante o período todo."

Werlang também defende o processo de escolha do curador adotado na última Bienal do Mercosul, em que um concurso internacional escolheu um projeto vencedor. Em São Paulo, a nova diretoria escolheu Moacir dos Anjos para a curadoria da próxima edição, que será oficializada hoje.

Posted by Ana Maria Maia at 2:44 PM

O último grito por Silas Martí, Folha S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 13 de julho de 2009.

Ilustrada antecipa nomes de "Grito e Escuta", a próxima Bienal do Mercosul , que começa em outubro

Projeto de intervenção pública do artista brasileiro Henrique Oliveira, que fará parte da próxima edição da Bienal do Mercosul

Grito e escuta. De uma ponta a outra, quase 200 artistas estão escalados para a próxima Bienal do Mercosul, divididos entre aqueles que berram e os que absorvem o impacto.

Na véspera do anúncio oficial, marcado para amanhã em Porto Alegre, a Ilustrada antecipa os principais nomes da sétima edição da mostra, que já se consolidou como um dos maiores eventos de arte contemporânea no hemisfério Sul.

Estão escalados desde jovens em ascensão -os brasileiros Henrique Oliveira e Cadu Costa e o peruano José Carlos Martinat- a veteranos, como Anna Maria Maiolino, e artistas históricos, como Flavio de Carvalho, o belga James Ensor e o americano John Cage.

Este último serve de espinha dorsal à mostra, que começa em outubro em Porto Alegre. Suas performances e composições experimentais são um roteiro para "Grito e Escuta".

"A Bienal em geral tem um interesse por tudo o que é exploração sonora", resume a argentina Victoria Noorthoorn, curadora-geral da exposição junto do chileno Camilo Yáñez.

Tanto que até uma rádio, coordenada pela artista Lenora de Barros, está no projeto, veiculando obras e intervenções sonoras uma hora por dia. "É uma possibilidade de irradiar essa Bienal", diz Noorthoorn. "Ela vai estar no ar."

Não é a primeira vez que isso acontece. A última Trienal de Luanda, evento bem menos conhecido, programou intervenções em rádio e televisão. Questões sonoras, aliás, já estavam de volta com força total num revival do gênero no início desta década, com mostras emblemáticas em museus e galerias de Londres e Nova York.

Também se repete a estrutura da mostra. A exemplo da Bienal de Lyon e outras mostras, um time de dez artistas, no lugar de curadores, cuidou da seleção de nomes para a exposição. Entre eles, estão os brasileiros Artur Lescher, Laura Lima e Lenora de Barros, o colombiano Bernardo Ortiz e o mexicano Erick Beltrán.

É um time que reflete em parte a origem dos escolhidos. O Brasil é o país mais bem representado na lista, seguido de Argentina, Chile e Colômbia. "Sabemos que uma bienal com curadoria de artistas não é uma novidade", diz Noorthoorn. "Não temos nenhuma pretensão de originalidade."

Exposição crua
De fato, a pretensão é outra. Querem fazer o artista aparecer menos como autor e mais como agente cultural. "Não há nenhum artista homenageado, nenhuma individual", adianta Camilo Yáñez, artista e curador-geral. "São todos nomes que estão numa posição transversal, como John Cage."

"Ele marcou a queda do egocentrismo, negava a autoria em nome de uma arte social", diz Noorthoorn sobre o americano, que terá duas de suas performances refeitas na mostra. "Não é só o artista que grita, eles renunciam aqui ao capital técnico e simbólico, fazem uma exposição mais crua, sem ornamentos, retórica e acessórios."

Ajuda nessa crueza o fato de muitos dos quase 200 nomes na mostra serem estreantes em bienais, marcando um diálogo fresco com obras dos mestres.

"Queríamos uma bienal para dar valor e espaço a gente excepcional que não teve reconhecimento", admite Noorthoorn. "Se tivéssemos seguido ao máximo nossos instintos, teríamos só artistas estreantes."
Ainda em sintonia com a proposta central da Bienal do Mercosul, de exibir e contextualizar a produção latino-americana, a mostra tenta trazer à tona alguns nomes esquecidos, como o pioneiro chileno da videoarte, Juan Downey, e o compositor brasileiro Guilherme Vaz.

Artistas conhecidos em países vizinhos e pouco vistos no Brasil também têm vez. O artista e estilista argentino Sérgio De Loof, conhecido por seus desfiles-protesto, planeja um happening para a exposição.
Extrapolando o campo das artes para outras esferas, o coreógrafo brasileiro Luiz de Abreu também fará uma performance na Bienal, marca de uma vontade multidisciplinar que volta e meia contamina o campo das artes plásticas.

"Não é um interesse por sair das artes visuais, e sim postular que as artes plásticas trabalham com outras disciplinas", diz Noorthoorn. "Não sei se acreditamos tanto numa divisão entre essas disciplinas."

Posted by Ana Maria Maia at 2:37 PM

julho 9, 2009

A ascensão de um artista paulistano no Rio por Eduardo Fradkin, O Globo

Matéria de Eduardo Fradkin originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 8 de julho de 2009.

Depois de duas coletivas, Felipe Cohen estreia hoje uma individual na cidade e também cresce em São Paulo

Em 2008, quando abriu uma ampla galeria de arte na Gávea, Anita Schwartz inaugurou lá a série “Trajetórias em processo”, dedicada a promover exposições coletivas de cinco jovens artistas em ascensão, dos quais um é selecionado para uma individual no ano seguinte. O escolhido entre os cinco do ano passado foi Felipe Cohen, de 32 anos, que abre hoje sua exposição no segundo andar do prédio, enquanto o primeiro piso abriga uma nova edição de “Trajetórias”.

— Esse é um projeto que o curador Guilherme Bueno trouxe para a galeria. Queremos mostrar talentos novos, que tenham conceitos novos. Mas são artistas que já têm uma trajetória e uma linguagem estética consolidada. Não são iniciantes — diz a galerista.

De fato, o início de carreira de Cohen foi há dez anos, no Centro Cultural São Paulo, num programa que convida cinco artistas para uma coletiva feita de individuais simultâneas, em que cada um ganha uma sala. Este ano, ele participa do programa Rumos Itaú Cultural, que já passou por São Paulo, está em Curitiba e, depois, virá ao Rio.

Natural de São Paulo, o artista já expôs em outra coletiva no Rio, na galeria Box 4, mas agora ganha sua primeira individual na cidade.

— Acho que o mercado vem crescendo de um jeito profissionalizante. Você vê isso pela SP Arte, e pela participação das galerias brasileiras em feiras internacionais. Isso está ajudando a criar uma estrutura para o artista viver de seu trabalho. Era muito frequente o artista chegar aos 40 anos e ainda ter que trabalhar com outras coisas. Ainda é comum, mas hoje a chance de sobreviver do trabalho é maior pelo crescimento do mercado — opina ele, que já teve uma série de colagens formando paisagens, semelhante a uma que está em exposição na galeria Anita Schwartz, comprada pela Pinacoteca de São Paulo.

Embora tenha largado há quatro anos seu último emprego fixo, de pesquisador no banco de dados de uma associação de videoarte em São Paulo, Cohen ainda faz trabalhos como ilustrador freelancer:

— Já ilustrei livros infanto-juvenis, revistas, livros didáticos. Foi ilustrando um livro infanto-juvenil chamado “A infância de Zeus e outros mitos gregos”, há dois anos, que eu comecei a trabalhar com colagens. Então, o trabalho de ilustração acabou influenciando o outro, de arte.

As obras expostas no Rio custam entre R$5 mil e R$16 mil. Nada mau para quem hesitou em cursar Artes Plásticas.

— Fiquei em dúvida entre Arquitetura e Artes Plásticas, mas foi mais por medo de fazer Artes Plásticas do que por gosto pela Arquitetura. Fiz vestibular para ambas, mas entrei em Artes mesmo. Meus pais me apoiaram. Em São Paulo é muito comum o artista fazer arquitetura, pensando na segurança profissional, e, durante a faculdade, ver que dá para ser artista. Conheço muita gente que se formou em Arquitetura, mas foi trabalhar com Arte — conta.

A faculdade deu a Cohen a chance de ter contato com artistas experientes, que formavam o corpo docente, e embasamento teórico. Ele sabe o caminho que quer trilhar.

— A forma como a arte se fechou nela mesma é um problema. Às vezes, vai para um hermetismo estéril, deixa de ser uma resposta para o mundo e fica falando dela mesma. É a cobra comendo o próprio rabo. Não é à toa que muitas pessoas reclamam da arte contemporânea, de não conseguir entendê-la. O artista tem que tentar dar respostas à sua relação com o mundo — argumenta.

Instalação atualiza tema da anunciação com lâmpada

Admirador de Tunga, Waltércio Caldas, Giorgio Morandi e de arte pré-renascentista e renascentista, ele explica que uma obsessão em sua obra é atualizar questões simbólicas do passado em esculturas atuais. Um exemplo é a instalação “Anunciação”, que pode ser vista na Anita Schwartz.

— Ela remete às pinturas antigas com o tema da anunciação, mas o anjo é representado por uma lâmpada que desce do teto de um contêiner, e há uma taça de cristal que recebe a luz, como a Virgem. A luminosidade e o desenho da lâmpada, que se encaixa na taça, fazem com que se crie um objeto único. Parece que a lâmpada está escorrendo para o chão ou a taça está ascendendo — descreve Cohen, que compara as galerias a pequenos museus e especula que poderiam existir mais espaços dedicados à arte contemporânea, para trabalhos mais ousados e experimentais.

Posted by Ananda Carvalho at 3:37 PM

Artistas interpretam o espaço íntimo do devaneio e do aprisionamento por Mauro Ventura, O Globo

Matéria de Mauro Ventura originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 6 de julho de 2009.

Exposição na Laura Marsiaj mostra diferentes visões sobre o tema alcova

“Você vai ficar na saudade, minha senhora”, de Walmor Corrêa

“Timidus”, de José Rufino: a cama pela perspectiva do artista

Laura Marsiaj convidou o curador Marcelo Campos para ocupar o anexo de sua galeria, em Ipanema. Ele olhou o minúsculo espaço, de cerca de seis metros quadrados, e pensou:

— Isso aqui é uma alcova. O que fazer para potencializar um lugar tão pequeno?

A partir daí, surgiu o projeto de montar uma exposição referente ao tema. Laura gostou tanto que resolveu transferir a mostra do anexo para a galeria principal, de cerca de 50 metros quadrados.

— Uma galeria, com esse formato de um cubo branco, sem janelas, é uma espécie de alcova — diz Campos.

O resultado está em “Alcova”, exposição que será inaugurada amanhã, às 19h, com obras de 20 artistas, como Barrão, Ana Miguel, Lenora de Barros, James Kudo, Erika Verzutti, Leo Videla, Lucas Bambozzi, Márcia X, Tiago Carneiro da Cunha, Waléria Américo e Pedro Varela. Campos buscou inspiração nas casas de época brasileiras.

— E aí Machado de Assis é fundamental. Pesquisei sobre diversos ambientes em vários de seus romances. E a alcova é recorrente também na História da arte.

Originalmente, a alcova ficava em um compartimento superior da casa, disfarçado, com pé direito baixo. As mulheres podiam bordar ou se recolher, enquanto os homens recebiam visitas fora do convívio familiar. Campos trabalhou com dois aspectos de uma alcova.

— Ela tem um lado de aprisionamento, mas também tem um lado de sonho, de devaneio.

E, neste último sentido, Machado também se encaixou à perfeição.

— O quarto de um escritor é um lugar de invenção, é um espaço de criação.

As noções de liberdade e prisão se refletem nas obras. Walmor Corrêa botou um esqueleto de pássaro dentro de uma caixa de música. Daniel Murgel fez um desenho de uma gaiola dentro de uma casa. Regina Parra pintou um retrato com imagens de câmeras de segurança.

— Dá uma sensação de clausura para a pintura — diz Campos.

A maioria dos trabalhos já existia. É o caso das duas obras de Brígida Baltar. A primeira, “Canto brocado”, faz parte de uma série chamada “Passagem secreta”. É uma quina no chão, de cerca de um metro por um metro, irregular, que tem brocado com pó de tijolo da casa em que ela vivia.

— É um trabalho bem efêmero. Bota-se o pó na montagem, e, no fim da exposição, termina — detalha ela.

Pássaros na parede e máquina de escrever

Do chão para a parede. A outra obra, “Miniparede”, é feita com pequenos tijolos moldados a partir do mesmo pó.

— É uma parede para colocar numa parede. Essa sobreposição dá um estranhamento — diz Brígida.

Posted by Ananda Carvalho at 3:21 PM

Cuba na vitrine por Silas Martí, Folha S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no Jornal Folha S. Paulo, em 9 de julho de 2009.

Apesar do futuro político incerto na ilha, mercado de arte esquenta e atrai novos colecionadores

Vista geral da décima edição da Bienal de Havana, encerrada no fim de abril; sinal dos tempos, pela primera vez em 20 anos artistas norte-americanos expuseram suas obras ao público cubano

Estão lotados e cada vez mais frequentes os voos entre Estados Unidos e Havana. Desde que Barack Obama liberou viagens de cubano-americanos à ilha e facilitou vistos para seus cidadãos, Cuba vive uma espécie de degelo pós-era Bush e tem no mercado de arte um sinal forte desses novos tempos.

Pela primeira vez em mais de 20 anos, a ilha recebeu uma exposição de artistas norte-americanos, parte da última Bienal de Havana, encerrada em abril. Atrás deles, vieram colecionadores estrangeiros que fizeram triplicar os preços das obras no mercado local e voltaram os olhos do circuito internacional para a ilha e seus artistas.

É uma guinada que jogou o país comunista, bastante isolado e com produção artística em grande parte ainda fraca e datada, no furacão do mercado global, ainda que por um instante.

Carlos Garaicoa, a dupla Los Carpinteros e Tania Bruguera, com projeção mundial tão grande quanto o valor de suas obras, são destaques de uma cena ainda tomada por arte decorativa, até ingênua, mas ajudaram a turbinar a venda de outros cubanos pelo mundo.

Seus colegas menos conhecidos, como Felipe Dulzaides e Abel Barroso, que estiveram na última Bienal de Havana, têm recebido convites para expor em Tóquio, Xangai e outros pontos distantes da ilha.

"A arte cubana já faz parte da linguagem global", diz Dulzaides, que hoje mora em San Francisco. "Muitos aqui nem têm internet, mas trabalhamos com galerias fora de Cuba", completa Barroso. "Não há colecionadores na ilha, então vendemos nossas obras para fora."

Mas é um boom ainda restrito ao mercado. No plano político, são tímidos os sinais de abertura mais ampla, como a decisão da Organização dos Estados Americanos de derrubar a restrição à entrada de Cuba no bloco, e promessas de Obama de normalizar relações com a ilha até o fim de seu mandato.

"Há um interesse renovado por arte cubana", disse à Folha Ben Rodríguez-Cubeñas, diretor do Cuban Artists Fund, em Nova York. "Temos agora uma possibilidade de restabelecer laços que se perderam."
Ele fala do governo Bush, que proibiu viagens e qualquer intercâmbio entre EUA e Cuba em 2004, rompendo com algumas exceções abertas no mandato do democrata Bill Clinton.

Na esteira desse isolamento, vem essa abertura ainda em fase embrionária. "Alguns artistas cubanos estão explodindo, os preços triplicaram", diz Sandra Levinson, do Center for Cuban Studies, em Nova York, que acompanha arte cubana há 40 anos. "A economia continua terrível, mas o mercado de arte continua de pé. É um sinal de novos tempos em Cuba."

Operações de limpeza

Ou quase. "É muito prematuro ainda para falar em grandes mudanças", diz Luis Miret, diretor da galeria La Habana, a mais importante de Cuba, à Folha. "Mas existe mesmo grande interesse por arte cubana."

"É uma produção que não se mede em preços", relativiza Sandra Ceballos, artista e dona da galeria Espacio Aglutinador, em Havana. "Essa produção contemporânea é fulminante, bate de frente e é cara porque é uma forma de arte visceral."

Tão fulminante e visceral que continua enfrentando censura. Se os tempos mudaram para o mercado, ainda é comum o cancelamento de exposições na ilha e perseguição a artistas. Ceballos teve mostras fechadas no ano passado, lembra outras três coletivas censuradas e diz ter sido alvo de uma circular do governo, com "acusações pessoais insustentadas".

"Não há liberdade de expressão em Cuba", diz ela. "Só operações de limpeza ante a opinião pública internacional."

"Arte serve para criar utopias possíveis"

Tania Bruguera brincou de roleta russa na abertura da Bienal de Veneza há um mês. Era um tiro em falso a cada página do manifesto que leu para poucos convidados, sem nada registrar. Também levou policiais a cavalo para dentro da Tate, em Londres. Em Havana, causou mais impacto quando deu um minuto ao microfone a cada pessoa que subisse ao pódio.

"Era uma ideia simples: dar ao público um minuto sem censura", lembra. "A arte funciona para criar utopias possíveis; essa deve ser a função do artista em qualquer lugar, mas em Cuba isso tem outro significado."

No caso, sua utopia possível era esse um minuto fugaz de liberdade de expressão. E esses minutos foram seguidos de um comunicado oficial da Bienal de Havana, que repudiou a forma como manifestantes se apropriaram da performance para veicular mensagens políticas. Era a resposta que ela precisava para concluir o trabalho.

Bruguera, que participa de um encontro em Porto Alegre, parte da Bienal do Mercosul, no fim do mês, é uma das artistas cubanas com maior projeção internacional. Suas performances falam quase sempre de um estado de exceção, criando um confronto entre uma normalidade opressora e alguns poucos e breves lampejos de paz.

"A censura faz parte da obra", diz Bruguera. "Se um artista faz bem o seu trabalho, perturba o poder econômico, a política."

Ela reconhece que na raiz de tudo está o isolamento da ilha onde nasceu, um cotidiano que para o resto do mundo aparece como anomalia. "Tento enxergar os absurdos, limites e propor outros mundos possíveis."

Sua obra vira espécie de termômetro do sentimento cubano. "Falo da passividade do povo, esse instinto de rebanho, de nunca se rebelar", afirma. "As pessoas em Cuba pensam uma coisa e dizem outra, por medo, por precaução. Misturam suas crenças e descrenças."

Tentando desfazer a confusão, Bruguera fundou em Havana a Cátedra de Conducta, escola de arte radical, que treinou artistas políticos e recebeu convidados estrangeiros pela primeira vez na ilha. Conta que isso só foi possível por causa de seu reconhecimento mundial.

"Se você consegue trazer prestígio para a ilha, acaba sendo mais valorizada pelo regime, mesmo que suas mensagens sejam contra eles", afirma. "Isso me deu liberdade para fazer coisas um pouco mais loucas, atrevidas. Se faço algo que não entendem, estou aprovada."

Mas não podiam não entender sua última performance na ilha. Uma pomba branca foi treinada para pousar no ombro de cada um que discursou ao microfone, repetindo uma célebre imagem de Fidel Castro e invertendo, num único gesto, as relações de poder em Cuba.

"O mais importante agora para Cuba é definir sua imagem", diz Bruguera. "A imagem de nós que existe há mais de 50 anos não mudou e acho que uma mudança só é possível se existir uma nova, que ainda precisamos cristalizar." (SM)

"A arte funciona para criar utopias possíveis; essa deve ser a função do artista em qualquer lugar, mas em Cuba isso tem outro significado. As pessoas em Cuba pensam uma coisa e dizem outra, por medo, por precaução"

"A censura faz parte da obra. Se um artista faz bem o seu trabalho, perturba o poder econômico, a política"

Tania Bruguera, artista plástica

Posted by Ananda Carvalho at 2:18 PM | Comentários (1)

Argentinos sabem fazer figuração por Camila Molina, O Estado S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 7 de julho de 2009.

Mostra reúne a pouco conhecida produção contemporânea da Argentina

Tão perto e um pouco longe. O curador carioca Franklin Espath Pedroso garante que os argentinos conhecem mais de arte brasileira do que o contrário - apesar de vizinhos, temos contato apenas com alguns ?artistas pingados? da Argentina, entre eles, Jorge Macchi, Leandro Erlich e Tomás Saraceno, que volta e outra expõem aqui e são criadores de renome internacional. Por isso, a exposição Argentina Hoy (Argentina Hoje), que acaba de ser inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil, tem justamente como mote apresentar, primeiro em São Paulo e depois no Rio, um panorama da arte contemporânea dos criadores argentinos por meio das obras de 33 artistas. A mostra é de uma visada aberta e livre, dando espaço de respiro para cada trabalho.

Uma característica desponta ao ver a reunião das obras argentinas, a presença da figuração, vertente que não é surpreendente porque está em confluência com as criações de todo o mundo. É o dado figurativo que reúne os trabalhos da mostra, mais do que uma vontade de se criar um espaço para a procura de um diagnóstico de tendências da arte daquele país - apesar de a fotografia predominar. "A exposição tem duas vertentes, uma que trata do tema da cidade; a outra, das criações de mundos próprios, imaginários", diz Pedroso, que divide a curadoria da exposição com a argentina Adriana Rosenberg.

Jorge Macchi, que em sua poética inteligente extrai de signos simples do cotidiano os motivos de suas obras, já afirmou ao Estado que a entrada para as obras deve se dar pela porta visual - uma imagem figurativa - e não pela armadilha do "deciframento de uma ideia", esse talvez um mote pensado por seus conterrâneos. É curioso perceber na exposição que a opção pela figuração na arte contemporânea argentina vem junto da constância de uma poética que carrega algo político entremeado, sendo essa ação por vezes mais delicada e intimista e por vezes mais explícita - como no vídeo de Ana Gallardo, no qual a artista, desalojada de sua casa em plena crise econômica, carrega seus pertences numa bicicleta como uma catadora de papel, ou nas pinturas excessivas de animais mortos de Mariana López. "A atmosfera política controversa da Argentina não poderia deixar de entrar nos trabalhos dos artistas", afirma o curador. A figuração, portanto, é maneira de marcar alguma posição.

Dentro dela, mesmo quando a vertente é a do mundo imaginário, não se trata de escapismo, pelo contrário. No cofre do CCBB, por exemplo, Marina De Caro apresenta a instalação Entre Parêntesis, um espaço rosa, com desenhos feitos a pastel, que tem um tapete fofo de tecido no chão, só que com figuras humanas costuradas em si. Uma atmosfera delicada se faz dentro desse lugar imaginário, como se tudo estivesse em "um contínuo", "sem um limite", como diz a artista, completando que se trata de uma obra sobre o tema da imigração. "Quis criar um espaço que remetesse à ideia de se ter saído de um lugar para ir a outro, que vai chegar, sem que se deixe uma memória de lado", afirma ainda Marina. Erlich também faz uma menção política com sua instalação no primeiro piso, um jogo de espelhos e janelas que promove a ilusão de presença e ausência; e Silvia Rivas com videoinstalação trata de forma poética sobre a urgência.

Outra característica argentina que se percebe é uma recorrência de citações à história da arte. Nesse caso, chama a atenção, na entrada do CCBB, a pintura feita in loco por Leila Tschopp, O Contexto sou Eu, a criação de uma paisagem arquitetônica de jogo de perspectivas que remete à obra metafísica de Giorgio De Chirico. Ainda nessa vertente, as fotografias encenadas de RES y Constanza Piaggio e de Nicola Costantino.

Posted by Ananda Carvalho at 2:00 PM

Argentinos focalizam suas margens por Silas Martí, Folha S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 7 de julho de 2009.

Artistas portenhos enfatizam aspectos periféricos em obras de exposição que tenta traçar um panorama atual do país

Mostra coletiva "Argentina Hoy" reúne 63 trabalhos de mais de 30 artistas no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo a partir de hoje

É feita de desvios a nova arte argentina. Na casa de espelhos de Leandro Erlich, quem olha pela janela vê outro reflexo no lugar do próprio rosto. No filme de Jorge Macchi, os créditos do final substituem o enredo. "Ponho o acento no marginal, já que o fim do filme é quando a trama já se resolveu, o público se levanta e vai embora", diz Macchi, sobre um vídeo em que mostra créditos de um filme fora de foco e uma orquestra que acompanha os letreiros. "O marginal aqui se transforma em protagonista." Juntos numa coletiva aberta hoje pelo Centro Cultural Banco do Brasil, artistas portenhos já conhecidos, como Macchi e Erlich, e nomes jovens de Buenos Aires sustentam essa noção de desvio intencional do assunto, uma arte mais sobre bordas e contornos do que sobre lugares e momentos privilegiados. Erlich constrói dentro do museu uma casa de paredes espelhadas e arma um jogo para distorcer os reflexos. "A arquitetura é o eixo da obra até certo ponto", afirma ele. "Mas o que me interessa é a construção despojada de suas funções."

Arquitetura pelo avesso

Seguem esse princípio as fotos de Ernesto Ballesteros, que cobre com pontos negros os focos de luz de Puerto Madero e outras zonas de Buenos Aires. É sua tentativa de desviar a atenção para ausências no espaço e desfazer ao mesmo tempo o espetáculo da especulação imobiliária. No lugar de paisagens luminosas, surge a arquitetura ultrajada, pelo avesso. E no lugar da mancha gráfica, Tomás Espina usa buracos para ilustrar uma cena de batalha. Ele desenha com pólvora sobre tela e faz explodir os traços, deixando impressos só os rastros de fogo para contar a história. Num exercício que lembra a arte povera, movimento italiano dos anos 70, e sua precariedade material, Espina esconde o assunto do quadro, preferindo uma exacerbação do imediatismo à nitidez, ou o barulho do disparo ao alvo da bala. Também busca força nos resíduos da ação as fotos de Marcos López. Num cenário kitsch -cor-de-rosa e decorado com pinturas de cenas rurais e marítimas- um casal de homens em pijamas de cetim posa de mãos dadas. Lá atrás, um pastor alemão vigia a cena. "Passo longe da ideia de instante decisivo das fotos de Henri Cartier-Bresson e monto toda a cena", diz López. "Minhas fotos se alimentam de um imaginário vital e selvagem." Importa menos o retratado e mais as circunstâncias. Nessa narrativa interrompida ou sugerida, não sobra espaço para o real, e a fotografia digital, suporte que desponta agora na cena argentina, surge como forte estratégia de construção.

Posted by Ananda Carvalho at 1:57 PM

Rio terá museu em sua zona portuária por Silas Martí, Folha S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 7 de julho de 2009.

Futura Pinacoteca do Rio vai ocupar palácio em estilo eclético na praça Mauá

Nova instituição, parceria da prefeitura com Fundação Roberto Marinho, não terá acervo fixo e vai expor obras de coleções privadas do Rio

O antigo edifício D. João 6º, na praça Mauá, zona portuária do Rio, será convertido em museu. Até agora chamado de Pinacoteca do Rio, sairá de uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e a prefeitura.

Depois de uma disputa pela posse do prédio, que pertencia ao ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira e passou para a Docas, autoridade portuária do Rio, o palacete acaba de ser desapropriado pela prefeitura e deverá ser restaurado -dentro do projeto municipal de revitalização do cais do porto- para abrigar o futuro museu, com inauguração prevista para 2011.

Ainda não há detalhes das intervenções no espaço e nenhum arquiteto foi escalado para cuidar da reforma. Segundo o Instituto Pereira Passos, órgão de planejamento municipal do Rio, será uma adaptação de R$ 25 milhões -R$ 15 milhões para restaurar o prédio que ficou abandonado e R$ 10 milhões para instalar o museu.

Os recursos devem vir da prefeitura, que estuda parcerias com a iniciativa privada. Segundo o prefeito Eduardo Paes, o município também tem condições de arcar com o custo total das obras no palacete.

Será o primeiro museu carioca gerido por organização social, modelo recém-aprovado no Rio e já usado em museus de São Paulo, como a Pinacoteca do Estado. Nesse tipo de gestão, o museu recebe uma dotação orçamentária fixa do poder público, mas toma as próprias decisões internas, como contratações, gastos e outras medidas.

No caso, a Fundação Roberto Marinho fica encarregada de ocupar o museu e definir suas exposições. A princípio, a Pinacoteca do Rio não terá acervo fixo e fará mostras temporárias com obras emprestadas de coleções privadas do Rio.

"A gente chama de pinacoteca em rede, porque vai conectar colecionadores", diz Hugo Barreto, secretário-geral da fundação. Segundo a Folha apurou, devem integrar as mostras do espaço obras dos colecionadores João Sattamini, Gilberto Chateaubriand, Ronaldo Cezar Coelho, entre outros.

Barreto e o curador Paulo Herkenhoff, que presta consultoria ao novo museu, reconhecem que será um desafio organizar uma instituição sem acervo fixo, que pode implicar uma falta de identidade para o espaço, mas veem o museu mais como articulador do que depositário de uma coleção.

"Não estamos pedindo que ninguém esquarteje sua coleção para doar para a gente", diz Barreto. "A gente não pretende ser proprietário ou comodatário de nenhum acervo."

"Serão exposições sempre temporárias, porque a ideia é movimentar coleções", afirma Herkenhoff. "Uma das intenções desse projeto é fortalecer o colecionismo." Por esse mesmo motivo, o curador discorda do nome até agora dado ao museu, já que pinacoteca se refere a uma coleção de pinturas.

"O perfil, a vocação e a missão desse museu ainda estão por serem discutidos publicamente", conclui Herkenhoff.

Posted by Ananda Carvalho at 1:52 PM

julho 8, 2009

Arte e cidade (II) por Ricardo Tamm

Mais uma vez recebemos a notícia de que o governo do estado do Rio de Janeiro encomendou uma estátua-homenagem para ser instalada na cidade. Decisão do próprio governador, encomendada a um artista escolhido por critério desconhecido, com o auxílio, na determinação da pose da estátua, da secretária de Turismo, Esporte e Lazer.

O trecho acima bastaria para exemplificar como vem sendo desconsiderado e maltratado o espaço público da cidade na atual administração. Mas o caso não é isolado. O mesmo governo anunciou, há pouco mais de uma semana, estar negociando com um pintor-galerista de São Paulo uma ilustração tridimensional em homenagem à garota de Ipanema para o bairro. E a prefeitura anunciou a forma do novo prédio-marco da revitalização da zona portuária da cidade como uma vela náutica, à maneira de Dubai (segundo a notícia), em uma proposta sem outra justificativa (ou autoria) que não o gosto do prefeito.

Olhando um pouco para trás podemos constatar que as coisas não têm sido muito diferentes já há algum tempo. Dezenas de peças vêm sendo instaladas no espaço público da cidade há mais de uma década, fruto de encomenda ou de doação (patrocinada por leis de renúncia fiscal para a cultura), mediada pela Fundação Parques e Jardins do município – cuja direção declarou não estar apta a avaliar propostas de ocupação pública senão tecnicamente, isto é, se o local suporta o peso da peça e se não há prejuízo à circulação. Não há consideração estética envolvida[1].

Triste cenário para uma cidade considerada das mais belas do mundo por sua paisagem natural. É claro que a cidade cresce e demanda novas obras, podendo ganhar esteticamente com obras de arte apropriadamente dispostas em seus espaços públicos; e prestar homenagem a personagens importantes da nossa cultura, além de louvável, é fundamental para valorizar a sua obra, e a própria cultura, mas é preciso discutir a melhor forma de fazê-lo.

Em um país onde o acesso à literatura, às artes visuais, ou à música (fora os sucessos das rádios) é tão limitado, estátuas em bronze e tamanho natural de escritores e músicos não contribuem muito para a difusão da cultura. Respeitando a importância de obras e homenageados, não seria melhor editar, gravar, distribuir e promover essas obras nas escolas do município? Ou, então, fomentar a literatura com bibliotecas, e acervos, em nome de escritores e jornalistas; salas de música, com instrumentos, em nome de músicos; ateliês, com materiais, em nome de artistas? Valorizar, promover e difundir uma prática entre as novas gerações em nome de um artista, um profissional de destaque em sua área é prestar-lhe a mais relevante das homenagens; congelar-lhe a figura em bronze no meio da cidade torna apenas a sua imagem – não a sua obra – reconhecida. E, mesmo elegendo como forma de homenagem a instalação de obras de arte no espaço público, por que não promover então concorrências públicas, capazes de estimular escultores e artistas a criarem novas formas de expressão sobre o que, ou quem se pretende homenagear?

O Rio de Janeiro não merece que a responsabilidade estética sobre o seu espaço público esteja submetida apenas ao gosto do governador e do prefeito, secundados por secretarias e fundações de turismo, esporte, lazer, parques e jardins, sem que haja qualquer instância artística (pessoa, órgão, secretaria, ou fundação) envolvida. A situação das obras de arte instaladas na cidade deveria passar por uma avaliação, caso a caso – da obra e do espaço ocupado –, segundo critérios estéticos justificados, por profissionais competentes e responsáveis (sem interesse direto nos casos analisados).

O que poderia justificar a arbitrariedade com que tem sido tratada esta questão seria, ou a desconsideração da estética urbana como um problema de menor relevância, coisa que qualquer um poderia resolver, ou a convicção de que estariam eles mesmos, governantes, habilitados para decidir o que deve compor e marcar publicamente a cidade. Desconsideram assim a relevância destes atos, vitais para a imagem da cidade, e que deveriam ser correspondentemente tratados, mas que têm respondido antes ao gosto dos próprios governantes, do que aos interesses da população.

Os administradores desta cidade têm tratado o espaço público carioca como o seu quintal – de um palácio que habitam temporariamente. E talvez seja esta a razão (temporal) da sua necessidade de marcar esteticamente a cidade, uma tentativa de perenizar-se, querendo reconhecer-se nela como em um espelho público de sua vontade pessoal.

A vaidade político-administrativa do governante está na grande obra, com a sua marca e a sua cara. Tendo em vista a execução dessa obra é que ele vai cercar-se de especialistas nas diversas áreas da administração pública, como auxiliares nas respectivas ações e políticas setoriais. Exceto, como temos visto por aqui, quanto à estética da cidade. Aí o diletantismo dos ocupantes do cargo tem prevalecido, sem que qualquer justificativa tenha sido considerada necessária.

Em uma cidade onde a arte não é reconhecida como uma área cujo saber e conhecimento demandam experiência teórica e prática específica, e a estética da obra de arte pública está submetida ao gosto dos governantes locais, não se pode esperar muita coisa. E a manutenção deste estado de coisas é danosa para a cidade e os seus habitantes. Enquanto há uma infinidade de formas de arte pública, modernas e contemporâneas, presente em diversas cidades do mundo (esculturas e instalações em pedra, madeira, aço, borracha, sonoras, luminosas, táteis, interativas, etc.), permanecemos, por aqui, congelados na homenagem em bronze à semelhança do homenageado. Como obras de arte em outros meios e materiais não fazem parte da informação estética dos nossos administradores, continuamos nos moldes em escala 1:1. Até quando?

Ricardo Tamm
Artista plástico e professor

[1] Às vésperas das penúltimas eleições municipais, em 2004, a prefeitura convocou uma comissão para a avaliação dessas ocupações, que ela mesma vinha encomendando e aceitando, e que não resultou em nada, isto é, não houve qualquer conseqüência, exceto a reeleição.

Recordar é viver

Leia também as matérias, emeios e comentários sobre este tema publicados aqui no Como atiçar a brasa em 2004.

Golpe de doação

Cartas de Ricardo Tamm publicadas em 9 de maio de 2004.

Mazeredo X Amilcar

Emeio enviado por Patricia Canetti para os jornais O Globo e Jornal do Brasil em 20 de maio de 2004.

A arte da discórdia
Pedido de remoção das esculturas de Marli Mazeredo do espaço urbano divide a opinião dos cariocas

Texto de Gilberto de Abreu, publicado originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 4 de agosto de 2004.

Arte revogada
Comissão criada pela Secretaria das Culturas para preservação da paisagem urbana da cidade pede a remoção das 14 esculturas de Marli Mazeredo do espaço público carioca

Texto de Gilberto de Abreu, publicado originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 4 de agosto de 2004.

Posted by Ananda Carvalho at 4:28 PM | Comentários (2)

julho 7, 2009

Natureza inventada por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 10 de junho de 2009.

O fantástico, o exuberante e o monstruoso se combinam na obra de Janaina Tschäpe

Janaina Tschäpe é, como seu nome já aponta, meio brasileira, meio alemã. Nascida em Munique, viveu no Brasil até os 11 anos, parte deles no município de Bocaina de Minas, região montanhosa de matas e cachoeiras no sul do Estado de Minas Gerais. Talvez seja a partir desse contato inicial com a natureza brasileira que brotem as formas orgânicas, exuberantes e misteriosas que povoam suas fotografias, pinturas, desenhos e videoinstalações. Ou, ainda, do encontro entre os contos de fadas do Hemisfério Norte e as lendas afro-brasileiras é que venham a surgir suas criaturas maravilhosas e monstruosas, atualmente em duas exposições individuais, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

As praias, cachoeiras e matas fechadas são os cenários de Janaina. As quatro telas a óleo e as duas aquarelas em grande formato, em exibição na individual no Galpão Fortes Vilaça, parecem ser fruto de um longo processo de conversas e de convivência entre uma natureza real e um mundo interno e imaginário. As telas apresentam paletas que tendem para o verde, o violeta, o rosa e o azul, e foram pintadas ao longo dos últimos quatro meses, no ateliê que a artista mantém no Jardim Botânico, no Rio. No mesmo jardim, Janaina elaborou, em 2005, a série fotográfica "Melantrópicos", em que figuras femininas arrastam-se sobre pedras, troncos e musgos, carregando membros, tentáculos gigantes e outras próteses. Inspirada pela floresta tropical, criou também uma enciclopédia pessoal de plantas, na série "Botânica", em que fotografou pequenas esculturas feitas de massa de modelar.

Nas séries de vídeos e fotografias "After the Rain" (2003), "Melantrópicos" (2004), e "The Sea and the Mountain" (2004), em exposição na Galeria Laura Alvim, no Rio, os reinos vegetal, animal e mineral somam-se à natureza humana, criando situações em algum lugar entre a fábula e a ficção científica.

Circuitos no mundo

Brasileiros criam mundos em Veneza

53ª Bienal de Veneza - Fazer mu ndos/ Giardini e Arsenale, Veneza, Itália/ de 7/6 a 22/11

Há pelo menos 40 anos, desde que Cildo Meireles sequestrou a garrafa de Coca-Cola para fazer dela suporte de estratégia de guerrilha cultural, inscrevendo-lhe a frase "Yankees go home" e devolvendo-a à circulação, diversos artistas invadem espaços alheios a museus e galerias, esquivando- se às expectativas do mercado de arte. Mas muita coisa mudou e hoje são as instituições de arte que incentivam e abrem suas portas para os "formatos não convencionais". Da Documenta 12, em 2007, participou o chefe de cozinha catalão Ferran Adrià. Nesta edição da Bienal de Veneza, entre os convidados da 53ª Exposição Internacional - Fazer Mundos destaca-se o músico Arto Lindsay, apresentando a parada musical e performática "Multinatural (Blackout)". Nascido nos Estados Unidos, criado no Brasil, residente em Nova York durante décadas e hoje radicado no Rio de Janeiro, Lindsay está entre os cinco brasileiros convidados pelo curador sueco Daniel Birnbaum e pelo cocurador alemão Johan Volz para a principal mostra de Veneza.

Cildo Meireles participa de "Fazer Mundos" com uma instalação inédita intitulada "Pling Pling", que joga com a percepção visual das cores primárias em relação às secundárias. A instalação é formada por seis salas cromáticas que contêm seis monitores de tevê exibindo a cor oposta àquela que pinta o ambiente. A artista paulista Renata Lucas, especialista em intervenções urbanas e arquitetônicas, inseriu uma autoestrada sob o solo da alameda que liga os Giardini ao Arsenale. "É uma espécie de arqueologia ao contrário, onde o que se encontra nas camadas subjacentes de uma cidade antiga como Veneza é o futuro", descreve. Sara Ramo, nascida em Madri e residente entre Belo Horizonte e Paris, apresenta duas videoinstalações e um trabalho inédito montado em uma pequena casa do Giardino delle Vergini, "A Casa de Hansel e Gretel". Já a carioca Lygia Pape (1927-2004) é considerada uma das referências históricas da exposição, ao lado de Gordon Matta- Clark e Yoko Ono, e terá remontada sua instalação "Ttéia 1".

Posted by Ananda Carvalho at 4:09 PM

As vantagens de ser mulher por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 3 de junho de 2009.

Centro Pompidou quer afirmar seu engajamento com as artistas do sexo feminino em exposição de 200 artistas de seu acervo

Elles@centrepompidou/ Centre Pompidou, Paris/ a partir de 27/5

Não deixa de ser interessante ver uma exposição dedicada ao sexo feminino sem que a data de inauguração coincida com o dia da mulher. Por outro lado, a grande bandeira levantada pelas mulheres que se dedicam à arte – sempre, ou pelo menos desde a década de 1960 - foi por um reconhecimento profissional como artistas, e não como “artistas mulheres”. Por esse motivo, a exposição Elles@centrepompidou, em Paris, levanta bastante poeira. Com aproximadamente 500 obras de 200 artistas da coleção do Museu Nacional de Arte Moderna, a exposição quer contar a história da arte dos séculos 20 e 21 a partir da produção feminina, demarcando uma reação a escolhas de outras coleções, como a do Louvre e a do Musée d’Orsay que, segundo a curadora Camille Morineau, “não apresentam eux que homens, ou quase”.

Ao instaurar a produção de contornos feministas como o primeiro capítulo dessa história, o Centro Pompidou pretende afirmar seu “engajamento”.”Por que est-il si mal vu de faire un geste pouvant être interpreté comme ‘feministe’, dans un pays aú la parité dês hommes e dês femmes, si elle esr proclamée comme un necessite, est loin d’être atteinte?”, defende-se a curadora. No percurso temático e cronológico da exposição, abrem a sessão de arte contemporânea artistas como Shirin Neshat, Gina Pane, Ghazel, Sanja Ivekovik, Sophie Demeueter (?), Sandra Vasquez de la Horra e o grupo Guerrilla Girls, com seu outdoor sobre as vantagens de ser uma artista mulher. Entre elas, está o fato de que “não importa que tipo de trabalho você faça, será sempre rotulada de feminina”.

A artista carioca Anna Bella Geiger, que tem duas instalações fotográficas na coleção do Mnam, está instalada na sessão dedicada aos “Trabalhos com a palavra”. No mesmo módulo, a artista francesa Dominique Gonzáles-Foerster, residente entre Paris e o Rio de Janeiro, apresenta a vídeo-instalação Short histories, composta por vídeos realizados em Taipei, no jardim francies da Gloria, no Rio de Janeiro, e na marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Para quebrar o coro feminista, são histórias dedicadas aos escritores Henrique Vila-Matas, Roberto Bolaño e W.G. Sebald.

Sub-dividida em cinco sessões, a mostra oferece bons motivos de reflexão, como as salas dedicadas aos “slogans do corpo”, com Cindy Sherman, Marina Abramovic, Louise Bourgeois, Joan Jonas, Ana Mendieta, entre outras heroínas da emancipação do corpo através da arte. Mas a curadoria também tem momentos extremamente problemáticos e formalistas, como quando aproxima, em uma mesma sala, trabalhos com bordados e costuras, evocando a imagem arquetípica da Penélope tecendo à espera de Ulisses. Ou mesmo quando na sessão “Retratos de família”, faz uma seleção de obras que representam o titulo de maneira completamente literal.

Como saldo, fica a dúvida se, como afirma o pôster do Guerilla Girls, as participante de elles@centrepompidou não estariam aqui se beneficiando da vantagem de “serem incluídas em versões revisadas da história da arte”.

Posted by Ananda Carvalho at 3:56 PM

Fábulas caseiras por Paula Alzugaray, Istoé

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Revista Istoé, em 27 de maio de 2009.

Artistas habitam casas históricas e constroem exposições a partir da vivência de seus espaços e memórias

JOHN'S HOUSE - PATRÍCIA OSSES / Galeria Leme, SP/ até 20/6
INVISÍVEIS - JOÃO MODÉ / Fundação Eva Klabin, RJ/ de 24/5 a 25/6
DÉCOR - NINO CAIS / Galeria Virgílio, SP/ até 6/6

Para o dramaturgo John Osborne (1929-1994), o jardim e a natureza circundante de sua casa compunham a paisagem mais bela de toda a Inglaterra. O bosque de Shropshire e a casa do século 18 – que teve o escritor britânico como seu último morador e estava fechada há cinco anos – foram habitados pela artista chilena Patrícia Osses. A artista foi bolsista da Arvon Foundation, que oferece residências de criação literária a escritores. A partir de sua vivência do local e do estudo da obra do autor de Look back in anger (1956), marco do teatro moderno britânico, ela ocupou a casa abandonada construindo situações fictícias: fotografou seus espaços vazios através do reflexo de um espelho côncavo e passeou pelos cômodos e pelas trilhas dos bosques deixando no caminho um rastro de 50 metros de seda violeta. A vivência da casa gerou três ensaios fotográficos e um vídeo que hoje estão expostos na galeria Leme, em São Paulo.

O artista João Modé teve uma experiência similar à de Patrícia Osses, ao habitar a casa em que a colecionadora carioca Eva Klabin morou durante trinta anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Artista convidado do Projeto Respiração – que propõe a artistas contemporâneos a produção de obras ou intervenções a partir do contato com a coleção guardada na casa-museu de Eva Klabin –, Modé morou em um dos sótãos que estavam fora do circuito de visitação. “Nesse lugar, João Modé se permitiu conviver com a ambiência da casa para se deixar levar pelo seu imaginário e descobrir novas paisagens físicas e mentais. Trouxe de volta os sons, os discos que ela escutava; os aromas, seu perfume predileto (Joy, de Jean Patou) e sua flor predileta (antúrio). Experimentou o que é viver na penumbra, já que Eva Klabin trocava o dia pela noite”, conta o curador Márcio Doctors. Além disso, em sua intervenção Invisíveis, o artista destacou todos os objetos duplos encontrados na casa, evidenciando o espelhamento como um dos hábitos de Eva Klabin.

Já a exposição Décor, de Nino Cais, não resgata a memória de uma casa específica, mas trabalha com a idéia da casa como um fruto da imaginação. Ele divide a Galeria Virgílio, em São Paulo, em três ambientes: quarto, sala e jardim. Na sala, revestida de papel floral, estão expostas fotografias em que o artista se relaciona física e afetivamente com alguns objetos domésticos: flores, cabaças, cestos, esponjas. Em operações de transmutação, incorpora objetos de decoração. “A sala dos fundos, mais intimista, simula um quarto, escritório ou gabinete, onde ficam em exposição trabalhos em papel: desenhos e colagens mais delicados, alem de fotos que mostram o artista concentrado, equilibrando-se sobre objetos de vidro”, diz a curadora Thaís Rivitti. Nesse ambiente de vistas de interiores, a televisão é a janela para o mundo. E o jardim da casa imaginária de Nino Cais é a paisagem de um encarte de vendas imobiliárias.

Colaborou Fernanda Assef

Circuitos no mundo

A performance da bruxa

À contre-corps – oeuvre de dévoration/ 49 Nord 6 Est – Frac Lorraire, Metz, França/ até 20/9

Última parada antes da Bienal de Veneza, onde realizará uma obra inédita, o artista carioca Cildo Meireles esteve semana passada na cidade de Metz, leste da França, instalando sua obra La bruja (1979-1981), parte da exposição À contre-corps – oeuvre de dévoration. Mesmo que desde os anos 1960 tenha experimentado com os mais diversos materiais e estratégias, Cildo Meireles nunca foi reconhecido como um artista da performance, já que essa modalidade artística prevê o corpo como o foco da ação. Mas sua passagem por Metz altera sensivelmente essa condição. Independente de ser realizada diante de um público ou não, uma performance pode ser definida como uma obra artística em que combinam-se o gesto e a intenção de ocupação de um espaço (às vezes de forma improvisada). E isto é, precisamente, o que acontece na instalação da obra La bruja no espaço 49 Nord 6 Est - Frac Lorraine, em Metz.

Cildo Meireles não fez sua instalação em público, mas deixou os rastros de sua exploração do espaço tortuoso e labiríntico do edifício medieval onde está situado o 49 Nord 6 Est – Frac Lorraine. Pronunciando-se sobre o muro da fachada, invadindo tubulações, preenchendo o pátio interno, subindo as escadas da torre, perseguimos os 4 mil quilômetros de barbantes negros, antes que esse percurso termine inesperadamente em uma vassoira encostada à parede, ao fundo da grande sala de exposição. Esta montagem de La bruja pode ser interpretada como um acontecimento performático, já que dá-se de maneira imprevista, ocupando o prédio como um corpo vivo.

Segundo a curadora Béatrice Josse, a exposição foi construída em torno do trabalho de Cildo Meireles, que cerca-se de três obras de duas outras artistas brasileiras. Canibalismo e Baba antropofágica são registros fotográficos de performances realizadas por Lygia Clark, com a participação de estudantes da Sourbonne, em Paris, em 1973, e In-out antropofagia, é um vídeo de Anna Maria Maiolino, de 1973, que pertence à coleção do Fundo Regional de Arte Contemporânea (Frac). Alem de circundar Cildo, a mostra articula-se também em torno do Manifesto Antropofágico (1928), de Oswald de Andrade. Mas atrás dos barbantes da bruxa brasileira, escondem-se outras tradições locais: uma escolha do Frac Lorraine por privilegiar uma arte feminina ou feminista – e também por obras “imateriais” - e a presença sugerida de Joana d’Arc, heroína da região de Lorraine.

Posted by Ananda Carvalho at 3:44 PM