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Como atiçar a brasa

 


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outubro 28, 2004

MASP PEDE SOCORRO!

masp.jpg

MASP PEDE SOCORRO!
triste desmantelamento da arte

eteceteras@yahoo.com.br

Sexta-feira, 29 de outubro de 2004, início 15h30

Ato protesto no vão livre do MASP

Propomos um ato de protesto, de intervenção e manifestação contra esta forma autoritária e monárquica de gerir um patrimônio que é público.

Já é tempo de toda classe artística e intelectual exporem abertamente seu modo de ver, seus objetivos, suas tendências, opondo à lenda da máfia cultural.

Convocamos a todos que participem e se posicionem, que assumam suas responsabilidades diante desta grave situação.

Não concordamos com esta gestão e nos opomos a ela. Acreditamos que o problema não se traduz na falta de dinheiro e sim na falta de seriedade e comprometimento com que esta gestão tem administrado este patrimônio nacional.

Pedimos a destituição e a decapitação desta máfia déspota e leiga!!!!!!!

O rei está nu!!!!!!


O DIA DA ELEIÇÃO DE UMA CHAPA SÓ

QUEM CALA CONSENTE


Carta denúncia

Na sexta-feira, dia 29 de outubro, haverá eleição para a escolha da nova diretoria e presidência do MASP. Ao que tudo indica JULIO NEVES, atual presidente do Museu será NOVAMENTE reeleito, ou alguém de sua chapa, já que não existe chapa em oposição.

O Museu de Arte de São Paulo, assim como outras instituições, tal como a Bienal de São Paulo, presidida por Manuel PIres da Costa - diretor do MASP Centro - são dirigidas por déspotas.

DÉSPOTA: "Tirano, opressor, pessoa de tendências dominadoras, aquele que dirige um rebanho de gado miúdo arbitrariamente."

Recentemente denunciamos uma série de irregularidades no Masp, sobre as quais a mídia deu relativa importância ao assunto. O dado estarrecedor é a boa educação e silêncio da classe artística e dos intelectuais. Sabemos que se fala muito sobre o assunto, mas é necessário que se fale muito mais e mais alto !!!

Muitos de nós somos empregados por essas instituições e devemos nos perguntar em que medida fazemos parte de tudo isso. Qual é o nosso poder de intervenção? É necessário dizer que não consentimos. É tempo de compor uma outra história, de atitudes, sem timidez, sem pudor, em voz alta! E imprescindível questionar os modelos institucionais, discutir políticas culturais.

Propomos um debate público, aberto à participação de toda sociedade civil, a classe artística, os intelectuais, o poder público, os produtores culturais e os representantes das instituições culturais. Que seja no vão livre do MASP para que a todos tomem parte na discussão. Sem medo, sem pudor, discutamos! Vamos marcar a data. Debate de rua, desinstitucionalizado.


Balanço dos 10 anos de Presidência Julio Neves no Masp

O prédio

O projeto desenvolvido pelo arquiteto Julio Neves e seu escritório (ETJN - Escritório Técnico Julio Neves) nesses 10 anos em que estão frente à Diretoria do MASP foi a tão comentada revitalização do prédio. Todo o projeto foi aprovado pela Lei Rouanet, o que possibilita o proponente a adquirir recursos das empresas com descontos do imposto de renda, portanto, dinheiro público. Aproximadamente 20 milhões!!! Não houve prestação de contas de R$ 806.672,77, o que impede que a lei seja utilizada para financiar outros projetos do museu.

O prédio tem vários problemas, a grande reforma de Júlio Neves é polêmica e está inacabada.

Bons tempos os de Lina Bo Bardi que certamente não consentiria as intervenções de Júlio Neves em sua obra que é símbolo de liberdade, que evoca a brutalidade dos materiais, dos pisos de pedra mineira (que não existem mais), do concreto, dos vidros, dos cavaletes transparentes das escadas abertas, da transparência.

Lina do vão livre da obra pública, aberta, para todos. Não dos bailes aristocratas-burgueses, da Gala de Julio Neves -

Lina Bo disse certa vez:
"Quis fazer um edifício púbico que tivesse um sentido coletivo para a cidade e não se isolasse, fechado em si mesmo, quis fazer uma coisa nova na direção do povo por isso procurei dar-lhe monumentalidade, pois tudo que se destina a cumprir missão popular deve obedecer a esse critério, que não se pode confundir com pompa nem suntuosidade, mas é um ambiente aberto e agasalhador, um centro de comunhão de alegrias, anseios e esperanças."

LINA BO BARDI E SUA OBRA DEVEM SER PROTEGIDAS.

Política cultural

Julio Neves nunca definiu uma política cultural, não foi sua prioridade. O Masp realiza exposições próprias muito raramente com a ajuda de um curador-colaborador, normalmente recebe exposições cedendo o espaço, ou alugando, em alguns momentos para propostas externas.o MASP não possui um calendário de exposições.

O museu não tem política curatorial. Nos perguntamos então como funciona um museu acéfalo?

Sem a presença de um curador, quem decide o perfil e os conceitos das exposições temporárias, das políticas de aquisições das obras, das pesquisas no acervo é a Diretoria.

E quem conhece a diretoria? Quais são os pensamentos, os embasamentos teóricos, a filosofia da diretoria? Onde estão e o que fazem os sócios do museu? Eles freqüentam o MASP? Conhecem seu acervo e têm consciência de sua importância? Sabemos que a Diretoria e o presidente não trabalham no MASP, têm seus escritórios próprios. Eles aparecem de vez em quando no museu. O MASP é tratado como um prolongamento do escritório de seu presidente (uma das maiores autoridades do museu é a contadora da empresa do presidente);

CONVIDAMOS OS SÓCIOS DO MASP A VISITAR O MASP, A CONHECER SEU FUNCIONAMENTO, SEUS FUNCIONÁRIOS E SUA ROTINA !!

O Acervo

Diante de tudo isso como fica o acervo do MASP, patrimônio cultural, bem público?

As esculturas de Degas e Renoir, a tela de Poussin estão numa situação lastimável - alguém tem visto essas peças? E as cópias que Boucher fez de Veronese?

O acervo do MASP pertence a quem? Ao Brasil ou a diretoria do MASP?

Como são cuidadas e conservadas as obras do acervo do museu - você sabe?

O que dizer a respeito da obra do acervo penhorada? Como se penhora uma obra ou mesmo se cogita o penhor de uma obra que é patrimônio? Como se escolhe uma obra para ser penhorada em um acervo tão rico como o do MASP?

Que museu é esse que tem uma sala vip? Quem é vip? Ticiano, Velázquez e Goya não têm recebido esse tratamento, certamente

O que o Estado faz a respeito? É um bom momento para respostas. A sociedade civil quer saber o que o Estado tem feito a respeito.

Os funcionários

A dívida com o INSS é exorbitante (por volta de 3 milhões).

O INSS é convidado a verificar o compromisso que o museu deveria assumir com seus funcionários e prestadores de serviço, cujos salários recebem mensalmente descontos de 11% e não está sendo repassado.

Em que condições os funcionários do museu trabalham? Como eles são tratados? Quais os vínculos empregatícios que eles têm?

Convites

Convidamos o Ministério do Trabalho a visitar o museu; o IPHAN a cuidar de sua responsabilidade; os bombeiros a verificarem o prédio, treinarem os funcionários que não tem treinamento há anos e a procurar as escadas que estão sempre fechadas; a CIPA a verificar as condições dos trabalhadores e convidamos o Ministério Público a fazer uma intervenção.

Sem maquiagem, sem fantasia, sem intermediários, cara a cara com os técnicos, com os funcionários, com as obras, com as víceras desse museu, olho no olho.

Da eleição

Não existe chapa que faça oposição à de Julio Neves. Isso significa que ela compete com ela mesma. A sociedade civil tem o dever e o direito de propor uma chapa que faça oposição, assim como os funcionários do MASP.

Acreditamos que a eleição deveria ser assistida - quem vota? O presidente tem o apoio dos funcionários? Da classe artística? Dos intelectuais? Da sociedade civil?


EIS OS SÓCIOS QUE VOTARÃO

Adib Domingos Jatene
Aldo Antônio R. Raia
Antônio Carlos de Lima Noronha
Antonio S Gaudeano
Banco Bradesco representado por Jefferson Ricardo Romon
Beatriz Mendes Gonçalvez Pimenta Camargo
Bunge fertilizantes S.A
Carlos Roberto de Abreu Sodré
Cesário Galli Neto
Cotonifício Guilherme Giorgi representado por Guilherme Azevedo Soares Giorgi
Eduardo M. M. de Albuquerque
Emílio Odebrecht
Esther De Figueiredo Ferraz
Giorgio Della Seta
João Brasil Vita
João da Cruz Vicente de Azevedo
João Uchoa Borges
José Roberto Pimentel de Mello
Jovelino Carvalho Mineiro
Julieta Paranhos do Rio Branco
Julio José Franco Neves
Laudo Natel
Luiz de Camargo Aranha Neto
Luiz Pereira Barreto
Luiz Roberto Ortiz Nascimento
Lygia Fagundes Telles
Manuel Octávio P. Pereira Lopes
Marinella Monteiro de Barros
Moacyr Moreira Lima
Octávio Frias de Oliveira
Oswaldo Muller da Silva
Paulo Franco Neves
Paulo José da Costa Junior
Pedro Franco Piva
Plínio Antônio Lion Salles Souto
Rhodia Brasil Ltda. Representada por Paulo Donizete Martinez
Roberto Franco Neves
Rodolfo O Konder
Sabine Lovatelli
Salomão Schvartzmann
Securit S A representada por Maria Cristina Magnelli
Sergio Pinho Melão
Therezinha Maluf
Violeta Jafet
Walter Fontoura


Há quanto tempo você não vai ao MASP?

O mundo das instituições culturais vê-se repentinamente reduzido a um estado de barbárie momentânea.

Propomos a destituição da máfia déspota, leiga que tem como único lema o capital, vamos decapitar o rei !!!


Sociedade civil
Poder Público
Intelectuais
Artistas
Quem cala consente

Nosso e-mail é eteceteras@yahoo.com.br toda a ajuda será muito bem vinda!

Posted by João Domingues at 5:32 PM | Comentários (2)

outubro 22, 2004

O Guggenheim não afunda...

Emeio enviado por José Miranda sobre trecho da coluna semanal de Arthur Xexéo publicada originalmente no Segundo Caderno do Jornal O Globo, no dia 20 de outubro de 2004 e reproduzida logo abaixo. Como ilustração, segue também o texto O lugar dos museus na agenda política, de José do Nascimento Júnior e Mário Chagas, publicado originalmente no Jornal do Brasil, no dia 15 de setembro de 2004.

O Guggenheim não afunda...

Palmas, palmas Senhor Xexéo!

Enfim os ruídos da coluna do Ancelmo Góis refletiram com mais força no dia de hoje; já passou da hora de discutirmos com mais atenção essa sandice cesarista sobre construções apoteóticas de US$ 150 milhões. Muito engraçado como a questão desapareceu na época das eleições e agora retorna dessa forma canhestra. De tão infeliz a imagem, já consigo ver nosso prefeito em 2006 na televisão olhando ao redor da construção colossal e celebrando serem todos contra ele e desmembrando o sorrisinho com a cabeça virada para o lado esquerdo na gravação, prometendo filiais Guggenheim Brasil afora. Se não fosse tão sério, caberia a anedota, mas definitivamente não é essa condução política que precisamos no Rio de Janeiro, especialmente passadas apenas duas semanas da reeleição do Mr. Maia. Nossas instituições continuam às mínguas e nenhuma liderança política consegue refletir com maturidade sobre um projeto de política cultural para a cidade.

Andamos pessimamente,

Abraços não-guggenheineanos,

Miranda


O Brasil de gabinete e o Brasil do 'Fantástico'

Arthur Xexéo

(...) sinceramente, carecia do prefeito César Maia fazer renascer das cinzas a idéia de um museu Guggenheim no Rio? Enquanto o prefeito bate o pé pela idéia, a revitalização do porto carioca continua parada. Será que não há possibilidade de haver revitalização sem o Guggenheim? O prefeito já explicou que é necessária uma obra-âncora, mas será que não pode ser um centro de convenções, um hotel, um parque de diversões, um outro museu? No Brasil, parece que a única revitalização de porto que deu certo foi a de Belém. E foi sem a ajuda de um Guggenheim-Belém (...)


O lugar dos museus na agenda política

José do Nascimento Júnior e Mário Chagas

Observa-se na contemporaneidade um interesse crescente de antropólogos, sociólogos, filósofos, historiadores, educadores e museólogos pelo denominado campo museal. Na esteira desse interesse os museus passaram a ser percebidos como práticas sociais que se desenvolvem no presente, como centros envolvidos com a criação, comunicação, produção de conhecimentos e preservação de bens e manifestações culturais. Por isso, o interesse político nesse território simbólico também está em expansão.

Não há dúvida de que os museus conquistaram notável centralidade no panorama político e cultural do mundo contemporâneo. Também não há dúvida de que eles deixaram de ser compreendidos, por setores da política e da intelectualidade brasileira, apenas como casas onde se guardam relíquias de um certo passado ou, na melhor das hipóteses, como lugares de interesse secundário do ponto de vista sociocultural.

É possível supor que os museus estão conquistando um novo lugar na vida brasileira. Uma das evidências encontra-se na reformulação das agendas de política cultural de alguns candidatos a prefeito de metrópoles. Nesse sentido, o caso da cidade do Rio de Janeiro é paradigmático.

Os debates entre os candidatos a prefeito do Rio contemplam com destaque, por exemplo, a polêmica em torno do Museu Guggenheim, que mobilizou forças culturais convergentes e divergentes. Recentemente, convidados pelo jornalista Ruy Castro a pensar sobre o Rio do Futuro (JB, 03/09), os candidatos Cesar Maia (PFL), Jandira Feghali (PCdoB), Jorge Bittar (PT), Luiz Paulo Conde (PMDB), Marcelo Crivella (PL) e Nilo Batista (PDT) foram chamados ao debate sobre o lugar dos instituições museológicas federais no contexto político-cultural da cidade.

O enfrentamento desse debate, no entanto, precisa passar pelo reconhecimento de que desde o lançamento da Política Nacional de Museus (PNM), em maio de 2003, os museus federais do Rio - entre os quais destacam-se o Museu Histórico Nacional, o Museu da República, o Museu Nacional de Belas Artes, os Museus Castro Maya e o Museu Villa Lobos - estão recebendo do Ministério da Cultura (MinC) expressivos recursos visando a sua melhor qualificação institucional, a democratização do acesso aos acervos, desenvolvimento de ações educativas, melhor atendimento ao público e realização de projetos de alcance nacional.

A PNM e a conseqüente criação do Sistema Brasileiro de Museus - cujo objetivo é promover a articulação entre museus federais, estaduais, municipais e particulares - constituem um fato novo e estão contribuindo para a redefinição do lugar dos museus na agenda política. Esse fato novo impõe alguns desafios para o exercício da imaginação política e cultural dos candidatos a prefeito do Rio. Não basta apresentar respostas mais ou menos criativas para os museus federais situados por determinação histórica na antiga capital da República; não é suficiente a produção discursiva a favor da municipalização de museus federais. É preciso ir mais longe.

É preciso reconhecer que os museus nacionais do MinC, situados no Rio, estão retomando o seu lugar de instituições de destaque e, por isso mesmo, são considerados dispositivos estratégicos da política cultural em movimento. É preciso reconhecer também que as parcerias entre a prefeitura e essas instituições fazem parte da nova agenda política.

No que se refere ao mundo dos museus, o maior desafio da cidade não é a municipalização de instituições federais, mas a construção de uma política municipal de museus, como já ocorre em São Paulo. O desafio é responder às perguntas: o que fazer com os museus municipais? Como democratizar as suas gestões e ações? Como criar e colocar em movimento uma rede municipal de museus? Como valorizar e proteger o patrimônio cultural de interesse para a cidade, sem cair no melancólico ''tombamento'' da banda do bairro ''A'' ou do bairro ''B''?

Há tempos o Rio merece um Museu de Cidade comprometido com a cidade contemporânea, interessado em dialogar com a cidade que se faz e se refaz no presente. Em março de 2005, a ''mui heróica'' cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estará completando 440 anos. Em vez de discutir a municipalização dos museus federais, será que não era hora de a nova prefeitura pensar um excelente projeto de Museu de Cidade e redefinir de vez o lugar dos museus na agenda política? Fica a sugestão.

*O antropólogo José do Nascimento Junior é diretor de Museus e Centros Culturais do Iphan. O museólogo Mario Chagas é professor da Escola de Museologia da Unirio

Posted by João Domingues at 4:38 PM | Comentários (1)

outubro 17, 2004

Gil vai criar câmaras setoriais

Emeio enviado por Patricia Canetti ao jornal O Globo sobre as matérias reproduzidas abaixo.

Mudanças e novos diálogos a vista

Caros Editores,

Pelo que li nas matérias de hoje do Segundo Caderno sobre a mobilização da MPB no Rio e sobre a criação das Câmaras Setoriais para Música, Artes Cênicas, Artes Visuais e Livro, que serão anunciadas por Gil no próximo dia 25 na Funarte de São Paulo, percebo que a estruturação do MinC ainda está em processo e responde às insatisfações de várias categorias artísticas.

Gostaria de pedir a vocês que aprofundassem o tema.

Qual será o papel dessas Câmaras Setoriais?

Como elas se inserem na reforma do MinC que eliminou as Secretarias temáticas anteriores e como será o seu relacionamento com a Funarte?

Para finalizar, gostaria de parabenizá-los por essas matérias e também dizer que a cobertura da imprensa sobre as mobilizações e movimentações das Políticas Culturais é fundamental para o setor.

Obrigada,
Patricia Canetti
Artista multimídia, que não sabe exatamente aonde está inserida nas categorias do MinC...


Matéria publicada originalmente no Segundo Caderno do jornal O Globo no dia 17 de outubro de 2004.

Enquanto parte da classe musical se encontrava na casa de Francis Hime, uma guerra surda continuava a ser travada nos bastidores da política cultural brasileira, precipitada pela iniciativa dos músicos. Uma batalha, dentro do próprio Ministério, para saber como a Funarte, que engloba a Secretaria de Música, entraria no novo contexto. Outra, do Ministério com setores culturais como o das artes cênicas, insatisfeito com o tratamento dado pelo governo à área.

A reunião da comissão da música com o ministro Gilberto Gil, até quarta-feira prevista para acontecer no dia 19, no Rio, fora cancelada e na quinta ainda se aguardava uma nova data. Na tarde de sexta, a matemática do resultado das batalhas finalmente saiu: Gil preferiu se encontrar com os quatro setores da atividade cultural (à exceção do cinema) no dia 25 de outubro, na sede paulista da Funarte. Na ocasião, o ministro anunciará a criação de quatro câmaras setoriais: a da Música, a das Artes Cênicas (subdividida em teatro, dança e circo), das Artes Visuais e do Livro.

— Não teria sentido o ministério privilegiar apenas um setor — diz o assessor especial do Ministério, Sérgio Sá Leitão. — Por isso, vamos criar câmaras para os setores que ainda não têm uma política ampla formulada, ao contrário de cinema e da área de Patrimônios e Museus, já mais avançados.

A tentativa do governo é conciliar: agradar à música por usar como modelo para todos os setores o projeto discutido na casa de Francis Hime; à Funarte, que coordenará o projeto (Ana de Holanda seria, por exemplo, a presidente da Câmara Setorial da Música); aos outros setores, como o teatro, que terão sua política.

O pessoal da música vai na reunião do dia 25. Mas exige o encontro particular com Gil.

— Estamos aguardando a definição de uma data para o encontro de Gil com a classe musical, de acordo com o que foi previamente acertado com o Ministério, e dependendo apenas da sua agenda — mantém sua posição Francis Hime.

Posted by Patricia Canetti at 1:47 PM

Política para abrir acesso aos ‘gozos da alma’

Matéria de Hugo Sukmanpublicada originalmente no Segundo Caderno do jornal O Globo no dia 17 de outubro de 2004.

Opessoal todo já chegando e os parceiros Francis Hime e Geraldinho Carneiro cantam, apressados e aos sussurros, o samba que acabaram de compor. "Gozos da alma, estou partindo agora/Chegou a hora de partir, mas não/Te deixo só, porque não pode ser/ Porque deixei todo o meu ser contigo", dizem os primeiros versos de Geraldinho para o samba de feitio clássico como tantos que Francis já compôs.

O samba é o que importa. Mas não agora. Os "gozos da alma" — verso, " joys of soul ", roubado do poeta inglês seiscentista John Donne — têm que dar um tempo, nesta chuvosa noite de quinta-feira, aos deveres da sociedade. É que Francis recebe em sua casa, no alto do Jardim Botânico, 60 compositores, cantores, músicos, produtores, gente da música em geral para, numa primeira reunião espalhada pela classe por e-mails e telefonemas urgentes, falar das reivindicações que o setor vai apresentar ao Ministério da Cultura.

Reivindicação básica: políticas públicas para a música brasileira, para ampliar sua produção, democratizar o acesso a ela, apoiar sua exportação, atualizá-la em relação às novas tecnologias e, sobretudo, reinseri-la na sociedade através da educação. Ambição: a criação de um órgão federal (câmara setorial, conselho, agência, que nome tenha) específico para a música e para coordenar isso tudo.

— Já entrei em várias roubadas em que a classe se uniu e não deu em nada. Mas, desta vez, não. Pela primeira vez vejo gente jovem, consciente, sem preconceitos, pragmática, com abordagens novas, o que me dá um sopro de esperança — diz Ivan Lins, um dos líderes do movimento, o mais emocionado da noite, falando com lágrimas nos olhos. — Sou apaixonado pela música do meu país e sofro por ela.

Ivan falava para veteranos de tantos movimentos político-musicais, como o letrista Abel Silva — "Lembre, Ivan, que em 1974, em reunião na sua casa, partimos para vitórias importantes como a criação do Ecad, que fez evoluir muito a arrecadação de direitos autorais", corrigiu Abel, dizendo que, sim, movimentos político-musicais às vezes dão certo. Mas também para muitos artistas que ainda falavam gugu-dadá quando Ivan, Abel e a música brasileira unida fundaram a Sombrás, movimento que, em plena ditadura, quebrou o status quo do direito autoral no Brasil.

Como a cantora Fernanda Abreu, representante de uma ala pop da noite, da qual faziam parte, entre outros, Roberto Frejat, Pedro Luís, Zélia Duncan, Charles Gavin (dos Titãs), todos com idéias muito pragmáticas.

— Eu tenho um selo e gostaria de lançar discos de outros artistas. Mas não posso, pois tenho que pagar impostos como se fosse uma multinacional, o que inviabiliza as produções — disse a autora de "Rio 40 graus", que também conceituou uma idéia geral para o movimento que se inicia. — Música é um grande instrumento de inclusão social.

Mexer em Lei Rouanet e educação musical estão na pauta

Representante de uma MPB sofisticada e inclassificável, cujo adjetivo "popular" parece cada vez menos apropriado, e "clássico", pesado demais, Mário Adnet tocou em outro ponto pragmático na política músical.

— A Lei Rouanet permite que as empresas descontem 100% de imposto em projetos para a música clássica, 100% para a música instrumental e apenas 30% se for música popular, o que faz com que as empresas não se interessem — diz Adnet. — Mas acontece que muito dessa chamada música popular, como as outras, está fora do mercado e precisa do incentivo.

Estranho, as reivindicações e projetos brotam de bocas de onde normalmente só deveria sair música. Como a de Maurício Maestro, compositor e boca do Boca Livre:

— A educação musical no Brasil está praticamente abandonada — denunciou Maestro, dizendo que isso não prejudica propriamente a formação dos músicos, que no Brasil brotam sabe-se lá como, mas da platéia. — É preciso que tenha gente para ouvir a música que fazemos.

As reivindicações podem ser pequenininhas, singelas como a da pianista Fernanda Cannaud, especialista em música fronteiriça entre clássico e popular (Radamés, Nazareth, etc.), e que mantém uma escola de música na região de Nova Friburgo:

— Um clarinetista lá tem que usar a mesma palheta por três meses quando um profissional usa às vezes 30 em uma hora.

Ou podem ser reivindicações grandiosas, como as que tratam dos temas que mais geraram polêmicas entre os colegas: a necessidade de se impedir a prática do jabá (dinheiro pago pelas gravadoras às rádios para tocar determinadas músicas); renovar ou não o recolhimento de direito autoral no Brasil, acompanhado de uma investigação do Ecad, o órgão que os recolhe e distribui sob influência das poderosas sociedade arrecadadoras; criar ou não novas entidades representativas para o setor, já que sindicatos e a Ordem dos Músicos estariam obsoletos, etc.

— É uma barra pesada mexer nisso, é um avião difícil de levantar vôo — comentou as dificuldades que o setor terá daqui para frente o maestro Jaime Alem, arranjador de Maria Bethânia.

Tal avião pesado vem sendo pilotado com empolgação desmedida ante a correria da vida por um pequeno grupo de músicos e compositores que se apaixonou pelo tema. Ivan Lins, Francis Hime, as letristas Cristina Saraiva e Ana Terra, o músico Dalmo C. Mota, que representa o sindicato.

— O que a gente quer é uma política pública para o setor e ampliar a estrutura governamental para a música, que hoje é totalmente incompatível com o seu peso — diz Cristina Saraiva, letrista-revelação da MPB, dois discos lançados e já gravada até por Chico Buarque. — Eu era professora de história e uma vez falando em sala de aula sobre a obra do Chico nenhum dos 30 alunos conhecia alguma coisa dele. Desde então comecei a notar que havia algum problema com a difusão de música popular no Brasil.

As discussões internas, entre os próprios artistas, ainda vão pegar fogo. Mais ainda quando chegar no âmbito de um Ministério da Cultura, politicamente dividido entre membros originários do PT, como o presidente da Funarte, Antonio Grassi, e a secretária de música da entidade, Ana de Holanda — aparentemente contrários ao movimento e a favor de uma concentração do setor musical na Funarte — e a ala do Partido Verde (PV), da qual fazem parte tanto Gilberto Gil quanto seu secretário executivo, Juca Ferreira, que incentivou a realização da reunião de quinta-feira.

— Música é igual à esquerda: sempre dividida — definiu o experiente Ivan Lins durante a reunião.

Ivan insistia, contudo, que a música deve se apresentar unida contra, principalmente, as verdadeiras máfias que dominam o negócio musical no Brasil.

— O novo órgão vai fazer com que a gente não discuta mais em gabinetes. É claro que há bandidagem na atividade. Mas ela tem que ser exposta. Vai ser bandidagem a céu aberto — diz.

Apesar da crise por que passa a música, reconhecida por todos os lados da questão, os gozos da alma não são contidos. Mesmo enquanto boa parte da inteligência musical brasileira discutia o futuro político da atividade, conversas musicais também aconteciam. Abel Silva e Roberto Menescal, que acabaram de escrever 17 novas canções em parceria, encontraram na varanda de Francis a intérprete ideal para interpretá-las, a jovem cantora mineira Paula Santoro.

Ivan Lins e Ana Terra, que viraram parceiros agora pelo convívio na comissão, ultimavam as duas canções que estão fazendo. Charles Gavin falava das férias forçadas dos Titãs depois de um acidente que Paulo Miklos sofreu quando cuidava do cachorro ("Ele já está bem", tranqüilizava).

E chegou a notícia de que o samba de Francis e Geraldinho Carneiro será gravado por Leila Pinheiro. Samba e disco se chamarão "Gozos da alma". É o que importa.

Posted by Patricia Canetti at 1:45 PM

outubro 13, 2004

Santa Catarina - Cultura e vontade política

Emeio enviado por Davi Denardi sobre a matéria Cultura e vontade política, de Fábio Brüggemann, publicada originalmente no Diário Catarinense, no dia 9 de outubro de 2004 e reproduzida abaixo.

Bom Dia Fábio,

Continuando a discussão, acredito que apesar do descaso dos governos com a cultura e a arte em Santa Catarina, o maior problema do estado ainda está nos próprios artistas, que romantizam o fazer artístico e vêem no circuito artístico não uma maneira de colocarem à prova idéias e conceitos, mas sim uma maneira de satisfazerem seus egos com o suposto "glamour" da figura do artista. Na realidade conheço pouquíssimos artistas que não acreditam serem "grandes", e que produzem sem esperar necessariamente uma menção na mídia ou de seus pares.

Na realidade o problema está na própria Cultura do povo catarinense, na maneira como a população e os próprios artistas vêem a arte, e em consequência como o governo, que tem como único objetivo "agradar" essa população vê a arte. Os artistas catarinenses de modo geral não procuram o aperfeiçoamento, raramente participam de palestras, debates, encontros, mostras, espetáculos e esperam que o público faça isso. Não existe arte sem movimento artístico, bem disse Dennis Radunz em um Café Literário em Tubarão, e não existe movimento artístico concreto em Santa Catarina, e se existe, ou é muito restrito à capital ou muito ligado à mentalidade equivocada do "grande artista".

O governo pode ter uma parcela significante de culpa no mapa cultural do Estado, mas a verdadeira culpa ainda é dos artistas.

Um grande abraço

Davi Denardi


Cultura e vontade política

Fábio Brüggemann

Matéria publicada no Diário Catarinense, dia 9 de outubro de 2004

Muito reveladora e precisa a opinião do artista plástico Ivens Machado concedida à Romi de Liz neste Diário, quinta-feira passada. Machado não escondeu sua frustração diante da ausência de políticas públicas do governo estadual. Já cansei de expor aqui neste espaço - e em todas as vezes em que sou convidado a falar sobre o assunto - de que é equivocada a crença dos governos (e não me refiro apenas a este) de que eles é que devem produzir cultura.

Mas esta malograda idéia não é só culpa dos governos. Afinal - repetindo a tola e politicamente incorreta frase "cada povo tem o governo que merece" - se elegemos governos sem compromisso com políticas públicas decentes, debatidas à exaustão, democráticas e inteligentes, como cobrarmos que elas existam? Não podemos esquecer, portanto, da parcela de culpa dos próprios artistas e produtores que, por causa de um único mecanismo existente de apoio público (a Lei de Incentivo à Cultura), morrem de medo de criticar o marasmo e a apatia dos governos, temendo perder a única forma existente de realizar seus projetos. Ivens pegou mais pesado (e olha que ele se declara primo remoto do governador) do que toda a classe reunida. Ele acertou em cheio ao dizer que a arte não é privilegiada e que, textualmente, "o governo está engessado em uma idéia inculta".

Mas esta falta de política pública para a cultura e esta "idéia inculta" não se devem apenas a este governo. Os anteriores pecaram pelo mesmo motivo. Além disso, sem exceção, os anteriores também praticaram "política de balcão", privilegiando projetos, artistas e produtores em detrimento de outros. Lembro quando o ex-governador Esperidião Amin, em uma conversa com produtores e artistas, disse a um conviva que, em último caso, fosse ao governo que este daria uma "ajuda".

A grande questão é que os governos não podem pensar em "ajudar" os artistas e os artistas devem parar de pensar que os governos devem ajudá-los. Os melhores espetáculos, livros, peças de teatro e companhias de dança aparecem quando os governos investem sem escolher este ou aquele projeto ou nome, mas quando acreditam que investir em cultura é, antes de tudo, movimentar dinheiro, criar empregos e formar consciência crítica. Uma das formas mais interessantes de o Estado (independente de seus governos) investir na cultura é promover editais e conceder bolsas de trabalho. Só que eles devem ser julgados por pessoas escolhidas pelos próprios produtores e artistas, nunca pelos governos.

O problema é que os governos também têm medo (como o artista quando se omite da crítica) de projetos audaciosos e contestadores. Não é à toa que os candidatos à prefeitura insistem em dizer, quando questionados sobre sua metas à cultura, que apoiarão o resgate da "cultura açoriana", "ao boi-de-mamão" ou à "cultura popular". São manifestações, apesar de necessárias e fundamentais, pouco contestadoras e despolemizadas. Já um livro, uma peça de teatro ou um filme são, talvez, as únicas formas possíveis de se dizer ao mundo que o atual projeto humano é um equívoco enorme. E o melhor, custam menos do que construir grandes teatros ou mídia para atrair turistas.

Os governos locais fazem ouvidos moucos à forma como países desenvolvidos investem em cultura. Um governo inteligente saberia detectar o quanto seria rentável promover o "Mundo Ovo" da artista Eli Heil, só para dar um exemplo. Em cidades muito menores, na Europa, artistas como Eli, trazem mais divisas do que a Praia Mole no Verão.

Porque será que uma única companhia de cinema norte-americana (e se enganam os que pensam que não há linhas de créditos especiais a elas) investe em um único filme o PIB anual de todo o Estado de Santa Catarina? Porque rasgam dinheiro? Não, porque sabem do potencial de geração de empregos, do movimento de grana, da arrecadação de impostos, sem contar a exportação dos costumes, ideologia e língua ianque. Espero que a crítica de Ivens Machado sirva para a promoção de um grande debate público e que os governos deixem seus egos em casa e tratem seus críticos como vozes a serem ouvidas, não como inimigos.

Para isso é preciso, mais do que dinheiro, apenas uma imensa, saudável e necessária vontade política.

Posted by João Domingues at 3:42 PM

Papel de Bienal é mostrar o novo - Romí de Liz entrevista Ivens Machado

Entrevista de Romí de Liz, "Papel de Bienal é mostrar o novo", publicada originalmente no Diário Catarinense, no dia 7 de outubro de 2004.

"Papel de Bienal é mostrar o novo"

Entrevista: Catarinense Ivens Machado, que representa o Brasil na mostra paulista, diz que Santa Catarina não privilegia a arte

Romí de Liz

O artista plástico catarinense Ivens Machado foi o escolhido para representar o Brasil na Bienal de Artes de São Paulo. Com 37 anos de carreira artística, desenvolvida principalmente no Rio de Janeiro, ressente-se em nunca ter apresentado suas peças em Santa Catarina - e não é por falta de vontade sua, frisa.

Nesta entrevista, o ilhéu fala sobre as críticas que os curadores da Bienal têm recebido pela seleção de poucos trabalhos de artistas conhecidos e desfia sua verve sobre as peças de outros representantes mundiais, que cercam a sua obra. Como sempre faz, Ivens deverá vir rever a família e descansar em Florianópolis, no final do ano, período em que deixa a arte um pouco de lado e mergulha no mar da Praia do Campeche.

A obra da Bienal

- É um tipo de trabalho que venho fazendo há anos. Há a incidência da madeira, que sempre usei, mas antes não era com este tipo de insistência, com esta intensidade. Essa acumulação é um trabalho novo, apesar de muitos artistas trabalharem este conceito. A escultura trabalha com a transformação, redesenha e também dialoga com o espaço em torno.

Artistas reconhecidos

- Se formos falar sobre as críticas à Bienal por não ter artistas conhecidos, é um ranço meio acadêmico. Na verdade, tem muitos artistas conhecidos, o que não tem são muitos artistas bons. Isso é uma coisa da Bienal. Se fizer um paralelo entre o meu currículo e o que os críticos e os jornalistas creditam como conhecido, eu sou muito conhecido. Sou um artista da maior importância no contexto da arte brasileira e mesmo no contexto da arte internacional, mas eu não sou o nome da onda. Veja os artistas que foram escolhidos para as salas especiais, como o Barrio, por exemplo, e a Bia Milhazes, que dentro do campo da pintura, representa na Bienal o melhor trabalho. São pessoas da maior importância, mas a imprensa é muito débil, só reconhece aquilo que já se conhece. Não se pode reduzir a arte brasileira, internacional, a 10 nomes.

As peças

- O que está sendo mostrado na Bienal é uma tragédia. Se pegar a área onde eu estou, só há trabalhos insignificantes em torno. Lúdicos, como o Fusca que parece que vai fazer um rali em cima da minha peça, depois o do dinamarquês do outro lado. Aquilo tudo é insignificante, deveria estar no parque, para brincadeira. Papel de Bienal é mostrar o novo. E exposição de históricos não é papel da Bienal, é papel de museu.

Incentivo à arte

- Santa Catarina, como cultura - embora existam artistas muito importantes - se colocou fora do mapa. É um governo que não privilegia a arte, que não trabalha em cima desta imagem. Diria que o Estado está fora do mapa. Eu, casualmente, sou catarinense, mas não tive nenhuma ajuda, nem nada. Nunca fiz exposição no Estado, nem a última montagem, que estava no Estado ao lado, pôde ser viabilizada. Imagina se o governador fosse meu antagonista, mas ele é meu primo (em terceiro grau). Na verdade, SC nunca privilegiou, infelizmente, não só artistas, como não privilegiou arte. Isso é uma coisa que sempre aconteceu. Tem um museu (Masc) com um projeto que não se realiza porque não há dinheiro.

A cultura em SC

- Este governo, especialmente, acha que, porque deu uma certa relevância à dança, já pagou o seu compromisso com a cultura. O que é uma pena. Na verdade, é um governo que não sabe dançar, porque está engessado por uma idéia inculta. Isso se deve, especialmente, às pessoas que cercam o governador. Fazendo um paralelo com o Paraná (não tenho nada a ver politicamente), mas a ênfase que ele tem dado à arte fez com que o Paraná, e Curitiba especialmente, entrasse no circuito nacional. Florianópolis não está em circuito nenhum, nem turístico, porque o governo não sabe a importância da imagem visual. É claro que, para este investimento, não só financeiro, falta também vontade política. O Luiz Henrique teria esta visão, porque já percebeu como foi significativo o trabalho que fez em Joinville. Se ampliasse isso, o Estado se integraria numa coisa nacional.

Posted by João Domingues at 12:25 PM

outubro 5, 2004

O Rio merece mais

Emeio enviado por Carlos Bernardi sobre texto "O Rio merece mais", de Sérgio Sá Leitão, publicado originalmente no Caderno B do Jornal do Brasil, no dia 4 de outubro de 2004 e reproduzida logo abaixo.

Prezados do Jornal do Brasil,

Confesso ter sentido muita aflição ao me deparar com o texto do Sr. Sérgio Sá Leitão, O Rio merece mais, em sua edição on-line do dia 4 de outubro, por ver em seu comentário um registro sóbrio, fiel e desesperador do que são as políticas de cultura em nossa cidade. E que bom perceber que o Ministério da Cultura, tão atacado pelas mídias de comunicação nas últimas semanas, mantém profissionais capazes de reorganizar os debates e a participação da sociedade civil na área cultural, o que parece ser um alívio para o carioca na atual conjuntura política.

A verdade é que passamos mais uma eleição carecendo de olhares mais maduros de nossos representantes sobre a cultura, seja em seu sentido estrutural-econômico, seja em seu sentido mais humano. Com pesar lembro que os últimos quatro anos da administração de cultura foram marcados pelo caso Guggenheim, pelo esvaziamento das instituições ou por visões enfadonhas de uma cultura off-Brodway. A tristeza maior, no entanto, é perceber que nenhum outro projeto político apresentava uma alternativa inteligente para nossa gestão cultural, tampouco compreendia o setor como estratégico para a cidade do Rio de Janeiro, seja como um diminuidor das distâncias sociais, debatedor das questões da democracia ou simples fomentador de um cidadão mais ciente de si e das carências de sua cidade.

Parabéns ao Sr. Sérgio Sá Leitão e à editoria do jornal pela coragem de manifestar o que pareceu esquecido no último domingo.

Carlos B.


Cultura / O Rio merece mais

Sérgio Sá Leitão

Cineasta e coordenador da assessoria do ministro Gilberto Gil

A cultura tem várias dimensões. Pode-se destacar a questão da produção simbólica e a da identidade. O seu papel na promoção da cidadania. O impacto na junção da chamada ''cidade partida'' e no estímulo à sensibilidade e à inteligência dos indivíduos. A importância econômica. E tudo isso ao mesmo tempo. A maior parte das pessoas que estuda, faz e difunde bens e serviços culturais sabe que as várias dimensões da cultura estão necessariamente articuladas. E compartilha a percepção de que ela é um ingrediente indispensável à vida. Não adianta, portanto, destacar este ou aquele aspecto. Deve-se celebrar a cultura. E cuidar dela, em todas as suas dimensões.

Este ingrediente indispensável, porém, esteve ausente do cardápio eleitoral do país. E o Rio não foi exceção. Salvo uma ou outra intervenção superficial, não se soube como os candidatos a prefeito realmente encaram a cultura. Em se tratando de uma eleição municipal, a ausência torna-se mais grave: é na cidade que o cidadão vive, sonha e faz cultura. No caso específico do Rio, tem-se uma agravante. Sem exagero, trata-se (ainda) da capital cultural do país. Dados de 2001 e 2002 mostram que a economia da cultura movimenta cerca de R$ 4 bilhões por ano na cidade, ou 7% do PIB. As empresas do setor geram R$ 2 bilhões em impostos municipais. E empregam 600 mil pessoas, ou seja, a cultura é uma das principais atividades econômicas e sociais dos cariocas.

As maiores gravadoras e a principal emissora de TV do país estão aqui, assim como diversos museus, editoras, produtoras e distribuidoras de cinema e vídeo, companhias de teatro e dança, escritórios de design, fundações e ONGs culturais. O orçamento municipal destina R$ 240 milhões (3% do total) para a Secretaria das Culturas, o que põe o Rio entre as cidades brasileiras que mais investem no setor.

O Rio vive intensamente a sua cultura no morro e no asfalto, no underground e no mainstream. Os indicadores são, de fato, positivos. Mas a cidade ainda não soube aproveitar plenamente o imenso potencial da cultura carioca. O Rio pode (e merece) muito mais. E não é uma questão de quanto, mas de como. A cultura tem tudo para ser o principal vetor de desenvolvimento, inclusão social e melhoria da qualidade de vida na cidade, contribuindo para a geração de renda, emprego, impostos e alegria. O investimento na cultura pode gerar um ciclo virtuoso de crescimento econômico sustentado, afastando-nos da miséria e da violência diárias.

A cultura cria mais empregos e paga melhores salários do que a média das outras atividades econômicas, além de elevar a auto-estima e a sensação de pertencimento. A cultura é, portanto, um setor estratégico que merece do poder público municipal o tratamento de prioridade. Para realizar o potencial de inclusão, cidadania e desenvolvimento da cultura carioca, o Rio precisa de uma gestão cultural contemporânea, democrática e eficiente. Felizmente temos o que a maioria das metrópoles do planeta tanto procura: talento, energia, estrutura, diversidade. Mas é preciso superar as visões parciais e corporativas da cultura; e repensar a Secretaria das Culturas, atribuindo a ela a tarefa de cuidar também do desenvolvimento das indústrias criativas. A política cultural de hoje deve ir além do fomento a fundo perdido e das ações compensatórias. No Rio, cultura é diversão e arte, identidade e economia.

Os dados sugerem que a economia da cultura no Rio está longe de realizar o seu potencial. E que a ação do poder público é o que falta para que este potencial se realize, com benefícios evidentes para a cidade e para todos os cariocas. Há plenas condições para uma gestão abrangente e moderna da cultura, à altura do talento dos nossos criadores. Vamos aproveitar o novo governo e dar um salto de qualidade?

Posted by João Domingues at 1:42 PM | Comentários (1)