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dezembro 4, 2009
Diretores de museus desabafam por Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo
Matéria de Roberta Pennafort originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de dezembro de 2009.
Reunião ontem com o ministro Juca Ferreira, para discutir renovação de acervos, virou um fórum repetitivo de reclamações
A criação de um fundo permanente para a manutenção de museus, o investimento em aquisição de acervo e a possibilidade de instalação de centros de reserva técnica pelo País foram os pontos principais tratados no encontro que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, e o diretor do Instituto Brasileiro de Museus, José do Nascimento Junior, tiveram ontem, no Museu de Arte Moderna, no Rio, com cerca de 40 representantes de instituições, artistas e curadores. O foco inicial era a compra de acervos, mas, diante da complexidade dos problemas por que passam os museus brasileiros, de vazamentos de água em seus prédios à falta de público (menos de 10%da população brasileira já foi a um museu pelo menos uma vez na vida), a reunião, que durou três horas, acabou tocando em outros temas que preocupam a todos os envolvidos no setor.
Não são questões novas, como colocaram artistas e curadores, e conforme reconheceu o ministro. "Sempre surge uma sensação de dèja vu. Um golpe de mão seria mais rápido, mas não teria legitimidade", disse Ferreira, ao citar outras reuniões em que se discutiram os mesmos problemas e se fizeram propostas semelhantes para resolvê-los. O ministro, que anotou o que foi falado, assim como Nascimento, disse que espera ter um documento com as diretrizes para a criação de um fundo para os museus, que entraria no escopo da nova Lei Rouanet, até "março, abril ou maio" do ano que vem. A ideia é que se envie ao Congresso antes das eleições, de modo a garantir sua sobrevida. Tudo vai depender do orçamento do Ministério - Ferreira espera a confirmação do aumento para 1% do orçamento federal até o fim deste ano (hoje é de 0,6%, sendo que o sonho é se chegar a 2%; o entrave é que "a área econômica continua pensando a cultura como gasto, não como investimento", ele lamentou).
Dois pontos cruciais que marcaram as intervenções foram a preservação e a visibilidade da arte no Brasil. Uma proposta interessante defendida tanto pelo curador Marcio Doctors quanto pelo artista plástico Carlos Vergara é a criação de reservas técnicas que guardem obras que não pertençam efetivamente a museu algum, mas que possam ser disponibilizadas para públicos de várias cidades.
"Tenho dúvidas com relação ao modelo atual de museu. Neste momento, deveríamos pensar muito mais em um esquema de reservas técnicas abertas que contemplem um pensamento em rede, onde seria desaguada a produção atual e que tenham condições mínimas de preservação", sugeriu Doctors. "Deveria haver um acervo nacional de arte contemporânea em Brasília. Eu não estou falando de um museu do Niemeyer, mas um galpão mesmo", disse Vergara. Ele também defendeu que o governo subsidie o acesso aos museus, lembrando que sua exposição, no MAM do Rio, custa R$ 8.
Ferreira disse que queria ter feito a reunião há um ano e meio, mas desistiu da intenção inicial, de promover uma conversa conjunta também com galeristas, marchands, artistas e museus públicos e privados, porque percebeu que seria muito difícil chegar a qualquer consenso. O incêndio que, em outubro, destruiu parte da obra de Hélio Oiticica, guardada por sua família no Rio, antecipou o encontro. Ele ressaltou a necessidade de se trabalhar junto com o Ministério da Educação para qualificar os quadros técnicos dos museus, encorpando-os "conceitualmente". Concordou, em vários momentos, que é preciso avançar muito.
"A situação brasileira é muito precária. Não há um sistema que de fato dê conta dessa complexidade, mesmo dentro dos aspectos mais elementares, como a preservação física dos acervos. Não adianta a gente se mobilizar, num espasmo de consciência, quando acontece um acidente", disse. Ferreira anunciou que o orçamento do Ibram, instituído no início deste ano, crescerá em 2010 de R$ 45 milhões para R$ 70 milhões.
À tarde, o ministro anunciou o lançamento de dez editais junto com a Petrobras, no valor de R$ 29,3 milhões, a serem investidos em projetos de artes visuais, restauro de filmes e design, entre outras áreas. Os recursos serão disponibilizados graças aos lucros altos obtidos pela empresa.
Leia também:
Juca Ferreira quer fundo para museus ainda no governo Lula por Suzana Velasco, O Globo - 05/12/2009
Quase R$30 milhões para projetos do MinC por Alessandra Duarte, O Globo - 05/12/2009
dezembro 3, 2009
Duas chances de entender a arte conceitual de Felix por Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo
Matéria de Roberta Pennafort originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 3 de dezembro de 2009.
No Jardim Botânico, espaços inusitados concentram as esculturas do carioca
O ponto de partida foi um monumental bloco de 33 toneladas de mármore de Carrrara, na Toscana, que, cortado na Itália mesmo numa máquina especial, a partir de um desenho enviado por e-mail, virou um anel com 2,34 metros de diâmetro externo e a metade do peso. Três anos atrás, a peça veio de lá de navio. Seguiu do Rio para Vila Velha (ES), de caminhão, até o Museu Vale, onde foi exibido pela primeira vez. Cravado sobre três vigas de ferro de seis metros de altura dispostas verticalmente, o anel, obra do artista plástico carioca Nelson Felix, intriga agora quem passa pelo espaço das Cavalariças do Parque Lage.
A exposição foi aberta semana passada, assim como outra, paralela, na H.A.P Galeria, de Heloisa Amaral Peixoto, também no Jardim Botânico. Lá estão seis esculturas do mesmo material e com peças em ouro e bronze, além de dez desenhos em ouro sobre papel. A galerista viu na mostra a deixa para uma reforma e mandou ampliar a casinha da Rua Abreu Fialho em 50 metros quadrados para melhor abrigar suas peças. Essas obras também partiram de um bloco único. Felix não quer mesmo saber de emendas.
"O grande barato da arte contemporânea é que ela é totalmente permeada de conceito. Tudo é passível de ser lido sensível e teoricamente", diz. "A emenda só vai existir se eu quiser. No caso do anel, há a ideia do círculo, de estar dando a volta ao mundo. Se o conceito é de inteireza, tem de ser inteiro. Se você tiver de ficar lixando uma peça por seis meses, você fica. Isso é um presente que o artista dá pra si."
A arte de Felix dá a volta ao mundo há tempos. Traçando linhas no globo, ele a levou ao Caribe, à Islândia, à Austrália e à China, como um desdobramento da mostra no Museu Vale. Em pontos escolhidos a partir das coordenadas do museu, ele abandonou peças em mármore à sua própria sorte, na natureza.
Nas Cavalariças, galpão que já serviu de abrigo para cavalos da antiga fazenda original, ele já havia exposto em 2001. Parece uma extensão da floresta do lado de fora. Dessa vez, encheu o lugar de vigas que furam o piso de madeira. Para o anel escorregar até próximo ao chão, içado por guindaste, foi necessário retirar telhas da velha estrebaria.
É o trabalho se expandindo para além dos limites do espaço expositivo, uma marca que distingue o trabalho deste viajante que há 30 anos fixou residência e seu ateliê em Muri, na Região Serrana no Rio, a duas horas da capital. É um lugar recolhido, onde o celular não pega, e não há ninguém para distraí-lo de suas reflexões. "Hoje, estar lá é fundamental para o meu trabalho, porque a relação com o tempo é muito espichada. A sensação de se estar sozinho é importante."
Formado em arquitetura, Felix estudou com Lygia Pape e Ivan Serpa na década de 70. Ele trabalha com mármore desde o início dos anos 90. O material não é fácil. É caro, tem de ser importado da Europa, são poucas as opções de empresas que o cortam, eo transporte é complexo.
Em junho de 2005, uma de suas obras, Vazio Sexo, que pertence a um colecionador brasileiro, se partiu em pedaços ao ser levada para uma exposição em Paris. Caiu da empilhadeira. A peça, um cubo de mármore de 90 centímetros de lado e 2,5 toneladas, com um outro cubo menor contido nele, como uma gaiola, havia lhe custado cinco meses. Felix está trabalhando na confecção de outra para reposição.
Vergara e Pizarro: o gosto por misturas incomuns por Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo
Matéria de Roberta Pennafort originalmente publicada no Caderno 3 do jornal O Estado de S. Paulo em 3 de dezembro de 2009.
Os dois artistas mostram no MAM do Rio trabalhos distintos, mas revelam uma preocupação com suportes pouco convencionais, de lenços e papel craft a parafina
Obras de arte que se utilizam de suportes pouco convencionais estão em exposição em dose dupla no Museu de Arte Moderna do Rio. No salão monumental, estão 200 trabalhos de Carlos Vergara, dos anos 60 para cá, sobre lenços, cortes de poliéster, papel craft; na entrada, foi alocada Morros Velados, a pequena mostra de Luiz Pizarro, com 20 trabalhos inéditos à base de parafina produzidos nos últimos três anos.
Carlos Vergara: A Dimensão Gráfica - Uma Outra Energia Silenciosa fica no MAM até 14 de março. É uma oportunidade de conhecer um Vergara que vai além da pintura. O foco está no desenvolvimento de sua linguagem gráfica, por meio de monotipias (em lenços, por exemplo), desenhos (como as que resultaram em camisetas de blocos de carnaval), fotografias (em especial, registros do carnaval carioca, em parte tridimensional) e gravuras.
"Achei que este era um novo olhar sobre o trabalho, e muito interessante", diz Vergara, ao comentar o recorte feito pelo curador George Kornis, de cuja coleção saiu parte das obras. Uma outra veio do acervo pessoal de Vergara, que até pouco tempo atrás estava "acumulado de forma não-científica" em seu ateliê de Santa Teresa. Quem o ajudou a colocar tudo em ordem foi o filho, João. "Eu produzo coisas e vou me apaixonando por algumas, querendo que elas fiquem perto de mim."
O mural Nara (2001), de 7 m x 2,10 m, impressiona já na entrada. O Painel de Veneza, de 20 metros de comprimento, que foi para a edição do festival italiano de 1979 e integra a Série Carnaval, nunca havia sido exposto no Rio. É uma boa amostragem de décadas de uma produção que não para - na exposição, há trabalhos de 2008 e deste ano. Vergara não gosta de voltar-se ao passado. "O termo "retrospectiva" parece que é relativo a alguém que está no fim do caminho, olhando para trás. Estou em plena produção."
Revelado na mostra coletiva Como Vai Você, Geração 80?, realizada em 1984 no Parque Lage, no Rio, com artistas como Beatriz Milhazes, Daniel Senise e Jorge Guinle, Pizarro é um carioca radicado há dois anos em São Paulo. A distância de sua cidade - em períodos diferentes, ele morou em Colônia, na Alemanha, e em Paris - fez com que seu olhar sobre a cidade em que nasceu se tornasse um pouco estrangeiro.
Ele procurou, na internet, fotografias do Rio feitas por turistas. A partir delas, criou imagens que remetem a cartões postais, como o Cristo Redentor, o Pão-de-Açúcar e a Lagoa Rodrigo de Freitas, e a morros tomados por favelas. Por vezes, a paisagem carioca é invadida por gárgulas da Catedral de Notre Dame, "lembranças" de Paris que ele associa às brasileiríssimas carrancas do Rio São Francisco.
A parafina é de velas comuns e é "colorida" de preto. No caso das peças maiores, foram gastas até 500 velas. Pizarro já havia trabalhado com o material por volta de 1995, quando ele estava na Alemanha. Foi uma descoberta por acaso, lembra o artista. Ele estava fazendo experiências no ateliê e percebeu que, ao cobrir as velas derretidas com papéis impressos, a tinta passava para a parafina. Por volta de 2004, voltou a usar o material.
Pizarro já expôs obras do gênero no Paço Imperial, no Rio, e na Galeria São Paulo. No caso das de Morros Velados, sua reflexão tem a ver com a dicotomia entre a autoimagem da cidade e como ela é vista de fora. "Essa é uma maneira de falar da gente. O distanciamento fez com que eu tivesse menos o olhar de pai e mãe, que protege. O Rio é maravilhoso, mas temos problemas." A exposição fica no MAM até 3 de janeiro.
Museu Nacional amplia acervo de contemporâneos por Roberta Pennafor, O Estado de S. Paulo
Matéria de Roberta Pennafor originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 3 de dezembro de 2009.
Com a nova política de aquisições, instituição recebe obras de colecionadores e dos próprios artistas
A seção mais conhecida do Museu Nacional de Belas Artes é a de pintores brasileiros do século 19, como Vitor Meireles, Pedro Américo e Almeida Júnior. Mas a política de aquisição hoje privilegia a arte contemporânea, que ganhou uma galeria nova em 2006. A produção atual também responde por 80% das 6.500 das doações feitas à instituição nos últimos seis anos, por pessoas jurídicas, colecionadores e pelos próprios artistas.
Nesse período, o MNBA recebeu obras de nomes como Daniel Senise, Adriana Varejão, Manfredo de Souzanetto e Gonçalo Ivo. "Os próprios artistas ajudaram a criar a galeria de arte moderna e contemporânea, que antes se chamava galeria do século 20. Começa em Visconti e passa por Tarsila, Di Cavalcanti, Portinari. Temos buracos na coleção, estamos buscando Lygia Clark, Helio Oiticica, Ismael Nery...", explica a diretora Mônica Xexéo, que calcula em mil a média de obras doadas todos os anos.
Ela lembra que antes de pensar em adquirir acervo foi preciso pôr ordem na casa. O prédio construído para sediar a Escola Nacional de Belas Artes, e hoje abriga cerca de 16 mil peças de arte, entre pintura, escultura, desenho e gravura brasileira e estrangeira, foi inaugurado em 1908 e estava malconservado até três anos atrás. De lá para cá, o telhado foi consertado, a área da reserva técnica, dobrada, e a construção, modernizada.
Finalizada a grande reforma, o MNBA adquiriu, com recursos do Programa de Qualificação dos Museus para o Turismo, dos Ministérios do Turismo e da Cultura, sete peças que retratam membros da família Ferrez, ao custo de R$ 450 mil. Elas chegaram ao museu no início deste ano. "Agora, estamos seguros para realizar aquisições. Eu não podia pedir antes, sem ter como guardá-las", diz Mônica. Ela não acha que seja "necessariamente difícil" conseguir verbas federais para a compra de acervo - o que deve ocorrer no ano que vem.
Mônica acredita que a possibilidade de dedução do valor da doação do Imposto de Renda pode aumentar o pequeníssimo número de colecionadores particulares, que só chega a 1% do total no caso do MNBA. Quando se trata de artistas vivos que fazem suas doações, a medida os ajudaria a se manter, opina.
O Museu de Arte Moderna tem o privilégio de contar com as aquisições anuais da Coleção Gilberto Chateaubriand, que segue em regime de comodato desde 1993. O megacolecionador, dono do mais completo conjunto de arte moderna e contemporânea brasileira, num total de mais de 6 mil peças de cerca de 300 artistas, compra em média 300 obras por ano. Com isso, ganha o MAM, que se mantém atualizado com a produção nacional.
Chateaubriand, que tem obras também em museus públicos, como o MAC de São Paulo - o MAM do Rio é privado, então não se enquadraria nos casos passíveis de dedução -, acha que o incentivo de 6% teria de ser maior para que outros colecionadores se sintam estimulados. "Isso não é nada, 6% é muito tímido. E doação é algo muito complicado, porque não se tem a garantia da permanência da instituição."
Na opinião do curador do MAM, Luiz Camilo Osório, para convencer particulares a ajudar é preciso ainda desburocratizar o processo. Não só no caso das doações, mas também de repasses para manutenção de reserva técnica, investimento em pessoal, em equipamento e em infraestrutura. "Os departamentos de marketing das empresas não estão interessados nisso, porque não dá tanta visibilidade. Se não for via incentivo ou via Fundo de Cultura, fica difícil."
No mundo das artes, doar ainda é problema por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo em 3 de dezembro de 2009.
Autoridades no assunto discutem os impasses na hora de renovar acervos
No ano passado, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP renovou seu acervo com um conjunto de 40 obras do fotógrafo mexicano Pedro Meyer, pioneiro da fotografia digital há quase 30 anos. Para adquirir as obras, pagou uma taxa simbólica de US$ 1 mil e ainda contou com patrocínio de uma empresa de impressão de imagens. Criou-se, até mesmo, certo problema na alfândega quando as dezenas de peças chegaram ao Brasil "compradas" por um preço tão baixo. Na verdade, tudo não passou de uma estratégia conjunta entre o MAC e o artista para que as imagens, enfim, ajudassem a preencher a lacuna de fotografias contemporâneas do museu - os recursos eram para despesas de transporte, como diz a vice-diretora da instituição, Helouise Costa. "Da década de 1980 até hoje, quando a USP decidiu não mais dar verba para aquisição, apenas para manutenção, o MAC depende de doações."
Se alguém pensa que é fácil doar e receber obras de arte, o exemplo acima mostra que não é bem assim. No Brasil, este não é um problema específico apenas de um museu. Como as regras e as políticas de aquisição de obras para instituições ainda se firmam no País, os museus, sem verba para a compra de peças artísticas, têm de esperar a boa vontade de colecionadores ou dos próprios artistas que querem doar suas obras.
"Em termos genéricos, política de aquisição existe, mas é uma complicação", diz o curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Teixeira Coelho. Respeitando a vontade de anonimato de um colecionador, ele cita um exemplo recente vivido pela instituição: um colecionador queria ceder ao Masp a obra de um artista moderno estrangeiro, comprada no exterior, mas os impostos cobrados pela Receita Federal não faziam valer sua boa vontade. "Ou se concorda em isentar as doações de tantos impostos ou o museu tem de arcar com os impostos e, nesse caminho, quase sempre o doador desiste", diz Teixeira Coelho, que defende uma "ação concertada" entre os ministérios da Cultura e da Fazenda. "Todo mundo quer cultura, mas não quer pagar por ela", continua o curador, ainda emendando que há outro entrave: como hoje as obras de muitos artistas brasileiros se equiparam às de estrangeiros - uma peça do escultor Sérgio Camargo (1930-1990) de 1964 foi vendida recentemente em Nova York em leilão da Sotheby"s por US$ 1.594.500 -, "as pessoas pensam mil vezes antes de doar uma obra".
Hoje pela manhã, ocorre no Museu de Arte Moderna do Rio uma reunião solicitada pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, com diretores de instituições nacionais e representantes do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) justamente tendo como tema a política de aquisição de acervos. Trata-se de uma continuidade de discussões sobre a questão, alavancada, ainda, pelo episódio do incêndio de obras de Hélio Oiticica (1937-1980) e de seu pai, o fotógrafo José Oiticica Filho (1906-1964), ocorrido em outubro, na casa da família dos criadores, no Rio - as peças deveriam estar em uma instituição, mas como familiares podem ceder as criações aos aparatos museológicos? "Desde 2003 há um edital do Ministério da Cultura de modernização de museus, que permite aquisição de obras, mas poucas instituições usam porque, primeiro, necessitam da qualificação das reservas técnicas. Nossa intenção é que tenhamos um edital específico de R$ 10 milhões para aquisição de acervo, via Petrobrás ou ministério", diz José do Nascimento Jr., do Ibram.
Outras propostas de estímulo à doação/cessão são a de lei do deputado Angelo Vanhoni (PT-PR) de dedução de 6% do Imposto de Renda do valor de obras de arte doadas (leia ao lado) e o anteprojeto de Michel Etlin (Associação Nacional das Entidades Culturais Não-Lucrativas) também de incentivo fiscal para patrimônio de herança - e pode-se citar ainda os editais da Caixa Econômica Federal e da Funarte, ambos da esfera federal. "Governos estaduais e municipais também têm de adquirir", diz Nascimento.
Apesar de as instituições terem seus conselhos consultivos para decidir se a obra tem relevância para entrar no acervo do museu - e "a maioria não é aceita, é um ônus para a instituição", como diz Helouise Costa -, a doação é a principal fonte de aquisição. Mas esta é uma época diferente das décadas de 1940 e 50, quando figuras como Ciccillo Matarazzo e Assis Chateaubriand doaram suas coleções preciosas para criação do MAC e Masp. Já houve casos notáveis, como o da tela Banhista Enxugando o Braço Direito, de Renoir, que foi cedida em 1948 ao Masp por uma lista de nada menos do que 26 doadores. Era a sociedade se mobilizando em nome da arte.
Dois Mecanismos:
DOAÇÃO: Obras doadas por artistas ou por terceiros têm sido o principal mecanismo de entrada de peças nos acervos dos museus, já que não há verbas específicas nas instituições para compra de obras. Mesmo assim, como diz Teixeira Coelho, as doações "existem a conta-gotas", grande parte delas, de obras sobre papel, que têm preços reduzidos. Para colecionadores, um entrave criado são os impostos cobrados pela Receita Federal.
LEI ROUANET: O uso de patrocínio por meio da lei de incentivo ainda é pouco utilizado pelas instituições, dado, entre um dos motivos, pelas exigências do Ministério da Cultura para a aprovação dos projetos de aquisição. "Nem sempre as instituições têm claro o que querem", diz José do Nascimento Júnior, do Ibram. O MAC, por exemplo, teve seus projetos recusados, mas o MAM e a Pinacoteca vêm tendo uma entrada razoável de obras em suas coleções por meio de patrocínio de empresas - o caso de maior vulto ocorreu no ano passado, quando as duas instituições receberam R$ 2 milhões do banco Credit Suisse para compra de obras. Parcerias de instituições com as feiras SP Arte e Pinta/NY têm sido também fonte.
Destaques De Aquisições Recentes:
MAM- SP: Em 2009 entraram para o acervo da instituição75 obras, entre doações feitas por artistas, por terceiros, por intermédio dos Clubes de Colecionadores de Fotografia e de Gravura do museu e por patrocínio de empresas. Entre as aquisições, estão obra da década de 1950 da pintora concretista Judith Lauand, a única mulher que participou do Grupo Ruptura; a instalação Pic Nic (2000), de Marco Paulo Rolla; duas gravuras de Arthur Luiz Piza de 2009 e uma de Mira Schendel, de 1975; as cadeiras Harumaki, Golfinhos e Tubarões e Cone, dos irmãos-designers Fernando e Humberto Campana; um conjunto de cinco trabalhos realizados entre 1968 e 1975 por Antonio Manuel - Clero Define Situação, Sem Repressão Há Ordem; Contra Repressão, Guerra do Consumo/Vampiro Insaciável e Povo; além de obras fotográficas de Adriana Varejão e gráficas de Albano Afonso e grande núcleo de 24 peças de Luiz Guardia Neto, a maioria delas, da década de 1970. O MAM já teve aprovado pelo Ministério da Cultura seu plano de aquisição para 2010, no qual as telas Dados (R$ 250 mil) e Andamento I (R$ 750 mil), ambas da série dos Carretéis, de Iberê Camargo - segundo Felipe Chaimovich, não há obra do pintor no acervo do museu.
MASP: Fazendo uma comparação entre a arrancada de doações que o museu recebeu em sua implantação, movimento ocorrido principalmente até o fim da década de 1950, o Masp teve um declínio grande de entrada de obras em seu acervo, amplo, diga-se de passagem (tem cerca de 7 mil obras). Em 2009 entraram para a coleção da instituição apenas seis (!) peças: dois trabalhos sobre papel e um óleo sobre tela de Niobe Xandó, uma armadura do século 19; uma tela de Nelson Screnci - Metamorfose de Excluídos; e Natureza Morta com Relógio, óleo e têmpera sobre tela e madeira de Leo Contini. Todas as obras foram doadas. Mas vale citar como obras adquiridas recentemente o desenho Cavaleiro (1940), de Salvador Dalì - no ano passado; a tela Cena Mitológica (1498), atribuído a Guercino - em 2006; e a instalação Apartamento, de Regina Silveira - doada pela artista em 2007.
PINACOTECA: EM 2009, o museu teve 66 obras adquiridas, sendo 15 pela doação do Credit Suisse (trabalhos de Daniel Senise, Rosangela Rennó, Beatriz Milhazes, Valeska Soares, Carmela Gross, Efrain Almeida, Carlos Zilio, Ivan Serpa, Marepe e Caetano de Almeida; 49 com articulação de verba do Governo do Estado de São Paulo - entre elas, conjunto de gravuras de Fayga Ostrower e Anna Letycia; 1 pintura, Casario (1946), de Iberê Camargo, doação Associação dos Amigos da Pinacoteca; e 1 escultura em madeira de Amilcar de Castro, por meio de edital da Funarte.
MAC-USP: A instituição teve 20 obras doadas incorporadas em seu acervo este ano: três do artista Alex Flemming; a instalação Árvore do Desejo, de Yoko Ono; sete gravuras de Renina Katz, realizadas pela gravadora entre 2002 e 2003; e nove serigrafias e litografia de Claudio Tozzi, dos anos 1970 e 1990.
Projeto de lei
Foi aprovado no dia 4 de novembro um projeto de lei que abre a possibilidade de os doadores de obras de arte deduzirem de seu Imposto de Renda até 6 % do valor da doação. Quem aprovou foi a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e o projeto (número 2764/08) é de autoria do deputado federal Angelo Vanhoni (PT-PR). Haverá uma restrição: para acionar o desconto no IR, essas obras devem ser cedidas a instituições que façam parte do Sistema Brasileiro de Museus. O projeto deve ainda passar pela Comissão de Finanças e Comissão de Justiça, processo que Vanhoni acredita ocorrer até no máximo no primeiro semestre de 2010.
"Isso dá um estímulo tanto para quem é pessoa jurídica quanto física. Às vezes, na casa de alguém tem um quadro ou uma obra, mas essa pessoa é herdeira e nem tem relação ou aprecia aquele trabalho que deveria estar melhor cuidado em acervo público", diz o deputado. O valor de 6%, segundo Vanhoni, se deu diminuindo pela metade a média das alíquotas de IR que variam entre 15% e 25%. "Senão a área de finanças e arrecadação do governo não aceitaria a proposta."
O estímulo foi visto como positivo para a maioria dos entrevistados pelo Estado, mas Emanoel Araújo, do Museu Afro Brasil, acredita que seja pouco. "Deveria ser de 50%."
dezembro 2, 2009
A estética do movimento pelo pioneiro Abraham Palatnik por Camila Molina, O Estado de S. Paulo
Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo em 2 de dezembro de 2009.
Mostra apresenta síntese de sua trajetória dedicada a criações cinéticas no Brasil
Abraham Palatnik é considerado um pioneiro da arte cinética no Brasil. Antes de fazer suas primeiras máquinas, era apenas pintor, mas desistiu dos pincéis quando, em 1948, no Rio, visitou o Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro com o crítico Mário Pedrosa, conhecendo, assim, o trabalho de arte que a doutora Nise da Silveira realizava com doentes mentais. "Fiquei muito impressionado com as pinturas que eles faziam. Quando as comparei com minhas obras, vi que meu subconsciente era muito pobre", diz Palatnik. O artista ficou atordoado, queria criar algo novo, e foi Pedrosa que o "acalmou" e o incentivou, dizendo que muito podia ser feito. "De repente me vi cercado de engrenagens, articulações, de uma pesquisa sobre a luz", afirma o artista. Em 1951, exibiu na 1ª Bienal de São Paulo o Aparelho Cinecromático, uma caixa em que são projetadas formas coloridas em movimento, obra que ninguém sabia definir naquela ocasião.
Desde então, foi uma trajetória sem limite para a experimentação, em técnicas, materiais e objetos cinéticos - e esse dado tão especial relacionado ao artista, agora com 81 anos, é o mote da exposição Ocupação Abraham Palatnik, que o Itaú Cultural inaugura hoje para convidados e amanhã para o público. Com curadoria de Aracy Amaral, convidada de Palatnik para tal tarefa, a exposição é enxuta, uma "síntese", ela diz, que ressalta a variedade de experimentações e que coloca, além de obras, três vídeos sobre o artista e o contexto das criações de seus trabalhos.
A mostra começa com o único óleo sobre tela do conjunto, único, também, autorretrato que Palatnik, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, realizou em 1945, em Israel, coincidentemente, concluído no dia em que foi anunciado o fim da 2ª Guerra. "Hitler estava acabado e já era esperado o término da guerra", conta o artista. Depois de seu autorretrato, única obra figurativa, seguem-se na mostra pinturas feitas com barbantes, ripas de madeira cortadas a laser e sobre vidro, duas raras criações em resina poliéster da década de 1970, além, claro, de objetos cinéticos realizados em anos diferentes - pelos quais Palatnik, que vive no Rio, está identificado - e um Aparelho Cinecromático que, instalado em uma sala escura, deixa o espectador hipnotizado pelo movimento lento e leve das combinações diversas de formas em tantas tonalidades.
Dar ordem ao movimento é uma das considerações que se faz em relação à obra de Palatnik, "artista anticaos" que, curiosamente, ressalta em suas criações algo de lúdico nos objetos feitos de uma tecnologia simples e inteligente. "Penso nos objetos cinéticos dele como um trabalho de relojoaria, em que os elementos se unem em harmonia", diz Aracy. "Sempre trabalhei sozinho nos mecanismos e máquinas, fazendo articulações inventadas por necessidades imediatas: e deu certo", afirma agora Palatnik, que, curiosamente, conta que seu ensejo para a criação de seu primeiro Aparelho Cinecromático foi a observação da sombra de uma vela em um dia que houve falta de eletricidade.
Iniciou-se, assim, uma pesquisa de décadas sobre a luz e o movimento sem deixar de ser, ainda, uma experimentação com a cor - Palatnik "também" é pintor, como diz. Para um artista que se baseou em "princípios estéticos, a vida toda", ele afirma, chama a atenção que o cinetismo não se dá apenas nas máquinas e aparelhos, mas também nas telas, que são construções, relevos em progressões e ondulações de camadas de ripas de madeira, cartões cortados com estiletes, tela com barbantes ou a pintura de uma geometria leve sobre o vidro. "Fui desenvolvendo a técnica adequada para cada material", afirma Palatnik. Primeiro, como frisa, sua preocupação é o movimento para depois colocar a cor, "último elemento, o mais prazeroso", diz Aracy.
dezembro 1, 2009
Documento une 28 instituições de arte de SP, Folha de S. Paulo
Matéria originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 1 de dezembro de 2009.
Reunião pretende ampliar papel da cidade no circuito artístico e propõe ações na Bienal
Encontro foi conduzido pelo presidente da Bienal; Itaú Cultural, MAM e Sesc são algumas das entidades que participam de acordo
Com a assinatura de 28 instituições culturais, foi lançado ontem o manifesto "Unindo Esforços durante a 29ª Bienal -São Paulo, Polo de Arte Contemporânea", na Fundação Bienal de São Paulo. O encontro contou com significativos membros da área na cidade, como o secretário de Cultura do Estado, João Sayad, e o diretor regional do Sesc em São Paulo, Danilo Santos de Miranda.
O documento afirma que São Paulo, "principal centro de difusão artística do país, credencia-se naturalmente a ampliar seu papel de protagonista no processo cultural, assumindo-se como polo mundial de arte".
As 28 entidades propõem quatro ações em torno da 29ª Bienal de São Paulo, prevista para ocorrer entre 21 de setembro e 12 de dezembro do próximo ano: articular a grade de exposições; privilegiar exposições sobre a relação entre arte e política, tema da Bienal; promover seminários e debates que aprofundem essa temática; conduzir iniciativas para divulgar essa programação no Brasil e no exterior.
Nova administração
O encontro, conduzido pelo presidente da Fundação Bienal São Paulo, Heitor Martins, teve como um dos seus objetivos "sair da intenção para ações concretas" (leia ao lado), como afirmou o empresário no início dos debates. Sua gestão foi celebrada de forma unânime.
"É com entusiasmo que estou aqui pela nova administração da Bienal", anunciou o secretário Sayad, enquanto Miranda apontou "a excelência deste momento", que Marcelo Araujo, diretor da Pinacoteca do Estado, indicou como "de entusiasmo".
"Há muito tempo se busca uma articulação entre as instituições culturais; há lugar para todas e falta muita coisa. Aqui está a importância desse grupo", disse Miranda.
PASSE ÚNICO PARA MUSEUS É DISCUTIDO
Entre as propostas concretas elencadas durante a reunião que aconteceu ontem na Fundação Bienal, estão a criação de um "passe único", que daria entrada a todos os museus da cidade durante a Bienal; um "bilhete único", com o qual a população poderia usar o transporte público para visitar todas as exposições programadas; um cronograma de aberturas de mostras que seja programado com antecedência, e a ação educativa da Bienal integrada com as ações educativas dos museus de São Paulo.
Entre as instituições que assinam o manifesto "Unindo Esforços durante a 29ª Bienal -São Paulo, Polo de Arte Contemporânea" encontram-se a Associação Videobrasil, o Centro Cultural Banco do Brasil, a FIESP, o Itaú Cultural, o Instituto Tomie Ohtake, o Museu Afro Brasil, o Museu de Arte Moderna, Museu de Arte Contemporânea da USP e o Sesc.
novembro 30, 2009
Grafites no Masp criam elos com a cidade por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 26 de novembro de 2009.
A exposição "De Dentro para Fora, de Fora para Dentro" culmina o processo de renovação do Masp (Museu de Arte de São Paulo), após um longo período de decadência.
Há três anos, quando Teixeira Coelho assumiu a função de curador, o museu não só organizava poucas mostras como chegou a ter a energia cortada por falta de pagamento.
Desde então, o Masp passou a exibir melhor o acervo, tem um conselho que de fato decide sobre os rumos curatoriais e reconquistou seu público, voltando a ser o museu mais frequentado da cidade.
Essa nova fase se fortifica com uma exposição que busca o diálogo com artistas em geral também envolvidos com a arte de rua, levando o museu a criar, novamente, diálogos com a cidade. Era assim que ocorria nas origens da instituição, especialmente em mostras organizadas por Lina Bo Bardi, sobre arte popular ou moda, por exemplo.
Em "De Dentro para Fora...", Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão, todos da galeria Choque Cultural, intervêm no subsolo do Masp de forma diversificada e experimental.
Não se trata de uma transposição ilustrativa da arte de rua, mas de formas possíveis de intervenção num museu, algumas mais eficientes e outras nem tanto.
Doitschinoff, por exemplo, pode ser visto numa instalação com temática religiosa -que não deixa nada a desejar a obras contemporâneas-, apresenta documentação de impressionantes ações em outras cidades e exibe ainda trabalhos em pequenos formatos.
Já Zezão, que costuma fazer grafites em bueiros e esgotos da cidade, recria um desses ambientes numa cenografia um tanto exagerada onde pode ser visto um documentário sobre suas ações, além de também apresentar obras e fotos documentais de suas intervenções.
Em ambos, se percebe como a mera ação dentro do espaço museológico não é suficiente. A documentação, assim, torna-se um instrumento necessário. A montagem da mostra também se revela afinada, ao deixar muitos espaços livres, fazendo com que a cidade seja vista todo o tempo. Sem apelação, "De Dentro para Fora..." é um novo capítulo no debate sobre a institucionalização da arte de rua.
Instituição cria confusão conceitual por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo
Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 30 de novembro de 2009.
É bastante esquizofrênica a dupla de exposições em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea (IAC): "Natureza e Destino", Sobre a Obra de Miguel Bakun (1909-1963), com curadoria de Eliane Prolik, e "Da Estrutura ao Tempo", sobre Hélio Oiticica (1937-1980), com curadoria de Cauê Alves.
Sem dúvida são duas individuais, com curadores distintos, mas que, ao serem reunidas no mesmo período e na mesma instituição, dão a (falsa) impressão de apresentar algo em comum. Já é fato na cidade que museus tenham designações incongruentes com seus acervos; afinal, o melhor do Museu de Arte Moderna de São Paulo é sua coleção de arte contemporânea, e o melhor do Museu de Arte Contemporânea da USP é seu acervo moderno.
Exatamente por isso o IAC poderia afastar-se dessa confusão. Dedicado a artistas que transitaram do moderno para o contemporâneo, como Sérgio Camargo, Amilcar de Castro, Willys de Castro e Mira Schendel, o IAC tem sido um dos poucos espaços da cidade a apresentar uma produção que, entre os anos 1950 e 1970, representou uma virada fundamental na arte brasileira.
Nesse sentido, a mostra com os Metaesquemas e os Relevos Espaciais de Oiticica mostra coerência com a casa, pois aborda o mesmo período e temática dos artistas que justificaram a criação do instituto.
Contudo, a originalidade do paranaense Bakun reside basicamente em pinturas de paisagens de sua terra natal, com uma temática regionalista e figurativa, que nada tem a ver com Camargo, os Castros e Schendel, denotando uma confusão conceitual da instituição.
Ao menos, no que tange à sala dedicada a Oiticica, o curador problematiza algo que tem muito a ver após o incêndio que destruiu parte do acervo do artista, no qual justamente os Metaesquemas teriam sido grandes vítimas, mas acabaram sendo preservados em sua maioria.
"Não há porque levar a sério minha produção pré-59", escreveu Oiticica, em 1972, desprezando justamente os Metaesquemas, feitos em 1957 e 1958. Atentar à preocupação fundamental da obra de Oiticica é fugir do objeto, mas usando-o para provocar uma reflexão, como faz Alves, é provocar um debate necessário.
