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dezembro 17, 2009
Nova Lei Rouanet vai ao Congresso por Ana Paula Sousa, O Povo
Matéria de Ana Paula Sousa originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 17 de dezembro de 2009.
Em semana movimentada, Ministério da Cultura conclui mudanças na polêmica Lei Rouanet. A proposta deve ser encaminhada em caráter de urgência ao Congresso. Enquanto isso, criação do vale cultura fica para 2010 por pressão da oposição no Senado
O setor cultural já estava desacreditado, e o ministro Juca Ferreira evitava falar sobre o assunto publicamente. Mas, finalmente, o projeto de lei que muda a Lei Rouanet, responsável por movimentar cerca de R$ 1 bilhão por ano, será protocolado no Congresso Nacional.
No final da manhã da última terça-feira (15), o Ministério da Cultura (MinC) recebeu o sinal verde há muito esperado e, às pressas, começou a organizar a cerimônia de entrega do projeto ao Congresso. "Cumpri minha palavra", disse, com certo alívio, Ferreira. 'Fechamos um ciclo do movimento cultural brasileiro".
Também na terça, estavam na boca do Congresso as discussões sobre o Vale Cultura e o Simples, que desonera micro e pequenas empresas culturais. O MinC tinha a expectativa de que ambos fossem aprovados entre até ontem e seguissem para sanção presidencial.
Segundo o secretário-executivo do MinC, Alfredo Manevy, o projeto da Rouanet chega ao Congresso com pedido de tramitação urgente/urgentíssima, que asseguraria a aprovação em 90 dias. Questionado sobre o envio às vésperas do Natal e sobre a discussão em ano eleitoral, Ferreira argumentou: "Foi o tempo necessário. E o Brasil precisa pôr fim ao paradigma de que em ano eleitoral não se trabalha".
Prometida desde o primeiro mandato do governo Lula, a mudança, que deixa apreensivos produtores e artistas, passou por uma consulta pública e, depois, ficou seis meses em fervura no governo. "A área econômica tem dificuldade de compreender as singularidades da cultura", diz Ferreira. "Precisamos nos adequar às metas do governo, mas eu não estava disposto a mudar radicalmente o projeto". O ministro refere-se, sobretudo, ao incremento do fundo público.
A partir de 2010, devem ser disponibilizados, num fundo gerido pelo MinC, R$ 800 milhões. 'O fortalecimento e a desburocratização do fundo é a grande novidade, porque põe fim à busca do patrocínio", diz Manevy. O dinheiro, quase todo do Orçamento, será distribuído por meio de bolsas e prêmios. "Vamos construir uma rede de pareceristas, formada por especialistas de cada área, que escolherá os projetos".
A migração de dinheiro para um fundo divide o setor cultural. Alguns defendem que só assim se abre espaço para manifestações menos moldadas ao mercado, que tendem a encontrar as portas fechadas nas salas dos grandes patrocinadores, interessados em expor suas marcas. Para outros, a centralização de poder nos corredores do ministério pode dar origem a favorecimentos indesejados.
Outra mudança que deve causar ruído diz respeito à exigência de contrapartida empresarial. A proposta prevê que, para usar benefício fiscal, as empresas devam colocar ao menos 20% de recursos próprios num projeto. O texto estabelece três diferentes tetos de renúncia: 40%, 60% e 80%.
"Num primeiro momento, as empresas não eram favoráveis a essa ideia", diz Manevy. "Mas o próprio debate público as levou a isso. Tanto empresas estatais quanto privadas assumiram esse compromisso, então partimos do pressuposto de que manterão investimentos".
Muitos produtores temem, porém, que a medida acabe por afastar os empresários e dificulte ainda mais a captação. Cabe lembrar que apenas cerca de 20% dos projetos aprovados pelo MinC conseguem, de fato, patrocínio.
Modelo híbrido vai financiar a cultura por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo
Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 17 de dezembro de 2009.
Antes mesmo de aprovado, novo fundo aplicará R$ 800 milhões em incentivo direto - e a velha lei continuará ativa
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, apresentou ontem pela manhã na Câmara dos Deputados, em Brasília, o projeto da nova Lei de Fomento e Incentivo à Cultura, que substituirá a Lei Rouanet (8.313, de 1991). Dezenas de artistas compareceram ao ato, entre eles os diretores Zé Celso Martinez Corrêa e Aderbal Freire-Filho, o maestro John Neschling, as cantoras Fernanda Abreu e Sandra de Sá e o coreógrafo Ivaldo Bertazzo.
A grande novidade do projeto é o acionamento de um fundo público de incentivo direto à cultura, o Fundo Nacional de Cultura - o mecanismo já tem recursos de R$ 800 milhões para funcionar em 2010, e vai funcionar independentemente da aprovação da nova lei, segundo afirmou ao Estado o secretário executivo do MinC, Alfredo Manevy.
O MinC pretende manter um regime híbrido de financiamento à cultura em 2010, com a velha Lei Rouanet funcionando normalmente (enquanto se espera o trâmite da nova lei no Congresso), e ao mesmo tempo irrigar a cultura com o dinheiro do fundo. "O fundo é direto na veia. Aprovado o projeto, o produtor recebe o dinheiro", disse o ministro Juca Ferreira.
Questionado se essa mudança não iria desestimular as empresas a conceder patrocínio, o ministro afirmou que, atualmente, apenas 5% dos recursos aplicados por meio da Lei Rouanet vêm da iniciativa privada - 95% já são recursos públicos. Aprovada, a nova lei revoga a lei anterior. "A nova lei está para a Lei Rouanet assim como a Lei Rouanet estava para a Lei Sarney. É um aperfeiçoamento. A Lei Rouanet não continha sequer a palavra critério. Ficou marcada pela concentração, pela confusão, pela injustiça", explicou Alfredo Manevy.
O projeto de lei resulta de debates e estudos que o Ministério da Cultura promove desde 2003. Nos últimos meses, o texto foi submetido a consulta pública na internet, e foram realizados debates em 19 capitais. Manevy disse que respeita os críticos do projeto, como Odilon Wagner, da Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTI), mas considera que são sempre os mesmos e que tentam interditar o debate.
"São três ou quatro beneficiários. Diziam que a lei estava paralisada, e mesmo na crise a gente teve investimento. Do jeito que falam, parece que as empresas estão prestando um favor à cultura, e não se trata de um favor", ponderou. Segundo Manevy, 3% das empresas captam 50% de todo o dinheiro do incentivo, e mais de 8 mil projetos não captam nada.
Ainda assim, Manevy acredita que não cairá o valor destinado à renúncia fiscal pela Lei Rouanet no próximo ano. O montante será de R$ 1 bilhão. Com a aprovação da nova lei, o governo estima que esse valor subirá 20%, por conta da imposição, no texto, de que as empresas invistam ao menos 20% em projetos incentivados (os tetos de renúncia fiscal são apenas três agora: 40%, 60%, 80%). A nova lei prevê que 30% do recurso do Fundo Nacional de Cultura (FNC) sejam destinados automaticamente a Estados e Municípios.
O governo considerou um erro o anúncio da criação de um "escritório público de financiamento", expressão contida em cartilha distribuída pelo governo anteontem sobre as mudanças. A expressão foi suprimida do material distribuído à imprensa ontem. Um dos objetivos da mudança, informa o MinC, é democratizar o acesso aos recursos.
No Senado Federal, era ansiosamente aguardada ontem a votação do chamado Simples da Cultura. Trata-se de Projeto de Lei Complementar Câmara (200/09), que altera a alíquota de tributação para produções cinematográficas, artísticas e culturais. Se aprovado, o mecanismo mudaria as empresas de produção cultural para o Anexo 3 do Supersimples, alteração que reduz de 15% para 4% a tributação do setor. "É uma desoneração importantíssima e urgente, que significa uma queda de mais de 100% na carga tributária da cultura", observou Manevy.
O MinC vê o tema como suprapartidário. "A concentração da Lei Rouanet é muito grande. Mais de 20 Estados recebem menos de 2% dos recursos. O Acre recebeu zero este ano. Como o Congresso é muito ligados às suas bases, todos veem esses números com muita preocupação", disse Manevy.
dezembro 14, 2009
Arte pop em três tempos por Paula Alzugaray, Istoé
Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, em 11 de dezembro de 2009.
Individuais de Rauschenberg, Vergara e Fromanger mostram como a nova figuração se desenvolveu nos EUA, no Brasil e na França
Carlos Vergara: A Dimensão Gráfica / Museu de Arte Moderna, RJ / até 14/3/10
Gérard Fromanger: A Imaginação no Poder / Museu de Arte Moderna, RJ / até 31/1/10
Robert Rauschenberg: Instituto Tomie Ohtake, SP / de 16/12 a 21/2/10
O foco no mundo mediado pela grande imprensa, pela publicidade e pelos cartazes comerciais fez da arte pop o movimento mais popular da história da arte ocidental. Mais que um movimento, o pop é uma atitude que surge no começo dos anos 60, concomitantemente em Nova York, Londres, Paris, Milão, Los Angeles, São Paulo e no Rio de Janeiro, em reação à hegemonia da pintura abstrata e como crítica à sociedade de consumo. Na França e no Brasil, surge sob o nome de nova figuração. Nos EUA, seus artistas eram inicialmente conhecidos como novos realistas ou neodadas, mas a palavra pop logo se impôs. “A palavra pop é mais hollywoodiana do que histórica”, declarou o americano Robert Rauschenberg, que a partir da quarta-feira 16 terá 98 obras expostas em São Paulo. As nuances da atitude pop podem ser discernidas nas individuais de Rauschenberg, em São Paulo, do brasileiro Carlos Vergara e do francês Gérard Fromanger, no Rio.
A fotografia e a gravura dois meios de reprodução de imagens em escala massiva são mecanismos centrais da atitude pop. Nas “Combine Paintings” de Rauschenberg, a fotografia é apropriada de reportagens jornalísticas geradas diariamente pela imprensa e transferidas para a tela em processos acumulativos de impressões em silk-screen. Em Vergara e Fromanger, a câmera fotográfica funciona como caderno de notas para futuros desenhos e pinturas. Ambas no MAM-RJ, as exposições de Vergara e de Fromanger são uma boa oportunidade para conferir que tipo de diálogo se trava entre as novas figurações brasileirae francesa, embora as mostras não se limitem a obras dos anos 60. Em ambos os contextos, nota-se um misto de crítica e elogio ao pop. “Eles têm em comum uma mesma contaminação pop, só que atravessada por um tônus político distinto da vertente americana”, aponta Luiz Camillo Osório, curador do MAM.
A exposição de Vergara tem como fio condutor obras gráficas, realizadas em papel ou tela ao longo de quase 50 anos. São monotipias, gravuras, desenhos e composições em 3D que atestam a importância que a fotografia teve em toda a sua trajetória. O uso da fotografia como matéria-prima denota o interesse que o artista sempre teve na vida pública brasileira. “Não havia só as questões políticas da época, mas também as questões existenciais de um pós-adolescente, ligadas à mudança de comportamento da sociedade”, diz Vergara. Logo o Carnaval se tornaria seu grande tema, arena de reflexões sobre os rituais de passagem, a tradição popular na vida brasileira, o anonimato e a identidade nas cidades. Um dos pontos altos da exposição é “BR1”, desenho em rolo de 20 metros de papel, apresentado na Bienal de Veneza de 1980, com texto de outro artista carnavalesco: Hélio Oiticica. Embora Vergara considere que sua obra sobre o Carnaval nunca tenha sido bem assimilada, esse núcleo de obras produz um contundente comentário político sobre a capacidade de o brasileiro driblar com a alegria o controle da ditadura militar.
Fromanger tece seu comentário social através do trabalho com a cor. A pintura, para o artista francês, é uma forma de remarcação de territórios. Na série “Album le rouge”, dos anos 60, ele escorre a tinta vermelha de bandeiras das superpotências, manchando com a cor da guerra as fronteiras geopolíticas. Movido pelas manifestações de maio de 68, começa a produzir nos anos 70 uma série de pinturas a partir de fotografias tiradas nas ruas da capital francesa. Nesse trabalho inverte a ordem de valores da sociedade capitalista, deixando os cartazes publicitários em preto e branco e colorindo a população anônima das ruas. Fromanger é um artistadas fronteiras, aproximando em seu trabalhoo comentário social na nova figuração e uma poética de trânsitos e deslocamentos.
Aos 47, Vik Muniz ganha livro que reúne toda a obra por Mario Gioia, Folha de S. Paulo
Matéria de Mario Gioia originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 13 de dezembro de 2009.
Artista que mora em Nova York tem todos os trabalhos reunidos em catálogo
Objetos e séries pouco conhecidas se destacam no raisonné, publicação que pela primeira vez é dedicada a um brasileiro vivo
Uma espécie de "lado B" da produção do badalado Vik Muniz irrompe do volumoso catálogo raisonné da sua obra, que acaba de ser lançado no Brasil.
No país, é um caso único esse tipo de catálogo referencial ser dedicado à obra de um artista vivo. No Brasil, apenas nomes como Portinari (1903-1962) e Tarsila do Amaral (1886-1973) tiveram toda a produção organizada em publicações do tipo.
Nas 710 páginas da edição, lançada pela editora Capivara, há o registro da produção mais famosa do artista, a fotografia que faz referência a obras-chave da história da arte.
Mas há também objetos estranhos, registros fotográficos inspirados no minimalismo norte-americano e até uma série erótica, entre outras peças.
"Sinceramente, havia coisas que não tinha a menor ideia de que tinha feito, parece que tinham sido apagadas da minha cabeça", conta Vik, 47.
Séries menos conhecidas de Vik influenciaram sua decisão de produzir novamente objetos, centro de sua próxima exposição no Brasil, em setembro do ano que vem, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio.
"O catálogo é como se fosse apresentado a você uma grande árvore. Cada galho e bifurcação é um lado da sua produção, que poderia ter sido desenvolvido e não foi por um ou outro motivo.
Mas você sempre pode voltar neles", diz o artista. Na publicação, fica clara a influência da arte norte-americana no desenvolvimento da obra de Vik. O minimalismo e até a land art (gênero da arte onde as condições naturais são decisivas para a criação de uma obra de arte) passeiam por algumas séries do artista.
"Cheguei em 1983 nos Estados Unidos. Toda a minha carreira foi desenvolvida por aqui. Por isso, considero muito importantes nomes como Robert Smithson, Walter De Maria e Robert Morris", diz ele.
Para Vik, sua arte começou a ganhar corpo em 1996, com a série "Crianças de Açúcar".
"Os anos 90 tinham sido ruins. Estava pensando em abandonar essa coisa de ser artista. Aí expus essa série em uma pequena galeria do SoHo e foi um sucesso, deu uma grande repercussão. Expus no MoMA [o Museu de Arte Moderna de Nova York] logo depois."
Vik deve ir no fim de janeiro para a pequena Park City, em Utah, acompanhar a sessão de "Lixo Extraordinário" no Festival Sundance. A produção mostra o artista criando peças no aterro do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ).
VIK MUNIZ - OBRA COMPLETA, 1987-2009
Organizador: Pedro Corrêa do Lago
Editora: Capivara
Quanto: R$ 198 (710 págs.)
Quase um precursor por Ferreira Gullar, Folha de S. Paulo
Matéria de Ferreira Gullar originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 13 de dezembro de 2009.
Veja outros artigos no Dossiê Oiticica
Preservar a obra de arte é uma necessidade que nasceu quando o homem criou o conceito de arte
O INCÊNDIO que destruiu parte das obras de Hélio Oiticica trouxe à baila o problema da conservação dos acervos artísticos que, no Brasil, na maioria dos casos, ficam com os herdeiros. Afora as dificuldades que estes, muitas vezes, criam à exibição e difusão das obras herdadas, resta o problema da conservação delas. No caso em que não ficassem com a família do artista, deveriam ser entregues aos cuidados de algum museu, mas nem sempre estes dispõem de espaço e recursos para guardar, conservar e difundir satisfatoriamente novos acervos.
Por outro lado, os herdeiros resistem a abrir mão do controle que exercem sobre as obras herdadas; as quais, algumas vezes, valem verdadeiras fortunas. Um exemplo louvável de desprendimento material e respeito às obras do autor falecido foi dado por Maria Camargo, viúva de Iberê Camargo: propôs à Gerdau criar uma fundação para preservar e difundir as obras do marido, sendo que a empresa arcaria com os custos enquanto ela doaria todo o acervo à instituição. Deu certo. Um exemplo a ser seguido.
Preservar a obra de arte é uma necessidade que nasceu quando o homem criou o conceito de arte, mas os museus mesmos só surgiram na Europa já em começos do século 19. Antes, bem antes, já havia os colecionadores, surgidos graças à invenção da pintura a óleo e o quadro de cavalete, já que não seria possível colecionar afrescos e murais.
E a verdade mesmo é que a pintura e a escultura não nasceram como arte e, sim, como magia: quando o homem das cavernas percebeu, num pedaço de sílex, uma figura semelhante à cabeça de um bisão, certamente imaginou que aquele era um outro modo de existência do animal. Essa mesma fascinante semelhança entre a imagem pintada e os seres reais terá dado origem às pinturas parietais do Paleolítico, realizadas em cavernas escuras, com a ajuda de tochas acesas. Por que pintá-los em lugares quase inacessíveis e sem luz? Só a crença em suas possibilidades mágicas explica isso. Sem dúvida, não foram feitas visando à visitação pública, como ocorreria 18 mil anos depois.
Foi o homem moderno que os transformou em arte, objeto de contemplação e criou museus para conservar e exibir as obras que merecem essa qualificação. Com o tempo a função de guardar obras de arte emprestou aos museus uma espécie de função consagratória, segundo a qual o que ali está é arte, do contrário não estaria. Não obstante, pode haver ali obras que bem poderiam ser consideradas como "drogas de arte". É, portanto, compreensível que todo artista queira ter obras suas no acervo de museus, já que isso implica em reconhecimento tácito de seu valor.
Mas o museu também mudou, uma vez que o conceito de obra de arte sofreu grande transformação, a partir do começo do século 20. Se ainda no final do século 19 Cézanne desejava que sua pintura tivesse "a solidez das obras dos museus", essa já não parecia ser a preocupação dos cubistas e muitos menos de um dadaísta como Marcel Duchamp. Em razão disso, surgiram os museus de arte moderna, enquanto o Louvre e o Prado, por exemplo, são basicamente museus de arte do passado.
Os movimentos de vanguarda vieram por em questão o caráter permanente dos valores estéticos. Duchamp chegou a negar o valor artístico das obras dos museus, o que, aliás, já estava implícito no seu célebre urinol, adquirido numa loja de objetos sanitários. Não obstante, tanto essa sua "obra", quanto muitas outras, terminaram em museus.
Tenho observado essa contraditória relação entre as artes de vanguarda, anti-institucionais, por definição, e o museu, institucional, por natureza. E mais que isso: são os museus que atribuem valor artístico a essas obras. Por exemplo, o urinol de Duchamp, na loja de artigos sanitários, era apenas um urinol mas, no acervo do Pompidou, tornou-se obra de arte.
Ao contrário do escritor, cuja obra se garante escrita em algumas folhas de papel, o artista plástico, por se expressar através de objetos, tem que conseguir espaço onde guardá-los. Vivi esse drama, quando poeta neoconcreto, ao criar poemas-objeto.
Imaginando quantos deles faria ao longo da vida, tomei-me de angústia já que meu pequeno apartamento não os iria caber. Bolei, como solução, espalhá-los de madrugada pela cidade, numa espécie de ação terrorista. Depois evoluí para uma exposição que começaria às 17 horas e terminaria às 18, quando, ao acionar um detonador, as obras todas iriam pelos ares. Propus isso ao Oiticica, que não topou. Foi uma pena, pois, se a tivesse realizado, me teria tornado o precursor dos "happenings".
Mostra dedicada a Rauschenberg privilegia obras menos famosas por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 14 de dezembro de 2009.
Tomie Ohtake inaugura amanhã exposição do artista, morto no ano passado
O artista norte-americano Robert Rauschenberg (1925 -2008) costumava afirmar que a influência em sua obra de Josef Albers, com quem estudou no Black Mountain College, era "fazer o reverso" do que pregava o mestre.
No entanto, a mostra que o Instituto Tomie Ohtake inaugura amanhã, com quase cem obras de Rauschenberg, aponta o contrário: a experimentação com a cor, questão central para Albers, é um dos pontos principais das obras selecionadas.
Obviamente essa não é a vertente que levou Rauschenberg a se tornar um dos mais influentes artistas do século 20.
"Ele fez a ponte entre o expressionismo abstrato e a arte pop", diz David White, assistente do artista nos últimos 30 anos, que esteve no instituto para acompanhar a montagem da exposição. Curiosamente, Albers tampouco o admirava.
"Quando Albers via os trabalhos de Rauschenberg, ele fechava os olhos e comentava que nem queria saber quem era o autor daquelas coisas", conta o filho do artista, Christopher Rauschenberg, fotógrafo que passou pelo Brasil para expor em Brasília e também acompanhou a montagem da mostra.
Mescla de imagens
No Instituto Tomie Ohtake não estão as obras mais famosas de Rauschenberg, as "combine paintings", nas quais ele misturava a pintura aos objetos cotidianos, como colchões ou objetos empalhados, mas as 75 gravuras selecionadas apontam para um procedimento semelhante, onde ele mescla todo tipo de imagem.
"Durante uma época na história da arte, cada objeto num quadro tinha um outro significado, um cachorro podia representar o mal, por exemplo. Para meu pai, isso já não acontecia mais, ele mostrava as coisas pelo que elas são", conta Christopher.
Outro destaque da exposição são obras da série "Glut" (aglomerados), na qual ele se apropriava de restos encontrados no lixo, especialmente de metal, buscando "uma maneira de ver a beleza presente nos refugos", como diz Mimi Thompson, no catálogo da mostra.
A gravura, apesar de não ser a forma de expressão que o tornou mais famoso, esteve sempre presente em suas experimentações -quando Rauschenberg ganhou o Leão de Ouro, da Bienal de Veneza, em 1964, suas pinturas passaram a ser referência obrigatória.
Em 1953, ele espalhou 20 folhas de papel numa rua e pediu que seu amigo e colega do Black Mountain John Cage dirigisse seu carro com pneus recobertos de tinta, criando "Autombile Tire Print" (impressão de pneu de automóvel) e gerando uma radical forma de gravura.
Na mostra, esse episódio é tema da série "Ruminations" (ruminações), que aborda suas relações afetivas, como a com o próprio Cage.
Pequenos mundos de Jeanete Musatti por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo em 11 de dezembro de 2009.
Livro abrange trajetória da artista paulistana desde os anos 1970, por meio de imagens e textos de diversos autores
Pequenas grandezas - assim a crítica Ligia Canongia intitulou a obra da artista paulistana Jeanete Musatti. Desde a década de 1970, essa criadora vem fazendo uma obra poética, mas também, como bem define Ligia, uma armadilha para os espectadores: suas assemblages feitas com miniaturas de seres humanos, pedras e tantos objetos colecionados são "micromundos" particulares e simbólicos, em que temos sempre de nos debruçar para vê-los com o tempo da intimidade. E agora, mais um mergulho na delicadeza e arrebatamento da produção desta artista pode ser feito por meio do livro Jeanete Musatti, que a editora DBA lança hoje, a partir das 19 horas, na Livraria da Vila, nos Jardins.
É uma edição abrangente, que perpassa toda a trajetória de Jeanete, desde os anos 1970 até sua mais recente produção, apresentada ao público em São Paulo, no ano passado, na mostra Uma Exposição Dentro de Uma Exposição, na Galeria Nara Roesler. Organizado pela artista e pelo crítico e curador Ricardo Resende, o livro bilíngue é um misto de documentação e análise crítica da obra de Jeanete, reunindo uma seleção de textos de diferentes épocas assinados por Ligia Canongia (1983); Frederico Morais (1984); Aracy Amaral (1995); Jacques Leenhardt (1999); Francisco Faria (1999); Roberto Gambini (2002) e Olívio Tavares de Araújo (2006). Também se faz presente, de alguma maneira, na edição, citações ao livro Jeanete Musatti (editora Ex-Libris, 1991), do crítico Casimiro Xavier de Mendonça (1947-1992), referência sempre luminosa sobre a poética da artista.
Uma longa introdução é feita por Ricardo Resende, em texto no qual o crítico traça "três possibilidades de leitura" da obra da artista - pelas chaves do romantismo (a implicação da "tomada de posição sentimental frente à história da arte"), do surrealismo e da "fusão" dos dois movimentos, "amalgamados com os conhecimentos de Jeanete sobre a antroposofia". O livro, com grande quantidade de imagens das obras da artista, traz ainda depoimento de Jeanete, irmã dos colecionadores Adolpho e Horácio Leirner, concedido ao analista junguiano e escritor Roberto Gambini.
Serviço
Jeanete Musatti.
Org. de Ricardo Resende e de Jeanete Musatti.
Editora DBA. 304 págs. R$ 95.
Ernesto Neto cria sua primeira escultura rígida por Camila Molina, Estado de S. Paulo
Materia de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo em 12 de dezembro de 2009.
Artista carioca conhecido por suas instalações de formas em tecido apresenta a obra Mitodengo, estrutura feita em módulos de aço que se torna linha no espaço
Ernesto Neto está se sentindo mais escultor agora do que antes. É que ele criou sua primeira escultura rígida, de aço, mas não acredita que tenha, afinal, se rendido à tradição. Artista que desde a década de 1990 ficou conhecido por suas "naves", obras feitas em tecido para o espectador interagir, e por instalações com formas feitas em malhas finas preenchidas em suas extremidades por especiarias (coloridas e com aromas), ele criou agora Mitodengo, escultura monumental com quase cinco metros de altura feita pelo encaixe de 11 módulos em denso metal. "Tem rigidez, mas sensorialidade: o ferro é frio e é quente, azul e avermelhado", diz Ernesto Neto, que apresenta a partir de hoje sua nova obra no Galpão Fortes Vilaça.
Aço é ferro e carbono e, pela ação da umidade, vai se transformando com o tempo. Impossível não pensar nas esculturas cruas e geométricas de Amilcar de Castro já no primeiro encontro que temos com Mitodengo, mas Ernesto Neto ainda cita as referências outras que ele sempre teve em sua trajetória de escultor - a de Weissmann, Tunga e José Resende. "A tradição sempre esteve presente", diz o artista, interessado, como afirma, numa equação que faz o encontro da "maciez na rigidez, a vontade de natureza do brasileiro, essa mistura que a gente é".
Em seu discurso, o artista carioca diz várias vezes que não quer ser ocidental. "Não somos ocidentais porque não somos puros, a mistura é nossa essência, a relação figura e fundo para nós é diferente, é ampla, tudo pode acontecer nela, há espaço para a negociação, para a vida, o que gera até mesmo a corrupção", afirma em disparada Ernesto Neto. "É tudo menos geométrico, temos dança, temos dengo", continua ele - e sua escultura monumental é uma "linha no espaço" feita de formas orgânicas (remetem a folhas) "que se beijam". "Há essa emocionalidade da figura", afirma: Mitodengo, diz, é transitória, poderia estar no Galpão apenas por uns instantes e sair para continuar sua trajetória em outro lugar.
A escultura - "qualquer não-coisa que fica em pé" é como uma coluna vertebral de folhas rígidas. Ernesto Neto conta que o processo de sua criação vem de dois anos e meio, quando, ao realizar uma exposição que misturava a ideia de infância com a vida adulta, criou bancos feitos em módulos para crianças se sentar. "Do objeto de design foi se desenvolvendo até chegar a essa peça inédita, sozinha no espaço." Segundo ele, há até mesmo algo "ético" nessa simples operação que se valeu. "A junção de módulos é um processo construtivo visível, nada está escondido e ele se sustenta apenas pela gravidade." É fixo e é lúdico: contém em si todas as possibilidades, mas se firma excluindo todas as outras. Ernesto Neto tenta balançar sua obra para lhe dar movimento, mas a pele de Mitodengo é, enfim, dura.
