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junho 29, 2009

Pontos de Cultura unem Estado e governo federal por Jotabê Medeiros, O Estado S. Paulo

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 24 de junho de 2009.

Ação conjunta de secretaria paulista e Ministério da Cultura torna São Paulo maior detentor do programa, benefício que atinge 3 mil instituições culturais no País

Com opiniões divergentes em praticamente todo o espectro da política cultural, e em especial no tocante à reforma da Lei Rouanet, o Ministério da Cultura e a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo fizeram ontem uma pequena trégua para lançar robusta ação conjunta. O elogiado programa Pontos de Cultura, menina dos olhos do governo federal, foi "adotado" pela Secretaria, e os dois governos anunciaram plano de investir R$ 54 milhões em três anos no Estado.

Segundo a secretaria, a intenção é atender 300 instituições em todo São Paulo, o que tornaria o Estado o detentor da maior rede de Pontos de Cultura do Brasil (em janeiro, o Rio de Janeiro anunciara edital para a seleção de 150 novos Pontos de Cultura, com investimento de R$ 27 milhões).

Ontem, o ministro não veio a São Paulo para o lançamento. O secretário de Cidadania Cultural do MinC, Célio Turino, foi o seu representante. Juca Ferreira discutiria o novo texto da Lei Rouanet com Nelson Machado, secretário executivo do Ministério da Fazenda, e João Bernardo Bingel, secretário executivo do Ministério do Planejamento. Ferreira corre contra o tempo: quer enviar o novo texto ao Congresso até o fim deste mês.

"(O Ponto de Cultura) é uma ideia muito boa", disse André Sturm, coordenador da Unidade de Fomento e Difusão de Produção Cultural da Secretaria de São Paulo. "Porque busca apoiar quem está trabalhando, e à margem do sistema." Segundo Sturm, a principal contribuição da secretaria paulista é sofisticar um pouco a forma de seleção dos novos pontos de cultura.

"O MinC faz, por meio de convênio, o que exige uma prestação de contas muito complexa. Nós faremos por meio de prêmio, na qual a contrapartida é realizar o produto. O produtor só tem de comprovar que realizou aquilo, e a prestação de contas é simplificada", explicou.

A secretaria prevê cerca de mil inscrições para o programa, que atende 3 mil instituições no País. Para ser qualificada como Ponto de Cultura, uma instituição cultural deve ser pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos e pelo menos dois anos de atuação. Os selecionados recebem recursos de até R$ 180 mil, divididos em parcelas de R$ 60 mil, por três anos. A distribuição dos Pontos segue um critério de densidade populacional, para garantir a interiorização.

Em trincheiras opostas da disputa eleitoral de 2010, o secretário João Sayad e o ministro Juca Ferreira têm trocado críticas públicas. A secretaria até mudou o nome de seu principal programa cultural para diferenciá-lo do plano de infraestrutura federal (o Plano de Aceleração do Crescimento) - a sigla da secretaria também era PAC até recentemente, mas agora mudou para ProAC (Programa de Ação Cultural). "Por incrível que pareça, dava confusão, especialmente em jornais do interior", disse André Sturm.

A Secretaria de Estado da Cultura lançou dois editais do ProAC anteontem - um para fotografia (Registro Fotográfico no Estado de São Paulo) e outro para dança (Novas Produções de Espetáculo de Dança no Estado de São Paulo).

Para o edital de Registro Fotográfico no Estado de São Paulo, serão selecionados cinco projetos que se enquadrem no tema As Mudanças da Luz - Construção do Teatro de Dança.

O edital poderia levantar a crítica de ter inovado criando uma forma de autopromoção, já que o governo do Estado contratou escritório de arquitetura suíço para desenvolver projeto do novo Teatro de Dança de São Paulo. "A crítica faria sentido se o teatro estivesse em construção", rebateu Sturm. "Na verdade, a intenção é promover o registro fotográfico da região, que vai mudar. A rodoviária será demolida, e a região vai mudar de cara."

O valor total do edital de fotografia é de R$ 50 mil, e os selecionados receberão R$ 10 mil cada. A inscrição vai até 5 de agosto. O edital Novas Produções de Espetáculo de Dança de São Paulo tem valor total de R$ 940 mil. Serão selecionados 16 projetos de montagem de nova produção de espetáculo de dança. São dois módulos: o primeiro concederá nove prêmios de R$ 50 mil cada, e o segundo dará sete prêmios de R$ 70 mil cada. As inscrições vão até 7 de agosto.

Posted by Ananda Carvalho at 3:12 PM

MinC investiga repasse de R$ 32 mi à Bienal por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 27 de junho de 2009.

Auditoria do CGU apontou possíveis irregularidades em contratos de 99 a 07

Documento obtido pela Folha aponta falta de licitação, preços acima do mercado e irregularidades na publicação da "Bien'Art"

Apesar de ter sido festejado como figura que pode melhorar o futuro da Bienal de São Paulo, o novo presidente da instituição, Heitor Martins, ainda precisa se debruçar sobre o passado da instituição. Uma semana depois de eleito, no último dia 28, Martins recebeu do Ministério da Cultura um pacote com mais de 200 páginas, obtido com exclusividade pela Folha, que questiona 13 convênios realizados com a instituição, entre 1999 e 2007.

Eles representam o repasse de R$ 32 milhões do governo à Bienal. Auditoria realizada pelo CGU (Controladoria-Geral da União) apontou dezenas de possíveis irregularidades, o que levou o Ministério da Cultura a pedir esclarecimentos sobre os 13 contratos, iniciados na gestão do arquiteto Carlos Bratke. As questões deveriam ser respondidas até ontem, sob pena de a Bienal ser caracterizada como inadimplente e, com isso, não poder ter mais acesso a recursos federais. "Nós pedimos uma prorrogação do prazo e vamos responder a todas as questões apresentadas, esse é o resultado de uma auditoria realizada em 2007", disse Martins, à Folha, anteontem.

Falta de licitação na contratação de empresas e preços praticados acima do mercado são algumas das irregularidades mais comuns apontadas pelo documento.

A publicação da revista "Bien'Art" também foi identificada como irregular na auditoria. O estatuto da Bienal proíbe que seus membros tenham vínculos comerciais com a instituição, mas o então presidente Manoel Francisco Pires da Costa tinha 70% da empresa TPT, que produzia a revista para a Bienal.

Pela irregularidade, o documento sugere que os R$ 2,7 milhões do Ministério da Cultura usados para custear a revista sejam "restituídos ao Erário". "Ainda não há decisão tomada, primeiro nós vamos explicar que houve um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público", diz Martins.

Durante a entrevista, o novo presidente buscou minimizar os possíveis efeitos da auditoria na Fundação Bienal: "Esse processo não vai se encerrar agora, ele deve levar anos, nosso maior esforço é revitalizar e reposicionar a Bienal agora".

Martins comemora ao menos que o Tribunal de Contas do Município aprovou as contas da Bienal do ano passado, o que já garante o repasse de R$ 1,6 milhão da Secretaria Municipal de Cultura. "Esperamos receber esse valor nos próximos dias e, de forma simbólica, queremos até o fim de julho encerrar as dívidas com todos os artistas e produtores da 28ª Bienal", conta o presidente.

Mas, o futuro da instituição também tem ocupado bastante o presidente, especialmente a organização da 29ª Bienal de São Paulo, que deve ocorrer no próximo ano: "Estamos prevendo que a Bienal custe R$ 30 milhões, mas vamos tentar captar R$ 40 milhões". Os R$ 30 milhões são comparáveis à 24ª Bienal, de 1998, que teve Paulo Herkenhoff como curador. "Essa Bienal é o nosso paradigma, queremos ter uma mostra com aquela qualidade."

Um documento apresentado por Martins aponta que a Bienal do Vazio, do ano passado, custou R$ 11 milhões, enquanto a 27ª edição, "Como Viver Junto", R$ 13 milhões.

Já em 2011, Martins prevê que partes da mostra circulem por outras cidades e mesmo outros países: "É importante que a Bienal tenha várias itinerâncias para potencializar seu impacto".

O curador da próxima Bienal deve ser anunciado até o próximo dia 15. "Essa é uma decisão que está em curso e será realizada junto com os diretores Miguel Chaia e Justo Werlang", conta ainda. Na semana passada, Martins reuniu-se com diretores de 20 museus paulistas, para propor uma cooperação durante a Bienal, e na próxima semana encontra-se com os galeristas da cidade.

"Ainda não há decisão tomada, primeiro nós vamos explicar que houve um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público. [...] Esse processo não vai se encerrar agora, ele deve levar anos, nosso maior esforço é revitalizar e reposicionar a Bienal agora." HEITOR MARTINS, presidente da Bienal de São Paulo

Posted by Ananda Carvalho at 2:56 PM | Comentários (2)

junho 22, 2009

"O sofrimento latino é mais barroco" por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 19 de junho de 2009.

Regina José Galindo, da Guatemala, mostra registros de suas performances sangrentas em exposição em São Paulo

Artista expõe trabalhos com a espanhola Pilar Albarracín e a brasileira Laura Lima a partir de hoje no Memorial da América Latina

Quando o ex-ditador José Ríos Montt se candidatou à presidência da Guatemala, Regina José Galindo conseguiu dois litros de sangue humano. Encheu uma bacia branca, banhou os pés de vermelho e deixou pegadas sangrentas entre a Corte e o Palácio Nacional. Foi a performance que deu projeção mundial à artista.

Junto de outro trabalho em que teve o hímen reconstituído numa clínica clandestina de seu país, Galindo ganhou o Leão de Ouro para jovens artistas na Bienal de Veneza em 2005.

Ela volta a expor na cidade italiana agora, em mostra paralela à Bienal, com "Confesión", vídeo em que é afogada por um capataz num barril de água. Seis registros de suas performances mais relevantes também estão expostos a partir de hoje, em São Paulo, no Memorial da América Latina, a primeira mostra da artista no país.

Ligando a dor e a exploração do corpo feminino a questões políticas, Galindo costuma sofrer em suas obras. É na tensão entre vítima e algoz que cria pontos dramáticos e de conflito, alternando entre os papéis de quem bate e quem apanha.

"Uma vítima de violência é vítima porque o permitiu até certo ponto", diz Galindo, 34. "Meus trabalhos têm uma tensão, em que o público acha que a artista é vítima, mas esses são papéis intercambiáveis."

Sua caminhada sangrenta, mesmo sendo alusão à dor latente, surge nas imagens com uma placidez estranha. Galindo parece ter sempre o comando da situação, deixando vazar a violência -com jorros de sangue- só nas notas mais agudas de suas composições visuais. "A anedota por trás de tudo enriquece a obra, mas é sempre um trabalho visual", diz ela.

Quando começaram a surgir cadáveres de mulheres mutiladas na Guatemala, Galindo respondeu com uma performance em que retalhava na própria coxa a palavra "perra". No vídeo, parece fazer os cortes como quem desenha sobre papel. "Se estou trabalhando com o corpo, tenho que saber do que ele é feito", diz Galindo. "É a ideia de marcas, cortes na pele, mas não me interessa a dor."

Tanto que abstrai o sofrimento. Em "(279) Golpes", obra sonora, não há sangue, nem cores. Só estalos agudos intercalados entre os versos de "Je Ne Regrette Rien", na voz de Edith Piaf. É disfarce para o som de chibatadas com um cinto de couro que ela desfere contra o próprio corpo com a mesma frieza dos cortes de "Perra".

Mesmo que a trilha sonora ou certo cinismo discreto possam quebrar o ritmo e baixar o tom, causando uma impressão até pueril, seus esforços resultam desconcertantes. Por mais ingênua e literal que seja "Limpieza Social", performance em que a artista nua é alvejada por um jato de água usado para conter manifestações, existe ali um frescor formal contudente.

Talvez pelo apelo dos músculos molhados depois do açoite, a pose agachada, inerte. Nesse ponto, a voz de Piaf e a nudez da artista dão o verniz da forma a uma obra que se recusa a ser só política, que busca, nem sempre com muito sucesso, romper com o panfletarismo simplório.

"Cansei de ser a artista do Terceiro Mundo que vem contar suas misérias, não quero ser exotizada", diz Galindo. "O sofrimento na América Latina é, de fato, mais barroco, mas me parece que o mundo está fodido igual em todas as partes."

Sofrimento flamenco
Do outro lado do Atlântico, Pilar Albarracín, que também tem trabalhos no Memorial, explora a dor espanhola. Ela busca nos estereótipos e clichês da mulher andaluz a embalagem plástica de suas performances. Numa delas, cava a própria cova e se joga lá dentro. Outro vídeo mostra um paso doble em que vai alfinetando o próprio corpo, manchando de sangue seu vestido branco de bailarina.

LAURA LIMA MOSTRA DUAS DE SUAS OBRAS
Além dos trabalhos de Regina José Galindo e Pilar Albarracín, a brasileira Laura Lima expõe duas obras no Memorial da América Latina. Estão lá "Dopada", performance em que uma mulher dorme, com ajuda de comprimidos, em plena galeria, e "Nômades", série de 12 máscaras cobertas com desenhos de paisagens.

Posted by Ana Maria Maia at 6:12 PM

Atrações poderão ser vistas da rua por Mario Cesar Carvalho e Catia Seabra, Folha de S. Paulo

Matéria de Mario Cesar Carvalho e Catia Seabra originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 18 de junho de 2009.

Complexo com espaços de dança e ópera que ficará em frente à Sala São Paulo vai ocupar espaço de antiga rodoviária

Projeto é da renomada dupla suíça Herzog & De Meuron, que fez a Tate Modern, em Londres, e tem influências de Lina Bo Bardi

É o oposto da Sala São Paulo. Enquanto a mais famosa sala de concertos do país é indevassável para quem anda na rua, o complexo cultural que o governo paulista planeja construir do outro lado da praça, onde ficava a antiga rodoviária, será transparente: ensaios de dança e de música poderão ser vistos da rua, como mostram os primeiros desenhos do prédio, obtidos pela Folha.

Foi esse ponto de vista, o da transparência, que os arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron adotaram no primeiro projeto que fazem na América Latina. Herzog e De Meuron, ambos de 59 anos, são a dupla mais famosa da arquitetura mundial e criaram, entre outros ícones, o Ninho de Pássaro, em Pequim, e a Tate Modern, em Londres.

O complexo abrigará um teatro de dança e ópera com 1.750 lugares, outro para peças e recitais com 600 lugares e uma sala experimental de 400 lugares. Terá 95 mil m2 de área construída, o equivalente a quatro vezes o Pavilhão da Bienal (que tem 25 mil m2).

Vai ocupar duas quadras, cujos imóveis serão desapropriados e demolidos: a da antiga rodoviária e a contígua. A região da Luz já tem uma das maiores concentrações de espaços culturais da cidade. Lá ficam a Pinacoteca, a Estação Pinacoteca, o Museu da Língua Portuguesa e a Sala São Paulo.

A abertura total do complexo cultural não é para já, segundo o secretário de Cultura, João Sayad. Para ele, os problemas de violência na Cracolândia tornam inviáveis esse ideal.

"A Sala São Paulo é de fato um bunker. O teatro começa como um bunker para, quando houver condições, se abrir para o público. Se deixar aberto agora, vem gente dormir aqui. É irreal colocar mesinha na praça porque há risco de assalto", diz.

Quatro escritórios internacionais de arquitetura foram convidados para apresentar projetos -o do britânico Norman Foster, o holandês OMA, o do americano Cesar Pelli e o de Herzog e De Meuron.

Só a dupla suíça não apresentou nenhum esboço prévio. Diziam que não fazia sentido imaginar algo sem conhecer a cidade. Vieram a São Paulo e ficaram encantados com duas características, segundo Sayad: as árvores e a arquitetura de Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. "Eles me disseram uma coisa que me surpreendeu: para eles, São Paulo é uma cidade verde."

As duas características estão presentes no projeto. As árvores ficarão num bosque na entrada do complexo. Referências à arquitetura modernista brasileira podem ser vistas numa rampa de 14 metros de largura, que tem um porte similar ao da rampa do Palácio do Planalto de Niemeyer.

A transparência do prédio parece ser uma evocação da Casa de Vidro que Lina Bo Bardi construiu para ela e para o marido, Pietro Maria Bardi, no meio de um bosque no bairro do Morumbi.

Sandra Rodrigues, gestora do projeto do complexo cultural, relata que Herzog e De Meuron diziam o tempo todo que adoravam a arquitetura brasileira: "É muito evidente no projeto a referência à casa de Lina Bo Bardi. Eles ficaram encantados com a Casa de Vidro".

Mais de R$ 300 mi
A construção do complexo deve consumir R$ 311,8 milhões, segundo a Secretaria de Cultura. Desse valor, o governo entra com R$ 78,1 milhões e os R$ 233,7 milhões restantes serão pedidos como empréstimo ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Herzog e De Meuron devem receber entre 6,5% e 8,5% do valor da obra -algo entre R$ 20,3 milhões e R$ 26,5 milhões.

A obra está prevista para começar em julho do ano que vem e deve durar três anos. As desapropriações da primeira quadra já alcançam 70% dos imóveis e a da segunda devem começar em três meses, de acordo com Rodrigues.

Sayad diz que o governo optou pelo empréstimo internacional para que, caso o PSDB seja derrotado em 2010 nas eleições para o governo do Estado, haja uma garantia de continuidade para a obra.

Hoje responsável por obras da magnitude do Rodoanel (orçada em R$ 3,5 bilhões), o governador José Serra prega a valorização dos projetos na área de Cultura. Citando o exemplo de Mário Covas (1930-2001), governador morto em 2001, Serra repete que, por mais que invistam em infraestrutura, é na cultura que os governantes deixam sua marca.

Posted by Ana Maria Maia at 6:04 PM | Comentários (1)

Para Sayad, projeto não elimina Cracolândia por Mario Cesar Carvalho e Catia Seabra, Folha de S. Paulo

Matéria de Cesar Carvalho e Catia Seabra originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 18 de junho de 2009.

Secretário da Cultura crê que morador de rua deve migrar para outro lugar

Região da Luz, no centro da cidade, foi escolhida por ser epicentro de transporte público, próxima de estações de metrô e trem

Quando a Sala São Paulo foi inaugurada, há dez anos, o então governador Mário Covas (PSDB) dizia que a obra serviria para acabar com a Cracolândia. Em 2004, na abertura da Estação Pinacoteca, um discurso similar ao de Covas foi repetido pelo então governador Geraldo Alckmin, também tucano.

A reforma da Pinacoteca e a criação do Museu da Língua Portuguesa seguiram a mesma toada -eram todas obras que tinham como objetivo tornar transitável a região em torno da Cracolândia, área que ficou conhecida por concentrar dependentes de crack. As quatro obras consumiram investimentos de cerca de R$ 200 milhões, em valores atualizados.

Com o complexo cultural de ópera e dança, o discurso mudou. "O nosso objetivo é ter um bom teatro para dança, música e ópera. Mas não fizemos o complexo no Jardim América [bairro rico na zona oeste da cidade]. Sabemos que ele vai ter um impacto positivo na área, mas não é o nosso objetivo. Não perguntamos aos arquitetos como se salva as mil pessoas que vivem nas ruas da região", diz o secretário estadual de Cultura, João Sayad.

O secretário afirma que a região é ocupada por cerca de 1.500 moradores de rua porque há espaços vazios, o que deve mudar com a construção do teatro de dança e música. "Eles estão aqui porque a região é deserta. Quando ela for ocupada, eles vão procurar outra região deserta. O Brasil pode virar uma Suíça, mas essa população sempre existirá."

A região da Luz foi escolhida porque é um epicentro de transporte público, de acordo com Sayad. O complexo ficará a menos de dez minutos das seguintes estações: Linha 4-Amarela do Metrô na Luz, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e a do trem que irá ligar o centro ao aeroporto internacional de Cumbica. A Linha 4-Amarela, que ligará a Luz à Vila Sônia (zona oeste) deve ter a sua primeira fase, com cinco estações, inaugurada nos próximos anos. O término das obras do trem expresso para Cumbica está previsto para de 2012.

O plano do governo de José Serra para a região inclui a transferência do Palácio do Governo para o Palácio dos Campos Elíseos. O autor do projeto de conversão do antigo palácio, o arquiteto Sylvio Sawaya, não quer se limitar ao prédio de 1898. Seu plano inclui a ampliação da Pinacoteca, a criação de um museu da ciência na avenida Tiradentes e a transformação da antiga sede da Escola Politécnica, no Bom Retiro, em um centro de referência de engenharia.

Posted by Ana Maria Maia at 5:54 PM | Comentários (1)

Juiz nega pedido da Promotoria para afastar a diretoria do Masp por Diógenes Campanha, Folha de S. Paulo

Matéria de Diógenes Campanha originalmente publicada na seção Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo, em 17 de junho de 2009.

A Justiça negou pedido do Ministério Público para que a diretoria do Masp (Museu de Arte de São Paulo) fosse afastada de suas funções.

O juiz Alfredo Attié Jr. considerou "ilegítima" a condição de réus do ex-presidente do museu, Julio Neves (hoje conselheiro da instituição), e de nove diretores.

Eles são acusados de má gestão pela promotora Mariza Tucunduva, do Meio Ambiente, autora da ação civil impetrada em agosto de 2008. Ela pedia o afastamento dos dirigentes -entre eles João da Cruz Vicente de Azevedo, secretário-geral do Masp no início do processo e eleito para a presidência em novembro- e a realização de uma nova eleição.

O juiz manteve apenas a pessoa jurídica do Masp como réu da ação e acolheu parcialmente as pretensões da Promotoria, declarando "o valor cultural para o povo brasileiro do acervo histórico e artístico" do museu.
Embora a sentença cite "problemas de ordem administrativa" e necessidade de aperfeiçoamento, Attié Jr. diz que "não se pode falar em má gestão" nem "imputar culpa" aos dirigentes. A promotora vai recorrer, por considerar a decisão "contraditória". "O juiz admitiu problemas na administração, mas eximiu os administradores de responsabilidade."

Posted by Ana Maria Maia at 5:45 PM

Exposição de Hélio Oiticica será reaberta depois de pagamento de R$ 267 mil pela Prefeitura por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no site O Globo, em 19 de junho de 2009.

Dois meses depois de ser interrompida pelos curadores, a exposição "Hélio Oiticica: Penetráveis" será reaberta para o público na próxima terça-feira, dia 23, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. A mostra havia sido suspensa no dia 15 de abril, porque a Secretaria municipal de Cultura estava devendo ao Projeto Hélio Oiticica R$ 267 mil referentes aos custos da exposição, que já foram pagos. Prevista para terminar este mês, a mostra deve ficar aberta até o fim de agosto, para compensar o tempo de interrupção.

Leia mais: Herdeiros de Hélio Oiticica querem tirar nome do artista do centro de arte por causa de briga com prefeitura

Na época da suspensão da exposição, o projeto ainda retirou as obras do artista da reserva técnica do local e ameaçou pedir na Justiça a retirada do nome de Hélio Oiticica do centro de arte. Mas Cesar Oiticica Filho, um dos curadores da exposição e do Projeto Hélio Oiticica, disse que não há uma decisão de se desvincular do espaço:

- A gente não está discutindo isso no momento. Nossa intenção não é deixar o centro, mas, se não houver como trabalhar lá dentro, não sei se faz sentido ficar só emprestando o nome. Estamos conversando novamente com a secretaria, espero que as coisas melhorem.

Segundo o curador, os trabalhos que ainda eram guardadas no Centro Hélio Oiticica não voltarão ao espaço porque ele não reúne as condições necessárias para o armazenamento de obras de arte. Elas são guardadas na reserva técnica criada pelo projeto.

- O centro não tem desumidificação, tem um banheiro dentro da reserva técnica, o que vai contra todos os padrões museológicos. Sabemos que a prefeitura não tem condições nem verbas neste momento, mas não é um problema para a gente cuidar do acervo.

Posted by Ana Maria Maia at 5:38 PM | Comentários (1)

junho 19, 2009

EAV prevê curadores anuais para programação por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 18 de junho de 2009.

Escola de Artes Visuais do Parque Lage formula um plano diretor e busca captação de R$7 milhões para obras

Depois de sete meses como diretora interina da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, Claudia Saldanha está prestes a ser efetivada com um plano diretor nas mãos. Pela primeira vez, a escola terá um documento definindo seus objetivos, que começou a ser preparado em setembro do ano passado, antes mesmo de sua entrada na EAV, por uma comissão formada por artistas e críticos. Ainda com alguns ajustes sendo feitos pela Secretaria estadual de Cultura, o plano já tem definidas ações como a presença de dois curadores por ano para criar uma programação de exposições — um pensará em mostras para a mansão, e o outro, para as Cavalariças.

— Estamos num processo de transição, por isso esse projeto, assim como outros, começarão em 2010 — diz Claudia. — No ano que vem, está previsto ainda um curso de aprofundamento de oito meses, para artistas que já tenham alguma relevância reconhecida. E a biblioteca será informatizada e transferida para um espaço maior.

Mostra sobre história da EAV será inaugurada amanhã

Claudia afirma que a escola já pode pensar com mais tranquilidade nos seus rumos, porque, no mês passado, o espaço, de propriedade do Ibama, teve sua concessão oficialmente renovada para o governo estadual por mais 20 anos — apesar de ela ter sido anunciada em julho de 2008. A EAV está agora em busca de captação de recursos para a reforma da mansão e das Cavalariças, orçada em R$7 milhões.

Por enquanto, as novidades são os cursos gratuitos, que vão formar 360 alunos em julho, com conhecimentos em história da arte e técnicas de pintura, gravura e escultura. Desses alunos, 30 vão poder escolher aulas regulares para fazer gratuitamente no segundo semestre.

Na programação cultural, a escola lançou no mês passado um ciclo de filmes e vídeos, com uma programação escolhida por críticos de arte e artistas, uma vez por mês. E amanhã será inaugurada a exposição “O jardim da oposição (1975-1979)”, que conta a história da transformação da EAV numa escola livre, sem vinculação acadêmica, quando o artista Rubens Gerchman assumiu a direção do então Instituto de Belas Artes do Estado, em 1975. Com curadoria de Heloisa Buarque de Hollanda e Hélio Eichbauer, a mostra reúne documentos, depoimentos e uma remontagem da exposição de gravuras “14 para viagem”, com obras de professores que davam aulas no Parque Lage.

Segundo Claudia, o plano diretor ainda prevê um orçamento anual para a escola, hoje inexistente, mas os valores ainda estão sendo negociados.

Posted by Ananda Carvalho at 2:36 PM | Comentários (1)

Em busca da eficiência por Alessandra Duarte, O Globo

Matéria de Alessandra Duarte originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 17 de junho de 2009.

Diretores de espaços culturais estaduais defendem projeto de gestão da rede por OSs

Se Daniel Dias, diretor do Teatro João Caetano, usar mais lâmpadas no teatro do que previu no início do ano, é capaz de ter que abrir uma licitação. Uma cena menos burocrática, com mais agilidade para ações do cotidiano como esta, é o que diretores dos espaços culturais do estado acreditam que pode vir com a aprovação do projeto de lei de transferência de gestão da rede cultural estadual a organizações sociais (OS). Idealizado pelo governo estadual em fevereiro, o projeto 1.975/2009 vai entrar hoje na pauta de votação da Assembléia Legislativa (Alerj). Na semana passada, o Teatro Municipal foi pinçado do projeto pelo Executivo estadual, para que o modelo das OSs seja primeiro experimentado em espaços de menor porte da rede, aqueles que fazem parte da estrutura da Funarj, como os teatros João Caetano e Villa-Lobos, a Casa de Cultura Laura Alvim e a Sala Cecília Meireles.

Para o diretor do João Caetano, o modelo das OSs vem para agilizar a administração.

Mais agilidade para captação de recursos

— Como gestor, percebo que a ação estatal às vezes não acompanha as necessidades do dia a dia dos vários setores, como o cultural. Para você realizar uma determinada ação, como adquirir mais lâmpadas, por exemplo, é preciso trabalhar com certos mecanismos da administração pública atual que às vezes não correspondem à urgência da situação. É o caso de tarefas de manutenção do teatro, aquisição de material, gestão de pessoal. Às vezes as coisas são lentas por causa de fiscalização, mas por outro lado isso pode engessar nossas ações também — afirma Dias, destacando que as OSs já começaram a ser utilizadas em outros estados do país. — É algo novo, com características próprias para cada estado, então recebemos dessas várias experiências referências tanto positivas quanto negativas, porque não há um modelo único. Além disso, é natural que as mudanças tragam incertezas, principalmente para os funcionários, ou um receio de que o estado se ausente da cultura. Mas acho que tudo é uma questão de negociação, de todas as partes envolvidas serem ouvidas e se sentirem presentes na lei. Tem de haver um equilíbrio entre ganhos e perdas.

A superintendente de museus da rede estadual, Márcia Bibiani, também acredita nas vantagens das OSs para a área:

— O setor de museus é um dos que não recebem uma atenção devida, então acho que haver essa alternativa de gestão é um ganho. Já estive na Pinacoteca de São Paulo, que é gerida por uma OS, e vi que dá certo. Esse modelo tornaria mais ágeis ações de captação de acervo, restauração... Mas, mais que agilidade, ele traria interesse para o setor; seria um grupo criado para se interessar pela área. É claro que esse contrato (de gestão da OS) tem de ser supervisionado, para que nada de errado aconteça. O Tribunal de Contas (do Estado) vai continuar fiscalizando as ações — diz Márcia. — Sou funcionária estadual desde 1980 e sou a favor da OS. As preocupações dos funcionários são justas, mas não haverá perda de direitos para eles. Acho que, se houver um impacto, será para os que vierem depois da lei. Além disso, o governo fala em fazer concurso; acho que vai ser mais para contratação de profissionais de notório saber, um curador, um historiador para cuidar de uma coleção; não para contratação de funcionários de modo geral.

A superintendente de museus, porém, não concorda com a retirada do Municipal:

— Não conheço a estratégia que eles quiseram adotar, mas não acho justo. Como funcionária do estado, acho que todos devem estar juntos nessa. Sei que o Municipal é a joia da coroa, tem visibilidade internacional, mas tem funcionários públicos como os outros lugares. O que serve para um serve para outro.

Diretor da Sala Cecília Meireles, João Guilherme Ripper também acredita nas possibilidades do novo modelo de gestão trazido pelas OSs. Ele conta que desde que assumiu a sala, em 2004, começou a implementar mudanças de gestão com um objetivo de eficiência que seria o mesmo visado pelo projeto das OSs.

Uma das mudanças no espaço foi um uso mais intenso da associação de amigos da Sala Cecília Meireles, entidade que tem mais facilidade administrativa de captação de recursos externos, na iniciativa privada. Essa facilidade de captação externa é uma das vantagens apontadas pelos defensores do projeto de lei.

— Este ano, quando tivemos que absorver a programação do Municipal, por exemplo, conseguimos absorver tão bem porque já tínhamos desenvolvido esse outro modelo, com essa alternativa de captação. Temos, desde 2006, uma temporada de concertos regulares também por causa disso. Antes, não havia regularidade — completa Ripper. — O modelo de OS proporciona toda essa agilidade de instituições do direito privado, mas com a responsabilidade de fazer políticas de interesse público, porque não vai deixar de ser algo do governo estadual. É uma reformulação gerencial, para criar uma parceria, uma corresponsabilidade entre estado, OS e sociedade civil.

Uma crítica feita ao projeto é sobre a ausência, no texto, da obrigação da OS de aplicar dinheiro privado nos espaços públicos, ou na sua administração. Segundo Ripper, não é mesmo para haver essa obrigação.

— De fato, ela não existe. Mas é porque o projeto não tira do estado a responsabilidade de pôr dinheiro nos seus espaços. A obrigação continua sendo dele. O que o projeto faz é criar a possibilidade de captação de recursos externos, mas como algo adicional. O objetivo maior do projeto não é criar captação de dinheiro privado, é dar agilidade de administração para o próprio dinheiro público poder funcionar — sublinha Ripper, acrescentando que não haveria motivo para o temor dos funcionários. — O projeto traz garantias para os funcionários. Eles continuam a ser estatutários, só que poderão ser deixados à disposição pela OS, que poderá contratar celetistas; mas não deixam de ser estatutários ou perdem seus direitos por causa disso.

OSs podem ser solução para déficit de pessoal

A retirada do Teatro Municipal do projeto de lei de transferência da administração da rede estadual cultural para organizações sociais (OS) foi alvo de crítica do diretor da Sala Cecília Meireles, João Guilherme Ripper. Ele diz lamentar a saída do Municipal do projeto:

— Lamento pelo Municipal, porque está se perdendo a possibilidade, para eles, de criação de um modelo melhor de administração, com mais instrumentos para a direção da casa fazê-la funcionar melhor. Mas entendo que quiseram primeiro criar o modelo em outros espaços para, se for o caso de estendê-lo depois, ter provas de que ele funciona.

Na Funarj, déficit de pessoal de cerca de 65%

Ao analisar a eficiência que viria com o projeto de lei das OSs, o vice-presidente da Funarj, Emanuel de Melo Vieira, destaca que, atualmente, há no órgão um déficit de 65,37% de pessoal em relação ao total de 722 cargos criados para atender à rede cultural estadual, já que, “desde a criação do Plano de Cargos da Fundação, não houve a realização de concurso público que permitisse repor o imenso número de servidores que se tornaram inativos”. A atual centralização da gestão de pessoal e de bens e serviços na sede da Funarj também não permitiria a autonomia e o melhor funcionamento dos espaços, segundo Vieira:

— Por exemplo, o Teatro João Caetano, por não possuir recursos orçamentários exclusivos para sua manutenção e projetos, tem que dividir com os outros equipamentos os recursos destinados à Funarj. Por isso, a gestão dos espaços da fundação por OSs vai permitir não só a sua autonomia, como também um modelo de gestão de recursos humanos e de suprimento de bens e serviços com mais agilidade e eficiência, e eficácia no atendimento ao público.

Posted by Ananda Carvalho at 2:12 PM

junho 18, 2009

Veneza: esgotamento ou tradição? por Camila Molina, O Estado S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 17 de Junho de 2009.

A Bienal italiana, em sua 53.ª edição, é a única que mantém um modelo centenário de representações divididas por países

Quando convidada a participar da mostra principal da 53ª Bienal de Arte de Veneza, inaugurada este mês e que ficará em cartaz até 22 de novembro, a artista francesa Dominique González-Foerster teve como ideia fazer o vídeo De Novo. Nesse trabalho, em preto e branco, exibido na seção de Fare Mondi/Making Worlds/Fazer Mundos..., com curadoria do sueco Daniel Birnbaum e do alemão Jochen Volz, no pavilhão Biennale, nos Giardini, a artista, que se divide entre Paris e Rio de Janeiro, é a protagonista. Durante 20 minutos ela fala do desafio de ser convidada, pela quinta vez, a participar da mais tradicional das Bienais e de uma certa sensação de frustração de estar numa mostra desse porte. Ao mesmo tempo, também, a narrativa das experiências de Dominique é entremeada por tomadas de Veneza filmada a partir dos característicos vaporetos, o meio de transporte comum da cidade sobre a água.

Uma discussão sobre certo "diálogo impossível" entre participar da Bienal de Veneza e seu local - e seus deslocamentos - também se faz presente na obra da brasileira Renata Lucas como parte da mostra Fare Mondi, tanto no Arsenale quanto nos Giardini. Renata promove uma "manifestação" propositalmente imperceptível, ou seja, coloca faixas de asfalto por debaixo do piso de madeira do Arsenale em frente do pavilhão Biennale. É uma ação crítica, que também vai ao encontro das perguntas que estão às voltas nesse momento: Quanto há de peso para um artista estar neste tipo de exposição (sua obra será vista em meio à sua grande proporção?) e quanto há de crise ou esgotamento do modelo de Bienal de Arte?

De um lado há a exposição feita a partir da mão dos curadores convidados pela Fundação Biennale di Venezia, se dividindo entre os galpões do Arsenale e um pavilhão nos Giardini - no caso desta edição, Fare Mondi, com curadoria de Birnbaum e de Volz. Formalmente, é uma exposição repleta de instalações, algumas de escala vultosa como a de Pascale Marthine Tayou, nascido em Camarões - entretanto, obra sobre a exploração do trabalho de atmosfera banal e literal com seus sacos de pó branco onde vemos escrito "cocaína" -, já que os curadores pediram aos artistas que pensassem suas obras a partir do espaço que teriam na Bienal. E houve também uma vontade curatorial de puxar a raiz da arte conceitual até os dias de hoje, mas de pouco viés político e com trabalhos de estruturas que remetem ao pictórico e ao escultórico - sendo assim, mostra pouco marcante.

De outro lado, há as 60 representações nacionais, as mostras nos pavilhões pertencentes aos países abrigados por todo o espaço dos Giardini e alguns no Arsenale - e neles estão os artistas escolhidos por curadores convidados por cada nação. Quando se fala no modelo da Bienal de Veneza, com origem em 1895, pensa-se na pertinência ou não dos pavilhões nacionais.

De alguma maneira, as representações nacionais podem ser um respiro ou espaço para se ver obras de artistas para além do tema curatorial do evento. "O importante é pensar nelas de uma maneira atualizada, não como uma apresentação de orgulho nacionalista da produção de um país. O modelo de Veneza é o único que percebe que todos nós vivemos em outras culturas, que é muito mais pluralista, muito mais interessante do que um mundo homogêneo", afirma Volz ao Estado. É impossível ver os pavilhões como uma afirmação única da produção de um país (e procurar apenas por frescor) - o da Itália, é desastroso, por exemplo, assim como do Egito, folclórico, e da Rússia, mas é válido destacar algumas das mostras organizadas pelas nações.

O dos EUA, premiado como o melhor pavilhão da 53ª Bienal, apresenta a mostra Topological Gardens, de Bruce Nauman, organizada pelo Museu de Arte da Filadélfia e com curadoria de Carlos Basualdo e de Michael R. Taylor. A exposição, que chama grande atenção do público - há filas para entrar no pavilhão, perpassa obras do consagrado Nauman realizadas desde 1967 - e a exposição ainda se ramifica para a Universidade Luav de Veneza e para a Universidade Ca? Foscari. Destacam-se obras de sua pesquisa em que mistura mídias, o vídeo, as palavras ou frases em néon e as esculturas de bronze, plástico e cera de fragmentos do corpo, as mãos e cabeças, sempre na fronteira entre o conceitualismo e a performance.

A Espanha também optou por levar obras de um consagrado, Miquel Barceló, representado por suas grandes pinturas realizadas nos últimos dez anos e que apresentam seu trabalho de densa estrutura matérica em que uma temática baseada nas figuras de gorilas, paisagens na neve e motes africanos quase se torna abstração. O mesmo fez a Polônia, que apostou em nome de peso, de Krzysztof Wodiczko. Sua videoinstalação Hóspedes, de viés político, trata da pertinente questão da imigração na Europa.

Já um pavilhão intrigante é o da Austrália, com a mostra de Shaun Gladwell (nascido em 1972). Fora do prédio está o carro que remete ao filme Mad Max e, dentro dele, uma exposição de impacto e beleza visual com projeções de vídeo. A primeira delas, grande, é a tomada de uma paisagem desértica onde há sempre uma estrada com um canguru morto em sua beirada. Um motoqueiro entra na cena e, sempre num tipo de ritual, retira o animal daquele lugar, prendendo o espectador por mais de 20 minutos. Nessa e nas outras obras Gladwell parece tratar de uma relação intensa entre o homem e o ambiente, entretanto, indo ao encontro de algo arcaico e desértico.

Brasil

DESTAQUE: Dentro da mostra principal da 53ª Bienal de Veneza, o Brasil comparece com participações que ganharam peso. A de Lygia Pape é destaque inevitável com as instalações Ttéia e Livro das Criações - esta última tem diálogo interessante com vídeo do francês Philippe Parreno nos Giardini, assim como a inédita Pling Pling de Cildo Meireles no Arsenale. Também Ôyvind Fahlström, nascido em São Paulo, ganhou grande sala na seção da mostra nos Giardini. Já no Pavilhão Brasil, as pinturas de Delson Uchôa e as fotografias de Luiz Braga chamam a atenção para a cor. Para quem quiser ver melhor o trabalho de Braga, a Galeria Leme, em São Paulo, aproveita o ensejo da Bienal para inaugurar na próxima quarta uma individual do fotógrafo.

Posted by Ananda Carvalho at 2:23 PM

junho 16, 2009

Famíla de Volpi cobra R$100 mil por imagens do artista e impede catálogo por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 13 de junho de 2009.

Advogado diz que vai processar Instituto Moreira Salles por ter feito a mostra

No catálogo de uma exposição denominada “Volpi: As dimensões da cor”, em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS), há uma ampla discussão sobre a obra do artista, mas não há cor alguma. Para reproduzir as 60 peças da mostra, o advogado da família de Alfredo Volpi pediu R$100 mil por direitos autorais ao instituto, que recusou a proposta, porque o montante é cerca de oito vezes maior do que costuma ser pedido para esse tipo de reprodução.

Não é a primeira vez que a família de Volpi impede a circulação das obras do artista. No catálogo da exposição “Tangled alphabets”, em cartaz no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, uma tela de Volpi não foi reproduzida porque o valor pedido pelo advogado por uma única imagem foi de mil dólares. O texto do catálogo apenas relacionava uma obra de Volpi com outra da brasileira Mira Schendel, exposta no MoMA ao lado do argentino León Ferrari. A família também já processou a Bolsa de Arte do Rio de Janeiro por reproduzir as obras de Volpi leiloadas — e que por isso precisavam ser mostradas a potenciais compradores —, mas perdeu em duas instâncias.

Para advogado da família de Volpi, mostra viola direitos

Agora, o advogado Salvador Ceglia Neto diz que vai processar o IMS pelo fato de ele ter realizado a exposição, que tem curadoria de Vanda Klabin e reúne obras emprestadas por colecionadores particulares. O advogado — que não representa o espólio do artista, cujo inventário ainda está aberto, mas uma das filhas do pintor, Eugenia — afirma ainda que, por estar ligado a um banco, o instituto deveria ter pago o valor pedido.

— Cobramos R$100 mil de direitos autorais pelo catálogo e por exposições, no Rio e em Belo Horizonte. Eles propuseram R$30 mil, mas eu disse que era inviável, porque já estávamos permitindo duas exposições pelo preço de uma. Não importa se está acima do mercado. Se você vai comprar uma roupa e ela custa mais do que você pode pagar, você não compra. Consideramos o nível do Volpi, o porte da entidade e sua vinculação com um banco — diz Ceglia Neto. — A infração existe pelo fato de o instituto ter feito uma exposição sem autorização.

De acordo com o Instituto Moreira Salles, não houve qualquer desrespeito aos direitos autorais numa exposição de cunho exclusivamente cultural.

— O IMS está certo de não ter violado os direitos autorais e de imagem de Alfredo Volpi. Dadas as dificuldades na negociação com os herdeiros, o instituto se limitou a produzir uma grande e inédita exposição, com entrada franca — afirma Flávio Pinheiro, superintendente executivo do IMS.

A Lei de Direitos Autorais (lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998) prevê que as exposições de artes dependem da autorização do autor — direito que se estende à família por 70 anos após a morte do artista, que, no caso de Volpi, foi em 1988. Ainda assim, para o advogado Pedro Mastrobuono, especializado em direitos autorais, a situação é abusiva. Ele diz que desconhece qualquer exposição de fins culturais que tenha sido impedida pela família de um artista. Segundo o advogado, o IMS poderia inclusive ter feito um depósito judicial em favor do espólio, com um valor de mercado aproximado para a reprodução das obras.

— Nunca vi um pleito como esse, não acredito que isso possa encontrar respaldo no Judiciário — afirma Mastrobuono, que também é colecionador. — O direito de imagem só é cobrado quando há reprodução. Mas mesmo um jornalista que cubra uma exposição, como a de Volpi, pode tirar algumas fotos, que estão a serviço da informação. As telas da exposição não serão vendidas, o interesse é público. O interesse patrimonial está prevalecendo sobre o cultural.

“Caso é escandaloso”, diz o crítico Paulo Sergio Duarte

A solução do Instituto Moreira Salles foi a publicação do livro “6 perguntas sobre Volpi”, com um debate entre seis críticos de arte sobre a obra do artista. Para Paulo Sergio Duarte, um desses críticos, o pedido de R$100 mil está fora dos padrões internacionais. Quando Duarte fez um livro sobre a arte na década de 1960, o MoMA lhe enviou, por apenas US$100, reproduções de obras e um cromo de artistas como Robert Smithson e Roy Lichtenstein.

— O caso do Volpi é escandaloso. É hilariante, isso vira motivo de piada em qualquer lugar do mundo — afirma. — É importante haver uma documentação digna. O Volpi precisa ser conhecido, a começar pela cidade em que ele nasceu, Lucca, na Itália, onde nunca foi realizada uma exposição sobre ele. Espero que isso seja resolvido pelos preços internacionais das obras e não pela imaginação dos herdeiros.

O caso se agrava porque o advogado da família de Volpi não só cobrou os R$100 mil como pediu para avaliar os textos que seriam publicados, além de uma lista com os nomes dos colecionadores que emprestaram obras para a exposição, numa tentativa de censura. Segundo Ladi Biezus, que foi amigo de Volpi e é um dos maiores colecionadores do artista, a família de Volpi se irrita com afirmações de críticos e historiadores de arte de que ele foi um pintor de parede e de que era ateu. O advogado Ceglia Neto confirma a tentativa de controle de informações:

— Pedimos os textos porque muitas vezes são veiculadas informações erradas. Volpi nunca foi ateu e não foi pintor de parede, foi decorador de mural. Mas eles acham mais charmoso dizer isso.

Museu de Houston também não reproduziu obras

Para Biezus, que emprestou obras à exposição no IMS, o valor cobrado pela publicação de obras é vergonhoso.

— As exposições passam, os catálogos ficam. É importante que a obra fale por si. Os familiares estão dando um tiro no pé — diz. — E cobrar para expor as telas é incompreensível. Eu tenho um compromisso moral de me empenhar para mostrar essas obras ao público.

As obras de Volpi da coleção Adolpho Leirner, comprada pelo Museu de Houston, também não foram reproduzidas no catálogo publicado pela instituição. Segundo o advogado da família, o museu não pagou o direito de sequência, ou seja, um percentual sobre a valorização de uma obra constatada no ato de uma compra. Já o Museu de Houston informa que tinha “um calendário apertado para produzir o catálogo da Coleção Adolpho Leirner, não tendo tempo de coordenar os direitos de imagens de alguns dos artistas, por isso seu trabalho não aparece na publicação”.

Museus pagam de R$50 a R$400 por imagem

Instituições têm teto de negociação

Grandes museus e instituições de arte no Brasil pagam, em média, até R$400 pela reprodução de uma obra, valor que costuma ser mais baixo quando se negocia um grupo de imagens. No Instituto Moreira Salles, o valor pedido pela reprodução de obras de Volpi foi de R$100 mil para 60 imagens, ou R$1.600 por imagem — oito vezes mais do que a média cobrada pelo instituto.

— O instituto cobra uns R$200 por cada imagem de um Marc Ferrez (o acervo do fotógrafo é do IMS), esse é aproximadamente o padrão internacional. Sempre depende da finalidade do uso — afirma Rodrigo Naves, membro do conselho consultivo de artes visuais do IMS e um dos críticos de “6 perguntas sobre Volpi”. — Livro de arte já não vende, em breve nada mais será publicado.

Segundo Vera Alencar, diretora dos Museus Castro Maya, a Chácara do Céu e o Museu do Açude não costumam pagar por reproduções, mesmo de artistas sobre os quais ainda incidem direitos autorais. Para as imagens da mostra “Portinari na Coleção Castro Maya”, por exemplo, a instituição negociou uma contrapartida com o Projeto Portinari. Os dois museus cobram em média, segundo ela, R$50 (gravuras), R$100 (desenhos) e R$200 (óleos).

No Museu de Arte Moderna de São Paulo, o teto para a reprodução de uma obra de arte é de R$400, mas a instituição em geral paga menos, pois tem fins culturais.

— Seguimos uma política adotada em vários museus do mundo. O Metropolitan (em Nova York) paga até US$400, nós pagamos R$400, no máximo — diz Magnólia Costa, coordenadora editorial do MAM. — Alguns herdeiros pedem valores absurdos.

No Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, vinculado à Universidade de São Paulo, há pagamento por reproduções de imagens se os projetos têm patrocínio. Nesse caso, o museu recorre à Associação Brasileira dos Direitos dos Autores Visuais (Autvis), existente no Brasil há seis anos.

— Os valores dependem de onde e como a imagem será reproduzida, se é vendida ou não, se a publicação tem patrocínio. Mas Picasso e Mariazinha têm o mesmo valor — diz Andreia Andrade, gerente de negócios da associação, sem especificar valores. — No Brasil, as famílias de artistas ou entregam a reprodução gratuitamente ou querem muito por essas reproduções. Nosso objetivo é fazer algo justo e compatível com a realidade brasileira.

Posted by Ananda Carvalho at 3:45 PM | Comentários (4)

A Funarj de cobaia? por Alessandra Duarte, O Globo

Matéria de Alessandra Duarte originalmente publicada no Segundo Caderno no jornal O Globo, em 15 de junho de 2009.

Funcionários da fundação se revoltam com retirada do Teatro Municipal do projeto que passa para Organizações Sociais a administração de espaços estaduais de cultura

Pivô da maior polêmica da gestão de Adriana Rattes como secretária estadual de Cultura até agora, o projeto de lei que repassa a administração da rede estadual de cultura a Organizações Sociais (OS) está previsto para ser votado esta semana na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Na semana passada, o Teatro Municipal foi retirado dele pelo governo e não deve passar mais a uma OS caso o texto seja aprovado. Mas, se o Municipal saiu, continuam no projeto outros cerca de 30 espaços culturais da rede estadual, como os teatros João Caetano, Villa-Lobos e Glaucio Gill, a Sala Cecília Meireles, a Casa de Cultura Laura Alvim e a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Além da retirada do Municipal, não haverá qualquer outra modificação em pontos do projeto que têm sido criticados pelos funcionários estaduais da cultura, como a dispensa de licitação para a contratação das OSs. Segundo funcionários dos espaços da rede que continuam no projeto de lei, foi só retirar “a joia da coroa”, como alguns se referiram ao Municipal, para que o projeto caminhasse na Alerj, mesmo sem a revisão dos trechos considerados negativos por eles.

De número 1.975/2009, o projeto de lei idealizado pela secretária Adriana Rattes foi apresentado em fevereiro deste ano pelo Executivo e andou rápido na tramitação da Alerj. O texto determina que a rede estadual de cultura seja administrada por OSs, entidades privadas sem fins lucrativos: os espaços continuariam públicos, mas passariam a ser geridos por essas organizações. Além da dispensa de licitação, outros pontos polêmicos do texto são o empréstimo de servidores públicos para as organizações com o pagamento dos salários desses servidores vindo não delas, mas do estado. Os funcionários estaduais da cultura também temem a perda de direitos trabalhistas ao passarem a ser geridos por uma organização privada.

No início, o texto incluía toda a rede estadual de cultura. Agora, o governo excluiu a Fundação Theatro Municipal, mas manteve a Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio, a Funarj, que inclui cerca de 350 funcionários ativos, espalhados por cinco bibliotecas, cinco casas de cultura, três escolas, sete museus, uma sala de concerto e sete teatros (sem contar com o Municipal).

De acordo com o presidente da Associação de Servidores da Funarj, Fernando Lima, o governo estadual teria retirado o Teatro Municipal do projeto de lei apenas porque ele teria mais visibilidade, o que poderia atrapalhar ou retardar a votação.

“Por que só o Municipal?”

— Tiraram aquilo que incomodava mais, afastaram o barulho. O Municipal tem cem anos, tem mais visibilidade, qualquer mudança nele aparece mais para o público em geral. É uma vitrine maior. Além disso, como os funcionários do Municipal trabalham todos num só lugar, é mais fácil para eles se reunirem e cobrarem seus direitos — afirma o presidente da Associação de Servidores da Funarj. — Já a Funarj tem suas unidades espalhadas, então é mais difícil nos reunirmos, temos essa dificuldade logística. Mas o consenso entre nós também é contrário ao projeto das OSs. E querem aprová-lo com todas aquelas falhas que nós e sindicatos como o Sated-RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio) apontamos, como a falta de licitação para as OSs. Os problemas do texto que suscitaram esses questionamentos permanecem.

O GLOBO falou também com funcionários de parte desses espaços da rede estadual. Preferindo não se identificar, a maioria deles diz ser contra o projeto de administração da rede por OSs. Uma funcionária do Teatro João Caetano, por exemplo, foi enfática:

— Nós não estamos aceitando isso. Em todos os lugares, a maioria das pessoas está preocupada.

— Todos são contra. Se aprovarem esse projeto, o governo vai dar um atestado de que não consegue gerir sua própria casa. Vão terceirizar a cultura, sem falar na falta de controle dos gastos que vai vir com o fato de a OS não passar por licitação — completava outra funcionária, desta vez do Teatro Glaucio Gill.

Na Casa de Cultura Laura Alvim, uma funcionária comentou a retirada do Teatro Municipal do projeto:

— Por que só o Municipal pode sair? Porque está fazendo cem anos? Porque é a joia da coroa? E as mais de 20 unidades que restaram, como elas ficam? Não concordamos com isso. Na minha opinião, ou todos entram (no projeto), ou nenhum.

— Então salvam o grandão, e os pequenininhos é que se virem? E olha que o Municipal já foi da Funarj. Agora que não é mais, todos os outros que restaram vão ser achatados? — faz coro outra funcionária, do Teatro Armando Gonzaga, e emenda com uma alusão à justificativa dada para a retirada do Municipal: segundo o deputado Jorge Picciani, presidente da Alerj, a de que “existem equipamentos culturais de menores proporções que o Municipal que podem se prestar a essa experiência”. — Estão pegando a Funarj para esparro, ou então para cobaia?

Uma exceção à grita geral contra as OSs vem da Escola de Música Villa-Lobos. O coordenador da escola, Carlos Soares, diz que a estrutura estadual “é carente de recursos”:

— Pessoalmente, acredito que a possibilidade da vinda de recursos privados é a solução, pelo menos aqui para a escola. Não vejo problema na falta de licitação, porque sabemos que as licitações também podem ser manipuladas. Mas sei que sou um dos poucos a apostar nisso. As pessoas têm medo da mudança.

Fernando Lima, da Associação de Servidores da Funarj, levanta a hipótese de que o Municipal teria sido retirado agora para que o projeto fosse aprovado com mais facilidade, mas, mais tarde, seria incluído de novo. A Secretaria estadual de Cultura afirmou que a volta do Municipal mais tarde não está sendo cogitada “no momento”. Perguntada se haveria mudança em algum ponto criticado pelos funcionários, a secretaria afirmou que “nenhuma outra modificação será feita pelo governo no projeto de lei”.

Posted by Ananda Carvalho at 3:00 PM

Museus do mundo todo vão se reunir no Rio po Artur Xexéo, O Globo

Matéria de Artur Xexéo originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, em 11 de junho de 2009.

Cidade vai receber, em junho de 2013, mais de quatro mil profissionais ligados à área

O Rio vai sediar, em 2013, a 23ª Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus (Icom). A cidade disputava com Milão e Moscou a tarefa de receber, durante oito dias, mais de quatro mil profissionais ligados a museus de 170 países diferentes. A decisão foi divulgada ontem, em reunião do Icom, em Paris.

A conferência se realiza de três em três anos. A última vez que uma cidade latino-americana sediou o evento foi em 1976, quando a reunião aconteceu em Buenos Aires.

Cidade teve mais de 50% dos votos no Icom

A próxima Conferência será realizada no ano que vem em Xangai. Para a de 2013, o Rio ganhou com 53,2% dos votos dos eleitores do Icom, contra 32,1% para Milão e 14,7% para Moscou.

Na proposta carioca, o tema para discussão na Conferência de 2013 será “Museus (memória + criatividade = transformação social)”. Ainda de acordo com a proposta brasileira, a Conferência será também “uma oportunidade importante para realizar uma Reunião Nacional de Estudantes de Museologia e, possivelmente, com os intercâmbios e asssociações que já estão sendo feitos, realizar a Primeira Reunião Internacional de Estudantes de Museologia.”

— A vitória do Rio mostra a força dos museus brasileiros — comemorou o presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), José do Nascimento Júnior, que acompanhou em Paris a votação.

A ideia é transformar o Posto Seis, em Copacabana — “Esta parte da cidade reúne restaurantes, teatros, cinemas, lojas e serviços, numa área residencial cercada por praias conhecidas internacionalmente”, de acordo com o projeto — , no epicentro da Conferência. A sede seria o Forte de Copacabana, e a secretaria ficaria concentrada no hotel Sofitel. O encontro está previsto para acontecer entre o dia 1º e o dia 8 de junho (um período “em que o clima do Rio é agradável e não é necessário ar-condicionado” para a estrutura temporária que será instalada no forte.) Nos planos, a festa de encerramento acontecerá no Morro da Urca. Algumas reuniões dos comitês internacionais do Icom acontecerão em uma dezena de museus cariocas, entre eles o Museu da Imagem e do Som, o Museu da República e o Museu Nacional de Belas Artes.

Posted by Ananda Carvalho at 2:21 PM

''Cultura não precisa de despachantes'' por Pedro Venceslau e Marília Neustein, O Estado S. Paulo

Entrevista de Pedro Venceslau e Marília Neustein originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 15 de junho de 2009.

Juca Ferreira quer, na reforma da Lei Rouanet, acabar com 'o comércio e a burocracia' e oferecer vida cultural a mais pessoas

Depois de um dia correndo atrás de Juca Ferreira por São Paulo, foi na área das autoridades do aeroporto de Congonhas, quase na porta do avião, que a coluna conseguiu alcançá-lo. Assim como Gilberto Gil, seu antecessor no Ministério da Cultura, Juca Ferreira é um ministro em trânsito. Desde que desfraldou a bandeira da reforma da Lei Rouanet, faz questão de vender seu peixe in loco. Não por acaso, no Rio e em São Paulo que encontram as plateias mais hostis.

É nessas duas cidades que, segundo ele, se concentram quase todos os recursos investidos a partir da renúncia fiscal, muitos deles em shows de celebridades. E o MinC não tem como impedir, pois não há nada de ilegal nisso, nos termos da lei atual. Nesta conversa com a coluna, Ferreira põe os pingos nos iis, conta suas preferências como consumidor cultural e avisa: "Precisamos de um novo texto que defina melhor essas situações."

Qual o principal obstáculo na sua cruzada para modificar a Lei Rouanet? A concentração excessiva (de recursos da lei) em duas cidades, São Paulo e Rio. Alguns produtores que conhecem o caminho das pedras estão resistindo às mudanças. Fizemos debates em 19 Estados e neles a aceitação é absoluta, já que os recursos não chegam lá.

Existem muitos "atravessadores" no processo entre a aprovação do projeto e a captação de recursos? Essa intermediação existe, sim, mas não é legal. Eu diria que entre 20% e 30% dos recursos investidos são desperdiçados em atividades desnecessárias e burocracia. A ideia é acabar com o comércio da intermediação, com esses despachantes da cultura. Ela não precisa deles.

O que o sr. responde aos que acusam a reforma de "dirigismo cultural"? Vamos usar basicamente três critérios (para distribuição de recursos). Primeiro: projetos que fortaleçam a economia da cultura. Queremos empresas culturais fortes e projetos viáveis. Segundo: projetos que gerem acessibilidade. Os números de acesso à cultura no País são muito ruins. Não se consegue envolver 20% da população no consumo cultural em nenhuma área. Em terceiro: queremos financiar projetos que contribuam para desenvolver as linguagens e da estética .

Os lobbies contra isso são muito fortes? O lobby é quase inevitável na democracia. Haverá pressões, afinal é muito dinheiro - este ano, a Lei Rouanet distribuirá R$ 1,3 bilhão. Mas veja, só 3% do proponentes ficam com mais da metade dos recursos. Esses vão se mexer, obviamente. Seria ingenuidade não esperar isso. Em Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Ceará e Bahia esse dinheiro não chega. Vamos fazer uma revolução no país.

O sr. já sofreu muito assédio dos produtores? Existe uma pressão legítima. É normal, as pessoas querem saber do seu projeto, dos atrasos. Agora, uma pressão indecente - eu chamaria assim - eu nunca sofri. Mas se aparecer, eu tenho bom humor para enfrentar.

O sr. não acha que os ingressos de teatro no Brasil são caros demais? Tem gente que capta pela Lei Rouanet e vende ingressos caríssimos, que só a classe A paga. Se entrou dinheiro público, tem que baratear o ingresso. Hoje não há essa exigência. Tem projeto que recebe o dinheiro - que é público - e não barateia um tostão. Por isso suspendemos o patrocínio do Cirque du Soleil. E hoje, sem dinheiro público, o custo da bilheteria continua o mesmo. Por isso queremos mudar a Lei Rouanet.

O ministro Orlando Silva, dos Esportes, elaborou uma espécie de Lei Rouanet esportiva. Isso cria uma divisão entre esporte e cultura? A coisa não funciona tão mecanicamente assim. Agora, os mesmos problemas que vivemos nesses 18 anos o esporte vai viver. Haverá também uma concentração em cima dos atletas já reconhecidos.

O sr. é um dos fundadores do PV. Mas em São Paulo, apoiou Marta Suplicy, enquanto o partido ficou com Kassab... Eu sou da oposição à direção do partido. Não apoio a presidência do PV e nem a orientação política que eles chamam de pragmática. Aliás, eu daria a isso outro nome...

Fernando Gabeira terá seu apoio para governador no Rio? Se Gabeira for candidato a governador, eu não apóio. Mas sim, se ele for candidato ao Senado.

O sr. costuma ir ao teatro? Como é sua vida de espectador? Minha vida cultural é limitada pelo excesso de trabalho. Mas assisti ao show da Tetê Espíndola em Brasília. E também o do Milton Nascimento e o filme Che, além da peça do Wagner Moura e o show do Caetano Veloso, do qual, aliás, gostei muito. Estou me programando para ver a peça da Fernanda Montenegro.

Existe um projeto de lei do senador Eduardo Azeredo que prevê a criminalização de práticas corriqueiras na internet, como download de música. Qual a sua opinião sobre esse projeto? Não gosto dele. Tenho medo de que se sacrifique a grande conquista que a rede representa - a liberdade absoluta de expressão e a possibilidade das trocas diretas de conteúdos de diversos padrões culturais. A gente não deve ter medo desse nível de liberdade. A população tem maturidade para desenvolver seu senso crítico e fazer suas escolhas.

O que muda para os institutos ligados a bancos que participam da Lei Rouanet? Minha expectativa é que as empresas que criam institutos culturais os mantenham. Pode-se, é claro, estabelecer parcerias. Mas quando chegamos ao ministério, vimos que até o papel higiênico era pago (com dinheiro público). Ou seja: criam o instituto e apresentam a conta ao Estado. Não acredito que tenhamos de pagar toda a programação do instituto. De qualquer forma, reconheço que alguns têm uma excelente programação.

Quais seriam? Vou citar dois: o Instituto Moreira Salles e o Santander - que, apesar de uma ação restrita, é de boa qualidade e não utiliza a Lei Rouanet. Esse é o modelo mais eficiente. Os bancos brasileiros não estão precisando de ajuda do Estado. Se querem fazer um gesto de responsabilidade social com a cultura, que façam de fato. O banco ganha prestígio. Nós podemos colaborar, mas não podem passar toda a conta para a gente. Um exemplo disso é a Funarte, que recebe do governo menos do que a gente repassa para alguns institutos.

O sr. pretende terminar o governo junto com o Lula ou sair antes para ser candidato? Vou até o último dia de governo, se essa for a vontade do presidente. Não tenho plano de outra atividade, incluindo me candidatar.

Posted by Ananda Carvalho at 1:55 PM

Rouanet tem ''desperdício'' de até 30% por Jotabê Medeiros, O Estado S. Paulo

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 16 de junho de 2009.

Ong aponta os pontos falhos do atual texto, diagnóstico apoiado pelo MinC

O presidente da organização não governamental Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, estima que a atual Lei Rouanet propicie um "índice de desperdício" que pode chegar a 30% em boa parte dos projetos. Esse porcentual estaria concentrado, principalmente, no que ele chama de "atravessadores" da lei, produtores que embutem nas planilhas de custos suas próprias (e arbitrárias) comissões (e outras despesas alheias ao propósito final).

O diagnóstico de Abramo é endossado pelo próprio ministro da Cultura, Juca Ferreira, que vê uma "ação criminosa" nessa prática. "O lobby é normal. O que não é legal é um despachante desses entrar no Ministério para oferecer presentes a funcionários. Além de outras barbaridades", acusou. "Já teve gente presa e outros estão sendo investigados pela Polícia Federal por essa prática."

Em 2007, a PF prendeu cinco pessoas em Brasília, entre elas uma funcionária do MinC, sob a acusação de formação de quadrilha. Teriam atuado na aprovação de cerca de 20 projetos, num total de R$ 8 milhões.

Ferreira observou que nunca são os artistas que buscam esse caminho, mas muitas vezes eles são abordados por empresas que oferecem não só a "aprovação prévia" dos projetos no Mecenato da Lei Rouanet, como também asseguram a captação no instante seguinte. É uma oferta atrativa, mas onerosa para os cofres públicos (e ilegal).

"Reconheço que existe o problema, e combatemos duramente essa prática. De vez em quando ouvimos: é fácil, basta embutir um custo aqui. Já ouvi isso muito. Mas é difícil combater, porque escorrega entre os dedos. A lei é falha, não há nenhum controle nem a intenção de exigir essa transparência."

Durante debate em São Paulo, na segunda-feira à noite, na Associação dos Advogados, Claudio Weber Abramo criticou a atual estruturação da Lei Rouanet, que permite que comissões formadas pelos próprios agentes culturais de uma determinada área decidam sobre recursos públicos. "Não vejo sentido em decisões de Estado serem tomadas por pessoas alheias ao Estado."

Segundo Abramo, uma nova legislação precisa levar em consideração as seguintes premissas: introduzir indicadores de desempenho dos projetos apresentados; instituir auditoria independente para cada projeto (auditorias que seriam pagas com dinheiro do próprio projeto); e criar, no interior do ministério, um organismo de gerenciamento do dinheiro aplicado.

A fala de Abramo foi duramente criticada por consultores presentes ao evento, como Ari Brandi (do Teatro Grafite). Brandi queria que Abramo exemplificasse "onde é que ouviu falar" que o agente de captação chegue a cobrar 30% e que não haja nenhum controle.

"Eu não disse que não tem nenhum controle. De uma forma geral, os controles, no Estado brasileiro, são inadequados." Atualmente, o único controle do gasto que um produtor cultural faz com um projeto é a prestação de contas.

O presidente do TCU, Ubiratan Aguiar, presente ao encontro, defendeu o aprimoramento dos sistemas de "integridade" da lei e da aplicação de seus benefícios em todo o território nacional. "Trata-se de renúncia fiscal, dinheiro que seria recolhido", ponderou. "Não poderemos viver de forma federativa enquanto houver uma desigualdade que agride."

Raio-X

CONCENTRAÇÃO: Aproximadamente 3% dos proponentes que vão ao Mecenato da Lei Rouanet ficam com 50% dos recursos, segundo o MinC

PROTAGONISMO: Cerca de 80% dos recursos destinados à cultura via Ministério da Cultura são oriundos da renúncia fiscal

HEGEMONIA: Desde 2002, a região Sudeste teve 23 mil projetos e R$ 3 bilhões captados; toda a região Norte teve 786 projetos aprovados e R$ 40 milhões

APETITE ESTATAL: Entre 2002 e 2008, a Petrobrás respondeu por R$ 1 bilhão da captação, seguida de Eletrobrás (R$ 204 milhões), Banco do Brasil (R$ 139 milhões) e BNDES (R$ 75 milhões)

ATIVOS: Entre os dez maiores proponentes de 2008 estão o Instituto Itaú Cultural (R$ 29 milhões) e a Orquestra Sinfônica Brasileira (R$ 14 milhões)

Posted by Ananda Carvalho at 1:53 PM

junho 10, 2009

Ovação, vaia, polêmica e histrionismo por Jotabê Medeiros, O Estado S. Paulo

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no Caderno 2 no jornal O Estado S. Paulo, em 10 de junho de 2009.

Nova Lei Rouanet deflagra confrontos e aglutina apoios, em teste de fogo em SP

Foi o maior e mais quente debate sobre as mudanças na Lei Rouanet até agora. Cerca de 400 pessoas, entre artistas, produtores culturais, intelectuais, políticos e ministros, lotaram a conferência pública sobre a reforma da legislação de incentivo à cultura, no auditório da Associação dos Advogados de São Paulo, Centro de São Paulo, anteontem à noite.

Manifestantes do Grupo 27 de Março, responsável pela invasão da Funarte há três meses, agitaram o encontro com vaias, ovações e palavras de ordem ("Abaixo a baixaria, cultura não é mercadoria!", gritavam). Entre os participantes estavam as atrizes Beatriz Segall, Rosi Campos, Ester Góes, o ator e produtor teatral Odilon Wagner, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), a socióloga Maria Vitória Benevides (USP), o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Ubiratan Aguiar, além dos ministros Juca Ferreira (Cultura) e Fernando Haddad (Educação).

O debate começou às 19h30 e terminou por volta das 23 h. A temperatura chegou a subir em alguns momentos, especialmente entre Juca Ferreira e o ator Odilon Wagner, que preside a Associação de Produtores Teatrais Independentes (APTI).

O ministro acusou produtores que usufruem de privilégios na formatação atual da Rouanet de não querer nem ouvir falar em mudanças. Wagner retrucou, afirmando que o próprio Ministério da Cultura (MinC) reproduz a concentração que denuncia - nas mãos de 3% dos produtores e essencialmente no Sudeste brasileiro - quando usa o atual Fundo Nacional de Cultura.

Segundo Odilon Wagner, a cultura é mais vigorosa no Sudeste porque estão aqui as empresas mais rentáveis. Ferreira disse que Wagner não soube ler os dados disponíveis. "Não adianta buscar cabelo em ovo, Odilon", disse o ministro. "É impossível defender tamanha concentração (de dinheiro)."

"Tentaram desmoralizar o novo projeto antes que fosse apresentado. Mas a atual legislação permite desvios e práticas ilegais", completou Ferreira, que disse que teve de fazer "grande esforço para manter o ministério íntegro", face ao sem número de abordagens que recebeu de artistas e produtores em busca de privilégios.

Nesse trecho de sua fala, Ferreira ficou emocionado e conclamou os produtores de cultura a mudar o sistema "para evitar que esses despachantes fiquem corrompendo o Ministério da Cultura brasileiro".

Predominou o apoio explícito ao ministro e à proposta, mas produtores contrários ao novo texto reclamaram de espaço para se manifestarem. "É um evento controlado. Uma plateia amiga, um programa de auditório, e não um debate", acusou Paulo Pélico, dramaturgo e cineasta, diretor da Apetesp (Associação de Produtores Teatrais do Estado de SP).

Pélico se retirou do auditório em protesto. Mas o fato é que quase todos os inscritos para falar - havia filas diante de dois microfones na plateia - conseguiram se manifestar até o final do encontro.

O ator Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, disse que uma "minoria que tem acesso aos meios de comunicação" é que faz a mais forte oposição a uma reforma na legislação cultural. Ari Brandi, do Teatro Grafite, recusou com destempero a afirmação, ironizando as intervenções dos colegas favoráveis ao projeto aos gritos, na frente da mesa.

Os sociólogos Renato Ortiz, da Unicamp, e Maria Vitória Benevides, da USP, participantes da mesa, defenderam com verve acadêmica as reformas. "É um projeto emancipatório", afirmou Maria Vitória. "Se a lei não existisse, ela deveria ser inventada", afirmou Renato Ortiz, que desdenhou da acusação de "dirigismo cultural" que se faz à nova lei. "O dirigismo cultural é impossível no contexto contemporâneo. Esse espaço já está ocupado pela grande mídia, pela Rede Globo", disse. "Vai ser muito difícil estabelecer um vínculo dirigista com um grupo indígena que queira fazer um filme."

Frases

Você saiu daquela reunião no MinC dizendo que não havia um projeto novo, era blefe. Lembra daquela sua declaração, Odilon?

Vocês agora estão passeando nos intestinos do Ministério da Cultura, mas não sabem ler.

O outro ali reclama do excesso de debates. Isso é falta de cultura democrática. JUCA FERREIRA - MINISTRO DA CULTURA

A área cultural não tem corrupção? O risco é o mesmo de qualquer área. Onde há o agente privado e o dinheiro público, há o risco. É preciso auditoria e gerenciamento dos projetos. CLAUDIO WEBER ABRAMO - ONG TRANSPARÊNCIA BRASIL

Aqui é uma plateia amiga, um evento controlado, um programa de auditório e não um debate. PAULO PÉLICO - PRODUTOR CULTURAL

Não há um só número verdadeiro entre esses que o Ministério apresentou até agora sobre concentração de recursos. ODILON WAGNER - PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE TEATRO INDEPENDENTE (APTI)

Pelo menos desde a Revolução Francesa, que não passou por aqui, sentimos falta dessa característica: solidariedade. Mas como exigência democrática. Não é caridade, não é benevolência. MARIA VITÓRIA BENEVIDES - SOCIÓLOGA DA USP

Não podemos tornar isso ideológico, o bem contra o mal. Nada do que está sendo discutido aqui está no projeto. E essa dicotomia é insuperável. MAURICIO FITTIPALDI - ADVOGADO

Projeto de lei fica pronto em 2 semanas

NOVA ARENA: Segundo o ministro da Cultura, as modificações na Lei Rouanet devem ser enviadas ao Congresso até o fim deste mês, antes do recesso parlamentar. Juca Ferreira disse que tem pressa e que 16 pessoas, em Brasília, trabalham no aprimoramento da lei.

O novo texto, que modifica a atual Lei Rouanet, já foi debatido em 19 capitais brasileiras. Aberto à consulta pública desde março, recebeu cerca de 2 mil sugestões de todo o País.

Segundo planilha exibida pelo ministro, a Nova Lei Rouanet terá R$ 2 bilhões de orçamento no primeiro ano, enquanto o Vale-Cultura (que será criado por meio do mesmo texto legislativo) receberá uma injeção de R$ 7 bilhões (fruto de parceria entre governo e empresas).

Hoje, segundo dados do MinC, apenas 3% dos proponentes ficam com 50% dos recursos disponibilizados pela lei. A mudança visa a distribuir recursos de forma igualitária. "Quando vejo artistas felizes, orgulhosos com seus certificados de captação, fico com pena, porque sei que mais de 80% deles não captarão nada", afirmou o ministro. "A cultura brasileira não cabe dentro da renúncia fiscal. A Lei Rouanet promove uma falsa parceria público-privada. Nós não somos contra a iniciativa privada. Mas o mecenato é quando se mete a mão no próprio bolso, e não no bolso do governo. Ao ser aprovado (um projeto), dá logo o dinheiro e o camarada vai fazer seu projeto", disse.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, esteve no debate para fazer um apelo: que as obras financiadas pelo Ministério da Cultura sejam liberadas, após sua vida comercial, para uso nas escolas públicas brasileiras. Ele disse que não vê sentido em o governo financiar a feitura de uma obra artística e depois ter de comprá-la para uso educacional. "É muito triste o Ministério da Educação pagar direitos por aquilo que o Estado já financiou", ponderou.

A nova lei deverá adotar critérios na avaliação de obras culturais, o que tem suscitado o temor de que provoque dirigismo. "Atualmente, a lei tem critérios objetivos. A adoção de critérios subjetivos significaria a volta da censura no Brasil", disse Odilon Wagner. "E aqui se falou em dirigismo cultural? E o dirigismo privado?", questionou o ministro Ubiratan Aguiar, do TCU, que acha uma tolice o argumento.

Posted by Ananda Carvalho at 8:41 PM

Veneza abre sua ''feira de instalações'' por Camila Molina, O Estado S. Paulo

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no Caderno 2 do jornal O Estado S. Paulo, em 8 de junho de 2009.

É o que virou a Bienal deste ano, por incentivo dos curadores, que pediram aos artistas para criar a partir do espaço concedido

Numa quantidade extensa de traduções, Fare Mondi, título da 53ª Bienal de Arte de Veneza, aberta ontem para o público, agrega uma série de significados, como diz o alemão Jochen Volz, que, ao lado do sueco Daniel Birnbaum, assina a curadoria desta edição. Volz faz uma lista de possibilidades em torno do tema: Fazer Mundos, em português, poderia remeter a algo mais prático; em alemão, a um ato grandioso; em sueco, a uma construção de caráter espiritual; em francês, a ação mais pragmática, e assim por diante. Ele vai elencando conotações, não deixando de chamar a atenção para aquele ideal de que as atuações dos artistas podem carregar todas as significações ao mesmo tempo.

Uma medida dos curadores foi levar os criadores a fazerem suas obras pensando no espaço específico que teriam na mostra e, assim, Fare Mondi se transformou, principalmente, numa Bienal de instalações (algumas grandes e poucas de impacto), repleta de trabalhos de 2009 e com intervenções por vários pontos do Arsenale. Um exemplo é o zepelim "entalado" pelo mexicano Héctor Zamorra (ele vive no Brasil) em um dos corredores do local.

Outra ideia foi a de que não existe uma linha reta da história da arte, mas confluências de pesquisas entre consagrados e jovens ao mesmo tempo. Só que a base da mostra são as experimentações do terreno conceitual a partir dos anos 1960. "Pensamos em quais artistas têm uma atualidade, são vivos, e ao mesmo tempo, referência", diz Volz ao Estado. Por isso, não há as obras do chamado caráter histórico nas exposições.

O italiano Michelangelo Pistoletto, nascido em 1933, participa no Arsenale com uma instalação de 2009, Vinte e Dois Menos Dois, em que coloca grandes espelhos emoldurados quebrados pela ação de uma marretada (ela está lá para remeter ao frescor da ação). Em cada espelho, material que aparece na obra do artista desde a década de 1961, faz-se um desenho diferente, os estilhaços ficam no chão, nesse trabalho espetaculoso e conceitual.

Em todos esses sentidos, a participação da brasileira Lygia Pape (1927-2004) nesta Bienal de Veneza ganhou grande destaque, tanto que ela ganhou uma das menções honrosas, no sábado à tarde, na cerimônia de premiação, que culminou com os troféus Leão de Ouro para a japonesa Yoko Ono e para o americano John Baldessari. O de melhor artista ficou para o alemão Tobias Rehberger, que fez intervenção na cafeteria dos Giardini; a de artista jovem para a sueca Nathalie Djurberg,que exibe a instalação Experiment, um jardim surreal de plantas e bichos agigantados feitos de papel marché, animações e música, tudo se reunindo numa atmosfera organizada e propositalmente de mau gosto; e aos Estados Unidos coube o prêmio de melhor representação nacional por apresentar em seu pavilhão, nos Giardini, a mostra Topological Garden, de Bruce Nauman, com obras de 1967 até 2005, com suas famosas frases ou palavras em néon e trabalhos escultóricos de temática em torno da cabeça e das mãos.

A instalação Ttéia (2004), de Lygia, é a primeira obra do Arsenale (em amplo espaço escuro, fios de ouro saem de formas quadradas, se transformando em feixes de luz de quase imaterialidade). A obra tornou-se ponto de partida para que os curadores pensassem todo o espaço do Arsenale. Foi assim com a obra do argentino Tomas Saraceno, a grande instalação Galáxias Formadas por Fios, Como Teias de Aranhas (numa tradução livre), mas esta no pavilhão Biennale, nos Giardini - é uma das mais chamativas para o público: uma construção com fios de náilon preto toma toda uma sala e obriga que o público circule por dentro dela.

Além da Ttéia, o Livro da Criação (1959) de Lygia, no pavilhão Biennale, é uma preciosidade. Como afirma Volz, este trabalho de formas geométricas feitas em cartão e acompanhadas de breves escritos compõe uma narrativa essencial: "No princípio tudo era água", assim começa. Ele diz que é "obra-prima do neoconcretismo brasileiro" e agrega ao mesmo tempo o caráter formal e a relação com o público e trata da "dimensão social" da arte. "Não existe uma divisão entre o politicamente ativista e a rigidez formal. Sempre há uma urgência do artista em criar a partir de uma relação com a vida atual sem abandonar a pesquisa de visualidade", defende Volz, de 37 anos - há 5 ele é diretor artístico do Instituto Cultural Inhotim em Minas Gerais, o que explica sua proximidade com o Brasil.

A instalação inédita do carioca Cildo Meireles, "Pling Pling", de 2009, também é um grande destaque, no Arsenale. Seis salas coloridas, vibrantes e em sequência - roxo, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho - têm cada uma em seu interior, numa das quinas de suas paredes, um monitor de TV onde está projetada a imagem filmada daquela mesma quina. Num momento inesperado, a cor do lugar projetado se transforma em outra e Cildo faz, na verdade, um sistema de contrastes - o espaço roxo fica com a tela amarela, o verde, com a tela vermelha, e assim por diante. O visitante vai passando por ele, sala a sala. "Talvez seja seu trabalho mais formal, mas é político também", diz Volz, lembrando também a relação com a pintura.

A Bienal de Arte de Veneza é a mais tradicional de todas. Nos pavilhões dos chamados Giardini, ficam as representações de cada país. A do Brasil, deste ano, selecionada pelo curador Ivo Mesquita, exibe fotografias do paraense Luiz Braga e pinturas do alagoano Delson Uchôa, jogando, nos dois casos, luz para certa poética da cor, chave da criação de ambos. Além da representação premiada, dos EUA, com mostra de Nauman, vale destacar o pavilhão da Polônia, com a videoinstalação Hóspedes, de Krzystof Wodiczko, sobre a imigração.

Posted by Ananda Carvalho at 8:31 PM

Veneza abre com instalações de brasileiros por Suzana Velasco, O Globo

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, em 7 de junho de 2009.

Pavilhão geral da bienal tem obras de Lygia Pape, Cildo Meireles e Renata Lucas, que fez intervenção na arquitetura

A53ª Bienal de Veneza, mais tradicional exposição internacional de artes plásticas, será aberta hoje para o público com três artistas brasileiros, de três gerações diferentes, no pavilhão principal. Entre Lygia Pape (1927-2004) e Cildo Meireles, nomes consagrados da arte nacional, a paulista Renata Lucas, de 37 anos, firma na Itália uma carreira que esteve em ascensão nos últimos anos, marcada por ousadas intervenções em espaços públicos.

Numa cidade sem asfalto, Renata criou “Venice suitcase” (“Mala Veneza”), estradas sobre o solo de Veneza, nas alamedas das áreas do Arsenale e do Giardini. Propícia ao nome desta edição da bienal, “Criar mundos”, a instalação é, segundo a artista, um jogo entre História e ficção, natureza e cultura:

— Como num processo arqueológico, ao retirar parte da areia que recobre a alameda, encontra-se o pavimento característico de uma via moderna, asfaltada — explica Renata, por e-mail, após a montagem. — É um jogo de profundidades numa cidade em que não há subsolo, afinal de contas escava-se a areia da alameda (construída) para chegar à estrada (igualmente construída). É uma espécie de arqueologia ao contrário, onde, surpreendentemente, o que se encontra nas camadas subjacentes de uma cidade antiga como Veneza é futuro. Como uma poça de água no chão, a parte de solo retirada contém uma estrada. Para mim, foi importante deixar ver que essa estrada passa por toda parte.

Problemas com as regras de preservação em Veneza

Os artistas Delson Uchôa e Luiz Braga, escolhidos pelo curador Ivo Mesquita para o pavilhão brasileiro, quase não foram à Veneza pela Bienal de São Paulo — responsável pelo pavilhão desde 1993 —, por falta de patrocínio, resolvido na última hora com o apoio de R$350 mil do Ministério da Cultura. No pavilhão geral, Renata também teve problemas, mas de outra ordem. Mesmo já na cidade para criar sua instalação, ela ficou à espera por uma autorização, já que praticamente toda Veneza tem regras rígidas de preservação — e a artista queria construir uma estrada em plena área histórica.

— Veneza é muito limitada, não apenas porque é tombada, mas também porque não permite que certos equipamentos circulem pela cidade, pois só podem desembarcar máquinas leves. Há restrições de toda ordem. Aqui, inclusive o que é absolutamente novo finge que é antigo, e tradição e preservação são palavras que valem para tudo, sem distinção — conta Renata, que já plantou árvores nos jardins da Tate Modern, em Londres, e ocupou cruzamentos de ruas do Rio com placas de compensado.

O pavilhão italiano da bienal vai expor ainda o histórico “Livro da criação” (1959), de Lygia Pape, pranchas de papel que contam a História do mundo. Uma das mais belas instalações de Lygia, “Ttéia ”, também será exposta, na primeira sala do Arsenale, porta de entrada para a exposição. A obra é uma escultura de fios metalizados sobre placas de madeira e luz.

Cildo Meireles mostrará em Veneza a obra inédita “Pling Pling”. Cada uma das seis salas do espaço de Cildo é pintada de uma cor diferente — lilás, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho — e transmite, numa tela, uma gravação ao vivo de outra sala, com sua cor complementar.

Dos 500 artistas de dois anos atrás, a Bienal de Veneza — que será realizada até 22 de novembro — passou para 90 nomes, reunidos pelo curador sueco Daniel Birnbaum e pelo cocurador alemão Jochen Volz. Entre eles estão o sueco-brasileiro Öyvind Fahlström (1928–1976), os americanos Gordon Matta-Clark e Miranda July, a espanhola Sara Ramo, o argentino Tomas Saraceno, os italianos Rosa Barba e Simone Berti e a japonesa Yoko Ono, que este ano recebe o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra, junto com o americano John Baldessari. A exposição se completa com os 77 pavilhões nacionais, cada um com artistas escolhidos por cada país.

Posted by Ananda Carvalho at 8:08 PM

Crítica/Bienal de Veneza: Seleção de artistas evoca potência e fragilidade por Fabio Cypriano, Folha S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 9 de junho de 2009.

Mostra principal tem conjunto de obras coeso, mas falha ao evitar controvérsias

"T téia 1", de Lygia Pape, a obra que abre a mostra "Fazer Mundos", de Daniel Birnbaum, na 53ª Bienal de Veneza, resume bem tudo o que se vai ver daí em diante: uma seleção elegante, construída de forma frágil e ao mesmo tempo potente.

A elegância da obra de Pape, com fios dourados que constroem pilares quadrados, está também no vídeo da italiana Grazia Toderi, "Orbite Rosse" (órbitas vermelhas), uma imagem ovalada com milhares de estrelas, que parece um mapa de uma galáxia, mas que, vista de perto, são bombardeios de guerra, um dos trabalhos mais fortes da mostra.

O argentino Tomas Saraceno, em operação semelhante, constrói uma das mais surpreendentes instalações da Bienal, com fios que se transformam em globos, e dificultam o caminhar dos visitantes.

"Fazer Mundos" -a mostra tem 47 línguas no título, para tratar a arte como forma de tradução- se vale também da fragilidade, como os fios de Pape, o que faz com que a ideia de desenho seja recorrente, como nas obras de Marjetica Potrc, Öyvind Fahlström ou Richard Wentworth, entre outros.

A fragilidade/potência está também nas formas de expor, como nas fotos de vários formatos, algumas coladas na parede com fita adesiva, na sala de Wolfgang Tillmans, na invisibilidade da obra de Renata Lucas, ao asfaltar partes do chão da exposição, por onde muitos caminharam sem perceber.

Mas a qualidade na seleção dos 77 artistas de Birnbaum, com o assistente Jochen Volz, também se revela problemática: a delicadeza das obras evita controvérsias, como se o fazer mundos na arte ocorresse num sentido paralelo ao seu contexto. "Fazer Mundos" diagnostica bem a fragilidade que o mundo enfrenta, mas fica aí.

Brasil exótico

Já as representações nacionais seguem com disparidades gritantes. Por um lado, pavilhões como o dos Estados Unidos, que merecidamente ganhou o Leão de Ouro com Bruce Nauman, gastam milhões de dólares numa demonstração de poder -dessa vez, os EUA além de seu próprio espaço ocuparam outros dois na cidade.

Por outro lado, alguns pavilhões se rendem a estereótipos, como aconteceu desta vez com o Brasil, visto de forma exótica, por meio da produção de Delson Uchôa e Luiz Braga, seleção a cargo de Ivo Mesquita.

Esse "Brasil profundo", por conta da temática regionalista e um tanto folclórica, que parece propaganda governamental, tornou-se ainda mais arcaico perto de escolhas radicais, como Teresa Margolles, no México, que abordou a violência de execuções ligadas ao narcotráfico; Elmgreen & Dragset, artistas que curaram o pavilhão nórdico e dinamarquês, recebendo menção honrosa do júri, com uma abordagem sarcástica sobre colecionismo; ou Shaun Gladwell, na Austrália, levando a cultura pop a um rigor formal impressionante.

Mesmo assim, a diversidade continua exercendo uma forma de oxigenação em Veneza. E, felizmente, Renata Lucas, Sara Ramo, Cildo Meireles e Lygia Pape, apresentam um Brasil muito mais complexo que o do pavilhão nacional.

Paralela tem antigos e modernos

Em 2007, a mostra paralela mais falada da Bienal foi "Artempo: Quando o Tempo se Transforma em Arte", no Palazzo Fortuny, organizada por Axel Vervoordt. Ele volta a ocupar o mesmo espaço agora com uma exposição tão surpreendente quanto, "In-finitum", que segue a mesma linha da anterior: ocupa o palácio gótico, misturando os objetos de seus primeiros proprietários, criadores de tecido e cenógrafos, com arte contemporânea, muitas vezes confundindo o visitante. Bill Viola, Anish Kapoor, James Turrel e mesmo o brasileiro Vik Muniz estão ao lado de modernos como Pablo Picasso, Mark Rothko e Paul Cézanne. Um novo pavimento da casa foi incorporado à mostra, com concepção do arquiteto Tatsuro Miki, que criou o "Santuário do Silêncio", coberto com lama de lagoas venezianas.

Museu de bilionário francês une arte e demonstração de poder

A arte contemporânea, cada vez mais, vem se tornando uma das formas de exposição de poder e influência. Não por acaso, circulam pela Bienal de Veneza bilionários como o norte-americano Paul Allen (32º mais rico do mundo segundo a "Forbes") e o russo Roman Abramovich (51º). Mas quem ocupou o centro das atenções foi o francês François Pinault (60º), com a inauguração de seu novo espaço expositivo, na Punta della Dogana, projeto do arquiteto japonês Tadao Ando.

Há dois anos, Pinault já havia inaugurado uma sede de sua fundação em Veneza, no Palazzo Grassi, após romper com o governo francês. Sua intenção original era criar um museu, projetado por Ando, em Paris, mas por conta dos altos impostos cobrados pela França, o dono da Christie's foi a Veneza.

O novo local, um antigo armazém das docas, construído em 1631, com 5.000 m2, foi totalmente remodelado por Ando, a um custo de 20 milhões (cerca de R$ 60 milhões) e inaugurado em quatro dias diferentes, na última semana, para os VIPs de Veneza, com a mostra "Mapping the Studio".

Com obras da coleção de Pinault, a exposição, que ocorre também no Palazzo Grassi, reúne praticamente todos os nomes com maior sucesso comercial na cena contemporânea, como os japoneses Takashi Murakami e Hiroshi Sugimoto, o italiano Maurizio Cattelan, os norte-americanos Jeff Koons, Richard Prince e Cindy Sherman. Em arte contemporânea, difícil encontrar maior demonstração de poder. (FC)

Posted by Ananda Carvalho at 7:39 PM

Renata Lucas abre estrada em Veneza por Marcos Augusto Gonçalves, Folha S. Paulo

Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada na Ilustrada no jornal Folha S. Paulo, em 9 de junho de 2009.

Artista brasileira fez trechos de asfalto na Bienal depois de ter projetos vetados

Mostra não autorizou fazer piscina em canal da cidade, mas pôs ideia em livro; Renata optou então por pavimentar caminhos na área dos Giardini

O catálogo da 53ª Bienal de Veneza, aberta anteontem para o público, traz imagens surpreendentes de obras de Renata Lucas, 38, brasileira que vem ganhando cada vez mais reconhecimento no circuito internacional da arte contemporânea. Numa das imagens, vê-se uma convidativa piscina construída dentro de um dos canais da cidade. Em outra, duas comportas interrompem o fluxo de água, deixando aparecer no fundo da laguna um insólito pedaço de estrada asfaltada.

Mas nenhuma dessas intervenções tornou-se realidade. Como outras propostas apresentadas pela artista à Bienal, não puderam ser construídas. Não por que fossem consideradas ruins pelos curadores da exposição, mas por parecerem caras e de difícil realização.

Intervenções na arquitetura e no espaço público são marca registrada de Renata, que na 27ª Bienal de São Paulo duplicou uma calçada numa rua da cidade, com postes e arbustos.

Em Veneza, algumas de suas ideias não chegaram sequer às mesas das autoridades que poderiam aprová-las: diante das restrições que cercam as construções da cidade histórica, a própria direção da mostra tratou-as como inexequíveis.

"Trabalhei muito, mas nada podia ser levado adiante. Até coisas mais simples, que pouco mexiam com o espaço público, foram recusadas", conta ela, que contesta a idéia de que suas propostas são difíceis e podem alterar de maneira definitiva os locais onde são realizadas. "Todos os meus projetos são reversíveis", diz a artista.

Ainda que seja assim, o fato é que quando a Bienal foi fechar o catálogo da exposição (em Veneza, diferentemente de São Paulo, ele pode ser adquirido na abertura do evento), Renata ainda não tinha um trabalho definido. "Sugeri então que publicassem no catálogo as imagens de todos os projetos que eu havia proposto, e dei o nome à série de "Venice Suitcase" (mala de Veneza)."

Depois de uma negociação que classifica como "exaustivo", ela conseguiu, enfim, sinal verde para uma obra de execução menos complexa do que uma piscina, mas de resultado não menos interessante.

Estrada

Nos dois principais espaços da Bienal, os Giardini (jardins) e o Arsenale, a artista instalou pedaços de uma estrada de asfalto sob o solo -ainda que a pouca profundidade. No início, a autorização para a camada de asfalto no piso dos Giardini (originalmente de terra e pedrisco) era para apenas 20 m2, mas a Bienal conseguiu que chegasse a 90 m2. No Arsenale, são menores, com menos de 10 m2, e ficam dentro do pavilhão.

"Grandes mostras como a Bienal de Veneza são quase sempre um quebra-cabeça, uma negociação entre o desejo do artista e a realidade. Mas essas dificuldades também têm um lado interessante. Tudo isso me fez lembrar um filme do Lars Von Trier chamado "Five Obstructions", que tem como tema uma série de restrições ao trabalho de um cineasta. Foi cansativo, mas no final fiquei satisfeita com o resultado", diz Renata.

As instalações dão o que pensar. Uma das ideias que suscitam -da qual a artista particularmente gosta- é a de se poder encontrar sob a superfície da velha cidade não uma camada do passado, mas alguma coisa do futuro, uma estrada de asfalto. "É como escrever a história ao contrário", diz.

Renata recebeu o convite para participar da Bienal em julho de 2008, quando estava em Barcelona. Logo a seguir fez uma primeira visita à cidade, retornou em novembro e, em janeiro, alugou um quarto para ficar. "Eu sou demorada, custo a fazer, preciso de tempo para pensar", explica. Durante os meses em que se defrontou com Veneza, descobriu um lugar labiríntico, histórico e, ao mesmo tempo, artificial.

"As camadas que não podem ser mexidas nem sempre são tão históricas assim. Há coisas que foram feitas há pouco tempo, mas são tratadas como se fossem muito antigas. Embora tenha um lado muito legal, Veneza é uma cidade-souvenir, um parque de diversões, e a Bienal, de certa forma, reflete tudo isso", diz.

Fechada a mala de Veneza, Renata vai passar um período em Berlim. Ela ganhou o prêmio Ernest Young, que lhe oferece estadia na cidade e uma exposição na Kunstwerk. Um outro prêmio, da Dena Foundation, vai resultar num livro, que deve ser publicado em novembro.

Brasileiro Cildo Meireles leva instalação "penetrável"

A instalação que o artista brasileiro Cildo Meireles mostra na Bienal de Veneza é uma espécie de "penetrável", conceito desenvolvido pelo também carioca Hélio Oiticica (1937-1980) para seus ambientes -obras nas quais o espectador é convidado a entrar.

No caso, trata-se de uma sequência em linha reta de seis salas interligadas, pintadas com cores impactantes, que o visitante pode atravessar numa direção ou noutra.

Em cada uma das salas, o artista, que não esteve presente na abertura do evento, afixou uma tela de TV reproduzindo uma a uma as cores escolhidas: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.

A instalação não faz parte do pavilhão brasileiro -é uma escolha da curadoria geral da Bienal, assim como os trabalhos de Lygia Pape (1927-2004), Renata Lucas e Sara Ramo, todos exibidos no Arsenale, um grande pavilhão que foi em outros tempos um arsenal militar.

Ramo, artista brasileira de origem espanhola, tem duas obras no local. No interior do pavilhão, ela exibe um vídeo (que foi mostrado na galeria Fortes Vilaça, em São Paulo, no ano passado) intitulado "Quase Cheio, Quase Vazio".

Do lado de fora do prédio, criou uma casa-instalação inspirada na célebre história infantil de João e Maria.

A artista, que vive e trabalha em Belo Horizonte, considera que esse é o "mais narrativo" de seus trabalhos. "A ideia", diz Ramo, "é que as pessoas entrem fisicamente na historia deles". (MAG)

Posted by Ananda Carvalho at 7:25 PM

MinC agrega sugestões a projeto de Lei Rouanet por Marcio Aith, Folha S. Paulo

Matéria de Marcio Aith originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha S. Paulo, em 10 de junho de 2009.

Versão terá critérios expressos para que o ministério aprove ou rejeite propostas

Juca Ferreira, titular da Cultura, nega dirigismo cultural; promoção explícita de marca será vetada na nova legislação

Três meses após colocar em discussão pública o anteprojeto de reforma da Lei Rouanet, o MinC (Ministério da Cultura) aceitou sugestões e mudou o texto original da proposta colocada em debate público em março passado.

Ao contrário da primeira versão, o novo anteprojeto trará critérios expressos para que o MinC aprove ou rejeite projetos culturais a serem incentivados por renúncia fiscal.

Pela versão original, estes critérios não passariam pelo Congresso. Seriam definidos por decreto ou dentro do próprio MinC, posteriormente à aprovação da lei.

A Lei Rouanet prevê incentivos fiscais para que empresas e pessoas financiem projetos culturais aprovados pelo MinC. Ela foi aprovada em 23 de dezembro de 1991.

Entre outras medidas, permite que o investidor deduza do Imposto de Renda até 100% do valor que investe em cultura. Em outras palavras, o Estado renuncia à cobrança de impostos para que o contribuinte invista em projetos culturais.

Dirigismo

A primeira versão da proposta do MinC vinha sendo muito criticada pelos setores que querem manter a lei como está.

Segundo eles, a proposta original abriria espaço para o dirigismo cultural e para o poder discricionário do Estado.

"Dirigismo cultural não cabe na minha biografia", disse o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em evento realizado na noite de terça para discutir a Lei Rouanet em São Paulo.

Segundo Ferreira, a discussão do projeto permitiu a ele entender a necessidade de explicitar os critérios na própria lei. Ele não especificou que critérios serão estes. A Folha apurou cinco:

1 - Capacitação técnica: esse item visa impedir a captação de recursos, via Lei Rouanet, por pessoas sem capacidade comprovada de realizar projetos.

2 - Preços acessíveis: o objetivo é impedir o patrocínio, via renúncia fiscal, de projetos que, depois de realizados, cobram preços altos para a população de baixa renda.

3 - Desconcentração: por esse critério, o MinC poderia aprovar ou vetar um projeto com o objetivo de assegurar o equilíbrio da produção cultural entre todas as regiões do país. Hoje, o MinC acredita que o Sul e o Sudeste são privilegiados.

4 - Permanência: o MinC poderia privilegiar grupos de teatro ou espetáculos itinerantes em detrimento de projetos de curta duração.

5 - Promoção de marca: por esse critério, projetos poderão ser rejeitados por promoverem explicitamente a marca de seus patrocinadores.

Governo

Nas últimas semanas, o MinC tem tentado convencer o governo a elevar, via suplementação orçamentária, os recursos do ministério e de seu Fundo Nacional de Cultura.

É com esse dinheiro que o ministro espera compensar, caso a lei seja aprovada, eventuais reduções do patrocínio cultural via renúncia fiscal. Na visão ideal do ministro, o fundo, e não a renúncia fiscal, deverá ser o instrumento principal para as políticas públicas de sua área.

OAB critica declaração de secretário sobre advogados

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) divulgou uma nota de repúdio a declaração feita à Folha pelo secretário-executivo do MinC (Ministério da Cultura), Alfredo Manevy.

Em entrevista à Ilustrada publicada no último dia 30, Manevy disse que a resistência do setor privado às mudanças da Lei Rouanet não vem de empresários, mas de "intermediários e advogados que funcionam como despachantes de projetos culturais".

Manevy comentava reportagem da Folha mostrando que o projeto, se aprovado em seu formato original, reduziria o apetite do setor privado por investir em cultura.

Manevy respondia a empresas, que, consultadas pela Folha, anunciaram que, nessa hipótese, devem reduzir seus investimentos na área, tanto os incentivados por redução de impostos quanto os feitos com recursos próprios.

Segundo a nota da OAB, a afirmação de Manevy é "descabida" e "infeliz". "Na condução dos projetos incentivados, o advogado é mais um dos prestadores de serviço fundamental para a boa consecução desses empreendimentos."

Para a entidade, o secretário-executivo, "como agente público, por imposição legal, deve portar-se conforme os padrões éticos da probidade e decoro".

A nota diz ainda que "equiparar a função do advogado à de meros intermediários diminui o importante papel desempenhado pelos advogados" na prestação da Justiça no país.

Posted by Ananda Carvalho at 7:13 PM

junho 3, 2009

Framing the Message of a Generation por Holland Cotter, The New York Times

Matéria de Holland Cotter originalmente publicada no jornal The New York Times em 29 de maio de 2009.


HOW does cultural history get written? Who chooses which portraits will hang in the hall of fame, which art will live on in museums, which books will end up on the classics shelf, which music will be standard fare in tomorrow’s concert halls?

We are encouraged to think that such judgments have lives of their own, are decided by a kind of natural selection. The most beautiful art will prevail, the most ambitious, the most morally uplifting, the most universal in emotional appeal. Everything else is by default of a lesser order. We shouldn’t fret if it disappears.

This view is, of course, wishful thinking. Moral and universal are concepts up for grabs; my notion of beautiful may leave you cold. Many of our masterpieces owe their origins to the distinctly immoral ambitions of power politics, their survival to prosaic strokes of luck, their present pre-eminence to institutional marketing, scholarly attention and popular sentiment. Even so, survival can be chancy. Fine things are tossed out and crummy things kept all the time.

In the case of art from the deep past we can usually only guess at how the selection process worked. With contemporary art we can see it in operation. We can see history being written — recorded, edited, enhanced, invented — right before our eyes. It can be a disturbing sight.

I was reminded of this after visiting two big history-writing and history-inventing exhibitions in New York this spring, “The Pictures Generation, 1974-1984” at the Metropolitan Museum of Art (through Aug. 2) and “The Generational: Younger Than Jesus” at the New Museum (through July 5).

Both are eagerly anticipated surveys, one of influential art from the near past, the other of art very emphatically of the here and now, and with an eye to the future. And neither show is modest in its aims. Both speak of art they are presenting in epochal terms, as defining not styles or trends but generations. This is a bold take on history, but a tricky one, gratifyingly dramatic, inevitably distorting.

Thinking in terms of generations is by no means peculiar to the field of art, but it is more common there than in literature or music. Writing and composing have always been inherently solitary activities; the results can be transmitted over time and space through copies and without the presence of the creator. By contrast, the making of art in its most traditional forms — painting and sculpture — was historically a social activity. Almost everything about it was concrete. Training was closely supervised; execution was a multistep, labor-intensive process most efficiently carried out by groups.

The master-apprentice bond, the passing of expertise and values from one era to the next, is part of an ancient story. The figure of the lonely artist in his garret is a relatively recent one. Even in the modern era the old social model has persisted in the concept of an avant-garde. True, the generational exchange there is contentious, with torches dropped as quickly as they were passed. But an old collective model remains intact.

There’s a little bit of all of this in the story told by the Met show, which begins in the early 1970s at the California Institute of the Arts in Los Angeles. There several students of the Conceptualist artist John Baldessari were lifting photographic images from popular sources — advertising, television, films, pornography — and repositioning them in conventional art formats. In the process the original images took on unsuspected, often loaded meanings, and the new work threw various aesthetic givens, like originality and expressivity, into confusion.

As it turned out, artists in other cities were on a similar track and eventually everyone converged in New York. There in 1977 five of the artists — Troy Brauntuch, Jack Goldstein, Sherrie Levine, Robert Longo and Philip Smith — appeared in a group exhibition at Artists Space in Lower Manhattan. The show was organized by the critic Douglas Crimp; it was called “Pictures,” and because it looked different from other shows around, it was noticed.

When Mr. Crimp published a revised version of his theory-intensive exhibition essay in October, the hot academic journal of the day, the “Pictures” phenomenon was born. The show assumed mythic status; for a certain insider audience it came to define the most significant new art of the day, and the beginning of the postmodernist wave. The art market confirmed this appraisal.

Posted by Ana Maria Maia at 4:59 PM

Fronteira diluída entre arte e tecnologia por Eugênia Bezerra, Jornal do Commercio

Matéria de Eugênia Bezerra originalmente publicada no Caderno C do Jornal do Commercio em 3 de junho de 2009.

Questionamentos recorrentes da arte contemporânea persistem na segunda exposição do 47º Salão de Pernambuco

Encontros entre arte e tecnologia marcam a segunda exposição do 47º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. A coletiva O lugar dissonante será inaugurada hoje, às 19h, na Torre Malakoff, com instalações de Lourival Cuquinha e Hrönir, Giselle Beiguelman e Maurício Fleury (SP), Paulo Nenflídio (SP), Fernando Velázquez (Uruguai/SP) e Ricardo Carioba (RJ).

A curadoria é do artista plástico paulista Lucas Bambozzi e da pesquisadora e crítica de arte pernambucana Clarissa Diniz. Ele explica que a exposição tem um título ambivalente. “O lugar não é físico, mas talvez o lugar onde se encontra dentro do trabalho o seu ponto de interesse, conflito, dissonância”.

É como se essas obras estivessem ligadas pela maneira como lidam com o instante em que elementos confluem e adquirem uma forma ou sentido (seja ele consonante ou dissonante). “Encontramos nos artistas convidados a ressonância do interesse crítico diante dos contextos e suas relações sociais e físicas específicas, o que configura uma produção artística cada vez mais context-specific, que retira a arte de uma lógica objetual para pensá-la como experiência a um só tempo perceptiva-cognitiva-semântica, cujo foco se desloca exclusivamente para o sujeito”, relatam os curadores.

Segundo Bambozzi, a exposição nasce com uma diretriz definida e na expectativa da realização de outras mostras de arte e tecnologia (o que, de fato, está relacionado ao perfil que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) pretende consolidar na Malakoff). “Buscamos trabalhos que se sobressaem não pelo uso da alta tecnologia, mas por tematizarem a tecnologia. Todos lidam com uma reorganização social, não só dentro da exposição, mas do espaço público”.

São obras que, além de exemplificarem a diluição das fronteiras entre as artes visuais e a música, permitem refletir sobre questões como a autoria, simultaneidade, erro, interação – entre outras. Nesses trabalhos, como ressalta Bambozzi, a tecnologia não leva as pessoas para a frente de um computador, mas para o espaço público.

Com Ouvidoria (2008), Lourival Cuquinha & Hrönir ressaltam a relação entre o público e o privado. Durante a exposição, as pessoas poderão utilizar gratuitamente alguns telefones públicos instalados na Malakoff – mas o áudio dessas ligações será transmitido para um espaço expositivo escuro e também mixados por um software (explicações sobre esse procedimento serão colocados nos orelhões).

Já Paulo Nenflídio estabelece uma relação entre o high e o low tech em Teia (2008). O trabalho é uma instalação sonora, que lembra um sistema nervoso, equipada com um sensor capaz de captar a proximidade de um corpo e acionar a emissão de sons.

Da parceria entre a artista plástica Giselle Beiguelman e o músico Maurício Fleury nasce Suite 4 mobile tags (2009). Neste ready-made, a dupla utiliza tags do QR-code, que podem ser lidos por celulares com câmera (que serão disponibilizados no local). Com a interação do público, os equipamentos tornam-se instrumentos para composição musical.

Outra experiência de criação coletiva acontece em Your life, our movie (2007), de Fernando Velázquez. “Queria criar um cenário de imagem em movimento, feito coletivamente e em tempo real”, explica o artista. Para isso, ele toma como base de dados as imagens e tags do Flickr (www.flickr.com). A partir de palavras sugeridas pelo público, o sistema busca as imagens no site e cria três vídeos que são projetados simultaneamente. Outro aspecto da obra é seu caráter transitório, já que os filmes não são armazenados.

Com Ylom (2009), o carioca Ricardo Carioba, dá continuidade às suas pesquisas com animação gráfica e áudio. A obra partiu das imperfeições em uma marcação sonora, causadas pela interferência dos processos analógicos de transmissão. Ele utiliza essa marcação para guiar o movimento de uma projeção na parede. O espectador é imerso neste espaço hipnótico, no qual o artista pretende provocar uma “interação que é, mais do que
física/mecânica, reflexiva”.

Até o fim da mostra (26 de julho) o 47º Salão promove outras ações relacionadas ao tema. Há planos para levar atividades ao Nascedouro de Peixinhos, e trazer o projeto Orquestra YouTube, do músico Marcelo Camelo.

Posted by Ana Maria Maia at 3:12 PM