|
|
maio 12, 2019
IMS tem novo Diretor Artístico
IMS tem novo Diretor Artístico
Nota originalmente publicada no IMS em 10 de maio de 2019.
O português João Fernandes, subdiretor do Museu Reina Sofía, de Madri, será o novo Diretor Artístico do Instituto Moreira Salles a partir de 18 de agosto. Há seis anos ocupando o mesmo cargo na instituição espanhola – uma das mais importantes e originais do mundo –, Fernandes projetou-se no cenário internacional das artes como curador (entre 1996 e 2002) e diretor (de 2003 a 2012) do Museu de Serralves, na cidade do Porto, contribuindo decisivamente para transformar o magnífico espaço cultural do norte de Portugal num marcante endereço de arte contemporânea da Europa.
O IMS considera um privilégio tê-lo como sucessor de Lorenzo Mammì, outro talento de prestígio no métier, que precisou retomar suas atividades acadêmicas na USP em outubro do ano passado, quando desligou-se das funções que exercia no IMS.
Substituto à altura
Em 2018, ao elencar as 100 pessoas mais “poderosas” na cena das artes mundo afora, a revista ArtForum, incluiu na lista o nome de João Fernandes, junto com Manuel Borja-Villel, o diretor do Reina Sofía. Segundo a publicação, os dois são comandantes de um museu “radical”, que não cedeu à tentação de realizar grandes exposições blockbusters em favor de uma arte mais criativa e insinuante. Citava, a propósito, exposições que marcaram os últimos 12 meses no museu de Madri, como o Dada Russo e as mostras sobre Fernando Pessoa e Artur Barrio, as duas últimas com curadoria de Fernandes. Com Pessoa, ele conseguiu uma prodigiosa conexão entre literatura e arte. Em 2018, o Reina Sofía recebeu mais de 3,8 milhões de visitantes.
No portfólio do Museu de Serralves, estão exposições coletivas como Perspectivas: alternativa zero e Raymond Roussel ou Às armas cidadãos! E, entre mostras de artistas, destacam-se as de Dara Birnbaum, Tacita Dean, Paula Rego, a dos brasileiros Lygia Pape, Cildo Meireles e Antonio Manuel, além de Grazia Toderi e Douglas Gordon. Fernandes também organizou as exposições de Cildo e Antonio Manuel no Reina Sofía.
Nascido em 1964 em Bragança, o novo Diretor Artístico do IMS fez sua trajetória acadêmica na Universidade do Porto, onde licenciou-se em línguas e literaturas modernas. Na mesma cidade, iniciou-se no meio artístico.
Nas programações que desenvolveu para instituições que dirigiu ou ajudou a comandar, procurou cruzar artes visuais com artes performáticas e o cinema, trabalhando com compositores, músicos, coreógrafos e dançarinos, entre eles Laurie Anderson, Trisha Brown, Lia Rodrigues, Cecil Taylor e Arto Lindsay.
Foi membro de diversos organismos consultivos de museus internacionais e participou de vários júris, como o de exames da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris. É atualmente membro do Comitê Cientifico do Museu de Arte Contemporânea de Trento e Rovereto – Mart (Itália).
João Fernandes conhece bastante bem a arte brasileira moderna e contemporânea. Tem por aqui laços com críticos e artistas. Reverencia e louva a diversidade cultural do país como fonte de uma vitalidade que considera rara e relevante.
Bem-vindo.
Bienal de Veneza começa com ruína de um mundo tomado por polarização e conservadorismo por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Bienal de Veneza começa com ruína de um mundo tomado por polarização e conservadorismo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 8 de maio de 2019.
Evento italiano parece moldado pela reação dos artistas às fake news, contra o populismo
A carcaça corroída de um barco de pesca alçado sobre vigas metálicas no pátio do Arsenale, antiga fábrica de navios de guerra, já viralizou como a imagem síntese da Bienal de Veneza mesmo antes de sua abertura para o público, neste fim de semana.
O trabalho do artista suíço Christoph Büchel foi deslocar os destroços da embarcação que afundou há quatro anos no Mediterrâneo, provocando a morte de mais de mil imigrantes que tentavam chegar à costa italiana, para o jardim da maior mostra de arte contemporânea do planeta, uma espécie de cavalo de Troia a invadir a Europa num momento de convulsão no mundo.
Esses restos metálicos, fotografados à exaustão pelo "jet-set" da arte que circula pelas galerias do Arsenale e pelos pavilhões dos Giardini, dá o tom sinistro desta 58ª edição da mostra italiana. Ralph Rugoff, o americano à frente do evento, escolheu um eufemístico “Que Você Viva em Tempos Interessantes” como nome de sua seleção de artistas.
Interessantes, turbulentos, polêmicos e raivosos, qualquer um acrescentaria. À primeira vista, sua exposição que reúne 79 artistas, a maioria deles mulheres, algo inédito na história do evento, é uma grande apologia da ruína em que se transformou um mundo tomado por debates cada vez mais polarizados e o levante de um conservadorismo que não esconde suas tintas agressivas.
“Os discursos estão tão polarizados em tantos países que parece que aqueles com uma opinião diferente vivem num mundo paralelo. Enquanto isso, plataformas como o Twitter se tornaram um canal de notícias”, diz Rugoff. “A arte nesse momento se tornou um reduto de discursos mais ambíguos, multifacetados, um experimento que nos deixa fazer novas associações e ver como nossa visão de mundo é fragmentada. Os artistas nos pedem que pensemos de jeitos distintos, que defendamos ideias opostas ao mesmo tempo. Não há uma verdade simples.”
Toda a mostra, aliás, insiste nessa ideia. Na esteira de outras exposições dessa natureza, como a Bienal de Charjah aberta em março, o evento italiano também parece moldado pela reação dos artistas à era das fake news, sendo apelidada por uns como a Bienal contra o populismo. Em tempos de brexit, Bolsonaro, Trump e a escalada da retórica neofascista na própria Itália, artistas tentam refletir nos seus trabalhos o que entendem como distorção violenta da realidade.
Rugoff, talvez atropelado ele mesmo pela overdose de informações do momento atual preferiu não pensar a exposição em torno de um tema central. Tudo, no caso, tem vez nos pavilhões, gerando uma cacofonia às vezes predatória em que um trabalho distorce a leitura do outro. Isso quando o ritmo não é quebrado pela montagem, com paredes de madeira que isolam uma ala da outra, talvez uma alusão a discursos fragmentados ou falas atravessadas.
“Não existe um tema, mas há 'leitmotifs'”, diz Rugoff. “Entre eles muralhas, barreiras de toda sorte, duplicidade e realidades espelhadas, máscaras e histórias escondidas, além da relação entre humanos com a tecnologia, que parece se estreitar cada vez mais.”
Uma ala importante de sua Bienal de Veneza, de fato, reúne uma série de obras em realidade artificial, além de animações em 3D e trabalhos com personagens criados por máquinas que reagem ao espectador, das fantasmagóricas animações do britânico Ed Atkins às flores tecnicolor da alemã Hito Steyerl, passando pelas criaturas assustadoras do americano Ian Cheng e do canadense Jon Rafman.
Além da mostra principal, que vai até novembro na cidade italiana, 90 países têm representações oficiais nesta Bienal de Veneza. O Brasil, com um pavilhão próprio nos Giardini, leva obras da dupla de artistas Bárbara Wagner e Benjamin de Burca.
