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maio 18, 2007

Ocupação do espaço do MuBE gera polêmica entre artistas e políticos de SP; por Thompson Loiola, diversao.uol

Ocupação do espaço do MuBE gera polêmica entre artistas e políticos de SP

Matéria de Thompson Loiola, originalmente publicada no diversao.uol, no dia 16 de maio de 2007

Uma disputa judicial entre a Prefeitura de São Paulo e a Sociedade de Amigos dos Museus (SAM), instituição fundada por Marilisa Rodrigues Rathsam em 1982 para criar e gerir o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), vem colocando em trincheiras opostas alguns grupos de artistas, políticos e gestores culturais de São Paulo. "Chama-se Museu, mas o que a gente vê que tem lá é o 'Espaço de Eventos Marilisa Rathman'", afirma Andrea Matarazzo, Secretário das Subprefeituras da Prefeitura Municipal de São Paulo. A Prefeitura acusa a SAM de desvirtuar a destinação do imóvel, projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha construído, com recursos públicos e privados, em terreno municipal de sete mil m² na Av. Europa, 218, região nobre da cidade. O espaço foi cedido à Sociedade por 99 anos pelo prefeito Jânio Quadros, em 1986.

No início de abril, uma comissão multidisciplinar formada pelas Secretarias Municipais de Gestão, Governo, Negócios Jurídicos, Habitação e Finanças decidiu que "a SAM realiza outras atividades que não têm a ver com as de Museu, contrariando a licença de funcionamento", esclarece a assessora da Prefeitura Sabrina Daspett. As "atividades de Museu", segundo Daspett, seriam "como no dicionário mesmo". A edição eletrônica do Houaiss define: "instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico etc.".

Apoio à Prefeitura de SP

No dia 9, começou a circular na internet um abaixo-assinado intitulado "MuBE: público ou privado?", em apoio às medidas da Prefeitura. O texto, escrito por Patrícia Canetti, do site Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br), acusa: "o espaço do museu vem sendo usado de forma indevida: abriga exposições de pouca relevância e inclui em sua agenda eventos de aluguel, que restringem o acesso a um público amplo, com o objetivo exclusivo de gerar renda à sua mantenedora." Subscrevem o manifesto personalidades como os galeristas Marília Razuk e Eduardo Leme, os curadores e professores Tadeu Chiarelli e Miguel Chaia e as artistas plásticas Leda Catunda, Jac Leirner e Regina Silveira - para quem o apoio se justifica já que "não existe uma história do MuBE. Precisamos resgatar esse museu no cenário da cultura da cidade e nacional". Até a tarde desta quarta, 16, havia mais de 1700 assinaturas.

Apoio ao MuBE

A gestão do MuBE já organizou um "abraço" de apoio à instituição e veicula um abaixo-assinado em seu site, além de um texto em que defende que a "atitude da Prefeitura, além de arbitrária, vai contra a democracia e a cultura". Na defesa de sua atuação, continua : "o Museu completa 12 anos, com intensa atividade cultural, mesmo sem receber nenhuma subvenção pública ou privada, e já foram realizadas mais de 150 exposições, todas com entrada gratuita. (...) Além das exposições o MuBE oferece cerca de 400 bolsas de estudos à comunidade. (...) Com apresentação de grandes nomes da música erudita nacional e internacional, acontecem todos os domingos às 16h no Auditório Senador Pedro Piva, o Recital de Piano".

Entretanto, foi apenas após três contatos telefônicos com o museu que a assessoria indicou alguém que pudesse falar em apoio à direção: o artista Ivald Granato, membro da Comissão de Arte do museu, que embora não se diga "contra nem a favor", questiona a relevância dos signatários que apóiam a Prefeitura: "não vi nenhum nome muito expressivo naquela lista. Ninguém é pior ou melhor que o outro, mas tem uma turma que está atirando a esmo. Tem artistas que só opinam quando tem confusão, mas no dia-a-dia ficam em casa ou vendendo quadro na beira dos museus". Para ele, "muita coisa, falam de maneira desinformada. A arquitetura do museu, por exemplo, não se apropria da possibilidade de manter acervo. Tem algumas obras excelentes, de Arcangelo Ianelli e Francisco Brennand, mas não é um museu com estrutura para ter coleção, e sim dinâmica". Por outro lado, ele admite alguns problemas da gestão: "não tem uma programação 'zero-bala', mas tem que ver que eles também estão sem dinheiro." O principal ponto questionado por ele, contudo, são as "atitudes infundadas" e a maneira "drástica" que têm conduzido o processo. "Você quer dizer que a Marilisa interfere? Interfere. Ela não é uma pessoa interessante para uma comissão de arte fazer um trabalho legal. A Prefeitura interfere com essas aporrinhações? Acontece a mesma coisa. Fica uma sacanagem dos dois lados. O que eu propus é que sentassem os dois lados em uma mesa para conversar."

Granato admite a possibilidade de se afastar a diretoria, ou sua presidência, caso esse seja o melhor caminho após um "estudo social" do problema, "mas seria muito mais generoso se a Prefeitura criasse uma comissão para arranjar uma verba e fazer uma programação mais interessante". Segundo o artista, que também tem obra sua no acervo do MuBE, mostras de Caciporé Torres e Rubens Gerchmann deixaram de acontecer por falta de dinheiro. Quanto aos eventos, ele diz que "existe um pouco mais do que eu gostaria, mas alguns são até interessantes e [eventos] acontecem também no Masp, no MAM".

Projetos para o espaço

Esculturas de Victor Brecheret no jardim do museu
O acervo da Pinacoteca Municipal, um dos que pode ser destinado ao espaço vagado pelo MuBE, segundo o secretário Matarazzo, pertence ao Centro Cultural São Paulo, criado em 1982 com a fusão desta e de outras entidades como o Idart (Departamento de Informação e Documentação Artística). O atual diretor do CCSP, Martin Grossmann, anima-se com a possibilidade de obter esse "anexo". Ele explica que há boas gestões tanto na esfera privada quanto na pública, mas acredita que o caminho do MuBE nunca foi encontrado. "Um equipamento cultural precisa ter missão clara para a sociedade civil, acima de vícios da nossa oligarquia."

Andrea Matarazzo diz que, tão logo o MuBE seja desocupado, a Secretaria de Cultura vai "ver as condições do prédio, fazer os ajustes necessários e instalar os acervos". O secretário Matarazzo tem confiança de que vai retomar o imóvel o mais rápido possível, "porque é o desejo das pessoas. Quem entende sabe que aquilo lá é hoje um desperdício, um espaço que não está sendo usado para sua finalidade". Para ele, a questão se resume a "devolver ao público o que é público".

Posted by João Domingues at 2:51 PM