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agosto 21, 2017
Marketing não deveria comandar Lei Rouanet, diz diretor do Sesc por Raul Juste Lores, Folha de S. Paulo
Marketing não deveria comandar Lei Rouanet, diz diretor do Sesc
Entrevista de Raul Juste Lores originalmente publicada no jornal Folha de São Paulo em 21 de agosto de 2017.
Com uma unidade recém-inaugurada no centro paulistano, na rua 24 de Maio, e várias outras a caminho, o diretor-regional do Sesc-São Paulo, o ex-seminarista e gestor cultural Danilo Santos de Miranda, 74, já se acostumou com o apelido de "verdadeiro ministro da Cultura do Brasil".
O orçamento da instituição neste ano é de R$ 2,3 bilhões (parte da receita vem da cobrança sobre folhas de pagamento; veja quadro abaixo). Já a pasta em Brasília teria quase R$ 2,7 bilhões (não fosse o congelamento de verbas).
No cargo desde 1984, Santos de Miranda afirma à Folha que "trabalha pensando como se nunca fosse sair daqui", ao ser questionado sobre uma eventual aposentadoria.
Diz que nunca foi convidado para ser ministro, que não teria "entusiasmo" pelo cargo no quadro atual e que a cultura não deve ser só administradora de artes e patrimônio.
Ele também defende mudanças na Lei Rouanet e critica a influência dos departamentos de marketing das empresas na destinação de verbas. Em 2016, esse que é o principal mecanismo de fomento à cultura do país injetou cerca de R$ 1,1 bilhão no setor.
"Seria melhor que houvesse um fundo com parte dos recursos dessas leis a ser investidos por decisão do administrador público, com critérios, mais equânime", afirma.
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Folha - O sr. já declarou que nunca foi convidado para ser ministro da Cultura. Gostaria?
Danilo Miranda - Nunca, nunca. Fui cogitado várias vezes, mas não por quem tem o poder de convidar [risos]. Toda ação é política, mas nunca me envolvi na política partidária. Só iria no caso de um projeto mais amplo, de cultura que representasse crescimento e desenvolvimento na administração pública. Hoje, a cultura é vista como administração de artes e patrimônio.
O que precisaria mudar?
Precisa ter papel mais relevante, na educação, nos planos econômicos. Jacques Lang, quando foi convidado pelo então presidente François Mitterrand a ser ministro da Cultura, respondeu: "só aceito se for o primeiro-ministro da Cultura, para tudo".
A Cultura tem que estar presente na discussão sobre presídios, drogas, hospitais. Já compartilhou um único ministério com a Educação, hoje tem seu próprio ministério, o que acho bom, mas tem que trabalhar com Educação também. Nesse quadro atual, não teria nenhum entusiasmo.
Desde o século retrasado, governos se preocupam mais com o ensino superior, onde só chega uma minoria, que com o ensino fundamental. Na política cultural, não acontece o mesmo, os impostos pagam a cultura da elite?
Para mim, a cultura deveria trabalhar mais no campo do fomento do que na realização. Não é distribuir dinheiro para que os artistas realizem seus projetos. É pequeno. A lei de incentivo precisa ser aprimorada e desenvolvida. A indústria cultural não pode prevalecer sobre o interesse público. Só se tivesse relevância.
Como fazer isso?
As leis de incentivo distribuem recursos atendendo também a interesses empresariais. Acho que a balança com os dois pratos deveria pender mais para o interesse público. Na prática, não acontece, são os departamentos de marketing que têm mais poder. Fica tudo concentrado no eixo Rio-São Paulo.
Seria melhor que houvesse um fundo com parte dos recursos dessas leis a ser investidos por decisão do administrador público, com critérios, mais equânime.
A Cultura sofreu cortes nos mandatos de Ana de Hollanda, Marta Suplicy e Juca Ferreira, mas parece que a classe artística só se mobilizou contra ministros da pasta no governo Temer. Houve partidarização?
Hoje, os cortes são generalizados. Antes, eu achava que o problema dos recursos para a cultura era de má gestão. Hoje, falta tudo.
O sr. está há 33 anos no cargo. Não pensa em se aposentar?
Já deveria pensar, mas não penso. Gosto de trabalhar nas tensões e contradições. Penso que posso ser demitido hoje pelo presidente da Federação do Comércio [Abram Szajman], que tem essa prerrogativa. Trabalho pensando como se nunca fosse sair daqui. Nas novas unidades, no dia a dia, na programação. Penso que ainda tenho muita energia.
Sucessões têm sido dramáticas no Brasil, dos sucessores se voltando contra quem os indicou, ou dos líderes que não formaram ninguém. O sr. pensa nisso?
O bom gestor cuida da ação atual e prepara pessoas em seu entorno que possam assumir seu papel. Penso estar fazendo isso. Vários poderiam me substituir. Mas sou realista. Não vou decidir quem vai me suceder. Provavelmente, será quem suceder o Szajman. Mas temos muitos quadros preparados aqui.
No momento de crise, há várias vozes pedindo o corte da contribuição compulsória ao chamado "sistema S", do qual o Sesc faz parte. Daria para mudar esse imposto?
Mataria essas instituições. Não dá para sobreviver só com a contribuição dos usuários. Lazer, saúde, cultura e educação são direitos essenciais que precisam ser mantidos.
É um modelo exemplar e admirado em todo o mundo. Há problemas, sim, seres humanos erram, até na Igreja. Mas, no meio de escândalos diários, é raríssimo algum deles atingir o sistema S. Não é uma caixa preta, como dizem.
O empresariado reunido propôs ao Estado esse sistema. Foi uma proposta voluntária, ainda no governo Vargas, com o Senai. Depois, com o Dutra, surgem Sesi, Senac e Sesc.
Os próprios empresários sugeriram que fosse uma contribuição compulsória, de 1,5% da folha de pagamento dos setores de comércio e serviços, para o bem-estar do trabalhador.
No resto do Brasil, porém, o Sesc não se tornou a grande referência cultural que é em São Paulo. É problema de gestão?
O mais relevante em muitos Estados ainda é o que o Sesc faz. Mas a mídia está muito concentrada aqui em São Paulo, não é de hoje, então só o que acontece aqui repercute.
E aqui a arrecadação é maior, é normal que façamos mais. Mas nos antigos territórios, Amapá, Rondônia, os únicos teatros à época eram os do Sesc.
Por que a construção da unidade na 24 de Maio demorou tanto? Foi anunciada em 2002.
A aprovação da obra do prédio foi complicada e lenta. Tiramos a cúpula, construímos as lajes, que chamamos de praças superpostas.
Tem as exigências de qualquer construção no centro de São Paulo. Há muitos cuidados, de bombeiros à prefeitura paulistana, que são aprimorados, mas são mais lentos do que deveriam.
A decisão de colocar a piscina no alto também. É muito pesada. Tivemos que reforçar as fundações, criar quatro colunas muito largas, o prédio teve que afundar mais, o que abalava o entorno, de prédios mais antigos. Isso retardou. Tivemos que fazer estudos de viabilidade.
De quem foi a ideia da piscina?
Foi nossa, do Paulinho [o arquiteto Paulo Mendes da Rocha] e minha. A obra mesmo [que consumiu R$ 120 milhões] só começou em 2009, e é difícil, não entra caminhão pesado no calçadão, tivemos que tirar muito entulho, fazer as lajes no vazio só à noite. A construtora que venceu a concorrência teve problemas de caixa. Só dá para abrir quando está perfeito.
Alguns curadores queriam ocupar o prédio como estava, pré-reforma, essas ocupações dos anos 1960, que tanta gente gosta. Eu respeito, mas uma entidade que vive da contribuição compulsória das empresas precisa fazer um projeto acabado, e atrair muita gente.
Mais uma vez, dizem que um centro cultural e esportivo, como o novo Sesc, vai "revitalizar" a área. Mas Praça das Artes, Sala São Paulo e Pinacoteca pouco mudaram seus entornos. Dezenas de prédios vazios, e um deserto à noite e nos finais de semana. O que ainda falta?
Acho que há uma rede boa de equipamentos culturais, como esses que você citou, e também o Centro Cultural Banco do Brasil. Têm ótima programação e, de fato, melhoram o entorno.
Veja o Sesc Belenzinho. Saímos da Paulista e fomos para a zona leste, a maior da cidade, e não tão bem servida. Houve uma revisão da vizinhança. A pizzaria vizinha melhorou, a oficina mecânica mudou a fachada, as pessoas começaram a varrer as calçadas, a do cemitério era depósito de dejetos. Na 24 de Maio, um minimercado já foi aberto.
Mas o temor quanto à segurança e as ruas desertas a partir de um horário continuam.
Há um temor nas ações noturnas, as ruas ainda ficam vazias nos domingos e à noite. Temos que oferecer mais vigilância, mais segurança para quem vem. Tem que ter mais gente morando, mais lazer de qualidade, e não só no plano vulgar. Temos que nos perguntar porque ainda fica vazio fora do horário comercial.
Como diz o Paulo Mendes da Rocha, o medo induz o fascismo. Temos que resistir.
Semana da Arte tem êxito e terá nova edição em São Paulo por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo
Semana da Arte tem êxito e terá nova edição em São Paulo
Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 21 de agosto de 2017.
Galerias vendem bem na feira que acabou ontem e se descolou da crise
A feira em torno da qual foi organizada a Semana de Arte, que terminou ontem, no hotel Unique, funcionou como uma espécie de termômetro do mercado que, se não está propriamente aquecido, ao menos dá sinais de se descolar da grave crise econômica. Foram negociadas obras de arte de alto valor pelas 39 galerias convidadas pelo comitê curatorial da feira, formado pelos galeristas Luisa Strina e Thiago Gomide, o curador Ricardo Sardenberg e o empresário cultural Emilio Kalil. O êxito do evento pode ser medido pelo resultado comercial da própria galeria de Luisa Strina, que, segundo a marchande, teve de repor as obras do artista Marcius Galan já na sexta, segundo dia de funcionamento da feira, tendo vendido todos os trabalhos expostos em seu estande no dia da abertura.
Na mesma sexta-feira, 18, o marchand André Millan, da galeria que leva o nome de sua família, havia negociado duas peças da série Lizard, do escultor pernambucano Tunga (1952-2016) por preços módicos (US$ 100 mil e US$ 250 mil) se comparados às cotações de outras obras raras presentes na feira – entre elas esculturas nunca vistas (estavam numa coleção particular) da artista neoconcreta mineira Lygia Clark (1920-1988), à venda na Galeria Almeida e Dale (preços variando entre US$ 2 milhões e US$ 20 milhões).
A diferença fundamental entre essa pequena feira e outras internacionais de grande porte é que ela funciona com uma espécie de curadoria museológica, segundo a percepção de alguns visitantes e dos próprios galeristas. De fato, a disposição e o tamanho dos estandes, em geral ocupados por obras de um mesmo artista, facilitava a aproximação entre eles, permitindo um interessante diálogo. Foi o caso, por exemplo, de Antonio Dias, na Galeria Nara Roesler, e Amilcar de Castro (1920-2002), na Galeria Marília Razuk. Ou do venezuelano Jesús Soto (1923-2005) e o argentino León Ferrari (1920-2013) ambos ocupando o estande da Dan Galeria – uma associação formal que representou um achado do galerista Peter Cohn.
“O visitante, numa feira pequena, tem uma leitura mais coerente do próprio artista”, analisa Cohn, considerando que a atenção dos frequentadores não fica dispersa como nas megafeiras. “Organizar um estande com obras do mesmo artista é mais difícil”, admite, mas a concorrência entre as galerias diminui, pois os colecionadores já sabem o que buscar em cada uma delas. Assim, se o interesse deles convergia para o modernismo, os visitantes podiam encontrar obras raras de Flávio de Carvalho na Galeria Frente. Ou de Di Cavalcanti na galeria uruguaia Sur, que tinha à venda uma tela de grandes dimensões do pintor, produzida em 1952 para a fábrica de colchões Probel, que remete à estética do muralismo mexicano. O marchand Martin Castillo, proprietário da galeria Sur, não revelou o preço da pintura, mas ele deve girar em torno de R$ 4 milhões.
Os contemporâneos não ficaram muito distantes desse patamar. As obras mais caras de Antonio Dias, representado por trabalhos dos anos 1970 e 1980 na galeria Nara Roesler, custavam em torno de R$ 2 milhões. Uma escultura de Amilcar de Castro era oferecida pela galerista Marília Razuk por preço equivalente ao da tela de Di Cavalcanti. “Ainda não fechamos negócio, mas certamente ela será vendida”, diz ela.
Como é usual, muitas vendas são realizadas após o término das feiras. O colecionador, cujo perfil foi renovado com a entrada de jovens empresários no mercado, segundo ela, aproveita a feira para ver e decidir depois. “O público é basicamente o mesmo de outras feiras, mas, por ser pequena, vêm só os mais focados”, observa. “Não tem curiosos’, conclui.
A despeito de ser pequena, a feira da Semana de Arte atraiu 1.600 visitantes só no primeiro dia. “Tivemos até a visita de um joalheiro que, curiosamente, pediu a um curador para dar uma aula de arte aos seus vendedores”, conta a galerista Luisa Strina, que promete nova edição da feira sem ampliar seu tamanho. “Ela tem uma dimensão humana, não deixa o visitante exausto”, avalia um dos curadores, Emilio Kalil. “A feira veio para ficar, é um modelo produtivo para as galerias”, diz Ana Dale, sócia da Galeria Almeida e Dale.
