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junho 9, 2016
Morre o artista alagoano Euzebio Zloccowick, O Povo
Morre o artista alagoano Euzebio Zloccowick
Matéria originalmente publicada no jornal O Povo em 9 de junho de 2016.
O ator e diretor estava no município de Marechal Deodoro, em Alagoas, onde mora a mãe. O enterro foi na manhã desta quinta, 9, em sua cidade natal
Morreu o artista alagoano Euzebio Zloccowick, aos 56 anos, nesta quinta-feira, 8, por volta das 9 horas. Conforme informações preliminares, o ator e produtor tratava uma bactéria nos pés que se alastrou para o pulmão, resultando em problemas respiratórios. Pessoas próximas a Euzebio comentam que ele havia apresentado "grande melhora" antes de piorar na última semana. Ele faleceu na Praia do Francês, no município de Marechal Deodoro, em Alagoas, onde mora a mãe. O enterro foi na manhã desta quinta, 9, em sua cidade natal.
A pesquisadora sonora Vivi Rocha, com quem Euzebio trabalhou no coletivo audiovisual Caratapa, diz que o artista "modificou a vida das pessoas" com quem se relacionou. "Foi um baque pra todos nós. Eu acho que poderia descrevê-lo, como um amigo falou, como uma pessoa que ultrapassou e modificou a vida de muitas pessoas", comenta. "Ele foi um profissional muito maravilhoso, muito dedicado. Fazia um trabalho muito minimalista".
Zloccowick morava em Fortaleza há cerca de 20 anos.
Armadilhas de Tunga criadas entre realidade e ficção, drama e loucura por Maria Hirszman, Estado de S. Paulo
Armadilhas de Tunga criadas entre realidade e ficção, drama e loucura
Texto de Maria Hirszman originalmente publicado no jornal Estado de S. Paulo em 18 de novembro de 2007.
É no aparentemente caótico, que obedece às leis insondáveis da filosofia, da ciência e da psique, que artista, morto aos 64 anos, funda sua ordem
Releia o texto que o Estado publicou em 18/11/2007 sobre o artista Tunga
Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão é um nome e tanto. Parece já conter nas circunvoluções sonoras algumas pistas capazes de auxiliar na árdua tarefa de definir a obra do artista nascido em Pernambuco e que se tornou nacional e internacionalmente conhecido por Tunga. Assim como no jogo aparentemente contraditório entre extensão e síntese protagonizados por seu nome e apelido, o artista tem como marca central a permanente exploração do contraditório, a capacidade de condensar numa mesma ação elementos absolutamente díspares e potentes.
Quer nas "instaurações" (como costuma chamar suas instalações-performances), quer nos desenhos ou nos livros, Tunga realiza um duplo processo mobilizador: ao mesmo tempo em que se situa no campo do eterno retorno, da repetição mântrica de um conjunto restrito de elementos de forte carga simbólica, ele coloca em ação uma série de estratégias para romper com os padrões institucionais, formais da arte. Nega o estatuto da obra, ao construí-la em parceria com o público e até mesmo com as moscas que atrai e aprisiona em armadilhas de melado; nega a ideia de autor, ao confundir-se com sua própria obra. Esfacela os limites entre realidade e ficção, entre drama e loucura.
Mito e realidade se associam, numa trama que vai muito além do suporte material de cada experiência individual e que também extrapola o significado fechado de cada construção poética para integrar-se no conjunto de sua produção. Nesse processo de integração - que remete à importância do ímã nos trabalhos de Tunga -, as várias experimentações ressignificam-se a si próprias e também agregam novos caminhos de leitura e interpretação à toda sua obra. Assim, a potência sensível da arte vai muito além de estado físico, tangível e fetichista da matéria, tornando-se um amálgama no qual a criação e a recepção se aproximam.
Segundo Suely Rolnik, é por meio da palavra que isso se torna ainda mais evidente. "Nestes textos, onde ficção se entrelaça com dados objetivos e biográficos, obra e vida tornam-se inseparáveis - a vida se mostra obra, e a obra, cartografia da vida", escreve ela em ensaio publicado por ocasião da exposição Tunga: 1977-1997.
As armadilhas de Tunga para seduzir e envolver o espectador lembram a já citada armadilha de luz e melado para atrair os insetos. Os símbolos a que recorre para construir sua poética (ossos, tranças, cabelos, animais, vidros...) constroem não apenas estruturas visuais a serem apreendidas pelo olhar e elaboradas racionalmente. Atuam também corroendo a razão, agindo no inconsciente e mobilizando outras formas de percepção. "Como toda grande arte, engaja corpo e alma, matéria e espírito", sintetiza com precisão Paulo Sergio Duarte.
É como se ele buscasse nesse processo tocar um nervo exposto, dolorido, que possui dimensões ao mesmo tempo universais, sociais e individuais. Exemplos não faltam, como a fascinante experiência de semear sereias, criada para a Bienal de São Paulo de 1987, o livro Barroco de Lírios, lançado uma década depois pela Cosac Naify, e no antológico filme feito por ele em parceria com Arthur Omar, intitulado Nervo de Prata.
É naquilo que aparentemente é caótico, que obedece às leis insondáveis da filosofia, da ciência e da psique que Tunga funda sua ordem. E é num processo de continua repetição, de fluxo permanente e sinuoso (seja o fio de cabelo, o traço do desenho ou a linha tênue que conduz raciocínio e emoção paradoxalmente para uma mesma direção) que ele está permanentemente rompendo paradigmas. Apóia-se na tradição, busca referência nos arquétipos, mas não se prende a eles. Como diz o próprio artista na abertura de Barroco de Lírios, ele reencontra "o novo no velho": "Sempre gostei de bagunça. Não de ordem nem desordem. Bagunça. O que tenho à mão vou mexendo até perder, pra depois achar de novo. Achando o que perdi acho o novo de novo, reencontro o novo no velho - é como a luz, a velha luz, descansada e sempre nova de novo", escreve.
Obra de Tunga não ficava restrita ao discurso autorreferente da arte por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Obra de Tunga não ficava restrita ao discurso autorreferente da arte
Análise de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho de 2016.
O percurso de Tunga é singular na arte brasileira. Por um lado, ele deu continuidade às propostas mais radicais de Lygia Clark e Hélio Oiticica, valorizando a presença do espectador, questionando os suportes tradicionais, usando o corpo como território de expressão.
Contudo, de forma muito distinta da performance, Tunga utilizou em suas obras, ou "instaurações", como ele preferia chamá-las, uma encenação que se distanciou de forma bastante radical da espontaneidade que os artistas dos anos 1960 e 1970 buscavam.
Em "Xipófagas Capilares", por exemplo, exibida pela primeira vez em uma galeria comercial, em 1985, Tunga apresentou duas adolescentes loiras semelhantes unidas por uma vasta cabeleira, que percorriam o espaço de mãos dadas.
A ação foi refeita algumas vezes. A estranheza do confronto com as meninas é um tanto semelhante às estratégias surrealistas de provocar o espectador a partir da união de elementos conhecidos, mas que não costumam estar juntos —como o "Telefone-lagosta", criado por Salvador Dalí, em 1936.
No entanto, Tunga visava mais que a provocação e o choque, mesmo que trabalhasse muito bem nessa condição. Em toda a sua obra se percebe, contudo, uma profunda reflexão sobre a condição humana.
No caso de "Xifópagas Capilares", a problemática do duplo, tema recorrente em sua obra, sobressai. Há quatro anos essa "instauração" pode ser revista, desde quando o Inhotim inaugurou o pavilhão dedicado ao artista.
Em um cenário onde os museus de arte do Brasil não dão conta de apresentar de forma decente a produção atual, Tunga se tornou um dos poucos privilegiados a ter no Inhotim um local onde seu trabalho pode ser visto de forma abrangente e completa —com pelo menos dez obras de grande porte.
Esta lá, por exemplo, "À Luz de Dois Mundos", criada para ser exibida no Museu do Louvre, em Paris, em 2005. Nela, Tunga expõe uma caveira em uma imensa rede metálica, referência ao processo civilizador nos trópicos, que dizimou milhões de indígenas em todo continente americano.
Em "À Luz de Dois Mundos", o comentário de Tunga não é literal como pode parecer em uma descrição de poucas palavras. A obra é complexa, cheia de mistérios e metáforas, como em toda sua produção.
Outro trabalho exibido no Inhotim é "Teresa", que em 1999 foi apresentado com cem desempregados em Buenos Aires, na Argentina. Na inauguração de seu pavilhão no Inhotim, em 2012, cem jardineiros tomaram parte da encenação de trançar lençóis, como fazem os detentos para escapar dos presídios, daí o nome "Teresa".
Essa "instauração" representa outro elemento essencial na obra de Tunga: não fica restrito ao discurso sobre a arte. Sua "Teresa" simboliza a necessidade da fuga do circuito, do rompimento com as certezas institucionais, a busca pela liberdade.
A radicalidade da obra de Tunga comprova que é possível ser experimental e, ao mesmo tempo, conseguir inserção sem comprometimento. Assim ele participou das mostras mais importantes, como a Documenta de Kassel, em 1997, a Bienal de Veneza, em 1982, e várias vezes a Bienal de São Paulo.
Assim Tunga será lembrado. Como poucos, ele afinal assumiu a máxima de Mário Pedrosa: "A arte é o exercício experimental da liberdade".
Tunga construía sua poesia calcado em universos distintos por Miguel de Almeida, Folha de S. Paulo
Tunga construía sua poesia calcado em universos distintos
Artigo de Miguel de Almeida originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho de 2016.
Ali por meados dos anos 1980, Tunga apareceu na ampla sala do apartamento de seu pai, em Copacabana. Seus cabelos, lisos e compridos, mais ou menos divididos no meio da cabeça, caíam nos ombros e lhe davam um ar de cherokee digital. Magro, olhos escuros estalados no meio da noite, vestia algo assemelhado a uma bata, de gola careca; falava rápido e num tom baixo: "Então, você é o amigo de que meu pai tanto fala", disse, e me abraçou. Nunca mais deixamos de ser amigos.
Seu pai era o lendário poeta Gerardo Mello Mourão. Naquela época, voltava da China, onde fora correspondente da Folha. Os despachos de Gerardo brilhavam ao lado de textos de Paulo Francis, de Nova York; Claudio Abramo, de Paris e Londres; e Osvaldo Peralva, de Tóquio. Sacou a briga de estrelas? Gerardo logo me adotou e me transformou em seu cicerone na Pauliceia. Minha tarefa era descobrir novos restaurantes japoneses pela cidade, e contar causos.
Casado com Léa, filha do poderoso senador Antônio de Barros Carvalho, Gerardo, nascido no sertão cearense, fora deputado federal, fundador de vários jornais e se transformara por conta de sua obra e militância política em cidadão do mundo. Estabelecera uma imensa rede de amigos poetas e políticos ao redor do planeta. Cultivava também bons adversários. Aquilo tudo me fascinava: tinha segredos de polichinelo de personagens distintos como Michel Deguy, Pablo Neruda e Leonel Brizola.
Por vários anos, o senador Antônio Barros dera abrigo (casa, comida e roupa lavada) ao amigo Alberto da Veiga Guignard. Em agradecimento, o doce artista mineiro tratou de pintar o casarão da família, na rua România, no bairro carioca de Laranjeiras. Tetos, portas e algumas paredes foram cobertas por suas cores amenas e cenas cotidianas. Também registrou as filhas do senador numa tela clássica, as gêmeas Maura e Lea, mãe de Tunga, que vai citar o caso na sua série, hilária, "Xipófogas Capilares", da década de 1980.
Então, embaixo do prosaico apelido de Tunga escondia-se o nome heráldico de Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão. Um disfarce. Tanta política, arte brasileira e funda tradição nordestina, vinda da colônia, mais certa distinção próxima ao rapapé, soavam a ele peso desproporcional diante de seu projeto em construir uma obra desterritorializada, não imbricada com regionalismos ou cepas nacionalistas. De Gerardo herdou um fino humor, sofisticado, ao qual acrescentou um gosto pelo chiste e a construção permanente de irrealidades.
Isso no Brasil? Um país jovem mas talhado pela desigualdade social na falsa sisudez da república de doutores? É demais para essa terra um artista que se recusa a tecer um trabalho que não tenha por base a realidade imediata e azeda. Como ousa?
No DNA estético-ideológico pátrio se encontra o desenho da arte como registro, reprodução e, muitas vezes, acentos regionais. Se fosse assento seria mais útil. Assim o que possui caráter internacionalista, no Brasil, é posto sob suspeição. É pau, é pedra, é o fim do caminho.
Talvez venha daí a maior repercussão da obra de Tunga em terras estrangeiras: nos últimos anos foram várias as mostras dele em cidades europeias e americanas. Ele sempre fez um trabalho pertencente ao mundo, a partir de referências colhidas na especificidade dos materiais, por vezes em suas próprias excentricidades (cabelo, ossos, barro etc.), no lúdico, e solidamente amparado numa visão filosófica da arte. Porque sempre teve uma sede exuberante pela vida.
Aí que está. Nestes últimos tempos, trocando ideias para o nosso documentário, percebi como Tunga construía sua poesia calcado em universos distintos, quase intangíveis, e num diálogo com a natureza primeva. Numa imagem, o osso que sobe em "2001" de Kubrick e sob Wagner se transforma numa espaçonave. De primatas a astronautas, glosando Mlodinow.
Na construção do roteiro do nosso filme, senti como Tunga sacava conceitos oriundos da física, da química, de fenômenos geofísicos, da linguística e da filosofia para alicerçar seu pensamento. A todo esse coquetel adicione-se ainda sua picardia e sobretudo sua elegância ao desprezar os temas pedestres do cotidiano. É só olhar em volta e cotejar como ele fará falta.
Tunga 1952-2016: Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Tunga 1952-2016: Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho de 2016.
Um dos maiores nomes da arte do país, Tunga morre aos 64, no Rio
Um dos nomes mais celebrados e relevantes das artes visuais do país, Tunga morreu nesta segunda, aos 64. Ele sofria de câncer e estava internado no hospital Samaritano, no Rio, havia três semanas. Seu corpo será enterrado no cemitério São João Batista.
Em quase meio século de carreira, Tunga construiu uma obra plástica incontornável na arte contemporânea, mesclando referências sutis à herança construtiva que dominou as vanguardas nacionais a um universo simbólico único.
Seu mundo de tranças de aço e cobre atravessando pentes, ímãs ultrapotentes, caveiras, esqueletos, sereias, pérolas e sementes foi ao longo dos anos chamado de surrealista, delírios orquestrados como parte de uma mesma sinfonia.
Nascido em Pernambuco e radicado no Rio desde os anos 1970, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão era filho de um poeta —Gerardo Mello Mourão. jornalista morto aos 90, em 2007, que foi correspondente da Folha em Pequim no início dos anos 1980.
Desde seus primeiros desenhos, Tunga dizia que suas obras partiam de reflexões a meio caminho entre versos e teorias filosóficas e científicas, “nunca demonstráveis nem refutáveis”, ele frisava.
No campo da escultura, maior parte de sua obra que surgiu sempre aliada à performance, usava materiais como cobre, aço e ímãs em construções que lembram o corpo humano, tecidos, pele, cartilagens e esqueletos, revestindo de dimensão carnal tudo que parece surgir como algo de natureza robusta, industrial.
É nesse sentido, falando em “construção rigorosa do imaginário”, que Tunga juntou duas pontas irreconciliáveis do espectro da arte contemporânea —o minimalismo obcecado pela força bruta da matéria, de Richard Serra a José Resende, e a sensualidade sanguínea de obras sobre o desejo, lembrando a dor dos corpos incomuns de Louise Bourgeois.
Esse erotismo, enquanto forma de manifestação do instinto e do desejo, parece guiar grande parte de suas pesquisas estéticas. Em um filme pornográfico que realizou, cristais e pedras surgem como transmutação de fluidos corporais, saliva, urina e fezes —o artista apontava ali uma espécie de alquimia latente na própria existência, de corpos em transformação.
DÂNDI TROPICAL
Sempre vestindo ternos de cores extravagantes, Tunga era um dândi tropical, lembrando às vezes Flávio de Carvalho, um artista de rigor absoluto em sua obra plástica que sabia ao mesmo tempo desafiar a atmosfera espessa que pesa sobre o mundo da arte.
Numa de suas primeiras séries de desenhos, “Museu da Masturbação Infantil”, dos anos 1970, Tunga já indicava esse caminho dúbio.
É uma dualidade que também transparece em “Ão”, filme que rodou em preto e branco num túnel, nos anos 1980, contrastando luz e escuridão.
Suas tranças de chumbo com laços coloridos criadas na mesma década parecem ter sido o primeiro passo de um arco narrativo que atingiu seu auge nas obras mais recentes, em que peças de argila moldadas à mão se equilibram sobre hastes metálicas.
Tunga morreu num momento de transformação em sua obra. Desde o começo da década de 1980, quando representou o Brasil na Bienal de Veneza, e depois de quatro passagens pela Bienal de São Paulo e mostras no MoMA, em Nova York, na Whitechapel, em Londres, no Jeu de Paume, em Paris, entre outras instituições de peso, ele se firmou como o menos solar e mais soturno dos artistas do país.
O esqueleto que pendurou numa espécie de rede debaixo da pirâmide do Louvre, em Paris, coroava essa descida ao inferno. Seu boneco tétrico se equilibrava tendo como contrapeso outras bolsas cheias de caveiras, uma versão fossilizada de obras que fez ao longo da vida em que frágeis objetos surgem suspensos por redes esgarçadas.
“True Rouge”, de 1997, uma de suas obras mais famosas agora no Instituto Inhotim, é uma dessas peças içadas, com frascos e ampolas de vidro cheias de um líquido vermelho, como se fosse sangue.
Nos últimos anos, depois de cicatrizadas as feridas e tendo sobrado só os ossos, talvez um indício do que ele chamava de um “reencontro com o arcaico”, Tunga foi abrindo mais o traço de seus desenhos e ampliando sua paleta de cores para incluir também tons mais solares, talvez, como dizia, lembrando sua vida à beira do mar.
Sua morte coincide com um momento em que ele afirmava ver “mais mistério na luz do que no escuro, na morte”.
Morre aos 64 anos no Rio o artista plástico Tunga, Jornal Nacional
Morre aos 64 anos no Rio o artista plástico Tunga
Matéria originalmente exibida no Jornal Nacional em 6 de junho de 2016.
Com 22 anos, Tunga realizou a sua primeira exposição individual, no Rio. Artista que morreu e câncer era conhecido por ser inquieto e provocador.
Morreu nesta segunda-feira (6), aos 64 anos, o artista plástico Tunga, um dos brasileiros mais prestigiados no cenário internacional. Ele estava internado, no Rio, combatendo um câncer.
Ossos, tranças e tantos outros objetos unidos ganham força e poesia em um espaço no Museu de Inhotim, em Minas. As obras ocupam duas grandes galerias, onde a gente percebe a potência e a dimensão da arte de Tunga.
Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, filho do jornalista e poeta Geraldo Mello Mourão, nasceu em 1952, em Pernambuco. Descobriu a escultura na infância.
“As primeiras esculturas foram meus primeiros gestos, do excremento ao alimento. Foi biscoito, mel, chupeta, leite, justamente um modo diferente de olhar o mundo”, disse o artista.
Mas foi no Rio que ele cresceu e se descobriu como artista. Em 1974, com 22 anos de idade, Tunga realizou a sua primeira exposição individual, no Museu de Arte Moderna.
Tunga era um artista inquieto, provocador. Transformava tudo em arte. Um verdadeiro bombardeio visual.
“A minha principal função é ser um poeta. Não há intenção de ser um especialista, porque a especialidade de um poeta, de um artista, é ser exatamente ser aquele sujeito que está à disposição de todos os especialistas”, destacou Tunga.
Fez esculturas, desenhos, performances e escreveu livros. A poesia, o jeito transgressor e a criatividade das obras de Tunga acabaram chamando atenção das galerias e expositores de várias partes do mundo. Foi o primeiro artista contemporâneo a ter uma obra exposta do Museu do Louvre, em Paris.
“Com certeza a obra dele já entrou para a história importante da arte brasileira e da arte internacional. Ele foi extremamente inovador no desenvolvimento de suas esculturas, utilizando sempre pessoas, o corpo fisicamente, numa espécie de alquimia e ciência, que isso acabava se transformando em objetos”, elogia a artista plástica Beatriz Milhazes.
“Ele é um dos maiores artistas contemporâneos brasileiros e é uma perda irreparável, um artista que tem uma obra que você não pode filiar ou aparentar com nenhuma outra. É uma obra muito própria, muito interessante, e é uma perda para a arte brasileira”, curador do MAM-RJ, Fernando Cocchiarale.
