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janeiro 19, 2010

Acontece em Kassel por Fábio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fábio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 19 de janeiro de 2010

Diretora artística da próxima edição da Documenta, em 2012, conta como elabora a mais importante mostra de arte contemporânea do mundo

Desde 1972, a Documenta de Kassel é considerada a mais importante mostra de arte contemporânea. Uma das razões para tanto é que seus diretores têm cerca de quatro anos para organizá-la e, como diz a norte-americana Carolyn Christov-Bakargiev, em tom metafórico, "certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos".

Indicada para diretora artística da Documenta, em dezembro de 2008, por comitê que contou com o brasileiro Paulo Herkenhoff e que teve como finalista Lisette Lagnado, Christov-Bakargiev, 52, ainda está na fase inicial da pesquisa. "Eu queria ter ido ao Brasil, em 2009, ver o Panorama [no Museu de Arte Moderna], do Adriano Pedrosa, mas, como só me desliguei do museu Castello di Rivoli [em Turim], em dezembro, acabei não conseguindo. Mas certamente irei agora em 2010, pois estou criando uma rede, e o país está em minha rota", contou à Folha, por telefone.

"Eu nunca gostei de trabalhar sozinha, eu gosto de colaborações, de pingue-pongue com muita gente. Foi assim que fiz a Bienal de Sydney e a Trienal de Torino", afirma a curadora. Christov-Bakargiev esteve no Brasil quando organizou a Bienal de Sydney, na Austrália, em 2008, e daqui levou quatro artistas para a exposição: Anna Maria Maiolino, Marcellvs L., Hélio Oiticica e Renata Lucas -que já foi convidada para a Documenta, segundo curadores próximos à norte-americana.

Ainda sem um projeto final, já que a mostra se realiza apenas em 2012, Christov-Bakargiev pretende manter algumas das marcas das últimas Documentas, entre elas descentralizar a arte ocidental, como afirma na entrevista abaixo.

FOLHA - Para ser selecionada como diretora artística você precisou elaborar um projeto?

CAROLYN CHRISTOV-BAKARGIEV - Não foi exatamente um projeto. O comitê de seleção me contatou e, para ser aceita como candidata, precisei responder a três questões. A primeira foi para que serve a Documenta e qual é o seu papel; depois, qual é minha metodologia -o que foi muito interessante, pois, estranhamente, nunca pensei nisso, e foi um exercício de autorreflexão. E, finalmente, o que é necessário -uma questão também interessante, porque, afinal, o que se pode dizer que é necessário? Mesmo a vida pode não ser necessária e, então, mudei [a questão] para o que se pode fazer.

FOLHA - Então, o que se pode fazer?

CHRISTOV-BAKARGIEV - Bom, isso muda com o tempo, mas, basicamente, creio que a Documenta se transformou num estado da mente na paisagem contemporânea, tanto no mundo da arte como além dele. Creio que tenha se tornado um estado mental, pois nela se pode pensar no papel da cultura no mundo. Mas isso eu escrevi há mais de um ano e, talvez, eu mesma já tenha mudado de opinião (risos). Certo é que o mundo se transformou de maneira dramática e radical desde 1955. Hoje, como se sabe, é muito diferente, a arte se tornou popular -o que não era nem mesmo nos anos 1970, quando Harald Szeemann fez a Documenta. Assim, ela sempre esteve vinculada a esse desejo de uma consciência coletiva e, por outro lado, tem sido espaço para debater sobre o alto modernismo e os tempos pós-coloniais, uma negociação durante a globalização.

FOLHA - Mas qual é a diferença entre a Documenta e as bienais e feiras de arte?

CHRISTOV-BAKARGIEV - As bienais, que hoje chegam a 154 em todo o mundo, possuem uma certa independência territorial e independência enquanto laboratórios de experimentação para novas praticas artísticas e novos modelos de sociedade. Já as feiras de arte, assim como o mercado da arte, não são experimentais e transferem para um objeto artístico um tipo de investimento simbólico de marcas imateriais. Como vivemos numa sociedade de marcas imateriais, que é o mundo digital, de repente as obras de arte são o mais importante produto da sociedade, pois são a materialização de marcas imateriais. Além desses dois mundos, existe a Documenta, e o que a caracteriza é que ela ocorre a cada cinco anos -e esse tempo a transforma num dinossauro muito lento. Alguém me disse que deveríamos chamá-la de "ela já está atrasada", o que eu não vou fazer, mas, se pensamos no conceito de "inatualidade suprema", como tantos filósofos exploraram na importância de não se estar em dia, isso dá à Documenta um desafio, que é ter outro tempo. Certos experimentos científicos não podem ser alcançados antes de três ou quatro anos, é preciso um longo tempo para se estudar o comportamento de um animal, por exemplo.

FOLHA - E como você a vê até agora?

CHRISTOV-BAKARGIEV - É uma exposição no centro da Europa, e sou consciente de que isso gera um problema duplo. Por um lado, defendo que toda exposição seja muito baseada no local onde ocorre, pois acredito que a verdadeira experiência da arte tem a ver com o corpo e, portanto, deve ter uma relação com o espaço onde acontece.

A Documenta não pode se fechar nela mesma, pois o incrível movimento que fez com Catherine David (1997) e com Okwui Envezor (2002) foi ajudar a descentralização da arte ocidental e ver a impossibilidade de pensar através de formas que não sejam complexas ou rizomáticas.

Seria absurdo isolar Kassel, sem se descentralizar demais, senão seria uma nova forma de neocolonialismo, o que também seria absurdo. Assim, eu não lhe contei o que vou fazer, mas os problemas com os quais me confronto.

Posted by Fábio Tremonte at 4:38 PM