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janeiro 14, 2010
Novo secretário do MinC opera orçamento recorde por Jotabê Medeiros, O Estado S. Paulo
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 14 de janeiro de 2010.
Ministério terá R$ 2,2 bilhões, valor que, pela primeira vez na História, suplanta 1% do total do País, e executivo do Banco do Nordeste chega para modernizar gestão
Funcionário há 33 anos do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), o executivo Henilton Parente de Menezes foi nomeado ontem, conforme publicação no Diário Oficial da União, como o novo secretário de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic) do Ministério da Cultura (MinC). Menezes assume em substituição a Roberto Nascimento, que se desligou alegando motivos pessoais no início do mês.
A secretaria que Menezes vai dirigir é um bunker estratégico do Ministério da Cultura. Trabalhou ativamente na reforma da Lei Rouanet e faz a gestão do mecenato do incentivo cultural. Em 2010, ano de disputa eleitoral, a Sefic vai operar com a maior verba da história recente do País - a Comissão Mista do Congresso definiu, no Orçamento da União, um valor de R$ 2,2 bilhões para o MinC. É a primeira vez que a verba para a cultura ultrapassa 1% do orçamento do País (o total nacional é de R$ 1,86 trilhão).
Desse total, cerca de R$ 300 milhões deverão abastecer o Fundo Nacional de Cultura, que permite o estímulo direto a projeto culturais - sem utilizar o mecanismo de renúncia fiscal. Henilton Menezes, que se notabilizou como gerente de Cultura do Banco do Nordeste, investindo cerca de R$ 17 milhões anuais em projetos culturais no Nordeste, diz que chega ao MinC com a ideia de fazer um "choque de gestão" na Sefic para torná-la mais eficiente.
Segundo Menezes, o convite do ministro Juca Ferreira atende à necessidade de preparar a estrutura burocrática do Fomento e do Incentivo à Cultura para 2011, quando deverá entrar em vigor a nova Lei Rouanet - e, consequentemente, os novos fundos de incentivo à cultura, que destinarão recursos diretos aos produtores e artistas. Ele analisa que, apesar de seu antecessor ter deixado uma contribuição importante, um estudo de processos internos, é preciso mudar a estrutura hierárquica muito "pesada" da secretaria e transformá-la numa "estrutura matricial". O novo secretário diz que se trata principalmente de implantar um novo jeito de ver a gestão, um novo olhar "de quem vem de um banco, com uma lógica diferente do serviço público".
Diz que quer transformar a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que avalia projetos de todo o País, em "um grupo de pensadores, e não somente deliberadores de projetos", e esse perfil já começa a ser definido nos próximos dias, quando sairá uma instrução normativa regulamentando a nova CNIC. "Quero pessoas pensando em como otimizar o trabalho dos pareceristas, e também priorizar a informatização da secretaria, para voltá-la para fora. Nós precisamos fazer com que o proponente se sinta bem atendido, facilitar o trâmite dos projetos, para que, quando eles chegarem à prestação de contas, já venham instruídos. Outra coisa é focar a prestação de contas no projeto realizado."
Também é intenção de Menezes contratar um estudo de uma fundação (cita a FGV) para examinar os custos de ações culturais em todo o País. Segundo diz, a ideia é instituir "parâmetros de análise para poder enxugar os orçamentos", porque atualmente o ministério atua sem ter como comparar o custo de itens de um projeto em São Paulo e Teresina, por exemplo. "É muito irresponsável dizer que um projeto foi supervalorizado sem que se tenha um parâmetro."
Apoia a reforma da Lei Rouanet, embora admita que ainda não teve tempo de se aprofundar no novo texto. "Concordo com o conceito, que cria um novo instrumento para que o País todo possa ter acesso a esses recursos. Hoje, há Estados que têm zero por cento de acesso", considera. Ele também diz que é essencial aproximar as instituições vinculadas do MinC, como a Funarte, o Iphan, o Ibram e a Casa de Rui Barbosa.
O Banco do Nordeste é um dos que mais investem em cultura no País, e mantém centros culturais em Fortaleza, Juazeiro do Norte e no alto sertão paraibano, em Souza, cidade com pouco mais de 60 mil habitantes. Os resultados são surpreendentes - em Juazeiro, o centro cultural tem 1,2 mil visitas por dia, e em Souza, 1,1 mil visitantes diariamente. "O Centro Cultural de Souza é uma instituição que poderia eventualmente estar instalada aí na Avenida Paulista, tem qualidade equivalente. Essa é a ideia: não nivelar por baixo, promover a cultura da maneira mais elevada."
Henilton Menezes tem 48 anos e entrou aos 15 anos para o BNB. Agora, tem pouco mais de 10 meses para fazer um trabalho crucial. "Não gosto de hierarquia, não gosto que me chamem de senhor, não gosto de sala fechada", define-se.
Situação de museus de arte no país é deplorável por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo
Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 14 de janeiro de 2010.
Para crítico e curador, políticas do Estado brasileiro "refletem estatuto da arte na consciência da elite, que é inexistente"
Crítico, Curador e professor de história da arte, Paulo Sergio Duarte cita o abandono do Museu de Brasília como exemplo da indigência das políticas públicas em relação ao setor e diz que o Instituto Brasileiro de Museus é só "um escritório com diretoria e alguns assessores". Ele vê os museus como "instrumentos indispensáveis para qualquer sistema educacional que se preze" e advoga interação entre essas instituições e universidades.
Pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Candido Mendes, no Rio, Duarte, foi curador da 5ª Bienal do Mercosul (2005) e do Projeto Rumos Artes Visuais do Itaú Cultural, no ano passado. Ele cobra do governo Lula a definição de prioridades e defende que os museus federais sejam centros de excelência e formação técnica. Quanto às mudanças na Lei Rouanet, propõe tratamento especial para investimentos em aquisição de acervos e infraestrutura de museus -hoje preteridos em favor do patrocínio de exposições temporárias.
FOLHA - Qual é a situação da rede de museus do país?
PAULO SÉRGIO DUARTE - É preciso lembrar logo que só vamos falar de museu de arte, a cultura em tão elevado estado de condensação que nós não chamamos de cultura, mas de arte. No caso desses museus, a situação é deplorável. Existem ilhas razoáveis que estão longe de dar um bom panorama histórico da arte no país.
FOLHA - Qual é a responsabilidade do governo nessa situação?
DUARTE - Não é um problema só de governo, este ou passados. A política cultural do Estado reflete o estatuto da arte na consciência da elite brasileira. E esse lugar simplesmente não existe, com raríssimas exceções. Repetindo o que digo há 30 anos: percorrendo, em qualquer uma das duas maiores cidades do país, todos os seus museus, é impossível para um professor dar um curso digno da história da arte do século 20.
Tenho insistido sobre o fato de que neste ano Brasília completa 50 anos. Onde está seu museu de arte? No antigo Clube das Forças Armadas, depois cedido para o Casarão do Samba, e posteriormente transformado no museu de arte. Está lá num prédio interditado, cercado por hotéis de arquitetura pífia. Até aqui, este é o lugar do museu na capital da nação. Eu defendo que se faça um concurso internacional para este museu, como foi feito no Rio para o Museu da Imagem e do Som.
FOLHA - Isso é simbólico quanto à importância que o poder público confere à arte?
DUARTE - Isto não acontece por mero acaso no país no qual sobra dinheiro para malas em automóveis e aviões de pastores evangélicos, fraldas de dólares debaixo das calças de cabos eleitorais e até nas meias de deputados. Qual pode ser o estatuto da arte nesse lugar? Como acreditar que a arte é um conhecimento específico, muito importante para compensar os efeitos da indústria cultural, e formar um olhar crítico no cidadão se, na capital do país, é tratada de modo tão lamentável?
FOLHA - Como você vê a atuação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), criado pelo governo?
DUARTE - Por enquanto, é um escritório com uma diretoria e alguns assessores.
FOLHA - Como ele deveria se estruturar?
DUARTE - Os museus são, antes de tudo, equipamentos necessários à formação de cidadania e um instrumento indispensável de qualquer sistema educacional que se preze. Com as tarefas enormes e com o alarme de emergências tocando todo dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, não pode dar a devida prioridade aos museus.
Parodiando Carl von Clausewitz, na sua frase que já se tornou clichê: os museus são importantes demais para ficar nas mãos de museólogos. Os acordos e convênios com universidades e institutos de ensino e pesquisa nas diversas regiões do país poupariam da inchação o quadro de pessoal do Ibram.
Acredito que, para o primeiro mandato do presidente Lula, estava correta a política do Ministério da Cultura de prospecção do campo realizada pelas consultas a câmaras setoriais, reuniões e estímulos à participação. Mas já é tempo de ter focos precisos, prioridades de efeitos multiplicadores. Acima de tudo, as instituições federais têm de ser centros de excelência e de formação técnica.
FOLHA - Que prioridades?
DUARTE - Por exemplo, os projetos educativos dos museus devem priorizar a formação de professores e secundariamente se voltar para o cidadão comum. As visitas de turmas de alunos de escolas e colégios devem estar sempre programadas como trabalhos práticos de professores preparados pelos próprios museus em programas de convênios com as secretarias de educação. Os programas educativos para professores devem estar voltados para os docentes de todas as áreas, e não apenas para aqueles de arte e educação artística. Só desse modo fará sentido a divulgação dos números de visitação de alunos; por enquanto servem para a satisfação demagógica e a prestação de contas a departamentos de marketing de patrocinadores.
FOLHA - Em relação a museus, o que deveria mudar na Lei Rouanet?
DUARTE - Eu considero que deveria haver mais estímulo fiscal aos investimentos em infraestrutura dos museus e aquisição de acervos do que para exposições temporárias. Não se trata de acabar com o estímulo às exposições e sua documentação em catálogos. Mas a aquisição de obras e publicações que exigem longas pesquisas e não estão vinculadas a um evento temporário mereceriam receber tratamento diferenciado. O mais grave, segundo li na Folha [Ilustrada, 24/11/09], é o governo querer disciplinar ou mesmo proibir a remuneração dos profissionais contratados para dirigir museus ou instituições culturais que adquiriram um estatuto autônomo, como organizações sociais. É um estímulo ao pior amadorismo ou a uma péssima elitização das direções das instituições: só ricos, pessoas que não vivem do que fazem, poderão ocupar essa direção, ou funcionários mal remunerados.
FOLHA - Que lições devemos tirar do incêndio que destruiu parte importante da obra de Hélio Oiticica?
DUARTE - A primeira lição é que não se deve nunca dispensar uma consultoria de risco indicada por uma boa empresa de seguros para qualquer edificação que for armazenar acervos preciosos. Mais do que isso: uma das cláusulas ao uso das leis de incentivo à cultura para instituições que preservam acervos seria a realização prévia da consultoria e o financiamento, pela própria lei de incentivo, da execução de todas as medidas técnicas que sejam recomendadas.
Acho que quem primeiro deveria dar esse exemplo é o próprio Ministério da Cultura, realizar essa consultoria em cada uma das instituições sob sua responsabilidade. A verdade é que em muitos casos nem as normas estabelecidas pelos Bombeiros são cumpridas.
FOLHA - Se compararmos arte contemporânea, mercado e instituições do Brasil com arte contemporânea, mercado e instituições de países mais avançados, quais são os principais descompassos?
DUARTE - Temos atualmente uma excelente produção de arte, reconhecida, antes de tudo, por importantes instituições e coleções estrangeiras. Nossas instituições apresentam os mesmos descompassos que existem para outras áreas, a começar pelo sistema educacional: quais são os descompassos que existem entre os sistemas educacionais brasileiro, japonês, alemão, americano, francês e inglês, por exemplo?
Nossas instituições de arte estão para as instituições desses países assim como [estão] nossa educação e nossos serviços de saúde. Quanto ao mercado, me parece que amadureceu muito, nos últimos 20 anos, em São Paulo; se estrutura no Rio e em Belo Horizonte, mas depende exclusivamente de colecionadores particulares. As instituições públicas não têm recursos regulares para aquisições.
FOLHA - E as doações?
DUARTE - Dou um exemplo. A diretora do Museu Nacional de Belas Artes declarou que recebeu em poucos anos milhares de doações. O número publicado chegava a dezenas de milhares, embora isso possa ter sido um erro tipográfico. Mas, se é verdade, é evidente prova do elevado grau de indigência que conduz a política cultural de artes visuais. Integrar o acervo do Museu Nacional de Belas Artes deve ser privilégio reservado às obras de artistas que constituem um patrimônio do povo brasileiro e cuja fruição vai efetivamente formar o olhar do cidadão no campo da arte.
Visite-se a sala de arte moderna e contemporânea do museu e ver-se-á que, além das inúmeras lacunas, existe quase sempre a inversão de valores: quanto menos importante o artista mais espaço ocupa sua obra. É uma aula completa do que não deve ser feito.
janeiro 12, 2010
15 longos minutos de fama por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 12 de janeiro de 2010.
Quatro lançamentos comprovam a longevidade de Andy Warhol como fenômeno pop e contam como o artista construiu uma personalidade rentável e midiática
Andy Warhol gostava de se olhar no espelho para não ver nada. "Um crítico disse que eu era o nada em si, o que não ajudou muito", escreveu o artista. "Mas, se perguntassem qual é meu problema, eu diria: pele."
Homem que se tornou o nome mais conhecido da arte no século 20, Warhol odiava a própria cara. No mundo de celebridades que ajudou a arquitetar, criou um personagem magnético para ocultar suas falhas. Virou marca rentável até hoje.
Quatro livros lançados nos últimos meses do ano passado exploram o mito Warhol e repetem nas livrarias o alvoroço provocado pelas obras do artista pop em museus e galerias.
"Andy Warhol", de Arthur Danto, e "Pop - The Genius of Andy Warhol" (pop - o gênio de Andy Warhol), de Tony Scherman e David Dalton, são análises biográficas do artista. Enquanto o primeiro traça um paralelo entre Warhol e nomes atuais, como Jeff Koons, Damien Hirst e Takashi Murakami, o segundo mergulha nos detalhes da década de 1960, a fase mais produtiva de Warhol.
"I Sold Andy Warhol (Too Soon)" (eu vendi Andy Warhol cedo demais), de Richard Polsky, dá a dimensão de mercado da história, narrando o aumento dos preços das obras do artista em leilões e galerias.
Lançado no Brasil há dois anos, "A Filosofia de Andy Warhol", primeira tradução para o português do livro escrito pelo artista, se junta a "Popism" no segundo semestre, livro que ele fez com Pat Hackett, que redigiu seu diário a partir de conversas telefônicas.
Ele mesmo tinha preguiça de escrever. Se nas festas em Nova York Warhol era a figura midiática, de óculos escuros e cabelos arrepiados, não escondia o lado frágil quando estava entre seus assistentes. Era inseguro, inepto. Dependia até das duas empregadas guatemaltecas, que recolhiam os embrulhos de doces e chocolate em torno de sua cama todos os dias pela manhã.
"A maior coisa que ele fez foi criar esse personagem, como Buster Keaton ou Charlie Chaplin, um tipo clássico", diz David Dalton, autor de "Pop", que foi assistente do artista. "Ele criou uma imagem indelével, virou o oposto do que era."
Dalton documentou a construção e o sucesso dessa segunda pele e agora vê seu livro chegar às listas dos mais vendidos.
"Ele era como o Mickey Mouse", diz Arthur Danto. "Ninguém sabia como era a cara dos outros artistas, mas todo mundo consegue desenhar o rosto de Warhol." No auge da fama, o artista chegou a contratar um sósia para dar palestras e fazer aparições em seu lugar.
Foi por seu "charme profundo", nas palavras de Danto, que Warhol chegou à condição máxima de celebridade, despertando adoração e ódio. Anos antes de John Lennon, sofreu um atentado. Levou tiros calibre 32 no baço, estômago, fígado, esôfago e nos pulmões. Sobreviveu, sabendo que passava a ser também um mártir.
Pouco importa que Valerie Solanas, a psicótica autora dos disparos, não tivesse o artista como alvo. "A beleza ameaçada fica mais bela", escreveu Warhol após o episódio. "Se eu não fosse famoso, não teria levado tiros por ser Andy Warhol."
"Ele é como os Beatles", diz Richard Polsky. "Todo livro lançado sobre ele é um sucesso de vendas, as pessoas compram tudo com o nome Warhol."
Tanto que, quando Polsky comprou uma obra de Warhol, escreveu um livro narrando o episódio. Um colecionador finlandês ficou de olho no trabalho até que o autor decidiu leiloar a obra descrita no livro cinco anos depois. "Ele tinha lido o livro, pegou um jatinho e veio comprar o quadro em Nova York", lembra Polsky, que fez outro livro sobre a venda.
Entre as muitas teorias e poucas explicações concretas para o fenômeno Warhol, ele mesmo resume a questão numa frase: "Isso é porque as pessoas, mais do que qualquer outra coisa, querem estrelas".
Placidez e Devastação por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 08 de janeiro de 2010
Fotografia de Caio Reisewitz mostra um artista preocupado com as interferências do homem sobre a paisagem e o meio ambiente
Uma imagem impressiona e influencia Caio Reisewitz desde que começou a trabalhar como fotógrafo. Trata-se da pintura “Mata Reduzida a Carvão”, do paisagista francês Félix Taunay (1768-1824), que veio ao Rio em 1816 acompanhando seu pai, integrante da Missão Artística Francesa, e tornou-se o diretor da Academia Imperial de Belas Artes. Monumental, esse óleo sobre tela datado de 1830 documenta uma queimada na Mata Atlântica fluminense, mostrando que, no início do século XIX, a devastação – decorrente do projeto industrial de expansão de ferrovias – já era uma realidade aqui. Taunay revela nessa pintura uma consciência precoce com o meio ambiente, o que ecoa nas fotografias que Reisewitz fez de queimadas em Bertioga e em Itaquaquecetuba, em 2003 e 2006. Declaradamente inspirado pelas pinturas de paisagem que representavam o Brasil colonial, Reisewitz apresenta na exposição “Parece Verdade”, no CCBB Rio, um retrato dos extremos que caracterizam a paisagem e a cultura brasileira. Esta é a primeira exposição que reúne um conjunto expressivo da obra do fotógrafo paulistano.Selecionadas pelo curador Fernando Cocchiarale, são 50 imagens produzidas nos últimos oito anos, que, juntas, dão a ver as grandes linhas do pensamento visual do artista.
Além da influência da pintura realista e de um olhar preocupado com a preservação ambiental, outra questão que se mostra evidente é o discernimento que Reisewitz faz entre a paisagem natural e a paisagem construída: uma preocupação bastante pertinente na era do Photoshop, quando frequentemente se questiona até que ponto uma imagem é real ou montada. Esse é o caso de “Golf Club”, que apresenta um campo real com aparência artificial. A distância entre a fotografia e o objeto representado está entre os grandes temas de Reisewitz e isso se faz presente também na série recente de fotomontagens, de inspiração dadaísta, feita com recursos manuais e toscos, segundo o artista, “em reação ao Photoshop”. Entre as imagens expostas destaca-se também a série “Utopias Ameçadas”, concebida para a representação brasileira na 51ª Bienal de Veneza, em 2005. São seis fotografias de interiores de edifícios públicos brasileiros – de igrejas barrocas ao gabinete do prefeito de São Paulo, passando pelos edifícios projetados por Niemeyer – que chamam a atenção pela grandiosidade e imponência. É um trabalho sobre a arquitetura do poder, que, visto na perspectiva do conjunto, só evidencia o caráter grandioso que o artista confere às paisagens naturais. “Sim, com a fotografia quero devolver poder à natureza”, diz ele.
PLANTE ESSA ÁRVORE
Projeto Aldeinha/ http://www.bloomproject.org.br
Torne-se um colecionador de arte contemporânea e, de quebra, parceiro de um projeto de transformação socioambiental através da arte. Ao adquirir, por R$ 100, um metro quadrado virtual do Projeto Aldeinha, o comprador passa a fazer parte de uma rede social que inclui artistas, associações, empresários e até três mil habitantes de comunidades carentes da Lapa, na zona oeste de São Paulo. Converter um lugar deteriorado em espaço aprazível (ou em obra de arte) é a meta do artista plástico francês Jean Paul Ganem, que quer fazer um jardim de plantas coloridas e de arquitetura sustentável na área de 17 mil metros quadrados da favela Aldeinha, desocupada pela prefeitura no final de 2008. “Vamos criar núcleos de cooperativismo entre os moradores da favela que foram deslocados e resgatar a memória dos que passaram por ali, reproduzindo com plantas e pedras o traçado original da favela”, diz Ganem, autor de projetos de landscape art no interior da França, em aterros sanitários no Canadá e em pistas de aeroportos.
Além do jardim cromático, o projeto prevê um auditório, uma marquise, uma pista de skate, uma área conversível em espaço para shows, um espaço de inclusão digital, um espaço para grafite e um mirante para ver o pôr do sol. Mais importante ainda: prevê a capacitação profissional de marceneiros e jardineiros entre os antigos moradores da favela, para a construção de todos esses espaços. “O projeto tem um valor ambiental inestimável: ao preservar uma área permeável, que é várzea de rio, estaremos fazendo o contrário do que fizemos nas últimas décadas”, afirma Soninha Francine, subprefeita da Lapa, que está entre os seus apoiadores. A partir de 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, 17 mil cotas do projeto serão colocadas à venda na internet. O investimento aqui não é só em arte, mas no fortalecimento de valores bastante enfraquecidos atualmente, como cidadania e biodiversidade.
