|
|
novembro 17, 2017
Justiça condena criador do Instituto Inhotim por lavagem de dinheiro, G1
Justiça condena criador do Instituto Inhotim por lavagem de dinheiro
Matéria originalmente publicada no portal G1 em 16 de novembro de 2017.
A irmã de Bernardo Paz, Virgínia Paz, também foi condenada. A denúncia afirma que o Inhotim, um dos maiores museus a céu aberto do mundo, era usado no esquema.
A 4ª Vara do Tribunal Regional Federal em Belo Horizonte condenou o empresário e idealizador do Instituto Inhotim, Bernardo Paz, a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro. A irmã dele, Virgínia Paz, foi condenada pelo mesmo crime a cinco anos e três meses, em regime semiaberto. A defesa já recorreu da decisão.
O Inhotim fica em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e é um dos maiores museus a céu aberto do mundo, sede de um dos acervos de arte contemporânea mais importantes do Brasil.
De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), entre 2007 e 2008, um fundo chamado Flamingo Investiment Fund, sediado no exterior, repassou US$ 98,5 milhões para a empresa Horizontes, criada por Bernardo Paz para manter o Inhotim a partir de contribuições de seus outros empreendimentos.
O dinheiro, diz o MPF, foi recebido a título de doações e empréstimos para o instituto, mas logo depois foi repassado "para o pagamento dos mais variados compromissos de empresas de propriedade de Bernardo de Mello Paz, tendo sido constatados diversos saques em espécie nas contas do grupo, sem que se pudesse identificar o destino final dos valores".
O advogado de Bernardo e Virgínia Paz, Marcelo Leonardo, afirma que as operações financeiras são regulares.
“Eles são inocentes e a decisão é injusta. Esperamos que seja revertida no Tribunal Regional Federal em Brasília”, disse. Segundo o advogado, as operações envolvem apenas as empresas de mineração e siderurgia das quais Bernardo era sócio, não tendo nenhuma ligação com o Inhotim.
Ainda de acordo com o advogado, a condenação de Virgínia é absurda, já que ela nunca foi gestora de nenhuma empresa. Os irmãos Paz estão respondendo ao processo em liberdade.
Em nota, o Inhotim informou que "é uma instituição sem fins lucrativos, qualificada pelo governo estadual como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), sem ligação com as empresas de Bernardo Paz, não respondendo ou participando, portanto, de nenhuma questão de âmbito pessoal que o envolva".
O instituto informou ainda que "é mantido com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas, de maneira direta e incentivada, com amparo na Lei Federal e Estadual de Incentivo à Cultura".
Esquema
Até 2010, Bernardo Paz era dono do Grupo Itaminas, um conglomerado que reunia 29 empresas do setor de metalurgia. O grupo era controlado pela empresa BNP Participação e Empreendimentos, também de Paz. De acordo com o MPF, o dinheiro era “pulverizado” entre os empreendimentos do réu para dificultar o seu rastreamento.
Segundo a juíza Camila Velano, "ficou claramente constatada existência de enorme confusão patrimonial e contábil entre as diversas empresas do Grupo Itaminas”. Ainda de acordo com a magistrada, ficou demonstrado que "a conta da Horizontes não visava unicamente à manutenção do Instituto Cultural Inhotim, mas também servia de conta intermediária para diversos repasses às empresas do Grupo Itaminas".
A participação de Virgínia Paz seria na dissimulação dos valores vindos do exterior. Ainda de acordo com a sentença, "não se pode conceber que uma movimentação financeira, a qual chegou a 1.419% acima da renda declarada, tenha passado desapercebidamente pela ré”. De acordo com o MPF, Virgínia efetuava todos os pagamentos relativos ao Inhotim em sua conta pessoal, sabendo que as transações vinham da Horizonte.
Dívidas
Na sentença, a juíza resaltou que Paz teria um comportamento de "não cumprimento de obrigações fiscais e previdenciárias, revelando completo descaso das empresas em relação ao Fisco". As dívidas da Itaminas com a Fazenda Pública chegam a mais de R$ 600 milhões.
“Tanto Bernardo De Mello Paz, (...) quanto as testemunhas de defesa, por diversas vezes, afirmaram que todos os compromissos das empresas do grupo eram pagos com dinheiro oriundo da BMP Participação, pois evitava-se a utilização de contas correntes em nome próprio das pessoas jurídicas do Grupo, a fim de impedir eventual bloqueio judicial de valores devido ao não pagamento de obrigações fiscais, trabalhistas, etc.", disse a juíza na sentença.
Naquele período, movimentos irregulares efetuados pela BMP foram detectados pelo Ministério da Fazenda.
Inhotim
O Inhotim ocupa uma área de mais de 100 hectares em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte. Jardins botânicos, cinco lagos artificiais e um acervo artístico com 500 peças fazem parte do complexo.
Pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de artistas brasileiros e estrangeiros estão em espaços espalhados em meio à natureza. São 18 galerias dedicadas a obras permanentes, outras quatro para mostras temporárias e diversas espalhadas pelos jardins.
As permanentes foram criadas para abrigar obras de Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Marilá Dardot, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica, Neville D’Almeida, Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, entre outros. As temporárias – Lago, Fonte, Praça e Mata – têm cerca de mil metros quadrados cada uma.
Nota de Esclarecimento, Inhotim
A propósito da nota divulgada hoje pelo Ministério Público Federal (MPF), replicada, na íntegra ou em partes, por diversos veículos de comunicação, o Instituto Inhotim esclarece que é uma instituição sem fins lucrativos, qualificada pelo governo estadual como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), sem ligação com as empresas de Bernardo Paz, não respondendo ou participando, portanto, de nenhuma questão de âmbito pessoal que o envolva.
Para realização de suas ações socioeducativas e manutenção de seus acervos botânico e artístico, o Instituto é mantido com recursos de doações de pessoas físicas e jurídicas, de maneira direta e incentivada, com amparo na Lei Federal e Estadual de Incentivo à Cultura.
O Inhotim reforça, por oportuno, que todas as contas da instituição são públicas e que passam por criteriosa prestação junto ao Ministério da Cultura, além de serem submetidas a um rigoroso processo de auditoria realizado pela empresa britânica Ernst & Young, ambos em periodicidade anual.
No anseio de esclarecer os fatos e evitar possíveis equívocos acerca de organizações distintas, e de diferentes naturezas jurídicas, o Instituto Inhotim reforça seu compromisso com a sociedade, com seus parceiros e com a comunidade em seu entorno, na busca incessante pelo desenvolvimento humano através da arte e da botânica.
Criador de Inhotim é condenado à prisão por lavagem de dinheiro por Marcos de Moura e Souza, Valor Econômico
Criador de Inhotim é condenado à prisão por lavagem de dinheiro
Matéria de Marcos de Moura e Souza originalmente publicada no jornal Valor Econômico em 16 de novembro de 2017.
BELO HORIZONTE - O empresário mineiro Bernardo Paz, idealizador e principal nome de Inhotim, um dos maiores empreendimentos de arte contemporânea do país, foi condenado a nove anos e três meses de prisão em regime fechado pelo crime de lavagem de dinheiro. A decisão, da 4ª Vara Federal, é de primeira instância e cabe recurso.
A informação foi divulgada na tarde desta quinta-feira pelo Ministério Público Federal de Minas Gerais, que havia denunciado Paz.
O MPF afirmou, por meio de nota, que a condenação levou em conta operações envolvendo sua mineradora Itaminas e Inhotim. Paz teria usado de artifícios para "lavar dinheiro proveniente da sonegação de contribuições previdenciárias".
A nota do MP diz que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, detectou movimentações irregulares, efetuadas especialmente pela BMP Participação e Empreendimentos Ltda - que era a controladora de todas as empresas que compunham o grupo Itaminas - e pela Horizontes Ltda.
"A Horizontes foi criada por Bernardo Paz com a finalidade de manter o Instituto Cultural Inhotim a partir de doações de suas outras empresas. Ocorre que a maior acionista da Horizontes, a Vine Hill Financial Corp Ltda, com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, é uma empresa cujo endereço é o mesmo de diversas pessoas físicas e jurídicas acusadas de cometer crimes de lavagem de dinheiro", continua o MP explicando a condenação.
Segundo o material divulgado, entre 2007 e 2008, a Horizontes recebeu US$ 98,5 milhões do Flamingo Investiment Fund, um fundo sediado nas Ilhas Canárias. "Esses valores foram recebidos a título de doações e/ou empréstimos para o Instituto Cultural Inhotim, mas logo depois foram repassados de diversas formas", disse o MP.
De acordo com a sentença, os recursos foram usados "para o pagamento dos mais variados compromissos de empresas de propriedade de Bernardo de Mello Paz, tendo sido constatados diversos saques em espécie nas contas do grupo sem que se pudesse identificar o destino final dos valores".
Em outro trecho, o MPF diz que a Justiça afirmou que "ficou claramente constatada existência de enorme confusão patrimonial e contábil entre as diversas empresas do Grupo Itaminas."
Ainda segundo a sentença, informou o MP, "a conta da Horizontes não visava unicamente à manutenção do Instituto Cultural Inhotim, mas também servia de conta intermediária para diversos repasses às empresas do Grupo Itaminas".
Virgínia de Mello Paz, irmã de Paz, também foi condenada por lavagem a cinco anos e três meses, em regime semiaberto.
novembro 14, 2017
Filósofo Georges Didi-Huberman reflete sobre o sentido da revolta por Bianca Dias, O Estado de S. Paulo
Filósofo Georges Didi-Huberman reflete sobre o sentido da revolta
Artigo de Bianca Dias originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 11 de novembro de 2017.
Pensador esteve no Brasil para lançar seu livro 'Cascas' e participar da exposição 'Levantes', em cartaz no Sesc Pinheiros
Despertar sonhos, modelar o heterogêneo, inventar a vida mesmo na mutilação, ter a força para fazer de outra forma: com essa convocação Georges Didi-Huberman iniciou sua fala no Sesc Pinheiros, apresentando um vigoroso panorama crítico de uma pesquisa que resultou na exposição Levantes, sustentada em indagações éticas. Para onde vai a raiva? Qual nossa resposta diante do que oprime e mortifica? São questões que apostam na indestrutibilidade do desejo e recusam o ressentimento. Num levante, essas dimensões são ultrapassadas para dar espaço ao gesto inventado na fineza dos dias. Diferente de uma ação que visa colocar um acento na mágoa, o gesto de sublevação inclui uma radicalidade que faz a existência operar por uma nova fúria, cultivando atitudes em que o político pode se apresentar como a força que dignifica a fragilidade constitutiva das relações.
A partir dessa precariedade, Didi-Huberman relata uma visita que fez ao museu Auschwitz-Birkenau, de onde retornou com algumas cascas de bétulas e um punhado de fotografias. A partir desses resíduos, deu início a um estudo sobre a memória do Holocausto e o potencial subversivo das imagens e escreveu Cascas (lançado na abertura da exposição).
Trata-se então de saber que forma dar ao desespero, com a investigação passando por uma constelação de imagens e de pensadores que sustentam o gesto da revolta num mais além da representação: Goya erguendo os braços numa invocação trágica diante do massacre e dos desastres da guerra; a dimensão do gesto em Zéro de Conduit de Jean Vigo, em que crianças empreendem atos de rebeldia diante de um sistema educativo burocrático e repressivo; o antropólogo Pierre Clastres e a fala sagrada dos índios guarani; e a possibilidade aguda de uma revolução que acontece quando cada um canta seu próprio canto, numa espécie de murmúrio invocador de uma ética.
Voz e musicalidade são questões centrais da pesquisa de Didi-Huberman. Para a psicanálise, o sujeito nasce na relação com a voz do outro e o psiquismo se estrutura ao redor desse ponto. Jacques Lacan nomeou a voz como pulsão invocante e ensinou a respeito de um chamamento em que nossa própria voz deve encontrar lugar. Didi-Huberman lembra do canto negro estudado por W.E.B. Du Bois, que foi vital para que os escravos sobrevivessem à opressão a que estavam submetidos.
A palavra resgatada como possibilidade de enunciação foi um verdadeiro levante contra o poder instituído. Sigmund Freud fundou, através de histéricas, a clínica da escuta e, pelos gritos e convulsões de mulheres, estabeleceu uma nova relação de desejo com a linguagem dando lugar e fazendo erigir o feminino em sua força e contradição. A partir de fotografias de histéricas do asilo La Salpêtrière, Didi-Huberman escreveu o vigoroso ensaio Invenção da Histeria: Charcot e a Iconografia Fotográfica de Salpêtrière.
Algumas dessas fotografias estão em Levantes. Com outras imagens, escritos e vídeos, circulam e desestabilizam verdades, numa espécie de atlas que transmite a força da relação entre imagens, através do recurso da montagem – ideia presente no pensamento de Aby Warburg, teórico central para Didi-Huberman que, ajudado por outros pensadores, o conduz eticamente por um caminho simbólico, por meio de questões filosóficas, históricas, políticas e estéticas que preservam o grão da inquietude das revoltas e manifestações, em que o sujeito tomado por uma convocação que atravessa seu corpo, expõe a ferida, destrói a norma, transforma o luto em desejo, a paralisia em projeção, num gesto de emancipação que não está garantido, que precisa ser recolhido entre ruínas, no dissenso radical, na luta imprevista. Não se trata, portanto, de uma antologia de imagens e, sim, de pensar sobre seu uso.
Na invenção de gestos, canções e imagens a partir de resíduos, celebra-se o informe, a música dos párias, dos sem-nome – a música armênia, o canto cigano andaluz, os tangos poéticos dos subúrbios de Buenos Aires – ou, ainda, lembra-se das mães trágicas da Grécia antiga e das mães de maio em busca de notícias de seus filhos, fazendo com que o mais radicalmente singular se misture ao público em gestos profundamente políticos.
Num levante cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo, que pode estar abrigado até na brutal imagem de uma mãe chorando sobre o filho morto pois, segundo Didi-Huberman, são justamente essas lágrimas que contém a força da sublevação. Não há uma escala para os levantes: eles vão do minúsculo gesto de recuo ao mais gigantesco movimento de protesto. Há imagens e palavras que se inscrevem com impressionante poder de fogo, a fim de nos levantar e nos fazer tomar posição diante da agonia inominável da imobilização.
Entre gestos delicados e vulcânicos que confrontam mas se deixam atravessar pelo insondável, se destaca algo que irá cortar e unir. Num chamamento ao sexual como força que nos levanta, Didi-Huberman chama a atenção para o juntar das mãos que revira o sentido do órgão sexual feminino, lugar que desliza e se reinventa. Esse gesto, utilizado pelas feministas nos anos 1970, ergue ao alto uma dupla vitória e inscreve a potência e a maldição do feminino nomeado por ele como um “gesto-punção”. Didi-Huberman invoca Lacan para nomear esse pequeno-grande levante, subvertendo a lógica do poder pela enunciação da fissura estrutural como um espaço que se coloca em aberto ao heteróclito da existência e faz erigir a força e o tremor para combater tudo que é opaco à vida.
A punção, que retira uma parte do tecido traumatizado e recolhe da ferida uma possibilidade de escrita para o acontecimento, é também uma maneira de se elevar a questão homem-mulher a partir de um novo ponto. Como será? Ainda não sabemos. E a resposta deve ser buscada no mundo, no atrito entre os corpos, na revolta dos levantes em sua arquitetura provisória distribuída entre as coisas moventes, na inflamação e no espanto de habitar a língua sem domicílio fixo. E é preciso que nessa deriva cada um possa inscrever sua marca no mundo e que, desse caleidoscópio de imagens, possamos criar frestas para pequenas-imensas revoluções.
*Bianca Dias é psicanalista, crítica de arte, autora do livro 'Névoa e Assobio' (Editora Relicário)
novembro 13, 2017
Mostra do Masp sobre sexualidade supõe que qualquer nu liga-se ao sexo por Jorge Coli, Folha de S. Paulo
Mostra do Masp sobre sexualidade supõe que qualquer nu liga-se ao sexo
Coluna de Jorge Coli originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12 de novembro de 2017.
Post-porn é o que eu chamo, para meu uso pessoal, de pornô-cabeça e resumo assim: emprego da pornografia como meio de reflexão. Os debates em torno disso têm mais de 30 anos, mas atingiram um paroxismo nas artes dos últimos tempos.
Artistas e exposições que tomam a sexualidade como tema andam surgindo por todos os lados, e o Masp decerto não quis ficar na rabeira. Inventou a mostra intitulada "Histórias da Sexualidade", aberta mês passado.
A qualidade de várias das obras exibidas é muito alta, começando por aquelas que pertencem ao acervo do museu. A estas se juntaram outras, vindas de várias instituições e coleções particulares.
Mas o tema foi tratado de modo superficial. É verdade que o título autoriza juntar coisas sem grande rigor. Para ordenar um pouco, a curadoria estabeleceu tópicos que lembram o índice de algum manual: corpos nus, totemismos, religiosidades, voyeurismos, linguagens, performatividades de gênero e assim por diante.
A mostra pinça exemplos aqui e ali. Um pouco de cerâmica pré-colombiana, um pouco de Mapplethorpe, um pouco de Carlos Zéfiro, sem que nenhum desses pouquinhos conduza a qualquer aprofundamento.
Algumas obras estão lá sob pretextos forçados, como o autorretrato bigodudo de Gauguin porque ele se interessava pela androginia, ou a maravilhosa "Bailarina de 14 Anos" de Degas, ilustrando o voyeurismo —quando o Masp possui a coleção completa dos nus femininos em bronze desse autor, raramente mostrada.
A moda atual de expor produções de tempos históricos diferentes, comparando-as, é fecunda em certos casos. Aby Warburg foi o genial teórico que teve a ideia de fazer uma história da arte sem palavras em seu "Atlas Mnemosyne", no qual justapõe apenas imagens, fazendo intuir formidáveis relações.
A exposição do Masp sugere um Warburg simplificado, escolar e classificatório. Ela está vazada em museografia saturada, que dificulta a concentração.
A exposição não se deu conta de que existiram vários momentos na história em que as artes se vincularam fortemente ao sexo e, de modo voluntário ou não, os ignorou.
Nada trouxe do decadentismo baudelairiano, por exemplo: entre tantos outros, nem Gustave Moreau, Aubrey Beardsley ou Félicien Rops, este com suas obscenidades blasfemadoras. E nada de surrealismo!
Como imaginar histórias da sexualidade no campo das artes que ignore Delvaux ou Masson, as colagens de Ernst (na falta de telas) ou "A Pintura em Pânico", de Jorge de Lima, para ficar apenas em alguns poucos escolhidos ao acaso? Ok, apontar lacunas é fácil. Mas uma perspectiva minimamente histórica teria proporcionado alguma profundidade e coerência a um conjunto bem desconexo.
Tanto as roupas quanto a nudez podem ser marcadas pela sexualidade. Há roupas eróticas como há nus castos, e vice-versa. No Masp, a mostra supôs que um nu, qualquer nu, por si só, liga-se ao sexo.
Nisto —de modo involuntário, assim espero— coincide com os conservadores de hoje em dia (porque os antigos pelo menos sabiam da existência do "nu artístico" que se vincula à beleza, não ao sexo).
Tanto é que esses novos moralistas invadiram o MAM-SP por causa daquela performance em que a nudez era tão inocente. No caso do Masp, é difícil achar que "As Banhistas" de Manet ou o nu pequenino pintado por Flávio de Carvalho, com formas mal e mal sugeridas, tenham algo a ver com sexualidade.
No entanto, o problema que tem chamado mais a atenção na mostra surgiu de modo imprevisto. Imagino que, para negociar obras e obter empréstimos, a preparação deva ter exigido ao menos entre um ano e meio e dois.
Ora, as mentalidades mudaram muito rapidamente e a exposição começa no momento exato em que o moralismo no Brasil vem animado por uma histeria sem precedentes, vinculando-se a um futuro político de prognóstico aterrador.
Em meio a tantas manifestações contra a cultura e contra os museus, o que deveria ser uma exposição radical chique virou uma batata quente. Daí, o Masp recuou e proibiu para menores a exibição. Até o catálogo —livro de imagens com poucos textos curtos e simplistas— vinha com tarja proibindo a venda para os inocentes com menos de 18 anos!
E agora, graças à lúcida iniciativa do Ministério Público Federal, o museu voltou atrás, liberando a entrada com o acompanhamento dos pais: vexatória contradança.
A gravidade destes fatos não é circunstancial, porque significam um sintoma grave de autocensura. O MPF, por felicidade, tirou a camisa de força com que o Masp havia vestido sua própria inteligência.
HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h; até 14/2/2017
ONDE Masp, av. Paulista, 1578, tel. (11)3251-5644
QUANTO R$ 30, grátis às terças
CLASSIFICAÇÃO 18 anos
Masp abre 'Histórias da Sexualidade' com obras que vão além do nu artístico por Isabella Menon, Folha de S. Paulo
Masp abre 'Histórias da Sexualidade' com obras que vão além do nu artístico
Matéria de Isabella Menon originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 19 de outubro de 2017.
Engana-se quem acredita que o Masp aproveita a onda de conservadorismo que vem resultando em críticas a exposições no Brasil para chamar atenção para a mostra que inaugura nesta quinta (19) e que dialoga sobre questões de sexualidade e gênero.
Na verdade, a instituição colocou a mostra em sua programação em 2016, quando foi introduzido o projeto "Histórias da Sexualidade", que inclui além dela um ciclo de palestras sobre o tema.
A exposição, que se distribui em três espaços do museu, "nunca foi tão necessária", afirma Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de história do Masp, em entrevista à Folha."Uma série de direitos que julgávamos assegurados, na verdade, encontra-se em risco".
Com conteúdo de violência, sexo explícito e linguagem imprópria, a exposição foi classificada para 18 anos.
A faixa, autoatribuída pelo museu, impede que um menor, mesmo se acompanhado dos responsáveis, tenham acesso à mostra –o Ministério da Justiça não determina a classificação para instituições culturais, que devem fazê-lo por si, seguindo manual da pasta.
A exposição conta com um batalhão de 150 nomes fortes para o ambiente artístico, que vão desde Renoir (1841-1919), a contemporâneos, como Adriana Varejão –o Masp escolheu sua "Cena de Interior 2", que foi alvo de críticas no "Queermuseu" em Porto Alegre, por, segundo manifestantes, fazer incitação à zoofilia.
As mais de 300 obras estão divididas em nove temas, como "Corpos Nus", "Jogos Sexuais", "Religiosidades".
Cibelle Cavalli Bastos e Alexandre da Cunha, por exemplo, estão na ala "Totemismo", dedicado à representação dos órgãos sexuais.
A obra "Xannayonnx Portal" pode parecer só uma grande espuma rosa. Bastos explica que o trabalho foi construído sobre uma indagação: "E se todos tivéssemos uma genitália híbrida?".
"A alma de uma pessoa não tem gênero, e a energia do masculino e feminino não garante o que a pessoa é."
Para ela, um mundo ideal seria o do filme "Avatar" (2009), onde o alienígena "gruda o rabinho no cabelo [para reproduzir]. Seria incrível se fizéssemos isso".
Do título ao uso de materiais, a obra de Cunha carrega um forte teor sexual."Morning", para ele, é uma expressão que remete à "sensualidade, do acordar para um ciclo".
Além disso, ele utiliza a camiseta como fundo do quadro, em vez da tela habitual; a peça de roupa, diz, está ligada ao "comum uso sobre a pele e o corpo humano". Materiais que a sobrepõem formam relevos que fazem alusão "até mesmo à genitália", explica.
QUEBRA DE PARADIGMAS
Militante dos direitos LGBTs e de profissionais do sexo, Amara Moira participou do ciclo de seminários do projeto em 2016.
Moira, que é travesti, diz ver o Masp como uma instituição "elitizada", "excessivamente pautada por padrões europeus, brancos, masculinos, colonizadores". "Para apreciá-la, a pessoa precisa ter intimidade com os valores e ideais que a produziram."
Por isso, Amara Moira defende a introdução de temas como a sexualidade e gênero para dentro do museu.
"A sociedade começa a se dar conta de que, se quer mesmo discutir sexualidade, pessoas trans e prostitutas devem obrigatoriamente participar do debate."
HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
ONDE Masp - av. Paulista, 1.578; tel. (11) 3149-5959
QUANDO abertura hoje, às 20h, para convidados; de 20/10 a 14/2; ter. a dom. das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h
QUANTO R$ 30 (inteira); 18 anos
Masp trata sexualidade como pornografia em mostra superficial por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Masp trata sexualidade como pornografia em mostra superficial
Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 31 de outubro de 2017.
"Histórias da Sexualidade", a mostra que se tornou polêmica antes mesmo de sua abertura, por conta da proibição a visitação por menores de 18 anos, está muito distante do que se pode imaginar a partir da temática prometida pelo título.
A exposição no Masp (Museu de Arte de São Paulo), dividida em oito segmentos, explora a sexualidade, uma área tão vibrante e cheia de contradições na humanidade, de forma classificatória e frígida. Com isso, o conteúdo, apesar de vibrante na individualidade de cada uma das obras, no conjunto se torna superficial.
O primeiro segmento, por exemplo, Corpos Nus, reúne de obras-primas do museu, como "A Banhista e o Cão Griffon" (1870), de Renoir, junto a uma deslumbrante tela de Francis Bacon, "Estudo do Corpo Humano" (1949) e "David 10" (2005), de Miguel Ángel Rojas, entre as cerca de 30 selecionadas. Contudo, a repetitiva sucessão de nus aponta para uma quantidade excessiva que se assemelha a uma mirada cientificista.
BRANCO E NEUTRO
Ora, uma exposição sobre sexualidade merece um ambiente mais quente, mas a curadoria da mostra, tendo à frente o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, tende a ignorar o legado da arquiteta Lina Bo Bardi, tão fetichizado em sua gestão. As paredes brancas e neutras, que suportam as obras, apenas atestam a falta de ousadia ao tratar do tema.
Nesse sentido, o conjunto que se sobressai é o denominado "Religiosidades", ao mesclar o sensual retrato de São Sebastião, realizado por Pietro Perugino, entre 1500 e 1510, do acervo do museu, com uma foto de Robert Mapplethorpe, uma pintura de Leonilson, desenhos de Leon Ferrari e o vídeo de Virgínia de Medeiros, "Sergio Simone", entre outros trabalhos.
Aí, pode-se perceber como artistas ao longo dos séculos trataram de sexo e religião de forma complexa e crítica, o que também falta nos demais segmentos da mostra.
APELO
Finalmente, proibir uma exposição a menores de 18 anos e colar um selo no catálogo como o texto "Sexo explicito, violência, linguagem imprópria" é tratar a sexualidade como pornografia.
Um museu de arte não deveria se acovardar a esse ponto, até porque está apenas sucumbindo a pressões de grupos desinformados e mal-intencionados.
O que se vê no museu está longe de todo o sexo explícito disponível a qualquer um na internet. No atual contexto, "Histórias da Sexualidade" poderia ser um farol sobre o papel da arte e de suas instituições. Entretanto, nem a curadoria nem o Masp estão em condições de exercer o papel que lhes cabe.
HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE (regular)
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h; até 14/2/2017
ONDE Masp, av. Paulista, 1578, tel. (11)3251-5644
QUANTO R$ 30, grátis às terças
CLASSIFICAÇÃO 18 anos
