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Como atiçar a brasa

 


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outubro 31, 2007

Exposição demonstra que MuBE mantém incoerência, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo

Exposição demonstra que MuBE mantém incoerência

Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 25 de setembro de 2007

Com "Deuses", nova curadoria desrespeita vocação do espaço para esculturas

Há anos, o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) passou a ser conhecido como "museu de aluguel", sem um programa de exposições coerente, mas alocando seu espaço a todo tipo de produção, independentemente de sua qualidade.

Desacreditada e em disputa jurídica com a prefeitura, que revogou a cessão do espaço, a direção do MuBE decidiu mostrar sinais de mudança: cassou o mandato de sua então presidente, Marilisa Rathsam, que por 12 anos esteve à frente da instituição, colocando em seu lugar Jorge Landmann.

A primeira ação do novo presidente foi indicar um curador para o espaço, o crítico Jacob Klintowitz, sinalizando que o MuBE passaria a buscar um pouco mais de coerência na programação artística.

"Deuses", mostra com obras de Sérgio Lucena, em cartaz até o próximo domingo, é a primeira ação visível da curadoria e deveria funcionar como o sinal de mudança que se esperava do museu. Não é o que acontece.

Para começar, o curador desrespeita a vocação do espaço, um museu para escultura, e escolhe um artista cujo suporte principal é a pintura, o que demandou a construção de paredes onde Paulo Mendes da Rocha criou amplos espaços para obras tridimensionais.

Reformas
A nova arquitetura, a cargo de Danielle Klintowitz, filha do curador, ocupa apenas parte do espaço expositivo, fazendo com que as obras estejam amontoadas e até mesmo dispostas abaixo de um corrimão, área que dificilmente Mendes da Rocha teria previsto como espaço expositivo.

Assim, a mesma desconsideração que a gestão anterior vinha imprimindo ao caráter do museu continua sendo praticada na nova gestão. Já quanto à seleção artística propriamente dita, Klintowitz apresenta trabalhos que estão pouco inseridos na produção contemporânea que costuma ser exibida em instituições museológicas. Mesmo em meio a uma crise que se arrasta há anos, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) jamais chegou a uma situação parecida.

Aliás, ambas as instituições passam por momentos parecidos, buscando reverter situações de crise. No Masp, também foi escolhido um novo curador, Teixeira Coelho, o que tem dado nova cara ao museu, com duas boas mostras atualmente em cartaz -mesmo que nenhuma delas seja iniciativa própria da instituição.

No MuBE, contudo, a situação de crise não parece contornada e nem dá sinais de reversão a curto prazo. O discurso de mudança da nova presidência não condiz com a mostra atualmente em cartaz, de onde se deduz que o movimento que se viu por enquanto é de mudar para não mudar.

Posted by João Domingues at 11:01 AM | Comentários (1)

Com Salão de Belas Artes, governo regride ao século 19, por Fabio Cypriano, Folha de São Paulo

Com Salão de Belas Artes, governo regride ao século 19

Matéria de Fabio Cypriano, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no doa 31 de outubro de 2007

Até hoje, a Secretaria de Cultura do Estado recebe inscrições para o 1º Salão de Belas Artes de São Paulo, que acontece em janeiro de 2008, no prédio da Bienal. Os vencedores concorrerão a prêmios no valor máximo de R$ 6 mil e suas obras ficarão no acervo da secretaria.

Belas-artes? É estranho que, em pleno século 21, um órgão estadual de cultura organize um evento com um termo tão datado, que remete aos salões criados no século 19 para expor as obras criadas nas academias de belas-artes e por isso denominadas "acadêmicas".

Foi contra os procedimentos acadêmicos que a arte moderna se insurgiu, ao mesmo tempo em que vários salões alternativos foram criados para expor a nova forma de produção. Um dos grandes marcos do impressionismo foi, por exemplo, a mostra com 30 artistas, em abril de 1874, no ateliê do fotógrafo Felix Nadar, portanto fora do salão oficial, na qual participaram Cézanne, Renoir e Monet, entre outros.

No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, foi um manifesto contra o academismo e a noção de belas-artes. Mesmo a 38ª Exposição de Belas Artes, realizada durante a gestão de Lucio Costa na direção da Escola Nacional de Belas Artes, no Rio, em 1931, teve seu nome alterado para Salão Revolucionário, a fim de atrair artistas de perfil moderno.

Estranhamente, o "novo" salão é promovido em conjunto com a APAA (Associação Paulista dos Amigos da Arte), organização social criada para administrar teatros estaduais, e não por nenhum das instituições que cuidam das artes plásticas no Estado, como a organização que administra o Paço das Artes, por exemplo.

Tradição
No material de divulgação, explica-se que o objetivo "é continuar a tradição do antigo Salão Paulista de Belas Artes e revelar trabalhos artísticos vinculados exclusivamente à arte figurativa". Ora, há vários salões em todo país que se originaram nos moldes de salões tradicionais, mas acompanharam as mudanças no tempo e hoje se dedicam à produção contemporânea, como em Ribeirão Preto ou Salvador. Outros, como em Recife e Belo Horizonte, passaram a oferecer residências artísticas, com bolsas para estimular a produção, obtendo sucesso. Obras produzidas nesses salões chegaram a ir direto para bienais internacionais, como a de Veneza.

Por que, então, São Paulo retorna ao século 19 e ao figurativismo, quando denominações desse tipo caducaram? Como isso pode fazer parte da política cultural do governo estadual? O curador Paulo Herkenhoff costuma abordar o conservadorismo paulista enfurecendo os curadores locais, mas o que o governo do Estado está promovendo é um atestado do reacionarismo brasileiro.

Posted by João Domingues at 9:36 AM | Comentários (7)

outubro 22, 2007

Residências artísticas: resposta do Videobrasil a notas publicadas no Correio da Bahia

Residências artísticas: resposta do Videobrasil a notas publicadas no Correio da Bahia

Leia na sequência as matérias do jornal Correio da Bahia (Prata do MAM e Em dupla) que provocaram a resposta da Associação Cultural Videobrasil.

Veja também no final deste post as informações oficiais sobre os contemplados do Programa Videobrasil de Residências.


Carta enviada para a direção de redação do Correio da Bahia com cópia para o Canal Contemporâneo.

São Paulo, 22 de outubro de 2007

A Demóstenes Teixeira, diretor de redação

Caro senhor,

As notas Prata do MAM e Em Dupla, publicadas pela coluna Gente do jornal Correio da Bahia nos dias 18 e 19.10, respectivamente, partem de um erro grosseiro de informação para fazer acusações à diretora da Associação Cultural Videobrasil e do MAM-BA, Solange Farkas.

O programa de residências que beneficiou Danillo Barata, coordenador do Núcleo de Arte e Educação do MAM, não é um concurso público e nem, como afirma a coluna, "uma bolsa criada pelo próprio museu".

É um programa permanente de distribuição de residências artísticas, criado e implementado pela Associação Cultural Videobrasil (SP) em parceria com instituições conceituadas do Brasil, da França e da Holanda.

Os oito artistas contemplados com os primeiros prêmios do programa foram escolhidos entre os participantes da mostra competitiva do 16º Festival Videobrasil, que se realiza em São Paulo, segundo critérios que observaram a adequação de seus trabalhos às experiências oferecidas por cada residência.

A escolha coube a uma comissão composta por membros da Associação e das instituições parceiras.

Não há nada no regulamento do Videobrasil que impeça funcionários do MAM ou de qualquer outra instituição, exceto a própria Associação, de participar da competição do Festival.

Um simples telefonema de consulta à Associação ou ao Museu de Arte Moderna da Bahia teria sido suficiente para poupar o leitor do Correio da Bahia de tanta desinformação.

Obrigatória em qualquer veículo jornalístico sério, porém, a prática da apuração correta e rigorosa dos fatos, que envolve ouvir as partes mencionadas antes de tornar pública uma acusação grave contra elas, infelizmente não faz parte do repertório da coluna Gente.

Em nome de nossos parceiros, solicitamos a publicação desta carta a título de retratação e, sobretudo, como forma de retificar, diante do leitor, o erro de informação do jornal.

Atenciosamente,
Ana Pato, Diretora
Maria Ester Martinho, Comunicação
Associação Cultural Videobrasil

Prata do MAM

Matéria publicada originalmente no Correio da Bahia, coluna Gente na Folha da Bahia em 18 de outubro de 2007

Promete render entre os artistas locais, e muito, uma das raras decisões que a diretora do MAM, Solange Farkas, anunciou para a cultura baiana. Foi escolhido praticamente dentro de seu próprio gabinete o primeiro artista a ser beneficiado com o programa de Residências Artísticas no exterior.

É Danilo Barata, coordenador do Núcleo de Arte e Educação do museu, o primeiro indicado. Com a bolsa-artista, ele vai passar uma temporada em Amsterdã. Mal saiu a notícia e começaram as indagações. "Ele vai coordenar o núcleo a distância ou vai ser exonerado?". Esta foi umas das perguntas que passaram ontem à Gente. A principal questão, no entanto, é permitir que um subalterno, beneficiado com um cargo de confiança, concorra a uma bolsa criada pelo próprio museu. E ainda vença.

Em dupla

Matéria publicada originalmente no Correio da Bahia, coluna Gente na Folha da Bahia em 19 de outubro de 2007

O artista plástico Danilo Barata, que mesmo ocupando cargo de confiança no Museu de Arte Moderna da Bahia foi beneficiado com o programa de residências artísticas no exterior, do próprio MAM, como a Gente noticiou ontem, não vai ficar tão isolado assim em Amsterdã, cidade onde passa a residir. Em dezembro, a diretora do museu, Solange Farkas, fica uns dias naquela cidade. De acordo com a agenda da entidade, ela programou participar do Prince Claus Award, no período de 11 a 14. Antes disso, de 22 a 25 de novembro, ela estará pertinho, participando de um festival de cinema em Hanover, na Alemanha. entre as duas cidades, mais ou menos a mesma distância de Salvador a Juazeiro.


PROGRAMA VIDEOBRASIL DE RESIDÊNCIAS: OS CONTEMPLADOS (publicado na área de Imprensa do 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica SESC - VIDEOBRASIL)

Dan Halter (Zimbábue), Jamsen Law (Hong Kong/China), Federico Lamas e Nicolás Testoni (Argentina), e Eustáquio Neves, Marcellvs L., Caetano Dias e Danillo Barata (Brasil) são os primeiros artistas contemplados pelo Programa Videobrasil de Residências. A escolha da Comissão de Seleção do Programa, que acaba de ser lançado e se destina a artistas que participam da mostra competitiva do Videobrasil, foi anunciada no dia 6.10, no encerramento dos Encontros do Sul. Halter ganhou o Prêmio Videobrasil de Residência na Capacete; Dias, o Prêmio de Criação Audiovisual Le Fresnoy - França; Lamas, o Prêmio FAAP de Artes Digitais; Testoni, o Prêmio Videobrasil de Residência no Sacatar; Danillo Barata, Jamsen Law, Eustáquio Neves e Marcellvs L. ganharam o Prêmio Videobrasil WBK Vrije Academie.

O Programa Videobrasil de Residências tem apoio do Prince Claus Fund e sistematiza a ação da Associação Cultural Videobrasil no campo das residências artísticas. Destinado a fortalecer as ações de intercâmbio oferecidas no Brasil e a criar uma dinâmica rotativa que beneficie artistas brasileiros, latino-americanos e africanos, tem como parceiros o Le Fresnoy Institute National des Arts Contemporains (França), o Consulado Geral da França no Brasil, a Aliança Francesa, a Fundação Armando Alvares Penteado (Brasil) e a WBK Vrije Academie (Holanda), e conta com a colaboração da Capacete Entretenimento (Brasil) e do Instituto Sacatar, ambos com ação reconhecida no campo das residências artísticas.

As primeiras oito residências do programa serão realizadas em 2008 e 2009. Os artistas contemplados foram escolhidos por uma comissão formada por Solange Farkas e Ana Pato (Associação Cultural Videobrasil), Tom Van Vliet (WBK Vrije Academie), Marcos Moraes (FAAP), Helmut Batista (Capacete) e Inês Raphaelian e John Taylor Van Horne (pelo Instituto Sacatar).

Prêmio de Criação Audiovisual Le Fresnoy - França
O Le Fresnoy - Studio National des Arts Contemporains (lefresnoy.net) é um centro de produção, pesquisa e pós-graduação em arte audiovisual. Concebido e dirigido por Alain Fleischer e inaugurado em 1997 em Tourcoing, França, já teve Jean-luc Godard e Gary Hill como professores convidados. A ênfase de seu trabalho está na ruptura de barreiras entre mídias e linguagens audiovisuais tradicionais e eletrônicas. Oferecido desde 2003 pelo Le Fresnoy, Consulado Geral da França no Brasil e Aliança Francesa de São Paulo, o prêmio dá a um artista três meses de atividades no centro, com apoio logístico para a realização de uma obra audiovisual.

Prêmio FAAP de Artes Digitais
A Fundação Armando Alvares Penteado (www.faap.br), por sua Faculdade de Artes Plásticas, é um espaço consolidado da produção contemporânea no Brasil e se caracteriza pela formação de profissionais inseridos na pesquisa e discussão das práticas artísticas contemporâneas. "A FAAP incentiva permanentemente a experimentação artística. Por isto instituiu o Prêmio FAAP de Artes Digitais", afirma o coordenador do curso de Artes Plásticas, Marcos Moraes. Instalada, desde 2005, no Edifício Lutetia, a Residência Artística FAAP se destina a brasileiros e estrangeiros que atuam na área de artes visuais. Abrigou 20 artistas, entre eles os residentes internacionais da 27ª Bienal de São Paulo (2006).

Prêmio Videobrasil WBK Vrije Academie
A Werkplaats Beeldende Kunst Vrije Academie (www.vrijeacademie.org) é um centro interdisciplinar e independente de pós-graduação em arte fundado em 1947 pelo artista e pioneiro do vídeo holandês Livinus van der Bundt. Na contramão das academias de arte clássicas, o centro encorajava a interação e o intercâmbio entre disciplinas como pintura, escultura. fotografia e imagem em movimento. Dirigido desde sempre por artistas, tem à frente, hoje, a escultora Ingrid Rollema. O departamento de imagem em movimento está a cargo de Tom van Vliet, criador do renomado World Wide Video Festival. Recém reformulado, oferece estúdios de pós-produção e ensaio para formatos instalativos e performances envolvendo mídia. Os quatro ganhadores do prêmio trabalharão como artistas em residências individuais de seis semanas na Academia.

Prêmio Videobrasil de Residência no Sacatar
O Instituto Sacatar (www.sacatar.org) dirige um programa internacional de residência para artistas na sua sede na Ilha de Itaparica (BA). Membro da Res Artis, the Worldwide Network of Artist Residencies e da Alliance of Artists Communities, tem como metas oferecer um lugar onde artistas possam conviver e criar; facilitar sua interação e colaboração com a comunidade; e aumentar a visibilidade e o impacto cultural da cidade e da nação onde atua.

Prêmio Videobrasil de Residência na Capacete
CAPACETE entretenimentos (www.capacete.net) tem como proposta produzir trabalhos conceituais e contextuais abrangendo múltiplas estratégias artísticas. Suas residências servem de plataforma à construção do histórico do artista, documentando sua produção e trazendo-a ao alcance do público. O agenciamento é seu próprio conteúdo.

Posted by Patricia Canetti at 11:44 AM | Comentários (1)

outubro 20, 2007

Lavagem da capela do MAM - resposta à imprensa baiana das ARPLAMB e AAV-Ba

Lavagem da capela do MAM - resposta à imprensa baiana das ARPLAMB e AAV-Ba

Leia na sequência as matérias dos jornais A Tarde e Correio da Bahia que provocaram a resposta das associações de artistas na Bahia.

A A Tarde e Correio da Bahia

Tendo em vista a repercussão da performance intitulada "Lavagem da capela do MAM", de autoria de Marcondes Dourado, em cobertura jornalística veiculada por A Tarde e Correio da Bahia, a Associação dos Artistas Modernos e a Associação de Artes Visuais da Bahia vem manifestar seu apoio ao artista por entender que a performance, enquanto atividade artística e contrariamente às opiniões veiculadas por A Tarde e pelo Correio da Bahia, não desrespeitou nenhuma instituição, tampouco as tradições afro-brasileira e católica, se constituindo em uma peça de arte da qual se valeu de elementos culturais da identidade brasileira, adequando-a à contemporaneidade e dando uma dimensão poética respeitosa e competente do ponto de vista da expressão artística.

O que se observa desde a apresentação da performance são aspectos que nos parece preponderante neste momento pontuar:

1) O trabalho de Marcondes Dourado destaca a importância da crença e manifestação religiosa das pessoas em contraste à homogeneização econômica e cultural que a globalização propaga. A presença da luz no desfecho da performance acentua esse alcance transcendental de oposição e resistência da cultura local (representada por baianas, pela música e dança, pela cor branca e pelo ritual de purificação da lavagem) versus a global (simbolizada pelas garrafas de refrigerantes que substituem os rostos das baianas, alusão à região do corpo humano em que se dá, mediante os sentidos, a apreensão das imagens, do som e do paladar do mundo físico e a percepção deste mediado pela indústria de massa). A luz, portanto, aponta a força espiritual da religiosidade.

2) O despreparo da cobertura jornalística de A Tarde (Matéria publicada pela Jornalista Ceci Alves) e pelo Correio da Bahia ao restringir a performance ao ponto de vista jornalístico e descritivo dos elementos da performance e perdendo de vista a sua real importância poética e metafórica. Isso é reflexo da inexistência de uma coluna regular de crítica de arte na imprensa baiana, feita por especialistas no assunto.

3) A inclusão de anões como performers não é preconceituosa. Pelo contrário, preconceito é a segregação sócio-cultural que eles sofrem na sociedade capitalista de consumo e a crítica pela inclusão deles no trabalho. A participação deles na performance é dignificante, física e metaforicamente. Só não entende isso quem emite opiniões sem ter visto a performance.

4) A evidente manipulação do referido trabalho artístico com o intuito político de oposição à Secretária de Cultura do Estado, ou seja, está-se a falar de política (esfera extra-artística) e não de arte.

O que também nos leva a nos manifestar é a trajetória profissional de Marcondes Dourado, a qual agrega diversas mostras e premiações, sempre margeadas por respeito às diferenças culturais sem, todavia, deixar de refletir a complexidade contemporânea. E é em nome desta complexidade e do respeito ao direito de livre expressão que lamentamos ter sido a mencionada performance percebida tão equivocadamente.

Atenciosamente,
Associação dos Artistas Modernos - ARPLAMB
Associação dos Artistas Visuais da Bahia - AAV-Ba


AS MATÉRIAS NA IMPRENSA QUE DESENCADEARAM A RESPOSTA

Arte-ebó decepciona público no MAM da Bahia

Matéria originalmente publicada no jornal A Tarde, Caderno 2, em 10 de outubro de 2007

"O governador Jaques Wagner é o responsável por todo esse descalabro, porque deu carta branca ao secretário Márcio Meirelles", disse Bacelar

A performance de abertura do 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc-Videobrasil, realizada ontem à noite pelo artista plástico e videomaker baiano Marcondes Dourado, no Museu de Arte Moderna (Solar do Unhão), decepcionou tanto aqueles que esperavam um outro fato político que esquentasse o caldeirão da crise na cultura baiana, quanto os que acorreram ao MAM para ver que proposição estética sairia do alardeado Ebó-arte que o per former far ia.

As expectativas políticas foram criadas em torno da abertura porque, durante a tarde de ontem, o deputado João Carlos Bacelar (PTN), em discurso na tribuna da Assembléia Legislativa, disse que o ato era um absurdo, por ser o "ebó um elemento sagrado e está sendo desrespeitado".

"O governador Jaques Wagner é o responsável por todo esse descalabro, porque deu carta branca ao secretário Márcio Meirelles", disse Bacelar.

Mas, talvez pelo ambiente apertado da Capela do MAM ou pelo frustante derretimento da cruz de Sonrisal, que seria a pièce de résistance da performance, representando a efemeridade do tratamento dado às manifestações tradicionais baianas, quem foi ver a apresentação nem a aplaudiu ao final.

Manobra -Quanto às acusações de que sua obra estava sendo usada como massa de manobra para atingir Márcio Meirelles, Marcondes foi enfático: "Os desesperados, os privilegiados que asseguraram a monocultura durante 16 anos, não entendem nada de arte, não assistiram à minha performance, não estão dispostos a vê-la", defendeu-se.

A diretora do MAM, Solange Farkas, que também está à frente do festival, diz receber com tranqüilidade as críticas à atual política cultural baiana e ao seu regime de gestão a distância do museu, já que reside em São Paulo e vem a Salvador a cada 15 dias.

"Não estar aqui não significa não fazer as coisas. Essas críticas partem de um estranhamento natural. Mas não deve ser uma questão que se polariza", afirmou Solange Farkas.

Artes do MAM

Matéria originalmente publicada no Correio da Bahia, Folha da Bahia / Gente, em 9 de outubro de 2007

Cinco anãs trajadas de baianas, com garrafas pet na cabeça, foi a forma que o artista plástico Marcondes Dourado encontrou para a performance Lavagem da Capela do MAM, que abre hoje o 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc-Videobrasil, no Museu de Arte Moderna. Ele diz que faz ebó-arte e a performance é irônica.

Mas irônico por que, Marcondes? Porque elas são anãs? E o ebó, deixa de ser um ritual sagrado para virar gracinha? O release diz que a performance é um protesto contra a crise da baianidade. Mas que culpa as anãs têm de tudo isso? Tripudiar do aspecto físico é um novo conceito na política cultural deste polêmico museu, dona Solange Farkas?

Posted by Patricia Canetti at 11:20 AM | Comentários (2)

outubro 16, 2007

Laura Vinci constrói obra perecível, por Silas Martí, Folha de São Paulo

Laura Vinci constrói obra perecível

Matéria de Silas Martí, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 16 de outubro de 2007

Em nova individual, artista usa 7.000 maçãs e disparos de 9 mm para falar sobre a passagem do tempo

Uma cena doméstica expõe suas feridas na nova individual de Laura Vinci, aberta hoje pela galeria Nara Roesler. Numa placidez artificial, milhares de maçãs vermelhas apodrecem sobre placas de mármore, diante de marcas de bala. A artista comprou 7.000 maçãs e pediu a um amigo que atirasse com uma pistola 9 mm contra a parede para montar a instalação "Ainda Viva".

O trabalho é uma natureza-morta irônica: em vez de imortalizar a forma perfeita, expõe a putrefação, fazendo brigar o tempo breve da maçã com a perenidade do mármore. É a primeira vez que ela usa matéria orgânica e cor em sua obra, mas o discurso não é novidade: o perecível da fruta é argumento visual para voltar a falar sobre a passagem do tempo e a transição de elementos de um estado para outro.

A artista é mais conhecida pela instalação de 1997 em que transformou um prédio abandonado numa ampulheta gigante, fazendo passar de um andar para outro uma montanha de areia por uma fresta na laje. Agora, ela diz querer criar uma temporalidade carnal. "A maçã tem algo de sangüíneo e, ao apodrecer, a cor vermelha vai virar só uma borra", afirma.

O vídeo "Branco", na mesma individual, mostra o turbilhão d'água das cataratas do Iguaçu, numa reflexão sobre os diferentes ciclos da matéria. A idéia se repete em outra obra, com cerca de 40 bacias de mármore cheias de água, exposta até 11/11 na Pinacoteca do Estado de SP (pça. da Luz, 2, tel. 0/xx/11/3324-1000). Aquecida por fios de cobre, a água evapora e ocupa o espaço como escultura móvel e transparente.

Posted by João Domingues at 10:13 AM | Comentários (1)

outubro 1, 2007

Curador reorganiza obras do acervo, por Tereza Novaes, Folha de São Paulo

Curador reorganiza obras do acervo

Matéria de Tereza Novaes, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 1° de outubro de 2007

Quatro temáticas orientam novo sistema para exposição das peças do acervo; até abril segundo andar será modificado completamente

"A Arte do Mito" dá início ao novo formato de exibição; Teixeira Coelho pretende investir ainda em mostras temporárias internacionais

Quem conhece o acervo do Masp talvez não note grande diferença com a inauguração da exposição "A Arte do Mito", que poderá ser vista pelo público a partir da próxima quarta.

Mas, quando o quarto e último módulo da série, "A Arte Religiosa", entrar em cartaz, em abril do ano que vem, a mudança será bastante nítida.

Isso porque a nova configuração das obras do acervo está sendo gradual. "A Arte do Mito" ocupa apenas 25% da sala, ao fundo do segundo andar. O restante permanece mais ou menos como antes. Os outros dois temas são "A Natureza das Coisas", com paisagens e naturezas-mortas, e "Ver e Ser Visto", que enfoca retratos.

A idéia do curador-chefe, Teixeira Coelho, que assumiu o cargo há 14 meses, é eliminar a apresentação cronológica e por escolas que até agora organizava a coleção. "A vantagem do corte temático é que assim fazemos um contato direto, uma aproximação entre as obras que não tem barreiras", explica.

Houve ainda outras mudanças no salão do segundo andar. As novidades são as paredes pintadas com cores que absorvem a luminosidade e a mudança nos painéis que exibem as telas, que ganharam disposição diferente e abriram corredores de ponta a ponta da sala. "É uma vasta avenida, que reproduz um pouco os cavaletes da Lina", compara Teixeira.

Os famosos cavaletes de Lina, aliás, não estão nos planos imediatos do curador. "Os cavaletes são coisa do passado. Não dá mais. Eles quebravam sozinhos. Às vezes, de manhã, os funcionários encontravam as obras no chão", diz Coelho. Ele não descarta, porém, usá-los em outras ocasiões, como na mostra de Alex Flemming, realizada neste ano.

Segundo ele, a reconfiguração permitirá um pequeno aumento no número de obras expostas. Ao término, serão cerca de 260 peças -ainda muito pouco diante das 8.000 que compõem a coleção do museu.

"Deveriam colocar um busto do Ciccilo Matarazzo e um do Chateaubriand em cada esquina da Paulista", brinca Teixeira, que é professor de política cultural da ECA-USP.

As doações do primeiro formam a coleção do MAC-USP, que Teixeira já dirigiu; a do segundo deram origem ao acervo que ele dirige atualmente.

Além do acervo renovado, o Masp deve continuar realizando mostras temporárias.

"Da Bauhaus a (Agora!)", no subsolo, e "Arte e Ousadia - O Brasil na Coleção Sattamini", no primeiro andar, ficam em cartaz até o dia 28. A próxima grande inauguração será a tradicional mostra de fotos da Coleção Pirelli, em dezembro. Outras novidades só em 2008.


"Por mim, saía ontem", diz presidente do Masp

Matéria de Tereza Novaes, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 1° de outubro de 2007

Aos 75, Júlio Neves afirma que não tem interesse em continuar à frente do Masp e que não pretende se reeleger em 2008

Atual presidente foi eleito pela primeira vez em 1994 e já ganhou sete pleitos; sua gestão é criticada por profissionais das artes

O Masp entrou na vida do arquiteto Júlio Neves quando a atual sede ainda estava em construção. Em 1967, o brigadeiro Faria Lima, na época prefeito de São Paulo, convocou o então diretor do Instituto de Arquitetos para uma missão: acompanhar as obras do novo edifício na avenida Paulista.

"Ele chegou para mim e falou assim: "Você não quer ir lá no museu que estamos construindo na Paulista? Mas vai lá e vê se consegue fazer essa mulher gastar menos dinheiro". Era a Lina [Bo] Bardi", lembra Neves.

O futuro presidente do Masp não conseguiu fazer com que Lina gastasse menos. "Ela não estava nem aí", diz ele.

"Lina era uma pessoa de uma personalidade extraordinária, ela fez o que ela achou que tinha de ser feito, e o Figueiredo Ferraz viabilizou", conta, destacando o engenheiro que calculou a estrutura do prédio.

A construção já estava avançada, e Neves permaneceu até o seu término, quando foi convidado para entrar no conselho.

A primeira eleição que ele ganhou para a presidência do Masp foi em outubro de 1994. Foi vitorioso nas seis que se sucederam. Na primeira, tinha o objetivo de "pacificar" as duas tendências que brigavam dentro do museu -de um lado estava José Mindlin, do outro, Roberto Costa de Abreu Sodré.

"Era amigo de todos. De repente, saiu uma briga danada lá. E o pessoal mais ligado ao Sodré e ao Mario Pimenta achou que deveria me candidatar. Falei: "Tá bom, fico por dois anos, depois vocês assumem". Só que morreu o Mario Pimenta e depois o Sodré", conta.

O escritório do arquiteto assina projetos como o prédio da Fecomércio, na Bela Vista. Neves já ocupou a presidência da Nossa Caixa, entre 1970 e 1971, convidado pelo então governador Sodré. Sua gestão à frente do museu tem recebido críticas de profissionais ligados à arte.

Chega
Aos 75 anos, ele afirma que não pretende se reeleger presidente do Masp em 2008. "Por mim, eu saía ontem. Não tenho interesse. Chega", afirma.

Mas, quando o assunto é sua sucessão, ele tergiversa e discursa sobre a necessidade de profissionalização. "O problema do Masp é uma questão de sustentabilidade. A diretoria tem de ser remunerada, executiva, o museu não pode depender de mim, do A ou do B."

Por ser uma organização sem fins lucrativos, o Masp não paga os dirigentes. Neves, que descreve sua rotina como "trabalho, trabalho e trabalho", garante que metade de seu tempo é dedicado ao museu. A manutenção do prédio, que passou por grande reforma em sua gestão, é uma das principais contribuições que crê ter dado ao Masp. Evoca o arquiteto Rino Levi para situar a importância dos cuidados com o prédio: "Ele dizia com aquela voz: "Arquitetura moderna, se não tiver manutenção adequada, dá ruínas belíssimas'".

Posted by João Domingues at 11:40 AM | Comentários (0)