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agosto 6, 2014
Eugenio Valdès Figueroa, o cubano que movimenta a Casa Daros por Ruben Berta, O Globo
Eugenio Valdès Figueroa, o cubano que movimenta a Casa Daros
Matéria de Ruben Berta originalmente publicada no jornal O Globo em 27 de julho de 2014.
‘Acho muito bacana quando jovens vêm aqui para namorar mesmo. Adoro quando vejo um casal se beijando no pátio'
RIO - Diretor de Arte e Educação de espaço cultural em Botafogo traz na bagagem os ensinamentos de Paulo Freire e rechaça o conceito de museus como lugares distantes, voltados apenas para pessoas que já têm conhecimento
Eugênio Valdès Figueroa era um jovem de seus 20 e poucos anos, concluindo os estudos na Faculdade de Artes e Letras da Universidade de Havana, em Cuba, sua terra natal, quando teve o primeiro contato com um brasileiro que mudaria seu jeito de ver a vida. No pé de um texto do filósofo francês Paul Ricoeur, leu uma breve referência ao educador Paulo Freire e a um de seus livros mais conceituados: "A pedagogia do oprimido". A partir dali, começava uma paixão que o seguiria até o Rio de Janeiro, muito tempo depois. Convidado em 2001 pelo alemão Hans-Michael Herzog, curador e diretor artístico da Coleção Daros Latinamerica - sediada na Suíça e com 1.200 obras de 119 artistas da América Latina -, para ajudar na elaboração da Casa Daros em terras cariocas, Figueroa tornou-se diretor de Arte e Educação da instituição, que abriu as portas de sua sede em Botafogo em março do ano passado. Com os ensinamentos de Freire a tiracolo, o cubano é hoje um dos grandes responsáveis pelo sucesso de público do espaço, que já recebeu mais de 155 mil visitantes no restaurado prédio neoclássico, construído em 1866.
- Desde que conheci sua obra, Paulo Freire impactou meu pensamento para sempre. Mudou minha maneira de entender a arte, de dar aulas e de me conduzir como indivíduo, de tão profunda que foi a influência que ele me trouxe. Entendi que deveria estar pronto para entender as múltiplas práticas culturais e que não havia estética num só caminho - comenta Figueroa, que é curador, crítico e historiador de arte.
Não à toa, o cubano de 50 anos inspirou-se em Freire para buscar seu grande objetivo na Casa Daros: torná-la um espaço atrativo para todos, inclusive para os que têm muito pouco ou mesmo nenhum contato com a arte. Então, esqueça aquele museu tradicional - o nome museu causa arrepios em Figueroa -, onde há visitas guiadas e tudo é muito certinho.
- Normalmente, o museu é visto como algo distante, para entendidos. Temos que trabalhar para que o espaço da arte vença essa barreira e seja um lugar para as pessoas se divertirem, para namorar, por exemplo. Acho muito bacana quando jovens vêm aqui para namorar mesmo. Adoro quando vejo um casal se beijando no pátio. É o máximo que você utilize para seu namoro um espaço de arte! E os museus não costumam ser vistos como lugares para isso. Mas como espaços onde não se pode fazer nada, não se pode tocar em nada, onde tudo está controlado - diz.
Para cada exposição planejada pelo curador Hans-Michael Herzog, o diretor tem a tarefa de elaborar uma série de atividades educativas, que sempre são pensadas de forma criativa, para atrair públicos de todas as idades. Há ateliês de criação, oficinas, seminários, cursos e mostras paralelas. E um bom exemplo disso está prestes a acontecer: para encerrar um semestre com o tema pinturas, Figueroa convidou o artista também cubano René Francisco Rodriguez para não só participar de um simpósio no início do mês que vem, como para acompanhar nove jovens artistas em uma experiência inusitada.
- Faremos uma "oficina de pintura por encomenda grátis". Os participantes sairão na rua com os seus cavaletes e terão que abordar as pessoas para fazerem uma pintura exatamente como elas pedirem. O René acompanhará tudo com uma planilha e os jovens terão que subordinar seus estilos ao que aquele cliente quiser. Quem for abordado na rua e topar, ganhará um tíquete, com dia e hora para um reencontro na Casa Daros. E então faremos uma exposição que durará menos de uma hora, porque todos vão levar os seus quadros embora para casa.
Espalhar a arte da Casa Daros pela cidade sempre foi uma meta de Figueroa, mesmo quando o espaço ainda não existia fisicamente. O cubano chegou ao Rio em 2006 e criou um programa de formação de jovens artistas que, com o auxílio de consagrados nomes latino-americanos, fez projetos em comunidades como a Favela Tavares Bastos e o Morro do Banco. Suas experiências na união entre educação e arte já o tornaram referência para além das divisas do Rio de Janeiro.
- O trabalho do Eugênio é extremamente cuidadoso. Não é uma educação como algo transmitido, mas compartilhado, que leva a gente ao imprevisível e ao imponderável. Todo visitante na Casa Daros é um protagonista - diz Carlos Barmak, ex-coordenador de ensino da Bienal de São Paulo e que dirige atualmente o setor educacional do Museu da Casa Brasileira, também na capital paulista.
Luiz Camillo Osório, curador do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, destaca a importância do trabalho de Figueroa mesmo antes da inauguração da Casa Daros:
- Antes de o espaço estar pronto, eles (Herzog e Figueroa) já vinham fazendo uma série de atividades, tendo uma relação com a comunidade carioca. E o Eugênio foi uma figura central nessa articulação, que consolidou o trabalho educativo e cultural como uma marca muito forte da Casa.
Apesar de estar há mais de oito anos no Rio, Figueroa não esconde os fortes laços que ainda tem com Cuba. Em mais de três horas de entrevista, quase sempre estava tragando um cigarro de seu país, que confessa trazer aos montes sempre que volta lá. Faz questão de dizer que mesmo nos períodos de maior crise econômica, na década de 1990, manteve-se como um dos curadores da Bienal de Havana, o que considera ter sido fundamental para a sua formação. Com Hans-Michael Herzog, ele tinha a ideia inicial de fazer uma Casa Daros também na capital cubana, mas a instabilidade política minou o projeto. Então, escolheram o Rio, onde Figueroa veio cumprir sua missão. E morar no estado das novelas.
- Em Cuba, a principal referência do Rio são as novelas. Quando cheguei no Brasil, estava passando no meu país uma que tinha cenários na Baixada Fluminense, "Senhora do Destino". Aí, meus parentes cubanos sempre me perguntavam: "você já conhece o Cristo Redentor, o Corcovado? Mas e a Baixada? Você não foi à Baixada? Como assim, não conhece?". Depois, quando passou uma novela do Manoel Carlos, e souberam que eu estava morando no Leblon, aí foi uma loucura! - lembra.
Atualmente, Figueroa mora em Copacabana, no Lido, onde gosta de acompanhar os personagens que circulam pela região. Até brinca que um dia quer fazer uma exposição com os sapatos dos travestis, "verdadeiras obras de arte". Um dos lugares que mais gosta de ir é o Arpoador, mas admite que não sai mesmo é da própria Casa Daros. Seu próximo projeto é uma exposição sobre Rubens Gerchman, com foco no trabalho realizado pelo artista na Escola de Artes Visuais do Parque Lage durante a ditadura. No fim da entrevista, o cubano não esquece de deixar um convite para o repórter:
- Venha para a Casa Daros dar uns beijos em sua namorada!
Convite aceito.
agosto 5, 2014
Braços abertos sobre a Guanabara por Paula Alzugaray, Istoé Dinheiro
Braços abertos sobre a Guanabara
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé Dinheiro em 29 de julho de 2014.
Abertura da galeria Nara Roesler em Ipanema sinaliza movimento de expansão do sistema de galerias paulistanas para o Rio
Marcos Chaves - Academia, Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro, RJ - 08/08/2014 a 07/09/2014
“Chegamos para somar e não para disputar”, garante Daniel Roesler, que na sexta 8 de agosto inaugura para o público uma filial da Galeria Nara Roesler no Rio de Janeiro, com uma individual do artista carioca Marcos Chaves. A galeria se instala em um imóvel de 200 mts2 na Rua Redentor, em Ipanema, e traz na bagagem a representação de 40 artistas nacionais e estrangeiros e 25 anos de atividades em São Paulo, onde se consagrou entre as cinco maiores galerias do país.
O clã Roesler – formado pela matriarca Nara e os irmãos Daniel e Alexandre – chega à cidade maravilhosa na esteira de um movimento de restauração da vida artística e institucional local, iniciado em 2009 com as transformações urbanas, especialmente na zona portuária e no entorno da histórica Praça Mauá. Com a instauração da ArtRio, a Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, em 2011; a construção de museus como o Museu de Arte do Rio (MAR); a Casa Daros, em Botafogo; e as futuras inaugurações do Museu do Amanhã e do Museu da Imagem e do Som (MIS), em Copacabana; o Rio ostenta um novíssimo percurso cultural.
O vigor desse momento institucional é reforçado pela nova Oca-Lage, Organização Social sob direção do galerista Marcio Botner e da critica e curadora Lisette Lagnado, que injeta vida nova a espaços tradicionais da cidade.
A expansão da galeria paulistana para o Rio acontece em meio a essa efervescência toda. Especula-se que a Fortes Vilaça tenha os mesmos planos, embora ainda não confirme oficialmente. A questão é se há mercado que justifique um êxodo. “Há três anos participamos da ArtRio e vemos um mercado viável”, garante Daniel Roesler. “Além disso, boa parte de nossos artistas são baseados no Rio e queríamos estar mais próximos deles e de nossos clientes locais. A maioria de nossos artistas não tinham representação no Rio e queriam ter uma presença lá”.
Quanto aos artistas que eram representados por galerias cariocas, alguns tomaram a iniciativa de ficar só com a Nara Roesler. Outros, como Raul Mourão, do elenco da galeria Lurix, divide-se entre as duas. Isso requer uma política de boa vizinhança. Quanto a possíveis desconfortos gerados com essa situação, o galerista atenua: “Cada um tem o seu mercado. Mas não faremos por enquanto individuais desses artistas que tem representação no Rio. Apesar do Rio ser uma cidade que presa seus valores locais, tem abertura para receber coisas novas. A gente tem recebido um input muito positivo, a cidade está nos recebendo de braços abertos.”
Ainda que o Rio de Janeiro gere um volume de negócios inferior a São Paulo, tem um mercado em ascensão que não é de se jogar fora. Segundo a Pesquisa Setorial Latitude, a SP-Arte é considerada por 59% das galerias brasileiras pesquisadas a feira mais importante do ponto de vista do volume de negócios gerados. Mas a ArtRio é o segundo mercado mais forte das galerias brasileiras, movimentando 13,5 % de seus negócios em feiras. O terceiro lugar fica com a Art Basel Miami Beach, para onde há migração em massa, em Dezembro.
“O Rio de Janeiro nos parece um lugar longe o suficiente para gerar uma estrutura nova e perto o suficiente para podermos dar uma atenção muito grande”, continua Daniel. “É um experiência de crescimento: se a gente conseguir atender bem, funcionar bem nesse ‘longe perto’ que é o Rio, a gente pode no futuro crescer até onde desejar”, diz ele.
O Rio representa o segundo estágio de uma fase de crescimento que começou há dois anos, quando a Nara Roesler ampliou suas instalações em São Paulo com um anexo de 700 mts2. A Europa seria o próximo destino, ainda no horizonte.
Mas esse terceiro tempo dá sinais de ter começado, com a editora Alexandra Garcia agora representando a galeria em Nova York, onde fará um trabalho institucional de formatar redes colaborativas com instituições da Big Apple.
