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abril 28, 2014
Miguel Rio Branco exibe obra 'marginal' em São Paulo e no Rio por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Miguel Rio Branco exibe obra 'marginal' em São Paulo e no Rio
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de abril de 2014.
Miguel Rio Branco faz uma fotografia suja -às vezes de tinta, às vezes de sangue. E quase sempre encharcada de sexo e suas pegadas viscosas.
Isso porque nas mãos e na cabeça do artista fotografar nunca foi um ato estanque. Está preso à transparência do cinema, como ele costuma dizer, e sempre foi extensão da pintura, por bem ou por mal.
Numa grande mostra agora na Estação Pinacoteca, em São Paulo, Rio Branco revê toda a sua obra plástica em chave metamórfica, de seus primeiros -acanhados- experimentos com a pintura dos anos 1960 às suas instalações mais recentes, com projeções de fotografia sobre tecido e estranhos objetos metálicos.
Na raiz de tudo, parecem estar duas de suas séries mais célebres, uma mostrando a zona do baixo meretrício nos arredores do Pelourinho, em Salvador, e a outra em que retrata lutadores de boxe como se fossem estátuas barrocas, tingidas de sangue, numa academia da Lapa, no Rio.
"Nos dois casos, são bairros boêmios, com uma arquitetura parecida. Eles têm aquela coisa meio marginal", diz Rio Branco, 68. "Isso é muito da minha identidade. Sem ter uma raiz fechada, ainda me sinto um marginal."
Estranho ouvir isso da boca de um dos artistas mais consagrados e celebrados do país. Mas Rio Branco ataca o que chama de "exageros conceituais" na fotografia, que para ser aceita no meio das artes visuais carece, na opinião dele, de um discurso carregado, que afoga a imagem.
Daí sua ode à sujeira. Rio Branco despreza leituras conceituais da própria obra. E suas fotografias se mostram cruas, escancaram aquilo que retratam sem cerimônia ao mesmo tempo em que arquitetam uma visão mais ampla e saturada da realidade.
"Negativo Sujo", uma das primeiras séries do artista, que não era exibida desde os anos 1970, é um exemplo disso. São grupos de imagens coladas em folhas de papel suspensas do teto, de carcaças sangrentas de vacas a prostitutas com os seios à mostra.
"É uma coisa brasileira, violenta e sexual ao mesmo tempo", diz Rio Branco. "Essa série é a imagem da pobreza, da dureza, o bangue-bangue brasileiro, onde o país aparece mais cru e doído."
Mas há sedução na dor e na crueza. Outra sala da mostra, também com imagens do Pelourinho e da Lapa, fica mergulhada na escuridão, iluminada por fracas lâmpadas que pendem do teto, e cheia de espelhos trincados.
Uma canção de cabaré, na voz de Fred Astaire, inunda a sala, e as fotografias vão para um segundo plano, com os reflexos dos espectadores tomando a dianteira nos espelhos estilhaçados pelo chão.
"Isso tem a ver com o cinema e com o teatro. Meu trabalho é híbrido", diz o artista. "Já me disseram que faço música com a minha fotografia. Eu tento é criar ritmos."
E eles vão do pancadão sangrento das primeiras salas da mostra, de pugilistas e carcaças, à melancolia mais lírica dos últimos ambientes.
Lá estão imagens de tubarões impressas sobre retalhos de seda, que balançam com o passar dos visitantes, e imagens que ele fez em Tóquio, de meninas, plantas e bares de karaokê quase sempre dominadas por tons de azul.
"É outro o clima", diz Rio Branco. "Não tem nada de violência, mas todas as obras se conectam por uma intensidade interna, dramática."
FANTASMA DO CORPO
Outra mostra do artista, agora em cartaz na Casa França-Brasil, no Rio, também tem obras com essa intensidade oculta contrapostas a outras bem mais explícitas.
De um lado, estão para-brisas cravejados de balas de revólver, enquanto outra sala exibe uma só imagem, um grande espaço vazio. Nada acontece, a não ser a música.
No caso, um tilintar de sinos que Rio Branco gravou numa tourada na Espanha -o som dos touros entrando na arena momentos antes do confronto com o homem.
"Essas conexões é que desarmam o real da fotografia", diz o artista. "Tento sempre desconstruir as coisas, criar outros discursos. No lugar do corpo, o fantasma do corpo."
MIGUEL RIO BRANCO
QUANDO em SP, de ter. a dom., das 10h às 17h30, qui., das 10h às 22h; até 19/7; no Rio, de ter. a dom., das 10h às 20h; até 14/5
ONDE em SP, Estação Pinacoteca, lgo. Gal. Osório, 66, tel. (11) 3335-4990; no Rio, Casa França-Brasil, r. Visconde de Itaboraí, 78, tel. (21) 2332-5120
QUANTO R$ 6 (SP); grátis (Rio)
Brasileiro Tunga abre nova exposição em galeria de Nova York por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S.Paulo
Brasileiro Tunga abre nova exposição em galeria de Nova York
Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada no jornal Folha de S.Paulo em 28 de abril de 2014.
Na semana passada, a galeria Luhring Augustine, no bairro de Chelsea, em Nova York, abriu suas portas para uma nova exposição do brasileiro Tunga, intitulada, em francês, "La Voie Humide" (a via úmida).
Nova, no caso, tem sentido especial: é a primeira apresentação de um conjunto de obras que se destaca da produção anterior do artista - embora mantenha, naturalmente, relações com a sua rica e já longa trajetória.
"É claro que a gente não consegue não ser a gente mesmo", diz ele, que completa 62 anos em outubro.
"Mas depois de um momento que eu considero de síntese da minha obra, eu achei por bem tentar recomeçar", afirma.
"À diferença do que vinha fazendo antes, me lancei em algumas aventuras completamente às escuras, ou melhor, ofuscado por um excesso de luz, um sentimento muito poderoso. Essas coisas acontecem porque a gente está vivo. A tarefa de um artista, de um poeta, é também a de estar atento a essa possibilidade de se transformar continuamente."
Das 11 esculturas e dos 14 desenhos em exibição até 31 de maio, emerge uma poética mais luminosa, construída a partir de um novo repertório de materiais e desenvolvida de maneira pouco usual na carreira do artista.
A começar pela presença de peças moldadas à mão, que foram se configurando não a partir de um projeto fechado, mas ao longo de sua própria feitura.
"Eu pus a mão na massa, literalmente. Comecei a trabalhar com terracota, a esculpir e modelar", conta.
"Deliberadamente me coloquei nesse retorno ao fazer com a mão. Sem nenhum elogio a isso, mas com a ideia de que aquilo que a mão fala é fundador. Quando você se volta para o fazer com a mão, você de algum modo se reencontra com o arcaico, com as matrizes."
A terracota é apenas um dos materiais presentes nas esculturas -tripés de ferro que sustentam um arranjo de peças. O artista também usou, entre outros, resinas, goma arábica, borracha, gesso, panos, bronze, pérolas e tubos de vidro com mercúrio.
Ele considera que a escolha de novos materiais reflete, por si, um modo de pensar, e que traz embutida "a expressão de uma certa alegria", que também se traduz "na presença clara de uma cor um pouco híbrida, de começo de dia, de praia antes do sol nascer" -em contraste com fases mais "escuras"- de seu trabalho.
"Creio que a mudança radical que se operou na minha vida foi perceber que há mais mistério na vida, na luz, do que na morte", resume.
ESPELHO
Tanto as esculturas quanto os desenhos contêm referências explícitas -e implícitas- ao corpo, mas numa fase particular, que se relaciona com a noção psicanalítica do "estágio do espelho".
"Para um bebê", explica ele, "o corpo nesse estágio é percebido como formações sucessivas, configuradas segundo ordens da natureza e do desejo. São partes que se fundem, se soltam, se moldam, se ligam umas às outras e também a coisas exteriores, como o seio materno, a luz ou os ruídos".
Mecanismo similar corresponde ao princípio de construção das novas obras, que conectam elementos diversos num mesmo conjunto -ou num mesmo corpo.
Tunga acredita que a experiência infantil do "corpo expandido" pode ser experimentada em fases posteriores da vida através do amor.
"Falo do amor como a excelência do que eu chamo de energia de conjunção, aquela energia capaz de fazer com que de dois elementos surja um terceiro. Os três, formando uma tríade, são uma unidade e uma coisa nova."
Ele vê, ainda, nos seus novos trabalhos, um caráter de "oráculo". "Também pelo fato de remeterem a um modo de pensar relacionado ao arcaico, eles trazem essa característica. É quase como se você pudesse perguntar a eles sobre a natureza de uma pluralidade de coisas e eles pudessem te responder -caso você esteja aberto para as respostas."
Convidado para a próxima Bienal de São Paulo, Tunga afirma que pretende explorar a ideia de oráculo de maneira talvez mais explícita, criando uma relação "quase que interpessoal" da obra com o público.
"O trabalho ainda está em fase de preparação, mas posso adiantar que, ao contrário da ideia de monumentalidade que a Bienal evoca, eu vou numa direção quase intimista, embora em grande escala", diz.
LA VOIE HUMIDE
QUANDO de ter. a sáb., das 10h às 18h; até 31/5
ONDE Luhring Augustine, 531 West 24th street, tel. (1) 212-206-9100, Nova York
Artista cria praias filtradas pela geometria por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Artista cria praias filtradas pela geometria
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 27 de abril de 2014.
Expostas agora no Rio, novas pinturas de Luiz Zerbini mergulham visões de idílio tropical em linhas e quadrados
Paulistano ocupa uma ala inteira da Casa Daros com mostra que inclui cerca de 30 telas e duas instalações
Luiz Zerbini - Pinturas, Casa Daros, Rio de Janeiro, RJ - 26/04/2014 a 25/05/2014
Luiz Zerbini está em pé diante de uma mesa de vidro. Ele coloca pedaços de celofane de tons distintos sobre o tampo transparente, filtrando a luz e mudando a cor dos objetos embaixo dela --de areia de praia a pedaços de azulejos, folhas e gravetos.
Essa enorme instalação, de dez metros de comprimento, é o abre-alas de sua mostra individual agora na Casa Daros, no Rio. Também resume sua pintura, um híbrido entre figuração realista e matrizes geométricas coloridas.
"É uma pintura tridimensional, com várias camadas de abstração", diz Zerbini, olhando para a mesa. "Minha tendência sempre foi misturar tudo a partir da memória. Tenho o hábito de sair por aí arquivando todas as coisas."
No caso, das conchinhas que recolheu com a filha a cacos de vidro devolvidos à praia pelas ondas do mar.
Zerbini é um paulistano radicado no Rio que não se deixou seduzir pela exuberância tropical da cidade adotada. Suas paisagens, quase sempre marítimas, passam longe do idílio dos cartões postais.
Enquanto desenha com exatidão o contorno das ondas quebrando na orla, também não esconde a sujeira na areia, a erosão que revela os tubos de esgoto passando ali nem os tapumes de madeira barata dos canteiros de obras.
Mas toda essa realidade aparece nos quadros sempre filtrada por retículas geométricas ou padrões, que variam de linhas retas a onduladas a quadrados cheios de cor.
"É meio real", diz Zerbini. "As pedras são realistas, as plantas são realistas, tem a erosão que desenterra as tubulações, essa sujeira. Mas são só acontecimentos possíveis, que eu acho bonitos."
Ou meio bonitos. Sem a presença de suas matrizes geométricas, a obra de Zerbini poderia ser lida como paródia de paisagens ufanistas, ou visões vazias de uma cidade de beleza quase ostensiva.
ESQUIZOFRENIA FORMAL
Não é o caso. Zerbini só diz ser vítima de uma "formação esquizofrênica", misturando anseios figurativos que tem desde criança ao geometrismo que aprendeu na escola.
Desde então, quando não mistura tudo no mesmo quadro, o artista vem fazendo composições figurativas bastante exageradas e trabalhos geométricos que arrebatam o olhar pela contenção formal.
Uma das salas da mostra agora no Rio tem só abstrações em branco e preto, entre elas uma tela inspirada no avesso de uma carta de baralho, que não passa de quadradinhos brancos sobre uma superfície imensa toda negra.
"É algo desconcertante. Não aceita bem o olhar", diz Zerbini. "Estava interessado nesse efeito repulsivo."
Na mesma sala também está uma de suas várias telas de quadrados em sucessão, como se saltassem para fora do plano, com a diferença de que ali essas formas são feitas a lápis, em preto e branco.
Nas palavras de Zerbini, é um "descanso" para os olhos depois de uma longa sequência de paisagens berrantes. Mas é um alívio passageiro, já que na sala seguinte a cor volta com força total em mais uma avalanche geométrica.
"Tem lados muito diferentes a obra dele. É ao mesmo tempo algo supergeométrico e exuberante", diz Hans-Michael Herzog, curador da mostra. "Não há muitos artistas com duas almas como ele, cada uma com seu espaço."
