Página inicial

Como atiçar a brasa

 


julho 2021
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31
Pesquise em
Como atiçar a brasa:
Arquivos:
junho 2021
abril 2021
março 2021
dezembro 2020
outubro 2020
setembro 2020
julho 2020
junho 2020
maio 2020
abril 2020
março 2020
fevereiro 2020
janeiro 2020
novembro 2019
outubro 2019
setembro 2019
agosto 2019
julho 2019
junho 2019
maio 2019
abril 2019
março 2019
fevereiro 2019
janeiro 2019
dezembro 2018
novembro 2018
outubro 2018
setembro 2018
agosto 2018
julho 2018
junho 2018
maio 2018
abril 2018
março 2018
fevereiro 2018
janeiro 2018
dezembro 2017
novembro 2017
outubro 2017
setembro 2017
agosto 2017
julho 2017
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
dezembro 2014
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
dezembro 2013
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
abril 2012
março 2012
fevereiro 2012
janeiro 2012
dezembro 2011
novembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
março 2011
fevereiro 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
agosto 2010
julho 2010
junho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
fevereiro 2010
janeiro 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
fevereiro 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
outubro 2008
setembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
fevereiro 2005
janeiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
setembro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004
maio 2004
As últimas:
 

outubro 27, 2015

10ª Bienal do Mercosul será aberta com mais de 600 obras de artistas de 20 países por Francisco Dalcol, Zero Hora

10ª Bienal do Mercosul será aberta com mais de 600 obras de artistas de 20 países

Matéria de Francisco Dalcol originalmente publicada no jornal Zero Hora em 23 de outubro de 2015.

Com foco na arte da América Latina, edição que será inaugurada nesta sexta-feira (23/10) apresenta oito exposições em Porto Alegre. Em entrevista, o curador-chefe Gaudêncio Fidelis comenta o projeto curatorial e as dificuldades diante da crise

Há um clima de tropicalismo na 10ª Bienal do Mercosul, que começa hoje. Não só por a emblemática Tropicália, de Hélio Oiticica, ser um dos destaques, mas também pelo foco: apresentar a arte da América Latina afastando-se das leituras que esta produção tem recebido com o interesse despertado pelos grandes centros da Europa e dos EUA nas últimas décadas. Assim, a 10ª edição chega com certa postura política, buscando levar ao público a arte dos países das Américas do Sul e Central a partir de uma visão própria, vinda de dentro dos trópicos.

Guia: veja onde são os locais de exposições e o que você não pode perder

É também uma Bienal um tanto tropicalista pela reunião sem distinções de obras díspares no espaço e no tempo, nos processos e nas linguagens. As oito exposições percorrem capítulos da história da arte desde o barroco do século 18 até o presente, repassando aí neste intervalo gerações de artistas modernistas, concretistas, cinéticos, pop, conceituais... E também contemporâneos. Ao contrário do que é comum em Bienais, a do Mercosul não faz suas apostas no que está sendo feito agora de mais recente em arte.

Com mais de 600 obras, assinadas por mais de 200 artistas de 20 países, esta edição traz um forte caráter histórico, por isto museológico.

– É uma Bienal conceitualmente ambiciosa – afirma o curador-chefe, Gaudêncio Fidelis. – Buscamos articular um considerável volume de obras dentro de uma plataforma transnacional de maneira que façam sentido para o visitante não especializado. Preparamos exposições que proporcionem uma experiência única no espaço e no tempo. Mas não queremos transportar o público através de um "túnel do tempo", e sim trazer as obras históricas para o presente de maneira que o visitante possa descobrir nelas questões para sua experiência por meio da arte.

A tropicalidade da Bienal também encontra ressonância no mantra de Hélio Oiticica: "Da adversidade vivemos!". Por adversidade entenda-se a série de dificuldades que esta edição tem tentado superar.

Ao longo do último ano, com a recessão econômica e a alta do dólar, houve corte de orçamento (de R$ 13 milhões para R$ 7,5 milhões) e dificuldade de custear o transporte de obras de outros países. Por fim, a adversidade gerada por uma crise interna que culminou, na semana passada, no desligamento de três curadores e em protestos de artistas selecionados que não foram incluídos nas mostras por falta de recursos para o traslado de suas obras. Situações adversas que levaram a Bienal a buscar alternativas, como a decisão de encontrar, em acervos e coleções localizados no Brasil, obras estrangeiras que antes seriam trazidas de outros países.

– É um projeto complexo – diz Fidelis. – O volume de empréstimos é enorme, estamos exibindo obras de mais de 200 coleções. Esta é a segunda maior Bienal do Mercosul depois da primeira em termos de obras. Isso impõe um esforço extraordinário de logística e também para a obtenção desses empréstimos, para os quais foi realizada uma intensa negociação.

ENTREVISTA: Gaudêncio Fidelis, curador-chefe da 10ª Bienal do Mercosul

Qual é a cara com que chega ao público esta 10ª Bienal do Mercosul? Qual é a aposta? O que se busca propor? E o que se pode esperar que marcará esta edição?

A 10 Bienal do Mercosul – Mensagens de uma Nova América é uma exposição conceitualmente ambiciosa porque busca articular um considerável volume de obras dentro de uma plataforma transnacional de maneira que façam sentido e sejam legíveis para o visitante não especializado e, ao mesmo tempo, por possuir um grupo numeroso de obras muito importantes para a produção artística mundial. Ela também é uma exposição para especialistas e todos os públicos localizados dentro deste arco. Preparamos uma exposição que proporcione ao visitante uma experiência única no espaço e através do tempo. Esta é essencialmente uma exposição de arte contemporânea, embora possua obras históricas. Mas não queremos transportar o visitante através de um "túnel do tempo", mas trazer estas obras para o presente de maneira que o visitante possa descobrir nelas questões que sejam importantes para sua experiência através da arte. Trata-se de uma exposição que é uma oportunidade única de trazer a Porto Alegre obras que provavelmente jamais serão expostas aqui novamente, ou que de outra forma dificilmente se encontraram lado a lado em uma exposição, como o Tiradentes Supliciado (1893), do brasileiro Pedro Américo e O Desmembrado (1947), do mexicano José Clemente Orozco.

Como foi realizar a produção desta edição no atual contexto de crise e recessão econômica? De que modo esse cenário impactou? Quais foram as decisões difíceis a serem tomadas diante das dificuldades de recursos e de logística?

Esta é uma exposição extremamente complexa em termos da estrutura de localização das obras na exposição e, por consequência, de logística. O volume de empréstimos é enorme e estamos exibindo obras de mais de 200 emprestadores e, em alguns casos, de diversas obras do mesmo emprestador. Estamos também apresentando obras de 20 países e um volume de trabalhos consideravelmente grande. Esta é a segunda maior Bienal do Mercosul, depois da primeira, em termos de obras. Isso impõe, logicamente, um esforço de extraordinário de logística e também para a obtenção destes empréstimos, para os quais foi realizada uma intensa negociação. A crise econômica que estamos vivendo, e que pode ser considerada sem precedentes nestes últimos 20 anos, impactou imensamente a realização da exposição impondo enormes desafios. Mas nem por isso deixamos de realizar uma exposição que é extraordinária. Qualquer exposição possuiu decisões difíceis a serem tomadas e nesta não foi diferente. Por exemplo: não realizar a retrospectiva da Bienal de Coltejer que foi produzida e pensada por nós e estava com os empréstimos confirmados e preparada para viajar. É uma perda, mas não impacta o projeto curatorial diretamente pois ela seria uma exposição autônoma.

Quais trabalhos/artistas foram considerados indispensáveis como pilares para garantir a manutenção do projeto curatorial – e que o grupo curatorial se empenhou para conseguir manter e apresentar?

Há um número muito grande de obras que formam a estrutura da exposição. Em cada uma das exposições temos pelo menos 10 trabalhos que são estruturantes. Mas nada nesta Bienal deixa de ser importante e cada obra desenvolve um papel fundamental. Como assinalei diversas vezes, esta é uma Bienal constituída a partir de obras. A curadoria pensou e refletiu sobre cada uma delas e como elas seriam contextualizadas na exposição, de que forma e com quais outros trabalhos se relacionariam. Trata-se de um intrincado processo de reflexão e constituição estrutural que tomou um enorme tempo da curadoria para ser realizado.

Há ineditismos e exclusividades em relação a alguns artistas e trabalhos que poderemos ver em Porto Alegre?

Existem muitos, como obras de Analívia Cordeiro, a obra Calúnia, de Oswaldo Maciá, Um Logo para a América, de Alfredo Jaar, Eu Vi o Mundo... Ele Começa no Recife, de Cícero Dias, a Tropicália, de Hélio Oiticica, montada em sua versão integral um grupo de parangolés nunca antes expostos, as pinturas de Manoel Lezama do México, a pintura A Fundação da Cidade do México, de Jose Maria Jara, a Virgem-Cerro vinda do Museu Nacional de Artes Visuais de La Paz na Bolívia, Soy loco por ti..., de Antonio Manoel, O Impossível, de Maria Martins, e inúmeras outras.

"Bienal do Mercosul terá obras de 20 países", garante curador-chefe, Gaudêncio Fidelis

Há projetos comissionados aos artistas?

Não temos obras comissionadas estrito senso, mas obras que já foram produzidas pelos artistas em algum momento, ainda que recentemente em 2015 como a Ponte, de Santiago Rose, ou Geometria Social, de Ximena Garrido-Lecca. Temos apenas três obras que poderíamos considerar ser comissionadas e foram realizadas para ampliar determinadas questões que o artista estava desenvolvendo e que não tínhamos como contemplar através de empréstimos. Mesmo porque o interesse não seja propor "temas" e assuntos para os artistas trabalharem, mas mostrar que eles já haviam se adiantado a determinadas questões que a Bienal aborda ao produzirem suas obras a priori. Abandonamos este modelo de obras comissionadas do qual as Bienais se valem todo tempo, mas que não me parecem ter muito a acrescentar a uma exposição a esta altura.

Já há alguns anos, muito se problematiza sobre o formato de bienais e de grandes exposições, com discussões sobre o papel desses eventos nas cidades onde se realizam, tanto para o meio artístico quanto para o público. Na sua visão, qual é o papel, na atualidade, desta Bienal do Mercosul que chega a sua décima e celebratória edição, em um contexto bem diverso daquele em que a mostra foi criada e diante de sua própria trajetória desde 1997?

A discussão sobre o papel das Bienais continua na medida que as Bienais não vêm mais oferecendo modelos curatoriais renovadores de realização. Não se trata de uma crise do "modelo Bienal", mas dos modelos utilizados em Bienais. Por isso estamos mudando o modelo para esta Bienal. Por ter convicção que uma Bienal deve ser, antes de tudo, uma exposição com grande densidade artística e que ao mesmo tempo seja crítica do contexto de exposições onde se situa. O contexto desta Bienal é o mais próximo historicamente da primeira Bienal do Mercosul, curada por Frederico Morais, que a meu ver estabelece a vocação da Bienal do Mercosul de ser uma plataforma transnacional para a arte da América Latina. A Bienal abandonou esta vocação progressivamente a partir da sua 6ª edição. Nós a resgatamos de maneira categórica e acreditamos que era tempo de um retorno às origens para mostrar o impacto e contribuição da arte destes países a arte mundial. Depois do longo processo de visibilidade que a produção da América Latina passou nos últimos anos, já era hora de refletir sobre esta produção e o tempo chegou com esta 10ª Bienal.

Comenta-se que esta 10ª edição seria a última Bienal do Mercosul? O que a comunidade pode ter como expectativa em relação a esse comentário, que parte de diversas fontes, mas que a Fundação Bienal do Mercosul não confirmou em outra ocasião ainda neste ano?

Esta é uma questão que deve ser respondida pelos dirigentes da Bienal. Para mim, é fofoca apenas.

Posted by Patricia Canetti at 5:30 PM

Tréplica: Mostra 'espetacular' reflete a linguagem da cultura brasileira por Marcello Dantas, Folha de S. Paulo

Mostra 'espetacular' reflete a linguagem da cultura brasileira

Tréplica de Marcello Dantas originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 2015.

Leia também:
Patricia Piccinini exibe obras realistas com discurso imbecil por Fabio Cypriano
Réplica: Crítico perdeu a chance de ver onde reside a obra de Piccinini por Marcello Dantas
Tréplica: Avaliação não é pessoal, mas discute se catraca é critério de qualidade por Fabio Cypriano

Desrespeitar o público é deixar de ouvir a sua vontade. Existem poucas instituições tão plurais como o CCBB, com uma programação democrática e representativa do amplo espectro de interesses da sociedade. O CCBB pode e faz, ao mesmo tempo, exposições como as de Kandinsky, Patricia Piccinini, "Castelo Rá-Tim-Bum" e Iberê Camargo.

É essa pluralidade que define sua importância no cenário cultural brasileiro. E criar público é permitir que alguém que se aproximou da arte por algo com o qual se identificou desperte os sentidos para novas experiências estéticas. Além de um modo excelente de se criar pontes, essa é uma estratégia posta em prática por qualquer espaço cultural de relevância do mundo.

A catraca é, sim, importante critério de avaliação do uso do recurso público, inclusive um dos critérios do Ministério da Cultura. Se no dia da abertura milhares compareceram, é porque há na mostra algo que importa a esses contribuintes e o investimento do recurso público foi, portanto, melhor justificado.

Mais: se são obras de uma artista reconhecida com o maior prêmio das artes visuais de seu país (caso da australiana Piccinini), ajudando a estabelecer uma ponte com um território com o qual o Brasil tem pouco intercâmbio cultural, tanto maior a justificativa. Se além disso o evento tem um excelente projeto pedagógico, que consegue extrair conceitos multidisciplinares de uma exposição de artes visuais para falar de genética, mecânica, história da arte e da ciência, mais justificável ainda o uso desse recurso.

O melhor critério que utilizamos para avaliar o real impacto do nosso trabalho sobre o público é mensurar sua capacidade de reter memória sobre exposições do passado.

Quando fiz a mostra de Tino Sehgal, depois convidamos o público para descrever aquela experiência supersubjetiva em diários narrativos e individuais. Tudo foi documentado. Em "Invento", que acabei de realizar na Oca, as sessões de psicanálise propostas por Pedro Reyes deixaram um registro primoroso da densidade humana do que estamos alcançando, para além da catraca livre e gratuita de todos os projetos que realizo.

Acho que Fabio Cypriano se incomoda com a escala das mostras que faço. Sim, gosto de fazer coisas grandes, "espetaculares" como ele diz, porque o abismo neste país continental é enorme e a linguagem da cultura brasileira é em parte a do espetáculo. De Zé Celso a Suassuna, o Brasil adora o grandioso. E uma das nossas qualidades são as pessoas que prezam pela tolerância e respeitam a diferença de pontos de vista.

Posted by Patricia Canetti at 5:13 PM

Tréplica: Avaliação não é pessoal, mas discute se catraca é critério de qualidade por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Avaliação não é pessoal, mas discute se catraca é critério de qualidade

Tréplica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 26 de outubro de 2015.

Em sua réplica [Ilustrada, 22.out, pág. C6] à crítica Patricia Piccinini exibe obras realistas com discurso imbecil [18.out, pág. C8], Marcello Dantas, seu organizador, conclui seu raciocínio dando a impressão de que existe um fundo de ordem pessoal em meu texto: "sei que você não gosta de mim", escreveu.

Não é verdade. Não há nenhuma história pregressa que justifique sua afirmação. Entrevistei Dantas alguma vezes, todas de forma cordial. Contudo, essa é uma justificativa confortável para dar a impressão de que a bola preta dada à exposição em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil foi dada por alguma rixa anterior, desmerecendo assim sua crítica. A pessoa física Marcello Dantas não me interessa, apenas suas ações com caráter público.

Tampouco, em um texto crítico, é preciso, como ele sugere, "ouvir o que os autores, artistas e curadores têm a dizer". Isso se faz em reportagem, como no texto citado por ele, que escrevi há 12 anos, quando Piccinini participou de uma exposição no Paço das Artes. Dantas o aponta como elogioso. Outra inverdade. É apenas uma entrevista, sem adjetivos e com muitas declarações da artista, sem haver qualquer julgamento de sua obra.

Contudo, o que Dantas de fato tenta minimizar, e isso é o cerne de minha crítica, é a maneira como organiza suas mostras, no que ele chama de "construção de público".

É difícil mensurar até que ponto suas mostras sensacionalistas e espetaculares de fato contribuem para formar público, quando o critério de qualidade é a catraca. Trata-se de uma prática do circo, incorporada ao cinema e que hoje também faz parte das artes visuais: quanto mais bizarro, chamativo e populista, mais público. A tarefa do crítico é apontar exatamente contradições como essa.

A outra faceta dessa estratégia é o que ele chama de "simplificar códigos cifrados", e que apontei de forma explicita em meu primeiro texto como algo que ao contrário de facilitar a relação do público com a arte, torna essa relação tão banalizada que ela vira puro entretenimento.

O problema aí é quando isso é feito com verbas públicas, como ocorre com o CCBB. Segundo o site do Ministério da Cultura, a produtora de Dantas teve aprovados, via Lei Rouanet, nada menos que R$ 2,5 milhões para a mostra de Piccinini, o equivalente ao orçamento de um ano inteiro de um museu como o Lasar Segall, incluindo manutenção e programa expositivo.

Claramente, portanto, minha crítica não parte de uma questão pessoal, mas aborda políticas públicas e a necessidade de instituições como o CCBB refletirem se o critério é catraca ou qualidade.

Posted by Patricia Canetti at 5:05 PM

Seres criados por Patricia Piccinini questionam manipulação genética por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Seres criados por Patricia Piccinini questionam manipulação genética

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de novembro de 2003.

Quando Dr. Frankenstein criou seu monstro, de acordo com o romance escrito por Mary Shelley, em 1816, sua reação foi rejeitar o "novo filho". Era impossível para o médico relacionar-se com um ser artificial, gerado apenas pelo uso da tecnologia.

Quase 200 anos depois, quando a engenharia genética já deu mostras que o sonho de Frankenstein não está tão longe, a artista plástica Patricia Piccinini recoloca o drama do monstro: pode-se amar tais criaturas?

Para tanto, Piccinini cria seres híbridos em esculturas hiper-realistas expostas em situações familiares e banais, impossíveis de deixar o público passível. Foi assim na Bienal de Veneza, encerrada no último fim de semana, onde a artista ocupou o pavilhão australiano com uma série de obras que lidavam com essas idéias e tinha filas permanentes na abertura da mostra.

Coração

"Plasmid Region", o vídeo que constava da mostra na Itália, pode agora ser visto em São Paulo, pois faz parte da exposição Metacorpos, inaugurada na última segunda, no Paço das Artes, na Universidade de São Paulo, ao lado de trabalhos de Nan Goldin, Cindy Sherman e Alair Gomes.

"Esse vídeo representava o coração de minha exposição na Bienal de Veneza, pois era o único elemento que se movia e tinha som. Ele é uma metáfora sobre a biotecnologia, que é capaz de criar seres em linha industrial", disse Piccinini à Folha, durante a montagem de sua obra no Paço, na semana passada.

Em "Plasmid Region", estranhos corpos multiplicam-se de forma lenta e ao som de uma composição lírica.

"Poderia ter alterado completamente a percepção da obra se tivesse colocado uma música com mais tensão, aí viraria um filme de horror", afirma a artista, que pretendia também trazer as bizarras esculturas para São Paulo, mas "a falta de patrocínio" inviabilizou sua iniciativa.

"Família"

Piccinini nasceu em Freetown (Serra Leoa), filha de italianos, e há 30 anos vive na Austrália, o que a torna, aos 38 anos, um dos destaques de sua geração na terra dos cangurus.

Além de ter representado o país em Veneza, Piccinini participa agora da Bienal de Havana, aberta na última semana em Cuba, e toma parte de uma mostra de artistas australianos em Berlim, na mais importante casa de arte contemporânea da cidade, a Hamburger Banhof.

"Em minhas obras não me interessa a humanidade das criaturas que realizo, tampouco busco realizar um julgamento moral sobre os transgênicos. O que me interessa é debater qual a nossa responsabilidade sobre eles. Estamos prontos para admiti-los como parte de nossa família?", questiona Piccinini.

O nome da exposição na Itália era justamente "We Are Family" (Somos Família).

Para comprovar que seus seres não estão tão distantes da realidade, Piccinini fez uma montagem fotográfica na qual dispõe o famoso rato com uma orelha humana no ombro de uma linda modelo, com contornos perfeitos criados digitalmente, recurso usado por muitas revistas atualmente.

"Meu trabalho é sobre o mundo em que vivemos. Quando vi o rato, em 1997, achei que tinha que dar uma resposta. Já lidamos com o artificial em nossos próprios corpos e foi isso que busquei apontar ao contrapor as duas imagens."

A inspiração para suas obras vem declaradamente da leitura da obra-prima de Shelley. "Li o livro há dez anos e nunca entendi porque Dr. Frankenstein nunca amou o mostro, sequer deu um nome a ele", diz Piccinini.

A artista também compara o presente com o período em que Mary Shelley escreveu o livro: "Creio que vivemos em momentos muito parecidos. No início do século 19, havia todo um deslumbramento com a tecnologia, a partir do início dos processos industriais e da invenção da eletricidade, muito parecido com o que existe hoje em dia, em relação ao universo digital".

Zoológico

A família da foto no alto desta página foi pensada, segundo a artista, como seres transgênicos que forneceriam órgãos para humanos. "Mas, ao contrário do monstro de Frankenstein, é uma criatura que deu certo, pois procriou", afirma Piccinini.

A idéia de seres que convivam bem com o ambiente é também importante para a artista. Em 2000, ela chegou a colocar uma de suas esculturas ao lado de "wombats", um tipo de canguru gordo, no zoológico de Melbourne. As obras simulavam respirar, mas especialistas contaram à artista que tais seres jamais poderiam sobreviver, pois tinham dimensões que não se adaptariam ao ambiente. "Fiquei muito frustrada ao falhar em minha primeira criatura, adoro tentar criar seres que poderiam sobreviver", explica Piccinini.

Em "Metacorpos", a obra da artista assume justamente a função de apontar para onde pode caminhar a manipulação genética. A questão é se estamos preparados para viver com seres como os das fotos.

METACORPOS
Curadoria: Daniela Bousso
Onde: Paço das Artes (av. da Universidade, 1, USP, tel. 0/xx/11/3814-4832)
Quando: de ter. a sex., das 11h30 às 18h30; sáb. e dom., das 12h30 às 17h30. Até 3/12.
Quanto: R$ 1 (sugestão)

Posted by Patricia Canetti at 4:49 PM

Réplica: Crítico perdeu a chance de ver onde reside a obra de Piccinini por Marcello Dantas, Folha de S. Paulo

Crítico perdeu a chance de ver onde reside a obra de Piccinini

Réplica de Marcello Dantas originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 22 de outubro de 2015.

Surpresa não é a palavra com que recebi a crítica de Fabio Cypriano sobre a exposição ComCiência. [Patricia Piccinini exibe obras realistas com discurso imbecil, Ilustrada, 18.out, pág. C8].

Em 2014, o jornalista escreveu uma crítica similar em relação à mostra "Ciclo", também curada por mim e outro sucesso de público no Centro Cultural Banco do Brasil.

Em ambos os casos, me surpreende o desinteresse em ouvir o que os autores, artistas e curadores têm a dizer, não deixando brecha para o adensamento de uma discussão tão atual quanto essa de construção de público no contexto brasileiro.

Minha prática como curador já soma 25 anos e mais de 200 exposições pelo mundo afora.

O Brasil pôde conhecer a obra de artistas como Anish Kapoor, Laurie Anderson e Brian Eno, dos tantos que confiaram a mim a tradução de seu trabalho para o público. Além disso, sou responsável pela direção artística de 11 museus de sucesso, como o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Caribe (Colômbia).

Tenho consciência de que minha prática multidisciplinar não se encaixa nos discursos tradicionais da crítica, contudo o jornalista demonstra desconhecer o cerne da minha ação cultural, que é exatamente o que parece lhe gerar a maior desconfiança: a construção de público, a criação de novas narrativas e a extensão de uma ponte generosa entre a arte contemporânea e os brasileiros que não tiveram oportunidade de se aproximar desse circuito.

Faço questão de simplificar códigos cifrados para criar uma porta convidativa ao grande público. Isso com o aval dos artistas e usando suas próprias palavras, adequadas à linguagem do público jovem, que é o meu foco.

Essa é uma das razões da receptividade das exposições e museus feitos por mim: as pessoas se sentem parte daquilo. Encher museus é um mérito em qualquer lugar do mundo. Os museus e centros culturais brasileiros despontaram na percepção mundial e em números de visitação porque ousaram criar linguagens mais inclusivas.

Curioso ver como o jornalista muda de opinião: em 2003, escreveu artigo na Folha em que exalta a obra e a capacidade de Piccinini de gerar interesse no grande público. O que claramente era valor para o autor antes por alguma razão se apresenta agora como defeito. Por que será?

O crítico perdeu a oportunidade de observar onde reside de fato a obra de Patricia: na transformação do público.

É vendo que lhe desagradei que confirmo a certeza do que estou fazendo. Não se cria o novo sem ultrajar alguns feudos antigos. Enquanto ele usa termos rasos e desatentos, eu abraço o público legitimamente ansioso por vivenciar arte sem os preconceitos na cabeça. Sei que você não gosta de mim, mas seus alunos gostam.

Posted by Patricia Canetti at 4:40 PM

Crítica: Patricia Piccinini exibe obras realistas com discurso imbecil por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Patricia Piccinini exibe obras realistas com discurso imbecil

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 18 de outubro de 2015.

Personagens bizarros e meigos pululam na cultura popular há tempos: o alienígena de grandes olhos criado por Steven Spielberg para "E.T - O Extraterrestre", em 1982, ou o jedi Yoda, da série "Guerra nas Estrelas", de George Lucas, são alguns dos mais famosos seres dessa galeria de figuras estranhas.

Leia também:
Réplica: Crítico perdeu a chance de ver onde reside a obra de Piccinini por Marcello Dantas
Tréplica: Avaliação não é pessoal, mas discute se catraca é critério de qualidade por Fabio Cypriano
Tréplica: Mostra 'espetacular' reflete a linguagem da cultura brasileira por Marcello Dantas

O mundo das artes plásticas também se ocupa dessa vertente e a australiana Patricia Piccinini é sua mais reconhecida representante.

Desde 2003, quando ocupou o pavilhão da Austrália na Bienal de Veneza, ela alcançou esse posto com certa facilidade. Isso porque, ao contrário do cinema hollywoodiano, que busca agradar a qualquer preço, na arte contemporânea busca-se um efeito um tanto contrário.

As esculturas tão realistas de Ron Mueck, por exemplo, provocam estranhamento por alterar radicalmente as dimensões humanas.

Contudo, o caso mais radical do universo bizarro pertence aos irmãos Jake and Dinos Chapman, com seus personagens em situações de extrema violência.

FOFURA

ComCiência, a individual de Piccinini em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, apela para o lado mais fofo das obras da artista e acaba infantilizando todo o público com um discurso raso e superficial.

"Quem é esta figura que se equilibra em uma cabra? De longe, ela se assemelha a um garoto forte, talvez até um atleta olímpico. Mas há algo incomum em seu corpo: ele não é 100% humano. Difícil definir de onde ele veio, talvez do mar, já que seu pé lembra a cauda de um golfinho."

Esse texto de parede se refere à obra "A força de um braço"(2009). A mostra, organizada por Marcelo Dantas, segue por este trajeto, tratando o visitante com um discurso imbecil, afinal.

Se, em si, as esculturas de Piccinini já simplificam uma questão complexa como as mutações genéticas, os textos são extensões radicais desse ponto de vista.

Trata-se, obviamente, de uma estratégia populista, que visa encher o CCBB de público. Não há algo errado com o desejo de lotar de pessoas, ao contrário. Mas é imprescindível que esse público seja tratado com mais respeito.

Apelar para uma estratégia de marketing fácil nas exposições reduz o significado da obra. Infelizmente isso tem sido uma prática cada vez mais comum e, por este motivo, merece ser revista. E com urgência.

COMCIÊNCIA - PATRICIA PICCININI
ONDE: CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, R. ÁLVARES PENTEADO, 112, TEL. (11) 3113-3651
QUANDO: QUA. A SEG., DAS 9H ÀS 21H, ATÉ 4/1/2016
QUANTO: GRÁTIS (VISITANTES PODEM ANTECIPAR A AQUISIÇÃO DO INGRESSO POR MEIO DO SITE E DO APLICATIVO DO INGRESSORAPIDO.COM.BR)

Posted by Patricia Canetti at 4:28 PM