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outubro 2, 2013
Mostra reúne obras do argentino León Ferrari produzidas no exílio em SP por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Mostra reúne obras do argentino León Ferrari produzidas no exílio em SP
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 30 de setembro de 2013.
León Ferrari - Lembranças de meu pai, MAC USP Nova Sede, São Paulo, SP - 29/09/2013 a 29/03/2014
Um inimigo declarado da Igreja já arquitetou catedrais.
León Ferrari, um dos maiores artistas argentinos, morto em julho deste ano, aos 92, fez de sua obra plástica um ataque visceral à religião católica, com uma imagem de Cristo crucificado num caça norte-americano, entre outras peças "blasfemas", na opinião do papa Francisco.
MAC-USP exibe recorte de seu acervo de fotos
Mas também ajudou seu pai arquiteto a desenhar igrejas. Um resquício dessa experiência parece orientar a obra mais importante da primeira mostra póstuma do artista em São Paulo, agora em cartaz no Museu de Arte Contemporânea da USP.
No fundo da sala, na mesma posição do altar de uma igreja, está "Lembranças de Meu Pai", obra que dá nome à exposição --cujas 57 peças foram produzidas durante o exílio do artista no Brasil.
Ferrari criou nessa obra uma arquitetura translúcida, de fios de arame que delimitam espaços em um emaranhado metálico, e iluminou tudo por baixo, como se em plena ascensão divina.
"É uma tentativa de mostrar que estamos dentro de um templo profanado", diz Carmen Aranha, curadora da mostra. "A ideia dele sempre foi atacar as violências da Igreja contra as pessoas."
Diante de sua catedral abstrata, que a crítica Aracy Amaral chamou de "infinito aprisionado em prismas, em expansão vertical irradiante", seus ataques à religião se manifestam sem pudor algum, em delirantes alegorias figurativas e hiperbólicas.
Uma pintura ao lado mostra um Cristo kitsch agonizando diante de um abutre à espreita. Em outra série, Ferrari esconde figuras fazendo sexo em meio a ilustrações bíblicas que fotocopiou de um livro do alemão Albrecht Dührer (1471-1528).
De certa forma, essas peças marcam o auge de sua virulência estética, o momento em que deixou a Argentina, vítima de um golpe militar em 1976, e se exilou em São Paulo após seu filho se tornar um desaparecido dada ditadura de seu país.
O exílio, contudo, também abriu caminho para trabalhos menos carregados, como a série de peças em que retrata o caos urbano.
Uma delas mostra um emaranhado alucinante de pistas e elevados sobrepostos, enquanto pedestres estão confinados a uma única e estreitíssima passarela. Outra, de multidões que se encontram num cruzamento, chega a lembrar as recentes manifestações de junho.
Mais ou menos explícitas, as obras de Ferrari parecem estar todas lastreadas por um diálogo impossível, de anjos pilotando aviões de guerra a suas imagens abstratas com linhas negras de densidade vertiginosa sobre folhas brancas de papel.
De acordo com o artista, que dizia não ver a arte como "algo solene" nem como plataforma de uma "revolução social", todo o seu trabalho foi em nome da "possibilidade de falar das coisas que não têm palavras".
MAC-USP exibe recorte de seu acervo de fotos por Silas Martí, Folha de S. Paulo
MAC-USP exibe recorte de seu acervo de fotos
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 30 de setembro de 2013.
Lábios e olhos. Pelos do corpo, pele de todas as cores: o corpo fragmentado, quase violentado pela fotografia, serve de abre-alas à nova mostra do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Desde que a instituição começou a colecionar fotografias, nos anos 1970, o foco parece ter sempre se dirigido para experimentos de linguagem mais ousados, que aproximam a técnica da arte contemporânea em detrimento do registro documental.
Mostra reúne obras do argentino León Ferrari produzidas no exílio em SP
Na exposição agora em cartaz, artistas mais e menos conhecidos, do concretista Waldemar Cordeiro aos fotógrafos Claudia Andujar e Boris Kossoy, passando por pioneiros das artes do corpo, como Hudinilson Jr., exploram a arquitetura da imagem, assim como a anatomia esquadrinha o corpo humano.
"É o tema do corpo, mas também a própria fotografia que ganha corporeidade", analisa Helouise Costa, curadora da mostra. "Foi um momento de romper fronteiras."
Uma primeira leva desse movimento está na obra de poloneses que expuseram no MAC nos anos 1970, como Janusz Bakowski, que cria repetições vertiginosas de lábios e orelhas em montagens fotográficas, e Edward Grochowick, com um painel só de olhos em primeiro plano.
A mostra parte de uma reflexão ao mesmo tempo intimista e transgressora sobre o corpo, para depois examinar o comportamento desse corpo na paisagem, seja ela a das metrópoles ou a dos sertões.
Maureen Bisilliat tem na mostra o célebre ensaio "Pele Preta", que alterna planos abertos e fechados no registro de personagens negros.
Outra série poderosa --a das imagens um tanto lisérgicas que Claudia Andujar fez dos índios ianomâmi em ocas que parecem se abrir para céus estrelados e ultracoloridos-- contrasta com a austeridade monumental do Palácio do Planalto, retratado pela alemã Candida Höfer.
DICOTOMIA
Visões contrastantes de Brasil e de corpo dominam a exposição, indo do corpo humano instrumentalizado, visto em chave metonímica, à ideia de corpo na cidade, com prédios belos ou que se mostram opressores.
Imagens fragmentadas da avenida Juscelino Kubitschek, obra de Cassio Vasconcellos, ou aviões e helicópteros sobrevoando prédios imensos, no registro de Nancy Davenport, e mesmo um Copan desmilinguido em fragmentos molengas, de Odires Mlászho, exacerbam com força essa dicotomia.
Na mostra, conforme o olhar fotográfico vai perdendo a ambição de ser um registro definitivo do real, os fragmentos furtivos, ou tudo que é visto de soslaio, ganham peso maior nas composições.
Numa alusão ao próximo passo da fotografia, as imagens em movimento, a mostra no MAC se encerra com experimentos nessa linha.
Em uma colagem, o britânico David Hockney justapõe, na mesma superfície, o registro de momentos distintos do encontro entre duas pessoas, como um filme cujos fotogramas não se veem em sequência, mas ao mesmo tempo.
São exercícios que, nas palavras da curadora, "redimensionam tudo o que a gente pode ver".
A febre do arquivo por Paula Alzugaray, Istoé
A febre do arquivo
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé em 27 de setembro de 2013.
Artistas vasculham gavetas, escaninhos, livros, documentos e pinturas antigas para criar novas versões da história
Arquivo Vivo, Paço das Artes, São Paulo, SP - 02/10/2013 a 08/12/2013
Um arquivo é, por excelência, um espaço incompleto, aberto a novas intervenções e escrituras. Esta é a concepção que norteia a exposição coletiva “Arquivo Vivo”, no Paço das Artes, a partir da terça-feira 1º. A escolha dos 22 artistas participantes indica que o espectro de pesquisas sobre o tema hoje é bastante amplo. A curadoria traz desde o francês Christian Boltanski, um dos primeiros a assumir os arquivos pessoais como matéria de trabalho – retratos da infância, roupas, sapatos –, até a pesquisa com biotecnologia do brasileiro Eduardo Kac, residente nos EUA, que nos anos 1990 realizou a obra “Time Capsule”, que usa informações de um chip implantado em seu calcanhar esquerdo. Em “Arquivo Vivo” serão mostrados os registros dessa performance que levanta uma discussão sobre a ética na era digital, em que a memória artificial é armazenada no corpo.
“Pensar o arquivo como um espaço em transformação e de possíveis reescrituras pode apontar, em um primeiro momento, para a ideia de um suposto infinito; para a impossibilidade de uma única construção; de um único discurso legitimador”, diz a curadora Priscila Arantes, diretora-técnica do Paço das Artes. “E é exatamente isto que me interessa: a possibilidade de sempre termos outros olhares em relação ao que é dito. Cabe a nós escolher o olhar que iremos ou queremos defender.”
O olhar crítico em relação aos documentos e discursos da história faz-se presente, por exemplo, nas obras do londrino Yinka Shonibare MBE, que trabalha sobre a temática do pós-colonialismo; da argentina Nicola Constantino, que se debruça sobre a história da arte, reinterpretando seus papéis; e da espanhola Cristina Lucas. Em “La Liberté Raisonnée”, de 2009, ela reencena em vídeo a famosa pintura de Delacroix que representa a revolução de julho de 1830. Em quatro minutos, a artista faz uma releitura sobre os sentidos da liberdade exaltados na história da França.
