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novembro 25, 2006

Crítica frágil à mostra "Paralela 2006" encobre malabarismos, por Daniela Bousso

Emeio enviado por Vitoria Daniela Bousso, curadora da mostra Paralela 2006, ao jornal Folha de S. Paulo em 22 de novembro de 2006, em resposta à crítica de Fabio Cypriano.

Réplica publicada no jornal Folha de S. Paulo, na Ilustrada, no sábado, 25 de novembro de 2006.


Crítica frágil à mostra "Paralela 2006" encobre malabarismos

VITÓRIA DANIELA BOUSSO

Num ato de malabarismo, o estranho texto "Recorte frágil encobre contradições" (Ilustrada, 18 de novembro) elogia a "Paralela 2004" por seu recorte nacional e considera essa característica, estendida à edição 2006, uma forma de provincianismo. Reivindica um caráter original para a arte brasileira e a preocupação de se encontrar nela uma categoria nacional. Escorrega na falta de preparo conceitual e de compreensão teórica: o problema da originalidade na arte é um mito das vanguardas modernistas.

A questão do nacional, no que se refere à arte brasileira, foi desencadeada na Semana de Arte Moderna de 1922 para liberar a cultura brasileira do cenário colonial e sintonizar o Brasil com as tendências internacionais. Mas esta é uma questão superada.

Desde o início dos anos 80, com a globalização, o planeta se viu frente à diluição de fronteiras: as viagens dos artistas brasileiros se intensificaram e eles se aglutinaram ao redor de um mercado de arte mais profissionalizado, com a ação de galeristas como Marcantonio Vilaça, que, com alguns curadores, colocou definitivamente a arte brasileira no mapa do mundo.

A edição 2006 da "Paralela" considerou essas evidências. Na contramão do provincianismo, trabalhou em uma instância de "descuratorialização" e deixou o artista livre para escolha e definição do formato mais adequado da obra no espaço expositivo, descartando-se aí qualquer resquício de "sensacionalismo" por parte da curadoria. A "Paralela" aposta na diversidade e não tem tema.

Quanto à produção artística brasileira, ela é internacional em seus procedimentos éticos, estéticos e se afirma com poéticas contemporâneas.

Sem as estratégias de difusão que vêm sendo colocadas em circulação pelo mercado de arte, seria possível imaginarmos o circuito da arte da forma como hoje este se apresenta? Não seria pura ingenuidade supormos que nas bienais e nas grandes mostras que acontecem mundo afora não ocorrem vendas, negociações e não existem interesses vinculados ao marketing?

Nos anos 70, Mário Pedrosa afirmou que a Bienal não escapou das "especulações comerciais ao redor de prêmios, combinações pessoais...". E concluiu que "as leis do mercado capitalista não perdoam. A arte, uma vez que assume valor de câmbio, torna-se mercadoria como qualquer presunto".

Se no tempo de Pedrosa o mercado de arte era a grande ameaça, hoje o foco se deslocou. Não é o mercado de arte que nos ameaça, mas é a evanescência dos poderes públicos e a fragilidade das nossas instituições. De Pedrosa, resguarda-se a consciência crítica e a preservação do ato criador em busca de emancipação.

Mercado e instituições

O mercado de arte é hoje um dos braços de sustentação do sistema das artes, e as galerias tomaram uma iniciativa que contempla a reunião de nomes significativos da arte contemporânea brasileira. Essa ação vem crescendo gradativamente, sem ser seguida pelas instituições culturais.

Onde, no Brasil, o público pode apreciar uma mostra como essa, que reúne num mesmo local as obras dos maiores artistas brasileiros?

Quem pode negar a importância desses artistas e a qualidade de suas obras?

Qual o problema das galerias terem doado obras para o acervo da municipalidade em troca do espaço do Prodam para a realização da "Paralela 2006"?

A profissionalização da arte pela emergência de um sistema marchand-crítico e institucional fortalecidos, inseridos em uma economia, gera novas relações de produção e é uma das formas de assegurarmos o crescimento da arte em bases dignas para artistas e demais integrantes do circuito da arte contemporânea.

Mas falta um ingrediente para que o sistema da arte se complete. Falta uma mídia sintonizada com a arte contemporânea, isenta de interesses de grupos que visam denegrir a imagem dos que pensam e agem diferentemente deles. Falta uma mídia que identifique o trabalho sério e que possa abrir espaço para o diálogo respeitoso.


VITÓRIA DANIELA BOUSSO é diretora do Paço das Artes e foi curadora da "Paralela 2006"


CURADORA CONTESTA CRÍTICO

O jornalista da Folha Fabio Cypriano, em crítica publicada na edição do último dia 18, considerou a "Paralela 2006" "mais um showroom de 12 galerias paulistanas do que propriamente uma exposição". A mostra, que ocorreu na Prodam, acabou no dia 19.

Dizia o crítico: "O pior é que o selo "nacional" serve para encobrir poéticas tão distintas que, às vezes, se tornam contraditórias".

Daniela Bousso, curadora da exposição e diretora do Paço das Artes, em resposta à crítica de Cypriano, enviou à Folha o texto anterior.


LEIA TAMBÉM:

A crítica de Fabio Cypriano "Recorte frágil encobre contradições".

O emeio enviado por Atília Alziro à Folha de S. Paulo.

Posted by Patricia Canetti at 12:13 PM | Comentários (1)

novembro 24, 2006

Sem amarras, por Luiz Camillo Osório, Jornal O Globo

Sem amarras

Crítica de Luiz Camillo Osório, originalmente publicada no Jornal O Globo, no dia 18 de outubro de 2006

Como sempre em uma bienal, preparo físico é requisito básico. Com boa disposição, todavia, o visitante verá aquela que podemos denominar, sem maiores receios, a primeira Bienal de São Paulo do século XXI. Quais as razões para esta afirmação? Primeiro, o rompimento com o modelo tradicional das representações nacionais. Segundo, a opção por artistas jovens, escolhidos a partir de algumas influências marcantes dos anos 60. Terceiro, a decisão de trazer um conjunto mínimo de obras garantindo uma visão de trajetória e a criação dos projetos de residência de artista em várias cidades brasileiras. Quarto, e talvez o ponto mais importante, a aposta da curadoria em processos criativos mais abertos e coletivos.

Foi enfatizada pela curadora geral, Lisette Lagnado, a intenção política de suas escolhas. O título-tema da bienal, "Como Viver Juntos", extraído de um livro de Roland Barthes, deixa isso claro. Cabe aqui uma consideração: a presença de um tema não é necessariamente uma camisa-de-força que constrange a liberdade expressiva das obras. Se bem realizada a curadoria, como acredito ter sido o caso desta bienal, o tema pode ser visto como um eixo conceitual a partir do qual as obras ganham um parâmetro relacional. Cria-se uma possibilidade de convivência e relação entre as proposições poéticas apresentadas. Outras articulações e novos sentidos são latências intrínsecas às obras.

Três artistas são fundamentais nesta exposição. O primeiro deles é Hélio Oiticica (1937-1980). Mesmo não tendo suas obras expostas, sua idéia de crelazer (criação/crença/lazer) perpassa muitas das formas de "viver junto" exploradas pela curadoria. Suas instalações, ou ambientes como se chamavam nos anos 60, investigavam maneiras de estar junto e de estar só, formas e ritmos de convivência e de solidão. Oiticica está presente mais diretamente nos filmes de Ivan Cardoso (Heliorama) e Marcos Bonisson (Heliophonia), que dão ao público um breve retrato de sua obra e personalidade. Além dele, os americanos Gordon Matta-Clark (1943-1978) e Dan Graham (1942), cada um com uma sala especial, seriam influências importantes levando a arte para perto da arquitetura, intervindo criticamente no espaço público e procurando formas de circulação para a arte independentes da instituição.

O fator institucional é o tendão-de-aquiles desta curadoria e do escopo político da arte contemporânea. A legitimação garantida por uma bienal pode anestesiar a potência crítica de certas obras. A tensão e o risco, que surgem quando a arte abdica das suas formas convencionais, ficam amenizados. No entanto, o veto jurídico ao guaraná desenvolvido pelo coletivo dinamarquês Superflex junto com produtores alternativos da amazônia mostrou que o conflito pode (e deve) resistir à institucionalidade. Vale sublinhar a parceria produtiva entre artistas e não-artistas. Talvez um dos papéis da arte no mundo contemporâneo seja o de viabilizar potências criativas a partir da abertura experimental e da contaminação do seu espaço institucional.

Esta era uma estratégia fecunda de Matta-Clark, como podemos ver na mostra de filmes, fotografias, desenhos e objetos trazidos à bienal. Ele usava a arte para dar visibilidade às formas de vida excluídas da convivência pública. Suas ações poéticas potencializavam a criação cotidiana e comum, correndo o risco, assumido sem temor, de dissolver a arte na vida. Risco que não inviabilizava a escala de suas intervenções, cortando casas, fazendo buracos gigantescos em prédios e galpões, distribuindo ar puro para os executivos de Wall Street, abrindo um restaurante, construindo muros e paredes com resíduos da cidade que servissem de modelo para casas de desabrigados etc. Construir, destruir e habitar irmanavam-se na fronteira entre espaços de produção e de criação. Seu exemplo está por toda a bienal, em nomes como Rirkrit Tiravanija, Laura Lima, Minerva Cuevas, Paula Trope, Long March Project, Vladimir Arkhipov, Coletivo Mujeres Creando, Atelier Bow-Wow, nas edições de Eloísa Cartonera, no atelier popular de serigrafia, entre outros. Estes dois últimos exemplos não surgiram com a intenção de ser arte, nem tampouco passaram a ser pelo fato de estarem em uma bienal - ser ou não ser arte é o que menos interessa. Sua inclusão ali, todavia, nos faz pensar sobre o quanto há de arte na invenção cotidiana de novos estilos de vida e de sociabilidade.

A sala dedicada a Dan Graham começa com sua série de fotografias "Homes for America", de 1966. Estas fotos tornaram-se emblema máximo da arte conceitual. São silenciosas, ásperas e intrigantes. Lembram as telas de Hopper sem a carga existencial. Projetadas na parede através de slides, estão ladeadas por uma série de projetos arquitetônicos posteriores. Ele passou a criar, nas décadas seguintes, espaços de convivência e contemplação. Os mais interessantes são uma pista de skate com cúpula de espelho e um pavilhão de observação distorcida da paisagem. Natureza e construção se misturam. O silêncio também tem relevância política, especialmente em épocas sombrias e de incertezas ideológicas. Artistas como Florian Pumhosl, Armando Tudela, Damian Ortega, Lucia Koch, Renata Lucas são alguns exemplos interessantes de diálogo com sua obra apesar do uso de suportes e linguagens muito variados.

Uma das obras mais interessantes desta bienal é do suíço Thomas Hirshhorn, intitulada "Restore Now". Política, erotismo e morte perpassam livros ampliados de grandes filósofos junto a fotos de cadáveres dilacerados. Civilização e barbárie caminhando lado a lado. Uma frase grafitada em um pano vermelho reverbera toda a complexidade do engajamento contemporâneo - "culpabilidade organizada e responsabilidade universal".

Posted by João Domingues at 10:57 AM

novembro 22, 2006

A vanguarda do tédio, por Jorge Coli

A vanguarda do tédio

Matéria de Jorge Coli, originalmente publicada na Folha de São Paulo, no dia 19 de novembro de 2006

Tão perversa é a palavra "crítica". Em velhos tempos, era moda dizer: "É preciso ser crítico". Ter "postura crítica" ou "consciência crítica" seria o apogeu de uma atitude soberana, capaz de compreender o mundo para além de suas aparências e, mais ainda, de transformá-lo.

Hoje, percebe-se facilmente que, engolida assim, "crítica" quer dizer o seu avesso. Basta invocá-la como um abracadabra e pronto: o pensamento se satisfaz na superioridade que imagina ter encontrado. Substitui o desconforto do exame e da dúvida pela certeza cômoda das convicções que se acreditam lúcidas: não o são, está claro, exatamente porque feitas de crenças que se tornaram crendices.

A palavra "crítica", desse jeito, torna-se um "comigo não, violão" reificado: vira talismã, vira mantra. Transforma quem o pronuncia num sacerdote da sapiência, num ser superior aos outros mortais.

Cercas

A 27ª edição da Bienal de São Paulo enfileira, com monotonia indiferente, instalações, vídeos e algumas, poucas, pinturas. Bate, com insistência, na tecla do politicamente correto. Protege-se com a retaguarda dos bons sentimentos, contra os quais não se pode levantar nem um dedo mindinho: ódio à repressão, à segregação, às opressões cruéis, às tiranias.

O problema é que o inferno das artes está atapetado de bons sentimentos. Há, nesta bienal, como sempre, talvez menos do que sempre, aqui e ali, algum artista interessante.

É claro que isso não basta. O álibi das intenções éticas e intelectuais não consegue substituir o interesse da criação. Ora, as metáforas grossas e rasteiras se sucedem, evidentes, enormes, em obras feitas para apanhar, nas suas armadilhas, o intelectual incauto e bem-intencionado. Nem um pingo de reflexão, nem um pingo de sutileza nessa seqüência. Ao contrário, um martelar autoritário do bom pensar e do bem pensante.

Ordem

A crença pode ser sincera, ingênua e pura: deve ser esse o caso das convicções que presidem a 27ª Bienal. Mas não importa: ao afirmar-se como impositiva, a mostra elimina debate e contradição. Com todos os seus defeitos e problemas, o velho sistema de representações nacionais tinha pelo menos um mérito: ele limitava a autoridade do curador. Podia ser desigual, podia introduzir disparates na seleção, mas seu caráter aleatório era, por isso mesmo, fecundo. Trazia problemas para os responsáveis, ensinava-os, justamente, o viver junto. Na atual mostra, os artistas não vivem juntos; vivem debaixo: da idéia, do conceito, das determinações imperiosas.

Asfixia

Outro ponto é que as ambições intelectuais dos critérios parecem ter dispensado qualquer vontade de entrelaçar as obras, de permitir coerências, contrastes ou discrepâncias entre elas. A anterior, de número 26, que não teve os favores da crítica, foi, na verdade, muito poética; poesia passada, que sobressai ainda mais no contraste com o alinhamento indiferente das obras expostas na atual.

Essas obras não estão juntas, no sentido que lhes daria Roland Barthes e que inspirou o título da mostra ["Como Viver Junto"]. Barthes possuía uma intuição sensível muito forte, pensava por exemplos expressivos e articulados, em associações tantas vezes novas e surpreendentes, que se exasperavam uns aos outros ou se harmonizavam.

Aqui, ao contrário, as obras seguem-se numa apatia displicente. O que torna difícil qualquer expressão de novo, de descoberta ou de fascínio.

Posted by João Domingues at 10:27 AM | Comentários (2)

novembro 20, 2006

Estranha lógica de avestruz... por Atília Alziro

Emeio enviado por Atília Alziro ao jornal Folha de S. Paulo em 19 de novembro de 2006, comentando a matéria de Fabio Cypriano sobre a Paralela, reproduzida logo abaixo, no post anterior.

Prezado editor do Caderno Ilustrada,

Causou-me muita surpresa o texto publicado ontem na Folha de São Paulo a respeito da exposição Paralela 2006, endossado, acredito eu, pelo senhor. O repórter demonstra estupefação pelo que chama de "apelo comercial óbvio" da mostra; mostrando profundo desconhecimento do "apelo comercial óbvio" de toda exposição de arte. Ao que me consta, várias das galerias que participam da Paralela representam também artistas que estão participando da Bienal de São Paulo. Não posso crer em tamanha ingenuidade, o que me faz imaginar que há certo grau de má fé nesse texto; ou alguém ainda duvida que no mundo da arte tudo é mercado? A arte faz parte da economia de mercado e as galerias vendem quando expõem nas galerias, em mostras paralelas e, muito provavelmente, vendem mais ainda quando expõem seus artistas em uma Bienal.

O sr. Cipriano afirma que durante a Bienal passada, que era conservadora, a Paralela passada funcionou como contraponto. E, por uso de uma estranha lógica de avestruz, deduz que quando temos agora uma Bienal "progressista", a presente Paralela só pode inversamente servir de contraponto negativo. "Sensacionalista, provinciana", ataca ele. Não teria ocorrido ao repórter uma terceira opção: a de que as mostras podem se somar? Eu visitei as duas exposições e gostei igualmente de ambas. Há quem diga que a Paralela é inclusive melhor do que a Bienal, porque mostra a diversidade, quando a Bienal, ao contrário, apresenta um discurso temático monocórdio. Mas, sobretudo, me espanta que o texto trate Bienal e Paralela como arquiinimigas. Que maniqueísmo tolo (ou mau intencionado?), quanta leviandade.

O sensacionalismo, segundo o sr. Cipriano, deve-se à escolha por obras em grande de formato. A Bienal, logo na entrada, é um verdadeiro desfile de obras em grande formato. Isso faria dela também uma exposição sensacionalista? Que tipo de critério é esse endossado pela Folha de São Paulo, jornal que se diz o maior e mais importante do país? Argumento leviano e maniqueísta mais uma vez. Depois, continuo lendo a contragosto, e me deparo com a pérola de que a intenção da Paralela é definir como a produção brasileira se articula com as questões postuladas pela arte no mundo atual, o que, defende o repórter, significa que a arte brasileira pretende se legitimar no mercado internacional. Então a Bienal, para seguir usando o paralelo "crítico" proposto pelo texto, que também articula a produção artística com as questões atuais da arte estaria tentando legitimar os artistas apresentados no mercado internacional?

"O tema torna-se ainda mais frágil", continua o texto; mas, espera aí, qual tema? A exposição Paralela 2006 tem um tema? Não foi isso o que eu depreendi de minha visita e de minha conversa com um monitor na Paralela, que me explicou que o projeto da curadoria era mostrar as contradições e dissonâncias da arte brasileira. Ele me disse tratar-se de um projeto anticuratorial. Até onde posso entender o argumento, a proposta da exposição é apresentar a diversidade, sem amarrar os trabalhos de acordo com conceitos pré-determinados. "A diversidade pode ser salutar mas no caso da Paralela ela é artificial", continuo lendo, a essa altura indignada com a leviandade e com o pouco caso com que o repórter apresenta a exposição. Ele por acaso não se informou de que, se há um tema, o tema é a diversidade; como então ela pode ser artificial? O que une os artistas é o fato de fazerem parte das galerias? Mas estão todos os artistas de todas as galerias lá? Ao que me consta eles foram selecionados, dentro do campo possível de artistas das galerias, mas houve escolhas, talvez escolhas que tornassem mais evidente a diversidade.

Eu e minha inteligência nos sentimos realmente aviltadas pela análise rasa e tendenciosa do repórter da Folha sobre a Paralela e não pude deixar de externar meu descontentamento com o nível "crítico" que o jornal oferece aos seus leitores. A Paralela 2006, assim como a exposição MAM na Oca, soma forças à Bienal de São Paulo e o público sai ganhando com isso, principalmente o público de São Paulo, onde moro, e não essa suposta nova categoria de turistas, amantes de bienais estrangeiras, que o sr. Cipriano afirma ser o público-alvo da exposição. As galerias de São Paulo desempenham um papel institucional na cidade que muitas instituições não conseguem desempenhar e, conquanto tenham um objetivo comercial ao organizar uma exposição do porte da Paralela, conjugam nesse esforço um papel social de tornar público e mais acessível o que os artistas brasileiros estão fazendo na atualidade. Não sou compradora de arte e me senti perfeitamente contemplada pela exposição. Esperava do Caderno Ilustrada, do qual sou leitora, uma crítica mais pertinente.

Atenciosamente,

Atília Alziro, São Paulo

Posted by Patricia Canetti at 5:51 PM

Recorte frágil encobre contradições por Fabio Cypriano

Recorte frágil encobre contradições

Matéria de Fabio Cypriano publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo, na Folha Ilustrada, no sábado, dia 18 de novembro de 2006.

"Paralela 2006", que tem sua temporada encerrada amanhã, é mais um showroom de 12 galerias paulistanas do que propriamente uma exposição.

Foi assim desde o começo, em 2002, quando quatro galerias (Casa Triângulo, Brito Cimino, Fortes Vilaça e Luisa Strina) dividiram um galpão na Água Branca. Daquela vez, já com o nome "Paralela", o lado mercantil era mais óbvio: os artistas eram agrupados por galeria.

Em 2004, a segunda edição cresceu no número de galerias. Mais cinco entraram para o grupo (Marília Razuk, Millan Antonio, Nara Roesler, Thomas Cohn e Vermelho), e o curador Moacir dos Anjos aboliu as representações por galeria e apresentou só artistas nacionais. A exposição virou o contraponto de uma Bienal conservadora, que dividiu as obras por suporte, e foi elogiada pelos críticos, curadores e colecionadores que visitam o país em tempos de Bienal.

Na edição atual, o total de galerias subiu para 12, e a diretora do Paço das Artes, Daniela Bousso, assina a curadoria, no melhor local onde a mostra já foi organizada: o pavilhão Armando de Arruda Pereira, sede da histórica 2ª Bienal de SP, que no próximo ano deve acolher acervos do Museu de Arte Moderna de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea da USP. Consta que, para a cessão do prédio, as galerias tiveram que doar obras à prefeitura.

Para o amplo local, a curadora optou por obras em grande formato, opção um tanto sensacionalista, mas sintonizada com as feiras de arte ao redor do planeta. O apelo comercial é óbvio também no recorte: só artistas brasileiros. Esse provincianismo pode ser explicado pelo afã de impressionar a nova categoria de turistas: "os amantes das bienais estrangeiras".

Não deixa de ser contraditório que galerias como Strina ou Fortes Vilaça, que trabalham com artistas estrangeiros, não os apresentem na Paralela.

Se a mostra de fato apontasse para um caráter original na arte brasileira, seu objetivo estaria justificado. Contudo, quem hoje se preocupa em encontrar na arte uma categoria nacional? Ou, então, por que a intenção de definir como "a produção artística brasileira se articula ao redor das questões postadas pela arte no mundo atual", como escreve Bousso, senão para se legitimar no mercado internacional? O tema torna-se ainda mais frágil ao lado de uma Bienal que acabou com as representações nacionais.

O pior é que o selo "nacional" serve para encobrir poéticas tão distintas que, às vezes, se tornam contraditórias. A diversidade pode ser salutar, mas, no caso da "Paralela 2006", ela é artificial: o que une os 146 artistas é fazer parte de uma das 12 galerias da exposição.

Alguns artistas abordam a questão. A dupla Dias & Riedweg expõe "Bandeira", projeção da bandeira brasileira com ventilador na frente, trabalho crítico à idéia de representação nacional, enquanto José Damasceno amontoa 300 carpetes em "Credit Carpet", Paulo Climachauska expõe suas subtrações formando os animais brasileiros representados em notas de dinheiro, "Real", além de uma proposta: o poodle para notas de R$ 100. Mas é o nome da série das duas fotos de Rochelle Costi que melhor traduz o espírito da mostra: "Vende-se Tudo". Ao menos há espaço para a autocrítica.

PARALELA 2006
Quando: até amanhã (19/11), das 10h às 21h
Onde: pavilhão Armando de Arruda Pereira (pq. Ibirapuera, portão 10, av. Pedro Álvares Cabral, tel. 0/xx/11/ 7253-2546)
Quanto: entrada franca

Posted by Patricia Canetti at 5:32 PM

novembro 10, 2006

Uma grata surpresa no prédio da Prodam, por Maria Hirszman

Uma grata surpresa no prédio da Prodam

Matéria de Maria Hirszman originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 7 de novembro de 2006

Na Paralela 2006 chamam a atenção o ineditismo e os acertados encontros

Quem for à Paralela, mostra organizada por algumas das mais importantes galerias em atividade em São Paulo para divulgar a obra dos artistas que representam nesse período efervescente de Bienal, terá uma grata surpresa. Uma não, algumas. Em primeiro lugar, a mostra não tem nada daquele ranço de feira que se espera de um evento que congrega diferentes empresas do mesmo setor. A seleção feita por Daniela Bousso, diretora do Paço das Artes e que assina a curadoria dessa edição do evento, contempla trabalhos de peso e mistura de maneira adequada as obras no espaço, obtendo - por sintonia ou contraste - tensões bastante interessantes. Convém lembrar, aliás, que a primeira edição desse evento, realizada em 2004 num galpão da Vila Olímpia e com curadoria de Moacir dos Anjos, já tinha conseguido um belo resultado.

A edição atual traz, no entanto, algumas novidades interessantes. Em primeiro lugar, provavelmente em função do sucesso da primeira edição, o evento cresceu. Não necessariamente em termos de obras. É verdade que em 2006 temos 12 galerias, em vez de 9. Mas o número de artistas caiu de 160 para 146 e o espaço foi multiplicado por dois. Ou seja, a mostra tornou-se mais representativa e diversificada do que se tem produzido na arte brasileira hoje e ao mesmo tempo tornou viável a exposição de peças de grandes dimensões, algo muitas vezes difícil de apresentar nos espaços menores e menos visitados das galerias.

Por fim, outra boa surpresa do evento é a descoberta pelo público do prédio até pouco tempo ocupado pela Prodam. O pavilhão, também projetado por Niemeyer, está desocupado, devendo ser ocupado no futuro por dois museus: o MAM e o MAC. A estrutura tosca, bastante desgastada pelo uso, compõe um cenário bastante interessante e despojado. Muitas peças dialogam de forma direta com a amplidão, o desgaste e as vocações contraditórias do prédio, como a grande escultura de gesso (um Pão de Açúcar às avessas) pendurado por Carlito Carvalhosa logo na entrada do segundo piso, a pintura de Paulo Almeida fundindo a paisagem do prédio com a do espaço da Galeria Leme, que o representa, ou da grande instalação de Henrique Oliveira, feita com madeiras velhas de construção que o artista recolhe pela cidade e que utiliza para compor uma obra que dialoga tanto com a escultura como com a pintura. Expandindo-se no espaço como uma parede grávida, a obra tensiona o espaço também por meio da cor já que é também uma grande composição cromática, construída por camadas superpostas de diferentes tonalidades de rosa.

São muitos os destaques da mostra, mas chama atenção um certo ineditismo, a tendência de vários artistas de aproveitar a ocasião para testar novos caminhos. Há também interessantes encontros, como aquele promovido entre a geometria liberta de Arthur Luiz Piza e Fábio Miguez. Também chama atenção alguns trabalhos que lidam com a face comercial desse evento cultural. Logo na entrada nos deparamos com os 300 capachos de José Damasceno que mimetizam a forma dos cartões de crédito (o título é Credit Carpet) numa referência a essa incômoda situação entre comércio e arte.

Mas talvez a grande tônica a permear essas obras seja um certo lirismo, uma mescla de lirismo infantil e onírico. Ora pendendo para uma certa perversão, como a instalação de Nazareth Pacheco que nos promete uma rede fascinante de miçangas coloridas para além de uma cortina cortante de giletes (o repouso inalcançável) ou as cascas de boneca de Lia Menna Barreto, ora resgatando recordações pessoais a partir de uma relação afetiva com os materiais, como faz Marcelo Silveira na sua recriação fantasiosa e surreal de lojinha de interior ou Laura Belém com sua Árvore Papagaio, ou pipas, como se diria em São Paulo.

Mesmo com uma forte presença da investigação formal, da exploração de novas linguagens ou da necessidade de levar a arte para além do mero campo estético e colocá-la mais em sintonia com as questões levantadas, por exemplo, pela vizinha Bienal, os artistas presentes na mostra demonstram uma atenta e agradável preocupação em criar obras ao mesmo tempo conceitualmente instigantes, formalmente bem-elaboradas e visualmente belas. Como exemplo podemos citar a exuberância barroca das pinturas de Luiz Zerbini, a fascinante instalação Vaga-Lume, de Valeska Soares, o mundo encantado criado por Luiz Hermano ou a alegoria arcaica de Anna Bella Geiger.


Paralela
Pavilhão Armando de Arruda Pereira Leite (antiga sede da Prodam)
Av. PedroÁlvares Cabral, s/n.º, portão 10 do Pq. do Ibirapuera,
telefone 3088-4530. 3.ª a dom., 10 h às 21 h. Grátis. Até 19/11.

Posted by João Domingues at 10:45 AM | Comentários (2)

novembro 8, 2006

Governança global da Internet: Fórum cede a pressões e gerenciamento da rede fica de fora da pauta, por Carlos Gustavo Yoda

Governança global da Internet
Fórum cede a pressões e gerenciamento da rede fica de fora da pauta

Matéria de Carlos Gustavo Yoda, originalmente publicada na Agência Carta Maior no dia 7 de novembro de 2006

A primeira reunião do Fórum de Governança da Internet aconteceu entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro, em Atenas (Grécia). Spam, multilingualismo, censura, cybercrime, cybersegurança, questões de gênero, privacidade e proteção de dados, liberdade de expressão, direitos humanos, direitos autorais, centralizaram discussões. Sociedade civil diz que organização cedeu a pressões para minimizar, se não impedir, discussões amplas sobre a governança da infra-estrutura lógica da rede.

O Fórum de Governança da Internet (IGF, na sigla em inglês) se reuniu entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro, em Atenas (Grécia) para dialogar sobre políticas que afetam ou se relacionam com a governança ou a gestão da Internet. Representantes do governo e da sociedade civil brasileira afirmam, contudo, que o debate central, que é a concentração de poder sobre a grande rede não entrou na pauta do encontro. Segundo o gerente de Assuntos Estratégicos do Ministério da Cultura, José Murilo Júnior, nenhuma decisão importante foi tomada em Atenas. A próxima reunião acontecerá em novembro de 2007, no Rio de Janeiro, quando o debate e a correlação de forças devem estar mais maduros.

Para que se entenda tal discussão, é importante retomarmos a origem da questão. A Rede Mundial de Computadores, a Internet, surgiu em 1969. A intenção do governo estadunidense era desenvolver um sistema para interligar seus computadores de uso militar. Assim surgiu a ARPANET, que operava como um chaveamento de pacotes, um esquema de transmissão de dados em rede de computadores no qual as informações são divididas em pequenos pacotes, que contém trecho dos dados. No caso, o endereço do destinatário e informações que permitiam a remontagem da mensagem original.

Pouco tempo depois, o sistema passou a ser interligado com universidades e outros institutos de pesquisa, dividindo o sistema em duas redes, uma de uso militar e outra não-militar. Um esquema técnico denominado IP (Internet Protocol - Protocolo da Internet) já permitia que o tráfego de informações fosse caminhado de uma rede para outra. Todas as redes conectadas pelo IP na Internet comunicam-se em IP, para que todas possam trocar mensagens.

Por meio da National Science Foundation, o governo americano investiu na criação de backbones (espinha dorsal), que são grandes computadores conectados por linhas que têm a capacidade de dar vazão a grandes fluxos de dados, como canais de fibra óptica, elos de satélite e elos de transmissão por rádio. Além desses backbones, existem os criados por empresas particulares. A elas são conectadas redes menores, de forma mais ou menos anárquica. É basicamente nisto que consiste a Internet, que teoricamente não tem um dono específico.

Em Janeiro de 1983, a ARPANET mudou seu protocolo de NCP para TCP/IP. Em 1985, surge o FTP. Contudo, a Internet como hoje conhecemos, com sua interatividade, como arcabouço de redes interligadas de computadores e seus conteúdos multimídia, só se tornou possível com a criação do World Wide Web, ganhando maior divulgação pública a partir dos anos 90.

Atualmente, uma única entidade é responsável por estabelecer as regras de uso e distribuição de protocolos IP's. A ICANN - Internet Corporation for Assigned Names and Numbers classifica-se como uma entidade sem fins lucrativos e de âmbito internacional, mas é ligada ao Departamento de Comércio estadunidense. Esses serviços eram originalmente prestados mediante contrato com o governo dos EUA, pela Internet Assigned Numbers Authority (IANA) e outras entidades. A ICANN hoje cumpre a função da IANA.

Concentração de poder
A comunidade internacional, no entanto, questiona a concentração de poder de governança da Internet pelo governo dos Estados Unidos. Assim na Cúpula Mundial para a Sociedade da Informação, realizada em Túnis (Tunísia), em novembro de 2005, foi aprovada a criação do Fórum de Governança da Internet (IGF, na sigla em inglês). A intenção foi contrabalançar o poder da Icann. A entidade continua no controle da rede, mas o Fórum serve para que outras iniciativas sejam discutidas num âmbito mais internacional e democratizante. Os Estados Unidos chegaram na Cúpula sem querer ceder e acabaram isolados. A União Européia ficou ao lado de Brasil, China, Índia e outros países.

A primeira reunião do Fórum aconteceu entre os dias 30 de outubro e 2 de novembro, em Atenas (Grécia). Enviado para representar o governo federal, o gerente de Assuntos Estratégicos do Ministério da Cultura, José Murilo Júnior, explica que o IGF tem uma estrutura aberta, heterogênea e não-hierarquizada para o debate sobre políticas públicas para a rede. Os principais temas debatidos são spam, multilingualismo, censura, cybercrime, cybersegurança, questões de gênero, privacidade e proteção de dados, liberdade de expressão, direitos humanos, direitos autorais.

Segundo Murilo, nenhuma decisão importante foi tomada em Atenas. A próxima reunião acontecerá em novembro de 2007, no Rio de Janeiro. Contudo, o primeiro encontro direciona caminhos para novas discussões e a correlação de forças no Fórum. "A questão que não quer calar é o papel central da norte-americana Icann em uma rede que tende cada vez mais à internacionalização. Processos decisórios importantes que afetam a todos precisam de maior representatividade e transparência, e os esforços da entidade neste sentido não conseguiram apaziguar demandas pela internacionalização do serviço manifestadas na Cúpula de Tunis por vários países, entre eles o Brasil. Mas este tema não está exatamente na pauta do IGF-Atenas. Quem sabe no Rio?", aponta o representante do governo brasileiro.

Carlos A. Afonso, diretor de planejamento da Rede de Informações para o Terceiro Setor (Rits) e um dos representantes das entidades civis sem fins de lucro no Comitê Gestor da Internet no Brasil, afirma, no entanto, que o grupo preparatório para esta reunião acabou cedendo a pressões (de governos como o dos EUA, e de certos interesses comerciais) para minimizar, se não impedir, discussões amplas sobre a governança da infra-estrutura lógica (nomes de domínio, números IP e protocolos de
interconexão e transporte de dados) da rede.

"Setores da ONU influídos pelas grandes empresas de telecomunicações e por alguns governos continuam insistindo na substituição da ICANN por um organismo intergovernamental, que seria a União Internacional da Telecomunicação (UIT/ITU). Isto é repudiado por uma grande maioria dos grupos de interesse porque a UIT não é pluralista, nem global, e é basicamente controlada pelas grandes empresas de comunicação", diz Afonso, avaliando a dificuldade da sociedade civil defender seus interesses dentro da Organização.

Afonso acrescenta ainda que a Icann tem vivido um processo de reestruturação lenta, que em geral tem lentamente progredido em direção a mais participação e transparência. Contudo, a maior parte do tempo da entidade hoje é tomado pelas atividades de coordenação do comércio mundial de nomes de domínio genéricos ou globais (conhecidos como GTLDs e STLDs), em que uma única empresa controla cerca de 70% do mercado. "Por outro lado, o processo de independência da Icann em relação ao governo dos EUA sofreu um revés, com a renovação em setembro deste ano do Memorando de Entendimento entre a entidade e o Departamento de Comércio, que na prática mantém a supervisão sobre funções cruciais da governança da infra-estrutura, como as decisões sobre modificação do arquivo-raíz que centraliza o anúncio dos nomes de domínio de primeiro nível (tanto genéricos como dos países)", lembra Afonso.

Multilingualismo
Um dos temas de maior relevância que avançaram em consenso foi o debate da utilização de outros alfabetos na formação de domínios, que é uma reivindicação importante dos países asiáticos - cada vez mais fortes na rede. Trata-se de pauta do
multilingualismo. O Icann já sinaliza empenho em apresentar as soluções rapidamente.

"O grande mérito do IGF está sendo a oportunidade de encontro pessoal e livre troca de idéias e informações entre 'usuários' e 'administradores' da grande rede, o que tem sido facilitado pela estrutura mais horizontal e participativa do evento. A Internet está chegando em todos os lugares, mas não da mesma forma, e a desinformação ainda é muito grande, por exemplo, nos países africanos. Para muitos deles, a grande descoberta neste fórum foram os kits anti-spam. Relatam por exemplo que no pouco tempo de conexão (lenta) de que dispõem para acessar seus e-mails (praticamente o único recurso que usam na web), os minutos preciosos que perdem baixando spam praticamente inviabiliza o uso. Parece que as tais dynamic coalitions podem começar a funcionar, da mesma forma como as amizades virtuais que só se concretizam mesmo depois de um encontro frente a frente", acredita José Murilo.

Direitos da Internet
Como uma das principais contribuições do Brasil, ficou registrada a Carta dos Direitos da Internet (saiba mais). A idéia surgiu em Túnis tendo entre os patrocinadores o Lawrence Lessig, o Stallman e o ministro Gilberto Gil, além de membros do parlamento italiano e a ONG IPJustice.org. "Como o Gil não pôde estar dessa vez, vim representá-lo, e trouxe basicamente a reivindicação espontânea que nasce nos 'pontos de cultura', pelo direito de remixar cultura digitalmente. Em um Fórum onde tantos assuntos são tratados especificamente e nenhum consenso é alcançado parece fazer sentido pensar em um conjunto de direitos e deveres fundamentais orientadores".

Outros assuntos que despertam bastante polêmica referem-se basicamente ao direito de acesso à informação e a liberdade de conhecimento - a busca por padrões abertos, software livre e acesso livre ao conhecimento. "Essa busca choca-se com os interesses das grandes empresas de software proprietário e as companhias que comercializam conteúdo utilizando leis (cujo rigor varia de país a país) que definem os direitos de autor e os de propriedade intelectual das distribuidoras de conteúdo, e em conseqüência limitam os direitos de cópia ou mesmo da simples visualização/audição múltipla de conteúdos", destaca o representante da sociedade civil no Fórum, que afirma ainda que a atuação dos representantes governamentais brasileiros tem sido bastante afinadas com os anseios da sociedade organizada.

José Murilo questiona ainda a falta de cobertura dos meios sobre os debates da Cultura Digital, extremamente importantes para o desenvolvimento. "Grande parte da comunidade norte-americana na rede, como a maioria dos blogs, ignora solenemente o evento. Para os geeks, que de certa forma se sentem meio 'donos' do brinquedo, governos (inclusive o deles) só podem atrapalhar o que está dando certo. O que dizer de um coletivo de governos liderados por uma cada vez mais desacreditada ONU? A Internet detona mesmo com as fronteiras, e neste caso nem podemos ver a posição norte-americana como um bloco homogêneo", pontua Murilo, otimista com o debate e cobrando uma discussão ampla no período preparatório para o Fórum no Rio de Janeiro em 2007.

Posted by João Domingues at 11:05 AM

Senado suspende votação de proposta de regulamentação da internet, por Chico de Gois e Agnes Dantas

Senado suspende votação de proposta de regulamentação da internet

Matéria de Chico de Gois e Agnes Dantas, originalmente publicada na seção Teconologia do Globo Online, no dia 7 de novembro de 2006

BRASÍLIA e RIO - O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) concordou nesta terça-feira em retirar da pauta de votações da Comissão de Constituição e Justiça de quarta-feira o projeto de lei que regulamenta o uso da internet. O senador foi convencido pelos senadores Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Patrícia Saboya (PSB-CE).

O projeto de lei, substitutivo capitaneado por Azeredo aos demais projetos já existentes, previa a caracterização de crimes cibernéticos e a identificação obrigatória dos usuários de internet em ações que exigissem interação, como a troca de mensagens instantâneas, de e-mails e o uso de serviços bancários online (clique aqui e confira detalhes do projeto)

ACM pediu que ele retirasse o assunto da pauta para que os demais senadores tomassem conhecimento da matéria, mesmo argumento usado por Patrícia. Outros senadors se manifestaram nesse mesmo sentido no plenário do Senado. Diante das sugestões, Azeredo concordou, embora tenha reiterado que o projeto não signifique a quebra de sigilos.

- Podemos caminhar para uma nova audiência pública e suspender a votação de amanhã (quarta-feira) - disse.

O projeto sai da pauta de votações após sofrer inúmeras críticas de integrantes do governo, de especialistas e de entidades civis ligadas à internet. Até mesmo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), reconheceu nesta terça-feira que haja mais discussão sobre o substitutivo, que reúne três projetos de lei. Renan, bem como o senador Delcídio Amaral (PT-MS), contribuiu com alterações e propostas incluídas no projeto, segundo Azeredo.

Manifestaram-se contrários ao projeto o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o consultor jurídico do Ministério das Comunicações, Marcelo Bechara; o presidente da Câmara, Aldo Rebelo; e o deputado e presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), entre outros.

A obrigação de identificar todos os usuários da internet pode ajudar no trabalho da polícia, mas é vista como um instrumento de censura por muitos especialistas. A Associação Brasileira de Provedores (Abranet) , o Comitê Gestor da Internet no Brasil e organizações não-governamentais criticaram o projeto. O especialista Renato Opice Blum defende a proposta.

Se a atual proposta for aprovada, passam a ser considerados crimes previstos em lei: o envio de vírus de computador; a violação e divulgação não autorizada de informações depositadas em bancos de dados; o atentado contra serviços de utilidade pública online; e a falsificação de cartões de crédito ou débito.

Posted by João Domingues at 11:00 AM

novembro 7, 2006

Presidente da Câmara critica projeto de controle da internet, por Leandro Colon

Presidente da Câmara critica projeto de controle da internet

Matéria de Leandro Colon, originalmente publicada na seção Teconologia do Globo Online, no dia 7 de novembro de 2006

O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), criticou nesta terça-feira (7) o projeto que tramita no Senado que altera o critério de fiscalização dos usuários de internet, tornando obrigatória a identificação, com CPF e RG, para quem quiser usar serviços interativos, como enviar e receber e-mails, responder enquetes, participar de salas de bate-papo, ou baixar músicas e imagens.

Para Aldo, a proposta pode ferir a democracia do direito do internauta. "Creio que todo tipo de controle tem que ser feito mediante a critério rigoroso para não ferir a democracia", disse. "Sou mais favorável à tese de permitir a liberdade e criar uma legislação que puna quem abusou dessa liberdade", afirmou.

O projeto, cujo relator é o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), visa combater crimes na internet, como pedofilia e roubos de senhas bancárias, e prevê pena de dois a quatro anos de prisão para usuários e provedores de acesso que não fizerem essa identificação prévia. Para Aldo, no entanto, a proposta acabará punindo quem usa a internet dentro da lei. "Na expectativa de encontrar criminosos, se pune quem não cometeu crime algum. Meu esforço é de que haja uma legislação compatível com a liberdade e com a possibilidade de encontrar os criminosos", ressaltou.

O projeto deve ser votado nesta quarta-feira (8) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Se aprovado, segue para o plenário da Casa e, somente depois disso, vai para a Câmara.

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) avisou nesta terça que a Câmara está de olho na votação desta quarta. Segundo ele, os deputados se preparam para derrubar a proposta se passar pelo Senado. "Vou comandar a reação da Câmara. A gente vai eliminar isso. Esse projeto ameaça a liberdade da internet. Esse projeto não tem a mínima chance. É um atentado. Não faz sentido", disse.

Posted by João Domingues at 11:57 AM

novembro 6, 2006

Projeto quer controlar acesso à internet, por Elvira Lobato

Projeto quer controlar acesso à internet

Matéria de Elvira Lobato, originalmente publicada na Folha de S.Paulo, no dia 6 de novembro de 2006

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado votará, na próxima quarta-feira, um projeto de lei que obriga a identificação dos usuários da internet antes de iniciarem qualquer operação que envolva interatividade, como envio de e-mails, conversas em salas de bate-papo, criação de blogs, captura de dados (como baixar músicas, filmes, imagens), entre outros.

O acesso sem identificação prévia seria punido com reclusão de dois a quatro anos. Os provedores ficariam responsáveis pela veracidade dos dados cadastrais dos usuários e seriam sujeitos à mesma pena (reclusão de dois a quatro anos) se permitissem o acesso de usuários não-cadastrados. O texto é defendido pelos bancos e criticado por ONGs (Organizações Não-Governamentais), por provedores de acesso à internet e por advogados.

Os usuários teriam de fornecer nome, endereço, número de telefone, da carteira de identidade e do CPF às companhias provedoras de acesso à internet, às quais caberia a tarefa de confirmar a veracidade das informações.

O acesso só seria liberado após o provedor confirmar a identidade do usuário. Para isso, precisaria de cópias dos documentos dos internautas.

Críticas

Os provedores de acesso à internet argumentam que o projeto vai burocratizar o uso da rede e que já é possível identificar os autores de cibercrimes, a partir do registro do IP (protocolo internet) utilizado pelos usuários quando fazem uma conexão. O número IP é uma espécie de "digital" deixada pelos internautas. A partir dele, chega-se ao computador e, por conseguinte, pode-se chegar a um possível criminoso.

Principais alvos do cibercrime, os bancos e os administradores de cartões de crédito querem a identificação prévia dos internautas. O diretor de Cartões e Negócios Eletrônicos da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Jair Scalco, diz que não adianta criar leis para punir as fraudes na internet se não houver a identificação obrigatória de todos os internautas. Ele defende que os registros de todas as conexões sejam preservados por pelo menos três anos.

O projeto recebeu muitas críticas. "É uma tentativa extrema de resolver a criminalidade cibernética, que não surtirá efeito. O criminoso vai se conectar por meio de provedores no exterior, que não se submetem à legislação brasileira, ou usará laranjas [terceiros] e identidade falsa no Brasil", afirma o presidente da ONG Safernet (Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos), Thiago Tavares. A entidade é dirigida por professores da Universidade Federal da Bahia e da PUC daquele Estado.

Para Tavares, o projeto, se aprovado, irá burocratizar e restringir o acesso à internet. "Não se pode acabar com a rede, em nome da segurança, porque ela nasceu com a perspectiva de ser livre e trouxe conquistas muito grandes, como a liberdade de informação e de conexão", afirma.

Para ele, os provedores tenderão a dificultar o acesso das pessoas à rede mundial de computadores, com medo de serem responsabilizados criminalmente por atos dos usuários.

Lobby

O relator do projeto é o senador Eduardo Azeredo (PSDB), ex-governador de Minas Gerais. Os especialistas do setor dizem que o mentor das mudanças é o assessor de Azeredo José Henrique Portugal, ex-dirigente do Serpro, estatal federal de processamento de dados.

O presidente da ONG Safernet diz que, por trás da identificação e da certificação prévias dos usuários da internet, está o lobby das empresas de certificação digital, espécie de cartórios virtuais, que atestam a veracidade de informações veiculadas pela internet.

De acordo com ele, o projeto está na contramão da democratização do acesso à internet, ou inclusão digital, pretendida pelo governo.

Posted by João Domingues at 1:01 PM

novembro 1, 2006

Sem concorrentes, Júlio Neves é reeleito para presidir o Masp, por Mario Cesar Carvalho

Sem concorrentes, Júlio Neves é reeleito para presidir o Masp

Matéria de Mario Cesar Carvalho, originalmente publicada na Folha de S.Paulo, no dia 1º de novembro de 2006

O arquiteto Júlio Neves, 74, foi reeleito anteontem presidente do Masp (Museu de Arte de São Paulo) por unanimidade. Será a sétima gestão consecutiva dele à frente do museu -ele foi eleito pela primeira vez em 1994, sempre para mandatos de dois anos. Como aconteceu nas últimas seis eleições, não havia concorrentes. Participaram 45 dos 60 conselheiros do museu, e todos votaram em Neves, segundo a assessoria de comunicação da instituição.

A reportagem da Folha pediu para consultar a ata da eleição, mas não foi atendida. Segundo a assessoria, a ata é sigilosa até ser registrada, o que deve ocorrer na próxima segunda-feira. A Folha solicitou uma entrevista com Neves, mas não obteve resposta.

A situação financeira do Masp talvez explique por que ninguém quer dirigir a instituição que tem o acervo artístico mais espetacular da América Latina: um leque que vai de Rafael a Tiziano, de Mondrian a Picasso, de Van Gogh a Monet.

O Masp deve R$ 3,92 milhões ao INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) e por volta de R$ 3 milhões à AES Eletropaulo. Há duas semanas, a Telefônica cortou duas linhas do museu por falta de pagamento de R$ 650. O corte ocorreu porque as contas haviam sido extraviadas, segundo nota enviada ontem à Folha por João da Cruz Vicente de Azevedo, secretário-geral do museu.

Em maio, a luz havia sido desligada por causa das dívidas acumuladas em sete anos.

Em novembro do ano passado, a empresa Heating & Cooling, que instalou o ar condicionado do museu, protestou um título do Masp pela falta de pagamento de R$ 43,5 mil. Até hoje a dívida não foi paga. O Masp informou ontem em nota que o pagamento não foi feito por causa de "imprecisões" na realização dos serviços.

Neves e o presidente do conselho do museu, o cirurgião e ex-ministro da Saúde Adib Jatene, defendem que a solução para a crise do Masp é a construção de uma torre ao lado do prédio de Lina Bo Bardi.

A torre já tem a garantia de patrocínio da Vivo, operadora de telefonia celular. A empresa comprou o prédio ao lado do Masp por cerca de R$ 12 milhões e doou-o ao museu.

Após a reforma, o Masp planejava abrir cursos de arte no local. A Universidade São Marcos já manifestou interesse em ministrar os cursos. O topo da torre abrigaria um café e um luminoso com publicidade da Vivo, o que garantiria uma receita mensal fixa ao museu.

O plano esbarrou no veto do Conpresp (órgão da prefeitura responsável pelo patrimônio histórico) ao projeto. Segundo parecer definitivo emitido em 25 de outubro de 2005, o museu não poderia erguer a torre de 125 metros de altura porque a obra interferiria num bem tombado -o prédio de Lina Bo Bardi. O museu tenta na Justiça derrubar o veto da prefeitura com a alegação de que a torre não depende de aprovação do Conpresp, já que os órgãos estadual e federal do patrimônio histórico não fizeram objeções ao projeto. A torre foi projetada pelo próprio Neves.

Em setembro, o museu fez uma nova tentativa de aproximar-se do meio cultural com a nomeação de Teixeira Coelho, professor da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes), para o cargo de curador, que estava vago há dez anos.

Coelho criou um conselho, responsável por aprovar a programação do museu. Fazem parte do conselho os críticos Aracy Amaral, Lorenzo Mammì e Arlindo Machado, a artista Regina Silveira e o colecionador Miguel Chaia, entre outros.

Posted by João Domingues at 2:16 PM