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março 5, 2008
Amazônia, o que a arte pode fazer pela floresta, por Camila Molina, O Estado de São Paulo
Amazônia, o que a arte pode fazer pela floresta
Matéria de Camila Molina, originalmente publicada pelo jornal O Estado de São Paulo, no dia 3 de março de 2008.
'Arte pela Amazônia' conta com 150 artistas do Brasil, incluindo grandes nomes do cenário de artes visuais
Arte pela Amazônia é a ampla mostra que será inaugurada na noite de terça-feira, 4, para convidados e na quarta para o público, no terceiro andar do prédio da Fundação Bienal de São Paulo. Há de tudo: fotografia, instalações, pinturas, esculturas, objetos, vídeos e gravuras criados por três diferentes gerações de artistas. Essas obras são abrigadas na mostra dentro de núcleos livres, concebidos pelo curador Jacopo Crivelli Visconti de forma a promover aproximações entre as criações. Os núcleos não têm títulos próprios. Cabe ao espectador fazer suas relações.
A iniciativa contou com a adesão de 150 artistas de todo o Brasil, incluindo os grandes nomes de nosso cenário de artes visuais, como Tomie Ohtake Tunga, Nelson Leirner, Paulo Pasta, Regina Silveira, Sandra Cinto, Thomaz Farkas e Maria Bonomi. Eles cederam suas criações para a mostra e, depois, para a realização de um leilão, previsto para o dia 3 de abril, em um shopping da cidade.
As escolhas das obras foram feitas pelos próprios artistas. Muitos criaram trabalhos específicos para o projeto; outros decidiram apresentar peças já prontas e há criadores que optaram por reeditar obras realizadas há tempos. "Não gosto de tema para trabalhos, então resolvi colocar uma obra inusual minha, uma monotipia de uma série de 2005 que nunca havia mostrado. Essa exposição é bacana, é um jeito de ajudar em algo", diz o pintor Paulo Pasta, referindo-se aos possíveis desdobramentos do projeto, voltado para uma criação de reserva natural na Amazônia. Sandra Cinto também entrou com a vontade de ajudar. "Nunca fico preocupada com o literal. Meu trabalho em si já tem relação com a paisagem e resolvi participar com um desenho inédito e novo", afirma a artista, que também indicou as jovens Michele Lerner e Alice Ricci a participar.
Preocupada em realizar ações de preservação da floresta e programas para a população ribeirinha local, a produtora da mostra é a Base 7 Projetos Culturais. "É fundamental chamar a atenção para a Amazônia e promover sua preservação consciente", diz o artista Ricardo Ribenboim, proprietário da Base 7, ao lado de Arnaldo Spindel e Maria Eugênia Saturni e principal articulador do projeto.
Como conta Ribenboim, que criou, ele próprio, a obra Intangível para a mostra, as primeiras conversas para a realização do projeto vêm sendo feitas há oito meses em parceria com a CO2 Soluções Ambientais. Com a verba do leilão, será criado um fundo para o recém-nascido Instituto Arte + Meio Ambiente, que, concebido este mês, poderá ter estrutura própria.
Tudo será focado para o plano de criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) a ser comprada em local já definido, no sul do Amazonas. "É uma área equivalente a 5,3 vezes o Parque do Ibirapuera", afirma Ribenboim. "As reservas particulares são uma solução saudável para a Amazônia. Os recursos são particulares, mas a guarda é do Governo", ainda diz. Segundo ele explica, quando se constitui uma reserva, não se constrói nada no local, mas se instalam censores em núcleos estratégicos que indicam se há queimadas e desmatamento na área. "Eles acionam a segurança", conta.
O local escolhido para a reserva particular, perto da divisa com o Mato Grosso, é, segundo Ribenboim, um lugar estratégico dentro da área de cinco Estados brasileiros que compreende a Amazônia. "Com o Amazonas sentimos mais firmeza. É o Estado com menor índice de desmatamento; que quer trabalhar para a preservação da floresta em pé e pela sustentabilidade; e que tem um Instituto Socioambiental seriíssimo", diz. No leilão, que será comandado pelo martelo do leiloeiro James Lisboa, 70% do valor de cada obra (os lances mínimos foram estipulados pelos próprios artistas) serão destinados ao projeto e 30% vai para o criador. "Mas há os que cederam integralmente sua obra", diz Ribenboim.
Oportunidade
Entre os 150 artistas participantes, dois deles exibem agora o que seria a reedição de trabalhos anteriores, de longa data: o pernambucano Paulo Bruscky e a gaúcha Regina Silveira.
Quando convidado a participar, Bruscky resolveu fazer nova edição de uma de suas gravuras em metal intitulada Amazonas, de 1973. Nela, de maneira simples e direta, está impressa a pegada de um solado típico da região da floresta. Esse seu trabalho é realista e, ao mesmo tempo, sombrio.
Já Regina Silveira escolheu fazer criação a partir de seu projeto Rodovia Transamazônica, de 1977. A obra de agora ficou Brasil Today, Rodovia Transamazônica (1977/2007), impressão digital sobre imagem, e está abrigada no primeiro núcleo, dedicado ao assassinato da floresta.
É curioso também destacar um trabalho que não foi reeditado, mas criado para a ocasião: Chico Mendes, instalação com alto-falantes feita por Hermuth Gripp, coloca ecos para remeter metaforicamente à figura do líder seringueiro que foi assassinado há 20 anos.
Após captação, mostra leiloará obras, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo
Após captação, mostra leiloará obras
Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 4 de março de 2008
Com trabalhos de 150 artistas, exposição para financiar preservação ambiental arrecadou R$ 750 mil por lei de incentivo
Diretor de museus do MinC considera a operação "estranha", mas assessoria do ministério assegura que não há irregularidade
Com a participação de 150 artistas brasileiros, "Arte pela Amazônia", mostra que é inaugurada hoje no pavilhão na Bienal, tem como objetivo central arrecadar fundos para a compra de uma área na fronteira do Mato Grosso com o Amazonas para preservação ambiental. Os artistas doaram as obras, que irão a leilão no dia 3 de abril.
Segundo Ricardo Ribenboim, um dos sócios da Base 7 Projetos Culturais, produtora que organiza a mostra, a expectativa é arrecadar entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, suficientes para comprar um terreno de 833 hectares, área cinco vezes superior ao parque Ibirapuera. "Esse terreno, onde será possível plantar 1 milhão de árvores, custa em torno de R$ 120 mil e com o dinheiro restante pretendemos criar um edital para projetos de qualidade para a população indígena e ribeirinha", conta Ribenboim.
Curioso, entretanto, é que a Base 7 arrecadou, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, R$ 750 mil para a organização da exposição, valor bem superior ao que se pretende arrecadar. "Uma exposição com 150 artistas é muito cara por conta do seguro das obras, do aluguel de espaço, da edição de um catálogo. Nós só quisemos organizar a mostra e depois viabilizá-la a ponto de conseguir que a renda seja totalmente entregue ao projeto", diz Ribenboim.
"Acho estranho que isso ocorra e, se virar moda, todo mundo vai usar a lei de incentivo para organizar uma exposição e fazer negócios em favor de alguma causa, independente do que ela seja", diz José do Nascimento Júnior, diretor do Departamento de Museus do Ministério da Cultura (MinC). Coordenador de Análise e Aprovação de Projetos do MinC, Maurício Bortoloti disse que irá emitir um parecer sobre o caso nos próximos dias.
A assessoria de imprensa do ministério assegura, no entanto, que não há irregularidade, pois os projetos inscritos podem ter fim comercial, se houver uma finalidade cultural.
Em família
A idéia para organizar a mostra com fins filantrópicos teve início numa conversa familiar: o filho de Ribenboim, Gabriel, é um dos proprietários da CO2 Soluções Ambientais, empresa que realiza projetos de neutralização de carbono, e tem uma fazenda próxima à área onde se pretende adquirir o novo terreno e irá monitorar o novo espaço contra incêndios e o desmatamento. "A idéia surgiu da união da CO2 e da Base 7 para criar um projeto de preservação consciente da Amazônia de longo prazo", diz Ribenboim.
O resultado da arrecadação do leilão será dividido em duas partes: 30% para os artistas e 70% para uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), criada a partir do Instituto Arte Mais Meio Ambiente, que irá gerenciar o projeto. Os artistas, segundo Ribenboim, estão sendo convidados a participarem da entidade. "A idéia é entender que isso é uma atitude de artistas e foi bacana ver como houve sensibilidade para o projeto", diz.
De 170 convidados, 150 aceitaram o convite para a mostra. No entanto, vários artistas ouvidos pela Folha não sabiam da captação. "Acho o valor arrecadado muito elevado, mas acredito ser por uma boa causa", diz Mauro Restiffe. Outros atenderam por respeito ao organizador: "Participo porque confio no Ribenboim", diz Carlito Carvalhosa. Outros artistas -que preferiram não se identificar- tiveram reações mais exaltadas ao tomar conhecimento da captação.
A Base 7 conseguiu ainda uma parceria com a Fundação Bienal de São Paulo que, mesmo ainda tendo dívidas da Bienal de 2006, deu um desconto substantivo para o aluguel: em vez de cobrar o preço normal, R$ 274 mil, está recebendo R$ 50 mil. O curador da fundação, Jacopo Crivelli Visconti, também trabalha para "Arte pela Amazônia", organizando a disposição das obras e escrevendo o texto do catálogo. Segundo Ribenboim, Visconti recebe verba da própria fundação.
