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dezembro 6, 2007

Arte e Fla x Flus, por Daniela Labra

Arte e Fla x Flus

DANIELA LABRA

Leia também os artigos:
É de fama e dinheiro que se trata a arte? de Luciano Trigo (Folha de S. Paulo, Ilustrada, 19/11)
É do mundo que a arte trata de Moacir dos Anjos (Como atiçar a Brasa, 20/11 e Folha de S. Paulo, Ilustrada, 28/11).
Paranóia ou Mistificação? de Marcos Augusto Gonçalves (Folha de S. Paulo, Ilustrada, 22/11)
Entrando na discussão e procurando outras direções de Luiz Camillo Osorio (Como atiçar a Brasa, 28/11)
A maior violência contra a arte é querer falar dela sem ela de Laura Vinci (Folha de S. Paulo, Ilustrada 28/11)
Resposta da artista Débora Bolsoni (Máquina de Escrever, 27/11)
Idéias fora do tempo, tréplica de Luciano Trigo (Folha de S. Paulo, Ilustrada, 01/12)

É admirável como as discussões públicas sobre o tema Arte Contemporânea se tornam verdadeiros Fla x Flus muito facilmente. De um lado, críticos e artistas inconformados com a história do século XX que transformou a arte numa espécie de engodo para satisfazer um mercado consumista, fabricante de estrelas fugazes das artes plásticas, muitas vezes sem preparo técnico adequado.

Do outro lado da discussão, outros artistas, críticos, curadores e todos os que se interessam positivamente pelo tema, não o compreendendo como uma aberração histórica, mas como um caminho estranho e instigante que a arte tomou ao se desligar de sua premissa número um que era representar mimeticamente a natureza.

Em comum, ambos os lados parecem querer defender seus pontos de vista como se fosse uma verdade. O curioso é perceber como se dão tais críticas e suas réplicas, sempre muito reativas e pouco cordiais, principalmente daqueles que são 'contra' a arte contemporânea.

Ao ler artigos de alguns 'contra' em terreno brasileiro como Affonso Romano de Sant'anna, o poeta Ferreira Gullar e o jornalista Luciano Trigo, percebemos que os comentários normalmente partem para o ataque desde uma visão unilateral e utilizam uma arma fácil de ser usada contra o alvo: o ridículo. Além de piadas e denominações bem-humoradas mas pejorativas (como 'arte caninha 51 - a da boa idéia' de Gullar e 'arte horti-fruti' de Trigo, para obras que usam alimentos orgânicos), também são utilizados outros recursos como: insistir em acusar a arte conceitual (ou o precursor Duchamp) como a linha filosófica que destruiu - e banalizou a produção de arte; enxergar apenas um lado da formação do artista plástico acusando-o de fazer arte sem preparo, sem estudo, sem técnica; obsessão em ver o mercado como o vilão que torna a arte um mero objeto de consumo e faz do artista um pop-star fugaz ou um enganador pois suas obras, realizadas sem o menor apuro, serviriam para ganhar dinheiro às custas da ingenuidade do público.

Outro mote recorrente em tais textos revoltados com os fatos, é a afirmação que os artistas de hoje apenas reeditam coisas que já foram inventadas há 40 anos (pela Pop Art e depois pela a Arte Conceitual) e que como afinal a arte está francamente em crise, os que produzem instalações, performances, ou coisas que surgiram naquele período deveriam parar de repetir os movimentos passados e buscar enfim fazer algo 'novo'.

Não se deve ignorar, contudo, que em todas as acusações listadas acima existe sim o seu lado verdadeiro. Hoje vivemos a era da repetição de temas e da banalização da imagem e sua circulação. Os quinze minutos de fama de Warhol foram enxugados para 5 minutos, e é certo que atualmente tudo é passível de se tornar mercadoria - os corpos, as idéias, os objetos inúteis e qualquer coisa que seja chamada de Arte por um sistema institucional.

Além disso, não deve ser considerado mero detalhe que o artista contemporâneo não precise ser necessariamente formado em artes ou desenho técnico para executar seu trabalho, o que muitas vezes desperta incompreensão e uma certa revolta dos leigos - e dos 'contra'. E este ponto talvez seja aquele que torne a situação da arte mais difícil pois pode ser constrangedor assumir que um artista com formação propícia pode ter obra muito menos interessante do que o biólogo que resolveu virar artista.

Diante de espantosa realidade, é possível então descambar para a mais corriqueira de todas as discussões sobre arte contemporânea: como avaliar o que é 'de qualidade' se os parâmetros formais da obra e os de formação do artista não mais definem o valor artístico? Se a arte se tornou pesquisa, processo, discurso, como a profundidade disso pode ser medida apenas pela obra 'acabada', exposta? E daí, diante das longas possíveis respostas sobre arte processual, conceitos e desmaterialização do objeto artístico, pode-se estimular a discussão a qual os 'contra' mais gostam: na verdade é tudo um embuste e uma confusão provocados pelo mercado e pelos críticos vendidos que fabricam artistas e decidem o que é bom para o público consumir.

No modo indelicado como o assunto é abordado por aqueles que são do 'contra', obras são desqualificadas como sendo meras reedições, e em suas declarações percebemos um olhar moderno que clama sempre por uma tal arte nova, cuja direção para encontrá-la é um mistério. E então vemos uma armadilha dos 'contra', para com eles mesmos: estes reclamam de velhos conceitos encobertos por supostas novas propostas, mas não percebem que sua postura também reedita um olhar caduco que parece acreditar sobretudo no formato do suporte e no esmero de uma técnica precisa, tal como era até o final dos anos 50.

Se de acordo com os contra, depois da Arte Conceitual nada mais vem sendo inovado, o que dizer das experiências interessantes no campo da web art, da bio-arte 1, da sound art, e mesmo da vídeo-arte, para citarmos apenas categorias específicas? É evidente, ainda, que a performance de hoje não é a mesma dos anos 1970, seja pelo contexto ou pelo discurso que se atualiza e renova, o mesmo valendo para a pesquisa do site-specific, entre outros. Não podemos esquecer que durante séculos os artistas investiram no suporte da escultura e da pintura, e que até hoje pesquisas pictóricas continuam sendo feitas com sucesso e inovação. É justo portanto acusar a arte contemporânea de ser uma grande invencionice conspiradora a favor do comércio mas contra o público e contra a própria arte?

Que venha o debate, mas que ele aconteça de modo mais delicado. É muito simples acusar tudo de entulho, dizer que Duchamp foi o pai do embuste da arte contemporânea e esbravejar por 'caminhos novos' para a arte. Como a arte justamente não se trata mais de fórmulas e como não podemos negar que vivemos em tempos de mercantilização geral, a delicadeza para analisar a produção artística é fundamental. Se a arte libertou-se da forma do objeto e também se tornou idéia, filosofia, a reflexão sobre ela se faz premente mas requer cuidado. Obviamente nem tudo que reluz é ouro (ou arte) mas também nem tudo que parece lixo está desprovido de caráter artístico - pelo menos dentro das acepções moderna e contemporânea de arte. A primeira libertou o quadro do cavalete e a escultura do pedestal, e a segunda, a idéia da carcaça formal de um suporte estático e material.

Como o artista Stelarc foi citado por Luciano Trigo no texto inicial desta polêmica é interessante ler o artigo de Daniela Labra publicado na revista Número 6, 2005: Stelarc: Próteses robóticas e o corpo vazio (nota CC)

Posted by Daniela Labra at 10:23 AM | Comentários(37)
Comments

Discordo, Daniela. A arte não está em crise. O cinema não está em crise, nem a literatura, nem a música popular. Acredito que nem mesmo a pintura e a escultura estejam em crise. O que ninguém mais agüenta é arte sem técnica, sem exibição de um talento especial que permita estabelecer uma escala de valores. Alguns pianistas são claramente melhores que outros, e os que são excepcionalmente bons nos emocionam, pois nos põem diante de um limite humano. Sem isso, você tem qualquer coisa no mundo, menos arte. Quem se revolta contra essa onda de instalações, frutas, legumes, implantes, e por aí vai, revolta-se pela AUSÊNCIA nas Bienais, nas galerias, nos museus de algo que foi marginalizado - o talento especial da pessoa que SABE desenhar MUITO melhor do que qualquer um de nós. Eu gosto de pintura, gosto de escultura, e me revolta ir a uma Bienal, onde supostamente seria o lugar de se ver obras de pessoas dotadas DESSE talento específico, e constatar que, ao invés disso, o que eu irei ver lá é um amontoado de asneiras inspiradas por filosofices de ÚLTIMA QUALIDADE. (Essa é a pior parte - a "filosofia" que essa gente acredita estar por trás de suas geringonças.) Impostura pura e simples. Dá nojo, como qualquer impostura. Ninguém suporta mais isso.

Posted by: João Vergílio at dezembro 6, 2007 7:46 PM

Ouça isto:

http://br.youtube.com/watch?v=2uYrmYXsujI

Escolhi de propósito um exemplo bem simples. O lance mais elementar de um jogo que pode ser muito mais complexo.

A técnica dá um solo à avalição estética na música, na literatura, no teatro, no cinema. Você pode ousar o quanto quiser, mas só se tiver condições de fazer os primeiros lances. E se for possível reconhecer, em cada ousadia, não o desprezo pelas técnicas mais básicas, mas um domínio excepcional das mesmas. Sem isso, você está fora do jogo.

Foi aí que, na minha opinião, boa parte das artes plásticas do século XX se perdeu.

Posted by: João Vergílio at dezembro 7, 2007 9:41 AM

Não entendi, João, o seu comentário? Não é Daniela Labra que diz que a arte está em crise, mas os do "contra".
Quanto a sua generalização de que ninguém mais agüenta o que você chama de arte sem técnica, acho que você está redondamente enganado e o crescimento do Canal Contemporâneo, totalmente voltado para arte contemporânea, serve muito bem para te contradizer. A visitação anual de mais de 5 milhões de pessoas a uma Tate Modern também demonstra que não é possível tal simplificação. É verdade que muitas pessoas gostariam que a história da arte tivesse seguido um outro curso, que a arte fosse totalmente impermeável as mudanças da sociedade no último século, mas isso simplesmente não é possível. Afinal, é da própria natureza da arte refletir o seu tempo e, se possível, provocar o pensamento crítico e transformações.
Por último, lembro a você que, nem mesmo quando a questão técnica era protagonista, a escala de valores para a compreensão da arte se apresentava como algo simples de ser estabelecido.

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 7, 2007 12:47 PM

Olá Patrícia, acho particularmente, que no assunto em questão, a sua observação aqui postada, de certa forma, remete a parcialidade, afinal você é da equipe, coordenadora geral do Canal Contemporâneo. Penso que tal correção deveria ser enviando ao e-mail do usuário citado no seu post...Não é mesmo? Desculpe-me, más acho que seja essa a postura...

Posted by: Roberto Silva at dezembro 7, 2007 3:39 PM

Acho legal haver discussão do assunto. Bendita internet, que possibilita essas coisas.

Este ano, um andar inteiro da Bienal ficará vazio. Sei que isso tem origem numa série de problemas que nada têm a ver com a arte em si, mas é interessante notar que o curador sentiu-se autorizado a transformar esse vazio num emblema da situação atual que vivemos. Quem é esse curador? Alguém "do contra"? De maneira alguma. É um perfeito representante da situação contra a qual eu me revolto. A constatação de que passamos por um longo período de crise nas artes plásticas não é minha. É de todos - a começar dos próprios artistas, que tematizam a tal crise ad nauseam. O problema é caracterizar exatamente o que está incomodando tanto nas artes plásticas produzidas hoje em dia. Se você comparar a situação das artes plásticas com a situação das outras artes, creio que o nó da questão aparece com clareza. Uma enorme quantidade de artistas resolveu se insurgir contra o valor da habilidade técnica. Ora, sem isso, a arte perde todo o sentido, pois desaparece um dos pilares sobre os quais se assenta o juízo de gosto. Você fala em permeabilidade da arte às mudanças sociais. Ora, será que o cinema ficou impermeável a essas mudanças? Será que a literatura se alienou do mundo? É claro que não. Escritores e cineastas discutem o mundo contemporâneo com profundidade e beleza. Nem por isso precisaram renunciar à técnica como valor. Não estou dizendo que a pintura contemporânea como um todo tenha feito essa renúncia. Estou apenas repetindo aquilo que boa parte desses artistas ADMITEM DE BOM GRADO - que o domínio técnico ficou em segundo plano. Isso me parece simplesmente empobrecedor.

Seres humanos se comovem diante do espetáculo de um domínio técnico excepcional. Isso vale para um drible do Garrincha, para um verso do Cartola, para uma ultrapassagem do Senna, para um vitral da Sainte Chapelle e para um quadro do Picasso. Eu sonho com uma Bienal - uma só, que fosse - na qual o curador tivesse a ousadia de colocar o domínio técnico em primeiríssimo plano. Que saísse pelo mundo reunindo desenhistas e pintores ESTUPENDOS, que nos fizessem ficar encantados com a capacidade fora do comum que certas pessoas têm de produzir figuras poderosas sobre uma tela. Não haveria, no contexto atual, gesto mais revolucionário do que esse - banir instalações, telas em branco, tomates espalhados pelo chão, performances e vídeos caseiros, em favor de... pinturas. Pinturas tão boas quanto um filme do Almodóvar, um livro do Saramago, um samba do Paulinho da Viola, ou um drible do Robinho. É pedir muito?

Posted by: João Vergílio at dezembro 8, 2007 2:22 AM

Concordo que opiniões as vezes acidas e sem aprofundamentos embasados, tendem ao tom devastador e indelicado. Isso com certeza incomoda aos que tem uma visão mais "liquida" apurada e atualizada, que situam suas teses no campo da pesquisa cientifica e filosófica no contexto atual. As produções artísticas contemporâneas estão em ritmo veloz, a tecnologia tem proporcionado e facilitado essas acelerações, ha que se ter um tempo para fixarmos tais transformações. Preocupações essas estão sendo discutidas pelas universidades em simpósios, seminários, colóquios...Etc. Há apontamentos no sentido de como e o que se fazer para preservar a memória, a autoria dessas novas obras mediaticas para o futuro... É fato evidente que o desconforto e desencontros da visão moderna com as linguagens contemporâneas devam se estender por muito tempo. Temos um longo caminho para essa hibridização. No mercado de trabalho muitos profissionais que iniciaram suas carreiras no século passado, hoje estão se atualizando por força das ferramentas tecnológicas, o mesmo se aplica à arte moderna, é preciso reler e rever conceitos, princípios históricos e acadêmicos. Isso não é um jogo de vaidades, são posturas estéticas a serem debatidas publicamente em ambos os territórios disciplinares. O olhar crítico de hoje é processual, não são os fins que interessam e sim os meios. Ferreira Gullar faz a critica sobre o ponto de vista da finalização e da expressão, é o seu limite estético, não se pode coloca-lo como vilão e retrogrado, é o presente momento dele. O que estamos lendo todos os dias aqui no “Como atiçar a brasa” do Canal Contemporâneos são meras e interessantes especulações sobre posicionamentos do ponto de vista individual. São importantes esses barulhos, a provocação é o tempero que aguça os sentidos. A publicação do artigo do Luciano Trigo é fundamental e pertinente para a expansão de tais correções e releituras do tempo passado no tempo presente.

Do outro lado, o artista precisa vender sua produção para sobreviver, assim o mercado é o seu principal espaço de negociação, o que dá valia ao seu trabalho ou não. Para as galerias, discussões, sobre o conceito estético, acadêmico e técnico da arte, são relativas, pois o que vale é aparição e importância da obra e seu produtor (o artista) para o potencial comprador e colecionador. Sem essa relação mercadológica a arte morre, fica o corpo.

Roberto Silva_ artista plástico profissional.

Posted by: Roberto Silva at dezembro 8, 2007 2:45 AM

João, “figuras poderosas sobre uma tela” me lembra Rembrandt, Goya, mas também Bill Viola. A tela não pode ser de vídeo? Curiosamente, se banirem as instalações, você vai perder muito da chance de encontrar isso que você tanto busca. Imagens poderosas não se limitam a traços e pinceladas, como você mesmo disse, podem estar num drible...

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 8, 2007 10:41 AM

Patrícia,

O problema não é a instalação em si, mas o lugar que ela pretende ocupar. Instalações surgem como uma suposta solução para um suposto esgotamento das artes visuais. Que esgotamento é esse? Não há esgotamento nenhum. Há artistas maravilhosos produzindo coisas maravilhosas no mundo todo. O que se esgotou, isto sim, foi um certo tipo de arte que, por péssimas razões programáticas, resolveu se desvincular de uma idéia muito simples: pintura é exibição de um talento muito específico, que pouquíssimas pessoas têm, e que só se desenvolve com anos de aprimoramento técnico. Quadros em branco e quadradinhos ritmados realmente cansam qualquer um. Seria até exagero dizer que "se esgotam". Já nascem exauridos, de tão pouco que têm a oferecer a quem vai vê-los. São manifestos, e não obras de arte - e manifestos toscos. Quando procuramos a idéia básica que presidiu a feitura desses manifestos, o que encontramos são, como eu já disse, filosofices de quinta categoria.
Vou eleger uma dessas idéias para exemplificar o que estou dizendo - a idéia de "participação". Muitos quadros são produzidos - assim nos informam os catálogos, e determinados críticos - para "romper" com a "passividade" do "fruidor" (o linguajar é nojento, eu sei, mas quero trazer à lembrança de quem me lê o tipo de atmosfera intelectual que cerca essas obras). Aí você pendura na exposição um quadro completamente branco, para que o "fruidor" tenha, por assim dizer, a obrigação de preencher aquela enorme lacuna idiota na parede. Como este é realmente o limite desse tipo de "proposta" (para irmos além disso, seria necessário deixar ali APENAS a parede, coisa que, me parece, também já foi tentado), as pessoas chegam à conclusão de que "a pintura se esgotou". Toma-se, então, o mote da "participação" do visitante, e parte-se para a produção de obras em o mesmo é convidado a "não ser um mero espectador". Ele deve entrar dentro da obra de arte, tocá-la, cheirá-la, e por aí vai. Ora, o que está por trás disso é simplesmente uma concepção tosca do que seja "interação" e "passividade". Posso interagir intensamente com uma obra, mesmo que eu siga as instruções do museu para não tocá-la. O que existe, no fundo, é um recuo para a idéia de interação operante num parque infantil, em que as crianças não se contentam em observar os brinquedos, mas têm que tocá-los, subir neles, entrar dentro deles para "fruí-los".

Posted by: João Vergílio at dezembro 8, 2007 7:21 PM

João, o que você chama de esgotamento das artes visuais parece se relacionar com a busca de novos suportes para o desenvolvimento de trabalhos artísticos. E quando você diz que "O problema não é a instalação em si, mas o lugar que ela pretende ocupar" fica explícita a sua rejeição a este suporte. Da mesma maneira que você também rejeita expressões de uso comum nas artes nas últimas décadas como fruidor, participação, interação...
Não são as artes visuais que se esgotam, mas os suportes tradicionais que não conseguem mais sozinhos dar conta da pluralidade de intenções da produção artística. Então, vemos desde a década de 60 o desenho, a pintura, a escultura, a fotografia, o vídeo e etc fazerem uso da instalação para ocupar o espaço, quando isso se faz necessário. Bom, mas eu te fiz uma pergunta no comentário anterior que você não respondeu: A tela não pode ser de vídeo?

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 10, 2007 10:40 AM

Claro que pode ser de vídeo, Patrícia. O fundamental não é o suporte, mas o que você coloca sobre ele. Se alguém colocar sobre uma tela de vídeo um resultado tão rico, bonito e profundo quanto os que Fellini foi capaz de pôr sobre as telas de cinema, serei o primeiro a aplaudir.
Outra coisa, muito diferente, é chegar a uma exposição como a do Sister, e encontrar um amontoado de ripas coloridas que pretendem ser uma "reflexão" sobre a pintura, uma "crítica" dos suportes tradicionais, e por aí vai.
Essa história de que o "suporte" se esgotou é bobagem, Patrícia. O suporte dos livros se esgotou, por acaso? Você compraria um livro em branco, que pretendesse ser uma crítica dos "suportes" tradicionais? Iria a um filme que exibisse apenas colagens mal feitas de cenas clássicas, pretendendo fazer uma crítica da "sintaxe visual" do cinema? Nem eu. Esse é o ponto.
Nada contra novos suportes. O problema é o que eles estão suportando. E o que nós ainda seremos capazes de suportar.

Posted by: João Vergílio at dezembro 10, 2007 12:07 PM

Oi João,
É curioso como pessoas com seu olhar insistem em afirmar que há vontade de se fazer 'manifestos', 'rebeldia', 'arte interativa', 'chocar', com a arte contemporânea. Na verdade, se formos mais a fundo no debate com teóricos interessados positivamente no assunto veremos que assim como você, eles também rechaçam produções artísticas que querem 'chocar' ou só interagir. É corrente nessas rodas o comentário de que não se pode mais 'chocar' colocando comida ou corpos nus numa exposição pois é algo datado, do mesmo modo como a idéia de se redigir um manifesto é, pois isso ficou ligado a um tempo em que a arte esteve associada a movimentos vanguardistas que hoje não existem mais (aliás, até a noção de vanguarda hoje é questionável). Provavelmente o mote que se queira atingir nesses trabalhos que parecem 'chocantes' seja outro... Depende do caso, do artista, do contexto, de muitos fatores - e da disposição dos que criticam para se aprofundar na análise da obra. A Arte, ao se desprender do presuposto técnico como algo primordial (mas não desnecessário, não confuda...) se afastou mais ainda da ciência, não tem certo nem errado, não tem pincelada melhor que outra. Uma conversa com os mesmo teóricos interessados na produção de arte atual também terá queixas sobre certa banalização da prática, mas estes estão mais preocupados em explorar os artistas que se debruçam seriamente sobre o assunto do que em avaliar o quão boba é ou não a arte de cada um. O grande problema que vejo é que há uma divisão entre os que ainda se aferram a uma idéia moderna de arte e outros que se abriram para o que aconteceu com ela depois de sua implosão no século XX. Seria chatíssimo para mim ir numa bienal e ver as mesmas pinturas realistas ou mesmo cubistas como as de outrora, e mesmo ver esculturas acadêmicas talhadas em mármore. Isso a mim e a muita gente não interressa mais. Por outro lado, há pessoas que clamam por isso. E então caímos na discussão entre surdos. Compreendo absolutamente a falta que uma paisagem realista possa fazer, mas compreendo melhor ainda que ela não integra mais o quadro de prioridades na produção atual.
Em suas críticas, você fala muito de cinema, mas cada àrea tem processos e história específicos. Eu só sei apreciar o cinema, nada além. Fellini foi um grande diretor, mas poderia ter sido um péssimo 'sound-artist' ou aquarelista. Mas há artistas que realizam video-arte a partir de questionamentos sobre cinema, não exatamente o seu suporte. recomendo conhecer Shirin Neshat, Cindy Sherman, Eija Lisa Athila e o pintor Adams Carvalho. Como entendo um pouco mais de artes plásticas do que da sétima arte, também posso lhe dizer que eu já vi trabalhos lindos mostrando livros com páginas em branco, grudadas, rabiscadas, recortadas... Não eram críticas ao suporte, mas uma reflexão sobre a linguagem (ex: Marilá Dardot). E se o pintor pinta objetos para discutir o suporte da pintura, por que não podemos respeitar sua pesquisa? A centenária história da pintura justifica ainda seu debate como fonte de pesquisa pictórica.
Se alguns acham esses trabalhos uma perda de tempo, então podem optar por visitar apenas as obras de sempre nos poucos velhos museus à disposição. Há também muitas galerias que oferecem arte acadêmica, a vendem muito bem e há muita gente que só gosta disso. (um adendo: creio que a ausência de uma cultura de instituições fortes e de um circuito mais respeitável é o que faz com que se conheça pouco - e se resmungue muito sobre a arte de hoje e de ontem. Mas isso é outro texto...)
Sugiro dois livros básicos sobre a discussão interminável sobre arte contemporânea - "O Fim da História da Arte", Hans Belting; e "A Transfiguração do Lugar-Comum", de Arthur C. Danto - ambos da Cosac & Naify ed. Danto aliás, tem uma passagem brilhante sobre por que uma tela vermelha pode ser totalmente diferente de... uma outra tela vermelha - assim como um sapato pode ser diferente de outro sapato, dentro do universo da arte claro. Talvez Danto seja mais um que foi enganado pelo culto a Duchamp, mas suas idéias são bastante estimulantes e esclarecedoras.

Posted by: daniela labra at dezembro 10, 2007 3:42 PM

obs. sobre Shirin Neshat, Cindy Sherman, Eija Lisa Athila e o pintor Adams Carvalho: estes não questionam o cinema, mas fazem referência a esta arte para explorarem outros temas.

Posted by: daniela labra at dezembro 10, 2007 3:48 PM

Daniela,

O problema de base nas artes plásticas de hoje é o seguinte: como reconstruir o jogo de linguagem da avaliação estética. Avaliações nunca são fáceis. Avaliar o rendimento escolar de uma criança de oito anos já é uma empreitada difícil, que dirá avaliar a produção de um artista. O problema é que esse jogo avaliatório, nas artes plásticas, tornou-se absolutamente impraticável. Como já disse alguém "bom é aquilo que os galeristas acham bom". Creio que há um trecho de seu texto que expressa bastante bem aquela que é, a meu ver, a raiz dessa "crise de valores" na arte. Você diz:

"A Arte, ao se desprender do pressuposto técnico como algo primordial (mas não desnecessário, não confuda...) se afastou mais ainda da ciência, não tem certo nem errado, não tem pincelada melhor que outra. Uma conversa com os mesmo teóricos interessados na produção de arte atual também terá queixas sobre certa banalização da prática, mas estes estão mais preocupados em explorar os artistas que se debruçam seriamente sobre o assunto do que em avaliar o quão boba é ou não a arte de cada um."

O problema é esse: se não há "pincelada melhor que outra", se não há certo, nem errado, fica impossível estabelecer critérios que distinguam o trabalho sério da bobagem. A técnica é essencial em qualquer arte. Admirar um artista é admirar, antes de mais nada, alguém dotado de um ESPANTOSO domínio de uma técnica complicadíssima. As pessoas se reúnem, na Praça da Sé, para observar a habilidade de um desenhista capaz de reproduzir o rosto de uma pessoa sobre o papel. Isso é ilegítimo? De maneira alguma. Esse é o chão sobre o qual a atividade do pintor DEVE se desenvolver, pois este é também o chão sem o qual a atividade crítica NÃO PODE se desenvolver.
Imagine, só por um momento, que a música tivesse feito opções semelhantes. Imagine que os músicos resolvessem não mais encarar a técnica como algo primordial, mas, no melhor dos casos, como algo "acessório". Que pretendessem ser julgados em termos da "expressividade" dos sons que produzem, ainda que de modo tateante. Há casos de músicos que fazem exatamente isso - o Tom Zé é um bom exemplo. Após vinte anos escutando apenas "sons expressivos", acredito que muitas pessoas que AMAM a música estariam doidas pelo retorno da técnica como parâmetro BÁSICO (não único, veja bem...) de avaliação. É isso que eu e muitas outras pessoas estão querendo. Gente que saiba desenhar MUITO, mas MUITO melhor mesmo do que o carinha lá da Praça da Sé. Que esteja, enfim, num ponto muito distante no interior da régua em que esse cara é apenas a primeira marca. O que definitamente não se pode fazer é jogar fora todas as réguas, ou então tentar usar uma que seja feita de vapor.
Se você quiser continuar esta discussão interessantíssima, eu gostaria de lhe propor uma questão: quais são as réguas disponíveis para o jogo de linguagem das artes plásticas, hoje em dia?

Posted by: João Vergílio at dezembro 10, 2007 5:30 PM

João, para entender como é possível avaliar algo na produção de arte contemporânea, leia o Danto e o Belting, e se puder, leia "O Retorno do Real", do Hal Foster. Tem também a Rosalind Krauss e até mesmo o bom e velho Ives-Alain Bois, sobre o informe. Enfim, uma penca de gente pensando o assunto. Você vai se surpreender como a discussão não é tola e nem é balizada pelos galeristas.

O critério da primorosa técnica não mais vale por si mesma para atestar qualidade por que justamente nos séculos XIX-XX o artista da academia descobriu que existem mais coisas entre ele, o suporte da obra e o mundo do que a técnica pode transmitir. Porém há artistas que são pura técnica e esses, com todo o respeito e admiração, me parecem estar mais próximos do artista do renascimento, que ocupava o mesmo espaço do artesão. A técnica impressiona, mas e então? Um artista Näif, da mesma praça da Sé pode ter um traço tosco e comover muito mais do que o retratista de paisagens...

abraços, d.

Posted by: daniela labra at dezembro 10, 2007 6:40 PM

O que faz a música, a literatura e o cinema atenderem ao "retorno da técnica como parâmetro BÁSICO" é o fato delas serem indústrias com estruturas pesadas e voltadas ao lucro. Logo, o gosto popular manda. E poucos, muito poucos, Toms Zés têm a chance de se estabelecer...

Felizmente ou infelizmente, a produção de arte contemporânea ainda não precisa de tanto dinheiro (mas as mega-exposições já correm mais este risco) e por isso consegue mais "liberdade" no seu desenvolvimento. De qualquer maneira, nunca fomos populares... Não podemos esquecer que aquilo que hoje, estando estabelecido, é considerado um trabalho esplendido, em sua época era considerado um ultraje e eram sempre os especialistas que tinham que decifrar o novo enfoque dos artistas.

Quanto às réguas, elas são muitas, mas certamente a básica é a própria história da arte que nos empurra sempre para frente, pois o passado já está garantido nos museus. Logo, ao contrário das artes performáticas cujos clássicos precisam ser reencenados para serem apreciados e estudados, a nossa área apenas se apropria do que já foi feito para fazer um comentário a mais, para criticar ou atualizar o tal objeto de estudo.

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 10, 2007 6:41 PM

Adorei a citação " Nada contra os novos suportes.O problema é o que eles estão suportando.E o que nós ainda seremos capazes de suportar" muito bom.
Agora,por outro lado ,eu adorei o trabalho da Daniela e a maneira como ela respondeu as críticas do Sr. Trigo.
Viva a paçoca inteligente e abaixo o trigo incongruente.

Posted by: Alice Bianche at dezembro 10, 2007 7:01 PM

ainda o João: quais são as réguas? São muitas e não vêm em manuais, como acontecia na arte acadêmica do séc XIX. Eis o que torna esta discussão extensa, complicada, profunda. E eu recomendo não engolir essa história de que os artistas não têm técnica, por que não é bem assim... A criticada Laura Vinci ou o pintor Paulo Pasta têm uma longa trajetória dentro e fora da academia. São artistas que estudam bastante... e que provavelmente sabem desenhar muito bem!

Não sei do cinema, mas nas artes plásticas o quesito 'verdade' e 'certeza' foram substituídos por experimentação e pesquisa. É por isso que quem domina uma técnica não se interessa em ficar apenas nela. Vc. conhece uma obra de Rauschenberg chamada Monograma (1955-59?). Este era um artista com excelente formação técnica. Abraços, d

Posted by: daniela labra at dezembro 10, 2007 7:07 PM

Devo ter passado a impressão de que recuso a arte contemporânea em sua totalidade, e que desejaria um retorno à pintura renascentista, ou algo assim. Isto não é verdade. Minha crítica se dirige apenas a uma certa tendência DENTRO da arte contemporânea que pretende dispensar a técnica, ou relegá-la a um papel completamente secundário. Tome, por exemplo, a pintura de Robert Mangold (um dos preferidos de Arthur Danto). Não duvido que Mangold soubesse desenhar. Tampouco duvido que suas telas possam ser usadas como objetos decorativos em certos ambientes. Sou capaz de reconhecer em suas telas uma certa reflexão sobre a arte - sobre os elementos mínimos de que um artista abstrato se vale para construir suas pinturas. Tenho a prentensão, enfim, de ser capaz de enxergar numa tela de Robert Mangold tudo aquilo que qualquer uma de vocês enxerga. Apesar disso, não gosto de suas telas, e acho que há um problema básico envolvido no tipo de arte que ele produz: o abandono da exibição de um certo tipo de virtuosismo que é característico do pintor. Mais do que não gostar, eu creio que o abandono desse ideal empobrece a arte e tira do juízo estético uma de suas bases de sustentação. Isto não quer dizer que eu recuse a arte abstrata em sua totalidade. Aqui, a discussão é complicada, mas eu poderia resumir minha posição numa fórmula - a única boa desculpa para a abstração é uma enorme capacidade para manipular formas ALTAMENTE complexas, com absoluto controle de todos os DETALHES. Kandinski é o melhor exemplo, talvez. Esse é o único modo de a abstração poder entrar no jogo do virtuosismo, que é parte de QUALQUER jogo estético. Jogue isso fora, e o que sobra é o vale-tudo. E, quando tudo vale, tudo perde a possibilidade de adquirir um valor.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 10:23 AM

Só para deixar bem clara a oposição que estou querendo estabelecer: Beatriz Milhazes é uma artista FANTÁSTICA; as "ripas" do Sister são PICARETAGEM pura e simples.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 2:07 PM

Deixa eu entender melhor o seu problema com o Sister... Você não gosta das ripas ou do construtivismo? Ou seja, se fosse a mesma composição pintada numa tela, você continuaria achando picaretagem?

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 11, 2007 3:03 PM

Ouando o debate cai no eu-gosto-e-eu-não-gosto aí fica chato. Como eu já havia colocado, o pessoal do 'contra' tem o hábito de desqualificar as coisas sem se dispor a conhecer mais da obra e carreira do artista. Vale a pena conhecer melhor a trajetória do Sister para ao menos respeitá-la. É isso que os críticos sérios fazem quando não gostam de algo - procuram se informar e manter o respeito, pois gosto não se discute.

Posted by: daniela labra at dezembro 11, 2007 3:29 PM

Patrícia,

O que o Sister faz, com as ripas, é uma reflexão sobre um acessório do "suporte". No caso, sobre as molduras. Tradicionalmente, a moldura apenas envolve o "conteúdo" que está pintado sobre uma tela. Então, ele teve a idéia de "pintar" o conteúdo sobre as molduras, ou de transformar a própria moldura em "suporte" do "conteúdo" - as tais ripas coloridas. As ripas são monocromáticas, e justapostas, formando padrões geométricos retangulares muito simples. Algumas soluções são harmoniosas, outras, nem mesmo isso. Muito bem.
Meu ponto é muito simples, Patrícia. (E bem "careta", você já deve estar prevendo, a esta altura. rs...) Onde está a exibição de talento e domínio técnico? Simplesmente sumiu, porque é irrelevante ao projeto como um todo. Nada contra a criação de novas técnicas, o uso de novos suportes, e por aí vai, desde que você mostre que é um MESTRE na arte de pintar. É este elemento que não pode ser perdido, se não quisermos que a POSSIBILIDADE do juízo estético se dilua.
Um bom hai-kai não é uma poesia infantilmente simples. É uma poesia dotada de uma ENORME complexidade interna, que faz com que você volte a ela dezenas de vezes em busca de algo que ainda está para ser descoberto. É em termos DESTA complexidade que os hai-kais podem ser comparados uns com os outros e, nesta medida, AVALIADOS esteticamente.
Pintura é exibição de uma habilidade específica - de um talento específico, que algumas pessoas têm, e outras, não. É da exibição deste tipo de habilidade que pessoas como eu estão sedentas. "Artesania", se não me engano, é a palavra que se usa para manifestar um certo desprezo por essas habilidades. Pois, que seja. Estamos sedentos de artesania.
Precisa ser figurativo? Não, não precisa ser figurativo. Se for necessário, repetirei isso duas mil vezes. Mas, no ponto a que chegamos, um retorno à figuração seria altamente saudável, pois estabeleceria um filtro para separar quem tem talento, de fato, de quem não tem. Resgataria essa idéia essencial de "virtuosismo" - aquilo que você vê TANTO num desenho do Norman Rockwell QUANTO num quadro de Kandinski, mas de que não há o menor vestígio nas ripas do Sister.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 3:58 PM

"Onde está a exibição de talento e domínio técnico?"

A Labra disse: "O critério da primorosa técnica não mais vale por si mesma para atestar qualidade por que justamente nos séculos XIX-XX o artista da academia descobriu que existem mais coisas entre ele, o suporte da obra e o mundo do que a técnica pode transmitir."

Eu disse: "Quanto às réguas, elas são muitas, mas certamente a básica é a própria história da arte que nos empurra sempre para frente, pois o passado já está garantido nos museus."

Moacir dos Anjos disse: "O fundamental, ao fim e ao cabo, é apenas não buscar medi-los e julgá-los com o metro e as razões que não lhes cabe mais e não lhes entendem o bastante. "

Ou seja, usando uma régua que não se aplica mais, será impossível perceber os "talentos" na arte contemporânea e você vai continuar reduzindo artistas, críticos, curadores, galeristas, enfim, todo o sistema de arte contemporânea a picaretas... Você decide.

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 11, 2007 6:01 PM

Não vou reduzir todos a picaretas, porque nem todos são. Por outro lado, enquanto não enfrentarmos seriamente o problema da avaliação, um curador da Bienal de São Paulo sempre poderá deixar um andar inteiro vazio, e todos terão a sensação (como tiveram) de que esse gesto, por mais imbecil que possa ser (e é), carrega consigo qualquer coisa de emblemático e verdadeiro. O rei está nu, Patrícia.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 6:15 PM

Mesmo depois de trocar todos estes comentários, ainda é mais fácil para você achar que um curador como Ivo Mesquita está equivocado (ou talvez seja mais um picareta) do que perceber que te faltam as tais réguas...

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 11, 2007 6:45 PM

O argumento acabou. Daqui para a frente, é catarse pura. Valeu.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 9:33 PM

escrevi um texto sobre a indelicadeza e excesso de argumentos pejorativos dos 'contra' para se aferrar a uma postura retrógrada e acertei na mosca! Toda esta discussão reiterou meu modesto texto!!

Sobre a proposta 'imbecil' do 'imbecil' Ivo Mesquita, que deve estar entre os 10 mais respeitados curadores internacionais (todos imbecis, claro), a discussão não se limita clichês e é tão potente que já começou. A proposta está no Canal e pode ser comentada.

Como eu curto muito as múltiplas possibilidades estimulantes e desregradas da arte contemporânea, agora vou escrever um novo texto e encerrar aqui esta discussão sobre os 'contra' que serviu para mostrar a rabugice dos mesmos. Adoro toda a arte, especialmente a dos séculos XX-XXI. Hasta la vista, daniela

Posted by: daniela labra at dezembro 11, 2007 10:26 PM

Ah, vai... Foi legal. Eu gostei.
Inté.

Posted by: João Vergílio at dezembro 11, 2007 10:44 PM

Eu também gostei, apesar de não ter participado do debate mais diretamente, fiz algumas observações, uma com relação a participação direta da Patrícia..., Perdão!!! Não compreendi de início, agora, vejo claramente o porquê de sua intervenção... O João foi bacana, tinha o que falar, disse o que tinha que dizer. Foi autêntico em suas colocações, com certeza deixou muitas questões a serem pautadas aqui no Canal. É uma pena que os "contras", (particularmente não gosto do termo) não tenham participado do papo. Onde estão eles: os críticos, curadores, galeristas, mais artistas e profissionais da área visual...? Para mim, foi uma cutucada legal...A conclusão desse bom papo (certamente elegante), não que dizer que toda a razão no fazer contemporâneo, se encerre aqui nas colocações de ambos, temos ainda que dissolver certas complexidades no tempo presente, e para isso está aqui o Canal... Afinal não é um jogo...Não é mesmo? O Luciano Trigo, de certa forma provocou um começo, nessa rede há sempre um nó para desatar, ele foi o nó...Valeu.

Ah! Quanto ao Ivo Mesquita, acho que muita coisa irá rolar, temos que esperar o desfecho, não se sabe se o Ivo irá até o fim, ele corre um grande perigo. Vamos aguardar os próximos capítulos do "Vazio". Acho que só lá tem esse vazio...!!!

Abs. Roberto Silva _artísta plástico reciclando conceitos no universo das possibilidades no momento presente.

Posted by: Roberto Silva at dezembro 12, 2007 12:01 AM

Gostei muito do artigo e das discussões.
http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/11/09/327109424.asp
Nada contra curadores nem contra proposta curatorial, mas me parece estranho o Sr. Mesquita alegar falta de tempo e ser capaz de encher o pavilhão de baixo.
As vezes o compasso é melhor que a régua.

Posted by: duda at dezembro 12, 2007 1:04 AM

Se é para debater sobre a bienal, então, migremos para o post da proposta curatorial Em vivo contato: http://www.canalcontemporaneo.art.br/brasa/archives/001509.html. Publiquem lá os seus comentários, para organizarmos as discussões...

Roberto e João, também gostei, pois é tão raro conseguirmos desenvolver e aprofundar um pouquinho mais os nossos pontos de vista. Acho que todo mundo acaba aprendendo um pouco mais e, mesmo não concordando com o outro, pelo menos percebemos com mais clareza as argumentações, o que é muito positivo.

Posted by: Patricia Canetti at dezembro 12, 2007 8:43 AM

também achei a discussão ótima. Obrigada aos prós e 'contras' (termo cunhado na jocosidade, não é prá virar oficial!). abs, d

Posted by: daniela labra at dezembro 12, 2007 11:55 AM

"quando o homem construiu sua primeira ferramenta , ele criou simultaneamente o primeiro objeto útil e a primeira obra de arte. A partir daí a ferramenta esteve presente na ação do homem sobre o planeta colocando novas questões novas alternativas"
V Grippo in Escritos de Artistas - Glória Ferreira e Cecilia Cotrim - Jorge Zahar Editor

Régua bóia ?
Qual a unidade desta régua ?

Posted by: duda at dezembro 13, 2007 12:18 AM

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2938,1.shl

Posted by: duda at dezembro 13, 2007 12:31 AM

só agora consegui ler tudo, e vcs resolvem encerrar a conversa?
ok, mas gostaria de dizer uma ou duas coisas. primeiro, agradecer a Daniela Labra pela maneira gentil e competente como re-encaminhou o debate, reduzindo bastante os potenciais de radicalização grosseira, e por procurar esclarecer e informar ao invés de só rebater os argumentos contrários.
segundo, concordar com a visão, compartilhada aqui também por Patrícia, de que não é possível ficar atrás de réguas, verdades (certo e errado) e fórmulas para "enquadrar" a arte contemporânea. não vale a pena me estender, isso já foi devidamente bem colocado.
eu só gostaria de insistir num ponto: sugiro aos contras um esforço de renovar sua capacidade de LEITURA das obras contemporâneas sem se prender aos suportes, pq estes são qualquer um! e nesse esforço de LEITURA, incluam uma abertura de espírito para entender a idéia que o artista quis comunicar, pq é aí que está o que eu penso ser o critério crucial: se a obra consegue comunicar/expressar/sensibilizar (tudo junto) para aquilo que o artista está propondo. se ele realizou bem essa relação entre o meio e a idéia.
e creio, sobre o tal "domínio técnico", que continua sendo importante, mas dada a multiplicação dos meios e temas à disposição do artista (o mundo é matéria do artista contemporâneo!), ele precisa inventar técnicas para levar a termo seu trabalho! ele cria tecnologias, mistura procedimentos e se utiliza também das técnicas tradicionais, sem necessariamente hierarquizar ("altas" e "baixas"...) no seu processo de trabalho.
abraços

Posted by: Fabiana Eboli Santos at dezembro 13, 2007 6:02 PM

Olá Duda, penso no tipo de material dessa régua a qual você remete a pergunta: - Se essa régua bóia? - acho que tanto a de madeira como a de plástico bóiam, agora a de metal não, essa vai ao fundo, seu peso é maior, más há de se pensar na sua resistência, pois o metal sofre com acides do tempo. Traduzindo, as réguas que bóiam representam certos "camaradas” que teimam por defender conceitos velhos e desatualizados. que não aceitam as transformaçoes do presente momento, não podem mudar o curso, pois estão em aguas paradas. Talvez a reciclagem, seja o caminho natural para eles reconhecerem que também são frágeis ao tempo, (ao tempo passado). A régua de hoje (a de metal) está submersa em território pouco conhecido pela maioria, não é tão simples esse contato, pois a régua de metal requer especialistas para sua identificação, neste sentido a filosofia e ciência são linguagens que caminham juntas, pelo menos no universo das artes no contexto atual. Nesse nosso tempo presente as produções e suas múltiplas linguagens, passam rápidas. A régua de metal submersa nesse rio corrente de multiplicidades e possibilidades aceleradas, não consegue medir o tempo, pois o tempo da régua de metal, é relativo. Fica a pergunta: Como registrar a memória de nossa tempo presente, como medir o fazer de hoje para o olhar de amanhã? Quem na verdade seria a régua de metal?

Posted by: Roberto Silva at dezembro 14, 2007 12:45 PM

um p.s. dois anos depois; considerando 'pensamento do artista' x 'forma final': deduzo, depois de ler tudo escrito acima, que os bons artistas, os que coseguem um existência tanto dentro quanto fora do meio artístico são os que tem uma concepção que integra diferentes campos de ação e conhecimento, por exemplo, não só possuem boas idéias mas dominam um deterninado metier, técnica mesmo, mas para além de categorias. um exemplo, não único exemplar mas que me vem agora, o Andreas Gursky, trabalhando questões pictóricas a partir da fotografia manipulada digitalmente.

Posted by: Juliana Macedo at março 24, 2010 4:53 PM
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