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Como atiçar a brasa

 


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novembro 9, 2012

'Pharmacia Deluxe' expõe obras de dois artistas em galeria no Recife, globo.com

'Pharmacia Deluxe' expõe obras de dois artistas em galeria no Recife

Matéria originalmente publicada no caderno G1 PE do jornal globo.com em 8 de novembro de 2012

Célio Braga e Marcelo Solá - Pharmacia Deluxe, Amparo 60 Galeria de Arte, Recife, PE - 09/11/2012 a 10/12/2012

As fragilidades humanas, traduzidas em palavras, texturas, cores e traços. Assim são algumas das obras que compõem a exposição “Pharmacia Deluxe”, que abre para o público na sexta-feira (9), na Galeria Amparo 60, em Boa Viagem.

As obras seguem no espaço até 10 de dezembro, com visitações gratuitas às terças e sextas, das 10h às 13h e das 14h às 19h; e aos sábados, das 10h às 14h.

A mostra faz parte do projeto Cumplicidade, em que um artista ligado à galeria convida um colega para montar uma exposição coletiva. Nesta edição, o mineiro Célio Braga chamou o goiano Marcelo Solá, pensando em um diálogo que ressalte não só as semelhanças, mas também as diferenças entre suas obras, principalmente no uso das palavras, uma característica do trabalho dos dois.

A diferença principal está talvez no modo como as palavras estão expostas. Nas séries “Doloridos Coloridos” e “Ladainhas”, Braga explora a utilização de linhas coloridas e brancas, e cobre com bulas de remédios e fitas do Senhor do Bonfim, apresentando uma leitura aparentemente minimalista. O truque para observar atentamente esses trabalhos é aproximar-se cada vez mais dos quadros: olhando atentamente, o público descobre cada vez mais detalhes.

Por sua vez, Marcelo Solá traz cerca de 12 desenhos para a “Pharmacia Deluxe”, onde as palavras estão expostas em cores fortes, nas obras feitas em grafite, óleo, esmalte sintético e spray. Para o artista, escrever e desenhar são artes que caminham juntas, e as palavras e frases soltas somam-se aos traços relacionados com o caos das metrópoles.

A dupla acredita ainda que suas obras convergem na representação da obsessão relacionada ao corpo, seus desejos e fragilidades. Através de metáforas, abordam a hipocondria moderna. Por conta disso, a palavra “Deluxe” soma-se ao título da mostra, como uma forma de ironizar o consumismo e a comercialização dos desejos, dores e doenças.

Posted by Marília Sales at 12:18 PM

Marta Suplicy, ministra da Cultura, prega política contra segregação, globo.com

Marta Suplicy, ministra da Cultura, prega política contra segregação

Matéria originalmente publicada no caderno Cultura do jornal globo.com em 9 de novembro de 2012

Para ela, MinC deve ter uma distribuição mais equilibrada de recursos e fiscalizar o Ecad

Prestes a completar dois meses no cargo, no próximo dia 13, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, 67 anos, afirmou ontem que trabalhará para a criação de um órgão fiscalizador independente para acompanhar a atuação do Ecad, escritório responsável pela arrecadação dos direitos autorais no Brasil.

— Vou seguir a recomendação da CPI do Senado. Não é nada demais ter fiscalização externa em um órgão que detém o monopólio. Só no Brasil é assim — disse Marta ao GLOBO em seu gabinete no Ministério da Cultura, em Brasília.

A ministra contou que pretende dar uma marca de “inclusão social” à sua gestão no ministério, com programas como o Vale Cultura (que prevê R$ 50 para gastos em cultura para quem ganha até cinco salários mínimos), a construção de 360 CEUs das Artes — centros de produção cultural dotados, por exemplo, de biblioteca somente com livros artísticos — e a aplicação de projetos e editais de incentivo à produção da cultura negra.

— Eles sofrem preconceito, sim. Têm menos meios de acesso, de formulação de projetos. E, quando conseguem, ninguém patrocina. Querem que o Brasil chegue ao ponto dos Estados Unidos? Você viu a imagem que colocaram de uma corda enforcando aquela cadeira que o Clint Eastwood entrevistou na propaganda do Romney contra Obama? — questionou a ministra, que anunciou ainda editais para a revelação de escritores jovens negros, que serão convidados a participar de caravanas pelo país, a coedição de livros, prêmios e incentivos à arte negra por meio do prêmio Grande Otelo, da Funarte.

Marta afirmou que pretende permanecer no cargo de ministra da Cultura até o final do mandato da presidente Dilma Rousseff:

— Não sou candidata ao governo de São Paulo. Pode escrever. Estou no projeto de reeleição da presidente Dilma.

Muito gripada, com a voz rouca e tomando um produto natural à base de limão e sal para a garganta, Marta ainda aconselhou o fotógrafo do GLOBO, no momento em que este transmitia fotos para o jornal de seu computador:

— Esta foto está bonita. A outra não. O queixo levantado me deixa muito arrogante.

A senhora acha que conseguiu pacificar a cultura, após a polêmica gestão anterior?

Fiquei satisfeita com o acolhimento do povo da cultura. As coisas começaram a andar: Vale Cultura, nova lei Rouanet, nova lei do direito autoral. Fui convidada para destravar e dar uma marca do governo Dilma à Cultura. Só tenho dois anos para isso. Há também os 360 CEUs das Artes, já licitados. Vamos dar chances a milhares de talentos terem onde se expressar. Os talentos não nascem necessariamente nos locais mais privilegiados. É o Bolsa Família da alma.

No Vale Cultura, já há um acordo para retirar aposentados e servidores públicos dos beneficiários, o que, para o governo, torna o projeto que está no Congresso insustentável?

Você acha que estou fazendo o que aqui? Foi retirado tudo. Conversei com o presidente da Câmara, Marco Maia. Disse que com aposentado e servidor não havia possibilidade de a presidente aceitar. Ele sugeriu que fosse enviada uma medida provisória. Eu contrapropus que fosse enviado um projeto da frente parlamentar de cultura para restituir a ideia original. O projeto já tem mais de cem assinaturas. Vai ter muita força e será votado até o final do ano.

Que entraves a senhora enfrenta no Procultura, a lei que substituirá a Rouanet?

O Ministério da Fazenda entregou ontem ao deputado Pedro Eugenio (PT), relator na Câmara, o estudo dos impactos das isenções previstas. Ele está sendo muito habilidoso e deve entregar seu relatório na semana que vem. Conversamos sobre algumas arestas. Áreas que tiravam nossa autonomia, o que achávamos inaceitável. Mas ele foi muito flexível na conversa, muito determinado em alguns pontos. Mas tenho que respeitar a autonomia do deputado.

Um estudo do Ipea mostrou que até 1995 a maior parte do dinheiro da área da cultura vinha do ministério. Já em 2010 o perfil havia mudado. Mais de 90% era dinheiro incentivado, sem pagar imposto. como a senhora analisa esses números?

Incomoda bastante. Acredito que a cultura não é tratada como instrumento de desenvolvimento econômico. Em muitos países é subsidiado para ter uma política de Estado. Em virtude da pouca importância que se tem dado à cultura por todos os governos é que foi desenvolvido um método bastante engenhoso, que funciona, mas tira das mãos do ministério a possibilidade de fazer uma política de Estado mais forte. Temos certos controles sobre a lei Rouanet. Vamos fazer agora, por exemplo, 30 Pontos da Cultura Negra. Vamos descobrir novos autores negros, que serão incluídos num projeto da Biblioteca Nacional de Caravana de Escritores. Você já pensou, um jovem autor negro de 17, 18 anos, viajando pelo país ao lado de escritores consagrados para divulgar sua obra?

A senhora não teme críticas à chamada racialização da cultura em razão de medidas como essa?

Pessoas que dizem isso não têm os números da realidade. Os números das desigualdades regionais se aplicam também aos negros. Dos projetos da lei Rouanet para análise, 71 são do Norte e 5.374 do Sudeste. É um absurdo. Na distribuição de valores o Norte recebe 1,6% e o Sudeste, 67%. Com os negros ocorre algo semelhante. Porque eles têm menor condição de acesso a meios para elaborar e depois, quando são aprovados pela lei Rouanet, não conseguem captar. É mais ou menos como a região Norte. Ninguém quer patrocinar. É péssimo falar isso. Mas o que vamos fazer? Cruzar os braços? Ver chegar numa situação como a dos Estados Unidos, onde a coisa ficou tão acirrada? Você viu na TV uma mulher que colocou uma cadeira na televisão e a enforcou? Isso remete à Ku Klux Klan. Não temos isso aqui, mas corremos riscos quando o (pastor Silas) Malafaia sai fazendo campanha do jeito que fez. Isso é o que temos de evitar. Não a possibilidade de os negros terem uma vida melhor e oportunidades iguais. São projetos de inclusão social na cultura que queremos no governo Dilma. Estamos agora no patamar de incluir o alimento da alma.

A senhora disse que pretende interferir na política de patrocínio das estatais. Como pretende fazer isso?

Foi uma incumbência que a presidente me deu. Não veio da minha cabeça. Ela falou: interfira na política das estatais, porque quero uma política de Estado. É uma oportunidade boa. Mas na premência de que estou tendo de conversar com uma quantidade enorme de atores ainda não me debrucei sobre isso. Mas o farei. Vou analisar estatal por estatal. vou conversar porque as presidências dessas estatais são ocupadas por companheiros. Não teremos nenhum problema em uma ação conjunta. Não virá tudo para mim. O ministério era inoperante nesse sentido. Agora está empoderado para ter essa conversa.

Sobre a nova lei dos direitos autorais, como anda a negociação?

Estamos caminhando para o máximo de liberdade com o mínimo de apropriação indevida na obra do autor. São linhas finas. Estou estudando. Sobre Ecad, já tenho o que falar. Conversei com muitos grupos. O Ecad é um órgão importante, tem que ser mantido, tem que ser independente. Não há queixas por parte dos músicos mais famosos. Existe um mar de queixas dos músicos menos conhecidos. O Ecad tem razão quando diz que muitos músicos estão decadentes, tocam menos, e não aceitam isso. E me fizeram ver que não conseguem ter acesso a tudo, já que o Brasil é enorme, não dá para se apropriar de todas as informações sobre onde as músicas são tocadas. Eles acreditam que têm transparência absoluta. não foi o que escutei dos outros lados. Em nenhum país do mundo um órgão que tem o monopólio não é fiscalizado. Só no Brasil. Minha posição é ir de acordo com a CPI do Senado e defender um órgão externo de fiscalização. A decisão de ter um órgão externo já tomei. Acredito que será bom para todos. A composição será decidida. Não vamos estar fazendo nada de excepcional.

A senhora apoia a nova lei das biografias que está em debate no Congresso?

Estou de acordo. Não é preciso autorização do biografado, mas ele entra na Justiça caso queira reparação.

A senhora havia resistido à indicação do ex-presidente Lula de Fernando Haddad como candidato a prefeito de São Paulo. Como viu a vitória dele?

Eu era contra porque eu teria uma vitória mais fácil. Mas o Lula acertou. O momento era de impor uma pessoa diferente. Ele renovou o partido. Mas eu tive uma participação importante. Quando o bilhete único entrou em debate no primeiro turno, usei minha credibilidade no setor de transportes para ajudar Haddad. Foi ali que Russomanno escorregou.


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Posted by Marília Sales at 11:10 AM

Meu objetivo aqui é criar uma política de Estado para a cultura por Fernanda Mena e Matheus Magenta, Folha de S. Paulo

Meu objetivo aqui é criar uma política de Estado para a cultura

Matéria de Fernanda Mena e Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de novembro de 2012

Ministra aponta como prioridades de sua administração a revisão dos mecanismos de incentivo fiscal e da lei de direito autoral

Ao longo de uma hora de entrevista concedida à Folha, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, se posicionou pela primeira vez sobre alguns de seus principais desafios à frente da pasta.

Ela afirmou que avalia a possibilidade de criar um órgão de fiscalização para o Ecad (escritório que arrecada e distribui direitos autorais) e de retirar da alçada da Fundação Biblioteca Nacional as políticas públicas de livro e leitura -mudança feita na gestão de sua antecessora, Ana de Hollanda.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Folha - Quais serão as prioridades de sua gestão?

Marta Suplicy - Eu não tenho que marcar a minha gestão, mas sim a do governo Dilma. Eu vim para a pasta com o objetivo de criar uma política de Estado. Entre as prioridades estão aprovar as novas leis de incentivo fiscal [ProCultura] e de direitos autorais [no Congresso], além de aumentar a inclusão social via cultura.

A sra. está satisfeita com o orçamento da pasta de R$ 2,9 bilhões, motivo de reclamação de sua antecessora? É preciso aumentar recursos?

Nenhum gestor nunca pode estar satisfeito com o que ele tem para trabalhar. Você sempre quer mais. Houve um aumento de 63% do orçamento, mas é dinheiro carimbado [para a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e para o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Então, dizer que teve um aumento de orçamento que vai viabilizar muita coisa nova é difícil.

O prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), propõe a vinculação de verbas para a pasta da Cultura em São Paulo. Qual é a sua opinião sobre esse tipo de mecanismo?

A tendência sempre é você engessar porque, para o gestor de um ministério, tornar obrigatório o investimento dá a certeza de que haverá recursos. A postura de quem está com a gestão total é de não engessar. Não serei eu a proponente disso à presidenta Dilma [Rousseff]. Acharia ótimo que fosse engessado, mas preciso fazer esse ministério acontecer com o dinheiro que tenho.

O Fundo Social criado em 2010 para ser abastecido com recursos oriundos da exploração do pré-sal no país é alvo de disputa por diversas pastas do governo, como o Ministério da Educação. A Cultura está perdendo essa briga?

Há tantas questões aqui para resolver... já estou até dando aula em algumas áreas, mas não tive tempo ainda de ver todas as questões do Congresso. Ainda não tem um ponto final. A Cultura ainda não se manifestou sobre essa briga.

Seus antecessores, Gilberto Gil e Juca Ferreira, eram contra a manutenção de 100% de renúncia fiscal na reforma da Lei Rouanet. Queriam forçar as empresas a tirar dinheiro do bolso para os projetos. O que a sra. pensa sobre isso?

Eu penso como eles. Por isso acredito que a solução à qual o Pedro Eugênio [deputado federal do PT-PE e um dos relatores da reforma da Lei Rouanet, em tramitação na Câmara] chegou foi a mais habilidosa. Ele está propondo que, para atingir os 100%, será preciso cumprir uma série de contrapartidas. Sempre preferiria o limite de 80%, mas não tenho a caneta na mão. Não dá para ter tudo no mundo.

Com a reforma da Lei Rouanet, a sra. teme a migração de recursos para outras áreas, como o Esporte?

Não tenho nenhum temor disso. Quem quer fazer uma marca com a cultura tem um perfil diferente de quem quer fazer isso com o esporte.

Uma das primeiras medidas da sua gestão foi anunciar editais para criadores e produtores afrodescendentes. Cotas raciais, e não sociais, não promovem a discriminação?

Não, de jeito nenhum. Sou absolutamente a favor das cotas raciais. Quando dizem que é racismo, não me incomoda e nem nunca me incomodou quando eu lutava pelos direitos das mulheres e dos gays.

O relatório da CPI do Ecad no Senado, concluída neste ano, propôs a criação de um órgão federal para fiscalizar a atuação da instituição que arrecada e distribui direitos autorais. A sua antecessora era contra essa fiscalização. Qual é sua posição?

Conversei com muitos setores da sociedade. A minha percepção é a de que o Ecad é um órgão que precisa existir e que tem uma autonomia que precisa ser preservada. Eles dizem que têm absoluta transparência. Ouvi o outro lado, que não está satisfeito com essa transparência. Então, estamos analisando a possibilidade de tornar o órgão mais transparente.

Sem a necessidade de um órgão externo de fiscalização?

Não, [a solução] pode ser [incrementar] a transparência com um órgão externo. Isso existe em todos os países do mundo e não muda absolutamente nada em relação à autonomia e à independência do órgão -e ainda responde ao clamor da sociedade.

A Fundação Biblioteca Nacional concentrou, nos últimos anos, as políticas públicas de livro e leitura, ao mesmo tempo em que enfrentou problemas como vazamentos e deterioração do prédio da instituição, no Rio. Seria ela a instância adequada para a política do livro e da leitura?

Não acho que seja. Estou estudando porque foi feito desse jeito e como ficaria se eu trouxesse a política do livro para Brasília. Ainda não tomei uma decisão sobre isso.

Por que motivo Ana Paula Santana foi demitida da chefia da Secretaria do Audiovisual do ministério?

Não tenho nada contra ela, mas eu queria um outro perfil para a secretaria. Ainda não decidi quem irá substitui-la.

Diante da sua força política, a senhora cogita concorrer ao governo de São Paulo em 2014?

Eu não sou candidata.

Posted by Marília Sales at 10:39 AM

A marca de Marta por Fernanda Mena e Matheus Magenta, Folha de S. Paulo

A marca de Marta

Matéria de Fernanda Mena e Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 9 de novembro de 2012

Em sua primeira entrevista oficial, ministra fala à Folha sobre sua gestão, que pode dobrar impacto da renúncia fiscal sobre o orçamento

Após pouco mais de 50 dias à frente do MinC, durante os quais a frase "estou estudando este assunto" foi resposta padrão para questões sobre temas espinhosos da pasta, Marta Suplicy mudou o discurso: "Já estou dando aula em algumas áreas por aqui".

Apesar de dizer que não pretende deixar uma marca sua no MinC -"Fui chamada pela presidenta Dilma para criar uma política de Estado"-, Marta articulou uma agenda positiva que, nos últimos dois meses, movimentou o setor mais que sua antecessora em um ano inteiro.

Propôs editais exclusivos para afrodescentes, acelerou a tramitação do Vale Cultura e promoveu a aprovação do Sistema Nacional de Cultura.

Contradizendo o discurso antipersonalista, uma de suas primeiras medidas foi readequar o projeto das Praças dos Esportes e da Cultura para o conceito dos CEUs (Centros Educacionais Unificados), grife de sua gestão na Prefeitura de São Paulo.

Com 360 unidades já licitadas no país, as Praças, parte do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento), se chamarão CEUs das Artes. "Achei que o enfoque deveria ser outro. Serão grandes espaços em que pessoas de teatro, artes plásticas e música trabalharão juntas."

Em sua primeira entrevista oficial como ministra, Marta levou respostas prontas para eventuais questionamentos sobre Kassab, mensalão e Ecad. E enumerou suas prioridades: "Passar as novas leis de incentivo fiscal [ProCultura] e de direitos autorais, aprovar o Vale Cultura e aumentar a inclusão social pela via cultural".

Segundo a ministra, a proposta de reformulação da Lei Rouanet, que tramita na Câmara há mais de um ano, deve ser apresentada neste mês pelo deputado Pedro Eugênio (PT-PE), relator do projeto na Comissão de Finanças e Tributação da Casa. "Fiquei com ele ontem até tarde discutindo o impacto [financeiro] do projeto, mas acho indelicado falar sobre isso sem ele aqui."

A Folha apurou que, se aprovada, a nova lei praticamente dobraria o impacto orçamentário atual, chegando a R$ 3 bilhões. O valor, segundo especialistas, não sofreria resistência na Fazenda. Com isso, o incremento de recursos destinados ao Fundo Nacional de Cultura aumentaria de R$ 256 milhões para R$ 800 milhões.

Posted by Marília Sales at 10:33 AM

novembro 7, 2012

Feira 'Artigo Rio' traz obras de jovens artistas por Pedro Rocha, Jornal do Brasil

Feira 'Artigo Rio' traz obras de jovens artistas

Matéria de Pedro Rocha originalmente publicada no Caderno Cultura do Jornal do Brasil em 6 de novembro de 2012.

Mostra acontece de 8 a 11 de novembro, na Cidade Nova

De quinta (8) a domingo (11) acontece a primeira edição da Artigo Rio, feira de arte contemporânea com obras a preços acessíveis. A mostra reúne cerca de 30 galerias e coletivos artísticos nacionais e internacionais, no Centro de Convenções Sulamérica, na Cidade Nova. Das 12 às 22h, com ingressos a R$ 10.

Com curadoria do artista plástico Alexandre Murucci, a Artigo Rio se propõe a oferecer obras de artistas jovens, a um valor de R$ 500 e R$ 3 mil, e teto de R$ 17 mil para o trabalho mais caro. Obras de mentes jovens com muito a mostrar.

“Há um nicho pouco explorado no Brasil, impulsionado pela expansão do circuito de arte e sua popularização para a classe média, mas que é tendência de mercado na Europa e nos EUA, onde já acontecem, com frequência, diversas feiras similares. E a Artigo vem para preencher esse espaço”, argumenta Murucci.

As obras estão divididas em galerias, e cada uma delas traz informações sobre os artistas e preços dos trabalhos expostos. Todos os participantes têm como comprometimento expor 70% das obras à venda com preço médio entre R$ 500,00 e R$ 3 mil.

“Apesar do boom das artes no país, o brasileiro ainda vê a obra de arte como um objeto caro, inacessível. Por isso nossa proposta é oferecer obras com valores acessíveis e uma dinâmica de maior clareza nas informações e preços, pois a pessoa que vier à nossa feira tem de ter a certeza de que não há preços flutuantes – é tudo como numa vitrine de shopping. Queremos que o público vá à Artigo para comprar de fato, e não apenas olhar, como num museu”, comenta o idealizador Alexandre Murucci.

Estão na mostra as galerias cariocas Artur Fildago, Öko Arte Contemporânea, Cosmocopa, Sergio Gonçalves Galeria, a mineira Minas Contemporânea, a estrangeira AVA Gallery, de Helsinki (Finlândia), e o projeto virtual FaceArte, entre outras.

Eventos paralelos à feira estão na programação. Entre os dias 8 e 11 de novembro, o Fórum Artigo traz uma série de debates e palestras que abordarão o mercado de arte, do colecionismo aos jovens artistas, entre outros temas.

Também ocorrerá a entrega do Prêmio Artigo de Arte Contemporânea, para galerias e artistas em três categorias: Artista Revelação, para artistas iniciantes; Projeto Trajetória, com artistas em meio de carreira; e Melhor Obra, para a galeria que trouxer a obra com melhor custo benefício e de maior impacto junto ao público (prêmio por votação popular).

Posted by Marília Sales at 12:58 PM

SP-Arte/Foto traz o que há de mais novo na produção visual por Simonetta Persichetti, Estadão

SP-Arte/Foto traz o que há de mais novo na produção visual

Matéria de Simonetta Persichetti originalmente publicada no Caderno Cultura do jornal Estadão em 7 de novembro de 2012.

A programação da sexta edição do evento reúne 23 galerias, lançamentos de livros e debates

Nas duas últimas décadas, a fotografia explodiu nas mais variadas práticas artísticas e documentais, quebrando fronteiras e colocando-se como polo de discussão da nova - ou mais certo seria dizer - atual forma de visualidade. Uma fotografia que, como afirma a filósofa francesa Dominique Baque, "não se pretende mais heroica, mas uma imagem que brinca com a banalidade". É assim que encontramos possibilidades múltiplas para o fazer fotográfico, hoje em dia: desde experimentações tecnológicas até situações familiares.

Esse parece ser o fio condutor que acompanha toda a produção contemporânea: o ordinário, banal, familiar, uma ancoragem no cotidiano. Ao mesmo tempo, lembra-nos ainda a filósofa, numa tentativa de nos ajudar a compreender a produção atual, que desde os anos 80 estamos procurando "cenografar" a cultura, a teatralização do gesto. "A citação de quadros, a busca de uma ambição teórica na produção das imagens - do banal à fotografia erudita, passando pela intimidade do sujeito -, o campo da fotografia contemporânea é, muitas vezes, visto como um campo de tensão." O discurso, a fala torna-se, com frequência, mais importante do que a própria construção visual.

Parte desse arsenal imagético poderá ser visto a partir de amanhã na sexta edição do SP-Arte/Foto, uma reunião de 23 galerias que nos dão um panorama da fotografia nacional e internacional. Depois de cinco anos, o evento muda de endereço e passa a ocupar dois andares do Shopping JK Iguatemi, tornando-se uma das mais importantes feiras fotográficas da América Latina. Além da exposição fotográfica, também está programado um evento para discutir a imagem. A Zum, revista de fotografia editada pelo Instituto Moreira Salles, organizou um ciclo de encontros entre fotógrafos, além de lançamento de livros.

SP-ARTE/FOTO 2012
Shopping JK Iguatemi. Av. Juscelino Kubitschek, 2.041, Vila Olímpia.
Amanhã e 6ª, 16 h/ 22 h; sáb. e dom., 14 h/ 20 h. Grátis – www.sp-arte.com

Posted by Marília Sales at 11:24 AM

novembro 6, 2012

Obras de Bruno Munari participam da 30ª Bienal por Camila Molina, O Estado de S.Paulo

Obras de Bruno Munari participam da 30ª Bienal

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno Cultura do jornal Camila Molina em 6 de novembro de 2012.

Exposição reúne mais de 80 peças criadas pelo artista italiano desde a década de 1930

Designer, artista, escritor, ilustrador, educador, o italiano Bruno Munari (1907-1998) criou uma obra de várias vertentes, entretanto, pouco conhecida no Brasil. "Seu trabalho tem uma pluralidade e uma inquietação a ponto de ele ser um resumo de tudo o que temos na 30.ª Bienal de São Paulo", diz André Severo, curador associado da edição do evento, em cartaz até 9 de dezembro. Desde o início da concepção do projeto curatorial da mostra, com curadoria geral do venezuelano Luis Pérez-Oramas, Munari esteve incluído entre os participantes. Com o intuito de realizar uma exposição mais abrangente do italiano no País, a exibição de suas obras, mais de 80 peças, vai ser apresentada fora do Pavilhão da Bienal, tendo o Instituto Tomie Ohtake como morada.

Não se trata da uma retrospectiva, mas a mostra Bruno Munari. Arte, Desenho, Design, que será inaugurada amanhã para convidados e na quinta-feira, 08, para o público no Instituto Tomie Ohtake, ocupa quatro salas da instituição apresentando peças, objetos, livros, mobiliário e jogos educativos criados pelo multidisciplinar italiano desde os anos 1930. "A 30.ª Bienal aposta na busca de uma linguagem e Munari passou por tudo com um interesse genuíno no processo criativo, acreditando no poder transformador da arte", diz Severo.

No catálogo da Bienal, está descrito que Bruno Munari foi "celebrado" pelo crítico e historiador Giulio Carlo Argan como "um dos maiores expoentes da cultura artística italiana". A primeira aproximação que a mostra faz do artista com o Brasil acontece já na abertura da mostra, quando se apresenta na sala inicial Côncavo Convexo (1947-48), obra destaque da trajetória do italiano, colocada em diálogo com a escultura Unidade Tripartida (1948-49), de Max Bill, pertencente ao acervo do MAC-USP, e um dos trabalhos da série Trepantes, de Lygia Clark. Faz-se uma relação formal entre as peças - a de Munari, pendurada no teto, faz girar duas formas leves e quase redondas; a de Max Bill, premiada na 1.ª Bienal de São Paulo, em 1951, foi uma referência para o movimento concreto brasileiro; e a de Lygia Clark já é o movimento de uma forma espiralada de metal escorregando para o chão. "Esta sala é a assinatura do Luis (Pérez-Oramas), que tem toda uma fantasia sobre a relação dos três artistas", diz Severo - vale dizer que o curador-geral da 30.ª Bienal está preparando a retrospectiva de Lygia Clark que será exibida no MoMA de Nova York em 2014.

A partir dessas "boas-vindas", a obra de Bruno Munari é exibida em toda a sua pluralidade - e até certo humor -, obedecendo, de certa maneira, a um percurso cronológico para que se entenda a passagem do artista de uma pesquisa a outra. Quando tinha 19 anos, Munari integrou o movimento futurista italiano, tanto que em 1930 descreveu essa sua fase como intrínseca às "máquinas inúteis", que inclusive lhe despertaram o interesse pela infância. Em 1945, Munari já iniciou a criação de "livros ilegíveis" para crianças - com os quais ganhou, em 1947, o Prêmio Hans Christian Andersen - e adiante concebeu de uma forma intensa desenhos, fotomontagens, móbiles, obras gráficas, pinturas - principalmente, as da série Negativo-Positivo (dos anos 1950) -, luminárias e outras objetos e até o Habitáculo para os quartos infantis. "Existe uma utopia de transformação em sua obra com a crença de que a arte possa ser incorporada ao mundo", diz Severo.

Segundo o curador, não foi fácil realizar a produção da mostra, que reúne peças de diversos acervos particulares e estava prevista, inicialmente, para ser aberta no dia 2 de outubro.

Posted by Marília Sales at 10:38 AM

Traço delicado reflete memória violenta por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Traço delicado reflete memória violenta

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de novembro de 2012.

Mercado em alta na Colômbia favorece produção de artistas que fizeram do desenho uma linguagem expressiva

Curadores e críticos atribuem foco no desenho à reclusão de artistas acuados pela luta ao narcotráfico

Militares com metralhadoras e cães farejadores na porta das casas e manchetes sobre um processo de paz que se arrasta há anos sem sucesso não deixam esquecer a guerra ao narcotráfico que sublinha a vida na Colômbia.

Mas, em contraponto à realidade agressiva, a arte que desponta no país segue outra rota. São desenhos sutis -lápis sobre papel, preto no branco, de um traço delicado- que parecem dominar a produção contemporânea em Bogotá, alçada agora ao posto de uma das novas capitais da arte latino-americana.

Enquanto curadores colombianos conquistam postos de relevância no circuito global, como José Roca, curador na Tate Modern, de Londres, e Juan Gaitán, à frente da próxima Bienal de Berlim, o mercado e a cena do país se aquecem com a feira ArtBO, realizada no mês passado.

Na Bienal de São Paulo agora em cartaz, artistas como Bernardo Ortiz e Nicolás París representam esse levante do desenho, uma fragilidade contraposta aos anos de conflito armado que dilaceram a sociedade colombiana.

"Esses trabalhos intimistas são consequência direta do conflito", diz o curador colombiano Jaime Cerón. "São tentativas de revisar o espaço cotidiano. É olhar para dentro como sintoma de estar preso, confinado em casa com a impossibilidade de sair e ocupar as zonas de risco."

O prédio de uma antiga tecelagem no centro de Bogotá foi transformado em um quartel general de ateliês. É ali que artistas põem no papel a memória do conflito.

"Vivemos 50 anos de guerra neste país. A população ou é vítima ou está entre os algozes, sendo que uma parte é indiferente ao que acontece", diz Lina Espinosa, em seu ateliê no edifício Las Nieves. "Quero chamar a atenção dos indiferentes, criando uma memória da dor."

Fernando Arias, que faz uma obra de forte cunho político sem se restringir ao desenho, enxerga nesses traços um ato subversivo -a tradução de uma realidade atroz.

"É violento e sutil ao mesmo tempo", afirma. "Isso confronta as pessoas que vivem todo dia essa violência."

Não é de hoje que o desenho é a escola por excelência da arte colombiana. Nos anos 70, artistas como José Antonio Suárez já usavam a técnica como linguagem central.

Mas, nos anos 90, com a derrocada de um sistema de arte ainda frágil e sustentado pela lavagem de dinheiro de narcotraficantes, o desenho voltou ao centro das atenções como um meio simples e econômico de produção, algo que estava ao alcance de artistas que ainda não sonhavam com a inserção do país no mercado de arte global.

Bernardo Ortiz trabalha nessa escala diminuta, de folhas que se amontoam no ateliê em "arquivos orgânicos".

"Essas obras estão no limite entre o cínico e o comovente", diz o artista em seu ateliê no centro da cidade. "É uma arte que não é quase nada, está entre a verdade e a mentira, como se fossem folhas arrancadas de um livro."

Enquanto o livro de Ortiz tem espaço para frases soltas, memórias ambíguas e desenhos aleatórios, Lucas Ospina, outro artista dessa geração nascida nos anos 70 e 80, parece focar em personagens solitários. Seus desenhos são vazios com figuras perdidas numa imensidão branca.

"Meu traço é imediato, entre o passado e o presente", diz Ospina. "Tento definir pessoas com um só gesto."

O jornalista SILAS MARTÍ viajou a convite da feira ArtBO.

Posted by Marília Sales at 9:48 AM

novembro 5, 2012

(Des)encontros com o real por Paula Alzugaray, Isto é

(Des)encontros com o real

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de Artes Visuais da Revista Istoé em 05 de novembro de 2012

Estante
Deriva para a fotografia
Paisagem Zero/ Fabio Miguez/ Martins Fontes Editora/ 216 págs./ R$ 72

“Em 1993, sentado de frente para o mar, em Ubatuba, vi aquilo que já tinha visto inúmeras vezes: o tempo fechar e a chuva e a neblina apagarem lentamente a paisagem ampla e profunda.” Assim Fabio Miguez começou a série fotográfica “As Derivas”, em processo até este ano, com imagens realizadas durante a exposição individual do artista no Centro Maria Antônia, em São Paulo.

As primeiras fotografias documentam um nevoeiro que avança progressivamente, do horizonte, no fundo do quadro, até ganhar toda a cena. Registram também a espuma branca do mar que bate nas pedras e inunda a imagem. É verdade que as fotografias de Fabio Miguez evocam uma reflexão sobre os limites da visualidade. Daí o ímpeto do crítico Lorenzo Mammi, que assina o texto do livro “Paisagem Zero”, em associar os procedimentos de Miguez como fotógrafo às suas estratégias como pintor, surgido nos anos 1980, interessado no expressionismo abstrato americano.

Porém, depois que a neblina toma o quadro e anula a figura, aparece um barco para navegar esse campo abstrato e confirmar os vínculos que a fotografia tem com a representação do mundo e das formas discerníveis. Vale, portanto, olhar para essas imagens como uma deriva, da pintura para a fotografia.

Poesia do concreto
Alexandre da Cunha/ Editora Cobogó/ 136 págs./ R$ 120

Alexandre da Cunha não fotografa, mas se relaciona intimamente com o real. O artista brasileiro, residente em Londres há dez anos, não faz a representação da vida cotidiana, mas promove a sua transformação. Sua escultura se faz a partir de ações de manipulação da produção cultural e da vida urbana. Com esculturas em exibição na 30ª Bienal de São Paulo até dezembro, o artista “re-fabrica” o mundo com materiais tão banais como escovões, toalhas de praia e chapéus de palha. Com isso, não está fazendo uma arte ecologicamente correta nem uma ode à reciclagem. Ele também nega estar simplesmente transformando o mundano em precioso.

Em um percurso consistente, que hoje está bem representado em monografia lançada pela Cobogó, Da Cunha afirma sua habilidade de extrair poesia do mundo concreto. Como Zöe Gray afirma no texto do livro, “Da Cunha é fascinado pela nossa experiência diária com os objetos, transformando ou manipulando objetos soltos ou industrializados de modo a romper os sistemas tradicionais de classificação”. Assim, em gesto similar à transformação de um urinol em fonte, por Duchamp, em 1917, aqui garrafas de plástico são convertidas em taças de vinho.

Cidade-arquivo
Repaisagem São Paulo/ Marcelo Zocchio/ Editora Porto de Cultura/ 100 págs./ R$ 60

Há sete anos, o curador Marcio Doctors concebeu para a Fundação Eva Klabin o “Projeto Respiração”. “Pensei em arejar o ambiente. Era preciso insuflar um novo ar capaz de fornecer o oxigênio necessário para interessar os antigos frequentadores e atrair um novo público”, escreve Doctors no livro que reúne as 14 intervenções artísticas que deram novos ares à coleção Eva Klabin, até 2011. Ocuparam a casa projetos vigorosos de Brígida Baltar, Carlito Carvalhosa e Ernesto Neto, entre muitos. Com o lançamento desse livro, um 15º projeto criativo vem à tona: é o texto do curador, que realiza uma reflexão filosófica de fôlego sobre a ação não cronológica do tempo na subjetividade humana e na história da arte. Imperdível.

Posted by Marília Sales at 12:21 PM

Livro fala sobre como é possível aproximar crianças de obras artísticas por Maria Fernanda Rodrigues, estadão.com.br

Livro fala sobre como é possível aproximar crianças de obras artísticas

Matéria de Maria Fernanda Rodrigues originalmente publicada no Caderno Culturaa do jornal estadão.com.br em 2 de novembro de 2012.

Françoise Barbe-Gall, que trabalhou no Louvre, lança publicação sobre o tema no Brasil

Tão fácil quanto despertar o interesse de uma criança por arte é destruir o prazer dessa descoberta. Para que pais, avós e professores não percam seus rebanhos pelo caminho, a francesa Françoise Barbe-Gall lança agora no Brasil, pela WMF Martins Fontes, Como Falar de Arte com as Crianças. Uma das lições iniciais, e mais importante, é: não caia na tentação de achar que um dia chuvoso é perfeito para visitar um museu.

"É uma noção que precisa ser derrubada: ela supõe que nos resignamos a entrar nesse tipo de lugar quando todas as outras possibilidades de ‘passar o tempo’ tiverem sido esgotadas", escreve a autora a partir de suas obervações diárias no Museu do Louvre, em Paris, onde foi professora até este ano. Hoje ela se dedica à sua associação Coreta (Comment Regarder Un Tableau), a palestras para professores e à produção de outros guias deste tipo, para todas as idades. Entre os que já publicou estão ainda Como Ver os Impressionistas, Como Falar com Crianças Sobre Arte Moderna e Como Entender Uma Pintura.

O volume que chega agora ao País é destinado a adultos que querem falar sobre pintura com as crianças e traz informações práticas sobre obras, artistas e sobre como abordar determinadas questões com crianças entre 5 e 13 anos - ela as divide em três grupos. Conta, por exemplo, que as que têm entre 5 e 7 anos criam suas próprias histórias para o que veem na tela e se divertem imitando os personagens. Já as de 8 a 10 se encantam com as diferentes civilizações e aqueles entre 11 e 13 querem saber sobre a vida dos artistas. A autora mostra como tirar proveito dessa curiosidade.

Françoise escolheu a idade de 5 anos para começar porque é quando o vocabulário se amplia. Porém, não é preciso esperar até lá. "Antes dessa idade, é importante cultivar a familiaridade com as imagens. Se os pais acostumarem as crianças a verem reproduções de obras no ambiente familiar, a arte se tornará uma coisa normal", conta a autora ao Sabático.

Mas a arte não está em todas as casas e Françoise não vê como problema que pais deleguem a educação artística de seus filhos às escolas. Na verdade, acha até melhor. "Se não gostam, não deveriam abordar o tema. O tédio é contagiante", brinca. Eles terão outras oportunidades de serem sensibilizados, mesmo que achem, como grande parte das crianças acha, chato visitar um museu.

O espaço é enorme, mas não se pode correr lá. Tem de falar baixo, não pode encostar em nada, não pode comer. As visitas são longas e por todo o tempo eles têm de se comportar. Dependendo do museu, haverá muita imagem religiosa, ou então, muita escultura. E se a criança já demonstra antipatia por determinado tipo de obra, fica tudo mais difícil - mas não impossível, garante a autora.

A teoria na prática. Já na entrada da primeira sala do Museu de Arte de São Paulo, Julio Charleaux diz que aquele museu é um lugar chato. Ele, no entanto, não fala isso porque preferia estar jogando bola ou videogame. Aos 9 anos, já conhece suas preferências: "Não gosto muito de pintura de pincel, só de lápis grafite." Ele vai se desarmando durante a visita e, bom desenhista, começa a copiar a tela A Canoa Sobre o Epte (1890), de Claude Monet. Depois, dá uma volta e logo se encanta com As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch, datada de cerca de 1500. Percebendo que o quadro tinha mais ou menos a idade do Brasil, se assombra: "E está vivo até agora? Como?" É nesse momento que aprende lições de conservação e ouve que é para que o quadro permaneça vivo por muitos outros séculos que é proibido fotografá-lo usando flash.

Julio costuma ir a museus por influência dos pais. Em Santiago, no Chile, gostou muito do Interativo Mirador - pudera, lá as crianças aprendem na prática o que veem na escola. Por outro lado, recentemente ele foi à exposição do cartunista Angeli, no Itaú Cultural, e saiu frustrado porque não o deixaram entrar em determinada sala, proibida para menores de 16 anos. "Não deixaram porque tinha desenho de mulher pelada, mas eu sempre vejo isso em quadro. Olha, tem mulher pelada ali", esbraveja apontando para Banhista Enxugando o Braço Direito (1912), de Renoir.

A questão da nudez é abordada no livro, e a autora conta que ela causará constrangimento em meninos e meninas nos seus 11, 12 e 13 anos. Para ela, evitar o tema é um absurdo e a sugestão para deixá-los mais confortáveis é que se apresentem os sentidos da obra - a relação simbólica com a verdade, as pesquisas de anatomia, etc. Françoise antecipa, também, questões e comentários que os três grupos de idade escolhidos por ela podem fazer. No fim da obra, há reproduções de 30 quadros com esses comentários e as possíveis respostas (veja dois exemplos abaixo). Para ilustrar a seção, escolheu artistas de períodos e nacionalidades diversas: Bosch, Ticiano, Botticelli, Vermeer, Goya, Caravaggio, Van Gogh, Monet, Chagall, Mondrian...

Algumas das telas selecionadas são famosas - Mona Lisa está lá, claro -, mas o critério da autora foi mostrar quadros ricos que pudessem abrir o caminho para outras imagens. Assim, quem não pode ir ao MoMA, de Nova York, ver a tela O Aniversário, de Chagall, que está no livro, tem a chance de conhecer o trabalho do artista no Masp, onde está exposto O Vendedor de Gado. Além disso, as respostas e abordagens sugeridas pela autora são também facilmente transportadas para outras pinturas, de outros autores.

Há ainda informações sobre temas frequentes na arte, como mitologia, religião, alegoria, história e paisagem - com indicações de livros sobre tais assuntos. E muitas dicas práticas. Por exemplo, uma vez no museu, faça a visita no ritmo da criança e não force um tour completo. Se a fila para entrar estiver longa, passe na cafeteria antes de começar o passeio para quebrar o tédio da espera. Esqueça frases do tipo "Você vai ver, o quadro é muito bonito". Transforme a ida ao museu num programa e na saída, passe numa lanchonete. Deixe que a criança descubra os quadros sozinha, se encante por eles. Segundo a autora, é possível que ela eleja o seu "queridinho" e queira sempre voltar a vê-lo. Não tem problema. A cada vez que o quadro for visto, um novo detalhe chamará a atenção. E mais: uma hora a fixação por ele será transferida para outra obra.

Na volta para casa, o ideal é manter o assunto vivo, mostrando, em livros, outros trabalhos daqueles artistas, contando a história deles, ouvindo músicas da época da pintura. Para quem não tem museu à mão, os livros de arte ajudam. "O único inconveniente é que podem dar a impressão de que a arte está reservada apenas a pessoas dotadas de grande conhecimento", explica.

Visita com os pais ou com a escola a museus, livros de arte espalhados pela casa. Apesar de todo o esforço, pode ser que a criança não goste mesmo de pintura e para a autora isso é ok. "Todas as pessoas podem ser tocadas pela arte; a questão é encontrar a que consegue tocá-las. Algumas são sensíveis à imagem, outras à música, ao teatro... Isso não acontece sempre na mesma idade para todos. É por esse motivo que é essencial abrir as portas e mostrar que não se trata de obrigação, e sim de prazer."

Posted by Marília Sales at 11:45 AM

Tunga é maior destaque dos novos pavilhões de Inhotim por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Tunga é maior destaque dos novos pavilhões de Inhotim

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no Caderno Ilustrada do jornal Folha S. Paulo em 5 de novembro de 2012.

Das novas inaugurações em Inhotim, realizadas em setembro passado, o pavilhão de Tunga é o destaque. Não só pelo tamanho -com 2.600 metros quadrados, é o maior do local-, mas pelas mais de 15 obras, que percorrem toda a carreira do artista.

O pavilhão foi desenhado pelo escritório Rizoma Arquitetura e lembra a Nova Galeria Nacional, em Berlim, de Mies van der Rohe (1886-1969), marcada pela transparência e pelo imenso pé-direito. Em Inhotim, o pavilhão recebe desde a instalação "Ão" (1980), na qual um percurso dentro de um túnel que nunca termina é projetado em "looping", até as obras mais recentes do artista.

Na abertura, mais de cem pessoas refizeram icônicas "instaurações" -é assim que Tunga denomina suas performances. Entre elas, "Xifópagas Capilares entre Nós", com jovens irmãs gêmeas unidas pelos longos cabelos, ou "Teresa", na qual dezenas de jardineiros de Inhotim construíam tranças com tecidos, como aquelas feitas para se escapar das prisões.

A trajetória de Tunga é singular na arte brasileira. Se, por um lado, ele dá continuidade às propostas de Lygia Clark e Hélio Oiticica, valorizando a presença do espectador e o questionamento ao suporte, por outro, ele reúne elementos surrealistas, que imprimem certo mistério ao seu trabalho.

Seu pavilhão dá conta de tudo isso de forma orgânica e em sintonia com a natureza. Dessa forma, Inhotim consolida-se como espaço único no cenário nacional, onde se pode conhecer de fato a obra de artistas essenciais como Cildo Meireles e Hélio Oiticica -e agora Tunga.

Já "Ttéia 1C", de Lygia Pape (1927 - 2004), instalada em outro pavilhão, é uma obra-prima que faz ótimo diálogo com a nova configuração da Galeria da Mata. Lá estão obras de oito artistas que abordam a poética construtiva, como em trabalhos de João José Costa e Edward Krasinski.

Nas novas inaugurações, destoa apenas a obra da artista espanhola Cristina Iglesias, que criou uma instalação no meio do mato, sem o tom contemporâneo das demais obras do local.

O jornalista FABIO CYPRIANO viajou a convite de Inhotim

Posted by Marília Sales at 10:55 AM

novembro 4, 2012

Sem ousadia, pelo conforto por Sheila Leirner, O Estado de S. Paulo

Sem ousadia, pelo conforto

Crítica de Sheila Leirner originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de novembro de 2012.

Exposição erra ao apostar em noções antigas e corriqueiras

30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas, Fundação Bienal, São Paulo, SP - 07/09/2012 a 09/12/2012

Paradoxalmente, a boa vontade com que a 30ª Bienal de São Paulo foi recebida pelos brasileiros poderia ser explicada pelas mesmas reservas do crítico do jornal Le Monde e dos artistas Gilbert e George: "A exposição é trivial, a sua visita causa uma sensação de familiaridade(...) temos a impressão de que nada mudou nos últimos 30 anos". De fato, ao contrário da estimulante Documenta (13) e da formidável Trienal de Paris deste ano, esta é uma mostra confortável, lisa e sem choque, com a sustentável leveza do déjà vu e sem a fricção que a descoberta provoca. Só pode agradar.

A repercussão nacional parece nascer de um "consenso" construído mais por uma vontade do que pela realidade. Contudo, o crítico francês deixa claro que a bienal é "tristemente" trivial, que a sensação de familiaridade é "menos reconfortante do que decepcionante"; e os artistas ingleses acrescentam que "é uma perda de tempo, todos estão apenas revivendo o passado; se fosse uma exposição de 1971 seria muito boa".

A outra razão para a boa acolhida deste conjunto "passadista e corriqueiro" e de seu programa e estrutura conceitual pretensiosos mas sem grande imaginação, talvez seja a condescendência com que se costuma julgar um empreendimento miraculado, são e salvo da derrocada financeira que quase o impediu de se realizar. Sobretudo num País onde a cultura não é um bem inato, precisa ser defendido e adquirido com enorme esforço. Dá para entender, porém... adeus objetividade!

O "conforto" tem um preço alto e aqui ele é proporcional à falta de cumprimento da vocação primordial da Bienal, que é ser o verdadeiro barômetro, geralmente desconfortável, da situação artística internacional. O papel desta "antifeira" tem a obrigação de ser revelado não apenas a partir da reflexão sobre os caminhos artísticos, mas sobretudo da prática mesma de torná-los compreensíveis para o público.

Público que, diga-se de passagem, no sábado e domingo seguintes à inauguração, já estava reduzido a algumas dezenas de "gatos pingados". É possível que os que começavam a visita pelo terceiro andar, vissem o seu entusiasmo cair proporcionalmente ao declive das rampas vazias. Por mais que estivessem dispostos a compreender o que contemplavam e que percebessem as óbvias relações entre as obras e algumas analogias de linguagem interessantes, a sua curiosidade provavelmente era neutralizada pelo caráter descritivo e desapaixonado do percurso. Como se a sua trajetória tivesse sido formada pela acumulação de um "especialista", mais com o objetivo de narrar ou classificar exemplos do que de provocar vivências.

A pobre e exangue expografia acentua o olhar "científico" do organizador. Sem energia, impacto e interpelação, não há compreensão para o leigo, apenas absorção de informações. Com exceção de algumas poéticas que justificam o título da mostra, simbolizadas pelo núcleo Arthur Bispo do Rosario. Mas este não tem nenhuma relação - como quer o curador - com o formalismo e a elegância enganosa do "estilo" Sheila Hicks de tapeçaria. Teria muito mais a ver com a experiência genuína de uma Eva Hesse. A mostra Bispo do Rosário, ademais, não possui o espaço que merece. Está espremida, num local exíguo, onde não se consegue distância ou voltear as peças extraordinárias sem esbarrar em alguém.

Diante deste e de outros exemplos - como o desequilíbrio na maciça (e excessiva) presença fotográfica, o peso dado aos artistas mortos e/ou históricos (entre os quais Waldemar Cordeiro, com obras pouco representativas), a falta de consistência da maior parte dos artistas contemporâneos -, a hierarquia dos espaços, a distribuição e o número aleatório de obras para cada artista ficam ainda mais absurdos. Artistas manifestamente medíocres com "minirretrospectivas" como se fossem "salas especiais", artistas maiores jogados em áreas abertas e vice-versa. É quase um feito: a primeira vez que se vê uma graduação e uma ordem distributivas sem sentido e sem leitura. Ao contrário do que se afirmou, fora das relações analógicas que saltam à vista, não se percebe "autor e pensamento por trás".

Centro. O grande equívoco da 30ª Bienal, no entanto, é ter medo da complexidade, não se colocar dentro dos paradoxos do contemporâneo, não aceitar os rastos da ambiguidade e desconhecer totalmente o fascínio que pode exercer. Pode-se dizer que Luís Perez Oramas é o extremo oposto de Okwui Enwezor ou de Carolyn Cristov-Bakargiev. O erro desta Bienal é não tomar em conta a evolução do mundo da arte de um ângulo além da própria criação, aquele que é simplesmente lógico do ponto de vista da geopolítica e da geografia dos poderes e das trocas.

A noção de centro na arte, que durante muito tempo foi essencial, está morta. Quem vem de onde? Não são mais as obras que assinalam isto, nem os materiais, nem as técnicas, e muito menos as poéticas. Não há mais tendências plásticas, estilos que estejam na moda em Nova York ou Berlim. Existe um assunto de reflexão coletiva, a circulação permanente de referências, imagens, ideias e interrogações em todos os continentes.

É inútil ir procurar signos de especificidades locais e ocupar 50% da bienal com artistas latino-americanos. Hoje é até mesmo desnecessário inscrever a produção em passados históricos particulares, pois ela participa do mesmo e generalizado presente. No campo artístico - tanto quanto o econômico, político ou religioso - em 2012 passa-se finalmente ao regime da mundialização, como já foi previsto nas últimas décadas. É o fim do centro e das periferias. E é o fim das bienais renitentes que, como a 30ª Bienal de São Paulo, não mudam de modelo e, portanto, não conseguem mais espelhar a sua época.

SHEILA LEIRNER É CRÍTICA DE ARTE, FOI CURADORA DAS BIENAIS DE SÃO PAULO DE 1985 E 1987

Posted by Patricia Canetti at 8:48 PM | Comentários (1)