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janeiro 22, 2008
Museu sueco recebe produção carioca, por Gabriela Longman, Folha de São Paulo
Museu sueco recebe produção carioca
Matéria de Gabriela Longman, originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 22 de janeiro de 2008
Exposição reúne obras de Sergio Camargo, Ivan Serpa e outros artistas que marcaram a cena cultural do Rio de 1956 a 1964
Com curadoria de Paulo Venancio Filho, mostra em Estocolmo inclui referências ao cinema novo, à arquitetura e à música do período
O Rio de Janeiro aportou na Suécia. Desde o último sábado, uma exposição no Moderna Museet, em Estocolmo, apresenta a produção carioca entre os anos de 1956 e 1964, levando ao público escandinavo obras de artistas como Sergio Camargo, Milton Dacosta, Ivan Serpa, Franz Weissman e Amilcar de Castro, entre outros nomes que marcaram o cenário cultural da cidade no auge de sua modernização promissora.
Com curadoria de Paulo Venancio Filho, a mostra "Time and Place - Rio de Janeiro 1956-1964", que fica em cartaz até o dia 6 de abril, reúne cerca de 60 obras -entre pinturas, esculturas, fotos, croquis, pinturas e pôsteres- agrupadas em três salas.
"Procurei levar outros nomes além de Hélio [Oiticica] e Lygia [Clark], que já estão mais do que difundidos no cenário internacional", afirma o curador à Folha, por telefone. "E devo dizer que o público sueco mostrou-se bastante entusiasmado com o resultado."
Além da produção plástica, a mostra inclui referências ao cinema novo, à arquitetura moderna e à música do período. Estão lá, por exemplo, uma réplica da Casa das Canoas e alguns desenhos de Oscar Niemeyer, assim como móveis de Sergio Rodrigues, os biscoitos Piraquê e o pôster do filme "Terra em Transe" -apesar de o longa de Glauber Rocha ter sido lançado em 1967 e, assim, estar fora do período coberto pela exposição, o curador achou por bem acresentar a obra à seleção.
"No fundo, trata-se de desfazer aquela imagem já cansada do Brasil folclórico do Carnaval... Nesse sentido, ainda existe muito trabalho a ser feito", diz Venancio.
Fugindo da ordenação cronológica, as obras foram agrupadas de forma a ressaltar o diálogo entre os diferentes suportes (fotografia, escultura e assim por diante) no período.
"A idéia foi apontar como cada artista tinha uma espécie de sotaque particular dentro daquele momento comum."
Nesse sentido, parecem emblemáticas duas imagens que integram a exposição: Hélio Oiticica ao lado de Glauber Rocha, e também o poeta e crítico Ferreira Gullar junto com Hélio e Lygia Clark (veja ao lado).
A programação paralela prevê exibições de filmes e palestras com pesquisadores da Universidade de Estocolmo. Entre os temas de conferência, está, por exemplo, Gilberto Mendes e a música concreta.
Por enquanto, não existe previsão de itinerância da exposição.
Evento triplo
A mostra faz parte do projeto "Time and Place", criado pelo museu para a comemoração de seus 50 anos de inauguração. Previstas para o segundo semestre de 2008, mostras sobre os panoramas artístico-culturais de Milão/Turim e Los Angeles no mesmo período completam projeto.
"O Moderna Museet criou sua identidade com um pé em Nova York e outro em Paris. E, por muitos anos, ficou parecendo que a arte era guiada inteiramente por estas duas cidades. Olhando de longe, no entanto, fica óbvio que certos "bolsões culturais" estavam pipocando em outros lugares, com projetos artísticos inteiramente radicais", diz o texto de apresentação do evento. "A idéia é explorar o momento de criação do museu a partir de uma perspectiva internacional."
janeiro 21, 2008
Hora de crescer - Uma proposta de ação político-econômica
Hora de crescer - Uma proposta de ação político-econômica
A sustentabilidade do Canal Contemporâneo e seus desdobramentos sociais, políticos e econômicos.
Publicado no e-nforme ANO 8 - N. 5, de 22 de janeiro de 2008.
Para começar este texto, nostalgicamente fui ler a primeira edição do 'Hora de crescer', publicada em 31 de maio de 2002, quando lançávamos o programa de assinaturas do Canal Contemporâneo. Uma atitude nova em nosso setor cultural - cobrar e pagar semestralidades - nascia para promover a sustentabilidade de um veículo de interesse comum a um segmento produtivo. A proposta era simples: rachar as despesas para crescer. Nesta época, o Canal era tocado por apenas uma pessoa, esta artista que vos fala, que, obviamente, já não conseguia mais dar conta da trabalheira sozinha.
Os e-nformes eram ainda convites eletrônicos, sem data certa para sair e, às vezes, eram disparados mais de uma vez por dia. Eles ainda não estavam ancorados no sítio e, portanto, também não eram enviados automaticamente. Tudo era "manual", feito com apenas um computador e conexão discada (o nosso técnico lembra bem da agonia quando dava pau na máquina em dia de e-nforme).
O fato é que o 'Hora de crescer' nos permitiu, mesmo, crescer: estamos iniciando o ano 8 do Canal Contemporâneo e muita coisa mudou desde então. Da equipe e equipamento ao conceito, fomos passando por várias etapas e, em cada uma delas, mudanças eram percebidas no ar. O sítio, que sempre existiu, passou de fato a concretizar o nosso caminho, ancorando todos os nossos movimentos. Este crescimento orgânico e paulatino pode ser percebido no sítio, que apresenta módulos construídos em momentos diferentes. As diferenças não são apenas visuais, mas também tecnológicas, o que faz desta arquitetura de "puxadinhos" um verdadeiro frankenstein cibernético e cria mais um desafio para nós, qual seja, dar inteligência tecnológica e maior interação a este conjunto de interfaces.
No ano passado, na Documenta (ver a participação do Canal no www.canalcontemporaneo.art.br/documenta12magazines), falei da problemática tecnológica na minha palestra, que tinha como título "Canal Contemporâneo, is it a magazine, a newspaper, a site or what?". A idéia foi relacionar o desenvolvimento deste work in progress: os nossos conceitos de atuação, a participação da comunidade e seus integrantes (profissionais e organismos de formatos e tamanhos diferentes), a troca de informações, as ações políticas e o desafio da estruturação de nossa própria economia.
Apesar do atraso em relação às ferramentas tecnológicas para operarmos como uma comunidade digital, este conceito se construiu, mesmo de maneira low-tech, com a troca de emeios alimentando a participação dos integrantes da comunidade, que transformaram um simples ir e vir de mensagens eletrônicas em memória coletiva e plataforma política. As próximas implementações tecnológicas, patrocinadas pela Petrobras, dão um passo importante no sentido de ampliar as possibilidades desta comunidade: perfis dos integrantes publicados, interação automatizada com o conteúdo e um banco de dados unificado (finalmente) facilitarão a nossa comunicação e administração. Mas ainda é pouco para o tanto de coisas que queremos e podemos fazer. Então, como viabilizar as transformações de que necessitamos?
Chegamos a este novo patamar econômico, em que temos muito mais do que no início, mas é como se estivéssemos zerados novamente, pois muitas outras necessidades surgiram. Na verdade, o objetivo do 'Hora de crescer' agora é o mesmo que o originou: rachar as contas. Só que as contas cresceram e gostaríamos de não ter que pagá-las com a maior contribuição que recebemos de apenas um de nossos integrantes: o patrocínio da Petrobras. Queremos, neste momento, turbinar as nossas assinaturas para usar os recursos do patrocínio da Lei Rouanet, prioritariamente, para alavancar novos investimentos em tecnologia e contratação de novos profissionais. O nosso grande desafio em termos econômicos é este: alçar novos patamares com patrocínios e sustentá-los com as contribuições das associações. Estas, em quantidade suficiente, podem igualar a mesma importância financeira e, mais, permitir a autonomia em relação à nossa subsistência e à nossa liberdade de ação. É uma matemática simples, mas que exige um amadurecimento político e uma mudança de atitude.
Da parte do Canal, desde que começamos a lidar com a aprovação do primeiro patrocínio da Petrobras para a Agenda de Eventos, ficamos tão absorvidos com a dinâmica de crescimento que deixamos de promover o Programa de Assinaturas. Por outro lado, a participação dos usuários foi minguando e hoje temos a metade de associados que tínhamos no momento da publicação do último 'Hora de crescer', em dezembro de 2004. O fato de termos conseguido um patrocinador nos levou de volta ao padrão corrente de nosso segmento cultural (e muitos outros), que deixa a cargo do patrocínio a responsabilidade do sustento da iniciativa. É esta atitude que precisa ser mudada para ampliarmos o nosso horizonte.
O patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet (Art. 26, abatimento de 30%), é responsável hoje por um investimento de R$ 300 mil ao ano no Canal, cifra destinada atualmente à manutenção da equipe e do desenvolvimento tecnológico do sítio. Contudo, este valor não é suficiente para sustentar as melhorias em nossa infra-estrutura e nem arcar com a ampliação da equipe, que hoje ainda não trabalha em horário integral, e com a contratação de novos profissionais. Para que o Canal Contemporâneo continue a existir como um espaço vivo para o debate da arte contemporânea brasileira é preciso dar conta desta realidade.
O estágio de funcionamento ideal nos demanda dobrar o investimento do patrocinador e para isso seria necessária a adesão de 1.700 indivíduos (cuja associação anual custa R$140) e 80 organismos (R$800 ao ano). Números que podem parecer altos, mas que são bem menores que aqueles que já angariamos em iniciativas de ativismo político. Ah, mas isso é diferente, vocês vão pensar. Nem tanto. Trata-se, apesar da contribuição financeira, de uma ação política, nem mais e nem menos difícil das que já vivenciamos. A diferença está no embate da ação, que se dá em relação a nós mesmos, pois somos nós o objeto que se pretende transformar. E está também no que esta transformação deflagra: uma mudança de atitude; tomar para si a responsabilidade do mecenato e agir como um investidor, pensando que o seu investimento já nasce rendendo os 300 mil do patrocinador e sete anos de memória da arte contemporânea brasileira. E mais, os resultados da ação são diretos: não se trata de constituir uma etapa para deflagrar uma outra; aqui é aderir de um lado para ver o resultado acontecer em seguida, com a vantagem de que não começamos do zero.
Neste ano 8 que se inicia, abrimos o debate sobre o tema: a sustentabilidade do Canal Contemporâneo e seus desdobramentos sociais, políticos e econômicos. Publique o seu comentário no Como atiçar a brasa ou envie uma mensagem pelo contato online e vamos à discussão.
Para finalizar, como fazíamos anteriormente, publicamos os nomes dos indivíduos e organismos que contribuem para a manutenção do Canal, a fim de demonstrar o nosso agradecimento à sua participação. No final deste e-nforme, encontram-se as informações sobre como se associar para integrar esta ação político-econômica.
Patricia Canetti
Artista e criadora do Canal Contemporâneo
Acesse sempre a lista online para acompanhar A COMUNIDADE: associados individuais, organismos associados, apoios e parcerias e patrocínios.
Para se associar ao Canal Contemporâneo, escolha o seu tipo de associação semestral (indivíduos: R$75 ou organismos: R$400) e a sua forma de pagamento:
1 - Depósito ou transferência bancária em nome de Canal Contemporâneo Criações Artísticas em Rede Ltda., CNPJ: 08.658.479/0001-60, nos bancos Bradesco (agência 472-3, conta 55.594-0) e Unibanco (agência 0586, conta 118146-8). Envie o comprovante (ou dados) do depósito realizado, com o seu nome completo e emeio, por fax 21-2547-8627 ou pelo contato online.
2 - Boleto bancário, pagável em qualquer banco, inclusive pela internet (esta forma de pagamento sofre o acréscimo de até R$6,74 de tarifa bancária). Envie os seus dados (nome completo, endereço e valor da associação) e peça o boleto pelo contato online.
Crise do MASP: textos de José Arthur Giannotti e Renato Mezan, Caderno Mais da Folha de São Paulo
Crise do MASP: textos de José Arthur Giannotti e Renato Mezan
Renato Mezan e José Arthur Giannotti discutem a crise no museu após roubo dos quadros de Pablo Picasso e Candido Portinari
Nosso MASP, por José Arthur Giannotti
Papagaios e piratas, por Renato Mezan
Texto de José Arthur Giannotti, originalmente publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo, no dia 20 de janeiro de 2008
F oi enorme meu alívio ao tomar conhecimento de que as telas roubadas do Masp tinham sido recuperadas. Para mim era como se peças de minha mobília cultural tivessem sido roubadas. A perda financeira pouco significava, mas cada quadro do acervo tem para mim e para muitos valor muito especial; nós que iniciamos nossa vida cultural nos anos 50, que assistimos à inauguração do museu na rua Sete de Abril, que freqüentávamos o barzinho, que aprendemos a ver pintura no olho da tela, que lá abrimos nossos horizontes ao cinema.
Além da escola, minha turma tinha três pontos de apoio: a biblioteca infantil na rua Major Sertório, a biblioteca Mário de Andrade e a discoteca da rua Florêncio de Abreu. Girávamos em torno deles, cruzando a cidade a pé, embebidos por ela, esperando dar a ela o melhor de nossos pensamentos.
Surgiu então o Masp. Pela primeira vez vimos se formando um caleidoscópio de telas, cada qual com sua peculiaridade espantosa, mas concretizando uma história da arte que somente conhecíamos por livros. As instituições são como trilhas na floresta, se não forem constantemente pisadas e percorridas retornam ao estado natural. Foi isso que aconteceu com as nossas fontes urbanas.
A discoteca ficou obsoleta, a biblioteca infantil se espalhou pela cidade e perdeu empuxo, a biblioteca Mário de Andrade entrou em total decadência a ponto de suas instalações desmoronarem; passa agora por uma reforma profunda. E o Masp?
Novas percepções
O roubo dos quadros fez reavivar minha memória. Lembro-me de Bardi mostrando-nos o quadro de Picasso. Positivamente este não contava entre seus pintores preferidos, mas um retrato da fase azul era compatível com o espírito geral da coleção que estava formando. Bardi era o oposto de sua mulher Lina.
Às vezes chegava ao museu abraçando um prato florentino com o maior carinho, mas recebia de Lina um olhar de descaso. Ela só se encantava com obras modernas, ele só tinha olho para peças antigas. O museu era ponto de encontro e cadinho de novas percepções: ali víamos e estudávamos. Uma vez Bardi nos ofereceu um curso sobre história da arte, obviamente certo de que iria encontrar um grupo seleto de bugres ignorantes. Foi nossa vez de lhe dar o troco.
No final do curso cada um de nós deveria dissertar sobre um período escolhido no momento. Fui obrigado a falar sobre o século 1º em Roma e não me saí bem da empreitada, pois esse período até hoje não me fascina. Mas ainda hoje vejo Radhá Abramo contando a história de uma grande pedra que, rolando, ia selecionando as obras de arte de que lhe importava falar.
Depois descobrimos a intenção do diretor: estava escolhendo assistentes. Foi assim que Jorge Wilheim consolidou seu emprego ali. Até eu fui sondado, mas nada me desviaria de minha obsessão pela filosofia. Mesmo quando foi transferido para a avenida Paulista ainda nos fazia história. Veio a ocupar o terreno de um antigo Trianon, de onde contemplávamos o crescimento de São Paulo; era nos seus salões que comemorávamos nossas formaturas. Foi destruído para dar lugar à primeira Bienal. Projeto arquitetônico de Luiz Saia, naquela época diretor do Patrimônio Histórico de São Paulo.
Era um prédio quadradão, o chão de ardósia -enorme novidade no momento- tendo na fachada umas colunas de amianto. No alto de cada uma havia uma emenda, sagrada para Saia por causa de seu despojamento, mas que foi recoberta por uma faixa de fios amarelos, segundo uma recomendação de Ciccillo Matarazzo, presidente da Bienal. Obviamente Saia se retirou do projeto batendo os pés. Eles faziam acontecer.
Pronto o lindo prédio projetado por Lina, veio a surpresa maior. Como cada quadro ficava exposto num suporte de vidro fixado numa barra de concreto posta no chão, todos eles se davam para nós ao mesmo tempo. Era como se o museu imaginário de Malraux se apresentasse, abarcando todos eles numa visão panorâmica, onde a conexão plástica sobrepujasse as relações temporais.
Por certo uma concepção ousada e que nos fazia pensar. Mas sempre preferi manter uma relação íntima com cada quadro, o que era quase impossível na sala de exposição onde uma tela se encavalava noutra. Essas historinhas eu conto para mostrar como o museu é nosso. Faz parte de nossa história, de nossas vidas. Ora, a falta de projeto cultural do conselho deliberativo do Museu de Arte de São Paulo e o desleixo que facilitou o roubo das duas peças mostram claramente como o museu foi transformado num depósito de coisas velhas.
Reconheço os enormes obstáculos financeiros que as últimas diretorias tiveram que vencer para manter de pé a instituição. Porém o maior problema não está aí. Digamos francamente: São Paulo é uma cidade relativamente rica, tem recursos para manter um museu de arte de primeira linha.
É possível mobilizá-los se uma política cultural lhe for oferecida. O museu não é apenas nosso, mas também nós somos esse museu. Por isso não vejo outra solução para a atual crise: que a sociedade civil tome conta dele, substitua uma instituição formada por bons amigos por outra cujas políticas sejam transparentes.
José Arthur Giannotti é professor emérito da Universidade de São Paulo e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais!
Texto de Renato Mezan, originalmente publicado no Caderno Mais da Folha de São Paulo, no dia 20 de janeiro de 2008
A fotografia, publicada no dia 10 de janeiro em vários jornais, mostrando a devolução ao Masp dos quadros furtados do seu acervo, merece ser conservada nos arquivos nacionais.
De preferência com mais cautela que a dispensada a Picasso e Portinari pelo museu paulista -pois, se for tratada com a mesma displicência que receberam esses artistas, os estudiosos que no futuro tentarem compreender os costumes e a mentalidade "deste país" se verão privados de um documento precioso.
A imagem mostra os quadros guardados por dois policiais; ao lado deles, uma fileira de senhores engravatados, fitando com ar solene algum ponto fora do alcance da câmera (talvez outra objetiva, para a imortalidade?); em torno de uma mesa, quatro personagens também endomingados e uma senhora apenas parcialmente visível completam o "tableau".
As matérias que acompanham a foto dão notícia do fausto com que a direção do Masp recebeu as obras: champanhe, vestidos longos, entrevista coletiva etc. Um aparato considerável cercou a breve viagem delas até a avenida Paulista: helicóptero, motociclistas, viaturas, luminosos ligados -dizem os jornais que uns cem policiais participaram da "operação". Se estivessem patrulhando as ruas, provavelmente teriam impedido alguns assaltos e seqüestros-relâmpago.
O ridículo dessas duas cenas incita a refletir. Embora alguns não considerem de bom-tom elogiar a polícia, manda a justiça reconhecer que, desta vez, ela cumpriu com eficiência sua função, sem usar métodos violentos e servindo-se dos instrumentos adequados -entre os quais, como é óbvio, uma boa dose de discrição.
Por que esse sucesso indiscutível precisa ser transformado num espetáculo constrangedor? Se a preocupação era com a segurança dos quadros, não seria mais prudente devolvê-los num veículo anônimo, como tantos outros que circulam pela cidade?
É evidente que o objetivo da "operação" era oferecer aos cidadãos embasbacados uma demonstração de poderio. E o mais impressionante é que não faltaram crédulos para saudar o cortejo quando este chegou ao museu: atores e espectadores parecem assim unidos num pacto silencioso que em nada os enaltece, e que gostaria de tentar explicitar.
Personagens
O transporte dos quadros forma o pano de fundo para a foto, na qual aparecem somente dois policiais. Os personagens retratados formam parte da direção do museu, cuja incompetência em prover segurança para o patrimônio artístico sob sua guarda está na origem da série de fatos que culmina na cena aqui comentada. Lembremos que o furto foi cometido em três minutos, nas barbas de vigilantes despreparados e que se revezavam no "rodízio do sono"; mas isso é como que apagado da memória e substituído pela euforia do reencontro, como se Suzanne Bloch e o lavrador acabassem de chegar sãos e salvos de alguma aventura que inspirasse preocupação em seus amigos.
O discurso do presidente do Masp, de um cinismo inacreditável, faz referência às medidas de proteção -"semelhantes às do Louvre"- a serem adotadas de imediato. Depois de a casa ter sido arrombada, colocam-se taramelas eletrônicas -e a empresa que as fornecer terá direito ao seu logo nos corredores do museu. Sem comentários.
Mas a incúria dá lugar a um fatalismo de fazer inveja a Jeca Tatu: "tem coisa que só Deus pode garantir 100%". Por exemplo, um sistema eficaz de segurança -ou será que o Louvre confia ao Todo-Poderoso a vigilância do seu acervo?
Uma vez ocultadas as causas reais do roubo, que -insisto- é apenas o último elo de uma longa cadeia de negligências de conhecimento público, o passo seguinte é aproveitar-se descaradamente do trabalho alheio, no caso o da polícia. É a desfaçatez com que isso ocorre que impressiona -e também o que nela está implicado, a saber, que ninguém vai ligar a mínima, pois as coisas são assim.
Alguém cunhou a expressão "papagaio de pirata" para designar aquelas pessoas que se esgueiram por trás de alguém importante com o intuitoo de ter sua anônima imagem associada à do personagem em foco. Aqui, o papagaio tem até mais destaque que o pirata, reduzido a dois policiais que pouco ressaltam diante de tantas belas almas postadas no palco. Coisas da vida.
Mas, se aceitamos que assim seja, é porque estamos habituados a cenas semelhantes quando se trata da coisa pública -no caso, não as obras, que pertencem a uma entidade particular, mas a ação da polícia.
O cortejo imponente é apenas uma variante das cerimônias de inauguração de pontes, viadutos, centros de saúde, escolas e até chafarizes -tudo o que dê na vista e possa ser faturado politicamente pela "otoridade" inaugurante, freqüentemente homenageada com faixas que expressam gratidão por mais aquela demonstração de "carinho" pelo povo local.
Sabujice, beija-mão, placas com todos os títulos de quem entregou a obra completam o quadro, infelizmente familiar a todos nós, e que neste ano eleitoral com certeza será repetido à exaustão. Isso para não mencionar a prática de inaugurar obras pela metade, ou reinaugurar algumas já "entregues" pelos predecessores -a exemplo do que faziam alguns faraós no antigo Egito, que mandavam apagar dos monumentos o nome de quem os havia construído e substituí-lo pelo seu.
Contra-exemplo
À guisa de exemplo de como isso nada tem de natural, sendo apenas expressão de uma mentalidade que vê no poder público uma extensão do mundo privado, no qual o favor e as relações decidem quem será beneficiado (e como), lembro um fato que na época me chamou muito a atenção.
Era 1978, e a RATP (autarquia de transportes na região de Paris) acabava de concluir a ligação entre as estações Luxembourg e Châtelet, uma estupenda obra de engenharia que passava por baixo do Sena e, unindo duas linhas até então desconectadas, fazia do sistema por ela administrado uma rede perfeita. Além disso, como as gares de Paris estão ligadas a estações do metrô, tornava-se possível entrar num trem em Nice e continuar sobre trilhos até Calais, no extremo oposto da França -algo sem precedentes, mesmo na Europa.
O que marcou a entrega daquela obra? Nada. Numa bela manhã, o novo trecho foi aberto, sem fanfarras ou fotos do prefeito sorridente em um vagão. Cartazes explicavam detalhes da obra: quem quisesse podia admirar o feito técnico que ela representava "et voilà tout".
Não ocorreria a Jacques Chirac [então prefeito de Paris] vangloriar-se por ter "oferecido" à população mais uma comodidade em matéria de transporte -e, se o tivesse feito, talvez alguns anos mais tarde não conseguisse se eleger presidente do seu país.
Para finalizar: nada tenho contra o desejo muito humano de ser aplaudido pelo que se conseguiu realizar. A recuperação das pinturas merece palmas, é claro. Mas, como diria Pietro Bardi em sua língua materna, "il troppo stroppia" -"o que é demais estraga". Ao imitar os filmes de ação a que nos acostumou Hollywood, a polícia serviu de coadjuvante para a cena de ópera-bufa protagonizada pelos responsáveis pelo museu -e se expôs ao mesmo ridículo atroz. Pergunto: era mesmo necessário?
Renato Mezan é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!
Freios de mão e microfones, por Dilson Midlej, Fórum de discussão da Associação de Artes Visuais da Bahia - AAV_da Bahia, Jornal A Tarde
Freios de mão e microfones
Texto de Dilson Midlej, do Fórum de discussão da Associação de Artes Visuais da Bahia - AAV_da Bahia, originalmente publicado no A Tarde, no dia 10 de janeiro de 2008
Quem acompanhou atentamente a programação de artes visuais em Salvador em 2007 - meu caso, pois possuo especialização em crítica de arte e sou mestrando em artes visuais pela Ufba - deve ter estranhado a "paradeira generalizada", denominada como o "ano do freio de mão puxado" pela jornalista Ceci Alves, de A TARDE, na Retrospectiva 2007.
Para mim, 2007 não foi o "ano do freio de mão puxado" e sim o ano do microfone ligado à voz da classe artística, o que possibilitou a interlocução da Secretaria de Cultura do Estado (Secult) conosco, artistas, pesquisadores e produtores culturais. Essa interlocução resultou tanto na criação de programas, como os editais de apoio a montagens de exposições, de curadoria, de residências artísticas (para todas as linguagens), quanto no desenvolvimento de novos projetos, como o Giro das Artes Visuais (exposições itinerantes pelas cidades do interior).
Apesar de estas ações terem evidenciado a vitalidade das artes visuais em 2007, elas raramente foram noticiadas pela imprensa baiana.
O Giro das Artes Visuais, por exemplo, possibilitou que os acervos de fotografias de Pierre Verger e de Anízio de Carvalho, assim como obras de arte contemporânea do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), pudessem ser mostrados em diversas cidades do interior, algo nunca feito anteriormente.
Na capital, a exposição Smetak imprevisto e o 14º Salão da Bahia, ambas as iniciativas do Museu de Arte Moderna (MAM-BA), são fulgurantes exemplos de ações culturais relevantes.
Na minha opinião, o 14º Salão da Bahia (ainda em cartaz) traz melhorias consideráveis em relação às edições anteriores, dado não apenas aos cuidados e à competência curatorial da direção do museu (inclusive pela inserção de três prêmios de residências artísticas para São Paulo, França e Inglaterra, restritos aos artistas baianos), mas também pela exibição de obras de artistas premiados nos salões regionais de Juazeiro e Feira de Santana, algo impensável na gestão anterior.
Ao contrário do afirmado por Ceci Alves, de que a Secult vinha trabalhando em silêncio por dez meses, esse período me pareceu o mais barulhento possível, haja vista as muitas consultas feitas à classe artística (das quais participei de algumas) e das várias oportunidades de diálogos criadas pela Diretoria de Artes Visuais da Fundação Cultural do Estado, dirigida competentemente por Ayrson Heráclito. Esses diálogos terminaram, na prática, por aquecer a programação de exposições de espaços, como as galerias Pierre Verger e do Conselho, e pela abertura de novas áreas expositivas, a exemplo do Iceia, no Barbalho.
Como se vê, o freio de mão do carro da cultura visual baiana encontra-se baixo. Só que, para ouvirmos as buzinas das novas iniciativas, se faz necessário - antes de dar partida no carro - tirar os fones dos ouvidos.
