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outubro 24, 2008
'Bienal do vazio' começa neste sábado e pode ser alvo de pichadores, por Márcia Abos, Globo Online
'Bienal do vazio' começa neste sábado e pode ser alvo de pichadores
Matéria de Márcia Abos, originalmente publicada no Globo Online no dia 23 de outubro de 2008
"Carinhosamente" apelidada pelos paulistanos de "Bienal do vazio", a 28ª Bienal de São Paulo, cujo tema é "em vivo contato", foi apresentada nesta quinta-feira para a imprensa. A surpresa é que, antes mesmo de ser aberta ao público, a mostra já é alvo de ameaça de pichadores liderados pelo mesmo suspeito que invadiu a galeria Choque Cultural em setembro deste ano.
Ivo Mesquita, o curador da mostra que será aberta neste sábado para convidados e no domingo para o público, parecia constrangido na hora de defender seu corajoso projeto. Falava baixo e foi difícil entendê-lo a princípio. Diferente do que fez em dezembro, quando apresentou pela primeira vez suas idéias, a palavra vazio desapareceu de seu vocabulário. Em substituição, surgiu "planta livre", para denominar o segundo pavilhão do prédio, onde nenhuma obra de arte será exposta.
"Quis propor uma reflexão sobre o sistema das bienais, a Bienal de São Paulo como um estudo de caso"
- Quis propor uma reflexão sobre o sistema das bienais, a Bienal de São Paulo como um estudo de caso. O térreo é uma espécie de praça, um ponto de encontro, com atividades desenvolvidas pelos artistas. No primeiro andar, um espaço de serviços e o vídeo lounge. O segundo andar, a planta livre, que enfatiza a arquitetura do edifício, rompendo com o formato tradicional. O terceiro andar é o plano de leituras - explicou o curador.
Os curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen explicaram que seu projeto questiona o modelo de grandes exposições, mas nunca se colocou como uma negação da Bienal, que perdeu sua vocação ao longo da história.
- Antes era parte de um museu e gerava acervo para ele, agora ficou dona de um edifício enorme - disse Ivo Mesquita. - Não aceitamos fazer o projeto porque havia uma crise pontual. Aceitamos por acreditar que a Fundação Bienal tem ainda uma função de formar profissionais como eu e Ivo Mesquita - completou Ana Paula Cohen, que divide a curadoria com Mesquita.
Os curadores esperam, ao final da mostra, em 6 de dezembro, apresentar ao conselho da Fundação Bienal um relatório, apontando os "sintomas" causadores da doença da Bienal.
"Se há um desinteresse, é porque nós merecemos a instituição que temos. Nós não estamos preocupados com o número de público"
Ao ser questionado sobre a reação negativa do público à "Bienal do vazio", Mesquita respondeu:
- Não sinto desinteresse sobre a atual Bienal. Vejo, na verdade, interesse por parte de especialistas. As pessoas virão. Programamos coisas para as seis semanas. Este é um projeto de amadurecimento. Se há um desinteresse, é porque nós merecemos a instituição que temos. Nós não estamos preocupados com o número de público.
Enquanto muitos jornalistas se levantavam no meio da entrevista, Ana Paula Cohen fez uma revelação surpreendente: ela foi avisada que o mesmo pichador que vandalizou a galeria Choque Cultural e a faculdade de Belas Artes reúne um grupo para atacar a Bienal após a abertura.
- Estamos sabendo, tomamos providências e estamos aguardando - avisou Ivo Mesquita.
Bienal é aberta amanhã com ameaça de pichação, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Bienal é aberta amanhã com ameaça de pichação
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 24 de outubro de 2008
Bienal é aberta amanhã com ameaça de pichação; Grupo que fez ações em galeria e em universidade pretende atacar andar vazio; "É um absurdo", afirma curador de evento; em entrevista, presidente da Fundação Bienal diz que instituição não vive crise
A Fundação Bienal de São Paulo preparou um esquema de segurança especial para os primeiros dias da exposição, que será inaugurada amanhã para convidados e no domingo para o público, por conta de uma ameaça de pichação.
A ação seria promovida pelas mesmas pessoas que picharam a galeria Choque Cultural, no mês passado. A ação dos pichadores está sendo convocada pela internet para ser feita no segundo andar da mostra, que permanecerá vazio durante o evento, e até mesmo em obras.
"Estamos esperando esse tipo de ação e tomamos providências para evitá-la. Isso é um absurdo", disse ontem o curador da 28ª Bienal, Ivo Mesquita, na entrevista coletiva de apresentação do evento.
"Nós sabemos que eles estão convocando gente da periferia da cidade para fazer isso, e essas pessoas não sabem o que elas vão encontrar. Em geral, quem faz esse tipo de ação o realiza à noite, mas aqui eles não sabem no que vão estar se metendo. É um lugar público e que terá muita segurança", afirmou a outra curadora da Bienal, Ana Paula Cohen.
Para ela, "o que quem lidera isso quer fazer é aparecer na imprensa. E ele está até mesmo violando um código de ética dos pichadores que é não pichar em cima do trabalho de outros, caso eles venham pichar obras aqui".
Em junho passado, um grupo de 40 pichadores fez no Centro Universitário Belas Artes ação semelhante à pretendida na Bienal e à ocorrida na galeria Choque Cultural.
Planta livre
De resto, de acordo com o clima da coletiva de ontem, ao menos entre os curadores e o presidente da Fundação Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa, não há o menor sinal de crise econômica ou moral na instituição.
"Esta Bienal me satisfaz profundamente", disse Pires da Costa. "Quando digo que há um problema de gestão na Bienal, eu não me refiro ao presidente mas à macrogestão, de como está estruturada a instituição."
"Nós aceitamos realizar essa Bienal não por conta de uma crise localizada, mas porque acreditamos que ela tem tido a capacidade de formar profissionais da área, como o Ivo e eu mesma, e pensamos então que o projeto seja em relação às grandes mostras e sua inserção na indústria cultural e no consumo", afirmou Cohen. Já o segundo andar vazio, que marcou todo o debate inicial sobre a mostra, fazendo com que o título Bienal do Vazio se sobrepusesse a "Em Vivo Contato", nome original da mostra, ganhou novo título: agora se chama "Planta Livre".
"O vazio foi mal-entendido desde o início. Com ele, queremos discutir o princípio da arquitetura moderna no pavilhão e, como ele está aberto, propostas podem surgir", disse também a curadora.
De 41 artistas que tomam parte da mostra -a lista oficial apresenta 42, mas anteontem o brasileiro Rodrigo Bueno retirou-se do evento por discordar da curadoria-, apenas 23 apresentam obras no edifício. Os demais estarão presentes em performances e ações que ocorrerão na praça, localizada no térreo. Ontem, no percurso para a imprensa, não havia ainda nenhuma obra totalmente acabada, o que, contudo, não é incomum nas vésperas de exposições de grande porte. A diferença, entretanto, é que essa não é uma mostra de grande porte.
O universo sensorial de Cildo Meireles, O Globo
O universo sensorial de Cildo Meireles
Matéria originalmente publicada no Globo no dia 24 de outubro de 2008
´The Independent´ põe de lado sentido político de obras na Tate Modern
Em crítica no jornal inglês“ The in de pendent”, Michael Glover analisou anteontem a exposição do brasileiro Cildo Meireles na Tate Modern, em Londres, ressaltando suas “relações imersivas com os objetos”, em vez dos significados políticos e conceituais que costumam permear as considerações sobre o artista. Glover citou instalações como “Volátil”, em que o visitante precisa pôr uma máscara de papel, tirar os sapatos e vestir botas, pisando em algo que, para o crítico, parece ser farinha, mas depois descobre ser talco: “Está escuro e abafado, e meus pés se afundam em algo profundo e pegajoso. Viro uma esquina, numa área onde há a luz de uma vela no meio do chão. A sensação é de estar num santuário, mas que coisa estranha é esta em que estou afundando?
Explicações conceituais limitariam fruição da mostra
Essa imersão em objetos “bizarros”, diz Glover, é o mérito da exposição: “Uma investigação sobre a natureza paradoxal dos objetos é como Meireles descreveu sua aproximação estranhamente prazerosa com a arte. Para nós, é dito que se trata de arte conceitual, o que pode proceder se você tiver uma noção das idéias a que essas peças tentam dar forma. Na verdade, você poderia reduzir cada uma das obras a um resumo de seu significado, e muito seria relacionado a parábolas de repressão política. Mas isso limitaria os prazeres desta exposição, que continuamente nos prega uma peça, mandando-nos numa direção, para então nos arremessar a outro lugar”.
outubro 23, 2008
A falta que a Bienal nos traz: o que o Canal Contemporâneo colocaria no vazio?
A falta que a Bienal nos traz: o que o Canal Contemporâneo colocaria no vazio?
No dia 26 de outubro, domingo, tem início a 28a. edição da Bienal de São Paulo, o mais importante evento da arte na América Latina. Em meio a uma grave crise institucional, a Fundação Bienal usa a oportunidade para fazer uma confissão pública: Ivo Mesquita, curador da mostra, decidiu ocupar com nada um andar inteiro do Museu de Arte Moderna para ilustrar o momento. A Folha de São Paulo perguntou a artistas, críticos e curadores, em sua edição de quarta-feira, o que cada um colocaria no espaço. De "imaginação" a "sofás", as respostas tentam dar conta do conteúdo estético e político do ousado gesto de Mesquita.
Como uma comunidade focada na tematização da arte contemporânea, o Canal amplia esta pergunta a seus participantes: o que você colocaria no vazio da 28a. Bienal de São Paulo?
Um espaço de vínculos poéticos, por Suzana Velasco, O Globo
Um espaço de vínculos poéticos
Matéria de Suzana Velasco, originalmente publicada no Globo no dia 23 de outubro de 2008
Waltercio Caldas cria relações entre obras suas e de Amilcar de Castro
Conceitos prévios, textos herméticos e ligações de causa e conseqüência foram substituídos por uma intuição plástica. Em “Múltiplos sentidos”, a partir de hoje na galeria Silvia Cintra, o artista Waltercio Caldas escolheu criações suas para se relacionarem com peças de Amilcar de Castro. Apesar da diferença geracional - Amilcar, morto em 2002, era 26 anos mais velho -, os dois foram amigos e sua obra se aproxima, segundo Waltercio, na procura por um espaço poético. - Compartilhávamos uma visão do que é ser artista, embora com soluções diferentes para problemas diferentes - afirma Waltercio. - Ele é um dos artistas de uma geração que não buscava se adaptar à realidade, mas procurava novos caminhos para uma ocupação espiritual, que é o que acho que a arte é, mais do que uma profissão. Nesse sentido, a função do artista é melhorar um pouco a qualidade do desconhecido.
"Detestaria ter um estilo que me caracterizasse”
Waltercio escolheu obras de Amilcar norteado pela variedade, levando o vidro, a madeira e a tela à companhia do aço cortén, material de suas esculturas mais conhecidas. Criou um outro grupo de obras e deixou que se relacionassem os dois conjuntos, Waltercio e Amilcar, sem preocupações explicativas.
Mas os vínculos estéticos existem. A preocupação com o espaço e a delicadeza na interação com ele são inegáveis em ambos os artistas - Amilcar, um dos grandes nomes do neoconcretismo, e Waltercio, que começou tendo aulas com o concretista Ivan Serpa, mas tem uma obra que, entre livros-objetos, esculturas e desenhos, não se encaixa num movimento.
- Detestaria ter um estilo que me caracterizasse. Se há algo que se reconheça em comum nas minhas obras, é porque a gente está condenado a ser quem é - diz o artista, sem negar o peso construtivista em sua formação e na arte brasileira. - O Brasil tem uma tradição construtiva muito forte. Para mim, foi fundamental ver a construção de Brasília, a vontade moderna dos anos 1950. A importância do construtivismo é ainda causar questionamentos, manter seu grau deflagrador.
Esse poder deflagrador da arte, para ele, está em escassez: - Hoje, muitos artistas relegam sua subjetividade ao mundo, esperando que ele dê significado a suas obras. A melhor maneira de respeitar o espectador é ele ter certeza de que o que vê é uma afirmação do artista sobre algo, mesmo que não goste do trabalho. Essa presença inequívoca da obra está sendo substituída pela vontade de significação.
Waltercio diz que a maioria de seus trabalhos é, hoje, mais vista no exterior do que no Brasil.
São raras, por aqui, exposições do porte das que estão em cartaz na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela - ocupando mais de mil metros quadrados, e cinco a seis meses de exibição: - Só em uns 10% das mostras lá fora há algum investimento brasileiro, e, ainda assim, privado.
outubro 22, 2008
Projetos do Parque Lage continuam após a saída da diretora, O Globo
Projetos do Parque Lage continuam após a saída da diretora
Matéria de Rodrigo Fonseca originalmente publicada no Globo no dia 22 de outubro de 2008
Pólo de ensino e debate, a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage terá uma nova direção. Atual coordenadora das escolas de arte da Secretaria de estado de Cultura, Claudia Saldanha, que foi professora da instituição, assume o cargo de diretora, substituindo a crítica de arte Luiza Interlenghi, escolhida em abril pela secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, e pela direção da associação de amigos da escola (Ameav). - O cargo é determinado pela secretária. Ela marcou uma reunião para pedi-lo de volta, e eu o entreguei. Procurei trabalhar da maneira que considerei mais produtiva para a escola - diz Luiza, que entrou na direção substituindo o gravurista Carlos Martins. - Acredito que o grupo de trabalho que formamos para discutir a reforma da escola será mantido.
Um novo plano de metas à vista para a EAV
Via assessoria de imprensa, Sophie Bernard, subsecretária de Projetos Especiais da Secretaria de Cultura, afirmou que a mudança não altera o atual arranjo da escola, que ganhará um novo plano de metas nos próximos meses. - Os projetos da escola não serão afetados, assim como as obras de restauração do Parque Lage. Esta foi uma substituição apenas para o alinhamento das diretrizes da secretaria - diz Sophie.
"Há um problema de gestão na Bienal", entrevista de Ivo Mesquista, Folha de São Paulo
"Há um problema de gestão na Bienal"
Entrevista de Ivo Mesquita a Marcos Augusto Gonçalves e Fábio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de outubro de 2008
Curador, que chegou a deixar o cargo em edição anterior, avalia o evento
O curador Ivo Mesquita nasceu em 1951, mesmo ano em que surgia a Bienal de São Paulo. Nos 57 anos da existência da instituição, ele já participou de nada menos do que oito edições da mostra, duas delas como curador -embora, em 2000, tenha deixado o cargo em meio a uma das crises da fundação.
E foi uma nova crise que o levou, recentemente, de volta à função. Nome reconhecido no meio da arte, Mesquita apresentou-se como uma tábua de salvação para a desgastada presidência da Fundação Bienal, que enfrentava dificuldades para levantar os recursos necessários para a mostra deste ano.
"Eu me sentiria muito mal se tivéssemos fechado as portas", disse ele à Folha, em entrevista na semana passada.
Com poucos recursos e pouco tempo, Mesquita optou por criar um debate em torno da crise da instuição, que se entrelaçaria com uma crise mais ampla, a do próprio modelo agigantado das bienais internacionais. O curador deixou um piso inteiro do prédio vazio, promoveu encontros para discutir o papel da instituição e, ao final, criou uma mostra reduzida, que ocupa meio andar.
FOLHA - Depois de realizar 15 encontros com pessoas do circuito da arte, quais foram as conclusões sobre o papel da Bienal?
IVO MESQUITA - O que ficou patente é que há um problema de gestão.
FOLHA - Qual é o modelo ideal? Seria melhor uma trienal?
MESQUITA - Essa questão, se é bienal ou trienal, se é com curador ou sem curador, me parece menor. O problema principal é a necessidade de adequar a instituição à sua finalidade. E isso é uma questão de gestão e de organograma. O Júlio Landmann [ex-presidente da Bienal] falou nos encontros justamente sobre isso: a estrutura que ele ajudou a construir a partir da 22ª Bienal, e que se desfez. Era uma estrutura administrativa extremamente profissional, com um superintendente, um captador de recursos, um responsável pelo educativo.
Hoje, a fundação não tem uma estrutura semelhante. Os problemas de 40 dias atrás [um pedido de corte de 40% do orçamento, por parte do presidente] ocorreram em seis das oito bienais em que trabalhei. É sempre assim, 60 dias antes da abertura, há um problema de "cash flow" [fluxo de caixa].
FOLHA - E por que isso não é resolvido de uma vez por todas?
MESQUITA - Ah, essa pergunta quem tem que responder é o conselho. O que estou mostrando é que o problema não é novo. Não existe uma estrutura para resolver este evento.
FOLHA - Mas esse conselho não é desinteressado por arte? Apenas três ou quatro conselheiros apareceram nos encontros...
MESQUITA - Essa é uma pergunta que deve ser feita a eles. Mas não é um modelo muito diferente do que existe em museus como o Masp ou o MAM do Rio, instituições criadas na mesma época, que vivem problemas semelhantes.
FOLHA - O fato de a Bienal ter por tema ela mesma parece uma espécie de imposição da instituição sobre a arte. Como você vê essa hipervalorização da instituição que quase bane a arte de seus domínios?
MESQUITA - Eu vejo essa questão de modo diferente. A idéia do vazio e esse projeto da Bienal são sobre a instituição e não sobre a produção artística.
Poder suspender um processo para falar de uma crise que se percebe cíclica na instituição me parece um meio de aprimorar o circuito.
FOLHA - Mas, pela presença nesses encontros promovidos pela Bienal, que não tiveram mais que 30% de lotação em média, poderíamos concluir que as pessoas do circuito não se interessam muito por essa discussão...
MESQUITA - Eu acho que há uma falta de hábito. Cada vez que há uma crise do Masp, a Folha faz um monte de artigos, mas efetivamente acontece o quê? Nós temos tido uma atitude muito passiva, é preciso pensar nas causas do problema.
FOLHA - Talvez as pessoas acreditem que essa instituição já deveria funcionar direito, que não é papel delas ter que discutir esse assunto a essa altura da história...
MESQUITA - É talvez o que tenha feito o Zé Resende [artista], quando veio ao encontro, mas ficou quieto. Agora, eu também acho o seguinte: talvez as pessoas não queiram discutir. Então, fechamos as portas.
FOLHA - Mas, se você não tivesse aceitado participar, talvez as portas tivessem fechado mesmo. Você de certa forma salvou a instituição de uma crise mais grave, não deixou o negócio quebrar de vez, funcionou como se fosse o "circuit-breaker" da Bolsa, que interrompe a queda das ações quando a coisa fica feia...
MESQUITA - [Risos] Não sei... Essa decisão foi uma coisa minha com minha história com essa instituição. Eu acredito que a Bienal tem possibilidades e, como profissional, eu acredito que tinha que tentar dar essa resposta. É o que eu posso fazer. Eu me sentiria muito mal se tivéssemos fechado as portas sem ter tido essa oportunidade.
Eu sabia que era super-arriscado, mas considerando a reação que houve, foi muito esperançoso, e as pessoas se importaram.
Novo estatuto reduz poderes de presidentes, por Fábio Cypriano
Além de Ciccillo Matarazzo, fundador da Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa é o único presidente com três mandatos na Fundação Bienal e, de acordo com o novo estatuto da instituição em discussão, será o último. Preparado por uma pequena comissão do Conselho da Fundação, cujo relator foi o jurista Carlos Francisco Bandeira Lins, o estatuto prevê a diminuição drástica dos poderes do presidente-executivo, entre eles a possibilidade de reeleição por uma única vez.
"Não queremos que aconteça aqui o que aconteceu com o Masp. Queremos proteger a Fundação e, por isso, o Conselho precisa ser a bússola, não é mais possível que o presidente-executivo tenha poderes absolutos", diz o presidente do Conselho da Fundação Bienal, o arquiteto Miguel Pereira.
Na nova proposta, não está prevista a mudança de periodicidade da mostra, mas sua realização a cada três anos não é descartada por Pereira: "Estamos em processo constituinte e nada impede essa discussão, afinal o biênio é um período mesmo exíguo".
Há cerca de um mês, em reunião do Conselho, que tem cinco vagas para membros, Pires da Costa tentou indicar nomes para completar o quadro, mas foi impedido até que vigore o novo estatuto. Na nova proposta, que, segundo Pereira, deve ser implementada em 2009, também não será mais o presidente quem terá a prerrogativa de indicar o curador da Bienal.
[o que colocar no vazio?], Folha de São Paulo
[o que colocar no vazio?]
Matéria originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de outubro de 2008
A 28ª Bienal de São Paulo, que será aberta no domingo, terá um andar vazio para simbolizar sua crise; a Folha perguntou a artistas e curadores com o que preencheriam o espaço -as respostas, abaixo, vão de "ar" a "sofás"...
A imaginação. A idéia de vazio ativo (Mira Schendel) e de vazio pleno (Lygia Clarck), que fazia parte de um dos 4 núcleos que propus no meu anteprojeto da 28ª Bienal contemplava a idéia de que o vazio é uma instância fundamental para a criação. Quando propus ao Ivo Mesquita de juntarmos os nossos projetos e ele sugeriu a idéia do andar vazio, que eu chamei de manifesto espacial, eu aceitei com a condição de que fosse um sinal para a segunda etapa da 28ª Bienal (que trataria do tema do vazio) e que durante essa primeira etapa fosse utilizado como um espaço educativo.
Minha proposta era ocupar o vazio com a imaginação das crianças. O importante para mim era fazer com que as pessoas percebessem que o vazio é uma instância fundamental do processo criativo. Meu desejo era ocupar o espaço com um projeto educativo (inclusive para adultos) que revisitasse a história da Bienal de São Paulo, criando, desta forma, um elo como o terceiro andar onde estariam os arquivos da Bienal e sua memória. Pensei que a solução seria utilizar recursos auditivos; circuitos auditivos associados a imaginação (como na música), inclusive convidando artistas que fizessem obras sonoras especificamente para o 2º andar de forma a "esculpir" ou dar forma ao andar vazio.
Penso que mais importante do que a idéia fenomenológica de suspensão é de ancorar o vazio como um elemento fundamental da realidade. O vazio do segundo andar deveria ser articulado como um espaço de concentração e não de dispersão.
Para mim, o importante era indicar como nos diz Strindberg que: "Tudo é possível e provável. Sob a fina base da realidade a imaginação tece novas formas".
Márcio Doctors, curador
Arte.
Paulo Venâncio Filho, curador
Ar.
Beatriz Milhazes, artista
Vejo-o como metáfora da inexistência de uma política cultural ampla, sólida, regular, constante, civil, sem viés ideológico-partidário. Eu preferia ver o vazio da bienal discutido na entressafra, entre as bienais e não dentro dela. Tal como está, e se ficar de fato vazio, pode ser, no limite, uma proposta poética - e no poema dos outros não se mexe. Se esse vazio servir para arrancar a Bienal da inércia que a estrangula, terá sido um sucesso.
Teixeira Coelho, curador e diretor do Masp
Eu colocaria uns 500 sofás no andar vazio, assim pelo menos a gente poderia sentar um pouco.
Leda Catunda, artista
Se o Duane Hanson não tivesse morrido há 12 anos, o convidaria para fazer esculturas de alguns brasileiros de colarinho branco que freqüentaram a crônica policial e estiveram atrás das grades nos últimos anos. Fica a idéia para algum hiperrealista nativo. Vai ser uma mostra bem popular.
Paulo Sérgio Duarte, curador
O vazio é apenas ilusório, não há esvaziamento que nos leve ao grau zero, que anule ou cancele todos os significados, pois, ao contrário do que as aparências revelam, com o vazio descortinam-se as estruturas, mas o que fazemos com elas? Como transformá-las em questões realmente pertinentes?
Como evitar que o vazio seja apenas a falta de algo? Então, é necessário um outro gesto capaz de radicalizar a experiência para instaurar a consciência crítica. Portanto, ao esvaziarmos o Pavilhão da Bienal temos diante dos olhos a arquitetura modernista brasileira e suas utopias. E parece-me que isso ficou de lado em todas as discussões a respeito dessa Bienal. E foi a partir dessas idéias que, a convite de Ivo Mesquita para desenvolver o Projeto Educativo para esta Bienal, propus, em colaboração com Jorge Menna Barreto e Vitor César, desestabilizar a noção do Vazio como "síntese da negação e da ausência", conforme proposto pelos curadores.
Dentre outras questões, o projeto (abortado nas últimas semanas) visava potencializar o vazio a partir da construção do que chamo 'Parede Niemeyer', revestindo toda parede do fundo do segundo andar com espelhos para reverberar não só a arquitetura, mas nossas utopias, nossa história, para torná-la abismal. Niemeyer dentro de Niemeyer. O espelho, a meu ver, síntese da utopia moderna do arquiteto brasileiro, é também vigilante. O espaço destinado à grande mostra bi-anual de arte no Brasil seria esvaziado para, com o espelho, se fazer perguntas. Como um grande ambiente oco, funcionaria como tímpano para uma operação de escuta. As reverberações no espelho forneceriam as bases para o questionamento crítico sobre nossa condição. Novamente a pergunta: Para onde olhamos? Para onde vamos? Todo projeto Educativo estaria então ancorado na idéia de que, se não incluirmos o contexto, se não questioná-lo, ficaremos sempre reféns de nossa própria história ou dependentes da história que nos chega de longe.
Ana Maria Tavares, artista
Nada. É claro que não faltam obras para uma exposição, mas não é isso o que está em questão. Cada um faz a sua bienal e nas condições que lhe forem dadas. Não fazer é sempre uma delas. Assumir o vazio, nas circunstâncias em que se deu, foi uma decisão corajosa e deve ser respeitada.
Luiz Camillo Osório, curador
Talvez eu colocasse uma zona de sensibilidade imaterial do Yves Klein. Sabemos que o espaço vazio adquire uma prioridade marcante com implicações estéticas e desdobramentos políticos. Mas neste caso, o vazio não é da arte, o vazio é da instituição que está com sérios problemas circunstanciais, porque é mal gerida e não consegue perceber o seu papel.
Solange Farkas, curadora e diretora do MAM da Bahia
Acho que o fato de um andar do prédio da Bienal ficar vazio durante o período da mostra é absolutamente adequado para o projeto curatorial de Ivo Mesquita. Ele é metáfora eloqüente da crise pela qual a instituição passa (que efetivamente limita as dimensões físicas do evento) e da vontade expressa de seu curador na presente edição em discuti-la e enfrentá-la. Minhas expectativas e meu desejo são de que esse espaço vazio realmente assuma a dimensão crítica com que foi pensado e que não seja reduzido à mera experiência imersiva na arquitetura do edifício.
Moacir dos Anjos, curador
Ou talvez perguntando de forma mais abrangente: o que de fato deveria pertencer ao vazio da Bienal?
José Rezende, artista
Não colocaria coisa alguma, o espaço vazio proposto deve mostrar ainda a que veio: se de um lado ele é conceitual, precisa manter-se mesmo vazio e funcionar como metáfora espacial de um ponto zero de atitudes e decisões, sem o que não ha espaço para renovação. De outro lado ele é um vazio físico, concretamente o espaço desocupado dos mil metros quadrados de um dos andares, dando presença apenas ao edifício ou a seus fantasmas. Este vazio arquitetônico é a própria corporificarão da circunstancia difícil de organizar um mega evento com prazos e recursos excessivamente curtos.
Entendi que Ivo Mesquita aceitou a curadoria desta Bienal para não deixar soçobrar uma instituição cuja importância e história ele respeita. Confio que a partir do que esta versão se propõe, como critica e reflexão com o olho no futuro, o vazio seja um lugar para a projeção de idéias conseqüentes das quais se possa extrair um modelo mais ativo, social e culturalmente.
Regina Silveira, artista
outubro 20, 2008
Desvio do lugar-comum, por Paula Alzugaray, ISTOÉ
Desvio do lugar-comum
Matéria de Paula Alzugaray, originalmente publicada na Revista ISTOÉ edição 2030 Cultura - Artes Visuais no dia 1 de outubro de 2008
Aclamado como um dos principais expoentes da arte conceitual internacional, Cildo Meireles expõe na Tate Modern
Cildo Meireles - Tate Modern, Londres de 14/10/08 a 11/01/09
Vermelho-sangue
Embora diversas interpretações da instalação Desvio para o vermelho (1968-1984) associem a obra à violência militar, Meireles afirma que o trabalho fala mais de cor do que de política
Há muitos atalhos possíveis para o entendimento da obra de Cildo Meireles. Mas a entrada mais evidente se dá pelo reconhecimento de objetos que nos são familiares: relógios de parede, picolés, garrafas de coca-cola, mobiliário doméstico. Essa normalidade sofre um abalo quando o espectador se dá conta de que os relógios não respeitam o tempo, os sorvetes são apenas água congelada, as garrafas contêm a inscrição “yankees go home” e a mobília é inteiramente vermelha. As instalações de Cildo Meireles provocam um desvio da ordem natural das coisas.
Aos 60 anos, o artista carioca terá oito de suas grandes instalações, concebidas entre 1967 e o começo dos anos 2000, em uma exposição antológica organizada pelo museu Tate Modern, de Londres. O ano será marcado pelo reconhecimento internacional de sua obra: ele recebeu tembém o Prêmio Velázquez, na Espanha, e o Ordway, do New Museum de Nova York.
Alguns dos momentos mais impactantes e contundentes da arte brasileira estarão da Tate. Ao primeiro caso, aplica-se Babel (2001), uma torre de 5 metros de altura composta por centenas de rádios sintonizados em diferentes estações de vários países. O trabalho impressiona não só pela escala monumental, mas pela eficiência de sua metáfora do hibridismo cultural contemporâneo. Já Missão/missões (1987), produzido com 600 mil moedas, 800 hóstias e 2 mil ossos, é uma espécie de encenação poética de massacres de indígenas gerados por interesses econômicos e religiosos. É uma obra que traduz a faceta antropológica do artista e, talvez uma herança do pai, indianista que denunciou sucessivos crimes contra tribos do centro do Brasil. Esse cunho etnográfico já se revelava no início dos anos 1960, quando o jovem artista se dedicava a desenhar máscaras africanas com um traço expressionista. Seu engajamento político começou em 1969, depois da invasão do Dops à exposição Pré-Bienal de Paris, no MAM RJ. “Me senti impelido a começar a tratar de política e meu desenho começou a se referir a aspectos sociais. Mas sempre preocupado em não produzir uma arte panfletária”, conta à Istoé.
A política se articula em seu discurso de forma incisiva, mas nada óbvia. Aparece em obras como Inserções em circuitos ideológicos (1970) – as garrafas de Coca-Cola e as cédulas de dinheiro carimbadas com mensagens subversivas – ou em gestos. Sua recusa em participar da 27ª Bienal, em 2006, em protesto contra a reeleição de Edemar Cid Ferreira ao Conselho da Fundação foi uma ação política de repercussão internacional, que acabou destituindo o então banqueiro. Mas novas denúncias surgiram, indicando a continuidade de uma situação. “Esse tipo de estrutura administrativa vai dar alguma solução para a Bienal? Essa é uma pergunta que tem que ser colocada quando se discute a Bienal”, afirma Cildo Meireles referindo-se ao projeto da 28ª Bienal, que propõe uma reflexão sobre o modelo da bienais. “Não há sombra de dúvida de que a Bienal precisa se pensar. Compreendo a posição do Ivo (Mesquita), ter aceito trabalhar numa circunstância como essa, mas não sei se isso não é uma maneira de dar uma espécie de sobrevida a um modelo administrativo que não parece que está funcionando muito bem, polemiza.
Interfaces matemáticas
João José Costa - Galeria Berenice Arvani, São Paulo até 3/10
Esta é a última semana para ver em São Paulo a antologia de João José Costa, “o mais rigoroso concretista do Grupo Frente”, segundo o crítico Mário Pedrosa, ou “um dos elementos mais valiosos do grupo de artistas concretos brasileiros”, segundo Ferreira Gullar. Reconhecido pelos críticos mais influentes de sua época como um dos principais representantes do movimento neoconcretista, João José Costa é um artista a ser redescoberto. Nesta, que é apenas sua quarta exposição individual em 55 anos de carreira, contempla-se o cerne de uma produção de matriz geométrica, que dialogou com Ivan Serpa, Aluisio Carvão, Lygia Clark, Franz Weissmann, Abraham Palatnik, entre outros integrantes do Grupo Frente, no Rio dos anos 1950. Além do apontado rigor de suas projeções geométricas, é possível vislumbrar na pintura do arquiteto João José uma interface com a atual produção de matriz matemática. A maneira com que pequenos ícones deslocam-se sobre suas linhas pintadas em guache sobre cartão remete ao comportamento de cursores que avançam sobre a tela luminosa do computador. Entende-se que no desenho do concretista anunciavam-se as representações tecnológicas.
Crítica
Filmar é igual a filosofar
No estranho mundo dos seres audiovisuais - Canal Futura - Março de 2009
O programa No estranho mundo dos seres audiovisuais, que exibiu um piloto na segunda 22, é um eficiente modelo de como extrair imagens inteligentes de um mundo dominado por câmeras. A fim de explicar ao público da tevê paga “o que é, o que foi e o que será” o audiovisual, o programa dirigido por Cao Hamburguer lança mão de um vasto repertório de imagens da cultura audiovisual de todos os tempos, passando pelo filme noir, o seriado enlatado, o filme iraniano, o clipe, a comedia pastelão, a reportagem e, já que é televisionado pelo Canal Futura, o programa educativo. Convém destacar que o fator inteligência aqui não está na imagem escolhida, mas no uso que se faz dela, isto é, na maneira como é editada e a serviço de que idéias opera. Comodiz o teórico Arlindo Machado, o audiovisual é um veículo da filosofia. Na era da convergência das mídias, também é arte contemporânea.
Novos editais para as diversas áreas da cultura, por João Pimentel, O Globo
Novos editais para as diversas áreas da cultura
Matéria de João Pimentel, originalmente publicada no Globo no dia 18 de outubro de 2008
Secretaria estadual contemplará também grupos carnavalescos
A Secretaria estadual de Cultura anunciou esta semana 10 editais para seleção pública de projetos nas áreas de audiovisual, mídias digitais, artes visuais, culturas populares, dança, teatro e carnaval. A iniciativa da política de fomento à cultura prevê um investimento de R$ 7,6 milhões. Um edital e um programa chamam a atenção: o edital de apoio aos blocos, ranchos, afoxés e escolas de samba do interior e mirins, para os quais serão destinados R$ 600 mil, e o Programa Banda Larga, que rastreou 95 bandas de todo estado, que dividirão R$ 750 mil. Este programa promoverá cursos intensivos de atualização para músicos que atuam em bandas civis e inclui cursos de regência e manutenção e reparo de instrumentos de sopro
Intenção é de preservar manifestações populares
Os editais terão pré-requisitos próprios e os projetos inscritos serão selecionados por uma comissão julgadora formada por profissionais de cada área. Segundo a superintendente de Fomento da secretaria, Mariana Várzea, a intenção da nova política é estimular a criatividade e a produção artística em vários segmentos. - Estamos também preocupados em criar políticas de longo prazo que ajudem a preservar grupos e artistas de todo o estado. A íntegra dos editais está disponível no site www.cultura.rj.gov.br, onde os participantes podem se inscrever gratuitamente e acompanhar o resultado da seleção. Inscrições também podem ser feitas nas agências dos Correios.
Exposição faz panorama da 'nova arte nova', por Suzana Velasco, O Globo
Exposição faz panorama da 'nova arte nova'
Matéria de Suzana Velasco, originalmente publicada no Globo do dia 20 de outubro de 2008
Mostra ocupa os três andares do CCBB com obras de 57 artistas que despontaram na última década
Em cinco meses, o crítico de arte Paulo Venancio Filho tinha a tarefa de ocupar os três andares do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) com a mais recente produção artística brasileira. Sem a pretensão de fazer uma mostra conclusiva, ele acabou sendo, mais do que um curador, que propõe um recorte específico da arte, um coordenador entre obras diversas. Ele reuniu mais de cem trabalhos de 57 artistas na exposição “Nova arte nova”, que será aberta amanhã para o público, seguindo para São Paulo em janeiro do ano que vem.
- Procurei suspender um critério curatorial. A mostra não trata de um assunto, não tem um título muito enfático. A idéia é pôr à vista a produção de artistas que se formaram nos últimos dez anos, alguns nem tão jovens, mas que entraram em evidência nesse período - afirma Venancio Filho. - Não é uma exibição de uma geração, como em outros momentos da história da arte brasileira, em que havia uma unidade entre as propostas. Agora há uma diversidade muito grande.
Venancio Filho tentou equilibrar, na seleção, nomes já reconhecidos no meio artístico e outros de visibilidade menor. Assim, artistas como Laura Erber, Matheus Rocha Pitta, Thiago Rocha Pitta, Ana Holck, Alice Miceli, Otavio Schipper, Felipe Barbosa, Sara Ramo e Marilá Dardot - todos representados por galerias importantes - unem-se a nomes como Bruno Miguel, Tatiana Ferraz, Bianca Tomaselli, Maria Lynch, Romano, Gaio Matos e Lívia Moura, que, por enquanto, não têm galeria.
- A arte surgida nessa última década tem uma fluência global, uma contemporaneidade forte que vem desde o neoconcretismo. Os artistas estão mais conscientes da História da arte brasileira - diz o curador. - E acho que isso acontece também dentro do Brasil, não se vê uma diferença regional entre as obras. É claro que ainda há uma concentração de artistas de Rio e São Paulo. Mas a idéia de regionalismos caducou, hoje se podem fazer exposições como esta sem concessões a regiões.
Catálogo terá textos de cinco novos críticos de arte
Para Venancio Filho, o mais importante era usar a mostra para dar visibilidade a uma produção geralmente restrita a instituições de arte. A pluralidade de temas e meios - vídeos, fotografias, pinturas, instalações, esculturas, objetos, desenhos - se mistura pela coleção, que não está dividida por suportes. A escolha das obras, segundo o curador, foi compartilhada, num diálogo com os artistas. E a montagem foi intuitiva, em função do espaço e das relações estéticas entre as criações, e não de um conceito prévio: - Não quis montar uma feira de arte, com apenas um trabalho de cada artista. E procurei espaços livres, para as obras respirarem.
O catálogo de “Nova arte nova”, bilíngüe, será uma espécie de obra de referência sobre cada artista, com biografia e imagens - como nos registros de grandes feiras e bienais. Além de um texto de Venancio Filho, o catálogo terá escritos de cinco novos críticos de arte: Luisa Duarte, Guilherme Bueno, Cauê Alves, Marisa Florido e Daniela Labra.
- Não é a geração em que eu me formei, por isso quis reunir textos de novos críticos, dando a eles toda a liberdade de falar de artistas que não estão na exposição - conta o curador.
Os cinco críticos e Venancio Filho participarão de uma mesaredonda no CCBB, em data a ser definida. Haverá ainda uma palestra de Ann Gallagher, curadora da Tate Modern, no próximo dia 28; e outra de Briony Fer, professora de história da arte da University College London, em 6 de novembro.
Mostras fazem painel da arte pós-1950, por Caio Jobim, Folha de São Paulo
Mostras fazem painel da arte pós-1950
Matéria de Caio Jobim, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 20 de outubro de 2008
"Nova Arte Nova" e "Arquivo Geral", ambas no Rio, compõem recortes abrangentes da produção brasileira até hoje; "Arquivo Geral" quer "potencializar" o mercado carioca para colecionadores estrangeiros que visitam a Bienal de São Paulo
Dois prédios antigos no centro do Rio, com menos de cem metros a lhes separar, abrigam a partir desta semana recortes abrangentes da produção artística brasileira dos anos 1950 até os dias de hoje.
"Nova Arte Nova" ocupa todo o espaço expositivo do Centro Cultural Banco do Brasil. São mais de cem obras de 55 artistas que, nos últimos dez anos, vêm explorando e atualizando linguagens e técnicas da arte contemporânea.
Já a terceira edição de "Arquivo Geral" é uma iniciativa de 11 galerias da cidade com o objetivo de potencializar o mercado de arte carioca a partir da movimentação de curadores, colecionadores e visitantes, do Brasil e do exterior, gerada pela Bienal de São Paulo -cuja abertura acontecerá no próximo sábado. Neste ano, a mostra reúne trabalhos de 96 artistas e terá como sede o térreo do Centro Cultural da Justiça Eleitoral.
Mostra coletiva
"Em geral as curadorias hoje são muito determinadas, então eu não quis estabelecer uma separação temática. A idéia foi ocupar o espaço de uma maneira fluida, sem fronteiras", explica Paulo Venancio Filho, curador de "Nova Arte Nova".
Segundo ele, a exposição vai demonstrar a abolição das diferenças regionais entre os artistas e o trânsito da arte produzida no país dentro de um contexto global. O curador prefere não destacar este ou aquele artista. Ou falar sobre obras específicas. "Trata-se de uma mostra coletiva em que o que prevalece é a diversidade", justifica.
"Nova Arte Nova" será montada também no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, a partir de janeiro e até abril do ano que vem.
Sugestões
O curador de "Arquivo Geral", Fernando Cocchiarale, escolheu os trabalhos que compõem a mostra a partir das sugestões de cada galeria. "Você começa a ver os trabalhos e forma grupos a partir de questões que são recorrentes", diz Cocchiarale.
São peças produzidas nas últimas décadas. Esculturas em acrílico de Ruben Ludolf dividem uma sala com outros exemplares da "tradição geométrico-construtivista". Já as instalações de arte sonora de Paulo Vivacqua dialogam com a arquitetura da edificação, erguida em 1892, que combina elementos de neoclássico e do barroco com toques do art nouveau.
"Muitas vezes, a interferência da arquitetura do edifício pode ser até um elemento favorável em um mundo que não valoriza mais a pureza, mas sim a contaminação", afirma Cocchiarale.
