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julho 22, 2004
Estado e Mercado, acho que é mais complexo do que isso...
PATRICIA CANETTI
Quem é o melhor parceiro da criação: o Estado ou o mercado?
Essa pergunta que inicia o texto de Adriano de Aquino, artista plástico e ex-Secretário de Cultura do último governo do Estado do Rio de Janeiro, publicado no Jornal do Brasil na semana passada (e reproduzido nesse e-nforme e no Como atiçar a brasa), traduz, na minha opinião, uma dualidade equivocada e induz o texto a uma análise viciada de uma situação complexa. Me explico.
O Estado hoje funciona com um olho nos custos e o outro nos seus consumidores (cidadãos ou eleitores?), e, como qualquer empresa, desenvolve suas funções e administra seus resultados objetivando o melhor marketing para a sua marca. No nosso caso, atualmente, a marca se traduz no slogan Brasil - um país de todos. Logo, não vejo diferença entre o Estado e o Mercado (este, citado pelo Adriano de Aquino, que me referirei daqui para frente em maiúscula), na medida que ambos perseguirão os seus próprios objetivos na hora de patrocinar ou não um evento artístico.
Como em qualquer parceria e negociação, há que se encontrar o melhor termo para as partes envolvidas; sendo que, o lado que detiver o capital, como sempre, sairá em vantagem, pelo óbvio motivo dele ser mais escasso, ao contrário da massa trabalhadora artística carente por recursos. Caberá ao lado em desvantagem, no caso, a cultura, saber vender o seu produto, seja para o Estado ou para o Mercado.
Partindo dessa premissa, de que haverá sempre uma negociação a ser feita, ainda podemos insistir na pergunta inicial e talvez a resposta nos retorne ao momento histórico em que a Lei Rouanet foi inventada: melhor lidar com a pluralidade (?) do Mercado do que com a unicidade do Estado.
Nesse ponto, gostaria de falar de alguns aspectos negativos e positivos da Lei Rouanet.
- Em primeiro lugar, vale lembrar que a lei foi criada para ampliar o acesso dos artistas aos recursos públicos, que, na época, eram gerenciados pelo governo, que tinha uma enorme dificuldade em distribuí-los de maneira - digamos - democrática.
- A passagem dessa responsabilidade do Estado para o Mercado, apesar da alegada pluralidade desse último, resultou num outro tipo de concentração e ainda inventou novos vícios e algumas deturpações sérias no nosso processo de produção.
- Passamos a ter mais exposições itinerantes, pois essas recebem 100% de incentivo, mas como esses recursos públicos foram desviados dos investimentos nas instituições públicas, que ficaram sem aportes diretos para compra de acervos, equipamentos, e contratação de pessoal que pudessem permitir o desenvolvimento de sua programação, temos hoje como conseqüência um descompasso entre as nossas instituições e as demandas da produção artística atual.
- O Brasil passou a ter livros de arte, o que era inexistente antes da lei, mas, apesar dos muitos milhões de dinheiro público investido nesse segmento, até hoje, ele se mantém totalmente dependente desse subsídio, mesmo sendo um segmento comercial.
- Esses dois exemplos que revelam lados positivos e negativos demonstram uma falha na condução da Lei Rouanet e, mais ainda, um equívoco em relação aos seus objetivos. O que, a quem e como a lei pretende incentivar? O que significa incentivar?
- No caso do modelo adotado pelas nossas leis de incentivo, esse rótulo serviu mais para o Estado se livrar da cultura, do que propriamente para incentivar, no sentido de impulsionar o objeto estimulado em direção a alguma coisa.
- Continuando com os dois exemplos citados acima, pergunto: o que se pretendia conseguir com a dissociação da produção das exposições das instituições culturais? Ou ainda, o que se pretendia em relação ao mercado editorial de arte, que vende livros a preços que os próprios profissionais da área, seus consumidores potenciais, não podem comprar?
Concluo que falta-nos vivenciar uma lei que de fato nos estimule e para isso é preciso que o Estado tenha algum interesse pela cultura, que diz querer incentivar, pois seria necessária uma proximidade muito grande com os artistas, e todos os profissionais de nossa cadeia produtiva, para conseguirmos um resultado eficiente. O Mercado também precisa demonstrar o seu interesse colocando "dinheiro bom" (não incentivado) na parada. Mas isso ainda não seria suficiente. Falta-nos também o interesse dos profissionais de arte em criar uma política e um mercado de arte que não sirvam apenas aos interesses de seus grupos específicos, mas ao país.
Por que o Estado investe ou não em Arte? Por que o Mercado investe ou não em Arte? Qual a relação que esses objetivos têm com a produção de pensamento e idéias numa sociedade? Como o Estado e o Mercado se relacionam com a experimentação e com o novo? Como nós, profissionais de arte, vemos o nosso mercado de trabalho? O que é importante e essencial para criarmos um contexto fértil para a produção de arte no Brasil?
São perguntas difíceis de responder e mais ainda pela falta de diálogo existente entre os atores envolvidos.
Empresários se ocupam com os seus desafios num mundo aonde a informação é vasta e incessante, e tudo se automatiza. Sua preocupação está voltada para gerir culturas de conhecimento e nutrir a inteligência coletiva, para o desafio de desenvolver os cérebros humanos nessa nova era que alguns já chamam de a Quarta Onda, a Era do Cérebro. Sim, cérebros humanos são hoje o maior ativo das empresas. Será que eles relacionam isso de alguma maneira com arte e produção de pensamento?
O governo, por sua vez, se esforça em incentivar a produção científica e tecnológica brasileira. (Cérebros, novamente.) Sim, precisamos correr atrás do prejuízo, somos um fracasso em patentes. Será que eles relacionam isso com experimentação artística?
Quanto a nós, na hora de trocar o que produzimos, ainda estamos perdidos por outras temporalidades. Ora buscamos nos mecenas de hoje o ideal renascentista, ora fazemos comércio como se estivéssemos no século XIX. E, apesar da arte contemporânea ser processo e vivência, interagimos muito pouco com certos aspectos da contemporaneidade.
Voltando ao início do texto, quando digo que Estado e Mercado formam uma dualidade equivocada, gostaria de acrescentar que entre essas duas entidades percebo um enredamento, um sistema que engloba a todos, aonde informação, comunicação e visibilidade são essenciais para encontrarmos as brechas e respirarmos ar puro.
Patricia Canetti é artista, criadora e editora do Canal Contemporâneo.
julho 21, 2004
Finaciamento público das telenovelas?
Texto de Sílvio Crespo, publicado originalmente no sítio Cultura e Mercado do dia 19 de julho de 2004
SÍLVIO CRESPO
Financiar uma peça de teatro, um livro, um concerto ou comprar cotas de uma telenovela? Este será o dilema do patrocinador cultural, caso seja publicado da forma como está redigido o decreto que dá nova regulamentação à Lei Rouanet. Ainda em fase de discussão com entidades culturais, a minuta do decreto elaborada pelo Ministério da Cultura estende às emissoras comerciais de televisão o direito de utilizar os benefícios da Lei Rouanet, por meio do Ficart (fundo de investimentos na indústria cultural que nunca foi colocado em prática).
O MinC afirma que é contra essa proposta, mas que se viu na obrigação de colocá-la em debate a pedido de emissoras de TV. O presidente da Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), em férias, ainda não se pronunciou sobre assunto. A Rede Globo afirma que não fez essa solicitação ao Governo Federal.
O fato é que a proposta está incluída na minuta do decreto, este previsto para ser publicado no Diário Oficial até o final do mês. Cultura e Mercado destrincha esta polêmica e traz na íntegra carta assinada por quase 300 artistas, incluindo Pedro Cardoso, Marco Nanini, Bibi Ferreira, Paulo Autran, Osmar Prado, Antônio Fagundes, Sábato Magaldi e Giulia Gam, entre várias outras celebridades que se posicionam contra a medida.
A revista online do setor cultural traz ainda estudo do produtor Paulo Pélico que analisa as modificações na Lei Rouanet ao longo de 13 anos. O estudo é endossado pelos artistas citados acima e, além de criticar o polêmico incentivo às TVs comerciais, analisa a proposta do MinC de utilizar editais para seleção de projetos inscritos no sistema de "mecenato" e defende poder deliberativo para a comissão que avalia esses projetos.
TVs podem ganhar incentivo da Lei Rouanet
Texto de Sílvio Crespo, publicado originalmente no sítio Cultura e Mercado do dia 19 de julho de 2004
TVs podem ganhar incentivo da Lei Rouanet
Patrocinadores poderão optar entre financiar um livro ou comprar cotas de telenovela, segundo minuta do decreto que dará novas regras à Lei de Incentivo
SÍLVIO CRESPO
As emissoras comerciais de televisão podem ganhar o direito de utilizar os benefícios da Lei Rouanet, por meio da ativação de um mecanismo que nunca foi colocado em prática, o Ficart (fundo de investimento à indústria cultural). Parte da Lei de Incentivo à Cultura, o fundo foi criado em 1991 para financiar grandes espetáculos e construção de casas de shows, entre outros empreendimentos culturais com caráter industrial. Agora, o benefício pode ser estendido a produções culturais e artísticas de televisões comerciais.
A mudança está incluída na minuta do decreto que dará nova regulamentação à Lei Rouanet. A minuta foi elaborada pelo Ministério da Cultura e colocada em debate com artistas e produtores culturais. O decreto deve sair no Diário Oficial ainda este mês, prevê o ministério.
Segundo estudo elaborado pelo produtor de cinema e teatro Paulo Pélico, se o decreto for publicado da forma como está redigido, as TVs comerciais concorrerão com produtores de outras áreas na busca por patrocínio incentivado, comprometendo praticamente toda a produção que hoje é financiada por meio da Lei de Incentivo.
"Uma empresa patrocinadora potencial se verá diante das seguintes opções: patrocinar a edição de um livro, a produção de um espetáculo, ou então comprar uma cota de patrocínio de uma telenovela, de uma minissérie, de um game-show cultural, etc...", diz o estudo, endossado por três entidades culturais e assinado por quase 300 artistas, entre eles Pedro Cardoso, Marco Nanini, Antônio Fagundes, Fernanda Montenegro, Sábato Magaldi, Edla Van Steen, Marieta Severo e várias outras celebridades (clique aqui para ler o estudo).
O coordenador da assessoria do ministro, Sérgio Sá Leitão, afirmou que, assim como os signatários do documento, o MinC é contra o uso da Lei Rouanet para financiamento da TV comercial. De acordo com ele, a proposta foi apresentada por emissoras de televisão e o ministério viu-se na obrigação de coloca-la em debate. Perguntado sobre qual emissora fez o pedido, Sá Leitão afirma não ter a informação, uma vez que o MinC recebeu inúmeras propostas de diversos setores.
A Rede Globo, procurada por Cultura e Mercado, enviou nota por meio de sua assessoria de imprensa dizendo que não fez a solicitação ao MinC. A Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), preferiu não falar sobre o assunto, pois o presidente Paulo Machado de Carvalho Neto está em férias.
No documento assinado pelos artistas, há ainda duas outras sugestões ao MinC: modificar a proposta de utilização de editais para financiamento via mecenato e concessão de poder deliberativo à Cnic (comissão que analisa os projetos que buscam patrocínio incentivado).
O MinC criou um grupo de trabalho para discutir todas essas recomendações. Estão representadas as três entidades que procuraram o ministério: Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), que organizou a mobilização de artistas, Associação Paulista de Produtores de Teatro (Apetesp) e Sindicato dos Produtores (Sinparc). O grupo apresentará ao MinC amanhã (terça, 20), no Rio de Janeiro, a proposta de uma nova redação para a minuta.
MinC promete não interferir na avaliação de projetos
Texto de Sílvio Crespo, publicado originalmente no sítio Cultura e Mercado do dia 19 de julho de 2004
MinC promete não interferir na avaliação de projetos
Desde 1997, ministro da Cultura tem poder de decidir sobre quem vai ou não poder utilizar os benefícios da lei federal de incentivo; assessor diz que isso mudará em um mês
SÍLVIO CRESPO
O Ministério da Cultura está elaborando decreto que modifica a regulamentação da Lei Rouanet. Sérgio Sá Leitão, coordenador da assessoria do ministro Gilberto Gil, garante que o decreto devolverá à Cnic (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura) do seu poder deliberativo. A Comissão é responsável por analisar os projetos que buscam benefícios da Lei Rouanet.
Dia 3 de julho, representantes das associações paulista (Apetesp) e fluminense (APTR) de produtores teatrais e do Sindicato de Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc) entregaram ao ministro Gilberto Gil uma carta, acompanhada de um estudo sobre os 13 anos da Lei Rouanet, em que defendem, entre outras coisas, que a Comissão volte a ter poder deliberativo. A carta e a mobilização são iniciativa da APTR; o estudo é de autoria do produtor Paulo Pélico, associado da Apetesp.
A carta é assinada por 298 profissionais da área, entre eles Antônio Fagundes, Marco Nanini e Pedro Cardoso. O estudo faz ainda outras duas críticas à minuta do decreto de modificação das regras da Lei Rouanet (saiba quais são elas). Os documentos foram escritos pelo produtor Paulo Pélico.
Segundo o estudo, a Cnic deixou de ter suas funções deliberativa, fiscalizadora e formuladora de propostas em 1997 (Medida Provisória nº 1589/97). Desde então, o ministro tem o poder de aprovar ou não cada projeto cultural que busca incentivo da Lei Rouanet.
Sá Leitão afirma que a posição do Ministério é a mesma dos artistas e que, na prática, esse poder deliberativo já existe. "Ao longo deste ano e meio, o Gil não assinou nenhum ad referendum, ou seja, a Cnic foi a palavra final, em todos os momentos". Ele acrescenta que o MinC não concordou, algumas vezes, com decisões da Cnic, mas mesmo assim não interveio, apesar de ter o direito de fazê-lo.
Foi criado um grupo de trabalho com representantes do Sinparc, da Apetesp e APTR, que apresentará nesta sexta (dia 16) uma nova proposta de redação para o decreto.
O decreto, que segundo Sá Leitão deve ser concluído até o final do mês, é a primeira fase da reforma da Lei Rouanet. Ele modificará a sua regulamentação. A segunda etapa será a modificação do próprio texto da lei, que deverá ser feita por medida provisória ou projeto de lei.
julho 20, 2004
Perguntas para João Sattamini
Emeio enviado por Carlos Bernardi, para o Jornal do Brasil, sobre a entrevista de Cleusa Maria com João Sattamini, publicada originalmente na coluna Informe de Arte, no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 19 de julho de 2004, e reproduzida abaixo.
O comodato do MAC-Niterói
Prezada Cleusa,
Acompanhei sua coluna essa semana, especialmente a entrevista com o colecionador João Sattamini e confesso ainda me encontro um pouco atônito com as revelações. Não acreditava que de fato o MAC pudesse perder de vez o comodato da coleção João Sattamini - talvez por não ser essa a primeira vez que o boato fora despertado - mas a força das declarações na entrevista são esclarecedoras.
O calendário do museu sobrevive quase que exclusivamente das exposições correntes da coleção, o que torna o episódio ainda mais absurdo quando pensamos no MAC como um símbolo tão cuidadosamente construído pela prefeitura da cidade de Niterói. Ainda brincamos de fazer políticas públicas, e a situação nos embaraça mais quando ouvimos do próprio colecionador a possibilidade de transferir sua coleção - o que deve ser feito quando seu acervo for mal utilizado - para a cidade do Rio de Janeiro, num espaço que deve ser (ou está sendo) construído no Armazém do Cais do Porto, um enigma que parece ser feito às escondidas, longe dos olhos e das críticas do público carioca. Talvez soasse mais interessante pensarmos em como dialogar entre esses espaços de convivência da arte, um olhando para o outro por sobre a Guanabara, confabulando circuitos interessantes da arte contemporânea. Não parece interessante, nem mesmo urgente à cidade do Rio de Janeiro, simplesmente transferir de Niterói o comodato das obras da coleção João Sattamini - significativas e que merecem um belo lugar para acolhê-las - ecoa ligeiramente deselegante e preguiçoso. Gostaria muito de saber, por sua coluna ou numa cobertura mais intensa pelo Jornal do Brasil, como está sendo realizada a efetivação desse novo espaço das artes visuais. Aqui em casa não havia recebido nenhuma notícia anterior.
Grato,
Carlos B.
Entrevista de Cleusa Maria, publicada originalmente, na coluna Informe de Arte , no Caderno B do Jornal do Brasil no dia 19 de julho de 2004.
Perguntas para João Sattamini
CLEUSA MARIA
O Museu de Arte Contemporânea de Niterói vive um momento de crise com a saída de sua diretora Dôra Silveira. Uma das ameças que pairam sobre a instituição é a perda da Coleção Sattamini, que compõe o acervo da casa, em regime de comodato desde a inauguração do museu, em 1996. São cerca de mil obras de artistas brasileiros, que o colecionador João Sattamini vem adquirindo desde os anos 50. Hoje, pode ser considerado o segundo mais importante conjunto da produção artística nacional das últimas décadas. O dono da coleção confirma a possibilidade de mudança de endereço. Mesmo evasivo, ele não desmente os boatos de que as obras poderiam vir para um outro espaço no Rio.
Em que situação se encontra a coleção, atualmente no MAC?
A coleção está no fim de carreira em Niterói, porque há 18 meses a prefeitura da cidade não define a situação legal do comodato.
Existem outras alternativas de lugares para acolher as obras, no Rio, por exemplo?
Sim, existem.
Quais seriam elas?
Espero que o prefeito do Rio, Cesar Maia, ofereça outras alternativas para abrigar a coleção.
Comenta-se que pode ser no Armazém do Cais do Porto. É verdade?
É verdade. O Luiz Alphonsus (artista plástico e ex-diretor do Parque Lage) já está até fazendo um projeto imenso para o Armazém do Cais.
Se as obras de arte saírem do MAC, a cidade de Nitérói perde. E a sua coleção, ela ganha com a mudança?
Sinceramente não sei. Se isso acontecer, o problema deve ser colocado para o prefeito de Niterói.
Como o senhor vê a transferência da coleção para o Rio?
Gosto da idéia. Mas o projeto para o Rio está voltado, basicamente, para as esculturas.
E para onde iriam as outras obras, como as pinturas?
Isso a gente vai pensar numa segunda etapa.
Esculturas urbanas
Emeio enviado por Carlos Bernardi, para o Jornal do Brasil, sobre a matéria Esculturas urbanas de Luciano Ribeiro, publicada originalmente no Caderno de Domingo do Jornal do Brasil no dia 18 de julho de 2004, e reproduzida abaixo.
Prezados do Jornal do Brasil,
Anuncio meu total descontentamento frente à reportagem "Esculturas urbanas", do Caderno de Domingo do dia 18 de julho.
Como circunstante urbano e interessado em obras de arte de pertencimento público, tive a impressão que o jornalista pouco se embrenha em buscar esclarecer na matéria da situação da arte pública na cidade do Rio de Janeiro, retendo-se aos parcos comentários capturados por transeuntes "normais" (circunstantes urbanos como eu) sobre as obras, interessados em "compreender" a produção em contraponto às palavras dos escultores, e ignorando os caminhos oficiais por onde esse espaço deva ser publicamente, ou esteticamente, ocupado. Nos casos de Ivens Machado e Waltercio Caldas, ambos participaram de seleção pública promovida pela secretaria da cultura no ano de 1995, caso que deveria ser melhor colocado frente aos comentários que tendem a, desnecessariamente, dar um discurso de significação às obras mencionadas. A "descompreensão" - permitam-me o fracasso do termo - em dado momento é a sugestão suficiente para as provocações da ordem pública, espacial e estética, o que parece figura cativa da intenção de um artista interessado em produzir um trabalho dessa natureza.
Parece muito mais urgente refletirmos sobre que política pública precisamos encarar para estabelecer critérios "compreensíveis" à cidade.
Grato pelo tempo disponível.
Carlos B.
Matéria de Luciano Ribeiro publicada originalmente no Caderno de Domingo do Jornal do Brasil, no dia 18 de julho de 2004.
Esculturas urbanas
Elas estão pela cidade, mas poucos sabem o que são
LUCIANO RIBEIRO
Em pé, diante de Escultura para o Rio, de Waltercio Caldas, o gari Benedito Leopoldo, 26 anos, não demonstrava muita compreensão. As duas hastes que parecem brotar do chão da esquina das avenidas Presidente Wilson e Beira-Mar são feitas com as mesmas pedras portuguesas da calçada, medem nove metros, pesam 16 toneladas. Estão ali desde 1996, mas foi a primeira vez que Benedito parou para olhar.
- Sinceramente, não sei o que isso quer dizer. São como dois pirulitos feitos a partir da calçada de Copacabana, é engraçado. De qualquer forma, essa esquina parece ter ficado menos perigosa - acredita o gari.
Mesmo sem saber, foi pensando justamente em pessoas simples, como Benedito, que o artista plástico criou a sua escultura. A intenção era mostrar, de forma bem-humorada, o espírito do carioca, sugerindo vários entendimentos a partir da vivência de cada um.
- Ela não pode, simplesmente, ser posta num lugar qualquer. A escultura deve inventar o próprio local, deve utilizar a cidade como uma forma de pele. E ter bom humor, atitude própria do carioca - acredita Waltercio, que levou um ano e dois meses para concluir a obra.
Ao todo, a cidade concentra 500 esculturas em seu espaço público. O secretário municipal das Culturas, Ricardo Macieira, nomeou, no último dia 6, a Comissão de Proteção da Paisagem Urbana da Cidade do Rio de Janeiro. Um grupo de 16 nomes, entre artistas plásticos, arquitetos, diretores de instituições, curadores de arte e críticos, passa a definir as obras que vão ou não ocupar a cidade. A intenção é estabelecer critérios e, evitar que esculturas sem valor tomem conta das ruas e que obras inexpressivas emporcalhem o Rio. A comissão não tem poder de mexer no que já está feito, mas de definir as instalações futuras.
São atitudes que vão interferir, diretamente, nas observações de pessoas como a funcionária pública Maria Clara Romero, 32 anos. Diariamente ela cruza com o Passante, de José Resende, no Largo da Carioca, no Centro. Nos dias de semana a escultura serve de suporte para pipoqueiros guardarem penduricalhos. Quando chove, há quem tente se abrigar debaixo da obra, criada pelo artista em 1995. Não é fácil. Resende buscou uma peça que se mexesse com o vento, capaz de dar a sensação de movimento. Ela tem 12 metros de altura, 90 centímetros de largura e seis metros de extensão, e é feita em aço córten, um material auto-protetor.
- Isso me lembra os retirantes nordestinos, muito magros e com força para andar, andar, sem, muitas vezes, conseguir coisa alguma - compara Maria Clara.
A funcionária pública não tinha como saber quem era o autor da obra. Quase todas as placas de identificação das esculturas urbanas cariocas não estão no lugar. Sem elas, só mesmo um conhecedor para identificar que o trabalho em aço exposto no Leme pertence a Angelo Venosa. Embora o artista não tenha pensado em nenhum animal marinho quando a criou, a peça ganhou um apelido. É chamada, pelos transeuntes do canto de Copacabana, de Baleia.
- Só não entendi por que ela não fica na areia da praia, encalhada, mas fincada aqui, depois do calçadão - questiona o publicitário Fabio Meirelles, 24 anos.
Um dos motivos pode ser porque Venosa não enxerga tantas semelhanças entre sua obra e uma baleia. A escultura foi criada em 1991, para ser posta na Praça Mauá. Há quatro anos se mudou para o Leme.
- Na Praça Mauá achavam que era uma algema. As interpretações variam de acordo com muitas coisas. Mas não tive a preocupação de passar uma idéia específica. Queria que a escultura fizesse parte do dia-a-dia das pessoas. Que elas se afeiçoassem à obra, como quem tem carinho por uma árvore ou um banco de jardim - explica Venosa.
O artista Ascânio MMM, com sete esculturas nas ruas cariocas, concorda com Venosa que a função das peças urbanas não é ser inteligível a todas as pessoas, muito menos a de prestar homenagens a personagens da história. Com seu Módulo 6.5 instalado no jardim em frente ao prédio da Prefeitura do Rio, com 1.200 quilos de alumínio, Ascânio conta que pensou somente em criar algo atual:
- Na escultura contemporânea, não faz sentido produzir bustos de personalidades - diz o artista.
A funcionária da prefeitura Matilde Soares, 33 anos, diz adorar a escultura de Ascânio, mesmo sem saber exatamente o que ela quer dizer.
- E precisa? Sei que é bonita, adoro ficar olhando para ela. Quando estamos no horário de verão, saio daqui com o dia claro. É muito legal poder ver uma obra desse tamanho, em vez de concreto para tudo quanto é lado - diz Matilde.
Ivens Machado pôs um dos seus trabalhos mais interessantes na Rua da Carioca, no Centro. Quem passa por ali tenta entender as intenções do artista. A dona de casa Debora Vilela arrisca, de bate-pronto:
- Parece o passo de um gigante.
Seu marido, Antonio Vilela, enxerga as pernas de uma mulher:
- Não tem todas as curvas de que eu gostaria, mas é bastante interessante - brinca.
Paulo Herkenhoff, diretor do Museu Nacional de Belas Artes, faz parte da comissão criada pelo governo e acredita que a visão plural dos moradores é muito favorável. Mas reclama que, na última década, a cidade foi infestada por ''presentes de casamento''.
- Esses bonecos com cara de gente famosa insultam a memória do homenageado. As ruas não são um território para política, nem para os artistas, e sim para a sociedade - define.
