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agosto 31, 2012

Cid anuncia mudanças próxima quarta-feira por Fábio Marques, Diário do Nordeste

Cid anuncia mudanças próxima quarta-feira

Matéria de Fábio Marques originalmente publicada no Caderno 3 do jornal Diário de Nordeste em 31 de agosto de 2012.

Em resposta a protestos contra a atual política cultural, governador promete anunciar ações para o setor

Manifestantes do Movimento Arte e Resistência (MAR), durante protestos na Praça do Ferreira

A confirmação vem da assessoria de imprensa do governador: próxima quarta-feira, dia 5, Cid Gomes anunciará um pacote de ações voltadas para a cultura no Estado.

Entre elas, garantiu a assessoria, não está a saída do atual secretário, como chegou-se a cogitar nos bastidores. Francisco Pinheiro fica. Segundo a assessoria, os detalhes do pacote só serão repassados na ocasião pelo próprio governador.

No final do mês passado, em meio à protestos de artistas e críticas a atuação do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), o ex-secretário da cultura Paulo Linhares chegou a ser confirmado para o cargo de presidente do Instituto de Arte e Cultura do Ceara (IACC).

A informação, no entanto, foi negada pelo próprio Paulo Linhares, que deixou no ar que um possível posicionamento sobre o assunto poderia ser dado este mês por Cid Gomes. A assessoria informou que, junto ao anúncio das ações, Cid também tocará no assunto, mas não confirmou o teor do que será dito. Se Linhares assume ou não o cargo, ainda é um mistério.

Dossiê

Já se vão mais de dois meses de mobilização, desde que um grupo de artistas montou vigília na Praça do Ferreira, dia 27 de junho, motivados pelo descontentamento com a pasta e o tratamento dado pelo Governo do Estado a mesma. Na quarta-feira passada, um grupo de representantes do Movimento Arte e Resistência (MAR), formado para centralizar os protestos, protocolou um abaixoassinado exigindo mudanças. O documento agrega 2.843 assinaturas, entre elas, de integrantes de 98 entidades e grupos de artistas atuantes em sete municípios do Ceará.

Ao abaixoassinado foi indexado um dossiê com demandas específicas para diversas linguagens. "A gente fez um documento que tem propostas claras de modificações e a gente quer um retorno. Protocolamos a petição, o dossiê e um ofício solicitando audiência e vamos aguardar e a cobrar a resposta", detalhou a bailarina Sílvia Moura, integrante do MAR. Entre os pontos mais graves apontados pelo grupo, está o sucateamento do corpo funcional da Secretaria da Cultura e o uso da pasta para articulações político-partidárias. "São muitas coisas. Tem muita mudança a ser feita. Mas, uma das coisas urgentes é o concurso público da secretaria, para admitir funcionários capacitados para cada parte técnica e uma maior autonomia para a secretaria no que diz respeito a aprovação aos projetos", pontua.

Elaborado por representantes de diversas áreas artísticas (áudio visual, artes visuais, circo, dança, música, teatro, música e patrimônio), reunidos no Fórum das Linguagens, o documento possui sete eixos temáticos e cerca de 38 propostas. "Algumas são de médio e longo prazo, e outras de curto prazo. Necessitamos de uma outra visão do governo diante da secretaria" , diz Sílvia.

O estopim do descontentamento que levou os artistas à praça foi dado após as sucessivas mudanças de secretário em junho, motivada por questões político-partidárias. No inicio do mês, Francisco Pinheiro, atual secretario, havia deixado o posto, segundo ele, atendendo um pedido do governador para se disponibilizar para as eleições municipais. O deputado estadual Antônio Carlos (PT) chegou a ser empossado para o cargo, no qual permaneceu apenas seis dias, deixando a pasta à cargo da secretária adjunta Maninha Moraes. Em julho, Pinheiro é empossado pela terceira vez.

Como em cenas de uma telenovela, entra e sai do titular da pasta, foi entremeado de polêmicas, alvo de críticas quando ao seu desempenho e denúncias de descaso com seus equipamentos culturais. Em números retirados do Portal da Transparência, em 2011 a Secult ficou em antepenúltimo lugar em volume de recursos empenhados pelo Governo, recebendo mais verba apenas que a Secretaria de Pesca e Aquicultura e Secretaria Especial da Copa 2014. Ainda assim, dos R$ 82,6 milhões disponibilizados, apenas R$44,5 foram executados. À época, o secretário justificou que o primeiro ano de sua gestão (que efetivamente só iniciou em julho, quando ele retornou uma primeira licença tirada já no segundo mês do mandato), teria sido utilizado para ajustar a casa.

Dragão do Mar

As sucessivas tormentas, espaçadas por poucos dias de calmaria, entretanto continuam. Projetos como o restauro Cine São Luiz, a construção da Pinacoteca estadual e reforma de equipamentos culturais, continuam indefinidos. A eles, somam-se problemas na realização de editais, atraso no repasse de verbas à projetos importantes como os Pontos de Cultura, e falta de resposta da secretaria às demandas apresentadas pelos artistas.

Ao engodo de polêmicas, adiciona-se ainda as indefinições com relação a um de seus principais equipamentos, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). Em outubro do ano passado, o Dragão do Mar foi tema de caderno especial do Diário do Nordeste onde eram denunciados problemas em diversos níveis.

De lá para cá, pouca coisa mudou. Quase sem atividade de formação (apenas o curso básico de dança continua funcionando) e difusão restrita, sobre o equipamento recaem ainda denúncias e reclamações cotidianas que vão desde a insegurança e desorganização urbana de seu entorno até falta de investimentos em manutenção de sua estrutura física e programação.

Um projeto de restauro do CDMAC e integração arquitetônica de sua vizinha, a Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel, também aguarda. A obra foi anunciada em 2009 pelo então secretário, Auto Filho, por ocasião das comemorações de 10 anos do Centro Cultural (que já passou dos 13 anos). O projeto inclui, além das intervenções na biblioteca, a construção de um anfiteatro na Praça Verde do CDMAC com palco permanente, a criação de uma reserva técnica e novas salas de exposição para o Memorial da Cultura Cearense. Até o momento, a obra não começou. Uma licitação foi lançada, mas nada foi anunciado a respeito do real início das obras.

Posted by Cecília Bedê at 2:39 PM

Adriana Varejão revisita sua carreira em mostra panorâmica no MAM por Camila Molina

Adriana Varejão revisita sua carreira em mostra panorâmica no MAM

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 31 de agosto de 2012.

Adriana Varejão - Histórias às margens no MAM-SP - 04/09/2012 a 16/12/2012


'Histórias às Margens', a primeira antologia da produção da artista, será inaugurada no MAM

"A carne não representa para mim nada de martírio, morte. Existe um certo humor em meu trabalho que ninguém vê, um humor negro que às vezes é um pouco grotesco. Não é para levar tão a sério", diz a artista carioca Adriana Varejão. De uma forma explícita, em sua série Ruínas de Charque, dos anos 2000, a pintora se vale da artificialidade de colocar vísceras dentro de fragmentos de paredes de azulejo. Mas a carne não é carne, o azulejo não é azulejo: de uma maneira mais ampla, barroca, quando as entranhas da pintura e das histórias - da arte, antropológicas ou outras - aparecem representadas na obra de Adriana Varejão, há ficções e contundência. Encenações e paródia. E até um monte de "miscigenações".

Somente agora, depois de uma prestigiada carreira iniciada na década de 1980, Adriana Varejão tem, no Brasil, a primeira antologia de sua produção, a mostra Histórias às Margens, que será inaugurada segunda-feira no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. A exposição apresenta 42 trabalhos realizados por ela desde 1991, entre eles, Extirpação do Mal por Incisura (1994) e Reflexo de Sonhos no Sonho de Outro Espelho (Estudo sobre o Tiradentes de Pedro Américo, 1998), exibidos, respectivamente, nas 22.ª e 24.ª Bienais de São Paulo. Anteontem, na montagem da mostra, a própria artista se surpreendia ao rever peças que há mais de 20 anos não são vistas no País.

"Minha produção dos anos 1990 é pouco conhecida. A única condição para fazer a exposição foi trazer trabalhos que estão no exterior", diz a pintora, já referencial não apenas por ter sua pintura Parede com Incisões à La Fontana II (2001) - que representa rasgos na tela de onde saem carne, vale dizer - vendida pela casa de leilões Christie's por US$ 1,7 milhão, o que se tornou um recorde do mercado de arte contemporânea brasileira. Dito e feito, a exposição trouxe peças que integram coleções de prestígio como as da Tate Modern, da Inglaterra, e do Guggenheim de Nova York.

Mais do que abrir a possibilidade do olhar retrospectivo pela produção barroca de Adriana, a mostra apresenta três obras que acabam de ficar prontas e vieram diretamente de seu ateliê no Rio. Adentremos, pois, na "cartografia varejão", como já definiu a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz - feita "entre verdades e simulações", entre "vermelho do sangue e azul do céu".

Posted by Cecília Bedê at 1:44 PM

agosto 29, 2012

Nordeste em foco, Revista Lugares

Nordeste em foco

Matéria originalmente publicada na Revista Lugares em 14 de agosto de 2012.

Metrô de Superfície no Paço das Artes, São Paulo - SP - 17/07/2012 a 13/09/2012

Fruto de um intenso trabalho de pesquisa da dupla formada por Bitu Cassundé e Clarissa Diniz, o projeto Metrô de Superfície ganhou forma no Paço das Artes e, até 13 de setembro, apresenta um amplo recorte artístico que visa discutir a produção realizada na região Nordeste desde os anos 2000. Para realizar a seleção, a curadoria desenvolveu uma pesquisa detalhada que durou cerca de dois anos. “Viajamos todos os estados da região nordeste, vistamos ateliês e instituição, e a partir do cruzamento de informações e experiência, chegamos aos artistas participantes”, explica Bitu Cassundé. A proposta transcende a apresentação dos resultados das investigações e inclui conversas, debates e performances na agenda do projeto, assim como duas mostras de obras – uma agora e outra em novembro.

Segundo a Clarissa Diniz, dois eixos se destacam entre os trabalhos selecionados para a exposição. “O primeiro deles tem a ver com uma produção de subjetividade bastante literária em estreita relação com o corpo e com a ideia de ficção”. Dentro deste, ela aponta para as temáticas das reinvenções de gêneros, como nos trabalhos de Solange, tô aberta! e Virgínia de Medeiros, das questões de identidades abordadas por Rodrigo Braga e Carlos Mélo, até às mitologias como em Marina de Botas e Milena Travassos. “Por sua vez, outro grande eixo que estrutura a segunda mostra do projeto aborda a força da arte no campo dos interstícios sociais, reunindo trabalhos que acontecem de modo mais geopolítico”. Grupo GIA, Vitor Cesar Jonathas de Andrade e Lourival Cuquinha são alguns dos artistas que sustentam esta diretriz em Metrô de Superfície.

Investigação, dificuldades e avanços

O mapeamento da produção na região começou há alguns anos, quando Clarissa e Bitu foram assistentes curatoriais do Programa Rumos Artes Visuais 2008/2009. Na ocasião, a curadora comenta que encontrou uma grande disparidade entre o que se proclamava “arte contemporânea” e o que realmente era feito neste âmbito. A disputa por predominância dentro do cenário comprovava que o potencial criativo na região era direcionado pela vontade de inserção em um meio dominante. “Mesmo que inconscientemente, esses artistas violentavam a invenção pelo desejo de reverberação/interlocução no seio de um campo cada vez mais hegemônico, identificado por uma ideia de arte contemporânea que, no fundo – e a despeito de toda a retórica –, é bem menos diversa do que poderia ser”, afirma Clarissa. Situações como esta não se aplicam apenas ao panorama da região, mas são algumas das questões levantadas pelos curadores que podem ser enxergadas através da ótica de um cenário nacional.

Para Bitu, a maior dificuldade em relação à articulação da região, no que diz respeito às artes visuais, recai sobre a gestão. A falta de ações incisivas para as artes visuais e políticas continuadas que reverberem situações de trocas e formações são as grandes dificuldades da administração de um campo de atuação favorável, ainda que se apresente uma situação de crescimento do número de atores circulando e produzindo neste meio. “Observa-se um número bem mais significativo de pesquisadores, curadores e críticos que dão maior fundamentação a estas práticas”, aponta Bitu. Para permanecer em um caminho de avanços e melhorias no cenário artístico, Metrô de Superfície vem justamente para provocar o debate em torno das questões que se apresentam na produção realizada no Nordeste na última década e nas relações estruturais apresentadas nesta perspectiva.

Para além das exposições

Assim, a proposta não configura-se apenas na exposição desta produção, mas é composta também por ciclos de seminário e publicações que dão sustento à concepção do projeto. No dia posterior à abertura, por exemplo, os artistas Bruno Vilela, Amanda Melo, Juliana Notaria, Milena Travassos, Virgínia de Medeiros, a crítica Carolina Soares e os curadores estiveram reunidos para uma primeira conversa aberta ao público sobre a mostra. No dia 27 de agosto acontece mais uma rodada de eventos: o grupo de artistas formado por Ribeiro, Thiago Martins de Melo, Carlos Mélo, Rodrigo Braga, Marcelo Gandhi e Pedro Costa se reúne com os curadores e Carolina Soares para um segundo encontro. No mesmo dia, Bitu Cassundé media o debate entre os artistas José Rufino e Marcelo Campos, e à noite o encerramento fica por conta da performance de Solange, tô aberta!.

Ainda que não se possa romper completamente com o discurso da territorialidade, Metro de Superfície vai muito além dele. A finalidade aqui é não é enquadrar a produção realizada no Nordeste em determinados parâmetros artísticos e ou estéticos, mas fomentar um diálogo que possibilite reflexões acerca de um espaço de produção e melhorias de formação e atuação de artistas e do público no mesmo. Com este objetivo, o empenho das instituições se mostra fundamental. O Centro Cultural Banco do Nordeste adquiriu, por exemplo, os trabalhos exibidos em Metrô de Superfície e colabora, assim, para o desenvolvimento de uma coleção calcada na produção local. Apresentar este conjunto no eixo Rio-São Paulo é importante, mas não essencial. O indispensável que é que esforços múltiplos de diferentes vértices resultem em uma forma articulada de gestão do circuito artístico-cultural do Nordeste.

Posted by Cecília Bedê at 10:19 AM

Artistas entregam documento ao governador por André Bloc, O Povo

Artistas entregam documento ao governador

Matéria de André Bloc originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 29 de agosto de 2012.

Assinado por 80 entidades, documento do Movimento Arte e Resistência será entregue hoje ao governador com 38 demandas

O Movimento Arte e Resistência (MAR) entregará ao governador, na manhã de hoje, um documento reivindicando mudanças na gestão cultural. O dossiê será protocolado na Casa Civil do Estado, endereçado pessoalmente ao governador Cid Gomes. O Documento MAR, como está sendo chamado, junta reivindicações da classe artística cearense e é o mais recente movimento de questionamento da gestão cultural estadual protagonizado pelo grupo de artistas. Até a manhã de ontem, cerca de 80 entidades haviam assinado o documento, representando as diferentes linguagens artísticas.

“Começou com a insatisfação (com a gestão cultural do Ceará) e decidimos então redigir uma carta de repúdio, que virou petição pública”, lembra Silvia Moura, membro do Fórum das Linguagens e “uma das ondas do MAR”, como se define. “Então, surgiu a obrigação de pautar as necessidades de cada grupo, começando pelas diferentes linguagens”. A partir daí, segundo Silvia, foram feitas cartas para cada área de atuação – que também serão entregues na manhã de hoje no Palácio da Abolição, sede do governo estadual. O objetivo principal, além das propostas do documento, é agendar uma audiência com Cid Gomes, demanda requerida através de um ofício, também a ser entregue hoje.

O caráter do documento é totalmente propositivo. “São propostas concretas, quase um plano de cultura”, diz Silvia. Ao todo, são sete eixos temáticos (Gestão, Autonomia, Formação, Equipamentos Culturais, Editais, Produção e Circulação, Recurso/Orçamento) e um total de 38 propostas. Entre as propostas, estão desde demandas anteriores à gestão Cid, como a realização de concursos públicos para contratação de funcionários efetivos para a Secretaria da Cultura do Estado (Secult), até pedidos mais específicos como a retomada da proposta de ter o Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC) para formação.

“A gente reclama, mas está disponível para ‘arregaçar as mangas’ para trabalhar junto. Nós não queremos rompimento, não é (movimento) eleitoreiro, não é chuva passageira. São anos de construção”, avisa Silvia.

Depois da entrega do documento, o desejo do MAR é uma resposta definitiva – não só através de vozes, mas de ações. O Movimento Arte e Resistência foi criado há dois meses. Apesar de recente, Silvia Moura garante que alguns pontos são observados desde o primeiro mandato do governador, de 2007 a 2010, mas a situação piorou a partir do segundo. O ponto crítico, porém, parece recente. “As coisas estão muito ruins e do lançamento do movimento para cá, só piorou”, lamenta. “O Giro Cultural - realizado no último dia 18 no Centro de Eventos - não é significativo, empobrece nossa cultura – a gente não compactua com aquilo. Não é transformador investir tanto em apenas um evento que não deixa nada para a cidade”.

Histórico
O Movimento Arte e Resistência foi criado oficialmente no dia 25 de junho de 2012, a partir do Fórum das Linguagens. Desde então, vem realizando ações e manifestações públicas pelo direito ao acesso à cultura e em defesa dos agentes culturais.

O POVO acompanhou as manifestações do MAR em 28 de junho, quando o grupo fez vigília em frente à sede da Secult. A vigília aconteceu ainda nos dias 3 e 5 de julho, sem respostas do governo. Já no dia 11 do mesmo mês, o Vida & Arte trouxe material sobre a preparação de um ato-show na praça do Ferreira, organizado pelo MAR.

No documento MAR, as entidades defendem conviver com ”incômodos gerados pela atuação da pasta da Cultura “e , sem notar avanços, solicitam “a abertura de um espaço de diálogo direto” com o governador, rompendo “com a indesejável distância estabelecida” entre um e outro. As propostas sugeridas passam pela gestão de recursos, como o aumento nos valores de editais.

Outras sugestões são a garantia de responsabilidade da Secult “sobre a manutenção, reforma e bom funcionamento, dos equipamentos culturais” e maior autonomia da pasta de Cultura, com a descentralização do Monitoramento das Ações e Programas Prioritários (MAPP) e o retorno da administração do Fundo Estadual de Cultura (FEC) para a Secult, com acompanhamento do Conselho Estadual de Cultura (CEC).

Multimídia
O site do MAR (movimentoarteeresistencia.wordpress.com) conta com uma versão eletrônica do Documento MAR

Posted by Cecília Bedê at 10:12 AM

agosto 28, 2012

Arte contemporânea enfeita muros da Capital, Diário do Nordeste

Arte contemporânea enfeita muros da Capital

Matéria originalmente publicada no caderno Cidades do jornal Diário do Nordeste em 27 de agosto de 2012.

Na 2ª edição, o projeto "Muros: Territórios Compartilhados" traz a Fortaleza artistas de todo o Brasil

Até a próxima sexta-feira (31), os muros da cidade de Fortaleza deixarão de ser meras barreiras físicas e irão se transformar em palco para diversas performances e intervenções urbanas que unem arte contemporânea, criatividade e reflexão.

No Centro, um dos muros recebeu a instalação de "olhos mágicos", por onde as pessoas podem ver o que se passa do outro lado da parede FOTO: TUNO VIEIRA

Em sua segunda edição, o projeto "Muros: Territórios Compartilhados" traz à Capital cearense artistas de todo o Brasil com a proposta de levar às ruas manifestações artísticas que utilizam os muros como cenário e discutir a relação entre a Capital e as fronteiras que separam espaços públicos e privados.

"A cidade, agora, é um corredor. Você anda nas ruas entre muros. O que nós queremos é causar uma reflexão sobre os lugares em que se pode entrar e para quem a cidade está sendo construída", explica o coordenador do projeto, Bruno Vilela.

Oito propostas foram selecionadas para participar da iniciativa com trabalhos de escultura, desenho, instalações e performances. Os responsáveis pelas obras são artistas, estudantes e coletivos escolhidos entre cerca de 70 projetos inscritos em um edital lançado pelo Banco do Nordeste do Brasil (BNB).

Diálogo

No Centro de Fortaleza, um dos muros recebeu a instalação de "olhos mágicos", por onde os transeuntes podem ver o que se passa além dos limites de concreto. Outro trabalho já realizado foi um leilão com obras vendidas pelo preço mínimo de R$ 1,99.

Segundo Bruno, os lugares foram determinados pelos próprios artistas, que, com base em pesquisas prévias, analisaram onde seu trabalhos se adequavam. "Uma das propostas do muro é tentar estabelecer esse diálogo com o local onde as intervenções vão ser feitas. O artista tem de pensar porque estão fazendo esse trabalho naquele lugar, em qual contexto ele se insere e se faz sentido ou não ali", destaca o coordenador.

A partir da escolha do local, foi feita a negociação da utilização dos muros com os moradores, processo que, algumas vezes, acabou modificando algumas propostas. "Dependendo do lugar que o artista escolhe, as pessoas podem não querer atender. A gente vê como as dinâmicas da cidade permitem a realização desse trabalho", destacou Bruno Vilela.

Conforme o organizador do projeto, todos esses trabalhos estão sendo documentados, e o resultado final deverá ser lançado, no final deste ano, durante um seminário que será realizado com a presença de curadores e artistas participantes do projeto. O evento será aberto ao público, no entanto, ainda não tem existe definida.

Posted by Cecília Bedê at 3:15 PM

Ministra Ana de Hollanda critica o estado da pasta de Cultura por André Miranda, o Globo

Ministra Ana de Hollanda critica o estado da pasta de Cultura

Matéria de André Miranda originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Globo em 27 de agosto de 2012.

Salários defasados, prédios deteriorados e riscos de danos ao patrimônio são algumas das insatisfações

RIO - ‘Esses números colocam em risco a gestão e até mesmo a existência de boas partes das instituições culturais.” A frase é uma referência à atual situação orçamentária do Ministério da Cultura (MinC), sobretudo quanto aos salários de seus servidores. Foi escrita numa carta, enviada no último dia 15 para Miriam Belchior, ministra do Planejamento. O texto da carta, à qual O GLOBO teve acesso, diz ainda que “essa realidade do MinC e de suas entidades vinculadas (...) tem gerado danosas consequências ao governo e à sociedade”.

Trata-se de uma das mais fortes críticas já feitas ao atual estado da Cultura no país, cujo impacto é ainda maior por terem sido escritas pela própria ministra, Ana de Hollanda. Procurada pelo GLOBO, ela não quis comentar a carta.

O documento reverbera uma insatisfação de grande parte dos 2.667 servidores na ativa do MinC. Na semana passada, dois protestos foram realizados no Rio. O primeiro aconteceu na quarta-feira, envolvendo os servidores da Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Sua principal revindicação é sobre as condições estruturais dos prédios — deteriorações constatadas numa visita do GLOBO a seis construções ligadas ao MinC. Desde abril, quando um acidente no sistema de refrigeração afetou o acervo de periódicos na sede da instituição, no Rio, a Biblioteca Nacional está com o ar-condicionado desligado. Há relatos de mal-estar entre os funcionários e reclamações do público.

Um manifesto divulgado pelos servidores da FBN cita vazamentos no telhado, rachaduras nas paredes e instalações elétricas indevidas. “A maior guardiã da memória literária nacional está em estado crítico. Tesouros insubstituíveis como a Bíblia de Mogúncia, a coleção de fotografias de D. Pedro II e muitas outras raridades serão perdidas se atitudes não forem tomadas urgentemente”, diz o manifesto.

Sexta-feira foi a vez de outro ato de servidores, este em frente ao Museu da República. Com dúzias de manifestantes usando pijamas — em alusão à roupa que vestia Getúlio Vargas quando se suicidou, naquele mesmo local e na mesma data (24 de agosto) —, o evento foi chamado de “SOS Cultura!” e priorizou uma antiga reivindicação da categoria: um plano de carreira e melhores salários. Os folhetos distribuídos falam de uma “possível extinção” do ministério e comparam os salários da Cultura aos de outras instituições: “O vencimento do pessoal da Cultura, em final de carreira, corresponde ao salário inicial de vários órgãos do Executivo, como Ibama, IBGE, INPI, Inmetro e DNIT”.

— Já no ano passado, os servidores do MinC nos procuraram, para que ajudássemos a cobrar um acordo salarial feito com a gestão anterior, e sobre o qual houve dificuldade de diálogo com a gestão atual — afirma a deputada federal Jandira Feghali, presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura. — De fato, eles têm uma defasagem salarial. A Cultura não tem sido encarada como prioridade. Seus servidores são vistos como secundários no serviço público.

A própria ministra Ana de Hollanda fez o alerta na carta enviada à sua colega do Planejamento. De acordo com o documento, a taxa de evasão dos funcionários aprovados no último concurso público para o MinC foi de 53% — 55% de funcionários diretamente vinculados ao ministério; 70% no Instituto Brasileiro de Museus, 40% na Funarte; 67% na Fundação Cultural Palmares; 37% na Fundação Biblioteca Nacional e 44% no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ou seja, das 1.029 vagas abertas em 2010, 541 não estão preenchidas. A ministra lembra ainda que o quadro se agrava com a previsão de 772 aposentadorias até 2017.

— Ninguém mais quer ficar no MinC por conta dos salários e também pela falta de diálogo. A gestão atual diz que dá apoio irrestrito aos servidores, mas nunca se sentou conosco para dialogar. A relação é péssima — afirma Sérgio de Andrade Pinto, vice-presidente da Associação de Servidores do Ministério da Cultura.

Por tudo isso, há o medo de uma nova greve. Nos últimos anos, houve pequenas paralisações. A mais duradoura ocorreu em 2007, quando os servidores pararam entre maio e agosto.

Para Eulicia Esteves, vice-presidente da Associação de Servidores da Funarte, se o panorama permanecer, na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016 os equipamentos culturais federais correm o risco de estar com as portas fechadas.

— E não por causa de uma greve. Mas pela falta de pessoal para atender o público e preservar o acervo. É necessário haver uma política permanente para as artes, o que não temos no Brasil — ela diz.

Já hoje, a situação dos equipamentos de responsabilidade do MinC é grave. Antigas reformas prometidas para o Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio, não foram feitas. O palácio, tombado desde 1948, é alvo de uma década de reclamações sobre problemas estruturais. Seus elevadores são famosos entre funcionários e frequentadores pelos sucessivos defeitos. Com capacidade para 14 pessoas, eles só transportam oito, para tentar evitar panes. Já no terraço do Capanema, redes de náilon azul estão espalhadas pela fachada há pelo menos dois anos — elas serviriam para conter o cimento que eventualmente poderia se desprender do prédio.

Ainda no Capanema, os funcionários do sétimo andar, ocupado pelo Instituto Brasileiro de Museus, precisam se virar por conta própria para ter água potável. Um comunicado dos servidores à direção, de 16 de abril, dizia que “não foi informado prazo para a solução deste problema”. Desde então, eles compram sua água ou dependem dos colegas de outros setores. Na quinta-feira, servidores do Museu da República doaram dez galões.

No Museu do Folclore, no Catete, há mais problemas. Logo no hall de entrada, onde peças do artista pernambucano Espedito Seleiro estão expostas, há um grande rombo na parede, no lado direito. De acordo com funcionários, uma obra foi iniciada no museu no início do ano e interrompida por falta de verbas. Enquanto isso, no Museu do Açude, no Alto da Boa Vista, a reforma da área que sofreu com um deslizamento do terreno, em 2010, não foi concluída. O museu ficou fechado por dois anos até reabrir em maio, mas a piscina, que abrigava uma instalação de Iole de Freitas, ainda não foi restaurada. A obra foi fixada no novo muro de contenção.

O MinC foi contatado por telefone, recebeu um e-mail com todos os pontos que seriam abordados pela reportagem, mas não se pronunciou.

Posted by Cecília Bedê at 2:58 PM

Instituto Inhotim passa por mudanças por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Instituto Inhotim passa por mudanças

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 26 de agosto de 2012.

Centro de arte inaugura mostras permanentes em 6 de setembro e recebe sua nova diretora

O Instituto Inhotim, centro de arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, Minas Gerais, passa por momento de mudança. As inaugurações, no próximo dia 6, de mostras permanentes de obras dos brasileiros Tunga e Lygia Pape, da espanhola Cristina Iglesias e do cubano Carlos Garaicoa, bem como de uma coletiva na Galeria Mata com trabalhos dos artistas Renata Lucas, Mateo López, León Ferrari, Edward Krasinski, João José Costa, Juan Araújo e Luisa Lambri marcam as novidades palpáveis, mas é agora, também, que a instituição recebe a coreana Eungie Joo para ser sua diretora de arte e programação.

Com experiência no New Museum de Nova York, Eungie Joo terá como desafio incrementar o segmento de atividades culturais em Inhotim. Ela se mudará para Belo Horizonte a fim de exercer sua função no instituto, antes dirigido pelo alemão Jochen Volz, que se tornou curador-chefe da Serpentine Gallery de Londres. Eungie Joo também indicará aquisições de arte contemporânea para o acervo de Inhotim, mas é necessário, como diz o curador Rodrigo Moura, dar um "caráter mais dinâmico" para a exibição da coleção.

Das 600 obras, apenas 80 estão expostas. Um dos projetos em curso, segundo Rodrigo Moura, será a construção da Grande Galeria, prevista para ser inaugurada entre 2014 e 2016. Com espaço de 4 mil m² e projetado pelo escritório Arquitetos Associados, o prédio vai se tonar um espaço para mostras coletivas.

"Estamos discutindo para que as quatro galerias Mata, Fonte, Lago e Praça fiquem mais monográficas", conta o curador. Seria uma maneira de desacelerar a construção de novos pavilhões dedicados a individuais de artistas? Já são mais de 20 galerias e obras permanentes construídas - e, segundo pesquisa do instituto, as mais visitadas pelo público (157 mil até julho de 2012) são o Sonic Pavillion do norte-americano Doug Aitken; a Galeria Cildo Meireles (com instalações importantes do brasileiro, como Desvio para o Vermelho e Através); o espaço para a obra sonora Forty Part Motet, de Janet Cardiff & & George Bures Miller; e o pavilhão da pintora carioca Adriana Varejão (que já foi casada com o empresário Bernardo Paz).

Uma das lacunas do Instituto Inhotim é não ter ainda um pavilhão dedicado à artista brasileira Lygia Clark, por exemplo. "Temos cerca de cinco obras dela em nossa coleção", diz Moura. Outro "desafio", explica o curador, é tratar da arte performativa no acervo da instituição.

Enquanto isso, a mostra coletiva na Galeria Mata, com previsão de ficar em cartaz por dois anos, é um "recorte interpretativo da coleção" com obras que fazem diálogo entre arquitetura e artes visuais.

A exposição apresenta trabalhos de artistas de diferentes gerações. Dos consagrados, o concretista João José Costa, que foi do Grupo Frente; o argentino León Ferrari, que doou 28 de suas históricas heliografias ao instituto; e o polonês Krasinski, com sua obra de espelhos.

Posted by Cecília Bedê at 2:53 PM

Museus de SP só têm sites em português por Edison Veiga e Nataly Costa, O Estado de S. Paulo

Museus de SP só têm sites em português

Matéria de Edison Veiga e Nataly Costa originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 28 de agosto de 2012.

Os turistas estão ficando cada vez mais tempo em São Paulo, sobretudo os estrangeiros: os "gringos" passam, em média, cinco noites na capital, segundo dados da São Paulo Turismo (SP Turis). Porém, quando vão procurar na internet as principais opções de cultura e lazer na cidade, deparam-se com uma dificuldade: sites de grandes museus são uma incógnita para os visitantes estrangeiros porque não têm versões em outra língua, além do português.

É o caso dos sites do Museu de Arte de São Paulo (Masp), do Museu da Imagem e do Som (MIS), da Pinacoteca do Estado e do Museu Paulista da USP, mais conhecido como Museu do Ipiranga. Nesses, qualquer não lusófono sofre para achar informações simples como horário de funcionamento ou preços.

"Como gosto de arte, sempre ouvia falar sobre o Masp como um dos mais importantes do mundo. Mas quando estava em São Paulo, no ano passado, tive dificuldades para consultar as informações e programar minha visita", conta o médico camaronês Samuel Ntoe, de 32 anos. "Acabei desistindo do site e pedindo ajuda para o hotel. Um funcionário gentilmente ligou para o museu e me informou qual era a exposição em cartaz, horários de funcionamento e preço."

A advogada suíça Pauline Gauthier, de 27 anos, veio para São Paulo no início do ano e também não conseguiu entender muito os sites dos museus. "Sei um pouco de espanhol, então, como é um idioma semelhante ao português, até conseguia compreender um pouco. Mas seria muito mais fácil se o site já tivesse uma versão em inglês, ainda que fosse apenas com as informações básicas." Como ela ficou hospedada na casa de um casal de amigos, o jeito foi apelar para a boa vontade dos anfitriões. "Eles me ajudaram a programar as visitas aos museus e outros pontos importantes de São Paulo. Então, o problema do idioma acabou sendo contornado."

O físico alemão Stephen Riedel, de 35 anos, já esteve em São Paulo a trabalho três vezes e sempre aproveitou as folgas para passear pela cidade. "Em outras grandes capitais do mundo, o inglês sempre funciona como uma espécie de coringa idiomático, resolvendo o problema de comunicação. Em São Paulo, muitos pontos turísticos não estão preparados. Infelizmente, muitas vezes nem na internet, nem nas instituições in loco."

Prazos. "A previsão da Secretaria de Estado da Cultura é ampliar a acessibilidade linguística para o público internacional em um prazo de dois anos para todos os equipamentos da secretaria, entre eles para o Museu da Imagem e do Som", informou a Assessoria de Imprensa do MIS.

O Masp afirma que seu site está sendo reestruturado e terá versões em inglês e espanhol. O projeto ainda não tem data para ir ao ar. A Pinacoteca do Estado promete para o ano que vem o lançamento de um site trilíngue: português, inglês e espanhol.

O site do Museu Paulista também está em reforma, segundo a instituição. "Primeiramente focamos em melhorar a funcionalidade, agora na segunda etapa buscamos melhorar os atrativos ao público, incluindo a tradução para outras línguas em breve".

Posted by Cecília Bedê at 2:48 PM

Jonathas de Andrade arma corrida de carroças na cidade por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Jonathas de Andrade arma corrida de carroças na cidade

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 26 de agosto de 2012.

Numa tarde ensolarada de inverno, Jonathas de Andrade, megafone em punho, sofreu para organizar a largada das 40 carroças que se inscreveram para disputar a primeira corrida de carroceiros do centro antigo do Recife.

Uma lei, em grande parte ignorada, proíbe que as carroças circulem na área urbana da cidade, mas -com o pretexto de rodar um filme- o artista conseguiu permissão para pôr cavalos a correr pelo asfalto e fazer uma multidão se aglomerar em torno do cortejo que virou um levante.

"São dois projetos, é a ideia do filme que viabiliza a existência da corrida", diz Andrade. "Mas o que era para ser bem mais lento ganhou contornos de êxtase, aquilo tomou a cidade, em vez de um lamento virou celebração."

Em suas obras, Andrade sempre extrai da realidade elementos que embasam uma ficção verossímil, o que poderia ter sido, mas ao mesmo tempo só pode vir a ser pela articulação do artista.

Nessa tarde no Recife, suas câmeras estavam posicionadas para um espetáculo que tinha tudo para dar errado. E, em certa medida, deu.

Carroças desviaram do percurso estabelecido pela prefeitura, cavalos se atropelaram, mas a comoção foi grande. As ruas letárgicas do centro num domingo qualquer foram tomadas pela arruaça dos bichos e muita cantoria de um locutor voluntário.

"Não consegui filmar, foi superdifícil porque a coisa toda estava tão viva", lembra.

"Tenho intimidade com esse lugar, falo de presente, tradição, mas também de impulsos sociais e corpóreos. É a experiência do corpo e da cidade através da passagem desse cortejo, uma universalidade que toma emprestada peculiaridades do Nordeste."

No fim da corrida, os carroceiros se juntaram no ponto da partida para receber seus prêmios, entre eles um bode e sacos de farelo.

Posted by Cecília Bedê at 2:35 PM

Artista exibe no Recife obras feitas de dinheiro por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Artista exibe no Recife obras feitas de dinheiro

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 26 de agosto de 2012.

Lourival Cuquinha - Topografia Suada de Londres: Jack Pound Financial Art Project no Centro Cultural Correios, Recife - PE - 02/08/2012 a 23/09/2012

Lourival Cuquinha reflete sobre os valores abstratos do circuito da arte

Lourival Cuquinha fazia bicos para sobreviver em Londres quando leu num tabloide que a maioria dos ingleses nem notaria a falta de £ 1.000 (R$ 3.200) de suas contas bancárias.

Um desses bicos era levar turistas para cima e para baixo na capital britânica num riquixá, espécie de "charrete em que você é cocheiro e cavalo ao mesmo tempo", nas palavras dele.

Misturando símbolo nacional ao peso suado do dinheiro, o artista então decidiu fazer com os lucros das corridas -valor que depende da distância e do peso do cliente- uma bandeira inglesa costurando cédulas de libra.

"Não é aquele dinheiro etéreo, que cai na sua conta", diz Cuquinha. "Aprendi a dar outro valor para o esforço físico e também para o dinheiro."

Na mostra que faz agora no Centro Cultural Correios, no Recife, Cuquinha expõe, além da bandeira, um conjunto de riquixás em que o público precisa pedalar para ver projeções das imagens das corridas por Londres.

Aquela bandeira, confeccionada com as £ 1.000 que passariam despercebidas das contas dos ingleses, foi depois leiloada numa feira de arte por £ 17 mil. De certa forma, toda a obra do artista é uma reflexão sobre os mecanismos abstratos de valor atribuído a obras de arte num circuito de cifras infladas.

Outra bandeira, com cédulas de dólar, que ele fez para hastear do alto de um pau de sebo em Havana, foi leiloada por R$ 80 mil. "É dinheiro costurado vendido por mais dinheiro. É esse trabalho de construir e, quando vender, construir mais valor ainda."

Um dos artistas mais provocadores do circuito atual, Cuquinha também já comprou briga com suas cédulas. Exigindo um cachê por uma exposição no Itaú Cultural, chegou a fabricar cédulas de real com a cara de Milú Villela, presidente da instituição.

Mas antes das obras monetárias, Cuquinha já trabalhava questões de valor em seus projetos. Uma vez, no Rio, experimentou uma réplica de um "Parangolé" de Hélio Oiticica, o museu fechou e ele ficou com o manto colorido perambulando pela Lapa.

Depois expôs a peça atrás de uma cerca elétrica e fixou seu preço de acordo com o valor de mercado -estratosférico- de um "Parangolé". "Trabalho no limite da legalidade", afirma. "Gosto de obras que dão a cara a tapa."

Posted by Cecília Bedê at 2:24 PM

Mostra na Casa de Vidro abre ao público só em novembro por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Mostra na Casa de Vidro abre ao público só em novembro

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Pauli em 25 de agosto de 2012.

Com curadoria de Hans Ulrich Obrist, evento paralelo à Bienal terá prévia para convidados em 5 de setembro

Um dos mais esperados eventos paralelos à 30ª Bienal de São Paulo, que abre em 7 de setembro, a mostra com curadoria de Hans Ulrich Obrist, na Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, terá apenas um dia de duração. Aberto apenas para convidados, o evento acontece no dia 5.

"Será o prelúdio, com a presença de sete artistas. A primeira etapa da mostra será, de fato, inaugurada em novembro", diz a espanhola Isabela Mora, produtora-executiva da exposição.

O prelúdio contará com obras de Gilbert & George, Paulo Mendes da Rocha, Alexander Calder, Waltércio Caldas, Cildo Meireles, Cinthia Marcele e do escritório de arquitetura SANAA (Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa).

No entanto, no próprio dia 5, às 21h, os organizadores terão um evento público que deve marcar a concorrida semana pré-Bienal: Obrist irá entrevistar, no Teatro Oficina, o diretor José Celso Martinez Corrêa e Gilbert & George.

O encontro reúne o ícone do teatro brasileiro com a dupla inglesa que, desde os anos 1970, realiza performances.

A exposição na Casa de Vidro irá reunir obras de 31 artistas. Contudo, os trabalhos serão instalados em três etapas, a começar do prelúdio.

"Hans quer organizar a exposição como um 'work-in-progress'", diz Mora. A última fase, com a mostra completa, será inaugurada em março de 2013 e deve ficar em cartaz até maio do mesmo ano.

A exposição tem R$ 2,4 milhões aprovados para captação por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Entretanto, de acordo com o site do Ministério da Cultura, até o momento não foi conseguido nenhum recurso. "Estamos com muitos apoios sendo fechados", diz Mora.

A exposição na Casa de Vidro é a primeira de Obrist no Brasil e dá continuidade a uma série de projetos curatoriais realizadas pelo crítico em casas-museus, como nas residências de Luis Barragán, no México, e de Federico García Lorca, na Espanha.

É também a primeira vez que a casa onde morou Bo Bardi e seu marido, Pietro, abriga uma exposição.

Posted by Cecília Bedê at 2:18 PM

Nuno Ramos enterra três casas no barro em mostra por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Nuno Ramos enterra três casas no barro em mostra

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 28 de agosto de 2012.

Nuno Ramos - ai, pareciam eternas! (3 lamas) na Celma Albuquerque Galeria de Arte - Belo Horizonte - MG - 29/08/2012 a 31/10/2012

Nuno Ramos está com o braço enfiado na lama. Ele testa a consistência do barro branco em que afundou uma das três casas que decidiu sepultar na mais monumental obra de sua carreira até hoje.

Em 2014, Nuno Ramos terá pavilhão em Inhotim

O artista escavou o chão da galeria Celma Albuquerque, no centro de Belo Horizonte, para enterrar réplicas das casas onde cresceu, onde seus filhos nasceram e onde mora em São Paulo, uma espécie de afundamento da memória.

Pedaços das fachadas, um telhado inteiro e o sótão de uma delas saltam para fora de três piscinas de lama.

A casa de mármore negro parece brotar de um lamaçal retinto. Outra, de areia socada, afunda no barro marrom, enquanto a branca, a maior de todas elas, lembra uma coluna vertebral de telhas que abraça os pilares da galeria num pântano imaculado.

São mais de 300 toneladas de matéria. É o peso bruto do concreto arrancado do chão, das placas de mármore e de granito e de toda a areia que compõe uma das casas.

"Tem um certo sacrifício nessa obra", diz Ramos, numa pausa na montagem da mostra que será aberta no começo de setembro, depois de um mês de quebradeira na galeria. "Queria essa situação de luta e confronto mesmo."

Ramos, aliás, tem feito de suas obras um reflexo dos confrontos que enfrentou na vida real.

Seu trabalho mais recente, o desmanche fúnebre das casas na lama, tem a ver com a morte de sua mãe há cerca de um ano e meio e seu contato com "essas coisas reais", nas palavras dele.

"É oferecer essas coisas para perder, jogar fora", diz Ramos. "Tem essa coisa de dádiva, uma troca amalucada, sem medidas exatas."

Seu sacrifício aqui é matar construções inteiras num cenário catastrófico que contrasta com a limpidez das formas, a lama plástica que reflete as luzes da galeria e a pedra reluzente das esculturas criadas para serem escombros --uma espécie de ruína calculada.

Cenário não é o termo: este é um teatro real, em que as casas afundadas têm a medida exata das que replicam.

Ramos dirige a cena mais como um engenheiro calculista do que um cineasta. Com o mesmo cálculo com que armou um viveiro de urubus na Bienal de São Paulo, fez um avião se espatifar na copa de uma árvore no Museu de Arte Moderna do Rio ou um barco de pedra-sabão encalhar no meio de uma galeria.

"A imaginação é muito autêntica, mas, no meu caso, é a matéria que põe as coisas no lugar", explica. "Nunca mexi com matéria nenhuma em sentido simbólico. Quero que a presença das coisas venha antes da interpretação."

HISTÉRICO E SOLENE

A presença, aqui, é inequívoca. Tanto que, na galeria, mal cabe o público. A cena causa espanto vista da calçada, através das janelas.

Do mesmo modo, a mostra que o artista abre no Rio, em novembro, será um espetáculo fechado. Nele, dois globos da morte cercados de estruturas de vidro e peças quebradiças ocuparão todo o espaço da galeria Anita Schwartz.

Haverá um antes --a estrutura toda montada e cercada de objetos frágeis-- e um depois --o caos que segue a performance furiosa das motocicletas pelos globos metálicos.

Ramos reconhece a ambivalência entre histeria e solenidade como chave de sua obra. "Há uma dissonância que adoro ocupar", diz. "É um globo da morte de tudo, algo histérico, enquanto essa carga de silêncio que tem aqui é o que não tem lá."

Ele vê um contraste entre a fúria de seus desenhos e pinturas --obras do início da carreira carregadas de objetos que saltam das telas-- e o tom mais soturno das casas afundadas e do voo dos urubus entre lápides de areia.

Em todos os casos, seria o que ele chama de "milagre físico da obra", uma poesia que afirma por trás dos aspectos visuais de seu trabalho -a transformação mesma de versos em matéria.

No caso das casas lembram as construções evocadas por Carlos Drummond de Andrade no poema "Morte das Casas de Ouro Preto". Ele refaz as casas que "morrem severas" do poeta mineiro. Tenta recriar o chão que "começa a chamar as formas estruturadas faz tanto tempo".

"Todo caos é uma reconfiguração", resume o artista. "Toda violência e destruição reconfigura outra ordem. Aqui a imaginação ganha uma dimensão corpórea."

Em 2014, Nuno Ramos terá pavilhão em Inhotim

Depois de afundar suas casas na lama, Nuno Ramos vai construir no Instituto Inhotim, nos arredores da capital mineira, um pavilhão para abrigar de forma permanente as obras que está tão acostumado a fazer e desfazer.

Nuno Ramos enterra três casas no barro em mostra

Pela escala monumental de seu trabalho, peças como o viveiro de urubus da Bienal de São Paulo, as casas afundadas, o avião do Museu de Arte Moderna do Rio ou mesmo os globos da morte que vai montar neste ano acabam sendo projetos efêmeros.

Tanto que o artista trabalha agora com uma arquiteta, que estuda cada peça e documentar o processo de feitura. Em Inhotim, onde seu pavilhão deve ser inaugurado em 2014, muitas delas serão refeitas.

"Vamos fazer um ajuste do prédio às obras, como um prédio fabril que se ajusta às máquinas", diz Ramos. "É reforçar meu lado contrastante de artista que faz obras que nem parecem do mesmo autor."

Ramos ainda estuda a seleção das peças com Rodrigo Moura, um dos curadores de Inhotim, mas adianta que o espaço terá pinturas, obras de areia e sabão e a instalação "111", sobre a chacina de presos no Carandiru em 1992.

Allen Roscoe, arquiteto que executou as peças de aço de Amilcar de Castro e Franz Weissmann e também ajudou Ramos a afundar suas casas na lama, fará o projeto do pavilhão.

"Será como o desenho de uma indústria", diz Roscoe. "Não tem a preocupação de exaltar a arquitetura, é só uma estrutura para o trabalho, já que o foco não deve ser o prédio."

Posted by Cecília Bedê at 2:06 PM

Lisette Lagnado será curadora do próximo Panorama do MAM por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Lisette Lagnado será curadora do próximo Panorama do MAM

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 24 de agosto de 2012.

Lisette Lagnado será a curadora do próximo Panorama da Arte Brasileira, tradicional mostra bienal em que o Museu de Arte Moderna destaca artistas emergentes do cenário nacional. Marcada para outubro do ano que vem, a 33ª edição da mostra deverá partir da história da exposição, que lançou nomes de peso no país.

"Há conquistas institucionais que a gente não pode desprezar de uma edição para outra", diz Lagnado, que esteve à frente da 27ª Bienal de São Paulo em 2006 e agora se prepara para assumir outra mostra em grande escala. "O que eu vou formular vai sair de uma reflexão sobre o Panorama."

Lagnado foi confirmada para o posto no início desta semana. Nesta quinta (23), o MAM fez uma festa para arrecadar fundos na tentativa de bancar a próxima edição sem recorrer a leis de incentivo, garantindo R$ 760 mil com os ingressos vendidos e doações espontâneas.

Embora não tenha um projeto esboçado ou conceito já definido, Lagnado diz que está pesquisando as edições passadas da mostra. Ela não descarta, por exemplo, incluir artistas estrangeiros, uma decisão que causou polêmica na edição de 2009, quando Adriano Pedrosa, curador daquela edição, escalou nomes de fora que tratavam conceitos de brasilidade em suas obras.

Em entrevista à Folha, Lagnado também adiantou que pretende incluir artistas jovens que vem acompanhando no próximo Panorama. "Tenho alguns desejos, entre eles o de incluir artistas mais jovens, gostaria que eles estivessem lá", diz a curadora. "Não posso pôr os artistas antes do conceito, nem o conceito antes dos artistas, preciso calibrar isso ainda, mas sei que não estou com vontade de fazer um Panorama com nomes consagrados."

Posted by Cecília Bedê at 1:56 PM

agosto 24, 2012

O choque do encontro por Paula Alzugaray, Istoé

O choque do encontro

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada no caderno de Artes Visuais da revista Istoé em 17 de agosto de 2012.

Mostra de arte digital promove aproximação entre ciência de ponta e ciência de garagem

No princípio, havia a fotografia em branco e preto, a máquina jukebox, o cinema novo, as bombas de fabricação caseira. Hoje proliferam projeções controladas por computadores, manipulações digitais, vídeos no YouTube, a militarização da vida cotidiana.

Mas, entre esses dois tempos tecnológicos, entre o low e o hi-tech, despontam as tecnofagias. De acordo com a 3ª Mostra 3M de Arte Digital, a tecnofagia acontece quando a ciência de ponta encontra a ciência de garagem, ou quando o virtual se depara com o real.

A tecnofagia acontece quando o fotógrafo Cássio Vasconcellos realiza uma série de imagens aéreas de caminhões de verduras do Ceasa paulista e produz uma fotomontagem de precisão que quer alcançar uma nova realidade fantástica. É também quando a videoartista Lea van Steen arquiva sua coleção de vídeos caseiros em uma daquelas antigas máquinas de músicas que ficavam em lanchonetes e inventa um sistema de projeção que transforma o banal em extraordinário. Ou quando o artista Arthur Omar compila a sua série antológica “Antropologia da Face Gloriosa” (1973-1997) e reedita o trabalho em versão digital. “Com a pele cromática aplicada à imagem original em preto e branco, este é mais um capítulo do desenvolvimento exploratório da face”, explica Arthur Omar.

Tecnofagias também são geradas na revisitação da fotografia primitiva, por Dirceu Maués, que acoplou uma câmera pinhole artesanal ao guidão de uma bicicleta. O movimento do pedal aciona o giro da bobina e o registro da paisagem em uma espécie de fotografia fílmica. Estética que se faz presente nas entranhas expostas da escultura móvel eletrônica de Rafael Marchetti, feita de canos conduítes de plástico e cabos de aço que se agitam como velas de barcos, sensíveis à movimentação do público. O termo se refere ainda aos processos ao mesmo tempo rudes e sofisticados. Como a máquina trituradora de e-lixo, de Lucas Bambozzi, que atua entre as mídias vivas e as mortas, movida a estímulos do campo eletromagnético produzido pelo uso de celulares dos visitantes da exposição.

“Tomei Glauber Rocha como o grande modelo tecnofágico dessa exposição”, afirma a curadora e midiartista Giselle Beiguelman, editora-chefe da revista “seLecT”. “Glauber e sua iluminação zenital do sertão. Aquela é uma estética que não conjuga com a ideia de um Brasil precário e não nega a cultura de massa contemporânea”, completa ela. Tecnofogia é Glauber, é carnaval, praia e é vida digital.

Posted by Marília Sales at 9:24 AM

agosto 23, 2012

Mostra relembra a obra de Lygia Clark por Camila Molina, Estadão

Mostra relembra a obra de Lygia Clark

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno Cultura do jornal Estadão em 22 de agosto de 2012.

Lygia Clark: uma Retrospectiva no Itaú Cultural - 02/09/2012 a 11/11/2012

Itaú Cultural vai inaugurar a exposição 'Lygia Clark: Uma Retrospectiva' no dia 1.º de setembro

Nos diários e textos deixados por Lygia Clark (1920-1988), há uma série de projetos nunca realizados pela artista. Um deles é Filme Sensorial, proposição, na década de 1960, de uma obra cinematográfica a ser feita não com o uso de imagens em película, mas apenas com os sons que narrariam cerca de 5 minutos dos movimentos mais banais da vida de uma pessoa anônima.

Outro ainda, O Homem no Centro dos Acontecimentos, não parece genial para os dias de hoje, mas concebido entre 1967 e 68 queria colocar a simultaneidade de visões de um mesmo fato por meio de um performer que pudesse registrar seu passeio utilizando-se de um capacete com quatro câmeras.

Tão celebrada criadora, no Brasil e no exterior, Lygia Clark é fundamental na historiografia brasileira. Fazer uma retrospectiva, hoje, de sua obra é um desafio depois de várias outras mostras já terem sido dedicadas a ela. Os curadores da exposição que o Itaú Cultural inaugura no dia 1.º de setembro como antologia da obra da artista teriam de se valer de um diferencial - no caso, do ineditismo, ainda, na produção de uma experimentadora.

"Não dá mais para reinventar a roda, essa seria uma outra oportunidade de ver uma retrospectiva de Lygia Clark agora", diz Felipe Scovino, de 34 anos, que assina a curadoria da exposição do Itaú Cultural ao lado do experiente Paulo Sergio Duarte.

A mostra, com cerca de 140 obras (entre elas, 45 réplicas manuseáveis de suas famosas e valiosas esculturas Bichos e de seus Objetos Sensoriais) criadas pela artista desde suas pinturas da década de 1950 até seus mais radicais trabalhos participativos, que colocaram na vertente artística motivações de fundo psicanalítico e físico, tem também como destaque a produção de obras inéditas de Lygia relacionadas ao cinema e à arquitetura.

Os dois filmes já citados, além das criações com ímãs, como a instalação Campo de Minas e Cintos Diálogos, ambos de 1967-68, foram produzidos pela primeira vez, seguindo as instruções escritas pela artista. Há também Arquitetura Fantástica (1960), em 3D, como a Casa do Poeta (1964) - projeto de residência com paredes móveis - e Maquete para Interior (1955).

O caráter inédito da atual retrospectiva, que reitera as "ideias visionárias" da artista, somente foi possível por meio da parceria realizada entre o Itaú Cultural e a Associação Cultural "O Mundo de Lygia Clark", presidida por seu filho, Álvaro Clark, e que tem projetos especiais dirigidos por sua neta, a designer Alessandra Clark. Detentora dos direitos autorais sobre a produção da artista, a entidade, criada em 2001, já proibiu iniciativas relacionadas a Lygia Clark.

A instituição detém ainda os escritos da criadora, material que vem passando por processo de digitalização para o acesso público. "Ficamos surpresos quando tivemos contato com seus projetos inéditos e há outros nos diários dela", conta Scovino. "Optamos por executar os mais bem resolvidos", diz a neta de Lygia. O Itaú Cultural e a associação da família da artista firmaram parceria, de longo prazo, de criação de um Museu Virtual que poderá ser acessado pela internet. "Vamos também fazer um documentário sobre a Lygia, mas o diretor ainda não foi definido", conta o diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron.

A exposição, que fica em cartaz até novembro, é um dos destaques das mostras paralelas na cidade durante a 30.ª Bienal de São Paulo, a ser inaugurada para o público em 7 de setembro. Antecede, também, a grande retrospectiva de Lygia Clark que o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York vem preparando, com previsão de ser apresentada a partir de maio de 2014 na cidade americana. Com curadoria de Luis Pérez-Oramas (atual curador-geral da 30.ª Bienal) e de Connie Butler, ambos do MoMA, a mostra também é feita em parceria com a Associação Cultural "O Mundo de Lygia Clark", afirma Alessandra.

"Até que ponto o lúdico avança no trabalho da artista de maneira poderosa e transforma o espectador em participante é um tema caro para nós", diz Felipe Scovino sobre a concepção da atual retrospectiva, sem caráter cronológico. Nesse sentido, a instalação A Casa É o Corpo, de 1968, torna-se uma das criações pontuais de Lygia Clark na mostra - é uma obra "metafórica sobre a ideia de nascimento", descreve o curador, formada por compartimentos ligados por um túnel, um labirinto para promover "experiência tátil, fantasmática e simbólica da interioridade do corpo", já definiu a artista.

A relação entre "mente e corpo" é fundamental na obra de uma criadora que constituiu os "estágios da contemporaneidade" - e "anteviu o estágio da pós-modernidade", diz Scovino -, mas é um grande destaque da mostra reunir também um número significativo de suas pinturas e estudos (muitos nas mãos de colecionadores particulares) que apresentam radicalidade e raiz construtiva em séries como Planos em Superfície Modulada, dos anos 50.

LYGIA CLARK: UMA RETROSPECTIVA
Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 2168-1776. 3ª a 6ª, 9 h/ 20 h; sáb. e dom., 11 h/ 20 h. Grátis. Até 11/11. Abertura dia 1º/9.

Posted by Marília Sales at 2:49 PM

MAM banca mostra com balada psicodélica hoje por Silas Martí, Folha de S. Paulo

MAM banca mostra com balada psicodélica hoje

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 23 de agosto de 2012.

Museu de SP chamou a dupla de artistas Avaf para decorar festa beneficente

Evento que já rendeu R$ 760 mil à instituição serve para financiar o próximo Panorama da Arte Brasileira, em 2013

Desmontada a mostra de gravuras soturnas de Oswaldo Goeldi (1895-1961), uma invasão de cores psicodélicas vai tomar o Museu de Arte Moderna de São Paulo para uma festa hoje à noite.

Quem se lembra do encerramento da Bienal de São Paulo, a poucos metros dali, em 2008, vai sentir um gostinho de "déjà-vu", já que é a mesma dupla de artistas, Eli Sudbrack e Christophe Hamaide Pierson, do Avaf, que comanda o visual da pista.

Mas a festa tem motivo para além do hedonismo que marca o trabalho da dupla, que já levou um carro alegórico, travestis sambando e frutas gigantes à Bienal.

Na tentativa de garantir verbas para a edição 2013 do tradicional Panorama da Arte Brasileira, mostra bienal que o museu faz para destacar artistas emergentes na cena nacional, a festa já vendeu 600 convites a R$ 1.000 e teve uma doação direta de outros R$ 160 mil -estratégia que instituições gigantes como o MoMA, em Nova York, já usam há algum tempo.

"Essa festa do MAM é bem ambiciosa, quase uma exposição numa noite só", conta Sudbrack à Folha. "Eles me convidaram para fazer todo o 'décor', digamos assim."

TRAVESTIS CICLOPES

Nesse "décor", haverá um adesivo imenso colado de fora a fora na fachada de vidro do prédio, balões gigantes sobre a pista de dança, que vão receber projeções de vídeos do Avaf, painéis coloridos que serão leiloados depois da festa e -a cereja no bolo- uma projeção sobre uma lateral da Oca, o prédio-óvni de Niemeyer no Ibirapuera.

De longe, são motivos geométricos e cores abstratas, mas Sudbrack explica que a animação estampada sobre a Oca são travestis ciclopes que ele desenhou numa obra.

Chiara Banfi, artista que, como o Avaf, já participou de um Panorama, será a DJ da noite. Os convites dão direito a entrar na festa e também valem por um múltiplo de um dos sete criadores escalados para incrementar a soirée, entre eles Lucia Koch, Luiz Braga, Mônica Nador e Cabelo.

Foram as galerias desses artistas que bancaram a produção dos múltiplos, liberando toda a renda deles para os cofres do MAM, que já bateu a meta de R$ 700 mil para bancar o próximo Panorama.

"Existem outras festas para arrecadar recursos, não só no mundo da arte", diz Flávia Velloso, do núcleo contemporâneo do museu, que armou a balada. "Mas a novidade é chamar esses artistas para fazer obras-convite."

"É uma coisa comum no exterior os artistas se envolverem com o museu para financiar sua programação", diz Sudbrack.

Posted by Marília Sales at 2:40 PM

agosto 22, 2012

Marcelo Solá expõe em galeria no Rio até o dia 25 de agosto por Elisa Guimarães, O Fluminense

Marcelo Solá expõe em galeria no Rio até o dia 25 de agosto

Matéria de Elisa Guimarães originalmente publicada no jornal O Fluminense em 2 de agosto de 2012.

Marcelo Solá - Casa das Prima + Hidrolands Grafisch Atelier Chanterclayson / Dusted Souls, Luciana Caravello Arte Contemporânea, Rio de Janeiro, RJ - 03/08/2012 a 25/08/2012

Mostra, que estreia nesta quarta-feira, reúne 81 obras inéditas do artista plástico, que é conhecido por usar palavras e números em meio à imagem

Começa nesta quarta-feira, na galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea, a exposição Marcelo Solá – Casa das Prima + Hidrolands Grafisch Atelier Chanterclayson/Dusted Souls. A mostra conta com 31 obras inéditas do artista goiano Marcelo Solá, entre desenhos, pinturas e serigrafias de tamanhos diversos.

Voltado principalmente para o desenho, Marcelo utiliza em suas obras materiais como grafite, óleo, esmalte sintético e spray. Outra das principais características de seu trabalho é o uso de palavras e números em meio à imagem, estilo que o tornou um nome de destaque na arte contemporânea brasileira.

Nascido em 1971, Marcelo vive e trabalha em Goiânia. Sua relação com o desenho começou ainda na infância. Em 1990, com apenas 19 anos, conquistou o Prêmio de Viagem a Paris na II Bienal de Artes de Goiás. Em 1995, recebeu o Prêmio Aquisição no XV Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, foi a vez de São Paulo conhecer o trabalho de Solá: o artista participou do projeto Antártica Artes com a Folha, mostra paralela à XXIII Bienal de São Paulo.

Atualmente com 42 anos, Solá conta com 20 exposições individuais no currículo. O artista também participou de importantes mostras coletivas nacionais e internacionais, como a realizada em 2001 no Drawing Center, em Nova York, e a XXV Bienal Internacional de São Paulo.

A exposição fica em cartaz até o dia 25 de agosto. A Luciana Caravello fica na Rua Barão de Jaguaripe, 397, em Ipanema. Informações pelo telefone 2523-4696.

Posted by Patricia Canetti at 4:32 PM

agosto 21, 2012

Museu de Arte Contemporânea abre mostra com primeiras obras de seu acervo, Panorama Brasil

Museu de Arte Contemporânea abre mostra com primeiras obras de seu acervo

Matéria originalmente publicada no Panorama Brasil em 19 de agosto de 2012.

Pinturas e esculturas são a maioria das obras em exposição, que englobam uma série de técnicas

São Paulo

O Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo (USP) inaugura neste domingo (19) uma exposição que pretende reavaliar a sua própria história. A mostra Um Outro Acervo do MAC/USP trará obras que pertenciam ao antigo Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e foram transferidas para a criação do Museu de Arte Contemporânea, compondo seu acervo original.

Segundo a curadora da exposição, Ana Magalhães, a Divisão de Pesquisa do MAC tem uma preocupação fundamental: a pesquisa sobre o acervo da instituição. "Meu recorte dentro desta pesquisa sobre o histórico de formação do acervo é em cima do conjunto de obras modernistas. Portanto, estou lidando diretamente com a história do antigo MAM de São Paulo”, diz a curadora.

Em 1963, todo o acervo do MAM foi repassado à Universidade de São Paulo (USP) para formar a coleção inicial do MAC. Sem o acervo original e existindo apenas como nome, o MAM ficou à beira da extinção até 1967, quando Carlo Tamagni, então conselheiro da entidade, doou ao museu todo o seu acervo particular, com obras de artistas como Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Francisco Rebolo e Aldo Bonadei.

As obras que foram transferidas para o MAC e estarão em exposição a partir de sábado reúnem artistas como Robert Adams, Ralph Du Casse, Fritz Winter, Maria Martins, Émile Gilioli, Armando Moraes, Jose Luís Cuevas, Hans Fischer, Yozo Yamaguchi, e Juan Vilacasas, entre muitos outros. A mostra reúne 115 obras que, em sua maioria, chegaram ao MAM como prêmios da Bienal de São Paulo entre os anos de 1951 e 1963, e depois foram repassadas ao MAC.

“A mostra procura, primeiro, não trabalhar com a ideia de obra-prima. Não tem nenhuma obra ali que seja emblemática do período modernista. Ao contrário, é trabalhar com um universo de obras e nomes que são bem menos estudados. Também é pensar, pela primeira vez, não que o nosso acervo constrói a história da Bienal de São Paulo, mas que a Bienal de São Paulo é que construiu a história do nosso acervo modernista”, destacou Ana Magalhães.

Pinturas e esculturas são a maioria das obras em exposição, que englobam uma série de técnicas.

Posted by Marília Sales at 10:53 AM

Curador de Inhotim será responsável por espaço da Serpentine Gallery em Londres por Walter Sebastião, Uai

Curador de Inhotim será responsável por espaço da Serpentine Gallery em Londres

Matéria de Walter Sebastião originalmente publicada no caderno Divirta-se no jornal Uai em 19 de agosto de 2012

Um alemão radicado em Belo Horizonte vai dirigir a nova galeria dedicada à arte do século 21 em Londres: Jochen Volz, de 41 anos. Um dos curadores do Centro de Arte Inhotim, ele foi convidado para ser o curador chefe do espaço da Serpentine Gallery, local dedicado à arte moderna e contemporânea, que recebe, por ano, cerca de 800 mil visitantes. Avisa que não vai se afastar da casa que o consagrou e fala com carinho de Belo Horizonte. “Morei mais anos aqui do em qualquer outro lugar na minha vida”, observa. “Foi na cidade que me casei, tive dois filhos maravilhosos, fiz amigos muito especiais e consegui ajudar na construção de uma instituição que ganhou importância mundial”, acrescenta o marido da artista plástica Rivane Neueschenwander.

“O Brasil é um país com muitos artistas contemporâneos com os quais tive o privilégio de aprender muito”, afirma Jochen Volz, que vive e trabalha em BH desde 2004. Começou suas atividades profissionais em 2001, em galeria praticamente alternativa de Frankfurt, Alemanha: a Portikus, que se tornou espaço respeitado pelo trabalho com artistas novos e programação ousada. Foi diretor-geral, entre 2005 e 2007, de Inhotim e da equipe de curadores (com Allan Schwartzman, Rodrigo Moura, Júlia Rebouças), além de cocurador da Bienal de Veneza (2009). “A qualidade da arte não tem a ver com escala”, afirma, falando do que aprendeu atuando em espaços minúsculos e gigantescos.

Sobre Inhotim, Jochen recorda que é ideia do empresário Bernardo Paz que surgiu de conversa com artistas (“Tunga, no fim dos anos 1990, e Olafur Eliasson, a partir de 2005, entre outros”) a qual os curadores deram forma, estabelecendo conceitos, estratégias e um modo de trabalhar com arte. Que responde “ao maior desafio”, continua, posto aos museus: as limitações espaciais. “Espaço físico nas cidades é muito caro. E isso torna inviável a montagem permanente de grande quantidade de obras. Em Inhotim, criamos condições que permitem que obras complexas possam ser exibidas em salas e galerias especialmente desenhadas, em caráter permanente ou pelo menos com outra temporalidade”, orgulha-se. Confira trechos da entrevista do curador ao Estado de Minas.

O que faz a força e a beleza da arte contemporânea brasileira?
O motivo da minha aproximação com a arte brasileira sempre foi a arte em si, para além de questões de nacionalidade. Bons trabalhos são aqueles nos quais você reconhece uma questão, uma investigação com a qual compartilha. Admiro o pensamento menos linear ou menos quadrado, mais espiral. Gosto de arte e acredito na sua força transformadora. Acho que o estúdio do artista é um lugar de experimentação e reflexão crítica, da falha e da aprendizagem, de inovação. E de resistência. É lugar longe do pragmatismo que, cada vez mais, domina nosso mundo.

Qual é o papel do curador?
Arte é feita por artistas, e não por curadores. É atividade que se tornou complexa com a crescente profissionalização do mundo da arte, o número ascendente de bienais, as galerias comerciais assumindo responsabilidades que foram missões de museus e o poder dominante do patrocínio cultural corporativo. Curadoria hoje não significa apenas reunir obras em mostra, mas definir e defender um campo de expressão da liberdade artística. Isso inclui, às vezes, angariar fundos, identificar a localização ideal para um projeto dentro ou fora da instituição. Gosto de pensar que um curador ideal atua como um cúmplice, mas, essencialmente, o papel-chave continua com o artista.

Como vê o contexto de arte hoje no mundo?
Nos últimos 20 anos, artistas, obras, público e informações viajaram mais e mais rápido pelo mundo. Isso fez com que a divisão bipolar centro e periferia se dissolvesse. Embora cidades como Nova York, Londres ou Berlim ainda sejam atualmente centros ultraconcentrados de produção artística, a história eurocêntrica ou norte-americana da arte não se sustenta da mesma forma que há algumas décadas. Hoje, não é mais possível contar a história da arte de maneira simplista e linear. Em Inhotim, por exemplo, estamos interessados em diálogos entre obras e autores distintos, não numa narrativa cronológica.

Você tem alguma definição de arte?
A arte contemporânea é sempre concebida e realizada a partir de uma série de questões e incertezas do próprio artista. Como espectadores, experimentamos, por meio de algumas obras, a fabulosa sensação de reconhecer essas questões dentro de nós. Em outros casos, temos uma sensação tardia ou inexistente. Um ponto interessante é: se acreditamos verdadeiramente na arte, não devemos pensar também em novas formas de multiplicar métodos de aplicar a arte na vida das pessoas?

O que, no projeto Inhotim, lhe dá muita satisfação?
É ter participado na criação de instituição que, de fato, modificou a vida e as perspectivas de vida dos jovens da nossa vizinhança. Observar isso, depois de oito anos de trabalho educativo a partir dos acervos, me dá muita alegria. Meu papel, quando fui diretor, foi trabalhar na formação de corpo técnico e administrativo que desenvolve programas e atua na sociedade. Inhotim é um projeto de vida, sei que ainda tenho muito mais a dar. Mas entendo também que é importante ganhar outras experiências fora da instituição e do Brasil, que futuramente podem ajudar Inhotim a fortalecer seu lugar único no cenário internacional de instituições de cultura, educação e ciências.

Como vê o encanto do público por obras consideradas difíceis?
Inhotim quebra preconceito sobre arte contemporânea, que diz que ela é elitista, por cobrar leitura para ser entendida. Nosso público demonstra o contrário. Encontramos e desenvolvemos forma de expor arte que vive da experiência do espectador. Subindo e descendo morros, caminhando por mata e em volta de lagos, entrando e tocando em obras, se perdendo no parque, ele encontra caminhos e obras por conta própria. Isso torna o espectador parte ativa na construção da obra. Todos os sentidos são envolvidos. Não há necessidade de saber muito sobre trajetória de um artista para viver experiência frente à obra exposta em floresta de eucaliptos. Sensibilizado pelo passeio, quase todo visitante encontra aspecto na obra que se torna relevante num sentido muito pessoal.

***

Nova diretora

Quem assume a Diretoria de Arte e Programação de Inhotim é a coreana Eungie Joo. Ela atuou como diretora de programas educativos e públicos do New Museum, casa dedicada à arte contemporânea de Nova York (EUA). Para Allan Schwartzman, curador chefe de Inhotim, a experiência organizacional e “a singular perspectiva curatorial de Eungie” fazem dela colaboradora ideal para instituição que tem forma muito específica de colecionar e apresentar a arte. A curadora tem doutorado em estudos étnicos, na Universidade da Califórnia, de Berkeley (EUA).

Posted by Marília Sales at 10:33 AM

agosto 17, 2012

Colecionador confirma perdas de Di Cavalcanti e Guignard em incêndio por Fabio Brizolla, Folha de S. Paulo

Colecionador confirma perdas de Di Cavalcanti e Guignard em incêndio

Matéria de Fabio Brizolla originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de agosto de 2012.

Visivelmente abalado, o colecionador e marchand Jean Boghici falou no início da tarde desta terça-feira (14) sobre o incêndio em seu apartamento de Copacabana, que destruiu parte de um acervo formado ao longo de 50 anos.

Incêndio destrói apartamento com coleção de arte valiosa
Pintura "Samba", de Di Cavalcanti, foi destruída em incêndio no Rio

"Muita coisa se salvou, outra parte queimou. O que posso fazer? É uma fatalidade", disse Boghici, na portaria do edifício na rua Barata Ribeiro, ao lado de sua mulher, Geneviève.

Boghici confirmou a perda de duas obras significativas: "Samba", de Di Cavalcanti, e "A Floresta", de Alberto Guignard.

"Estou com sentimento de raiva e de vingança. Vou me vingar fazendo uma bela exposição no Museu de Arte Do Rio (MAR)", disse o colecionador, que lamentou também a morte de seu gato de estimação.

O curador Leonel Kaz confirmou a realização da exposição com obras do acervo de Boghiti no MAR, previsto para inaugurar em novembro.

"O que se perdeu de Antonio Dias será substituído por Antonio Dias. O que se perdeu de Guignard será substituído por Guignard. É isso que vamos tentar fazer", afirmou Kaz.

O INCÊNDIO

O incêndio ocorrido na noite de segunda na cobertura do marchand e colecionador Jean Boghici deixou em estado de alerta o mercado de arte brasileiro.

Nascido na Romênia, Boghici, 84, desembarcou no Rio, em 1949, e virou uma referência no mercado de arte da cidade, como galerista e colecionador.

Dono de uma galeria em Ipanema, ele mantinha em seu apartamento um acervo com pinturas de Tarsila do Amaral, Milton Dacosta, Cícero Dias, o quadro "Samba" de Di Cavalcanti, e outras dezenas de obras emblemáticas, brasileiras e estrangeiras.

Diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, Jones Bergamin classifica o acervo de Boghici como "a mais valiosa coleção particular de arte brasileira".

Posted by Marília Sales at 12:08 PM

Análise: É possível reduzir riscos para manter obras de arte por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Análise: É possível reduzir riscos para manter obras de arte

Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 15 de agosto de 2012.

E as chamas levaram "Samba", obra realizada depois da fundamental viagem de Di Cavalcanti a Paris e três anos após a Semana de Arte Moderna --evento que nasceu, aliás, de uma ideia do pintor.

'Samba' era obra mais 'poderosa' do modernismo, diz curador
Fogo destrói parte de coleção de arte moderna no Rio

Esse exemplo vigoroso do esforço modernista de configurar uma expressão nacional na arte apareceu num tempo em que as peripécias mais radicais e incomunicáveis das vanguardas eram "corrigidas" por uma onda que se convencionou chamar de "retorno à ordem".

O movimento que revalorizava a figura vinha a calhar para os modernistas interessados em delinear uma temática "nossa". No caso de Di tratava-se de representar o homem, ou a mulher brasileira negra e miscigenada, no contexto da cultura popular.

Para alguns, uma obra-prima como "Samba" não poderia estar em outro lugar que não um museu ou uma instituição pública. Dessa forma estaria mais protegida e acessível ao público.

Embora nem sempre nossos museus mostrem regularmente as preciosidades que possuem, é presumível que, se estivesse num deles, a tela "Samba" poderia ser mais vista. Quanto a ficar mais protegida, já não parece tão certo.

A maior parte da obra do grande artista uruguaio Torres-García foi destruída pelo fogo no Museu de Arte Moderna do Rio. E incêndios em museus, mesmo em países ricos e que dão mais valor a seu patrimônio do que o Brasil, também acontecem.

Diante da tragédia, não é incomum o apelo desesperado a alguma instância salvadora que poderia evitá-la. Pode ser uma divindade qualquer ou o Estado. Não parece razoável, contudo, que o Estado simplesmente "tombe" ou sequestre obras de pessoas que as adquiriram, sob o argumento de que irá cuidar melhor do patrimônio.

Em tese, colecionadores privados são os maiores interessados em manter suas peças em boas condições. Se nem sempre o fazem, é de fato um problema.

Outras soluções podem ser imaginadas. Por exemplo: não seria impossível para um órgão público ou privado mapear obras cruciais como "Samba", entrar em contato com os donos e compartilhar projetos de segurança. É sempre possível reduzir riscos, e tudo deve ser feito nesse sentido. Nada, porém, impedirá que fatalidades continuem a acontecer.

Posted by Marília Sales at 12:02 PM

Marchand tenta restaurar telas queimadas por Fabio Brizolla, Folha de S. Paulo

Marchand tenta restaurar telas queimadas

Matéria de Fabio Brizolla originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 16 de agosto de 2012.

O colecionador Jean Boghici já identificou as principais perdas causadas pelo incêndio que atingiu seu apartamento na última segunda.

Além de "Samba" (1925), de Di Cavalcanti, e "Floresta Tropical" (1938), de Alberto da Veiga Guignard, outra obra emblemática da arte do país foi consumida pelo fogo: a pintura "A Mulher e o Galgo", produzida por Vicente do Rego Monteiro em 1925.

A lista do patrimônio nacional destruído inclui ainda a pintura "A Leitura" (1914), de Lasar Segall, e ao menos duas das cerca de 40 obras de Antonio Dias que o colecionador tinha -ele foi um dos maiores incentivadores da carreira do pintor paraibano.

"Não conversei com o Jean diretamente, mas soube por uma pessoa que esteve lá que alguns dos meus trabalhos queimaram", disse Dias. "Um deles é um dos premiados da Bienal de Paris de 1965."

Do catálogo estrangeiro, duas perdas se destacam: uma tela de 1931 do uruguaio Joaquín Torres-García e uma paisagem rural do Rio do francês Nicolas Antoine Taunay do início do século 19.

Há ainda obras atingidas por fuligem, em estado crítico: um quadro de Ismael Nery, três telas de Alfredo Volpi (uma delas intitulada "Amendoeira") e uma segunda pintura de Lasar Segall.

"Técnicos em restauração estão no apartamento avaliando se existe possibilidade de recuperar essas obras", disse Leonel Kaz, responsável pela mostra do acervo de Jean Boghici programada para inaugurar o Museu de Arte do Rio, em novembro.

Kaz acrescentou que 15 das 150 obras da mostra foram atingidas pelo incêndio.

As marcas na sala de estar da cobertura de Boghici, em Copacabana, mostram que as chamas atingiram principalmente o teto e partes altas das paredes. Por isso, muitas obras que estavam mais perto do chão, assim como os móveis do designer Joaquim Tenreiro, ficaram intactos.

Os dois quartos, um usado pelo casal Boghici e outro por sua filha, Sabine, foram mais castigados pelas chamas.

Entre as peças preservadas estão obras de Wassily Kandinsky e do italiano Alberto Burri, três telas de Tarsila do Amaral, uma pintura abstrata do holandês Karel Appel, a escultura "O Beijo", de Rodin, entre outras relíquias.

Um móbile de Alexander Calder, pendurado no teto da sala de estar, caiu no chão quando o incêndio começou, e assim se salvou.

Posted by Marília Sales at 11:57 AM

Maior perda, para casal Boghici, foi a morte de gatos por Cristina Grillo, Folha de S. Paulo

Maior perda, para casal Boghici, foi a morte de gatos

Matéria de Cristina Grillo originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 16 de agosto de 2012.

Para o casal Jean e Geneviève Boghici, que teve parte de sua coleção de arte destruída durante o incêndio na cobertura em que viviam em Copacabana, na segunda à noite, as duas maiores perdas se chamavam Pretinha e Meu Amor.

Marchand tenta restaurar telas queimadas

As duas gatinhas, recolhidas na rua há muitos anos por Jean e Geneviève, "moravam" no quarto do casal. Elas não costumavam circular pela cobertura e dormiam à noite aos pés da cama dos colecionadores.

"Foi o pior de tudo. Perdemos nossas gatinhas prediletas", contou Geneviève à Folha, com a voz embargada.

Segundo ela, o fogo aumentou muito rapidamente. As duas gatas ficaram acuadas no quarto e não houve como resgatá-las.

Outros 12 gatos e dois cachorros que viviam na cobertura do casal foram retirados do incêndio ilesos. "Tivemos tempo de salvar os outros, mas perder Pretinha e Meu Amor foi horrível", disse Geneviève.

Posted by Marília Sales at 11:47 AM

Arte digital invade Instituto Tomie Ohtake até setembro, Panorama Brasil

Arte digital invade Instituto Tomie Ohtake até setembro

Matéria originalmente publicada no Panorama Brasil em 14 de agosto de 2012.

A 3ª Mostra 3M de Arte Digital apresenta um projeto especial, Praia de Paulista, e 15 obras concebidas por artistas de diferentes gerações e vários Estados

Pela primeira vez, o evento realizado pela 3M do Brasil acontece no Instituto Tomie Ohtake. Nesta terceira edição, a mostra, com curadoria de Giselle Beiguelman, tem como eixo conceitual as Tecnofagias e destaca as relações entre a ciência de ponta e a ciência de garagem, ou a combinação entre o low e high tec, que marcam a produção nacional.

A 3ª Mostra 3M de Arte Digital apresenta um projeto especial, Praia de Paulista, e 15 obras – a maioria inédita em São Paulo, algumas especialmente desenvolvidas para o evento e outras com versões atualizadas –, concebidas por artistas (individuais, duos e coletivos) de diferentes gerações e vários Estados. “O grupo, composto apenas por brasileiros, é, em síntese, um conjunto de criadores que celebram as possibilidades em aberto do século 21, ocupando o espaço expositivo por meio de obras, oficinas e ações que devoram as tecnologias para devolvê-las ao coletivo como projetos de uma nova estética e um outro modo de vida”, afirma Beiguelman.

Uma obra emblemática do pensamento curatorial da 3ª Mostra 3M de Arte de Digital é o trabalho desenvolvido pelo coletivo Gambiologia. Por meio de oficinas com um grupo de jovens que atuam no CCJ - Centro Cultural da Juventude, na periferia de São Paulo, foi concebida em co-autoria a Random Gambièrre Machine, um híbrido de instalação e máquina que “executa uma tarefa simples de uma maneira extremamente complexa, geralmente utilizando uma reação em cadeia”. A obra é um painel interativo construído exclusivamente com objetos resgatados de ferros velhos e coleções, equipados com eletrônicos e gambiarras.

Já o Grupo Poéticas Digitais estabelece um jogo entre a natureza e o urbano em Amoreiras, 2010. Expostas do lado externo e voltadas para a rua, cinco pequenas árvores plantadas em grandes vasos captam os diversos fatores da poluição, por meio de um sistema que mede as variações e discrepâncias de ruídos, e reage aos diversos poluentes e poluidores, balançando os ramos das amoreiras.

Outro trabalho que parte do familiar, do doméstico, para buscar o inesperado, o excepcional, conforme aponta a curadora, é o de Lea Van Steen. Na versão atualizada de Jukebox, 2011, o público escolhe um vídeo, em estética que lembra o cardápio trivial transmitido pelo Vimeo e YouTube, a partir de uma Jukebox. As imagens são projetadas em um globo estroboscópico, de casas noturnas antigas, que fragmenta a seqüência escolhida, multiplicando pelo espaço as cenas - pequenos acidentes cotidianos, surpresas latentes nos mínimos detalhes.

Também nessa direção está o trabalho de Martha Gabriel que a partir dos trending topics do Twitter, criou a sua Crystal Ball, 2009-12. Na Crystal Ball, as 10 trending topics do momento são traduzidas em imagens via Google Images, ou seja, a própria rede se interpreta e resulta nas imagens que aparecem na bola de cristal.

Em muitas obras o corpo do visitante protagoniza a experiência artística, como a escultura móvel eletrônica inédita de Rafael Marchetti, in_existences-out, 2012 (instalação mecatrônica). Uma estrutura feita de 6 canos de conduítes contendo, no interior, cabos de aço ligados a motores independentes de rotação constroem um robô interativo que se movimenta conforme a variação ambiental, em relação ao público, ao ar e à temperatura. O trabalho da dupla Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti Espelho, 2008, também reage à presença do espectador. Fixo à parede, esse espelho, dispositivo ótico com um campo sensório está programado para medir e reagir, a todo o tempo, a distância que o sujeito está dele. É como se ao invés de olharmos para o espelho, ele nos perseguisse, procurando diluir nossa imagem.

Outra obra que tem o corpo como parte ativa do processo é a instalação sonora X.Y.Z., 2011, de Raquel Kogan, nunca apresentada em São Paulo, que transforma altura, peso e frequência cardíaca do visitante em sonoridades. A pulsação da música é determinada pela frequência cardíaca, a tonalidade de cada fragmento é determinada pela altura, e o timbre pelo peso. É também pelo som que Jarbas Jacome concebeu a instalação Crepúsculo dos Ídolos, 2012. Em um ambiente com cinco televisores ligados em um canal de TV aberta, uma câmera e um microfone, a imagem das TVs distorce de acordo com a intensidade e o tempo de duração do som produzido pelo visitante. As distorções evoluem seguindo algumas cores do crepúsculo: amarelo, laranja, vermelho, azul, até que a imagem do sujeito que interage apareça projetada na cena que estiver no ar, naquele momento.

Ressalta a curadora a figura de Glauber Rocha como pioneira na forma singular de pensar as possibilidades estéticas a partir dos embates entre a tecnologia e os contextos precários. Nesta exposição, a Cia de Foto reverencia o mestre do Cinema Novo, apresentando um ensaio fotográfico e textual inédito, a partir do filme Terra em Transe, 1967. País Interior, 2012, é um ensaio multimídia que reúne imagens feitas a partir dos próprios fotogramas da película, entremeados por textos que cruzam extratos do roteiro a ensaios sobre fotografia e estética, além de áudios distorcidos e retrabalhados do filme. A partir desse conjunto, outra história se revela.

A experiência seminal da fotografia e do vídeo é resgatada e renovada na obra de Dirceu Maués em Extremo Horizonte, 2012, uma panorâmica feita com pinhole criada especialmente para a mostra. O artista cria câmeras artesanais para produzir suas imagens que depois são digitalizadas e editadas em vídeo. Para a Mostra 3M, apresenta, além das panorâmicas, o conjunto de suas câmeras artesanais, uma série de vídeos feitos com caixas de fósforo, inédita em São Paulo. Com duas imagens em grandes dimensões produzidas em 2012 – Ceasa e Aeroporto –, a fotografia de Cássio Vasconcellos também integra a mostra. Os dois trabalhos, resultado de sucessivas capturas aéreas e inúmeras operações de manipulação digital, revelam paisagens incrivelmente reais, tal sua paradoxal precisão e impossibilidade.

Já em Pele Mecânica, versão 2012, Arthur Omar lança mão de cinco projetores controlados por cinco computadores e programação de WatchOut para realizar a sua instalação multimídia em formato circular. A partir da série fotográfica já clássica do artista, Antropologia da Face Gloriosa, em preto e branco, são criadas mais de 3000 variações cromáticas. A coleção se torna processo e matéria para novas séries de figurações, abstrações e devires que atravessam diferentes fases e estilos da história da arte.

Experiência sensível que se utiliza de alta tecnologia consiste também a obra de Jane de Almeida. Em sua instalação audiovisual EstéreosEnsaios, 2012, a artista explora imagens em ultra-definição (4K) e retrata o Rio de Janeiro em cinema 3D. Na projeção estereoscópica do filme, a resolução chega a 20 milhões de pixels por frame na tela, somadas às imagens correspondentes aos olhos esquerdo e direito.

Por sua vez, o videoartista Lucas Bambozzi em Das Coisas Quebradas, 2012 (máquina de consolidação de obsolescência a partir de campos eletromagnéticos), constrói, especialmente para a mostra, uma instalação que devora antigos aparelhos celulares e funciona a partir da leitura do campo eletromagnético no espaço. O sistema se acelera ou diminui conforme o uso de celular do público no ambiente. Além de despertar sentimentos ambíguos e contraditórios em relação ao uso de certas tecnologias, o trabalho faz refletir sobre o lixo eletrônico e os impasses da obsolescência programada. Já Gisella Motta e Leonardo Lima apresentam I.E.D. (Improvised Explosive Device, 2008) uma bomba caseira feita de lixo doméstico que opera uma crítica sutil e forte à banalidade da militarização do cotidiano.

Completa a exposição o projeto especial Praia de Paulista, que acontecerá dias 17 e 31 de agosto, às 18h, na parte externa do Instituto Tomie Ohtake. Aproveitando as ondas do edifício, e em cadeiras de praia, o público poderá assistir a remixes de Terra em Transe e outros filmes de Glauber Rocha, feito pela Cia de Foto, a crítica de cinema Ivana Bentes e convidados. Conversas, pipoca e cervejinha no final.

“A proposta desta 3ª Mostra 3M de Arte Digital reúne ideias surpreendentes, com grande conexão com o universo de inovação que permeia a cultura da 3M. Acreditamos que o público vai gostar muito, pois terá a oportunidade de apreciar obras que estimulam a criatividade e combinam inesperadamente a alta tecnologia com elementos do cotidiano apostando sempre na interatividade da arte com o público e o ambiente. Reforçamos, por meio deste patrocínio cultural, nosso apoio à criatividade e inovação e para a disseminação da cultura, conhecimento e lazer, fatores importantes para o desenvolvimento social e cultural da população”, comenta Luiz Eduardo Serafim, gerente de Marketing Corporativo da 3M do Brasil.

Serviço:

3ª Mostra 3M de Arte Digital; Instituto Tomie Ohtake; Avenida Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo; De 15 de agosto a 16 de setembro; das 11h às 20h; Informações: (11) 2245-1900.

Posted by Marília Sales at 11:39 AM

Mulheres dominam o cenário curatorial por Juliana Monachesi, Revista Select

Mulheres dominam o cenário curatorial

Matéria de Juliana Monachesi originalmente publicada na Revista Select em 14 de agosto de 2012.

Depois de Bice Curiger em Veneza (2011) e Carolyn Christov-Bakargiev em Kassel (2012), Porto Alegre acolhe uma curadora mexicana

Sofía Hernandez Chong Cuy é anunciada curadora-geral da 9ª Bienal do Mercosul

A Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul anunciou na segunda-feira a equipe curatorial da próxima edição da bienal de Porto Alegre. Com curadoria-geral da mexicana Sofía Hernandez Chong Cuy, os curadores brasileiros Mônica Hoff, Bernardo de Souza e Julia Rebouças trabalharão junto de outros três curadores internacionais, Raimundas Malašauskas (Lituânia), Sarah Demeuse (Bélgica) e Daniela Pérez (México). Também integra a equipe o conselheiro pedagógico Dominic Willsdon (Reino Unido).

O foco da proposta curatorial para a 9ª edição da Bienal do Mercosul, que acontece de setembro a novembro de 2013, será a interação entre natureza e cultura, explorando as causas e os fenômenos naturais que impulsionam viagens e deslocamento humano, avanço tecnológico e desenvolvimento mundial, além das expansões verticais no espaço e explorações transversais ao longo do tempo. Sob essa ótica, os artistas serão considerados nos papéis de colaborador, mediador ou exilado.

Está prevista a participação de cerca de 90 artistas de diversos países - considerados no projeto como "visionários do passado, do presente e do futuro". Os espaços onde ocorrerá a mostra, incluídos na carta de intenções da curadora mexicana (leia a seguir), são Usina do Gasômetro, Santander Cultural, MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo. Fica a pergunta acerca dos tradicionais galpões do Cais do Porto: serão excluídos nesta edição?

Promessas: Declaração da Curadoria
Sofía Hernandez Chong Cuy

A proposta curatorial para a 9ª Bienal do Mercosul foca conceitualmente na interação entre natureza e cultura, e os modos como os artistas visuais referem-se ao desconhecido, ao imprevisível e aos fenômenos aparentemente incontroláveis. A curadoria empenha-se em considerar as causas naturais e os efeitos que impulsionam a viagem humana e o deslocamento social, o avanço tecnológico e o desenvolvimento do mundo, as expansões verticais no espaço e as explorações transversais através do tempo. Isso envolve o olhar sobre os efeitos que esses movimentos impõem, suas influências e manifestações, abrangendo moradia, mineração, investigação e exploração daquilo que está acima e abaixo das esferas sociais.

A promessa é articular questões ontológicas e tecnológicas através da prática artística, da criação de objetos e dos elos de experiência.

Os artistas convidados a participar da 9ª Bienal do Mercosul são considerados visionários do passado, presente e futuro. Assim sendo, a proposta curatorial está organizada em três abordagens que analisam as práticas artísticas. Essas aproximações consideram a figura do artista e intelectual como um colaborador, um mediador ou um exilado. Em cada abordagem, eles são vistos como produtores: criadores de imagens, objetos, histórias e situações, e também de tempo e de espaço e, em alguns casos, de definitivamente nada. Como um enfoque abertamente contingente aos distúrbios atmosféricos, esse processo envolve diálogos constantes sobre o que é imaginário e o que é real, o que é visto e o que é invisível, o que é imperceptível e o que é palpável.

A promessa é identificar, propor e repropor sistemas de crenças mutáveis, bem como analisar inovações.

As exposições e programas da 9ª Bienal do Mercosul estão focados nas culturas de trabalho existentes e imaginadas – incluindo aspectos de isolamento e abertura, assim como de privacidade ou publicidade – em processos que envolvem a experimentação da arte e da tecnologia. De forma semelhante, convergem o olhar para a apresentação de mecanismos e ambientes espaciais nos quais insights e descobertas são criados e
compartilhados publicamente. Além de avaliar processos, as exposições valorizam as iniciativas sustentáveis e também admitem a entropia iminente. Ao fazê-lo, a curadoria aborda arte e ideias como portais, ferramentas e provocações – tanto funcionais quanto inúteis – à experiência de manifestações culturais e naturais possivelmente ainda não reconhecidas.

A promessa é descobrir recursos naturais e materiais culturais sob uma nova ótica, especulando as bases que têm marcado as distinções entre a descoberta e a invenção.

Posted by Marília Sales at 11:26 AM

Menos romantismo, mais mercado por Adriana Martins, Diario do Nordeste

Menos romantismo, mais mercado

Matéria de Adriana Martins originalmente publicada no Caderno 3 do Diário do Nordeste em 17 de agosto de 2012.

A gestora cultural Ana Letícia Fialho realiza hoje palestra e workshop sobre negócios da arte

Como parte do Programa Negócios da Cultura, iniciado em abril passado e mantido pelo Banco do Nordeste em parceria com o Sebrae, será realizado hoje, no Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza, workshop e palestras gratuitos com o tema "Negócios da arte contemporânea", ministrados pela advogada, gestora cultural e pesquisadora Ana Letícia Fialho.

Fachada do Centro Cultural Banco do Nordeste, onde acontece palestra e workshop sobre o mercado de arte contemporânea Foto: Geórgia Santiago (12/04/2012)

O evento chega à Capital depois de passar pelo CCBNB-Cariri (em Juazeiro do Norte), no dia 14, e CCBNB-Sousa (na Paraíba), no dia 15. Em Fortaleza, para participar é necessário inscrição prévia na recepção do Centro Cultural ou pelo e-mail cultura@bnb.gov.br. O Programa Negócios da Cultura é voltado à capacitação gerencial e empreendedora.

O workshop discutirá temas atuais sobre o mercado de arte; as oportunidades de inserção dos artistas visuais no mercado nacional e internacional; e interações das artes visuais com outras áreas. Por sua vez, a palestra abordará a economia da arte contemporânea, as oportunidades laborais e negociais no mundo das artes. Podem participar artistas visuais de diversas linguagens, incluindo xilogravuristas, fotógrafos, galeristas, produtores da área, professores e alunos de cursos e artes plásticas e artes visuais, entre outros.

Segundo Fialho, o evento pretende apontar caminhos para se aproveitar o bom momento pelo qual passa o mercado de arte no Brasil. "Especificamente no âmbito da arte contemporânea, o volume dos negócios tem crescido no eixo Rio-São Paulo. Paralelamente, a produção nacional tem alcançado reconhecimento internacional. Isso tem gerado oportunidades não somente para artistas, mas para toda a cadeia produtiva", ressalta a gestora.

Assim, na palestra e no workshop, a discussão vai girar em torno das estratégias possíveis para aproveitar esse cenário favorável, bem como das maneiras de pensar oportunidades e desafios no setor.

"É preciso pensar em novos modelos de negócios para a arte contemporânea, uma linguagem sem fronteiras. Assim como existem obras efêmeras, existem outras que utilizam suportes tradicionais, como a pintura ou a fotografia. Em muitos casos, as técnicas se misturam", explica Fialho.

"Não havendo limites, é preciso pensar como criar produtos que possam ser comercializados ou estabelecer novos tipos de negociações, principalmente para que o artista possa viver do seu trabalho", frisa a pesquisadora. "Por exemplo, no caso das intervenções ou da arte urbana, uma prefeitura pode financiar artistas ou coletivos para realizarem trabalhos na cidade", complementa Fialho.

Currículo

Ana Letícia Fialho é advogada, gestora cultural e pesquisadora, sócia-fundadora da FiSch Consultoria em Artes, especializada em consultoria, desenvolvimento e gestão de projetos culturais.

Com mais de dez anos de experiência no setor, atuou junto a organizações como Cinema do Brasil, Fórum Permanente, Ministério da Cultura, Senac, Sebrae, entre outros. Atualmente, é consultora em inteligência comercial e coordenadora de pesquisa do Projeto Setorial Integrado de Arte Contemporânea Abact-Apex-Brasil. É doutora em Sociologia da Arte pela École des Hautes Etudes em Sciences Sociales/Paris e professora da pós-graduação em Economia da Cultura da UFRGS.

Estratégia

O Negócios da Cultura constitui, na verdade, um programa de linha de crédito do Banco do Nordeste para iniciativas no campo das artes. Sua criação foi motivada pela necessidade de incentivar o mercado nesse setor, em diferentes linguagens, como música, audiovisual e teatro.

Segundo o CCBNB-Fortaleza, cada linguagem será abordada de maneira individual ao longo do programa. Em abril, por exemplo, foi a vez da música. O formato foi o mesmo, com workshop e palestra, que aconteceram na Capital e reuniram músicos, produtores e associações. Agora, as artes visuais serão contempladas, no âmbito da produção contemporânea. Mais para frente, será a vez das artes cênicas.

Posted by Marília Sales at 11:12 AM

Incêndio no Rio destrói apartamento com coleção de arte valiosa, Folha de S. Paulo

Incêndio no Rio destrói apartamento com coleção de arte valiosa

Matéria originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 13 de agosto de 2012.

Um incêndio ocorrido na noite de segunda (13) em Copacabana, zona sul do Rio, na cobertura dúplex do marchand e colecionador Jean Boghici, deixou em estado de alerta o mercado de arte brasileiro.

Dono de uma galeria em Ipanema, ele mantinha em seu apartamento um acervo com pinturas de Tarsila do Amaral, Milton Dacosta, Cícero Dias, o quadro "Samba" de Di Cavalcanti, e outras dezenas de obras emblemáticas, brasileiras e estrangeiras.

Até as 22h desta segunda, ainda não se sabia a extensão dos estragos. Segundo os bombeiros, a família de Jean estava em casa quando o fogo começou, mas conseguiu escapar das chamas. Dois gatos morreram.

Diretor da Bolsa de Arte do Rio de Janeiro, Jones Bergamin classifica o acervo de Boghici como "a mais valiosa coleção particular de arte brasileira".

"Não dá para calcular o valor das obras de Boghici. É algo na ordem de centenas de milhões de reais. Um pintura como 'Samba', de Di Cavalcanti, por exemplo, não tem preço", disse Jones à Folha, em entrevista por telefone, com a voz trêmula.

Nascido na Romênia, Boghici, 84, desembarcou no Rio, em 1949, e virou uma referência no mercado de arte da cidade, como galerista e colecionador.

Ivo Mesquita, diretor-técnico da Pinacoteca do Estado de São Paulo, chegou a ver de perto a coleção de Boghici.

"Cheguei a visitar duas vezes o apartamento dele. É uma coleção valiosíssima, formada por artistas-chaves para a arte brasileira. E o Jean ajudou a construir a história de muitos desses nomes. É um homem que ajudou a consolidar o circuito de arte no país", avaliou Mesquita, que recebeu a notícia quando participava da inauguração de uma exposição na segunda no Rio.

Amiga de Boghici, a curadora Vanda Klabin estava atônita diante da possibilidade de destruição das obras.

"Ele estava separando uma boa parte das obras na casa dele para o MAR [Museu de Arte do Rio, com inauguração prevista para setembro]", disse Vanda.

Posted by Marília Sales at 11:03 AM

Fogo destrói parte de coleção de arte moderna no Rio por Fabio Brisolla, Marco Aurélio Canônico, Silas Martí, Folha de S. Paulo

Fogo destrói parte de coleção de arte moderna no Rio

Matéria de Fabio Brisolla, Marco Aurélio Canônico, Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 15 de agosto de 2012.

Uma das mais importantes coleções particulares de arte abrigadas no país, que incluía obras como o quadro "Samba" (1925), de Emiliano Di Cavalcanti, foi parcialmente destruída na segunda (13) em um incêndio que atingiu a cobertura duplex do marchand e colecionador Jean Boghici, em Copacabana, no Rio.

"Queimou. Tudo bem. Muita coisa se salvou. Outras coisas se queimaram, o que eu posso fazer?", lamentou Boghici ontem, ao deixar o apartamento após vistoria. Ele tentara entrar no imóvel em chamas na segunda à noite, mas foi impedido pelos bombeiros. "Foi uma fatalidade."

"É uma tragédia gigantesca para a cultura brasileira. Era uma das melhores e mais representativas coleções da primeira metade do século 20", disse Washington Fajardo, secretário de Patrimônio do Rio e um dos primeiros a entrar no local após o fogo.

"Estava tudo muito escuro. Eu vi o 'Samba', do Di Cavalcanti, completamente destruído. Consegui ver um 'Bicho' [escultura], da Lygia Clark, no chão", disse Fajardo.

Especialistas ouvidos pela Folha estimaram as perdas em pelo menos R$ 60 milhões. Além da obra de Di Cavalcanti, com valor calculado em R$ 50 milhões, outras peças importantes queimadas foram um quadro de Vicente do Rêgo Monteiro dos anos 1920, um de Joaquín Torres-García, de 1931, e dois de Alberto da Veiga Guignard.

"Do Di Cavalcanti, sobraram só os pés das figuras. O Torres-García torrou inteiro, o Morandi também", disse um amigo de Boghici, que esteve no apartamento na terça.

O colecionador tem ainda obras de Tarsila do Amaral --"O Sono" (1928) e "Sol Poente" (1929)-- que foram salvas, assim como uma escultura de Victor Brecheret e móbiles de Alexander Calder.

As causas do incêndio ainda estão sendo apuradas, mas a suspeita é de que o fogo tenha sido causado por um curto-circuito no ar-condicionado.

Posted by Marília Sales at 10:54 AM

'Samba' era obra mais 'poderosa' do modernismo, diz curador por Silas Martí, Folha de S. Paulo

'Samba' era obra mais 'poderosa' do modernismo, diz curador

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 15 de agosto de 2012.

Destruída na segunda (13) no incêndio que consumiu o apartamento do marchand Jean Boghici no Rio, "Samba", tela de Emiliano Di Cavalcanti, pintada em 1925, é considerada a maior obra do artista e a melhor representação da cultura negra realizada no modernismo brasileiro.

Fogo destrói parte de coleção de arte moderna no Rio

Da obra, que mostra um grupo de figuras em festa, tendo duas mulheres no centro, uma delas negra, sobrou só os pés dos personagens, cerca de 30% da tela.

"Nesse quadro, Di Cavalcanti não está lidando com o folclore, e sim com uma das manifestações mais vivas da nossa cultura", diz o curador e crítico Paulo Herkenhoff.

"No modernismo não há peça tão poderosa quanto essa. É a maior manifestação da cultura negra, e também feita por um artista negro."

Tadeu Chiarelli, diretor to Museu de Arte Contemporânea da USP, equipara a importância de "Samba" à tela "A Negra", de Tarsila do Amaral, uma das obras mais emblemáticas da arte nacional.

"Essa tela tem uma monumentalidade", diz Chiarelli. "Tem o caráter do Brasil dentro do universo modernista."

Exposta logo na entrada do apartamento de Boghici em Copacabana, a obra com fortes figuras arredondadas travava um diálogo com telas de Vicente do Rego Monteiro da mesma década, também na coleção do marchand --uma delas se perdeu no incêndio.

"Era a síntese do Brasil", diz o marchand Max Perlingeiro, amigo de Boghici. "Essa sensualidade, a alegria, as cores, isso é Brasil puro."

Avaliada em mais de R$ 50 milhões, a peça é única na trajetória de Di Cavalcanti, que retratou universo semelhante só em "Cinco Moças de Guaratinguetá", importante obra do artista que hoje integra o acervo do Masp.

Fora de circulação e sem um exemplar comparável, a perda de "Samba" é considerada irreparável por críticos e analistas do mercado.

"Essa tela era um escândalo", diz Jones Bergamin, dono da casa de leilões Bolsa de Arte, que opera no Rio e em São Paulo. "Junto do 'Abaporu' e de poucos outros quadros, não tem nada com esse reconhecimento. Era uma das bandeiras da arte brasileira."

"Não há valor que pague uma coisa insubstituível dessas", diz Perlingeiro. "É uma coisa que a gente perde o fôlego, uma perda profunda."

Posted by Marília Sales at 10:37 AM | Comentários (1)

agosto 16, 2012

Incêndio em acervo de Jean Boghici expõe trabalho de colecionadores por Audrey Furnaleto, O Globo

Incêndio em acervo de Jean Boghici expõe trabalho de colecionadores

Matéria de Audrey Furnaleto originalmente publicada no jornal O Globo em 16 de agosto de 2012.

O incêndio coincide com momento em que coleções particulares começam a ser expostas

RIO - Uma coleção particular, como define o curador Paulo Herkenhoff, é uma espécie de “reunião de afetos ao longo de uma vida”. Outro curador, Leonel Kaz, amigo de Jean Boghici, que viu seu apartamento com a coleção ser tomado pelo fogo na última segunda-feira, completa a definição com a lembrança de que “Jean era habitado pelos quadros que tinha, e os quadros eram habitados por ele”. O incêndio do acervo, um das mais importantes de arte moderna brasileira, coincide com o momento em que coleções particulares — ou a “reunião de afetos” de um colecionador — começa a chegar aos olhos do grande público.

O Museu de Arte do Rio (MAR) será o primeiro com espaço fixo destinado a exibir diversas coleções privadas. Já na inauguração, em setembro, duas exposições mostrarão as coleções particulares de Jean Boghici, no terceiro andar (leia mais no texto ao lado), e de Sérgio Fadel, no segundo andar. A ideia é que o museu siga recebendo acervos privados. A coleção de Maria Lucia Veríssimo, por exemplo, deverá vir de São Paulo ao Rio para ser exposta no MAR.

— Queremos manter a casa aberta a Boghici e aos colecionadores de arte — afirma Paulo Herkenhoff, curador do museu. — O grande desafio do Rio não é apenas ter as coleções à disposição dos museus, mas ter um processo de institucionalização das obras. Voltei de Buenos Aires agora e me impressionou seu Museu Nacional de Belas Artes, o mais sólido da América Latina, formado por doações de quatro ou cinco gerações de colecionadores.

O modelo do MAR difere daqueles do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, que abriga unicamente a coleção de Gilberto Chetaubriand, e do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, que recebe a coleção de João Satammini. No MAR, além das coleções privadas, forma-se acervo a partir de doações de colecionadores, também na ânsia de levar ao público suas obras.

Outros exemplos têm surgido no país. Em Ribeirão Preto, o empresário João Figueiredo Ferraz criou um instituto que expões sua coleção de arte contemporânea num espaço de 2.500 metros quadrados. No Rio, o casal Monica e George Kornis, dono da maior coleção de gravuras do Brasil, comprou uma casa para montar um instituto, em Jacarepaguá. Na cidade de São Paulo, o economista Oswaldo Corrêa da Costa, temendo que seu “acervo de 40 anos ficasse estéril, distante dos olhos do espectador”, também criou um espaço para sua coleção, onde recebe visitas com agendamento.

O colecionador Ronaldo Cezar Coelho também planeja abrir um espaço que não será apenas um “showroom” de suas obras, que incluem tesouros da arte brasileira como “Vaso de Flores” (1931), de Guignard — adquirido por ele num leilão da Christie’s em 2009 pelo preço recorde do artista, US$ 759 mil. Ele, que compra as obras em nome de seu instituto, o São Fernando, diz que a ideia é criar um centro de políticas públicas que abrigará arte e será uma incubadora de projetos de educação, ecologia e patrimônio histórico.

Coelho convidou o arquiteto chinês I.M. Pei, premiado com o Pritzker, para visitar sua fazenda, um patrimônio de 1808 em Vassouras, no interior do Rio, e conceber o desenho do espaço, mas o projeto foi adiado: em pesquisas prévias, conta ele, constatou-se que o espaço deveria ser nas capitais do Rio ou de São Paulo. De luto pela tragédia com Boghici, Coelho afirma:

— O apoio ao mecenato no Brasil não existe. Estamos sozinhos nesse trabalho, seja de repatriar obras brasileiras ou de preservá-las. Meu sonho é exibir, tornar a coleção acessível ao público. Aliás, o maior prazer de um colecionador é mostrar seus trabalhos.

Coelho lamenta que no caso do que chama de “repatriação de obras” seja preciso pagar imposto de 35% sobre o valor do trabalho. Ele guarda em Nova York um Frans Post pintado no Brasil e adquirido por ele nos Estados Unidos porque, embora tenha apresentado explicações à Receita Federal, não obteve abatimento no imposto.

Acervos viajam e são vistos

O Estatuto de Museus, por outro lado, estabelece, desde 2009, que coleções de interesse público, seja em museus ou em propriedades particulares, estão habilitadas a receber ajuda do governo.

— Pode-se até questionar a ajuda a um colecionador particular. Mas o que está em primeiro lugar para um órgão de conservação, como o Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), é a preservação do bem cultural de referência nacional. O fato de a obra ser particular ou pública é um detalhe — afirma José do Nascimento Júnior, presidente do Ibram. — A obra pode até ter seguro. Mas ninguém vai contratar Di Cavalcanti ou Portinari para pintar de novo. O bem cultural se perde.

O galerista Ricardo Rêgo, dono da Lurixs, lembra que colecionadores, como Boghici, Coelho ou ele próprio, preservam obras para que, em dado momento, sejam de conhecimento público.

— A conservação de uma obra de arte é muito mais garantida nas mãos de um colecionador do que numa instituição. As obras não ficam trancafiadas, mas viajam para exposições e são vistas dentro do próprio apartamento — diz Rêgo, referindo-se à sua coleção, numa cobertura da Avenida Atlântica, que recebe visitas de críticos, curadores e colecionadores internacionais.

O próprio “Samba” (1925), a joia de Di Cavalcanti perdida no incêndio no apartamento de Boghici, é um quadro muito viajado, lembra Leonel Kaz:

— Seu currículo é imenso. Recentemente, esteve na Bélgica. Foi um quadro feliz enquanto esteve vivo.

Posted by Patricia Canetti at 5:15 PM

agosto 14, 2012

Restauro revela obras inéditas de Bispo do Rosário, artista que viveu em manicômio por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Restauro revela obras inéditas de Bispo do Rosário, artista que viveu em manicômio

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de agosto de 2012.

Ele guardava as agulhas de costura no talco, junto de uma figura de Cristo. Também colecionava revistas eróticas e bordou em estandartes nomes de socialites, assassinas e divas do cinema.

Desde que Arthur Bispo do Rosário, artista que morreu aos 80 anos em 1989, foi anunciado como nome central da 30ª Bienal de São Paulo, em setembro, uma verdadeira exumação do corpo de sua obra está em curso no Rio.

Bispo do Rosário, o paciente 01662 da Colônia Juliano Moreira, fez quase toda a sua produção internado no hospital psiquiátrico que funciona até hoje em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio. Seu acervo de mais de 800 peças está guardado numa sala da administração do complexo.

Quando Luis Pérez-Oramas, curador da Bienal, decidiu expor 348 das peças nesta edição da mostra, um processo de restauro foi deflagrado para levar a público obras que nunca deixaram o hospício --pelo menos cinco das instalações são inéditas.

"Essas obras nunca saíram daqui porque estavam em péssimo estado", diz Wilson Lázaro, curador do Museu Bispo do Rosário. "Fizemos um restauro, mas conservamos o pensamento dele."

Nesse processo, vieram abaixo algumas das certezas sobre o artista.

Primeiro, a de que era assexuado. Suas anotações obsessivas dos nomes das estagiárias da enfermaria e sua coleção de revistas pornográficas provam o contrário.

Bispo também nunca tomou remédios e tinha total consciência de sua condição de paciente mental, chegando a ironizar a psiquiatria.

"Ele se refere a seu contexto terapêutico", diz Pérez-Oramas. "Tinha uma autoconsciência que relativiza nossas discussões sobre a loucura e suas condições."

Cadernos do artista encontrados no acervo mostram anotações detalhadas de sua rotina no manicômio. Ele narra conversas com enfermeiros, dá detalhes de uma ferida no dedo, cataloga notícias de jornal --em especial sobre crimes-- e mantém um extenso inventário dos materiais que conseguia traficar para o hospital ao criar suas peças.

Uma das obras mais enigmáticas do artista, um estandarte em que ele borda um texto religioso, foi descoberta agora ser a reprodução de um anúncio de revista que vendia uma edição da Bíblia.

"Todos achavam que isso fosse um delírio, mas é uma propaganda", diz Lázaro. "Ele tinha um pensamento para fazer a obra, olhava para a imprensa como fonte de realidade para tudo."

REFINADO E BRUTAL

Essas descobertas recentes reforçam a reabilitação de Bispo do Rosário, que aos poucos perde a aura de louco e ganha o reconhecimento de um artista contemporâneo singular de sua época.

Sob esse novo ângulo, críticos reconhecem agora na obra de Bispo não só a habilidade manual obsessiva dos bordados mas também um pensamento conceitual e plástico que dialoga com trabalhos dos grandes nomes da arte contemporânea do país.

Sua caixa de música, um estojo de madeira cheio de papel picado, em que a canção seria o som do papel soprado no ar, lembra a arte conceitual. Seus papéis de bala são precursores de Beatriz Milhazes. Seus estandartes feitos de fórmica colorida lembram o construtivismo.

"É interessante como uma das grandes obras visuais do fim do século 20, das mais refinadas e brutais, tenha sido feita em isolamento", diz Pérez-Oramas. "Mas toda criação comovente, crítica e relevante exige desmantelar a normalidade do mundo."

Num contexto anormal, Bispo do Rosário construiu uma poética capaz de repensar a beleza e a tragédia da vida real --das vencedoras de concursos de miss aos bandidos e ladrões do noticiário.

"Nossa sociedade precisa da loucura para se excluir dela", diz Pérez-Oramas. "Mas nesse ato de exclusão, acaba exibindo a própria loucura."

Posted by Marília Sales at 11:41 AM

Acervo de Bispo do Rosário deve ir para novo prédio, mas não há verba por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Acervo de Bispo do Rosário deve ir para novo prédio, mas não há verba

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de agosto de 2012.

Quase toda a obra de Arthur Bispo do Rosário foi feita usando materiais precários, uma arte do improviso em que tudo, dos lençóis aos uniformes do hospital psiquiátrico, era reaproveitado como tecido e linha colorida.

Restauro revela obras inéditas de Bispo do Rosário, artista que viveu em manicômio

Só isso já torna as peças vulneráveis, mas o fato de estarem todas embrulhadas em papel numa sala sem sistema anti-incêndio e possível alvo de cupins também agrava a situação de risco do acervo.

"Tem certos objetos que daqui a pouco não teremos como recuperar", diz Elisabeth Grillo, uma das restauradoras da obra de Bispo. "Fico preocupada com os plásticos duros. Algumas peças de madeira tinham infestação de cupins, com a estrutura já comprometida. Entrei nesse trabalho com receio."

Enquanto são restauradas e chamam cada vez mais a atenção do circuito, essas obras também passam por uma valorização inédita. Só o conjunto delas que estará na Bienal de São Paulo está avaliado em R$ 24 milhões.

Mesmo com a importância do artista hoje consensual, gestores do Museu Bispo do Rosário, que só tem três funcionários e ocupa uma sala na administração da Colônia Juliano Moreira, não conseguiram garantir recursos para a mudança do museu para um novo prédio, também dentro do complexo.

Financiado pela secretaria municipal de Saúde do Rio, o museu deveria passar para um edifício que precisa de reformas. Falta reconstruir o telhado, as paredes e toda a infraestrutura do imóvel --obra de R$ 4 milhões. Também não há recursos para erguer uma nova reserva técnica.

Posted by Marília Sales at 11:31 AM

Exposição revela tesouros de Warhol e Hockney escondidos em Teerã, Jornal Floripa

Exposição revela tesouros de Warhol e Hockney escondidos em Teerã

Matéria originalmente publicada no Jornal Floripa em 10 de agosto de 2012.

É o melhor acervo de arte moderna fora da Europa ou dos EUA, ostentando obras de Jackson Pollock, Francis Bacon, Andy Warhol, Edvard Munch, René Magritte e Mark Rothko.

Mas as peças passaram mais de 30 anos atulhadas no porão do Museu de Arte Contemporânea de Teerã (Tmoca), pegando poeira. Censores do Irã classificaram algumas delas como anti-islâmicas, pornográficas ou excessivamente gays, e elas nunca foram expostas ao público. Outras foram exibidas apenas uma ou duas vezes.

Agora, várias pinturas do acervo estão sendo exibidas pela primeira vez em Teerã, como parte de uma exposição do museu chamada Pop Art & Op Art, com obras de Warhol, David Hockney, Roy Lichtenstein, Victor Vasarely, Richard Hamilton e Jasper Johns.

"Muitas das obras na exposição estão sendo expostas pela primeira vez", disse Hasan Noferesti, diretor de programas artísticos do museu, à agência de notícias Mehr. "O objetivo da exposição é mostrar a evolução desses movimentos artísticos."

Mais de cem obras do notável acervo do museu estão sendo exibidas, segundo a Mehr, além de uma série de trabalhos do México, que foram cedidos ao museu em comemoração ao centenário da Revolução Mexicana e do bicentenário da independência do país.

James Rosenquist, Jim Dine, Larry Rivers e RB Kitaj estão entre os outros artistas incluídos na exposição, que vai até meados de agosto.

O incomparável tesouro oculto do Irã foi adquirido antes da Revolução Islâmica, sob a supervisão de Farah Pahlavi, a última rainha do Irã, que fugiu do país em 1979 com o falecido xá Mohammad Reza Pahlavi.

O reinado do xá, autointitulado "rei dos reis", durou 38 anos e terminou depois que o aiatolá Ruhollah Khomeini retornou do exílio para ser recepcionado como herói em Teerã e fundar a República Islâmica.

O acervo inclui "Mural on Indian Red Ground", considerada uma das obras mais importantes de Pollock e com valor estimado em mais de US$ 250 milhões, e também peças importantes de Picasso, Van Gogh, Monet, Pissarro, Renoir, Gauguin, Toulouse-Lautrec, Degas, Whistler e Marcel Duchamp.

Há até mesmo obras de artistas que a ex-imperatriz conheceu pessoalmente, com o pintor franco-russo Marc Chagall e o escultor inglês Henry Moore. Estima-se que o acervo todo valha mais de US$ 2,5 bilhões.

Ao "Guardian" Pahlavi explicou que a coleção foi comprada durante o boom petrolífero do Irã na década de 1970. "Nossa receita petrolífera havia aumentado significativamente, e falei com [o xá] e com Amir-Abbas Hoveyda [então primeiro-ministro], e lhes disse que seria a melhor época para comprar algumas das nossas antigas obras tanto internamente quanto do exterior."

"Pensei em como seria bom ter um museu onde pudéssemos colocar as obras dos nossos artistas contemporâneos. Mais tarde eu pensei: por que não deveríamos incluir obras estrangeiras? Foi assim que tudo isso começou [...], naquela época nossos curadores e colecionadores estavam principalmente interessados na arte tradicional, e não tanto na arte moderna."

Acredita-se que o interesse de Pahlavi pela arte ocidental derive do fato de ter estudado na França.

Kamran Diba, arquiteto iraniano e primo da rainha, foi contratado para projetar o museu no centro da capital, e posteriormente escolheu as obras com a ajuda de várias pessoas, inclusive os presidentes da Christie's e da Sotheby's.

"Fiquei muito preocupada com o destino dessas pinturas durante aqueles acontecimentos [da época da Revolução]", disse Pahlavi. "Estava preocupada de que os revolucionários fossem destruí-las. Mas felizmente os funcionários do museu as protegeram no porão."

"Há alguns anos, o diretor do museu mostrou algumas das peças e fez um catálogo listando as obras. Fico feliz por as pessoas terem percebido o que estava escondido lá durante anos."

WARHOL CORTADO À FACA

Entre 1997 e 2005, durante o mandato do presidente reformista Mohammad Khatami, quando as restrições à arte foram temporariamente aliviadas, Alireza Samiazar, então chefe do museu, se esforçou para obter autorização para que algumas das obras fossem expostas pela primeira vez.

Em 2005, para perplexidade dos radicais do regime, um grande número de pinturas saiu do porão para uma exposição. O evento causou polêmica. "Two Figures Lying on a Bed with Attendants", obra de Francis Bacon com conteúdo aparentemente homossexual, foi considerada inadequada e retirada da exposição.

Muitas obras controversas, porém, sobreviveram aos censores. Retratos de Mick Jagger e Marilyn Monroe por Andy Warhol estão em Teerã, e as imagens de Mao Tsé-tung pintadas por ele foram exibidas na íntegra pela primeira vez na exposição da pop art.

Apesar do desprezo dos governantes iranianos pela arte ocidental, a coleção tem sido zelosamente guardada --exceto por um retrato da própria Pahlavi feito por Warhol, que, segundo ela, foi cortado com uma faca.

Em 1994, o museu trocou uma de suas muitas pinturas notáveis --"Woman III", do expressionista holandês-americano Willem de Kooning-- por um raro volume com iluminuras do "Shahnameh", antigo livro de poesia persa que pertencia ao colecionador de arte americano Arthur Houghton. A troca foi feita porque, aos olhos das autoridades, a pintura mostrava nudez demais.

Muita gente ficou enfurecida com a troca, inclusive Pahlavi. "Se eles estavam realmente interessados no 'Shahnameh', não poderiam pagar US$ 6 milhões e manter a pintura de De Kooning? O empresário americano David Geffen, que comprou a pintura por cerca de US$ 20 milhões, a vendeu por US$ 110 milhões poucos anos depois. A troca de De Kooning é a única troca que eles fizeram até agora, e espero que continue sendo a última."

CLÉRIGOS

Uma das muitas ironias que cercam a obra é o fato de que o poderoso Conselho Guardião do Irã, um grupo de clérigos, interveio há uma década para proibir a venda ou troca das peças porque, disseram eles, o comércio de obras anti-islâmicas e pornográficas é proibido.

Ali Amini Najafi, crítico de arte iraniano radicado na Alemanha, disse que "as obras no acervo não são escolhidas de forma aleatória ou arbitrária, está claro que as pessoas envolvidas em selecioná-las tinham um plano consistente de pegar amostras pertinentes e significativas para retratar a evolução da arte moderna, e também para assegurar que todos os movimentos estivessem representados, dos impressionistas a pop art".

"Esse acervo foi reunido num momento definidor da nossa história, quando os iranianos estavam se distanciando do seu passado tradicional e demonstrando curiosidade pela arte moderna."

Tradução de RODRIGO LEITE.

Posted by Marília Sales at 9:37 AM

Mundos do artista plástico Luiz Hermano são expostos no Recife, globo.com

Mundos do artista plástico Luiz Hermano são expostos no Recife

Matéria originalmente publicada na seção G1 do globo.com em 9 de agosto de 2012.

Instalações poderão ser vistas no Mamam, a partir de 23 de agosto. 'Tramando mundos' traz obras presentes nos 30 anos de carreira do artista.

Difícil ligar o trabalho do artista Luiz Hermano a uma escola ou movimento específico das artes plásticas. Com o olhar sempre atento às coisas do mundo, Hermano molda diversos materiais, de aquarelas ao alumínio, passando pelo plástico, e utilizando objetos que passariam despercebidos aos olhos congestionados pelo volume de informação visual que é transmitido atualmente. São estas obras que o cearense traz para o Recife, na mostra “Tramando mundos”, que está em cartaz na galeria Amparo 60, na Avenida Domingos Ferreira, em Boa Viagem, Zona Sul da capital pernambucana. As visitações podem ser feitas às terças e sextas, das 10h às 13h e das 14h às 19h. Aos sábados, a galeria fica aberta das 10h às 14h.

Inicialmente pensada como uma espécie de comemoração dos 30 anos de carreira de Hermano, “Tramando mundos” já passou pela Universidade de Fortaleza (Unifor), e tem curadoria de Paula Braga. No Recife, ela será divida em dois espaços: os trabalhos mais recentes e comerciais se encontram na Amparo 60, enquanto as instalações serão expostas no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam), a partir de 21 de agosto. Da mostra inicial, as aquarelas presentes na Unifor não devem vir ao Recife, por serem um trabalho mais antigo.

Sobre o processo de composição das obras selecionadas, que trazem o interesse cosmológico do artista, com reflexões sobre vários universos, Hermano diz que seu raciocínio criativo praticamente não para: “Trabalho direto, artista plástico tem que trabalhar muito, mais do que todo mundo! (risos). Estou sempre de olho nos materiais. Quando vejo algo que acho que pode dar um retorno, já fico interessado. E o conceito da obra nasce junto com a feitura, na hora em que ela está se formando”.

Reunidos os trabalhos, os mundos tramados pelo artista trazem traços de diferentes momentos de sua vida, desde a infância em Preaoca (CE) até as viagens que vem fazendo pelo mundo. Tailândia, India, China e Turquia foram alguns dos locais de passagem de Hermano, e suas culturas e religiosidades ficaram impressas nas esculturas: “Viajo muito, e essas viagens sempre trazem um retorno. Este ano, por exemplo, fui para a Turquia, e duas obras da mostra nasceram dessa viagem”, comenta o artista. Com este caráter universal, as esculturas e instalações de Luiz Hermano são grandiosas e delicadas, acendendo memórias e reflexões em quem as observa.

Luiz Hermano na Amparo 60, Recife

Posted by Marília Sales at 9:24 AM

agosto 9, 2012

História sem fim por Nina Gazire, Istoé

História sem fim

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 3 de agosto de 2012.

Cao Guimarães faz série de paisagens em tributo ao conterrâneo Guignard

Cao Guimarães - Passatempo, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 23/07/2012 a 25/08/2012

Diante das 21 obras que compõem a nova individual do artista mineiro Cao Guimarães, sente-se que o tempo parou de passar. Denominada “Passatempo”, a mostra é um desafio. A começar pelo título: em cada uma das obras expostas, o que se vê não é a passagem do tempo, mas a sua dilatação. Nas fotografias da série “Paisagem Real” – em que o artista registra cimos de prédios envoltos em neblina, em homenagem à série de pinturas “Paisagens Imaginárias”, de Alberto da Veiga Guignard, nas quais o pintor reinventou a montanhosa paisagem mineira destituindo-a de perspectiva –, o que se percebe é o tempo em estado de suspensão. E é à eternidade que o artista se atém especialmente no filme “Limbo”.

Realizado para a 8ª Bienal do Mercosul, o curta-metragem de 17 minutos foi filmado no Uruguai, em 2011, e ganha uma nova versão para esta exposição. O filme parece contar a história de uma criança fantasmagórica. Playgrounds abandonados cujos brinquedos se movimentam sozinhos unidos à paisagem gélida e monótona dos pampas dão a sensação de que pelas paragens uruguaias nada muda e se está para sempre preso na infância. “O que me fascina nos Pampas é que tudo é amplo, dilatado. A impressão que eu tive é de que ali o tempo não passa e o limbo é esse estado de suspensão”, diz o artista à ISTOÉ.

A presença da infância permanece em “Otto”, obra mais recente do artista, dedicada ao nascimento de seu primeiro filho. Guimarães resume, em 70 minutos, o diário audiovisual que realizou da gravidez de sua mulher. Imagens de ultrassom se fundem às de uma história paralela passada na Turquia, onde as construções metafóricas fazem referência ao repetitivo ciclo da vida e da fecundação. E já que o tempo “é uma condição relacionada com a existência do nosso eu”, como afirmou certa vez o cineasta russo Andrei Tarkovsky, o que Cao Guimarães faz afinal é revelar as suas próprias passagens marcadas pela experiência da paternidade e das paisagens imaginárias da infância, partes infindáveis do ciclo maior que é o da vida.

Posted by Cecília Bedê at 4:20 PM

Paisagem ocupada por Paula Alzugaray, Istoé

Paisagem ocupada

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na seção de artes visuais da Istoé em 3 de agosto de 2012.


Em sua nova exposição individual, a artista paulistana Dora Longo Bahia dá continuidade a sua pesquisa sobre a representação da guerra e da violência pelos meios de comunicação

Imagens claras x ideias vagas – Dora Longo Bahia/ Galeria Vermelho, SP/ até 25/8

Em sua nova exposição individual, a artista paulistana Dora Longo Bahia dá continuidade a sua pesquisa sobre a representação da guerra e da violência pelos meios de comunicação. O interesse pelo tema surgiu há dois anos, quando representou em pinturas sobre chapa de metal os conflitos do Oriente Médio. Agora, nos quatro grupos de pinturas expostas em “Imagens Claras x Ideias Vagas”, a artista mergulha alguns metros mais a fundo na investigação sobre o estatuto da imagem na cultura contemporânea.

Centraliza a exposição um mural em grande escala, pintado sobre a parede, de uma estrada que atravessa uma mata. Essa paisagem, deserta e exuberante, é ladeada por duas pinturas de dimensão monumental, em que a mesma paisagem é ocupada por soldados em um tanque de guerra. Embora à primeira vista essas cenas sejam semelhantes às coreografias de soldados americanos em ação no Iraque ou no Paquistão – imagens do trabalho anterior –, as telas “Ocupação (Alemão)” e “Ocupação (Brasileira)” representam cenas de um conflito brasileiro: ocupação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. A confusão não é mera coincidência. Por trás do tratamento semelhante conferido à guerra local e à guerra internacional, a artista aponta para a universalidade dos conflitos.

A grande dimensão das telas (4 m x 6 m) remete à monumentalidade da pintura histórica. O que Dora faz aqui é discutir permanência ou efemeridade de fatos jornalísticos transformados em acontecimentos históricos. “A paisagem natural é justamente a imagem mural e efêmera, que será destruída quando a exposição acabar. O que fica são as paisagens ocupadas pela guerra, que foram pintadas sobre tela”, afirma a artista.

Há um niilismo evidente aqui. O que as pinturas dizem é que a guerra prevalece no espaço e no tempo. A segunda série de pinturas, “Desastres da Guerra”, reforça a tese. Inspirada nas gravuras “Los Desastres de la Guerra”, realizadas por Francisco de Goya em 1746, a série é composta por 80 reproduções pictóricas das maiores fotografias de guerra desde o começo do século XX até o 11 de Setembro – legendadas com as frases das gravuras de Goya. “Avançamos vários séculos, mas as imagens de hoje são tão perversas quanto as de Goya”, diz Dora. Tanto no cruzamento com Goya quanto na escolha do suporte dessas pinturas – o pergaminho –, a artista mais uma vez indaga sobre a eternidade dos fatos diante da inconsistência do conhecimento que temos deles.

O título da exposição, extraído de uma cena do filme “A Chinesa”, de Jean-Luc Godard, é mais uma pista para apreender o subtexto que Dora Longo Bahia escreve sobre essas imagens extremamente fortes. São “imagens claras” os desastres que nos invadem e nos atraem diariamente pela televisão, jornais e internet. Muito mais vagas e imprecisas são as ideias que elas carregam. O pessimismo dessa exposição, portanto, não é em vão. Quando confronta as atrocidades da Espanha de Goya ao fim do sonho do soldado republicano espanhol, fotografado no momento da morte por Robert Capa em 1937, Dora produz uma fricção que desperta essas imagens do sono. Como diria Goya, do sono de uma razão que produz monstros.

Posted by Cecília Bedê at 4:17 PM

Júnior Suci inaugura a mostra 'Película' por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Júnior Suci inaugura a mostra 'Película'

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 9 de agosto de 2012.

Exposição da Galeria Virgílio é formada por desenhos e dois vídeos realizados entre 2011 e 2012

Júnior Suci escolheu o desenho para criar uma obra que pulsa entre a representação de gestos pelo traço a grafite e o gosto pelo dramático. Há até sarcasmo e ironia nos trabalhos do artista, sempre criados por meio de linhas fragmentadas e tensas, como ele diz. Mãos, pés e rostos aparecem nos desenhos como "close-ups" de cenas de uma narrativa de pequenas ações e sentimentos no cotidiano.

Obras como partes de filmes, a referência ao cinema é, na verdade, uma afirmação do próprio artista, que acaba de inaugurar na Galeria Virgílio a mostra Película, formada por desenhos e dois vídeos realizados entre 2011 e 2012.

É uma raridade artistas se dedicarem apenas ao desenho, mas por meio de um gênero tão tradicional Júnior Suci vem apresentando uma produção de destaque, tão contemporânea. "Obras sobre papel ainda são rejeitadas em termos comerciais", diz o artista. Desde 2007 ele vem participando de exposições e o ano passado foi um prolífico, com uma exibição individual no Centro Universitário Maria Antonia e com a aquisição de sete de suas obras pelo Museu de Arte Contemporânea da USP. Nascido em Americana, residente em São Paulo, Júnior Suci, de 27 anos, é formado pela Unesp.

O artista conta que cria seus desenhos, que não são "obsessivos", a partir de performances diárias, de "gestos intimistas das pessoas". O próprio Júnior os encarna, os desenha em sequencias. Para citar alguns exemplos, a série Testei Minha Paciência, de 2012, mescla traços em preto e em vermelho de passagens banais, como colocar linha em uma agulha. Já em Película: Me Livrei da Ilusão, o artista o representa se beliscando para acreditar em alguma coisa.

Posted by Cecília Bedê at 4:07 PM

agosto 8, 2012

Nova York em chamas por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Nova York em chamas

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 8 de agosto de 2012.

Em agosto de 1964, Andy Warhol, artista morto aos 58, em 1987, plantou uma câmera Auricon numa janela do Rockefeller Center em Nova York com vista para o edifício Empire State. Gravou durante oito horas e emendou os rolos de filme na ordem exata de sua exposição.

Nesse marasmo em que a imagem em movimento mais parece congelada, estava fundido um ícone a outro -Warhol e a cidade onde fez fama e fortuna, o epicentro global das artes visuais na virada dos anos 60 para os anos 70.

Sai nesta semana pela Cosac Naify um livro em que Arthur Danto, um dos maiores especialistas na obra do artista pop, explica por que Warhol virou o mito que virou.

Na esteira do lançamento, surge também "City Boy", autobiografia do escritor Edmund White, que faz uma radiografia artística e sexual da Nova York da mesma época.

Um terceiro volume, lançado nos Estados Unidos, conta em detalhes o levante de artistas que transformaram o SoHo pós-industrial, esvaziado e decadente, em usina potente de criação artística.

Juntos, os três títulos mostram como Nova York informou e definiu a produção de artistas que ajudaram a construir a arte contemporânea da segunda metade do século 20, com reverberações que se estendem aos tempos atuais.

Nascido em Pittsburgh, Warhol sabia que, para entrar para o jet set, precisava estar em Manhattan no momento em que a cidade virou ímã das mentes mais brilhantes do Ocidente e também de vastas fortunas que aportavam na ilha para financiar tempos de excessos nas festas, na arte, nas drogas e no sexo.

Mas Warhol, maior nome da arte pop, sabia que se houvesse uma revolução visual ela partiria não da abstração nervosa dos expressionistas então em voga, como Jackson Pollock, mas da simplicidade e aparente inocência de latas de sopa e caixas de sabão.

"Até Warhol, as pinturas americanas falavam de beleza: jardins, jovens meninas e afins", diz Danto, em entrevista à Folha. "Mas Andy tem um realismo que o torna maior do que todos. Não está no estilo, mas no assunto."

"Warhol andava em busca da essência das coisas", escreve o autor. "Ele tinha ampliado o conceito de artista para uma pessoa que não limita seu produto a um meio em particular. Isso não aconteceria com nenhum outro artista dos Estados Unidos."

"NY era um ferro-velho com aspirações artísticas"

Enquanto Andy Warhol ascendia à fama, artistas migravam para o SoHo

Livros recém-lançados mostram evolução da vanguarda artística em Manhattan até a formação do mercado

Quando Andy Warhol já tinha pintado suas latas de sopa Campbell's e copiado as caixas de sabão Brillo, estava entre os loucos da Factory, o ateliê na rua 47 que um dia decidiram pintar de prata.

"Tinta prateada combinava com a cultura jovem dos seus frequentadores, com a música que dançavam, com o tipo de drogas que usavam, com sua promiscuidade ou ansiedade sexual", escreveu Arthur Danto em seu livro.

Warhol dizia que "a cor prata era o futuro -os astronautas vestiam roupas prateadas- e também era o passado-, a cor metálica das telas de cinema e as atrizes de Hollywood fotografadas em seus cenários prateados".

Quase uma década mais tarde e umas 40 quadras ao sul dali, outra cor, também metálica e menos brilhante, dominava o cenário que suplantaria o glamour fajuto das estripulias da Factory.

"Nova York nos anos 1970 era um depósito de ferro-velho com sérias aspirações artísticas", resume Edmund White em seu "City Boy". "Ninguém abaixo da rua 14 jamais usava gravata ou qualquer outra coisa além de camiseta rasgada, calças jeans sujas e uns tênis ou botas de caubói."

Nessa terra despojada, Gordon Matta-Clark, artista que morreu aos 35, em 1978, resistiu à ideia de arte no cubo branco das galerias, cenário então dominado pelos artistas pop como Warhol, e plantou uma cerejeira no porão de uma fábrica abandonada, o hoje mítico número 112 da rua Greene, no SoHo.

Sua árvore, mesmo no subsolo, floresceu em pleno inverno, símbolo de um movimento que nascia ali, uma escola pautada pela performance, a mistura de disciplinas artísticas e uma ocupação do sul de Manhattan por artistas que viam nas fábricas desativadas da região amplos ateliês com aluguéis baratos.

"Foi como uma tempestade", diz Jessamyn Fiore, enteada de Matta-Clark que narra em "112 Greene Street", recém-lançado nos Estados Unidos, a história do endereço que mudou a geografia plástica de Manhattan.

"Esses artistas queriam fazer obras políticas engajadas, que pensassem o estado da cidade, usando materiais descartados, peças cruas."

LASCÍVIA E VOYEURISMO

Mas, além da política, da cerejeira e de uma ilha que se redesenhava em termos imobiliários, a Nova York de Warhol e Matta-Clark era o terreno do auge dos direitos civis, das mulheres, dos negros e dos gays. Também era um cenário de protesto contra a guerra dos EUA no Vietnã.

Era um clima que favorecia a liberdade sexual. Warhol não escondia sua homossexualidade também por saber que as outras grandes estrelas da arte pop, como Jasper Johns, Cy Twombly e Robert Rauschenberg, jogavam nesse mesmo time.

"Essa foi a era dourada da promiscuidade, o período antes da Aids em que as pessoas não tinham medo de transar", lembra White. "Foi a época da emancipação e de um florescimento da arte."

Danto enxerga com clareza essa liberdade sexual na obra de Warhol. "Andy também tinha um lado lascivo, certo voyeurismo tolo", escreve o autor. "É um desejo de ver e tirar fotografias do pênis, dos peitos dos outros."

ARTE DO BUSINESS

Mais para o fim dos anos 1970, tanto Warhol quanto os revolucionários do SoHo começaram a entrar de vez para o mercado da arte como ele se estrutura hoje, e esse furor da Factory e da rua Greene foi dissipando até arte virar o que Warhol, sucinto, classificou como "business art".

Encerrado seu ciclo de vanguarda, Warhol termina pintando cifrões de dólares, que, ironia ou não, foram um fracasso de vendas. (silas martí)

ANDY WARHOL
AUTOR Arthur C. Danto
TRADUÇÃO Vera Pereira
EDITORA Cosac Naify
QUANTO R$ 49 (224 págs.)

CITY BOY
AUTOR Edmund White
TRADUÇÃO José Rubens Siqueira
EDITORA Benvirá
QUANTO R$ 34,90 (336 págs.)

112 GREENE STREET
AUTOR Jessamyn Fiore
EDITORA DAP-Distributed Art
QUANTO R$ 142,10 (192 págs.)

Posted by Cecília Bedê at 9:43 AM

agosto 7, 2012

Funarte: R$ 161 milhões para as artes, O Globo

Funarte: R$ 161 milhões para as artes

Matéria originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 3 de agosto de 2012.

Verba, a maior na história da instituição, será destinada a ações até 2013

RIO - Acompanhado da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, o presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Antonio Grassi, anunciou anteontem, no Palácio Gustavo Capanema, o Programa de Fomento às Artes da instituição. Com orçamento de R$ 161,7 milhões, o maior na história da Funarte, 60% acima do de 2011, o programa contempla diversas áreas com prêmios e bolsas para criação e residência artística, cursos de capacitação técnica, além de ações internacionais como o Ano do Brasil em Portugal e o Ano de Portugal no Brasil, que começa no dia 7 de setembro e termina em 10 de junho de 2013. A agenda internacional inclui a Mostra Personagens e Fronteiras, o 30º Congresso Mundial de Educação Musical, a Bienal de Veneza e a Bienal de Havana, entre outros eventos escalados para acontecer até o ano que vem.

O circo, o teatro e a dança receberão um montante de R$ 43,6 milhões. O valor será dividido em editais para os prêmios Myriam Muniz (de teatro), Klauss Vianna (de dança), Luso Brasileiro (de dramaturgia) e Artes na Rua, entre outros, além de festivais como o Mambembão, bienais, seminários e mostras. A área da música receberá R$ 18,8 milhões em editais que contemplam o Centenário de Luiz Gonzaga, além dos prêmios de composição clássica, música brasileira e outros. As artes visuais receberão R$ 12,5 milhões, usados para os prêmios de Arte Contemporânea, voltado para ocupação de espaços, o Marcantonio Vilaça (de artes plásticas) e o Marc Ferrez (de fotografia).

Além desses valores, R$ 33,8 milhões serão endereçados a programas que mesclam outras atividades artísticas, como o Prêmio de Criação Literária, projetos de residência em Pontos de Cultura, assim como editais de apoio a festivais de outra áreas. A Funarte destinará ainda R$ 43,4 milhões para projetos de restauro e reequipamento de espaços culturais como o Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, e o Centro Cultural Aldeia de Arcozelo, no município de Paty do Alferes, no estado do Rio.

Posted by Cecília Bedê at 10:59 AM

Prorrogado prazo para indicação dos membros da CNIC por Carolina Borralho, site do MINC

Prorrogado prazo para indicação dos membros da CNIC

Texto de Carolina Borralho originalmente publicada no site do MINC em 3 de agosto de 2012.

Inscrições foram prorrogadas até o dia 10 de setembro

O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic), prorrogou até o dia 10 de setembro o prazo de indicação dos membros que comporão a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) para o biênio 2013/2014. O Edital de alteração foi publicado ontem no Diário Oficial da União.

A CNIC é um órgão colegiado de assessoramento integrante da estrutura do Ministério da Cultura, tendo, entre outras funções, a de subsidiar as decisões do MinC na aprovação dos projetos culturais submetidos para captação de recursos via renúncia fiscal da Lei Rouanet.

O processo de habilitação está aberto desde o dia 10 de maio, com metodologia que contempla a representatividade das cinco regiões brasileiras no plenário da Comissão e com caráter democrático, plural e aberto à participação da sociedade, já que cada entidade habilitada indica representante de uma região.

Além da prorrogação do prazo de inscrições, o Edital de alteração flexibiliza o item 2.5.2, que torna alternativas as formas de comprovação de atuação nacional por parte das entidades culturais.

O envio das documentações também foi flexibilizado. Podem participar do processo as entidades de caráter associativo de âmbito nacional representativas de setor cultural, artístico ou do empresariado nacional, devendo preencher o Formulário de Inscrição e encaminhar toda a documentação das seguintes formas:

1- Para o e-mail editalCNIC@cultura.gov.br;

2 – Diretamente para a Caixa Postal nº 8591, CEP: 70.312-970 – BRASÍLIA-DF, aos cuidados da “Comissão Avaliadora do Edital para habilitação de entidades para indicação de membros da CNIC”;

3 – No Protocolo da sede do MinC, na Esplanada dos Ministérios, Bloco B – térreo – Brasília-DF, aos cuidados da “Comissão Avaliadora do Edital para habilitação de entidades para indicação de membros da CNIC”.

Os que encaminharem as documentações eletronicamente, caso sejam habilitados, deverão enviar os originais para a caixa postal supracitada, conforme estabelecido no Edital.

Os demais itens do processo permanecem inalterados, e os documentos já enviados continuam valendo.

Preenchimento de vagas

O processo seletivo visa ao preenchimento de 21 vagas (7 titulares e 14 suplentes) para representantes de entidades associativas de setores culturais e artísticos e das representativas do empresariado, sendo composto de duas etapas: uma fase inicial de habilitação das entidades e uma fase final de indicação dos representantes das entidades, para decisão da ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

A Comissão Avaliadora é composta por gestores do Ministério da Cultura e suas vinculadas: Fundação Nacional de Artes (Funarte), Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), Fundação Cultural Palmares (FCP), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Agência Nacional do Cinema (Ancine) e Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A avaliação das inscrições é realizada mediante a análise dos documentos apresentados, de forma a averiguar se a documentação comprova a idoneidade na representação e se a atuação na área cultural se dá predominantemente em âmbito nacional.

A divulgação da lista das entidades habilitadas para o processo de indicação acontecerá por meio do sítio do Ministério da Cultura e publicação no Diário Oficial da União.

Formulário de Inscrição

Edital

Edital de alteração

Mais Informações: (61) 2024-2137 – editalCNIC@cultura.gov.br
Érika Freddi, Coordenadora Administrativa da CNIC, Sefic/MinC

(Texto: Caroline Borralho, Sefic/MinC)

Posted by Cecília Bedê at 10:14 AM

Marchand Larry Gagosian trará as maiores estrelas de sua galeria à ArtRio por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Marchand Larry Gagosian trará as maiores estrelas de sua galeria à ArtRio

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 3 de agosto de 2012.

Quando Larry Gagosian, 67, se mudou de Los Angeles para Nova York no fim dos anos 1970, abriu sua primeira galeria de frente para a Leo Castelli, casa que havia descoberto nomes como Roy Lichtenstein, Jasper Johns e, mais tarde, Andy Warhol.

Hoje, Gagosian --que começou com uma loja de pôsteres na Califórnia-- tem três galerias em Manhattan e outras nove ao redor do mundo, de Londres a Hong Kong.

No elenco, além de Lichtenstein, Johns e Warhol, Gagosian passou a vender Joseph Beuys, Pablo Picasso e estrelas da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons, Takashi Murakami, Cindy Sherman, Richard Serra e todo e qualquer artista com cifras que passam da casa dos milhões de dólares.

É ele quem alavanca as obras a tamanhos valores.

No mercado da arte, Gagosian é o homem mais poderoso do mundo, capaz de elevar preços a patamares inimagináveis. Também foi ele quem produziu exposições em galeria como as dos grandes museus --custe o que custar.

Desde que a Europa e Estados Unidos vêm desmoronando com a crise que se arrasta há quatro anos, Gagosian tem buscado outras frentes de negócios, primeiro com um espaço em Hong Kong e, agora, com sua visita ao Brasil.

Sua galeria terá presença massiva na próxima ArtRio, feira que acontece em setembro na capital fluminense.

Será um teste de mercado para o marchand avaliar se abrirá um espaço no país.

Um primeiro passo desse movimento foi a mostra de concretos e neoconcretos que a filial de Paris da galeria fez há um ano.

"Mesmo que estejamos num momento econômico ruim, há tremendas concentrações de dinheiro em outras partes do mundo", diz Gagosian em entrevista exclusiva à Folha.

"A América Latina se tornou um mercado importante, em que o Brasil lidera."

Para a ArtRio, Gagosian aposta nas obras de Alexander Calder, Lucio Fontana, Jeff Koons, Takashi Murakami, Robert Rauschenberg, Roy Lichtenstein e Andy Warhol, alguns dos artistas que levará a seus dois espaços na ArtRio.

"É mais fácil vender uma pintura de US$ 50 milhões do que uma de US$ 500 mil", diz.

"Tem tanta competição pelas obras-primas no mercado que pessoas com muito dinheiro se sentem mais seguras se estão comprando algo muito caro. Elas sabem que arte nunca perde o valor. Elas acreditam em arte."

Leia a entrevista de Gagosian à Folha:

*

Folha - Mesmo com a crise econômica, vendas de arte vêm batendo recordes. Como explicar o mercado hoje?
Larry Gagosian - Com ou sem crise, há tremendas concentrações de dinheiro nas mãos de poucas pessoas, e elas querem fazer algo com esse dinheiro. Colecionar arte se tornou algo em que as pessoas acreditam. Elas acreditam em arte e no valor da arte. Sabem que arte com importância histórica, boa arte, nunca perde o seu valor.

Colecionadores se tornaram mais importantes do que os museus na legitimação da obra de um artista?
Todo o ritmo hoje é ditado pelos colecionadores. Se você quiser vender algo para um museu, é preciso ficar quieto, porque um colecionador pode entrar na galeria e fazer um cheque a qualquer momento. Eles é quem ditam o ritmo do mercado, e isso é algo recente. Também o volume de dinheiro que eles gastam não tem precedentes.
Essas pessoas têm tanto dinheiro que eles não só podem comprar qualquer obra como também podem construir um prédio incrível para abrigar essa coleção e conseguir recursos para financiar esse novo museu para sempre.

Feiras de arte se multiplicam pelo mundo. Estar em todas elas é importante para sobreviver no mercado global?
Esse é o motivo pelo qual estamos fazendo essa feira [ArtRio] no Brasil, porque é difícil entrar em mercados emergentes. Percebi isso lá atrás, quando comecei em Los Angeles, mas todos os colecionadores estavam em Nova York. Hoje nem Nova York concentra todos eles, as pessoas já não vão lá como iam no passado. Os Estados Unidos ainda são o maior mercado de arte, mas você sai perdendo se não tenta atingir museus e colecionadores em outros mercados.

A geografia do mercado de arte mudou? De onde vem a maior parte do dinheiro hoje?
Eu diria que o dinheiro está na Ásia. China, Coreia e até o Japão são mercados substanciais. Na Rússia, o colecionismo sofreu com a queda no preço do petróleo e a crise.
A América Latina está se tornando cada vez mais importante. O Brasil parece liderar isso pelas feiras que tem, e o México também se inseriu no mercado internacional. Isso tudo é muito recente.

Qual é sua estratégia na representação de um artista? Como escolhe os nomes que entram para o elenco da Gagosian?
Não sei se tenho uma estratégia, acho que sou mais instintivo. Também, se tivesse uma estratégia, não contaria para ninguém qual é. Não há segredo, é só fazer exposições de artistas importantes de um jeito sério. Nem sempre isso rende bons resultados financeiros, mas torna o meu trabalho mais interessante.

Posted by Cecília Bedê at 10:07 AM

Nome forte da arte inglesa chega ao país por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Nome forte da arte inglesa chega ao país

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 7 de agosto de 2012.

Isaac Julien abre mostra com quatro instalações no Sesc Pompeia, em SP, como parte de evento paralelo à Bienal

"Geopoéticas" também vai abrigar 11 filmes realizados entre 1984 e 2008, com estética underground e "queer"

Em 1995, o então cineasta britânico Isaac Julien, entrou na galeria Gagosian, de Nova York, que apresentava uma instalação em vídeo de Douglas Gordon, sem saber que aquilo mudaria os rumos de sua carreira.

"Eu tive um 'clique' e decidi que queria exibir em museus e fazer trabalhos fotográficos, pois o cinema estava muito restrito", diz Julien.

Em abril, ele visitou o Sesc Pompeia, em São Paulo, para conhecer o espaço que vai acolher "Geopoéticas", quatro instalações de sua produção na última década.

A mostra é organizada pelo Videobrasil, em parceria com o Sesc, como exposição paralela à 30ª Bienal de São Paulo, dando sequência à exposição de Joseph Beuys, realizada há dois anos.

Enquanto a mostra de Beuys abordava a criação artística de forma essencialmente política, com Julien, tal questão ganha outra dimensão.

"Ele possui uma forma única de construir uma narrativa no espaço a partir do acúmulo de sons e de imagens, primorosamente captados e editados, e de um uso cada vez mais complexo de projeções e telas", conta Solange Farkas, diretora do Videobrasil e curadora da mostra.

Além de quatro grandes instalações no Sesc Pompeia, "Geopoéticas" vai apresentar 11 filmes de Julien, realizados entre 1984 e 2008.

Eles serão exibidos pelo canal SescTV durante a exposição. Para cada filme, Julien gravou uma pequena introdução, na qual aborda as questões essencial das produções.

A migração para as artes visuais, no fim dos anos 1990, na verdade significou um retorno. Julien, 52, estudou arte na St. Martin's School, em Londres, com figuras como o pintor Peter Doig e o estilista John Galliano.

"Era um período de exploração de diferentes abordagens para a arte, havia uma forma interdisciplinar de pesquisa, diferente do que ocorre hoje", lembra o artista.

"Eu era interessado em pintura e em moda, e escolhi cinema porque ele reunia todos esses aspectos."

Seus primeiros filmes, como "Looking for Langston" (1989), estiveram inseridos na cena underground londrina dos anos 1980 e seguiam uma estética "queer", como o desejo de negros gays, como outros cineastas de sua geração.

Não por acaso, sua mais recente produção para cinema, "Derek" (2008), feito em colaboração com a atriz Tilda Swinton, faz homenagem ao cineasta "übergay" Derek Jarman (1942-1994). "Looking for Langston" e "Derek" serão exibidos pelo SescTV.

A fértil cena independente, contudo, não durou muito. "Acabou e antecedeu a chamada 'Jovem Arte Britânica', a partir de 1993", diz.

O novo grupo foi capitaneado por artistas como Damien Hirst e Tracey Emin, ainda hoje com forte repercussão, mas ganha de Julien a definição: "Crianças fashionistas, conectadas ao mercado de arte."

Exposição reúne obras autobiográficas

As imagens deslumbrantes das paisagens de desertos africanos ou de lagos em florestas chinesas que fazem parte das obras recentes de Isaac Julien, estão longe de ser meros cartões postais.

Tais locais costumam esconder tragédias, que se transformam na matéria central das produções do artista britânico. "Eu sempre estive interessado em alegorias políticas", diz Julien.

Em "Ten Thousand Waves", de 2010, ele parte da morte de 23 chineses em Morecambe Bay, na Inglaterra, em 2004, para tratar da cultura chinesa de forma complexa.
Esse tipo de procedimento é chamado por Julien, de "etnografia poética". "No fim", diz ele, "é um trabalho sobre mim mesmo, sobre a poética do viajar".

A mescla de suas origens -ele nasceu em Londres, em uma família caribenha com origens africanas- resultou em "Fantôme Créole", de 2005, e relaciona expedições coloniais ao continente africano. Suas origens estão ainda em "Paradise Omeros" (2002).

Finalmente, faz parte ainda da mostra "O Leopardo", de 2007, inspirado no filme homônimo de Luchino Visconti (1906-1976).

Posted by Cecília Bedê at 9:04 AM

agosto 6, 2012

Jardins de Inhotim viram alvos de disputa judicial e denúncias na web por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Jardins de Inhotim viram alvos de disputa judicial e denúncias na web

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de agosto de 2012.

Para Justiça, projeto paisagístico é de autoria de Luiz Carlos Orsini; instituição recorreu

Sediado em MG, centro de arte contemporânea é acusado de coleta irregular de plantas; instituto nega crime

Os idílicos jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), tornaram-se tema de dois recentes debates, um na Justiça e outro virtual.

Em 24 de outubro do ano passado, a juíza Claudia de Lima Menge, da 20ª Vara Cível de São Paulo, condenou o centro de cultura contemporânea mineiro a inserir, em qualquer material de divulgação da instituição, o nome de Luiz Carlos Brasil Orsini como autor de 250 mil m² de seu projeto paisagístico.

A Justiça estipulou ainda o pagamento de R$ 50 mil por danos morais, pelo tempo que Orsini não foi devidamente creditado.

O caso foi revelado pelo jornal "O Estado de S. Paulo" na semana passada. O Instituto Inhotim, que credita parte do projeto paisagístico a Roberto Burle Marx (1909-1994), recorreu da decisão.

"O Orsini entrou com a ação porque, além da autoria dele não ser pública, ele sempre precisou se justificar porque as pessoas achavam que ele estava mentindo", diz José Mauro Decoussau Machado, advogado do paisagista.

Segundo ele, a ação se baseia no pressuposto de que "uma obra paisagística é tratada pela lei de direitos autorais com as mesmas prerrogativas de uma obra de arte, e Orsini dedicou quatro anos de sua vida, entre 2000 e 2004, a Inhotim".

No processo movido pelo advogado, consta uma carta de Bernardo Paz, o colecionador e criador de Inhotim, segunda a qual "três especialistas" criaram os jardins de Inhotim: Orsini, com 90% do paisagismo, Roberto Burle Marx, com 4%, e Pedro Nehring Cesar, com 6%. Esse último é conhecido por ter sido um dos autores dos polêmicos jardins da Casa da Dinda, pivô dos escândalos do governo Collor (1990-1992).

BURLE MARX

Inhotim sempre associou seus jardins ao nome de Burle Marx, mesmo que como inspiração. Ele conheceu o local nos anos 1980 e teria dado orientações a Paz.

Parte do material de divulgação, no entanto, era menos discreto. "O parque tropical possui áreas criadas pelo famoso paisagista Roberto Burle Marx", diz um folheto da instituição, distribuído no local há dois anos.

"A edição que você teve acesso [citada acima] foi recolhida dois dias depois da sua distribuição e substituída por outra corrigida", diz Ronald Sclavi, diretor de comunicação de Inhotim.

Em oposição à ação de Orsini, a instituição argumenta ainda que, desde 2010, Inhotim se configurou como um jardim botânico. "Como tal, dificilmente temos condição de creditar o paisagismo a quem quer que seja, tal o dinamismo de plantio de espécies da flora", diz Sclavi.

COLETA SUSPEITA

Já o debate virtual sobre o jardins de Inhotim surgiu a partir de um e-mail que circulou em junho passado.

Enviada por Eduardo Gomes Gonçalves, professor do departamento de Botânica, da Universidade Federal de Minas Gerais, a mensagem afirma que "Bernardo Paz (o proprietário) costumava comprar plantas retiradas da natureza sem autorização, em grandes quantidades".

Gonçalves afirma ainda que palmeiras de Inhotim foram coletadas ilegalmente em Áreas de Proteção Permanente (APP). Ele trabalhou em Inhotim de 2009 até recentemente. No e-mail, diz ter se calado por "questões contratuais" e descoberto "recentemente com advogados" que não precisa se "calar".

No dia 6 de julho passado, Inhotim emitiu uma nota de esclarecimento em seu site na qual contesta as suspeitas levantadas por Gonçalves.

"Todas as coletas realizadas pelo Inhotim foram feitas a partir de licenças ambientais concedidas pelo Ministério do Meio Ambiente", afirma a nota da instituição.

Ainda segundo o comunicado, "as denúncias contidas no e-mail calunioso replicado foram investigadas por autoridades ambientais que atestaram a legalidade das nossas ações".

Criado em 2005 por Bernardo Paz, o centro de arte contemporânea Inhotim bateu recorde de público no mês passado. Foram 46.792 visitantes, um aumento de 48% em relação à julho de 2011.

Posted by Cecília Bedê at 4:34 PM

Bienal terá brancura íntima de Absalon por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal terá brancura íntima de Absalon

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 5 de agosto de 2012.

Com 'manifesto da solidão', ex-soldado israelense radicado em Paris é um dos nomes centrais da próxima edição

Obra de artista que morreu anônimo aos 28 anos mistura ações performáticas, vídeo, arquitetura e escultura

Quando Absalon chegou a Paris e foi morar na rue du Temple em 1987, a primeira coisa que fez foi pintar tudo de branco -chão, teto e paredes-, como se expurgasse qualquer traço do passado.

Na capital francesa, Absalon matou sua identidade antiga. Eshel Meir, soldado israelense que desertou alegando loucura, virou Absalon, artista que teve ascensão meteórica na cena parisiense até sua morte por complicações decorrentes do vírus da Aids em 1993, aos 28 anos.

Numa brevíssima carreira, Absalon -nome que adotou em homenagem ao filho rebelde do rei Davi, que foi à guerra contra o próprio pai- criou um repertório de formas que estarreceu os críticos.

Era uma mistura de arquitetura moderna com escultura minimalista e performance, o embate visceral do corpo contra formas construídas, tudo sempre branco.

"Ele quis começar do zero em Paris", conta Susanne Pfeffer, pesquisadora da obra do artista que realizou uma aclamada retrospectiva dedicada a ele em Berlim. "Tudo se reduz a uma linguagem de formas geométricas, até que seu corpo começa a entrar nisso. Ele tinha muita energia, mas sua obra é mínima."

Tão mínima, branca e imaculada, que Absalon também ficou de fora do radar. É quase impossível encontrar registros de suas ações ou ver obras desse artista que desapareceu sem deixar herdeiros, longe de sua família em Israel, que mal acompanhou o que construiu em Paris.

REPARAÇÃO

Na próxima Bienal de São Paulo, em setembro, essa lacuna histórica será reparada em certo grau, com a vinda ao país de um amplo conjunto de suas obras. A maior parte delas passou pelo museu Boijmans Van Beuningen, em Roterdã, onde a reportagem visitou a mostra.

No conjunto estarão três de suas chamadas células, habitações que ele construiu para uma única pessoa, destinadas a um lugar no centro de metrópoles como Nova York, Paris ou Frankfurt. São espaços autossuficientes, inspirados no vocabulário modernista de Le Corbusier.

"Essas obras realizadas no final do século 20 também falam do fim das ilusões modernas, do fim das utopias românticas", analisa Luis Pérez-Oramas, curador da Bienal. "Elas abordam a intimidade existencial do homem moderno, são um manifesto potente da solidão, de defesa ante um mundo que perdeu a noção de privacidade."

No pavilhão da Bienal, desenhado por Oscar Niemeyer, sua obra de curvas e ângulos modernos terá outra leitura, um embate direto com o país de Lygia Clark e Hélio Oiticica, artistas que também construíram ambientes penetráveis, obras imersivas como solução quase terapêutica.

"É como se esses recintos brancos fossem também espaço de luto", compara Pérez-Oramas. "São como os 'Abrigos Poéticos' de Lygia Clark, que podem ser habitados. Trazer Absalon ao Brasil é buscar outro campo de ressonância para sua obra."

INDIVIDUALIDADE

Mais do que instalações, suas células de habitação eram proposições para a vida solitária, um convite ao isolamento como antídoto à loucura da vida na cidade.

"Ele está interessado em sobreviver como indivíduo na sociedade, como manter a individualidade", diz Pfeffer.

Mas Absalon também entende a angústia dessa solidão. Outra vertente de sua obra parece ser uma resposta do corpo às construções que passou a vida arquitetando, como cenários que podem levar tanto à paz quanto à mais aguda insanidade.

Nos vídeos que fez, Absalon digladia com esses ambientes. Ele aparece gritando até perder a voz, de camisa branca contra um fundo branco, numa de suas performances mais conhecidas.

Ele também aparece lutando contra o vazio num vídeo que estará na Bienal, um exercício solitário de esforço físico e exaustão contra o nada. "A arquitetura vai virando corpo, e o corpo vai virando arquitetura", diz Pfeffer. "Esses trabalhos são brutais."

Da mesma forma que faz esculturas a partir das estratégias da arquitetura moderna, Absalon enxerga a vida dentro desses espaços como um elenco restrito de comportamentos, uma lista de atividades coagidas pelo espaço.

Esse repertório é explorado de cabo a rabo em "Solutions", vídeo que estará na Bienal em que o artista tenta executar sozinho todas as ações possíveis entre quatro paredes. Ele toma banho, fuma, dorme e se masturba. Faz tudo em silêncio, vestido de branco contra fundo branco.

Posted by Cecília Bedê at 4:01 PM

Pivô por Marcos Augusto Gonçalves, Folha.com

Pivô

Coluna de Marcos Augusto Gonaçalves originalmente publicada na Folha.com em 6 de agosto de 2012.

Fui visitar a Bienal de Chernobyl. Fica sob um sinuoso cartão-postal de concreto, com 140 metros de extensão e 118 metros de altura, localizado no centro de São Paulo. É ali, numa área de 3.500 m², em três andares do embasamento do edifício Copan, que um grupo de pessoas entre 25 e 35 anos prepara-se para lançar o Pivô, espaço que pretende ser "uma plataforma de diálogos e experimentações artísticas".

A inauguração vai acontecer no dia 4 de setembro, paralelamente à abertura da 30ª Bienal de São Paulo, com uma exposição que reunirá de representantes da jovem guarda das artes a nomes conhecidos, como Carmela Gross. A galeria Mendes Wood, uma das modernas da cidade, vai ter um salão só para seus artistas. Por enquanto, o cenário é de quebradeira, entulho e obras.

"Por isso começamos a chamar de Bienal de Chernobyl", brinca a artista Fernanda Brenner, 26, idealizadora do projeto, que ela por ora administra com três amigos e o apoio de contadores e advogados.

Em outros tempos, o espaço abrigava uma clínica dentária para funcionários do Bradesco. Depois foi leiloado e permaneceu quase vinte anos fechado, tempo em que o proprietário, sem sucesso, fez algumas tentativas de vendê-lo. Fernanda prefere não entrar em detalhes sobre nomes e relações.

"O que interessa é que fizemos um contrato de comodato e vamos criar um lugar novo no centro da cidade, um espaço cultural múltiplo e aberto", diz ela, enquanto um dos rapazes da diretoria cruza o pavimento em cima de um skate.

"O banheiro fica longe da sala onde funciona o escritório, então compramos esse skate, pra quem quiser ir mais rápido", explica.

A ideia de criar o Pivô formou-se depois de uma primeira ocupação da área, no ano passado, com uma intervenção coletiva chamada "Projeto Imóvel", que reuniu 28 jovens artistas, sem representação em galerias, além de workshops e palestras. Deu mais que certo. Bombou.

No dia da inauguração muita gente não conseguiu entrar, e a festa nas adjacências do Copan foi animada até tarde.

Dia 4 de setembro também será noite de festa, depois da abertura da exposição, que vai se chamar "Da Próxima Vez Eu Fazia Tudo Diferente" e exibir trabalhos de 14 artistas.

Para o curador, o arquiteto Diego Matos, a ideia é "estabelecer atritos na confluência entre arte e arquitetura", já que o evento acontece "num edifício de tamanha carga simbólica como o Copan", num espaço desativado e fantasmagórico, que parece suspenso no tempo.

Curiosamente, o projeto do Copan, que se tornaria um marco da triunfante locomotiva paulista, na década de 1960, nasceu em 1951, ano em que se inaugurava a primeira Bienal. Projetado por Oscar Niemeyer, com apoio de seu escritório em São Paulo, sob o comando do arquiteto Carlos Lemos, a encomenda original era um conjunto com dois prédios interligados, um de apartamentos e um hotel. Uma série de percalços levou o Bradesco a assumir a obra. O projeto sofreu modificações e Niemeyer nunca o assumiu por inteiro, embora reconheça que nasceu de suas mãos a linha curva do edifício, inaugurado em 1966.

Detonado pelo tempo, o Copan, depois de uma fase de decadência, revitaliza-se -e em breve deverá ter sua fachada restaurada. Ali já funciona há anos uma das melhores cozinhas de bar da cidade, o Dona Onça, e pessoas as mais diversas moram em seus 1.160 apartamentos -entre elas a atriz Mika Lins, o fotógrafo Rui Mendes e o diretor da Casa do Saber, Mario Vitor Santos. Agora é a vez da moçada do Pivô.

Posted by Cecília Bedê at 1:28 PM

Caderno 3 Simpósio A arte e o pensamento na encruzilhada contemporânea por Iracema Sales

A arte e o pensamento na encruzilhada contemporânea

Matéria de Iracema Sales originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 6 de agosto de 2012.

Encontro internacional interdisciplinar acontece amanhã e quarta-feira, no Centro Cultural do BNB

Não é de hoje o flerte entre arte, ciência e tecnologia. No entanto, a partir das últimas décadas do século XX e início do XXI, a relação vem sendo cada vez mais próxima, sobretudo com a entrada em cena das novas tecnologias da informação. Do aperfeiçoamento da perspectiva no Renascimento até chegar à arte contemporânea, desenvolvida na sociedade da informação, muito caminho foi percorrido, além do mundo passar por diversas transformações. "Como essa arte contemporânea se relaciona com o mundo contemporâneo?", indaga Cesar Baio, artista, pesquisador e professor de Cinema e Audiovisual do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará (ICA/UFC). O questionamento vale, também, como convite para o simpósio internacional "A vida secreta dos objetos", que pretende discutir a mudança de paradigma que se propõe pensar a relação entre homem/ciência/vida contemporânea e arte.

O alemão Siegfried Zielinski, autor de "Arqueologia da Mídia": conferência no CCBNB


O evento, que reúne 20 convidados, entre teóricos da comunicação, filósofos, pensadores e artistas nacionais e internacionais, acontece amanhã e quarta-feira, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). Para mostrar as diversas formas possíveis de diálogo, o simpósio será aberto por uma "pré-conferência performática" - "Outras formas de dizer: performatividades e sonoridades", encenada por um grupo de artistas cearenses, às 16 horas.

Em seguida, o teórico da comunicação norte-americano Richard Grusin profere conferência, às 17 horas. Na sequência, o teórico da comunicação Norval Baitello, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), participa de mesa juntamente com o pesquisador e performer Wellington Júnior (UFC). Encerrando o primeiro dia, o filósofo Graham Harman, da Universidade Americana do Cairo, fala sobre a nova epistemologia das ciências humanas.

Zielinski e Flusser

No segundo dia, Regina Silveira, uma das artistas visuais brasileiras mais conhecidas no cenário internacional faz a primeira conferência do simpósio, que será encerrado com a palestra de Siegfried Zielinski, teórico de mídia alemã, considerado o fundador da arqueologia da mídia. Em outras palavras, a teoria lança o desafio de como pensar os processos midiáticos contemporâneos com os utilizados nos primórdios das mídias, explica Cesar Baio. Antes, acontece a mesa "Vilém Flusser: materialidades emergentes da arte e tecnologia", sobre o filósofo theco que morou 30 anos no Brasil, produzindo até o fim dos anos 1980.

Interseção

Dentre as transformações que vem ocorrendo na atualidade, uma delas chama a atenção da comunidade científica mundo afora: a interseção entre as diversas áreas do conhecimento. Ou seja, como os saberes se inter-relacionam, mas sem perder de vista a arte. Trata-se de uma nova "epistemologia das ciências humanas", explica Cesar Baio, que coloca mais um ingrediente na discussão, como essas propostas artísticas se inserem no contexto do mundo contemporâneo no qual as novas tecnologias da comunicação também se encontram.

Conforme Baio, o projeto é realizado pelo Banco do Nordeste (BNB) com apoio da UFC e circula pelas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Fortaleza. Cada cidade enfocou uma área do conhecimento. No caso de Fortaleza, a arte vai servir para pontuar as discussões em torno dessa mudança de postura de pensar a ciência.

A proposta é discutir um outro caminho para se chegar ao conhecimento no campo das ciências humanas. "Essa nova epistemologia se desdobra na arte", explica Cesar Baio. O desafio maior é tentar construir uma narrativa a partir da junção de discursos produzidos por teóricos da comunicação, antropólogos e artistas. Daí, a palavra de ordem do evento, com duração de dois dias, ser discutir a construção de outras possibilidades de uma nova relação entre arte, ciência e sociedade.

Diferentemente da arte, que sempre manteve uma certa aproximação com outras áreas do saber, "a ciência compartimentava muito o conhecimento", esclarece Cesar Baio, chamando a atenção para essa "divisão" que, aos poucos, vem desaparecendo. Hoje, a interdisciplinaridade, sobretudo quando está em construção a sociedade do conhecimento, vem se tornando mais aceita, destravando as portas das ideias. Tanto nos laboratórios de pesquisa quanto na formulação do pensamento das ciências humanas é possível perceber essa aproximação. O fato demonstra que o "conhecimento não é estanque, sendo essa realidade mais evidente hoje".

A versão cearense do projeto "A vida secreta dos objetos" que foca sua temática na arte, em especial as visuais, é uma demonstração de que é possível um diálogo plural não apenas entre as áreas do conhecimento, mas também das instituições. O projeto é fruto de parceria com o curso de Cinema e Audiovisual e com a Comissão de Implementação do Mestrado em Artes da UFC e mais sete programas de pós-graduação em comunicação brasileiros.

A coordenadora do seminário, Jacqueline Medeiros, afirma que a realização do simpósio é uma maneira de colocar Fortaleza no circuito das discussões que acontecem em outras quatro cidades, além de considerar oportuno o tema. "A arte está no dia a dia das pessoas", revela, destacando a difusão das artes visuais. Outro ponto observado, a participação dos artistas nas discussões, assim podem falar de como se relacionam com o mundo através da arte.

O artista, professor do Ica e um dos organizadores do simpósio, Yuri Firmeza, destaca, ainda, a pluralidade de vozes, ao ressaltar que também participam pessoas que não estão vinculadas a nenhuma universidade. Além de artistas que não estão em instituições. Será um espaço para discutir "essa ideia de deslocamento epistemológico das ciências humanas e o nosso modo de estar no mundo". Fala das novas abordagens do artista com o mundo e sua relação com a ciência. "Como o artista pode se relacionar com essa realidade?", pergunta o artista, que questiona o seu lugar nesse contexto de mundo pautado por relações intermediadas pelas tecnologias.

Posted by Cecília Bedê at 1:19 PM

agosto 2, 2012

Arquiteto consegue na Justiça crédito pelo paisagismo do Instituto Inhotim por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

Arquiteto consegue na Justiça crédito pelo paisagismo do Instituto Inhotim

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 1 de agosto de 2012.

Segundo advogado, instituto omitia projeto de Luiz Carlos Orsini em benefício de Burle Marx, que apresentou sugestões aos jardins em 1984; museu recorreu da decisão

A juíza Claudia de Lima Menge, da 20ª Vara Cível de São Paulo, condenou o Instituto Inhotim, gestor do maior museu de arte contemporânea do País, em Minas Gerais, a dar o crédito de 250 mil m² de seu projeto paisagístico para o arquiteto Luiz Carlos Brasil Orsini, que tem escritórios em São Paulo e Belo Horizonte. Além disso, a juíza arbitrou uma indenização de R$ 50 mil pelo tempo em que esse crédito esteve ausente nas peças de divulgação do museu (uma multa de R$ 20 mil por menção do projeto sem o nome do arquiteto).

O advogado de Orsini, José Mauro Decossau Machado, disse que a ação se originou no fato de o Inhotim omitir o nome de Orsini em benefício do paisagista Roberto Burle Marx (1909- 1994). "Provavelmente o Inhotim adotou essa postura porque o nome de Burle Marx atrai mais atenção do público e da imprensa", afirmou.

A obra de paisagismo tem proteção legal como criação intelectual. O Instituto Inhotim recorreu da decisão ao Tribunal de Justiça de São Paulo e o julgamento do recurso ainda não tem data. Segundo a coordenadora de Imprensa de Inhotim, Isabela Marschner, o paisagismo de Inhotim tem uma "assinatura institucional", e por isso conta "com a colaboração de uma equipe composta por cerca de duas centenas de pessoas como curadores botânicos, biólogos, engenheiros agrônomos, paisagistas e jardineiros, sem falar ainda em trabalhadores que já deixaram a instituição e também contribuíram com essa obra, um feito coletivo e mutável (...)".

Segundo Isabela, com uma área de visitação de mais de 110 mil m², o centro de artes está em "constante transformação paisagística em função da expansão da entidade, inaugurações de galerias, obras externas e consequente ampliação da infraestrutura de visitação (alamedas, trilhas, caminhos)".

Tal paisagismo é elogiado internacionalmente. "Poucas instituições se dão ao luxo de devotar milhares de acres de jardins e montes e campos a nada além da arte, e instalar a arte ali para sempre", assinalou o New York Times.

A indenização de R$ 50 mil é simbólica. "Trata-se de uma indenização pela violação do direito do autor de ter o seu nome ligado à obra, o qual é garantido pela Lei de Direitos Autorais. Esse valor não se refere a todo prejuízo financeiro que o Orsini sofreu por conta da conduta do Inhotim, o que ainda poderá ser cobrado em ação própria", afirmou o advogado Machado.

O dono de Inhotim, o empresário Bernardo Paz, conta que foi amigo de Burle Marx, que visitou o local e o aconselhou sobre o paisagismo. O vínculo estava destacado no site do Inhotim, acessado pela juíza do caso. Ali, dizia-se o seguinte: "Em 1984, o local recebeu a visita do renomado paisagista Roberto Burle Marx, que apresentou algumas sugestões e colaborações para os jardins".

A juíza compreendeu que a botânica é um dos focos principais de atuação do centro de artes. A estratégia de composição desse acervo botânico teria então a participação de Burle Marx (8 mil m²), Pedro Nehring (12 mil m²) e Luiz Carlos Brasil Orsini e o próprio Bernardo Paz no restante. "Como poderia fazer apenas 20 mil m² , como o instituto alega, se fiquei lá de 2000 a 2004, quatro anos completos?", indagou Orsini. "Vejo que não só se tratou de simplesmente excluir a autoria do promovente, mas sim de atribuí-la a outrem, indevidamente", diz a sentença.

Segundo Robério Dias, ex-diretor do Sítio Burle Marx e maior especialista na obra do grande paisagista, não há conhecimento de projetos pelo País que usem indevidamente seu nome. "O que tenho mais visto é quase o contrário disso, isto é, jardins que foram realmente projetados por Burle Marx e que, praticamente, às vezes por esquecimento, são ‘desatribuídos’ a ele. Cada vez menos gente sabe que foi ele quem projetou. O Largo do Machado, o Açude da Solidão e a Orla da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro são bons exemplos disso".

Posted by Cecília Bedê at 4:57 PM

Obras-primas impressionistas do Museu d'Orsay são expostas em SP por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Obras-primas impressionistas do Museu d'Orsay são expostas em SP

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de agosto de 2012.

Telas de Renoir, Monet, Cézanne, Van Gogh e Manet integram conjunto que chega ao CCBB

Mostra começa no sábado, com clássicos como 'Le Fifre', de Manet, e 'La Gare Saint-Lazare', de Monet

Nas décadas que vieram depois da invenção da fotografia em 1840, artistas libertaram a pintura do peso do real e fizeram da Paris da virada para o século 20 o centro do mundo da arte com um movimento de vanguarda que fundou o olhar moderno.

Impressionistas, que pintavam a partir de sensações do contato direto com a paisagem, sem se preocuparem com a fidelidade à retina, enquadraram o mundo em cores vibrantes e contornos fugidios -o movimento da vida moderna capturado nas duas dimensões da pintura.

Mestres dessa escola, como Pierre-Auguste Renoir, Claude Monet e Vincent van Gogh, serão todos reunidos agora na maior mostra do movimento já realizada no país.

São obras-primas do Museu d'Orsay, em Paris, que chegam neste sábado ao Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, espaço que teve um andar inteiro esvaziado para receber a exposição.

"Esse foi o primeiro momento em que a França teve uma arte de vanguarda", resume Guy Cogeval, diretor do Museu d'Orsay, em entrevista à Folha. "Agora que o mundo enxerga o Brasil como superpotência também na cultura, é hora de essas peças chegarem a uma cidade global como São Paulo."

Obras atmosféricas, pintadas sob a luz solar ou céus estrelados, essas peças escandalizaram uma Paris ainda viciada nos fru-frus dos românticos e na crueza do realismo de artistas como Gustave Courbet, que tentaram retratar a vida como ela era.

Mas Monet, Renoir, Cézanne e a trupe impressionista estavam mais interessados na vida como ela era sentida.

Uma das peças mais importantes da coleção do d'Orsay e obra central da mostra, "La Gare Saint-Lazare", vista da estação ferroviária de Paris que Monet fez em 1877, resumia a velocidade e o espírito industrial da época em locomotivas que se perdiam em nuvens de fumaça violeta.

Noutra vertente do movimento, Edouard Manet, que causara escândalo com sua Olympia e "O Almoço na Relva", foi recusado no Salão de Paris em 1866 com o singelo retrato de um garoto em uniforme militar tocando pífaro, uma espécie de flauta.

Jurados do salão consideraram o quadro "vulgar" e "ridículo", embora estivessem ali os primeiros acenos ao japonismo que informou os impressionistas, figuras arquetípicas contra planos de cor sólida e uma verticalidade fluida, além de uma luminosidade ampla e expressiva.

"É um menino anônimo, num quadro sem qualquer traço decorativo, muito moderno", diz Cogeval, que assina a curadoria com Caroline Mathieu. "Ele foi o ponto de partida de questões-chave do movimento."

Mais impressionista de todos eles, Monet tem na mostra, além da estação de trem, também uma das vistas de seu famoso jardim japonês, de plantas que quase afogam um lago sob uma ponte.

Renoir, outro nome potente do impressionismo, faz de sua representação da pele dos personagens quase um manifesto da escola. São colorações entre o branco e o rosado, figuras que parecem feitas de luz, a sensação de movimento fugaz em cada rosto ou expressão em cena.

EMBRIÃO DA VANGUARDA

Mas a mostra não fica presa ao apogeu do movimento e destaca também a transição dos primórdios do impressionismo para obras que serviram de embrião para as vanguardas que chacoalharam Paris no início do século 20.

Van Gogh e Paul Gauguin, que conviveram em Arles, no Sul da França, deram feições mais rudes aos traços e transformaram seus personagens em quase caricaturas, sem medo de subverter o retrato.

Paul Cézanne fez a ponte das impressões fugidias de Renoir e Monet para a geometria das figuras do cubismo de Pablo Picasso. Estão na mostra seu autorretrato contra fundo rosa, uma das obras mais célebres do artista, além de paisagens e naturezas-mortas que já demonstram como ele decupou o que via em cubos, esferas e cilindros.

Posted by Cecília Bedê at 4:36 PM