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janeiro 19, 2006
Contra os privilegiados, entrevista de Gilberto Gil a Pedro Alexandre Sanches, Revista CartaCapital

Contra os privilegiados
Entrevista completa de Gilberto Gil a Pedro Alexandre Sanches, originalmente publicada na Revista CartaCapital 376, Seção Plural, do dia 18 de janeiro de 2006
Para Gil, a classe dominante reage à "discriminação positiva" do MinC
A PEDRO ALEXANDRE SANCHES
Ele diz que veio da "classe dominante" para "fazer um deslocamento", "um trabalho que é outro", diferente do que realizou nas últimas décadas como músico e personalidade da cultura. Em entrevista a CartaCapital na segunda-feira 9, o cantor e compositor tropicalista Gilberto Gil, ora ministro da Cultura, procurou demonstrar que a missão em que parece estar imbuído não é retórica, mas real.
Uma evidência seria o fato de que os críticos mais ferozes e renitentes das atuais políticas (ou da falta delas, segundo os opositores) têm nomes como Ferreira Gullar, Luiz Carlos Barreto, Marco Nanini e até mesmo o amigo e parceiro histórico Caetano Veloso.
"Os artistas consagrados e bem-sucedidos não gostam de ser elencados na classe dominante, mas são. Nós somos classe dominante", provoca o ministro, incluindo-se na elite, a boiar nas contradições. E tenta, na entrevista a seguir, explicar sob o fio dessa lógica a hostilidade da imprensa e a zanga dos "privilegiados" contra sua gestão num ministério que, segundo ele, se empenha em inverter a lógica dominante e "atender áreas periféricas que nunca foram atendidas".
CartaCapital: As críticas que o Ministério da Cultura vem sofrendo e revidando voltam a falar em "centralização", "stalinismo" e "totalitarismo". Que há por trás delas?
Gilberto Gil: Acredito que essas queixas são em relação ao atendimento geral que o ministério e as estatais vêm dando aos filmes, adotando políticas públicas de fomento um pouco mais abertas e democráticas. Zelito Viana é que vai ter de explicar por que pediria minha cabeça. Não vejo nada por trás, a não ser questões políticas, que podem ser trazidas para cá. Há o setor tucano contra o PT e a gestão Lula, a campanha política que vem aí. No momento em que já se põe a questão da sucessão, os descontentamentos se transformam em antagonismo político real. Há setores da área cultural que participam desse conflito.
CC: Nos últimos meses, sua gestão foi criticada sucessivamente por Paulo Autran, Marco Nanini, Gerald Thomas, Ferreira Gullar, Caetano Veloso, todos representantes da elite da cultura brasileira. Por que estes estão especialmente críticos?
GG: Acho que tem a ver com a discriminação positiva, digamos assim, que estamos tentando fazer, focando áreas que não eram focadas e, portanto, estabelecendo um conflito distributivo com esses setores. É um conflito que não existia nessa intensidade antes, porque eles tinham acesso a recursos que estão sendo redistribuídos. Estamos tentando trabalhar com um pouco mais de atendimento periférico, com os Pontos de Cultura, as políticas para museus que estamos descentralizando. O programa Monumenta está fazendo trabalho de patrimônio histórico em cidades do interior de Minas Gerais, Sergipe, Bahia, Maranhão, Rio Grande do Sul... É a característica seletiva do governar.
CC: Seletiva e descentralizadora? Gullar critica o MinC justamente pelo inverso, por ser supostamente centralizador.
GG: Não vejo isso. Eu queria uma demonstração desse caráter centralizador do ministério. Eu mesmo preciso saber. O que nós estamos centralizando? O próprio Gullar diz que não acompanha nosso trabalho, que tem notícia do que estamos fazendo por outros. Isso tem a ver também com a dificuldade de informação que nós temos, que, aliás, é uma dificuldade geral do governo Lula. Há uma dificuldade de mostrar o que está sendo feito. Isso tem a ver com deficiências do próprio governo, mas também com uma dificuldade de encontrar espaço na mídia.
CC: Devida a quê?
GG: Acho que é uma indisposição generalizada contra o governo. A pauta positiva não é uma preferência, as pautas negativas têm muito mais apelo e interesse jornalístico. É esse absolutismo consentido com que trabalha a mídia, que pode tudo, pode dizer, desdizer, manipular, fazer e desfazer e contra isso não há grandes insurreições. Com relação ao governo, ao contrário, ele está o tempo todo sendo questionado sobre seu modo de agir.
CC: Há na gestão do MinC "intervencionismo", "dirigismo", "totalitarismo", ou mesmo "stalinismo", termo também usado no próprio ministério?
GG: Eu gostaria que fossem apontadas as questões que justificariam essas hipóteses. É preciso qualificar a crítica. Para nós, é importantíssimo que ela seja qualificada, porque só isso pode qualificar a resposta e as posições. O que considero um deslize de Sérgio Sá Leitão, de chamar Gullar de stalinista, vem da desqualificação da crítica do Gullar. Dá margem a que as coisas sejam deslocadas para a periferia da questão, e não especificamente daquilo que está sendo tratado, que é a gestão do MinC.
CC: Esses deslocamentos ajudaram a causar a implosão do projeto da Ancinav, por exemplo?
GG: Eu acho um pouco, sim. O conteúdo e certos deslizes que também possam ter acontecido na confecção do texto não foram discutidos. Foi apagada a possibilidade da discussão de uma agência reguladora para o audiovisual, e o foco da questão se perdeu.
CC: E, na perda do foco, um grupo bastante poderoso conseguiu atingir o objetivo de interditar a implantação de mudanças? Isso está acontecendo de novo?
GG: Não, não creio. O caso me parece ser aquele de alguns grupos que se vêem não, ou menos, atendidos pelas estatais. Eles precisam ser atendidos também. Mas é também. Não são os únicos que precisam. Há toda uma exclusão aí, que as políticas públicas precisam atender. É isso que a gente está fazendo, descentralizando, deslocando do eixo Rio-São Paulo, atendendo as outras regiões, o interior e as periferias das grandes capitais. São experiências, tentativas de atender gente de teatro que não é o grande teatro consagrado, o pessoal que quer a implantação das rádios e tevês comunitárias, as pequenas cidades que querem ter políticas de patrimônio. Estamos atendendo os produtores musicais independentes, incentivando a organização e a articulação deles, interna, em detrimento de quê? De uma política clássica de atendimento às grandes gravadoras. É uma mudança de política.
CC: Luiz Carlos Barreto deixou de fato de receber recursos?
GG: As informações que temos eu conheço pelas próprias queixas diretas que ele tem feito à Secretaria do Audiovisual, a mim diretamente, em audiências, em cartas, em e-mails que nos tem dirigido. O que nós sabemos é que, nos últimos três anos, muitos dos projetos dele não foram atendidos. No momento em que as estatais passam, nas suas políticas de atendimento, a incluir formação de platéias, novos talentos, primeiros filmes, documentários, jogos eletrônicos, novas formas de manifestações audiovisuais, retiram um pouco de recursos que estavam sendo quase totalmente canalizados para o grande filme de bilheteria.
CC: Caetano interveio nesse ponto, referindo-se a "um país em que o que mais se vê é filme de diretor estreante". E disse, em entrevista a O Globo, que produtores como Paula Lavigne e Guel Arraes não deveriam "temer má vontade só porque já produziram três ou quatro sucessos". Essa reação teria o mesmo pano de fundo do caso de Barreto?
GG: Não, não, no caso de Caetano seguramente não. Ele é muito correto, não faria isso. Ele acha, e tenho impressão de que tem razão, que não podemos dar a impressão de que nós estamos criando "ex-privilegiados", ao realizar discriminação positiva, do tipo cotas para novos cineastas, novos dramaturgos, teatros de periferia... Seria admitir que o que quer que tenha sido feito pelos "ex-privilegiados" deixou de ser feito. Pode parecer isso, concordo que pode parecer que assim seja.
CC: O senhor usou o termo "cota". A cultura estaria instituindo algum sistema de cotas, a exemplo do que está acontecendo na educação?
GG: Pode haver uma semelhança, no momento em que se diz que vamos destinar recursos a manifestações que não tinham espaço e voz. Você está fazendo uma espécie de cota, dizendo que vai deixar de atender ou atender menos tais setores para passar a atender ou atender mais a tais outros. É política governamental. Eu até brinco que esse tipo de política é algo que foi sempre pedido. O cinema novo brasileiro todo, o teatro todo, a literatura mais engajada etc. passaram as últimas décadas dizendo isso: vamos lá, vamos incluir os excluídos, os underdogs da história.
CC: Como o MinC está atendendo e destinando recursos às periferias, na prática?
GG: Os Pontos de Cultura estão indo lá atender esse pessoal. Há a convocação das câmaras setoriais e os primeiros a atender são os menos conhecidos, não é o grande teatro que vem. Estamos tentando atenuar déficits de atendimento à música de concerto, ao circo, à propriedade intelectual. Fizemos a desoneração do setor do livro, que estendemos às salas de cinema. Há o CulturaPrev, a previdência que estamos instituindo para aposentadoria dos trabalhadores em cultura. É uma reivindicação antiga.
CC: Por que a atuação do MinC em relação à música é pouco visível?
GG: Porque não é uma área que tenha vivido historicamente da dependência. Sua sustentabilidade e autonomia de mercado nunca foram determinadas pelo mecenato público, como acontece com o cinema e o teatro.
CC: Mas músicos consagrados, inclusive o senhor mesmo, também se acostumaram a gozar de patrocínios vultosos.
GG: Isso eu disse na primeira semana no ministério: eu sou um dos que têm sido privilegiados. Nós somos. Caetano fica muito aborrecido com essa coisa de destacar privilégios. Eu sei disso, mas ainda assim é preciso que seja dito: os artistas consagrados e bem-sucedidos não gostam de ser elencados na classe dominante, mas são [ri]. Nós somos classe dominante. Na verdade há um conflito de classes em tudo isso, também. O problema de classe não desapareceu e não desaparecerá assim tão simplesmente.
CC: Sua geração apareceu combatendo uma elite que controlava a gestão dos direitos autorais na época, como David Nasser, Fernando Lobo etc.
GG: Nós estabelecemos uma disputa, um conflito distributivo com eles, assim como hoje outros estabelecem conosco e assim por diante. É assim, até que nós tenhamos a abolição das classes (ri), se é que a teremos.
CC: Nos anos 60, os opositores das mudanças eram mais facilmente identificáveis como conservadores. Caetano e Gullar são conservadores hoje em dia?
GG: Não são necessariamente conservadores, mas naquilo que diz respeito à disputa que eles, ou melhor, nós fazemos no campo dos recursos, por inércia mesmo, temos uma tendência de nos tornar conservadores. Queremos manter a fatia do bolo que comemos. Estou falando "nós" porque é "nós" mesmo. Tenho de me distanciar do meu status de consagração, fui chamado para ser ministro da Cultura do governo Lula para fazer um deslocamento, para repor a questão do conflito distributivo nesse setor. Mas me coloquei imediatamente como pertencente a essa elite, para dizer que estou vindo de lá para fazer um trabalho que é outro, que não é mais demandar os recursos para o meu grupo, é tentar uma política pública de distribuição mais aberta, democrática.
CC: Seria possível fazer já um balanço da gestão Gilberto Gil?
GG: Nós temos marcado uma certa diferença. Dobramos o nosso orçamento em relação ao que encontramos do governo anterior. Hoje temos um orçamento de R$ 420 milhões para 2006, que é duas vezes o de 2002. A lei de incentivo fiscal vem trabalhando com patamares recordes, de R$ 550 milhões a R$ 600 milhões. O programa Monumenta está tendo desempenho cinco ou seis vezes maior do que teve no governo anterior. O atendimento aos museus é 40% acima do que era. Toda a dimensão imaterial da atuação do MinC também cresceu muito nesta nossa gestão.
CC: Qual é sua opinião sobre o projeto de lei contra o jabaculê, que circula no Congresso Nacional?
GG: Acho que tudo que puder ser feito para evitar e inibir o jabá deveria ser feito. Tenho levantado sempre a questão da dificuldade de estabelecer isso por lei, porque há sempre formas disfarçadas possíveis a partir do momento em que a lei estabeleça proibições. O jabá faz parte do modelo de negócios que se estabeleceu até hoje.
CC: Não caberia ao ministério tomar a dianteira de atitudes nesse sentido?
GG: Não, não. O ministério até pode tomar atitude, mas acho que é mais natural que a gente faça parte de um conjunto de manifestações da sociedade, até para saber qual é a consciência social real que temos disso. Hoje o jabá é chamado de verba de promoção. Como vai se proibir uma verba promocional ou impedir que ela se disfarce, ainda que, digamos, venha a ser proibida? O jabá pode passar por debaixo da mesa. Estou falando em termos realistas, não ideológicos. Ideologicamente, é evidente que nós somos contra o jabá. É uma prática com algum grau de perversidade, para não dizer com alto grau. Outro dia (o ex-presidente de gravadoras) André Midani declarou que pagou, sim, jabá por Gilberto Gil, e que achava muito bom ter feito isso, porque ajudou a desenvolver um grande artista que está aí até hoje. É complexo.
CC: Os modelos de negócios com jabá na indústria cultural são parecidos com tudo o que foi sendo revelado a partir da crise política?
GG: Com mensalão, caixa 2 etc. (ri). É tudo igual, é claro que é a mesma coisa. É por isso que digo que não temos tanta novidade assim no mundo político. Corrupção e essas formas todas de comprar espaços ou privilégios são da prática do mundo.
CC: O MinC afirma que recebeu do governo FHC uma concentração de cerca de 80% de recursos destinados à Região Sudeste e ao eixo Rio-São Paulo. Há atualizações a respeito?
GG: Isso melhorou muito (leia quadro à pág. 52). A Região Norte, que era zero antes da nossa gestão, aumentou muito. Evidentemente que, como era zero, tem agora 500% a mais do que tinha antes. Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Goiás, os territórios também têm crescimento significativo. O Nordeste e o Sul também, e ainda assim Rio e São Paulo continuam crescendo. Têm mais recursos do que tinham, mas porcentualmente estão dividindo melhor. Não diminuíram, o que vem um pouco atender à questão que Caetano põe. Não é preciso que os privilegiados deixem de ser atendidos.
CC: Como o senhor se defronta pessoalmente com toda a crise política do ano passado? Como seu ânimo reage a ela?
GG: É sempre incômodo, desconfortável, doloroso mesmo para o cidadão, para todo mundo. Mas ao mesmo tempo sou muito realista... A raça humana é uma semana do trabalho de Deus, para mim é uma ferida acesa, uma beleza, uma podridão. Acho que é isso mesmo, ela vai aos trambolhões.
CC: O que se tem ouvido sobre "pior crise da história"...
GG: Não vejo nada disso. Pior crise da história é se você vai do ponto de vista midiático, num governo que exerce exemplarmente a dimensão democrática de suas obrigações. O presidente permite que ele seja mesmo ofendido publicamente, sem reações nem nada. É um governo exemplarmente democrático. E, do ponto de vista das acusações de corrupção, é uma ninharia em relação ao que a gente conhece da história do Brasil.
janeiro 18, 2006
Apreensão com anúncio de que CCBBs sofrerão cortes de 30%
Apreensão com anúncio de que CCBBs sofrerão cortes de 30%
Matéria originalmente publicada no Segundo Caderno do Jornal O Globo do dia 18 de janeiro de 2006
No mesmo dia em que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) deu início à sua programação teatral no Rio, repleta de boas novidades, o diretor de marketing do Banco do Brasil, Paulo Rogério Caffarelli, fez um contraponto dramático nos bastidores. No dia 12 deste mês, o executivo disse em entrevista ao GLOBO que em 2006 os três centros culturais ligados ao banco - no Rio, em Brasília e em São Paulo - terão que cortar 30% de seus gastos.
Caffarelli assumiu o cargo em julho. Seu antecessor, Henrique Pizzolato, deixou o cargo em meio a denúncias de envolvimento com o empresário Marcos Valério de Souza. O contrato do BB com a DNA Propaganda, agência de Valério, foi rescindido. Na nova gestão, dez dos 125 funcionários da diretoria de marketing deixaram a empresa, e 12 dos 15 gerentes foram remanejados. No ano passado, o orçamento do marketing foi de R$ 300 milhões. Os centros culturais gastaram R$ 32 milhões.
Além do corte de 30% na área cultural - parte do plano para reduzir em 20% os gastos do setor de marketing - foi contratada uma empresa para auditar se os preços dos eventos culturais patrocinados correspondem aos de mercado. O banco também está renegociando os patrocínios esportivos, que consumiram R$ 40 milhões em 2005.
Em artigo publicado abaixo, o curador Marcus Lontra lembra o "padrão de qualidade CCBB", vê com apreensão os cortes anunciados pelo banco e espera que os ministérios da Cultura e do Esporte interfiram.
O CCBB carioca foi inaugurado em 1989. Instalado num prédio centenário, é um dos espaços culturais mais visitados da cidade, por reunir música, exposições, vídeo, palestras, cinema e teatro.
Tudo pelos prêmios, por Ana Paula Sousa
Tudo pelos prêmios
Matéria de Ana Paula Sousa, originalmente publicada na Revista Carta Capital nº 376, do dia 18 de janeiro de 2005
Um detalhe une a turma do cinema que atacou o MinC na briga com Gullar: todos perderam o dinheiro do BNDES
Nas últimas semanas, o Ministério da Cultura (MinC) entrou na mira de uma conhecida ala de produtores e artistas brasileiros. Nos jornais, a pasta comandada por Gilberto Gil foi chamada de autoritária, centralizadora e incompetente. À primeira vista ideológica, a briga tinha origem, no fundo, numa única e mundana questão: a distribuição de verbas.
Não foi preciso lupa de Sherlock Holmes para adivinhar o sentido oculto nessas palavras. A pista surgiu no próprio editorial do jornal O Globo, na quarta-feira 11: "Há no BNDES R$ 10 milhões para financiar filmes. O edital seria dirigido para, salvo exceções, alijar grandes nomes, punir o sucesso". Elementar.
O resultado do concurso público, que teve 178 inscritos e 30 pré-selecionados para a defesa oral (chamada de pitching), será divulgado apenas na semana que vem. CartaCapital apurou alguns dos nomes que ficaram de fora dessa etapa final: Luiz Carlos Barreto, seus filhos Bruno e Fábio (três projetos ao todo), Paula Lavigne, Paulo Thiago, Tisuka Yamazaki e Daniel Filho.
Todos eles, direta ou indiretamente, aparecem ligados às recentes críticas ao MinC. A porta para as manifestações foi aberta por Ferreira Gullar. Numa sabatina feita pelo jornal Folha de S.Paulo, em 21 de dezembro, ele afirmou que, apesar de não acompanhar os feitos do ministério, ouvia dizer por aí que "os projetos não andam" e acusou Gil de "centralização".
Quem respondeu foi Sérgio Sá Leitão, secretário de Políticas Culturais do MinC. Após ponderar que as críticas partiam de alguém declaradamente desinformado e listar algumas ações do governo, escreveu a frase que jogou munição nas mãos dos adversários: "A centralização não era marca registrada dos finados regimes stalinistas dos quais Gullar foi e segue sendo um defensor?"
O poeta, ex-PCB, rebateu comentando que a resposta do MinC parecia um comunicado do SNI. Angariou, a partir daí, os aliados já mencionados.
Barreto bradou com a voz forte de sempre e, ao lado do amigo e produtor Zelito Viana, puxou um abaixo-assinado pedindo a cabeça de Sá Leitão. Paula Lavigne passou procuração para Caetano Veloso, que escreveu: "Se um ministério demonstra não aceitar críticas (...) estamos a um passo do totalitarismo". Gláucia Camargos, mulher de Paulo Thiago, disse ao jornal O Globo que há "uma tentativa de centralização de recursos públicos". Roberto Farias, cineasta e funcionário da Globo, voltou a evocar a expressão "dirigismo cultural".
Totalitarismo, autoritarismo e tendência à centralização, não é demais lembrar, foram também as palavras de ordem que lideraram as manifestações contra a criação da Agência Nacional do Audiovisual (Ancinav), sepultada, antes mesmo de nascer, há exatamente um ano.
À época - extravagâncias do projeto à parte - temia-se que televisão e majors do cinema, como Columbia, Fox e Warner, tivessem de mexer no bolso para contribuir com a produção independente. Agora, o que está por trás da grita, como bem indica o resultado do BNDES, é o incômodo causado pela distribuição do dinheiro via editais, ou seja, por meio de concursos públicos que incluem regras claras e comissões dificilmente contestáveis.
"A política de editais, que por sua essência são mais democráticos, universais e abrangentes, está sendo adotada mais intensivamente de um ano e meio para cá", indicou o ministro Gil, em entrevista exclusiva a CartaCapital (leia na edição impressa).
O ministro Gil contou ainda que Barreto, em cartas e e-mails, disse ter enviado 12 projetos ao governo, sem sucesso. "Mas pelo menos uns seis ou sete projetos não entraram nem em julgamento de mérito porque tinham irregularidades anteriores, inadimplências e coisas desse tipo", explicou o ministro.
Informado da declaração, o produtor de O Quatrilho (1995) e Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), entre dezenas de outros filmes, rebateu a acusação. "Se o ministro Gil fez esta declaração ele está mal informado, pois não tenho nenhum tipo de inadimplência e nem irregularidades", escreveu, enfático, num e-mail.
"No último edital da Petrobras, me informaram extra-oficialmente que dois dos projetos de minha empresa estavam com documentação incompleta. Fui verificar e constatei que não era problema de documentação, mas de digitação dos formulários. O mínimo que posso exigir agora é que provem e explicitem essas irregularidades", prossegue Barreto. Mas, ao ser perguntado, por telefone, a respeito da dívida que tinha com o Banco do Brasil (assunto tratado na reportagem O Proer das Telas, ed. 298 de CartaCapital), titubeou: "Olha, esse negócio está em pleno processo de negociação. Mas a dívida vai ser paga".
Representante maior da oligarquia que, por anos, dominou o cinema brasileiro, Barreto vem de uma sucessão de fracassos, como A Paixão de Jacobina (2002), que vendeu 146 mil ingressos, e Bella Dona (1998), com 68 mil espectadores. Nos anos recentes, sua produtora tem feito cada vez menos filmes e o último lançamento, O Casamento de Romeu e Julieta, fez 969 mil espectadores em 2005, um número razoável, mas muito aquém do esperado, dado o tamanho do lançamento - feito com o apoio da Petrobras.
"As principais queixas contra o ministério vêm de produtores que têm medo de que a mudança de regras faça mal ao seu negócio", argumenta Orlando Senna, secretário do Audiovisual. "São pessoas que têm a sensação de que os ajustes no mercado podem prejudicá-las."
Na opinião da crítica Ivana Bentes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o movimento contra os editais públicos é encabeçado pelas figuras que foram sempre beneficiadas pela política de balcão, pela política do 'sabe com quem está falando?'
"Houve um deslocamento de verbas e esses produtores parecem temer que se crie uma base nova, que se amplie o número de atores da cultura", aposta Ivana. "É uma postura provinciana, de um Brasil que tinha cinco nomes que mandavam. E a mídia costuma seguir a lógica de celebridade e ouvir apenas os nomes famosos", avalia Ivana.
De fato, para além dos antigos produtores que têm aparecido na mídia para reclamar do MinC, não é difícil encontrar um discurso diferente. "Não é o caso de falar de autoritarismo. A discussão é outra", pondera a diretora Lúcia Murat, de Quase Dois Irmãos. "Se alguém se sente prejudicado, que diga. Eu, como qualquer pessoa do cinema independente, não me sinto prejudicada. Alguns setores tinham muita coisa e agora é um pouco mais dividido."
Silvio Da-Rin, técnico de som que vai estrear no longa-metragem, lembra que não é a primeira vez que surge uma polêmica artificial antes do resultado de editais. "O último edital da Petrobras apresentou um resultado bastante equilibrado, no sentido regional e no sentido da vocação comercial dos projetos. No entanto, nos meses que antecederam a divulgação dos selecionados, surgiu uma falsa polêmica, que opunha uma política de concentração a outra, de 'pulverização' de recursos", diz, referindo-se a críticas feitas por Barreto ao júri da Petrobras.
O que os produtores mais ligados ao cinema comercial não dizem é que são eles os beneficiados pelo artigo 3º da Lei do Audiovisual, que permite a distribuidoras estrangeiras investir parte do imposto devido em produções nacionais. Não caberia ao poder público dividir o resto do bolo entre os produtores independentes?
"Modificaram-se as políticas de atendimento, aplicou-se aqui e ali o princípio da discriminação positiva, de atender setores periféricos que nunca foram atendidos", disse Gil a CartaCapital.
No caso do cinema, isso parece ser de fato verdade. Além da produção de longas-metragens, a face mais visível do audiovisual, o MinC criou projetos como o DOC-TV, destinado à produção de documentários para as tevês públicas, e o Revelando Brasis, que coloca câmeras de vídeo nas mãos da população de pequenas cidades. Por mais que haja problemas, principalmente de distribuição, o cinema caminha.
Já no caso do teatro, a discussão tem outras nuances. Numa manifestação também recente, feita em novembro por atores famosos de teatro, como Paulo Autran e Marco Nanini (ator no projeto de Paula Lavigne reprovado no BNDES, O Bem Amado), também é qualificada por Gil como uma reclamação dos "consagrados".
No entanto, os não consagrados também têm queixas. "O ministério de fato se dispôs a falar com os não consagrados, mas, no fim, fomos vendo que os editais não saíam", relata Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, ator do Cia. do Latão e representante de São Paulo na Câmara Setorial organizada pelo MinC. "Nem acho justo dizer que esse é o ministério do Audiovisual, mas que no curto cobertor da cultura o teatro não tem cabido, isso não se pode negar", diz.
Até agora, o setor foi beneficiado por um único edital com dinheiro do orçamento. Foram R$ 3,9 milhões divididos por 112 produções, em 2004. Para este ano, estão previstos R$ 10 milhões da Petrobras.
Por outro lado, é verdade também que o teatrão segue captando dinheiro no mercado, junto às empresas que podem beneficiar-se dos incentivos fiscais por meio da Lei Rouanet. Só para se ter uma idéia: O Fantasma da Ópera captou R$ 4,8 milhões e As Mulheres da Minha Vida, dirigida por Daniel Filho e protagonizada por Antonio Fagundes, R$ 800 mil.
Augusto Boal, do Teatro do Oprimido, também não foi diretamente beneficiado pelo MinC. Mas uma faceta de seu trabalho, sim. "Firmamos um contrato com o ministério para as atividades do teatro ligadas à população carente", conta, em referência ao Ponto de Cultura da Favela da Maré, um dos 500 espalhados pelo País. "Com o dinheiro, compramos três arquibancadas e alguns refletores para o teatro e reformamos também o chão."
Nas atividades mais ligadas à ação social, o MinC tem se virado como nunca. E a distribuição de verbas para regiões antes ignoradas também é uma realidade. No entanto, permanecem na gaveta várias das mudanças prometidas, que seriam capazes de mudar as engrenagens da cultura. "Onde está o decreto que muda a Lei Rouanet?", pergunta, por exemplo, o produtor Paulo Pélico, da Associação de Produtores Teatrais de São Paulo (Apetesp). A alteração, de indiscutível importância, é anunciada há dois anos, mas continua parada na Casa Civil.
Como se vê, o debate sobre a gestão Gilberto Gil daria muito pano para manga. Mas, para levá-lo adiante, seria importante discutir idéias e ações - e não trocados. "Se fosse um debate de idéias, seria bom para todo mundo. Mas fica uma luta de palavrões, de palavras que viraram palavrões", observa Boal. "É uma pena ver pessoas inteligentes se agredindo de maneira tão tosca. Também seria importante que quem se diz contra a política cultural explicasse exatamente por que é contra." Bingo.
janeiro 16, 2006
Pode não ser doce a arte contemporânea, por Ricardo Resende
Pode não ser doce a arte contemporânea
RICARDO RESENDE
O Museu de Arte Contemporânea do Ceará torna-se a arena ideal para a reflexão diante da repercussão da ação do ARTISTA INVASOR convidado para ocupar o museu de janeiro a março de 2006.
O programa foi pensado como espaço para apresentação períodica de um artista convidado para intervir nas dependências do museu, criando um diálogo com o que há de mais instigante e provocativo na produção contemporânea da arte. O museu como um território livre para a experimentação plástica e conceitual. Sim! Este é o papel de um museu que se quer museu de arte contemporânea. É assim que entendemos o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, equipamento do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. E a instituição deve arcar com os riscos desde que estes, obviamente, não agridam fisica e eticamente o público.
A ousadia de Yuri Firmeza, o nosso convidado, talvez seja demais para os nossos padrões institucionais ao questionar e testar os limites do museu e os procedimentos de informação dos meios de comunicação atuais. São questões indigestas, as colocadas para reflexão nesta performance. O artista cearense provoca a discussão sobre o que convencionamos como sistema das artes, da sociedade como um todo na sua superficialidade ao tratar de questões vitais para a humanidade. Neste caso, coloca em cheque o direito à informação isenta de interesses corporativistas, financeiros, de moralismo político-religioso, de opniões pessoais preconceituosas na forma de crítica.
Yuri Firmeza levanta polêmica no meio artístico e de informação da cidade de Fortaleza e do Brasil ao propor o seu falso artista para o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, dentro do projeto Artista Invasor, já em sua quarta edição. Já passaram pelo MACCE o cearense Jared Domício (hoje em cartaz como convidado no Salão Paranaense, em Curitiba), a mineira Marta Neves e o cearense Solon Ribeiro. E mais uma vez, estes artistas passaram despercebidos pela mídia local por ocasião de suas intervenções. Só tomaram conhecimento aqueles que vieram expontaneamente ao museu.
Para mudar este quadro de apatia que reina na mídia nacional quando se propõe discutir arte contemporânea, foi necessário ao artista, criar um "famoso" artista japonês. Yuri, para aqueles que não o conhecem, é um dos selecionados para o Rumos Itaú Cultural de 2006, que conta com importantes profissionais na curadoria do evento, entre elas Aracy Amaral, a curadora da Bienal de São Paulo Lisette Lagnado e a carioca Luisa Duarte, do Rio de Janeiro, a responsável por seu mapeamento por ocasião de sua viagem à Fortaleza. As curadoras percorreram o Brasil para conhecerem a produção nacional, traçando este importante mapeamento e propor suas escolhas para esta exposição. Um raio x da produção contemporânea nacional.
Portanto, os comentários dos jornalistas nas últimas edições dos jornais locais evidenciam a incompreensão para os procedimentos da arte contemporânea e também, um preconceito latente para com os jovens artistas da cidade. É novamente a mídia local se fechando para os expoentes da arte cearense como o fizeram com Leonilson, Efrain de Almeida e Luiz Hermano. Por décadas não reconheceram e não os reconhecem ainda hoje. Eduardo Frota, mais um artista dessa geração, personagem chave nos desdobramentos da arte na cidade na década de noventa e neste novo milênio, está com exposição no Museu da Vale do Rio Doce, no Espírito Santo. Já figurou em importantes mostras como a última Bienal de São Paulo, sofre do mesmo apagamento na cidade. Francisco de Almeida, inteligente gravurista, figura entre os artistas do Panorama da Arte Brasileira de 2005 (só no dia 13 de janeiro, quando a exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo já foi desmontada é que noticiam sua participação em um jornal local). A lista poderia ser muito maior quando pensamos na nova geração como Jared Domício, Waléria Américo e Ticiano Monteiro que foram agraciados com a Bolsa Pampulha, do Museu de Arte da Pampulha em Belo Horizonte. Ou os outros quatro artistas que também figuram no Rumos Visuais do Itaú, Bosco Lisboa, Jussara Correia e novamente, Waléria Américo, Ticiano Monteiro e Yuri Firmeza. Artistas que precisaram buscar fora daqui um reconhecimento na esfera nacional e, esperamos, internacional, sem nunca terem recebido no estado o devido reconhecimento como artistas.
O MACCE no entanto, vem tentando cumprir o seu papel como fomentador ao receber em janeiro do corrente ano, a exposição Entre um lugar e outro, proposta por cinco artistas jovens da cidade contemplandas no VI Edital da Secult, são elas Beatriz Pontes, Milena Travassos (que acaba de receber um prêmio no Salão da Bahia), Mariana Smith, Érica Zingano e Waléria Américo. E Yuri Firmeza como o artista invasor. O museu ainda apresenta para o público o resultado do trabalho realizado em 2005 para formação de um acervo, quando conseguimos a doação de 85 trabalhos. Na parede de entrada do museu estão lá duas gerações de artistas cearenses lado a lado: Sérvulo Esmeraldo e Luiz Hermano. As nossas primeiras doações do ano. E muitas estão por vir, entre as quais temos artistas como Albano Afonso, Raquel Kogan, Iran do Espírito Santo, Lina Kin, Teresa Berlinck, Sofia Panzarini, José Guedes, um outro cearense de reconhecimento nacional, o alemão Michael Vesely e Paulo Buennos. Além desta campanha de doações estamos elaborando projetos para os editais de incentivo à cultura que permitem aquisições. Nem só de doações deve viver um museu. Os artistas precisam ter os seus trabalhos comercializados como forma de fomento à cultura. Nestes projetos da primeira fase, estamos propondo a aquisição de artistas como Sérvulo Esmeraldo, artista seminal para a arte concreta nacional, Leonilson, Luiz Hermano, Efrain de Almeida, Sérgio Pinheiro, Francisco de Almeida e Bosco Lisboa.
A discussão que o museu provoca hoje com o público, com os artistas locais e a mídia, é portanto o resultado dessa política que busca refletir os caminhos da arte contemporânea. A instituição em momento algum teve o interesse em denegrir ou desmerecer o trabalho dos profissionais da imprensa que se viram envolvidos no trabalho do artista, mesmo porque, não tínhamos idéia da dimensão que a ação poderia tomar. Tínhamos como exemplo, os eventos anteriores, praticamente nada se comentou na imprensa. Este poderia ter sido apenas mais um.
No entanto, este procedimento artístico adotado por Yuri Firmeza, não é novidade na arte contemporânea. Só para exemplificar, as Cartas ao Sistema das Artes, propostas pela artista paulista Ana Amorin e o alemão Hans Haacke com suas provocações que afetam as instâncias institucionais e cooporativistas, criam esta tensão no sistema da artes, como esta que estamos vivenciando em Fortaleza.
A "mentira" já começava pelo próprio nome adotado Souzousareta Geijutsuka ou artista inventado na língua japonesa. A exposição recebeu o título de Geijitsu Kakuu ou Arte Ficcional. Os nomes já soavam estranhos. No entanto, os jornais imediatamente aceitaram a pauta mesmo diante do desconhecido. Algumas informações foram passadas pela assessora de imprensa também fictícia do artista que o colocava na ponta das artes visuais ao experimentar o que há de mais novo na arte eletrônica, até mesmo um novo experimento foi dito que se intitulou "Shiitake". Resta saber se foi apenas o prestígio da instituição que funcionou, como foi alegado pelos jornalistas que os levou, diante da dificuldade de acesso às informações solicitadas e não disponíveis em sítio de pesquisa eletrônica como o Google, a insistir nas matérias.
O que é certo, é que a mídia e a instituição foram pegas de assalto pela arte.
No entanto, a dimensão ética dos mecanismos desse trabalho, a denuncia subjetiva de suas entrelinhas, a reação da imprensa ao ser checada e o posicionamento da instituição precisam ter ainda, uma maior reflexão diante da repercussão. E isto faz parte do processo artístico proposto por Yuri Firmeza.
A exposição do Artista Invasor está em cartaz no museu até 19 de Março de 2006.
O público é quem deve ser o juiz.
Ricardo Resende é Diretor do Museu de Arte Contemporânea do Ceará
Clipping Artista Invasor, de Yuri Firmeza
Clipping Artista Invasor, de Yuri Firmeza
Clipping de matérias sobre a exposição Geijitsu Kakuu, criação de Yuri Firmeza, para a série Artista Invasor do Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Todas as notícias veiculadas pela imprensa de Fortaleza, entre os dias 10 e 12 de janeiro de 2006.
10 de janeiro
Jornal O Povo - Desconstruindo a arte
Diário do Nordeste - SOUZOUSARETA; Arte, natureza e tecnologia, de Dalwton Moura
11 de janeiro
Diário do Nordeste - Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar
Jornal O Povo - Pegadinha contemporânea de artista cearense
Jornal O Povo - Arte e molecagem, de Felipe Araújo
12 de janeiro
Jornal O Povo - Editorial - Provocação infeliz
Jornal O Povo - A arte no jornalismo, de Regina Ribeiro
Overmundo.com.br - Adorável invasor, de Ricardo Sabóia
Matéria originalmente publicada no Jornal O Povo, caderno Vida & Arte, no dia 10 de janeiro de 2006
Imagine uma exposição onde as obras são flores e vegetais carbonizados e que isso representasse o equilíbrio entre a vida e a morte. Ficou difícil? Pode até ser, mas ousado como é o artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka, não se intimida como estranho. Tudo, alías, é bem moderno, ao olhos de sua arte. Usar e abusar da tecnologia e da ciência é sua marca, e transformar o que - nem de longe - parece arte, em arte, se tornou uma característica. Souzousareta chega a Fortaleza hoje, às 22h, para apresentar sua mais recente mostra intitulada Geijitsu Kakuu, que acontece dentro do projeto Artista Invasor, do Museu de Arte Contemporânea do Ceará.
A exposição de Souzousareta busca a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições. O artista conquistou fama mundo afora, exatamente por elencar assuntos tão distintos, como: arte, ciência e tecnologia em suas exposições. Souzousareta desenvolve pesquisas na Eletrônica e Telecomunicações, isso aliado aos conceitos de tempo real, simultaneidade, supressão de espaço e imaterialidade. O uso de objetos e tecnologias tão ousadas são influências da "desmaterialização" dos anos 60/70. "Esse fenômeno, com abandono do "objeto de arte" por muitos artistas, deu lugar a uma variedade e uma multiplicação de usos mediáticos", explica.
De acordo com o artista, a arte eletrônica, apesar de não ter o reconhecimento e respeito dos historiadores de arte, é uma questão capital. "Freqüentemente contestada, seu endereçamento, entretanto, insere-se em nosso destino de participantes de uma época da história em que a tecnologia tornou-se parte de todos os atos da nossa vida. Acredito em sua importância humanizadora". Seja como for, a arte de Souzousareta faz um paralelo entre o novo, o velho e o que está por vir. Ele desconstrói para, mais tarde, reconstruir de acordo com sua interpretação.
SOUZOUSARETA; Arte, natureza e tecnologia
Matéria de Dalwton Moura, originalmente publicada no Diário do Nordeste, no dia 10 de janeiro de 2006
Espaço aberto para a arte eletrônica. O Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, abriga a partir de hoje, dentro do programa "Artista Invasor", trabalhos do japonês Souzousareta Geijutsuka, reunidos na exposição ´Geijitsu Kakuu´. O olhar de um experimentador de linguagens atuais e novas tecnologias sobre fenômenos da natureza
Esta é a quarta vez em que Souzousareta, considerado um dos nomes mais importantes quanto à interface entre arte contemporânea, ciência e novas tecnologias, participa de eventos no Brasil. O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição "Geijitsu Kakuu", em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida.
Os trabalhos de Souzousareta, que entre outras cidades já expôs em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo, incluem parcerias com cientistas e engenheiros, em pesquisas sobre eletrônica e telecomunicações. Entre os conceitos contemplados, estão os de operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade. A robótica é outra área explorada, em diálogo com esculturas e instalações ambientais. Ele também é responsável pelo desenvolvimento de uma nova técnica fotográfica, batizada "Shiitake", que busca apreender fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera.
O pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências, quanto à chamada "arte eletrônica". Para o artista japonês, a arte eletrônica adquire uma importância fundamental, a partir do momento em que a tecnologia está presente em cada momento de nossas vidas - do mais banal, ao mais grandioso. Apesar disso, Souzousareta considera que as linguagens artísticas eletrônicas ainda são marginalizadas pela concepção mais tradicional de "história da arte".
Em entrevista via e-mail ao Caderno 3, Souzousareta aborda esses e outros temas, criticando a acomodação do público e dos críticos, falando das influências que vem recebendo em sua descoberta do Brasil e apostando que a intensidade de uma proposta artística sempre será mais importante que os meios empregados para realizá-la. Confira:
Caderno 3 - Esta é a quarta vez que trabalhos seus são expostos em eventos no Brasil. Que importância esse contato com o País tem para o seu trabalho?
Souzousareta Geijutsuka - Acabo de chegar ao País. Tenho aprendido muito sobre a cultura brasileiras em livros e vídeos aos quais tenho acesso no Japão. Inclusive, acabo de ler um livro e ver um filme fabulosos feitos no Brasil. "O povo brasileiro", do (Darcy) Ribeiro, me parece ser esse o nome correto, e "Deus e o diabo na terra do sol", do já conhecido Glauber Rocha. Até acredito que esses dois trabalhos me influenciaram de alguma maneira na preparação de minha exposição no Brasil. É claro que minha estadia aqui vai intensificar muito a influência dos elementos de brasilidade sobre o meu trabalho. Inclusive essa é uma constante em meu trabalho: a inclusão de elementos locais agenciados aos procedimentos eletrônicos.
- Que resposta vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras?
Souzousareta - Muito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de cosumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.
O público e o não-convencional
Caderno 3 - Em que estágio o Brasil pode ser situado, dentro do contexto mundial da chamada ´arte tecnológica"?
Souzousareta - O Brasil ocupou um lugar de destaque no cenário artístico mundial durante os anos 60 e 70: Lígia Clark, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, de que já falamos, e outros. Mas acho que esse foi um momento de vitalidade estética em quase todo o mundo. Também no Japão tivemos reações importantes aos valores da civilização moderna através da arte. Pnesemos em Nam June Paik, por exemplo. Não sei em que pé estão as artes plásticas brasileiras nesse momento, nem mesmo a arte eletrônica. Temos o privilégio de poder contar, no Japão, com um parque tecnológico bastante desenvolvido e aberto; não sei se esse é o caso do Brasil. A dificuldade de acesso de uma sociedade à tecnologia implicará em dificuldades para o florescimento de uma boa arte tecnológica. Mas o Brasil conta com tantas ferramentas expressivas, que não vai ter problemas.
- Falando nisso, que definição de ´arte tecnológica" é possível? De que modo esse conceito - que, você cita, vem desde Marcel Duchamp - se aplica aos dias de hoje?
Souzousareta - Pode ser definida como arte tecnológica toda operação estética que conta com suportes tecnológicos do tipo computadores, sintetizadores, softwares dos mais variados para produzir campo de percepção e sensação. Nesse sentido, é óbvio que o que interessa não são os suportes materiais, que podem ser extremamente desenvolvidos e potentes, mas os agenciamentos em que entram, que também têm que ser poderosos. O que continua valendo hoje na arte, como há três mil anos atrás, é a intensidade que passa pela obra, e não a obra como representação de alguma coisa.
- Há ainda uma forte resistência do público a esse tipo de arte, em formas não-convencionais, ou já é mais fácil aproximar a arte eletrônica do público em geral?
Souzousareta - O público sempre resiste ao que não é convencional. Por isso a arte necessita tanto do marketing nos dias de hoje.
- Você já declarou que os "historiadores de arte" ainda vêem com reservas a arte tecnológica. Há possibilidades de se reverter esse quadro? Em que prazo?
Souzousareta - Normalmente os historiadores da arte, assim como os historiadores da filosofia, são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem.
- Que diálogos são possíveis entre a arte eletrônica, que se vale das novas tecnologias, e as formas clássicas/convencionais de arte?
Souzousareta - Todas as conexões são possíveis, desde que o teu "problema próprio" necessite dessa ou daquela operação que pertence a um outro período da história da arte. Por exemplo, num certo momento, o encontro com as tradições milenares do Japão me foi necessário, como forma de explorar determinado problema a respeito do medo existente na cultura japonesa, e incrustado nos hábitos mais elementares. Foi só por isso que cruzei arte eletrônica com cultura milenar. Num outro projeto, essa referência à tradição não seria necessária.
- Você falou da arte tecnológica como uma possibilidade de humanização, dentro de todo o universo tecnológico-informativo em que estamos cada vez mais imersos. Isso não vai de encontro ao velho receio de um "totalitarismo tecnológico"? De que modo a arte pode contribuir para "humanizar" a tecnologia?
Souzousareta - Se falei em humanização anteriormente, estava equivocado. O humanismo não tem nenhum problema de conviver com os piores tipos de atrocidades. Não é verdade que os direitos humanos criem algum tipo de constrangimento ao crescimento vertiginoso da pobreza e da angústia em parcelas importantes da população global. Humanismo e capitalismo selvagem fazem parte de uma mesma máquina. É preciso perguntar como a arte tecnológica, mas não só, pode mudar os usos que são feitos.
- A arte tecnológica não correria também o perigo de se ater a limites do consumo (o mercado de novas tecnologias, produtos eletro-eletrônicos, computadores, sintetizadores, projetores)?
Souzousareta - Sem dúvida!
- Seria possível sintetizar o conceito e o objetivo da exposição "Geijitsu Kakuu", que será mostrada aqui em Fortaleza? De que modo trabalha o contraste entre vida e morte, natureza e tecnologia?
Souzousareta - Essa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo "Por que gostamos de arte?". É preciso ver a exposição. (DM)
Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar
Matéria de Dalwton Moura, originalmente publicada no Diário do Nordeste, no dia 11 de janeiro de 2006
Quem compareceu à abertura da exposição "Geijitsu Kakuu", ontem, no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar, se surpreendeu. Atribuída ao artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka a exposição não foi apresentada em nenhuma das salas da instituição. Também pudera: numa atitude inusitada, após a divulgação na mídia, a exposição não existia, isto porque seu autor simplesmente não existe.
Portanto, o que poderia ter passado como um atraso ou outra falha no processo de montagem da exposição, acabaria se revelando, na verdade, uma grande farsa engendrada pelo artista plástico Yuri Firmeza, em total concordância com o Museu de Arte Contemporânea e a direção do Centro Dragão do Mar. Assumindo a divulgação do evento, bem como a identidade fictícia do artista e de suas presumíveis obras (sacadas da internet), o artista e a instituição (Museu/Dragão do Mar) acabaram colocando em xeque ou até mesmo comprometendo o vínculo de credibilidade estabelecido junto aos veículos de comunicação e a sociedade cearense.
Na sala prevista para a montagem, o que se via era uma placa descrevendo: "exposição em desmontagem". Em uma das paredes, um texto assinado pelo Diretor do Museu de Arte Contemporânea, Ricardo Resende, fazia alusão a um projeto artístico conceitual "que foge do puramente contemplativo e exige do público a reflexão sobre o que se vê ou o quê não se vê". Em outro momento, o texto sugere que estamos diante de um "jovem artista que lida com a 'ficção' de se fazer arte na atualidade", sem fazer qualquer menção a exatamente que arte estaria se referindo.
Na verdade, o texto de Ricardo Resende estará inserido entre uma série de reproduções de e-mails trocados entre o artista plástico e o sociólogo Tiago Themudo, discorrendo sobre os conceitos ocultos por trás da sua empreitada criativa, cuja compreensão o próprio artista deixa bastante obscura. Citando referências teóricas de artistas plásticos como Hans Jacke, Michel Duchamp e Alfredo Jaar, ele considera que sua obra é ele mesmo enquanto artista.
"Meu objetivo não é constranger o público, aliás, o público é uma das peças dessa engrenagem", provoca. Yuri considera que sua "obra" discute questões como o sistema e a crítica da arte, a mídia e o papel dos espaços criativos.
Pegadinha contemporânea de artista cearense
Matéria originalmente publicada no Jornal O Povo, caderno Cotidiano, no dia 11 de janeiro de 2006
A exposição Geijitsu Kakuu, que conforme matérias divulgadas ontem na imprensa local - inclusive no Vida & Arte, do O POVO - seria aberta no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar, não existe. A mostra fictícia, que seria de autoria de um artista plástico japonês, é na verdade uma criação do artista contemporâneo cearense Yuri Firmeza.
Na semana passada, Firmeza - com a conivência do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura - divulgou para os jornais locais um press-release contendo informações sobre a suposta mostra e o currículo do artista japonês. Como parte de seu ''trabalho artístico'', Firmeza criou uma assessoria de imprensa também fictícia, que entrou em contato com as redações por telefone para reforçar a divulgação do material. Procurado, também na semana passada, pelo O POVO, em duas ocasiões, o Centro Dragão do Mar confirmou a realização da exposição no MAC.
Ontem, quando a farsa foi revelada para a imprensa, Yuri Firmeza explicou que a intenção da iniciativa foi ''pensar o que move o campo da arte, refletir o museu, a galeria, o jornal como meio de sedução''. Já o diretor do MAC, Ricardo Resende, afirmou não acreditar que o episódio fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Segundo ele - que confirmou que a direção do Centro tinha ciência da divulgação das falsas informações - é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais.
Matéria de Felipe Araújo, originalmente publicada no Jornal O Povo, caderno Opinião, no dia 11 de janeiro de 2006
A recente molecagem do artista plástico Yuri Firmeza, que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (dele, Souzousareta) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza. Com algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial. Nelson Rodrigues é que estava certo: os idiotas perderam a modéstia.
Não há nenhuma novidade na invenção de pseudônimos como forma de afirmar determinados discursos artísticos. Yuri, aliás, tem todo o direito do mundo de fazer a brincadeira ou a provocação que quiser. Como ''artista contemporâneo'', sua provável falta de domínio sobre certos procedimentos criativos e o discurso esquálido naturalmente ampliam seu horizonte de atuação estética às raias da falsidade ideológica. O que estranha é o fato de a presidência do Dragão do Mar - principal centro cultural da Cidade - e a direção do Museu de Arte Contemporânea chancelarem uma irresponsabilidade desse tamanho.
A título de ''denúncia'' sobre uma suposta negligência da imprensa com a produção local, Yuri tentou arranhar a credibilidade e a boa reputação de alguns profissionais. É fato que, demagogicamente, vai arregimentar a simpatia de uma classe artística boçal que (feitas as devidas exceções) projeta na imprensa a frustração de seu próprio fastio criativo. E é fato também que muitos idiotas vão entender esse gesto como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura em nosso Estado. A imprensa tem seus problemas e deve permanentemente questionar e ser questionada sobre sua responsabilidade com as artes e a cultura. Mas o que se viu nesse episódio foi apenas a face mais evidente da mediocridade.
O pecado dos jornalistas envolvidos no episódio talvez tenha sido o de acreditar na boa fé e no respeito que sempre pautou a relação entre as redações e o Dragão do Mar. E acreditar na reputação do Dragão como um centro que, através do MAC, quer promover exposições e discussões procedentes sobre a arte contemporânea. Não somente a credibilidade do Centro junto à imprensa, mas a própria credibilidade do Dragão junto à opinião pública estão gravemente arranhadas a partir de agora. Afinal, quem iria a uma exposição de Souzousareta sabendo que se trata de uma exposição de Yuri Firmeza?
Editorial do Jornal O Povo, originalmente publicada no caderno Opinião, no dia 11 de janeiro de 2006
Os meios jornalísticos e culturais de Fortaleza foram sacudidos ontem por um estranho e constrangedor episódio: a exposição de um artista plástico japonês, cuja abertura fora anunciada pela imprensa para terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, não se realizou porque o personagem principal, o autor dos trabalhos, simplesmente não existia.
Era fictício, ou virtual, para usar palavra da moda, criado pelo artista plástico Yuri Firmeza, que utilizou um factóide para provocar a imprensa. Uma forma de denunciar a ''negligência dos meios de comunicação locais com a produção artística da terra''. O próprio Dragão do Mar divulgou a mostra.
O caso merece reflexões e, de uma forma infeliz, servirá de advertência para a imprensa para evitar futuras aventuras irresponsáveis e, também, de parâmetro no relacionamento com entidades e produtores culturais.
O sr. Yuri Firmeza extravasou suas frustrações e recalques na mídia. Mas foi longe demais em suas elucubrações. Precisava usar de artifício tão mesquinho e irresponsável para divulgar seu trabalho e seu protesto? Mas ele tem liberdade para exercitar a sua "criatividade". Não entramos nesse mérito.
Deplorável nisto tudo é o comprometimento do nome de uma instituição do porte do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, através do Museu de Arte Contemporânea. São estranhas as declarações do diretor do MAC, Ricardo Resende, publicadas na edição do O POVO de quarta-feira (Cotidiano, página 5), sobre o caso do artista plástico fictício. Para ele, o lamentável episódio não fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Mas Resende esquece o seguinte: o caso fere o que um jornal tem de mais precioso: a credibilidade, a confiança dos leitores.
Estarrecedor é o diretor Ricardo Resende dizer que a direção do Dragão do Mar tinha conhecimento da divulgação das falsas informações e, o que é pior, achar que é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais. Um estranho conceito de criatividade.
O próprio site oficial do Centro Dragão do Mar assume a travessura de Firmeza quando diz, ao divulgar o Projeto Artista Invasor, no Chá com Porradas: ''Yuri buscou repensar a arte contemporânea através da interferência na rede que constrói sua credibilidade, formada por museus, curadores, galerias e veículos de comunicação. A concretização dessa idéia se deu através da construção de um artista japonês fictício, Sousouzareta Geijutsuka''.
O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em abril de 1999, é uma instituição respeitada dentro e fora do Ceará. A participação da entidade em devaneios de um artista rancoroso e irresponsável compromete um nome construído ao longo de quase sete anos de trabalho eficaz.
Embora não sirva de consolo, a imprensa cearense não é pioneira nesse tipo de episódio. Em 1983, a revista Veja, em sua edição de 27 de abril, reproduziu uma brincadeira de revista britânica New Science, feita para o Dia da Mentira, que divulgara estranha descoberta científica, fruto da fusão em laboratório de células vegetais e animais, isto é, de boi com tomate, o ''boimate''.
A tal conquista, feita na universidade alemã de Hamburgo, era atribuída aos biólogos Barry MacDonald e William Wimpey. A matéria da Veja louvava a experiência inédita que "permite sonhar com um tomate do qual já se colhe algo parecido com um filé ao molho de tomate. E se abre uma nova fronteira científica". A New Science dava pistas: Hamburgo, MacDonald, Wimpey (outro nome de rede de lanchonetes)... Mas a revista brasileira embarcou na história.
É preciso reconhecer que a imprensa cearense também não sai ilesa do caso do japonês fictício. Em plena era da Internet, com sites de busca tão precisos, não custava nada uma checagem em torno do nome divulgado. Apenas a credibilidade no Dragão do Mar não era suficiente. Que sirva de lição.
Matéria de Regina Ribeiro, originalmente publicada no Jornal O Povo, caderno Vida & Arte, no dia 12 de janeiro de 2006
A modernidade esgarçou ao infinito a possibilidade da arte nos moldes aristotélicos. Além do mais a chamada pós-modernidade, com todos os hibridismos e conexões entre o possível e o inverossímil, transforma tudo em arte. Que pode ser nada. No entanto a raiz do que se pode chamar de criação artística ganha força quando se observa pelo menos um dos argumentos do filósofo grego: a "idéia" que pode ser expressa em ação é um dos componentes vitais da arte. Existe algo mais cabível na arte contemporânea, mesmo a que nega toda e qualquer explicação?
Deixa pra lá essa pendenga, porque o que importa mesmo é o esse novo artista, o japonês Souzousareta Geijitsuka, que "desembarcou" na cidade trazendo na bagagem a vontade de pôr sobre a mesa alguns incômodos que cercam o mundo da arte e os suportes que ela utiliza para se estabelecer.
A começar pelo imbróglio em torno do real. Souzousareta aprendeu que o artista não tem nenhum compromisso com a verdade. Isso é coisa da História, a começar por Homero. O que a arte deve ter é verossimilhança. Precisa convencer. E ele não perdeu isso de vista quando contratou "assessores de imprensa" - a incômoda muleta do jornalismo pós-moderno - para construir a imagem de um artista múltiplo e pesquisador - quase horaciano - da virtualidade e da eletrônica. E acertou de novo. Deu entrevista por internet para uma imprensa ávida pela apresentação do novo, do estrangeiro e do discurso rebelde-planetário recheado de clichês.
Tanto no Japão, quanto no resto do mundo contemporâneo a exposição artística se viabiliza ou é referendada a partir da mediação dos espaços midiáticos. E isso não acontece só com a arte, que tem em si, a função de ser apreciada desde as imagens pictóricas das cavernas, passando pelos poetas que contavam a aventura de homens e deuses na disputa eterna pelos feitos heróicos. A política há muito tempo é subserviente às câmeras e jornalistas. O terrorismo, idem.
E aqui sim, chegamos ao ponto crítico em torno de Souzousareta, o artista japonês considerado pela imprensa local "um dos nomes mais importantes quanto à interface ente arte contemporânea, ciência e novas tecnologias", que já "expôs em vários países" e chega ao Brasil pela "quarta vez". Que fala de Glauber Rocha, Darcy Ribeiro e Hélio Oiticica com aquela proficiência dos verbetes de almanaque. Aquele que está em busca da "harmonia entre a natureza que nasce e morre empregando equipamentos tecnológicos".
A questão é que Souzousareta só existe a partir da informação publicada. É uma invenção. Uma fábula.(Portanto, arte.) Não se materializa em torno de uma alma pensante, mas existe como discurso. É real enquanto informação.
Mesmo diante da possibilidade da infinitude da interpretação de uma obra de arte que se propõe "aberta" e que trafega no espaço singular do imprevisível e das descobertas, o jornalismo é convidado a participar, quando ele é suporte dessa arte. Pronto. O bosque está pronto para ser explorado.
E aqui estão alguns vales e muitos atalhos. Os recursos e sistemas da produção da notícia deixam o jornalismo vulnerável a que tipos de armadilhas ?Criamos ou fazemos parte de um exército de crédulos seguindo discursos pré-fabricados com interesses anteriores definidos sem nenhuma reflexão? Por que nos dobramos tão facilmente ao que é estrangeiro? Por que referendemos com tantos adjetivos (bons e maus) o que não conhecemos? Será que são todas essas questões que arrastam o jornalismo para o mero entretenimento? (Pelo menos lá não há motivos para indignações).
E a verdade - motivo da revolta em torno do japonês e a forma como ele se fez criar a partir da mídia local- se apequena diante do volume de outras "criações" políticas, bélicas, científicas que o jornalismo contemporâneo tem ajudado a tornar reais. Sem dúvida, Souzousareta existe.
Matéria de Ricardo Sabóia, Fortaleza, originalmente publicada no sítio Overmundo
Como um vírus, Yuri Firmeza infiltrou-se na mídia e expôs as fraquezas de uma imprensa que, com raras exceções, mostrou-se incapaz de fazer uma autocrítica vigorosa.
O sobrenome de Yuri não poderia ser mais apropriado. Sua mais recente obra de arte é uma iniciativa que divide opiniões, mas não pode não ser classificada de firme. Ele criou um artista japonês fictício, batizado de Souzousareta Geijutsuka ("artista inventado" em japonês, segundo ele) e a exposição de arte e tecnologia Geijitsu Kakuu ("Arte e ficção"), programada para ser inaugurada na última terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MACCE) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, pólo referencial das artes no Ceará.
Yuri também criou uma assessora de imprensa igualmente fictícia, batizada de Ana Monteja, que abasteceu a mídia local com press-releases sobre a exposição e o suposto artista japonês. Conseguiu até emplacar uma entrevista na capa do caderno de cultura do jornal de maior circulação no Estado, o Diário do Nordeste, só para usuários cadastrados. Tudo com o aval do Dragão do Mar, a "isca" que a imprensa precisava para ser fisgada pelo artista.
A surpresa veio com a revelação, no dia seguinte à publicação dos textos noticiosos divulgando a exposição fictícia, de que Souzousareta, apresentado como renomado artista contemporâneo internacional, com quatro passagens pelo Brasil e mostras em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo, nunca existiu e não fora do projeto artístico de Yuri e das páginas dos jornais, pelo menos.
No MACCE, o projeto de Yuri, correspondente à quarta edição da série Artista Invasor, ganhou a sala supostamente destinada às obras de Souzousareta. Lá, estão expostos e-mails trocados entre o artista e o sociológico Tiago Themudo, com quem Yuri dialogou na concepção do projeto, e um texto de apresentação (em português e inglês) de Souzousareta ao público, escrito pelo diretor-técnico do MACCE, Ricardo Resende.
No debate Chá com Porradas, promovido pelo Centro Dragão do Mar na última quarta-feira, Yuri declarou: 'Os jornais de hoje (quarta-feira) confirmam o descaso, comprovam que não têm seriedade. Seduzi os jornais do mesmo modo que eles seduzem o público. A obra é uma situação".
A "situação" criada por Yuri busca refletir as complexas relações entre o status da arte contemporânea e seu posicionamento com outras instâncias, como os espaços de museus, galerias de arte e a cobertura midiática. "Queria discutir o museu como espaço de conservação simbólica e outras questões que não sejam propriamente estéticas. Aí entrou a questão da mídia, do mercado, das galerias. Uma invasão que não se limitou ao status museológico, mas a todo um sistema em que ele está inserido. E a mídia é o principal sistema", afirma. Outra preocupação do artista era revelar o descaso da cobertura da imprensa local com os artistas contemporâneos cearenses: "Falta um acompanhamento sistemático da produção contemporânea, de artistas que expõem em projetos importantes aqui e em outros Estados", enfatizou.
Questionado pelo Overmundo sobre os métodos empregados no seu processo de criação, duramente criticados pela imprensa, Yuri afirmou: "No meu caso, a invenção do artista é o próprio trabalho. O suporte era o jornal. Faltou humor da imprensa. Ela não teve iniciativa de se sentir como co-autora da obra. Os jornais se sentiram afrontados, viram que são vulneráveis a esse tipo de invasão. Não existiu uma auto-reflexão da imprensa."
Ainda no Chá com Porradas, o diretor do MACCE defendeu o artista: "A ousadia de Yuri talvez seja demais para os nossos padrões. Ele veio com uma proposta ousada, de testar os limites da instituição. "A obra de Yuri não se encerrou com a revelação de que Souzousareta é fictício: "Até fevereiro, faremos na sala do MACCE um acúmulo das matérias publicadas, o vídeo do debate no Museu".
Se a estratégia de Yuri não chega a ser propriamente uma novidade e pensemos no pronunciamento dos ataques de invasão da Terra por marcianos descrita em A Guerra dos Mundos e apropriadas por Orson Welles em discurso radiofônico, ou mais recentemente, no escritor JT Leroy, sua iniciativa despertou ataques de quem mais se sentiu ofendida por seu projeto artístico: a imprensa local ironicamente, quem viabilizou em última instância sua obra.
Em um primeiro momento, os jornais preferiram desqualificar o artista e o Centro Dragão do Mar. O Diário do Nordeste publicou texto na última quinta-feira cuja manchete classifica o projeto de "factóide", sugerindo que o Dragão do Mar comprometeu o "vínculo de credibilidade estabelecido junto aos veículos de comunicação e a sociedade cearense."
A reação na edição do mesmo dia do concorrente O Povo foi ainda mais agressiva: além de um texto informativo registrando aos leitores que a exposição era uma "pegadinha contemporânea", artigo assinado pelo jornalista Felipe Araújo classificava a obra de "molecagem" e não deixa de ser curioso que a molecagem, tão celebrada como marca identitária cearense, torna-se algo pejorativo quando põe em xeque o funcionamento da imprensa local. No texto, sobram ataques para a arte contemporânea no Ceará. "Com algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso com pichação" e corporativismo com os pecados da imprensa na cobertura do circuito artístico local.
Onde houve excesso de verborragia para desqualificar o artista e o Centro Dragão do Mar, faltou autocrítica incisiva para debater a ausência de uma imprensa responsável e especializada e questionar o uso do release por jornalistas, questão que vai muito além da "boa fé" dos profissionais de imprensa.
O diretor Ricardo Resende rebate as acusações de que o Dragão do Mar foi irresponsável em apoiar a iniciativa do artista. "Em nenhum momento a gente se eximiu da responsabilidade. O Yuri impôs, entre algumas regras, que a gente ficasse fora da divulgação. Quando a imprensa presssionou por informações, achamos que era hora de convocar o Yuri para falar. O Dragão não mentiu para imprensa, omitiu para viabilizar o projeto", declarou ao Overmundo. E sentencia: "Houve uma cegueira da imprensa. Os jornalistas estavam interessados porque era um japonês consagrado, artista que trabalha com arte eletrônica. Mas entendo que isso não seja um erro apenas da imprensa local, é da imprensa brasileira em geral."
A polêmica não arrefeceu. O mesmo jornal O Povo, que em edição de ontem publicou matéria de capa do caderno de cultura Vida&Arte dando voz ao artista e ao MACCE, acompanhada de um sensato artigo da jornalista Regina Ribeiro analisando criticamente o episódio, não hesitou em publicar editorial classificando a obra de Yuri de "Provocação Infeliz". O texto reconhece que a imprensa local "não sai ilesa" do episódio e diz que "em plena era da Internet não custava nada uma checagem em torno do nome divulgado", mas não poupa o artista de mais ataques, sugerindo que ele "extravasou suas frustrações e recalques na mídia". A afirmação revela justamente o que Yuri procurou mostrar: quem está precisando de um divã, efetivamente, é a imprensa cearense.
Trechos de e-mails enviados por Yuri Firmeza a Tiago Themudo:
"Olha aí, Tiago, e diz o que acha; A ocupação da sala será da seguinte forma: irei inventar um artista, biografia, currículo, obras; tudo ficção
"Não sei como será a receptividade do público em relação ao Souzousareta, mas acredito que suscitará saudáveis desconfortos"
A (não) exposição de Souzousareta pode ser conferida no MAC. Yuri é convidado do projeto Arte Invasor até fevereiro.
Na rede:
Yuri Firmeza participou do Salão Nacional de Arte de Goiás e do Salão Sobral de Arte Contemporânea, entre outros eventos. Foi selecionado no Projeto Rumos Itaú Cultural 2005/2006.
http://yurifirmeza.multiply.com
http://www.yurifirmeza.zip.net
