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junho 28, 2005

Sérgio Porto: o foco da questão por Patricia Canetti

Carta enviada por Patricia Canetti ao jornal O Globo, comentando as matérias publicadas nesse jornal em 23 e 28 de junho de 2005. (veja as matérias reproduzidas abaixo nesse blog)

Caros jornalistas e editores do Segundo Caderno,

Primeiramente, gostaria de parabenizá-los pelas matérias publicadas a respeito do processo irregular de seleção do Espaço Cultural Sérgio Porto para a programação de suas galerias. Acredito que tornando visível o (mal) funcionamento de nossas instituições, estamos todos contribuindo para tornar o nosso país mais decente e ético.

Tenho três considerações a fazer e todas elas se relacionam com o fato de estarmos perdendo o foco do problema: a falta de continuidade das políticas públicas da cidade do Rio de Janeiro e o conseqüente desrespeito com os cidadãos que essa promove.

1 - Na primeira matéria o secretário de Cultura Ricardo Macieira coloca em relação ao trabalho da primeira seleção: "Eles disseram que não receberam o pró-labore? Cadê o contrato? Eu desconheço."

Com a sua maneira rude de ser, Ricardo Macieira mafiosamente levanta suspeita sobre o processo gerido por sua funcionária, a diretora da Divisão de AV do RioArte, Claudia Saldanha, ao mesmo tempo que desconfia da honestidade da artista Anna Bella Geiger e do curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro Fernando Cocchiarale, como se fossem dois moleques. Na verdade, sabemos que se houvesse contrato, esse não seria respeitado, pois o que vemos prevalecer na Secretaria de Cultura de nossa cidade é sempre a vontade autoritária de seu dirigente maior.

Lembremos aqui que muito recentemente O Globo publicou matéria sobre o descumprimento de contratos assinados por Macieira. Da mesma maneira, vale a pena citarmos a anulação do penúltimo edital da Bolsa RioArte, quando a primeira parte da seleção já havia sido concluída; a descontinuidade da Mostra Rio Arte Contemporânea, que ficou estacionada na primeira edição; a tentativa de fechar uma das galerias do Sérgio Porto e transformá-la em midiateca, que também foi tema de matéria nesse jornal; o cancelamento na virada de 2003 do banco de projetos criados pelo então diretor do RioArte Fábio Ferreira, que recebeu projetos de artistas e produtores de todos os segmentos culturais, e deveria alimentar as ações do RioArte e, por último, mas não menos importante, a criação de uma comissão para avaliar as esculturas colocadas em espaço público, que até hoje não foi posta em funcionamento, tendo servido apenas, na época de sua criação, como factóide para desaquecer o debate público sobre o tema em pleno período eleitoral.

2 - Na segunda matéria, a artista plástica Sandra Schechtman, uma das escolhidas por Luís Cancel e que não constava da primeira seleção diz: "Eu acho que é assim que acontece: as pessoas mandam seus portfólios para os salões podendo ou não serem escolhidos. Os artistas têm é que fazer os projetos comprometidos com seu trabalho. Agora vai questionar porque não foi selecionado?"

A opinião equivocada da artista, que acha que o problema aqui se resume na tão conhecida reclamação sobre estar ou não selecionado, pode nos levar ao erro recorrente da briga interna de classe, quando estamos nesse momento político tão delicado todos interessados em manter e reforçar o funcionamento de nossas instituições de forma transparente e ética.

3 - Na carta enviada ontem por Luis Cancel pela internet, o curador assume que teve a liberdade de fazer o que quis (convocando inclusive artistas que não enviaram portfolio), alegando a não publicação do primeiro resultado. O curador apenas esqueceu que o resultado que ele jogava fora, respondia a uma seleção tornada pública pela própria instituição.

Voltamos assim ao foco de nosso embate: o descumprimento dos compromissos com a sociedade civil.

Pela primeira vez, na história do Sérgio Porto, conseguimos ter uma seleção pública, deixando para trás a falta de transparência que havia anteriormente em seus processos de seleção. E o que queremos é a manutenção disso e não o retrocesso que está significando a nova contratação de um curador que não foi capaz de respeitar um compromisso público. Nem ele, nem Claudia Saldanha e nem Ricardo Macieira. Fica então a pergunta:

Para quê precisamos de instituições na contemporaneidade, já que estas são lentas, engessadas e desprovidas de recursos, se não forem capazes de cumprir a sua função simbólica - o respeito à lei que rege os princípios básicos de uma sociedade democrática.

Um abraço,
Patricia Canetti
Artista, criadora do Canal Contemporâneo

Posted by Patricia Canetti at 2:49 PM

Artistas que vão expor no Sérgio Porto ficam em situação embaraçosa, por Ana Wambier

Artistas que vão expor no Sérgio Porto ficam em situação embaraçosa

Matéria de Ana Wambier publicada originalmente no Segundo Caderno do Jornal O Globo, no dia 28 de junho de 2005

Os artistas que vão expor nas galerias do Espaço Cultural Sérgio Porto estão numa "sinuca de bico". Selecionados para as exibições pelo novo curador das mostras, eles não podem aproveitar o momento porque parte da classe artística os acusa de compactuar com o secretário das Culturas, Ricardo Macieira, que decidiu nomear Luís Cancel para o cargo depois que a antiga curadoria, formada por Cláudia Saldanha, Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale, já havia chegado a um resultado, que foi invalidado.

- Eu acho que é assim que acontece: as pessoas mandam seus portfólios para os salões podendo ou não serem escolhidos. Os artistas têm é que fazer os projetos comprometidos com seu trabalho. Agora vai questionar porque não foi selecionado? - defendeu a artista plástica Sandra Schechtman, uma das escolhidas por Luís Cancel e que não constava na lista de Cláudia Saldanha, Anna Bella e Cocchiarale.

Artistas se manifestam em fórum na internet

A discussão a respeito da troca de curadorias começou a ser comentada por artistas em abril no site Canal Contemporâneo, onde a mediadora Patrícia Canetti colocou a questão para que todas as partes se manifestassem a respeito do que ocorria no Sérgio Porto.

Os mais revoltados com a troca dos jurados no meio do processo curatorial comentaram que os artistas selecionados por Luís Cancel deveriam unir-se a eles e protestar também. Do contrário, alegaram, estariam rachando o movimento e deixando de exercer a civilidade.

Como escreveu a própria Patrícia, "ao descartar a seleção anterior, Cancel passa por cima dos curadores e dos artistas, rejeitando um compromisso institucional, como se nada houvesse antes da sua presença. Compartilham desta condição os artistas selecionados por ele, que, dizendo que não podem mudar esta situação, passam a contribuir para o tratamento de gado dispensado a eles mesmos".

No site, um dos artistas escolhidos por Cancel, Cézar Migliorin, questiona se o fato de o curador fazer a sua própria escolha deve ser mesmo considerado um absurdo. "A não ser que participar de uma concorrência seja uma forma de compactuar", respondeu ele.

- Eu penso que as pessoas deveriam sentar para resolver a coisa de forma mais adulta. Do contrário, ficaremos todos à mercê de uma coisa mal resolvida, não declarada. Não estou defendendo apenas um dos lados, mas acho que também estou no meu direito de poder expor. O que acontece é que somos extremamente desunidos. Eu apenas lamento tudo isso - disse Clarisse Tarran, também escolhida pela segunda seleção.

Embora o projeto de sua obra já estivesse definido antes de toda a confusão gerada em torno da seleção do Sérgio Porto, a obra de Clarisse é, por assim dizer, eloqüente para o momento: chama-se "Eu falo" e trata dos diversos tipos de fundamentalismo. Serão três instalações, sendo uma delas em vídeo. Em uma das peças que serão apresentadas pela artista na galeria do Sérgio Porto, há uma estátua coberta por um tecido que se parece com uma burca.

Outra obra que parece estar em sintonia com a discussão formada é a do artista Mauro Espíndola, que também vai expor nas galerias este ano. Sua obra consiste em grandes prateleiras cheias de recipientes de vidro semelhantes àqueles de farmácias antigas. Nessas vasilhas, os rótulos indicam antídotos para diversos males sociais. Em um dos vidros, há a inscrição: Antifóbico coletivo para fuxico.

- O Luís Cancel foi escolhido para o cargo e tem todo o direito de querer fazer a seleção ao gosto dele. É legítimo. Além disso, ele tem um ótimo currículo, já foi secretário de cultura de Nova York e é uma pessoa extremamente competente. Acho que a comunidade artística do Rio ganha com gente como ele trabalhando aqui. É um novo olhar para o meio. Isso pode ser muito rico - afirmou Sandra Schechtman.

Posted by João Domingues at 11:24 AM | Comentários (1)

junho 27, 2005

Carta enviada a Ricardo Boechat por Andréa Zide e Paulo Zide, advogados de Cristina Pape

Carta enviada a Ricardo Boechat por Andréa Zide e Paulo Zide, advogados de Cristina Pape, a respeito da nota "Foi assim" publicada em sua coluna em 26 de junho de 2005 (reproduzida abaixo)

Rio de Janeiro, 27 de junho de 2005.

Ilmo. Sr.
Ricardo Boechat
colunaboechat@jb.com.br

Prezado Senhor,

Na coluna do dia 26/06/2005 p. passado, foi publicada nota noticiando que a juíza da 3ª Vara de Órfãos e Sucessões determinou "que se cumpra o testamento da artista plástica Lygia Pape, morta em maio de 2004" (sic).

Entretanto, trata-se de informação incorreta. O testamento de Lygia Pape é objeto de ação de anulação - ou seja, o referido testamento está sendo contestado, sendo certo que nenhuma decisão foi proferida ainda com relação à validade ou nulidade do testamento de Lygia Pape.

Na qualidade de advogados de Cristina Maria Pape, filha da falecida Lygia Pape, vimos solicitar que seja corrigida a informação publicada no jornal do dia 26/06/2005.

Nesse sentido, voltamos a afirmar que a validade do testamento de Lygia Pape ainda está em discussão perante a 3ª Vara de Órfãos e Sucessões - processo nº 2005.001.0103555. E mais, ainda está em vigor liminar de arrolamento concedida pela Juíza da 3ª Vara de Órfãos e Sucessões em favor de Cristina Maria Pape.

Sem mais para o momento, subscrevemo-nos,
Atenciosamente,

Andréa Zide e Paulo Zide


Nota publicada originalmente na coluna Boechat no Jornal do Brasil, em 26 de junho de 2005.

Foi assim

E por falar em decisão judicial, Vera Maria Soares da Silva, titular da 3ª Vara de Órfãos e Sucessões, determinou, quarta-feira, que se cumpra o testamento da artista plástica Lygia Pape, morta em maio de 2004.

Em seu despacho, a magistrada classificou de ''irretocável'' o parecer do Ministério Público no processo.

Prossegue, assim, a catalogação das obras que Pape deixou.

Posted by Patricia Canetti at 7:56 PM

junho 23, 2005

Intriga no Sérgio Porto, por Ana Wambier

Intriga no Sérgio Porto

Matéria de Ana Wambier publicada originalmente no jornal O Globo, na capa do Segundo Caderno de quinta-feira, 23 de junho de 2005

Uma polêmica está rondando o Espaço Cultural Sérgio Porto. A causa da querela é a troca inesperada de comando na curadoria das galerias de arte da instituição. O novo responsável, Luís Cancel, indicado pelo secretário das Culturas, Ricardo Macieira, anulou uma seleção do júri anterior, que já tinha chegado a um resultado com os nomes dos artistas que participariam de exposições ao longo deste ano no Sérgio Porto. A decisão de fazer uma substituição como essa no fim de todo o processo curatorial está causando indignação de parte da classe artística.

As galerias do Sérgio Porto são disputadas porque funcionam como um pequeno salão carioca: todo ano, artistas novos na cena contemporânea das artes plásticas são apresentados ao público em exposições individuais ou coletivas. Embora a polêmica em torno da programação de 2005 tenha sido inflamada agora, ela começou em fevereiro, com a nomeação de Cancel.

Dois meses antes, em dezembro de 2004, a diretora da Divisão de Artes Visuais do RioArte, Cláudia Saldanha, fez um convite à artista plástica Anna Bella Geiger e ao crítico de arte Fernando Cocchiarale para que os três juntos fizessem a seleção e curadoria dos portfólios enviados pelos artistas.

Primeira seleção tinha 49 artistas

Dos quase 200 inscritos, o trio escolheu 49 projetos. Depois de godo o trabalho feito, um decreto de Ricardo Macieira nomeou Luís Cancel como o novo responsável pela curadoria. Sem que Anna Bella Geiger ou Fernando Cocchiarale fossem comunicados, uma nova seleção começou a ser formada. E os pró-labores dos dois não foram pagos pela prefeitura.

Ao assumir o cargo, Cancel anulou a ata do resultado anterior e avaliou ele mesmo os trabalhos inscritos, escolhendo outros artistas para compor as galerias. Desta vez, foram pinçados apenas 13 artistas.

— Nós fomos convidados para fazer o trabalho. Depois de tudo, ninguém nos procurou para dar uma explicação do que estava acontecendo. Não somos mais crianças para sermos tratados assim. Pelo que me informaram, na nova lista constam pessoas que não apresentaram portfólio, foram convidados por fora. Não sei que critérios foram tomados. Mudaram as regras. Mas não compete a mim julgá-las — disse Anna Bella.

O secretário Ricardo Macieira, falando sempre na terceira pessoa, explicou que sua decisão buscava transparência no processo.

— Ninguém entende mais do sistema do Sérgio Porto do que o secretário Ricardo Macieira, que está há 12 anos no comando da cultura nesta cidade — disse ele de si mesmo. — Eles disseram que não receberam o pró-labore? Cadê o contrato? Eu desconheço.


O secretário disse ter escolhido Cancel porque quer mudar o modelo de seleção do Sérgio Porto para uma fórmula mais democrática.

— No próximo ano, o Cancel deverá escolher de cinco a seis pessoas para fazer a curadoria, com o resultado divulgado no Diário Oficial. Neste ano ele fez sozinho porque está na transição. Antes, tinha uma suposta transparência. Eu decidi fazer essa troca porque tenho pavor de "panelinhas". Tinha muita gente que ia me procurar para reclamar da maneira como as coisas eram feitas antes — defendeu o secretário, que, apesar das mudanças, manteve Cláudia Saldanha em seu cargo. À frente da Diretoria de Artes Visuais do RioArte, ela é a responsável oficial pelo processo de seleção do Sérgio Porto.

As galerias de 2005 abrem no fim do mês com as exposições de Chico Cunha (do Rio) e Miguel Trelles (de Nova York). Nenhum deles havia enviado portfólio para o Sérgio Porto, mas foram convidados por Cancel, que manteve, na programação de 2005, seis artistas da lista de Anna Bella e Cocchiarale: Alexandre Monteiro, Marcelo Moscheta, Isabel Löfgren, Albano Afonso, Mauro Espíndola e Cézar Migliorin.

Indignados, os artistas começaram a manifestar suas opiniões num fórum pela internet e chegaram a sugerir uma anulação judicial da nova seleção.

— Não houve oficialmente um edital público, mas uma manifestação de vontade por parte da Cláudia Saldanha em avaliar junto com a Anna Bella e o Cocchiarale os portfólios enviados. Mesmo que não tenha saído publicado em Diário Oficial, é uma manifestação de caráter oficioso na medida em que está sendo feita publicamente pela diretora de um órgão público. Eu acho é que o Sérgio Porto queimou o filme — disse a artista plástica Cláudia Hersz.

Segundo Cláudia Saldanha, sua situação foi a mais difícil, uma vez que ficou entre a decisão da prefeitura e a indignação dos artistas.

— Óbvio que não me sinto confortável tendo iniciado um processo e não ter podido concluí-lo. Mas tem que se entender que este é um cargo político, o de curadoria, sujeito a esse tipo de mudança a qualquer momento. Mas a maneira como tudo foi feito é meio... Isso poderia ter sido evitado, poderia ter sido feito com mais antecedência — disse Cláudia Saldanha.

Ernesto Neto faz manifesto

As mudanças também provocaram artistas que nada tinham a ver com o processo de seleção do Sérgio Porto, como Ernesto Neto, que chegou a escrever um manifesto em repúdio às decisões da prefeitura.

— O grande problema nacional é a fragilidade institucional. O fato de uma comissão ter o seu trabalho abortado e jovens artistas terem seu "sonho" dissolvido já é lamentável. Mas o que acontece é que, amanhã, quando a prefeitura lançar um novo edital, qual será a credibilidade que ela vai ter, que jovem artista sério vai ter confiança e se dedicar a desenvolver um projeto para submeter à prefeitura? A irresponsabilidade do ato autoritário começa a destruir uma obra institucional — escreveu Neto em um documento que tornou público na internet.

No meio de toda a discussão, chegou-se a levantar a suspeita de que Cancel, que é marido de Regina Miranda, diretora do Centro Coreográfico da prefeitura, teria sido indicado ao cargo por questões políticas. O que o secretário nega.

— Ele foi convidado pela qualidade de seu currículo. É um profissional competentíssimo que já trabalhou nas melhores instituições internacionais — diz Macieira, sem se lembrar dos nomes de tais instituições. — Se fosse uma escolha política, já o teria colocado em 2000.

Embora Macieira não se lembre de memória, Cancel tem, efetivamente, um currículo chamativo. Nova-iorquino de origem porto-riquenha, ele foi secretário de Cultura de Nova York, entre 1991 e 1994. Em 2002, atuou como consultor internacional do Museu de Arte Moderna do Rio.

Artistas recusados falam em deselegância

Com apenas 25 anos, Cancel trabalhou como diretor-executivo do Museu do Bronx, onde ficou por 13 anos. Também foi diretor da Cayman Gallery, uma galeria especializada em arte latino-americana no SoHo. Formou-se em artes plásticas no Pratt Institute (Nova York), e estudou no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Além disso, tem mestrado em administração de museus pela Universidade de Nova York e em administração pública por Harvard.

Artistas são recusados em e-mail público

Independentemente do currículo, um pequeno detalhe ajudou a piorar a disposição dos artistas a entender o que estava se passando no Sérgio Porto. A secretária de Cancel enviou, a todos os 163 artistas que tiveram o trabalho recusado na segunda seleção, uma correspondência eletrônica explicando as razões para a rejeição dos seus respectivos trabalhos, o que foi considerado deselegante.

— Tudo o que aconteceu resume uma situação de falta de moral e ética que estamos vivendo nesta cidade e neste país como um todo. Se não fizermos algo pelo menos com relação ao nosso próprio meio de trabalho, ficará cada vez mais difícil viver por aqui. Acredito ser essa uma obrigação de todo cidadão: exigir ética e transparência das instituições públicas. Não falo isso por recalque. Estou em outras duas exposições no Paço Imperial e no Paço das Artes. Falo por civilidade — disse a artista Ana Holck, uma das que haviam sido selecionadas por Anna Bella e Cocchiarale, mas que acabou não fazendo parte da nova seleção de Cancel.

Posted by João Domingues at 1:03 PM | Comentários (1)

junho 16, 2005

A morte do Masp por Mario Cesar Carvalho e cartas dos leitores

A morte do Masp e cartas dos leitores da Folha SP

MARIO CESAR CARVALHO é repórter especial

Matéria originalmente publicada na Folha S. Paulo, Opinião, em 13 de junho de 2005, e as cartas no Painel do leitor em 14 de junho de 2005.

"Até que enfim apareceu alguém lúcido -o jornalista Mario Cesar Carvalho- para lembrar o que está acontecendo com o Masp na sua derrocada enquanto seu presidente "passeia" pela Daslu. É o fim do mundo! Não para o presidente do Masp, é claro, que está muito bem posicionado no mercado. Onde estão os artistas para colocar a boca no trombone?"
Marcelo Gomes Sodré (São Paulo, SP)

"Queremos cumprimentar o jornalista Mario Cesar Carvalho pelo primoroso artigo "A morte do Masp" (Opinião, pág. A2, 13/6). Só faltou acrescentar que o arremedo de "neoclássico" com que o arquiteto Julio Neves vestiu o bunker Daslu sugere uma outra morte: a da arquitetura brasileira."
Ana Luiza Nobre e Otavio Leonídio, arquitetos (Rio de Janeiro, RJ)


O Masp (Museu de Arte de São Paulo) não recebeu nem um centavo de doadores privados neste ano. Talvez por isso sejam reveladoras as fotos em que Julio Neves, o presidente do museu, aparece sorrindo na inauguração da Daslu, cujo prédio foi projetado pelo arquiteto.

As fotos são reveladoras porque expõem cruamente o muro que separa os novos ricos do universo da arte: os que pagam R$ 4 mil por uma saia ou R$ 8 mil por um terno acham que não vale a pena dar um centavo para o Masp ou para qualquer outro museu.

A ascensão meteórica da Daslu e a morte lenta do Masp parecem fazer parte de um mesmo fenômeno: aquele em que a elite paulistana abandona completamente a esfera pública, o espaço de convívio com os diferentes, para se isolar em bunkers como o que abriga a Daslu.

Museus são um dos melhores indicadores da predisposição da elite para dividir um de seus bens mais valiosos: a arte. É por isso que o Brasil dos anos 70 assustava os artistas estrangeiros. Como pode um país tão pobre oferecer obras primas de Van Gogh, Cézane e Modigliani num prédio que é, ele próprio, um assombro modernista?

Esse país parece ter acabado. Desde outubro de 1994, quando derrotou José Mindlin por um voto (22 a 21), Neves promove um processo de desmonte do Masp. Trocou o piso, aposentou os cavaletes de vidro e concreto, levantou paredes e criou uma sala VIP. Por incrível que pareça, ninguém fez nada _o Patrimônio Histórico, o Ministério Público, os artistas, os colecionadores, os críticos. Neves extrai suas forças desse vácuo: há dez anos ele está na presidência do Masp.

Neves trata o prédio de Lina Bo Bardi (1914-1992) como se fosse mais uma obra dele. Não é por capricho que se quer manter os cavaletes de vidro e o piso básico do Masp. Eles narram as opções de Lina por um modernismo seco, sem adereços. Refletem as escolhas políticas da arquiteta. Lina era comunista e, no período mais negro da ditadura militar, em 1968, emprestava o canteiro de obras do Masp para Carlos Marighela, um dos guerrilheiros mais procurados, fazer reuniões da Aliança Libertadora Nacional.

Neves, amigo de infância de Paulo Maluf, não se contenta em desfigurar o museu. Quer colocá-lo à sombra de uma torre de 125 metros de altura projetada por ele. O próprio arquiteto apelidou o projeto com o inacreditável nome de 'pirocão'. A justificativa jeca para a altura é que do topo da torre daria para ver o mar em dias claros. A torre, na visão de Neves, ajudaria a levantar recursos para o Masp. O arquiteto não consegue mostrar decentemente o melhor acervo da América Latina e quer mostrar o mar? Na escala Neves, uma torre parece valer mais do que um Rafael ou um Ticiano.

Parece inacreditável, mas há tucanos lotados na administração do prefeito José Serra (PSDB) que apóiam a construção da torre. Não percebem, talvez, que o museu corre o risco de virar uma extensão dos negócios imobiliários de Neves.

Essa história melancólica parece sinalizar o nascimento de uma nova era, na qual a elite privatiza bens públicos, como os museus, ou transforma-os em acessório de seus negócios. É o custo da ignorância, não dos pobres, mas dos que estão no topo da pirâmide econômica. Como não há mecenato no país, os museus viraram a casa da sogra.

Posted by Patricia Canetti at 8:44 PM | Comentários (4)

junho 9, 2005

‘O Rio é uma cidade que ressurge a cada verão’ - Entrevista com Ricardo Macieira

'O Rio é uma cidade que ressurge a cada verão'

Entrevista com Ricardo Macieira, originalmente publicada, no Jornal do Brasil do dia 5 de junho de 2005.

Todos os segundos cadernos da imprensa brasileira se acreditam cadernos de serviço. Não sei se o leitor já reparou que estamos tentando transformar o nosso B num espaço de conversação, de troca de opiniões, de reflexão bem-humorada sobre o Rio e, depois, o Brasil, sua extensão (para nós, que vivemos nesta cidade).

Daí, a razão de trazermos para esta entrevista descontraída gente de conversa boa para falarmos sobre tudo, como se todos os leitores estivessem em volta da nossa mesa.

O Caderno B quer ser, também - e isto iremos conseguindo aos poucos - o house-organ da cultura de nossa cidade. Daí a lembrança de trazer para a entrevista desta semana Ricardo Macieira, o secretário das Culturas da Prefeitura do Rio de Janeiro. Dono de raciocínio rápido e de palavra fácil, sua articulada entrevista nos faz crer que esta é uma agradável conversa que Macieira estava devendo à sua cidade. (Ziraldo)

Ricardo Macieira - Li aquela maravilhosa entrevista que vocês fizeram com Washington Olivetto e num determinado momento ele falava, com certo saudosismo, de um Rio que não volta mais. Gente, existe esse Rio ainda, temos que vivenciar com plenitude o que essa cidade oferece! Eu sou um usuário do Rio. Vejo como minha filha Mariana, de 17 anos, vivencia o Rio, com a Lapa bombando, o Circo Voador sendo retomado, a Rua do Lavradio, o Baixo Gávea, os cinemas na Praia de Botafogo... quantos espaços urbanos diferentes com uma riqueza enorme! O Rio é uma cidade que ressurge a cada verão.

Ziraldo - Agora podemos cantar: "A Lapa está voltando a ser a Lapa..."

Zezé Sack - A cultura carioca também está voltando? Macieira - Está. O grande ganho dessa cidade na área de cultura foi justamente a continuidade. O projeto das Lonas Culturais foi criado em 1993 e continua em 2005. Inaugurei agora a oitava Lona, um projeto premiado em Berlim, em Buenos Aires... São prêmios pela transformação social através da cultura. O Financial Times deu página dupla sobre os projetos culturais da Prefeitura do Rio.

Arthur Poerner - Como Cesar Maia entrou na sua vida?

Macieira - Conheci Cesar Maia quando ele era deputado federal, mas, antes disso, já havia uma identidade minha com as coisas que eu lia dele, principalmente pela sua preocupação com o social. O que me juntou a ele? Suas idéias, seus compromissos, e ele ter a inquietude do fazer como coisa muito forte. Em 92, ele veio candidato à Prefeitura do Rio, pelo PMDB, indicado por Ulysses Guimarães, e foi nessa campanha que nos conhecemos melhor. E aí construí uma relação com ele ao longo de 12 anos. Começamos na Prefeitura de 93 a 96, aí ele elegeu o Conde, com quem fiquei até 11 de novembro de 99, e voltei com o retorno de Cesar Maia, em 2000.

Ziraldo - E por que ele te chamou pra isso?

Macieira - Pelo meu perfil executivo. Comecei como diretor-executivo e chefe de gabinete. Eu tinha um escritório de arquitetura.

Ziraldo - E como é que o Cesar Maia, com uma origem de esquerda, vai pra direita e convive com Bornhausen? Ele é um grande administrador, mas vive pulando de partido.

Macieira - Não temos a menor dificuldade de transitar nem na direita nem na esquerda. Todos sabem de minha origem na esquerda, mas meu compromisso é com o que faço. Tenho a possibilidade, estando no poder, de fazer coisas com que sempre imaginei. Não sei se em outro partido eu teria essa possibilidade. A gente é uma geração de trabalho, de fazer, o tempo é muito rápido. Na questão específica da cultura: pra fazer alguma coisa você tem que ter idéias, projetos e conceitos, tem que ter recursos e tem que fazer. Não adianta ter duas dessas coisas e não ter a terceira.

Luís Pimentel - Pelo seu projeto das Lonas Culturais, por exemplo, dá pra ver que você é um sujeito ideológico, mas o que o Rio pensa é que Cesar Maia é um sujeito nem um pouco comprometido com ideologias.

Macieira - Acredito que ele tenha ideologia sim. Cesar Maia é uma pessoa que te provoca permanentemente. Cada conversa, cada e-mail, cada reunião é uma provocação rica para que se pense e se faça. Por exemplo: eu queria retomar o projeto original do Affonso Reidy para o MAM, pelo qual, além do museu, seria construído um teatro. Tenho uma preocupação grande com a internacionalização do Rio, onde se agregue valor simbólico ao que já tenha, com elementos arquitetônicos como novos ícones da cidade. Fizeram o Cristo nos anos 40, o Maracanã nos anos 50, e de lá pra cá mais nada que tornasse o Rio um atrativo que fizesse alguém te ligar: "Ziraldo, tô saindo aqui de Madri porque quero ir pro Rio conhecer o Hall Sinfônico". É este hall que quero construir no MAM. Falei com o prefeito e ele topou imediatamente.

Ziraldo - É algo como a Ópera de Sydney, o Museu de Bilbao... assim você acaba chegando no assunto do Guggenheim.

Macieira - É a questão da cultura como processo de desenvolvimento da cidade. As pessoas não estão antenadas com as grandes intervenções culturais nas cidades do mundo.

Poerner - Niterói construiu o Museu de Arte Contemporânea.

Macieira - Sem sombra de dúvida, tem um grande elemento de atratividade, mas é um museu complicado, não tem reserva técnica. O Rio precisa de um grande museu internacional. A gente tá num namoro com o Centro Georges Pompidou. Você senta com esses caras pra falar e eles babam com essa cidade!

Ziraldo - Por que vocês não pegam a Estação da Leopoldina e transformam num centro cultural?

Macieira - Aquilo é maravilhoso, é uma Gare d'Orsay! Temos um projeto pronto para isso mas nisso o aporte tem que ser privado. Falta captação pra viabilizar. Temos uma grande preocupação com o patrimônio histórico da cidade. Entramos incisivamente nessa área com as APACs: Leblon, Jardim Botânico, Botafogo, Laranjeiras e Ipanema. Imaginem a pressão do mercado imobiliário sobre nós, mas o prefeito não arredou pé. Dizem que estamos congelando a cidade. Não, estamos com uma visão diferente, contemporânea, garantindo qualidade de vida. O Rio já foi sede da Colônia, capital do Império, capital da República, tem um chão com muita história, gente. Qualquer lugar onde se pise é solo sagrado. Então agora toda obra que for feita tem que ter um arqueólogo acompanhando. Fizeram uma obra em Santa Cruz e encontraram uma ponte da época dos jesuítas! E essa questão de patrimônio é maior do que o histórico: tombamos a Banda de Ipanema, pô! Qual o significado da Banda de Ipanema pro Rio de Janeiro?

Ziraldo - Quantos artistas plásticos brasileiros têm preço internacional pra valer? Uns quatro. Sabe quantos da Colômbia? Quarenta! Por quê? Não se faz um prédio na Colômbia sem que o habite-se inclua uma obra de arte no hall.

Macieira - Já temos um decreto nesse sentido a ser aprovado pela Câmara de Vereadores. Um por cento do pago para o habite-se tem que ser destinado à aquisição de obras de artes. Fui defender isso na Abemi (Associação Brasileira de Arquitetos Industriais) e todos os construtores adoraram!

Poerner - Você acabou não completando a idéia de se construir um teatro no MAM.

Macieira - Fiquei oito meses me reunindo com a direção do MAM. O tempo foi passando e vi que assim não dava. Fui ao prefeito: "Tenho uma idéia. Tô pensando em chamar um dos maiores arquitetos do mundo pra fazer no Rio um dos maiores halls sinfônicos da atualidade". A frase dele, sabe qual foi? "Macieira, vá em frente." Saí dali e liguei pro Portzamparc, que fez o projeto Cité de la Musique em Paris, o Hall Sinfônico em Edimburgo, outro na Alemanha. Tô no meu gabinete e me liga o Paulo Amorim, do Tom Brasil, dizendo que tinha visto uma matéria minha na Folha e gostado desse perfil de internacionalização da cidade. "O senhor tem um lugar pra gente fazer um Tom Brasil no Rio?" Me deu um estalo e me lembrei na mesma hora do teatro do Reidy. "Tenho um lugar que não tem igual no mundo." O MAM tem uma coleção maravilhosa, é um dos ícones arquitetônicos dessa cidade, mas tá com 70 visitantes por mês. Falei com João Maurício Pinho: "Vocês cedem o espaço do Reidy prum grupo que tem um projeto de casa de espetáculos de música brasileira?" Toparam. O projeto arquitetônico tá pronto e a obra começa agora em junho. No lugar mais lindo dessa cidade, de cara pra Baía da Guanabara! Vocês estão perguntando sobre meus compromissos ideológicos, mas meu compromisso é fazer uma cultura com a dimensão do Rio! O Rio não tem parque industrial mas a criatividade está aqui e não vai ser tirada daqui nunca! Que se debatam os paulistas, os baianos que me perdoem, mas é aqui no Rio que estão os criadores.

Pimentel - Nesses casos o poder público cede os espaços ou dá mais alguma coisa?

Macieira - Viabilizamos o espaço.

Pimentel - Se for um sucesso absoluto, o poder público recebe algo de volta?

Macieira - Quem ganha com isso é a cidade. Quando eu sair da Secretaria, quero ir ouvir a boa música no Tom Brasil. Além disto, o pessoal do Tom Brasil vai ceder 200m2 para uma exposição permanente de João Gilberto.

Pimentel - Qual o papel do Estado na cultura de uma cidade como o Rio?

Macieira - Existe a política cultural pública, que não é excludente da iniciativa privada, elas são complementares, mas seu foco é diferente. Há uma linha tênue hoje no mundo entre cultura do ponto de vista estético e artístico e o que é vendido como produto da produção cultural para o mercado de entretenimento e lazer. Cabe a nós, gestores públicos de cultura, atuar na base, com os que têm talento mas não têm oportunidade. O Sérgio Porto o principal espaço hoje da renovação da música e das artes plásticas. O Centro Coreográfico é o maior da América Latina, com 5.000 m2 dedicados à dança.

Zezé - Mas você é muito criticado pelos atores e recebeu um pau dos críticos de teatro.

Macieira - Gosto muito da crítica, principalmente por parte da imprensa, porque faz com que a gente corrija rumos. Neste caso que você citou, algumas críticas têm fundamento, outras não. Se você me perguntar se gosto desse modelo de indicar diretores para teatros respondo que não. Agora, é uma circunstância já colocada. Não é o modelo ideal. Mantivemos o processo ao mesmo tempo em que buscamos aperfeiçoá-lo, buscando novos nomes e os comprometendo com a produção. Por exemplo: briguei pela volta da música na Sala Baden Powell, que foi projetada pra essa atividade. A pauta lá tá fechada até março de 2006. Criamos o Fundo de Apoio ao Teatro, investindo 25 milhões na manutenção da maior rede de teatros da América Latina. Eu trabalho com resultados, Zezé, até porque o dinheiro é público, e resultado pra mim é público. O espaço público tem que ser permanentemente utilizado.

Zezé - Quais são os critérios para que se montem peças nos teatros municipais?

Macieira - Nós queremos democratizar isso e a melhor maneira é trazer a classe pra dentro do processo, dizendo: "Vocês que fazem teatro é que vão se selecionar". É aquela coisa de fechar a porta e apagar a luz: quem sair vivo entrega a lista. Selecionamos 56 peças no ano passado e este ano já temos 25. A transparência, a democratização e a participação desses segmentos são fundamentais. E essa base tem que ser ampliada, para que as pessoas digam: "Tudo bem, não fui escolhido, mas eu participei". Muitos me procuram: "Secretário, minha peça tem melhor qualidade, mas não fui selecionado". Por isto é que a comissão apresenta suas justificativas por escrito.

Pimentel - Você disse que o critério de resultados para os teatros é darem público. E as peças mais ousadas, que também precisam ter seu espaço?

Macieira - Quando o prefeito fala em "teatro de resultados", esses resultados podem ser uma grande produção estética e cultural mas que acabe não tendo público; ou pode ser uma peça que, na avaliação dos críticos, não tenha uma base conceitual mas tenha gente saindo pelo ladrão. Qual é o modelo de uma política teatral ideal pro Rio? Ter repertório de qualidade, ter uma seleção pautada pela transparência e ter público. Todo último fim de semana de cada mês, os teatros da rede municipal e as Lonas Culturais têm ingressos a R$ 1. Outro fator para o acesso irrestrito do público aos teatros é a proximidade do equipamento urbano às suas casas. Em 2004 focamos estrategicamente em caminhar em direção à Zona Norte e Oeste. Tô falando com Paulo Rocco: "Vamos colocar quiosques de livros em todas as praças da Zona Norte e da Zona Oeste".

Poerner - Tenho ouvido que a Secretaria não tem abastecido como deveria as bibliotecas públicas, que são o único acesso à leitura de milhões de pessoas.

Macieira - Concordo, mas já começamos a adquirir livros pras nossas 27 bibliotecas. Inauguramos recentemente a Biblioteca Jorge Amado, uma das maiores do município, dentro da favela da Maré. Sou um leitor inveterado, chego a ler sete livros ao mesmo tempo. Até abril de 2002 eu tinha uma média de 331 mil pessoas freqüentando nossas bibliotecas por mês. Recebi um e-mail de uma senhora: "Secretário, tenho uma dificuldade enorme de levar minhas filhas às bibliotecas durante a semana. Elas estudam, eu trabalho. Será que não dá pra abrir as bibliotecas no sábado e no domingo?". Chamei Antonio Olinto, levantamos os custos, mas cultura pra mim não tem custo, tudo é investimento. Sabe qual foi a visitação em 2004, depois que as bibliotecas abriram nos fins de semana? Mais de 1 milhão de visitantes por mês.

Poerner - Existe uma sede grande pela leitura, mas o preço do livro afasta as pessoas. Não que o livro no Brasil seja caro, o salário é que é baixo.

Macieira - Não, o livro é caro sim. No ano de 2004, o Governo Federal colocou um reajuste de 12% sobre os impostos e as taxas a serem cobrados na produção de livros. E aí, o que fizemos? Temos pequenas editoras no Rio com a melhor qualidade, mas elas têm enorme dificuldade de sobrevivência. Criamos então a Primavera do Livro voltada para as pequenas editoras, que não participam da Bienal, que têm que se articular em conjunto pra ter estandes. Na primeira Primavera do Livro, no Jockey, em 2001, tivemos 54 editoras. Fundaram a partir daí a Libre, uma associação de pequenas editoras que está com 109 associados inclusive de outros países da América Latina. Os livreiros então começaram a reclamar que a gente estava colocando os livros na Primavera dos Livros a um preço muito baixo. "Livreiro, de que maneira podemos te ajudar?" Fizemos o Livros da Calçada.

Maria Lucia Dahl - A Secretaria das Culturas tem planos para a televisão, como os de fazer programas sobre o Rio de Janeiro? A TV Globo só mostra a cidade pelo ponto de vista do novelão.

Macieira - Estamos tratando o audiovisual como um todo. No ano de 2003 aportamos 20 milhões pra produção nessa área. O que a gente buscava com isso? Resolver o problema do cinema brasileiro? Não, queremos provocar a produção. Perguntam muito: "Por que não se tem um canal de televisão aberta dedicado à produção de cinema feita pra televisão?" Mas não sei por que isso não acontece, estamos superabertos. Estamos brigando pela utilização dos canais reservados pelas TVs a cabo para a municipalidade desde a sua implantação. Temos a MultiRio, que produz conteúdo audiovisual pedagógico para a rede do município. São 1.056 escolas e 750 mil crianças. Temos documentado tudo que foi feito na Secretaria das Culturas, dos festivais de Música nas Igreja ao Panorama RioArte de Dança. Sou proprietário de 256 títulos do cinema brasileiro, sendo que nos últimos dois anos sete das dez principais produções cinematográficas brasileiras tiveram aporte pela Riofilmes. Então temos material para este canal. Outra coisa que nos preocupa é a queda assustadora de público em cinema nos anos de 2003 e 2004: menos 34%!

Ziraldo - Esse Macieira seu é de Portugal?

Macieira - Meu avô veio de Portugal para o Maranhão. Tinha um entreposto em Codó: trazia da Europa maçãs e azeite de oliva e levava arroz. Minha mãe é da família do Marechal Cândido Rondon, de fazendeiros do interior do Mato Grosso. Sou trineto do Rondon. E Marli Sarney é prima-irmã do meu pai. Passando férias no Rio, minha mãe conheceu meu pai e foram viver em Codó. Mas nasci em Tupaceretã, no Pantanal, porque minha mãe ia fazer os partos junto da família. Meu pai depois veio morar no Rio, teve empresa de ônibus e rede de farmácia, mas minhas origens são portuguesas, nordestinas e indígenas.

Poerner - De onde vem seu interesse pela cultura?

Macieira - Meu pai era um homem rígido, mas era muito ligado na música e nos livros. Tinha tudo de Nat King Cole e Dave Brubeck! Independente de ser bem nascido, era preocupado em transmitir valores morais e princípios de socialização. Buscava ajudar as pessoas em seu entorno. Tudo isso esteve presente na nossa educação, e mais, na nossa vida. Cresci incomodado com aquele coronelismo do Maranhão. Em Botafogo eu brincava na rua com as crianças do Santa Marta. Na faculdade de arquitetura, fundei o diretório do PSB. Ao mesmo tempo, a casa de nossa família, em Petrópolis, era freqüentada por Lotta Macedo Soares, Sandra Cavalcanti, Affonso Reidy e Carlos Lacerda, pessoas inteligentes que sempre conversavam sobre a cidade. Fiquei fascinado pelo Rio.

Ziraldo - Meu filho, o que falta você dizer aqui?

Macieira - Quero enfatizar que a cultura é um instrumento de transformação social. A gente tem uma preocupação enorme com o acesso do público à cultura. Não é filantropia cultural. Nossa lei de incentivos deveria começar a financiar ingressos. Isso viabilizaria o retorno financeiro pra quem produz e permitiria às pessoas irem aos espetáculos. Veja bem, se você possibilita uma programação cultural numa biblioteca prum chefe de família, com sua esposa e mais três filhos, isso é valor agregado à sua renda. É qualidade de vida. A oferta cultural pode ser um fator preponderante na decisão de morar em algum lugar. Temos que atuar em Santa Cruz, Bangu, Campo Grande, Realengo, Anchieta, Méier, Tijuca, Ipanema, Centro, Botafogo, cobrindo geograficamente a cidade com produção de qualidade. A primeira contrapartida da OSB - que hoje é financiada pela Prefeitura do Rio - é gerir para nós a Cidade da Música. Quando aportamos recursos no Festival de Cinema do Rio dizemos que queremos o festival nas Lonas Culturais. Na Lona de Vista Alegre 4.600 pessoas assistiram a uma sessão de cinema!

Ziraldo - Quero falar uma coisa antes de terminar. Adoro Artur da Távola, agora, esse negócio de Secretaria das Culturas é de uma babaquice! Que tolice inventar essa moda!

Macieira - É uma das coisas que mais me perguntam. A geração do Artur da Távola, com seus intelectuais, adora esse tipo de fundamentação antropológica: não existe uma cultura, existem várias culturas, logo, a Secretaria deve ser das Culturas. Já Lina Bo Bardi dizia que tudo é cultura. Mas fica o nome como um carinho do secretário Ricardo Macieira para com Artur da Távola.

Posted by João Domingues at 1:16 PM