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fevereiro 8, 2016
Do pedestal aos porões: exposição mostra trajetória de monumentos paulistanos por Theo Monteiro, Brasileiros
Do pedestal aos porões: exposição mostra trajetória de monumentos paulistanos
Matéria de Theo Monteiro originalmente publicada na revista Brasileiros em 5 de janeiro de 2016.
Intitulada “Memória da Amnésia”, mostra é organizada pela professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Giselle Beiguelman
Na mesma praça onde se situam a Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), a Estação de Metrô Tiradentes e a Escola Técnica do Estado de São Paulo (Etesp) repousa em um canto quase esquecido, o edifício do Arquivo Municipal de São Paulo. Apesar de sua beleza, o prédio de Ramos de Azevedo é quase invisível aos olhos da grande quantidade de pessoas que diariamente passam por ali. Justamente por isso, o local foi escolhido como sede da exposição Memória da Amnésia.
“O objetivo da mostra é discutir os monumentos paulistanos e as políticas que os acompanharam e acompanham. Por isso, nada mais oportuno do que expor esse trabalho em um local que, tal qual um monumento, visa perpetuar uma (ou mais de uma) memória(s) e, mesmo assim, acaba sendo dissolvido em meio ao cotidiano e ignorado” explica a professora da FAU-USP Giselle Beiguelman, que organizou a exposição.
O saguão do já referido edifício e palco da exposição traz uma paisagem um tanto quanto bizarra: uma série de monumentos e pedaços de monumentos, em sua maioria deitados, dispersos pelo espaço. A cena tem algo que remete às ruínas gregas e romanas, reunindo pedestais, estátuas, carrancas e até algumas inusitadas lagostas de bronze. “Estes monumentos estavam todos desmontados e armazenados em depósitos há muitos anos. É extremamente frequente em São Paulo que monumentos saiam de circulação e sejam encerrados nestes depósitos, onde podem permanecer por décadas. Igualmente constante é que os mesmos sejam mudados de lugar” explica Giselle.
Os fragmentos selecionados pela professora e expostos no saguão do arquivo não são o objeto central da mostra, e sim o seu ponto de partida. “Estavam todos em depósitos, e alguns já tinham mudado de lugar. Ainda que alguns sejam de qualidade artística questionável, eles serviram para levantar as questões que norteiam esta mostra: qual é a política da cidade para os seus monumentos?”.
A partir daí Giselle, com a ajuda de uma equipe de orientandos, organizou um estudo acerca dessa política, por ela chamada de “política do esquecimento”. O nome, forte, não é gratuito: dos 400 monumentos existentes na capital paulista, 60 foram mudados de lugar. Destes 60, 40% mudaram de lugar mais de uma vez. “Achei pertinente que esse tema viesse à tona em um momento no qual a cidade repensa a sua relação com seus habitantes. Se o cidadão tem direito ao lazer, ao transporte e a ocupar o espaço público, por que não teria também direito a memória?”, indaga Giselle.
A mudança de lugar, bem como a não rara tirada de circulação, fazem com que a cidade acabe tendo dificuldade de criar vínculo com seus monumentos. Um bom exemplo são aqueles que muitas vezes estão encobertos por vegetação ou espremidos em meio a grandes avenidas. São monumentos que acabaram sendo retirados de seu lugar original e portanto perdendo sua escala. A relação com o entorno muitas vezes tem uma razão de ser, conforme explica Giselle.
Mas quais as razões para tamanha itinerância e mesmo esquecimento em depósitos? A professora elenca três dos motivos mais frequentes: obras viárias, questões ideológicas e problemas de conservação (neste último acaba sendo mais comum o encaminhamento a um depósito). As obras viárias são o motivo mais frequente e têm como “vítimas” monumentos muitas vezes famosos, como o monumento a Ramos de Azevedo. A imponente construção, localizada inicialmente diante da Pinacoteca do Estado (obra do homenageado no monumento), foi dali removida nos anos 1970 em função das obras do Metrô e transferida para a Universidade de São Paulo.
Motivos ideológicos também figuram como razões comuns: a homenagem a Federico García Lorca, do artista Flávio de Carvalho, foi inaugurada na praça das Guianas em pleno ano de 1968, quando se endurecia ainda mais a Ditadura Militar brasileira. Considerada simpática ao comunismo, foi alvo de uma bomba partida de radicais de direita e seus destroços enviados a um depósito. O próprio Flávio de Carvalho a resgatou do mesmo depósito e remontou a tempo de que ela fizesse parte da Bienal de São Paulo de 1971. Por dois dias, o trabalho ali permaneceu até ser alvo de queixa por parte do embaixador da Espanha, o que fez a peça voltar ao depósito. Outro exemplo é o monumento a Olavo Bilac, cujos fragmentos estão presentes na exposição. Construído em 1922, foi desmontado em 1936, quando o Departamento de Cultura de São Paulo estava sob a batuta de Mário de Andrade (cuja produção ia na contramão do parnasianismo de Bilac). O desmonte foi possivelmente por essa questão de divergência estilística, mas seguiu-se a isso o fato de o monumento ser dividido em partes e espalhado pela cidade. Algumas de suas peças, tidas como obscenas, causaram polêmica entre moradores mais conservadores e políticos de direita e acabaram por ter que se mudar de lugar novamente.
De caráter inédito, a mostra abre caminho para o estudo da inesgotável questão dos monumentos paulistanos e dos próprios depósitos, até então ignorados pela população e pelos estudiosos. “Essa política de esquecimento que cria os depósitos é muito pouco conhecida por nós. Em países europeus, os monumentos só ficam em depósitos durante períodos de restauro e logo regressam ao seu local de origem. Em São Paulo eles acabam se tornando lar definitivo de muitas peças” explica Giselle. Para além de revelarem uma dinâmica de preservação, o estudo dos depósitos pode trazer a público peças há muito desaparecidas, já que a catalogação é rarefeita.
Entre os mortos, estão museus e centros culturais por Silas Martí, Plástico blog Folha
Entre os mortos, estão museus e centros culturais
Post de Silas Martí originalmente publicado no blog Plástico no jornal Folha de S. Paulo em 29 de janeiro de 2016.
Este não será um post feliz. Entre mortos e feridos, estão museus e centros culturais. Vítimas da crise econômica, espaços dedicados à arte costumam ser os primeiros a sofrer cortes ou mesmo deixar de existir quando as vacas minguam. Nos últimos meses, o Brasil entrou numa onda de extinção de suas já combalidas instituições culturais. A primeira a desmoronar foi a Casa Daros, o entreposto carioca de uma megacoleção de arte latino-americana com sede em Zurique. Depois de uma reforma milionária no casarão que ocupou em Botafogo e mostras que geraram certo buzz, os suíços decidiram arredar o pé do Rio, assustados com o tal do custo Brasil. Brasileiros não têm escolha, estão fadados a equilibrar as contas, demitir e encolher quando não sumir de vez.
Também no balneário olímpico, o Parque Lage e a Casa França-Brasil, depois de passar por uma merecida reestruturação pelas mãos de Lisette Lagnado, Marcio Botner e Pablo León de la Barra, agora estão destinados a um futuro paupérrimo. Demitiram quase metade da equipe e parece que nem por milagre vão voltar a ter o brilho fugaz que ostentaram nos últimos anos. São espaços centrais para a vida cultural do Rio e do país. É urgente que a situação se resolva —no caso, que dinheiro entre no caixa— para não afundar de vez na mediocridade uma cena bastante promissora.
Na sequência, veio a intervenção da reitoria da Universidade de São Paulo no Museu de Arte Contemporânea. Desde que o MAC se mudou para a sede nova de frente para o parque Ibirapuera, coisa de quatro anos atrás, pouco mudou. O museu continua sem reserva técnica, o tão aguardado restaurante na cobertura, a biblioteca, entre outras coisas. Mais importante ainda, não tem dinheiro para realizar exposições temporárias, dependendo da boa vontade ou do oportunismo de outras instituições para manter de pé um calendário de mostras. Nesse ponto, só seu acervo, uma das coisas mais fantásticas que temos nesse continente, salva. Na carência de coisa melhor, pelo menos nos resta um De Chirico, um Boccioni, um Modigliani.
Nos últimos dias, também estive pesquisando a situação escabrosa do Museu do Ipiranga. Interditado com risco de desabar há três anos, cada esforço para restaurar o lugar demora uma eternidade. São laudos, estudos, avaliações e diagnósticos que dependem do andamento vagaroso de licitações, autorizações, carimbos e afins para sair do papel. É bom que a Pinacoteca do Estado esteja mostrando algumas das peças do Ipiranga, já que tudo ali ficaria escondido pelo menos até 2022. Mas o certo seria se esforçar para resolver com mais rapidez uma situação calamitosa.
Outro caso dramático a engrossar essa lista é o Paço das Artes. Há anos se falava que o museu teria de deixar sua sede na Cidade Universitária, onde está há mais de duas décadas, para dar lugar a uma ampliação do Instituto Butantan. Aqui entra uma dessas coisas engraçadas do Brasil. Um museu de arte precisa ser desativado para dar lugar a uma fábrica de vacinas contra a dengue, uma doença que se prolifera com cada vez mais voracidade por essas bandas tropicais. O debate beira o absurdo. Queremos arte ou queremos acabar com a dengue? Os dois, por que não?
Só acho que aquele prédio dentro da USP, embora não pertença à universidade, virou um monumento às avessas de como se cria e se mostra arte neste país. É um gigante brutalista inacabado, com um subsolo que já serviu de cenário para festas e até feiras de arte, quando não inundado para criar instalações artísticas ou por acidente mesmo —a visão da precariedade que, no entanto, sobreviveu como celeiro de artistas que estão entre os mais criativos da cena nacional.
Fora o papel de plataforma de ascensão de novos nomes, o aspecto livre, desimpedido e meio improvisado do lugar ainda rivaliza com o resto de um circuito engessado, de galerias de olho nas bolhas especulativas do mercado e museus reféns de mostras cada vez mais esvaziadas, sensacionalistas ou bobas, mastodontes do merchandising de uma era viciada na Lei Rouanet. A notícia do fim do Paço das Artes me deixou com um gosto amargo na boca. Já critiquei muitas mostras realizadas ali, mas num ponto ele está acima da crítica, o de ousar sempre, mesmo que errando, algo cada vez mais raro no mundinho mais que perfeito das artes visuais.
Espero que esse espaço encontre uma nova morada. Hoje comentei com um amigo se não seria fantástico levar o Paço para o edifício Sampaio Moreira, que a prefeitura teve a brilhante ideia de transformar em repartição pública. Enquanto duraram as exposições realizadas pela Red Bull nesse que foi o primeiro arranha-céu de São Paulo, o lugar vibrava. Tinha fila na porta, festas épicas, gente falando de arte e querendo ver os trabalhos, quando não ficar ali à toa, vendo a vista. Daí me lembram que o Paço é estadual, e o Sampaio Moreira é municipal. No fundo, é uma tristeza sem fim que a burocracia, aliada a um quadro financeiro que atingiu o fundo do poço, ajude a sepultar tudo que pode haver de bom na cena cultural de uma cidade. Encerro esse post com um vídeo da artista Márcia Beatriz Granero, uma ficção científica sobre o destino desastroso de tudo.
