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março 1, 2019
‘A Lua’, de Tarsila do Amaral, chega ao MoMA e consagra brasileira no panteão modernista por Joana Oliveira, El País Brasil
‘A Lua’, de Tarsila do Amaral, chega ao MoMA e consagra brasileira no panteão modernista
Matéria de Joana Oliveira originalmente publicada no jornal El País Brasil em 27 de fevereiro de 2019.
A obra, considerada um marco da afirmação da pintura antropofágica, foi comprada por 20 milhões de dólares. MASP inaugura mostra retrospectiva da artista em abril
Um cacto solitário, cuja figura sugere a de um ser humano, ergue-se ante uma noite de lua minguante, em uma tela de 110 por 110 centímetros. A Lua, quadro de 1928, considerado um marco da pintura antropofágica de Tarsila do Amaral, foi comprada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), por aproximadamente 20 milhões de dólares (cerca de 74 milhões de reais). A obra, que representa o rompimento definitivo da artista com a tradição da pintura, converteu-se na mais cara já vendida de um artista brasileiro —superando Vaso de flores, de Guignard, arrematado em um leilão em 2015 por 5,7 milhões de reais— e alçou sua autora ao pedestal definitivo dos pintores modernos internacionais.
A compra acontece um ano depois de que o MoMA realizou a primeira grande retrospectiva da brasileira em Nova York, reunindo 130 obras de Tarsila. Na ocasião, a tela não estava disponível para empréstimo, devido a questões familiares. Ann Temkin, curadora-chefe de pintura e escultura do MoMA, conta que os curadores da retrospectiva ficaram "deslumbrados" com A Lua e que tiveram "muita sorte em encontrá-la" agora. “Sempre fomos conscientes de que seria difícil encontrar uma boa pintura do período antropofágico ainda disponível”, afirmou Temkin na manhã desta quarta-feira, durante o anúncio da aquisição, referindo-se às telas do fim da década de 1920 que estão em coleções de museus brasileiros ou acervos privados. Depois da famosa Abaporu (1928), a principal tela desse período é Urutu (O Ovo),que pertence à coleção Gilberto Cahateaubriand, exposta no MAM do Rio.
A Lua era, no entanto, a favorita de um dos maiores admiradores de Tarsila: o poeta modernista Oswald de Andrade, que foi seu marido. "Ele adorava a tela", conta a EL PAÍS Tarsila do Amaral (conhecida como Tarsilinha), sobrinha-neta da artista. A obra é considerada a "primeira pintura da mais importante modernista da primeira geração", como destaca o MoMA em uma nota. Com ela, Tarsila construiu o casamento definitivo entre a vanguarda artística europeia e a tradição brasileira. O tom onírico d'A Lua é como um surrealismo made in Brazil, no qual destacam-se as cores fortes e o primeiro-plano é ocupado por um elemento essencialmente nacional, um mandacaru (aqui na versão de um corpo que conjuga animal e vegetal em uma só figura surrealista).
O quadro inaugurou uma fase de cromatismo explosivo e exótico na trajetória de Tarsila e abriu as portas para a segunda exposição individual da artista em Paris, em 1928, na Galerie Percier. Causou tamanha sensação que o médico Milton Guper e sua mulher, Fanny Feffer, compraram-na no final da década de 1950 diretamente das mãos de Tarsila, na casa da artista, conforme conta sua sobrinha-neta.
"A retrospectiva no MoMA foi um divisor de águas. O reconhecimento da obra de Tarsila ganhou uma nova dimensão a partir da exposição", comenta Tarsilinha. Depois da mostra, a instituição estadounidense recebeu de um colecionador brasileiro uma doação de um desenho da artista, que agora terá um papel secundário ao ser exibido ao lado d'A Lua. Essa nova aquisição só potencializará a descoberta e a valorização do legado de Tarsila do Amaral, celebrada como uma das mulheres mais pioneiras e revolucionárias da história da arte, acredita a família. "Venho recebendo muitas consultas para novas exposições internacionais e já estou em contato com alguns dos grandes museus europeus para realizar mostras", diz Tarsilinha, sem revelar os nomes das instituições.
A partir do dia 4 de abril, 120 obras da artistas conformarão a maior retrospectiva de Tarsila do Amaral em solo brasileiro, reunidas em uma exposição Tarsila Popular, que será inaugurada no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).
Com um espólio de mais de 2.200 obras, as pinturas de óleo sobre tela da artista não chegam a 240. "Por isso os preços de compra têm sido tão elevados. Há uma grande procura", explica Tarsilinha. Especula-se, por exemplo, que Abaporu, que foi adquirida em 1995 pelo Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba) por US$ 1,4 milhão em um leilão valeria hoje cerca de 100 milhões reais. Tarsila do Amaral, é, afinal de contas, uma artista rara, em todos os sentidos.
MoMA compra quadro de Tarsila do Amaral por Antonio Gonçalves Filho, Estado de S. Paulo
MoMA compra quadro de Tarsila do Amaral
Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 27 de fevereiro de 2019.
A tela 'A Lua', de 1928, mesmo ano em que a histórica 'Abaporu' foi pintada, passa a fazer parte do acervo do museu americano
O ano de 1928 é considerado por muitos estudiosos, em particular pela crítica Aracy Amaral, como o ponto alto da produção da pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973). Foi nesse ano que ela pintou a tela inaugural do movimento antropofágico, Abaporu, hoje pertencente ao acervo do Malba de Buenos Aires.
Também é de 1928 uma pintura onírica, A Lua, que sintetiza bem o dualismo dos modernistas, “presos entre a floresta e a escola”, como observou o marido e escritor Oswald de Andrade, falando da fusão do ‘background’ fazendeiro de Tarsila com seu lado cosmopolita europeu. Pois é essa pintura que o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) acaba de comprar da coleção Fanny Feffer para o seu acervo, evento importante para o mundo do colecionismo.
A venda foi intermediada pelo escritório de arte do galerista Paulo Kuczynski. O preço da obra (algo em torno de US$ 20 milhões, segundo apuração do Estado) não foi divulgado nem pelo MoMA, nem pelo marchand ou pela família proprietária da obra, que está na coleção Feffer desde o fim da década de 1950. Quem a comprou foi o médico Milton Guper, que morreu em 1998 e era marido de Fanny Feffer, filha de Leon Feffer, fundador da fábrica de papel e celulose Suzano. A Lua é uma das melhores telas de Tarsila da coleção Fanny Feffer, que acumulou históricos exemplos da pintura da modernista, entre eles telas da fase social (anos 1930 em diante), como Segunda Classe (1933), retrato de uma família pobre diante de um vagão de trem – justamente da classe a que o título faz referência.
Mas foi a produção dos anos 1920, o mais importante período de Tarsila, que o MoMA privilegiou ao organizar a primeira grande retrospectiva da pintora em Nova York, em fevereiro do ano passado, reunindo 130 obras da artista. Curadores da exposição, entre eles Luiz Pérez-Oramas, que foi também curador da Bienal de São Paulo, estiveram na cidade para escolher algumas pinturas e, segundo o galerista Paulo Kuczynski, “ficaram deslumbrados” com A Lua (110 x 110 centímetros). Por questões familiares, a tela, de formato maior que o Abaporu (85 x 73 cm), acabou excluída da mostra do MoMA.
No entanto, A Lua já foi emprestada para outras exposições aqui no Brasil, inclusive uma mostra de Tarsila organizada pela Galeria de Arte do Sesi entre setembro e novembro de 1997. É no catálogo da referida exposição, aliás, que a crítica e curadora Sonia Salzstein define a produção dos anos 1928 e 1929 como “o segundo e último gesto inaugural de Tarsila na história da arte brasileira”, quando ela, livre dos laços que ainda a prendiam à tradição, afirma sua pintura antropofágica, sua “evasão para um mundo mágico e onírico”, como observou Salzstein.
É essa evasão que a crítica Aracy Amaral classificou como a fase Pau-Brasil Metafísico/Onírico, que inclui pinturas do histórico ano de 1928, como O Lago (também vendido pelo marchand Paulo Kuvzynski), O Sono, Cidade e Sol Poente. Antes dela houve, segundo a crítica, a fase Pau-Brasil Construtivo, visível em telas como A Gare (1924), em que a influência de Léger é mais que evidente. Após viagens ao Rio e Minas e o contato com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961), o construtivismo importado foi dando lugar a linhas sinuosas e sensuais, formando paisagens interioranas de cores que antecipam em muitos anos o cromatismo pop. É o que Aracy chamou de Pau-Brasil Exótico, uma pintura que conquista os europeus e os americanos pelo contraponto da austeridade reinante acima do Equador.
Nas telas do período metafísico/onírico, Tarsila, segundo Aracy, “dá vazão a uma forma expressiva que tem mais a ver com seu universo subjetivo, de sonho, magia, despreocupada com a representação da realidade exterior”. De fato, na economia formal das paisagens de Tarsila é possível identificar um mundo mágico marcado pela transfiguração – no caso de A Lua, um cacto sugere a figura de um homem na fronteira de um território surrealista, ao qual a própria pintora se rende como manifestação de seu inconsciente, a projeção de um sonho.
Curadora do MoMa diz que museu teve sorte em encontrar tela de Tarsila do Amaral disponível
A curadora do MoMA, Ann Temkin, diz que o museu “teve muita sorte em encontrar uma tela como A Lua, não disponível para empréstimo na época da retrospectiva de Tarsila”. A pintura agora faz par com um desenho de 1930 (um estudo para a composição de Figura Solitária). “Tínhamos consciência de que seria difícil encontrar uma boa pintura do período antropofágico ainda disponível”, conclui, referindo-se às telas do fim da década de 1920 que estão em coleções de museus brasileiros ou acervos privados – depois de Abaporu, a principal tela de 1928 é Urutu (O Ovo), da coleção Gilberto Chateaubriand, que está no MAM do Rio.
Outra razão para a escolha de A Lua é que a tela integrou a segunda exposição individual de Tarsila em Paris, em 1928, na Galerie Percier, inaugurando uma fase de um cromatismo explosivo, exótico. Tarsila, segundo Aracy Amaral, não se opunha a ser considerada “exótica”. Antes, observou a crítica, ela “estimulou ou se deixou levar pela etiqueta que nos identifica no exterior a partir do momento em que o Brasil buscava afirmar sua identidade cultural”. Até mesmo A Lua, uma tela, digamos, mais discreta do ponto de vista cromático, evoca uma paisagem antropofágica, recorrendo a um cacto, que também aparece em Abaporu, para amalgamar animal e vegetal num mesmo corpo surrealista, abolindo a divisão entre o mundo natural e sobrenatural.
Aquilo que Aracy chama de “onírico” pode ser visto como uma adesão ao surrealismo – e temos poucos representantes do movimento por aqui além de Ismael Nery e Maria Martins. No limiar entre a realidade e a magia, Tarsila preferiu cruzar a fronteira. Dois anos depois de A Lua, ela experimenta a hora depois do sonho. Em dificuldades financeiras, perde seu cargo de curadora da Pinacoteca. Em 1931 viaja para a ex-União Soviética. Trouxe na bagagem a estética do realismo socialista. Nunca mais foi a mesma.
Sob Bolsonaro, revisão de patrocínios na cultura põe em xeque R$ 128 milhões, Folha de S. Paulo
Sob Bolsonaro, revisão de patrocínios na cultura põe em xeque R$ 128 milhões
Matéria de Gustavo Fioratti , Maria Luísa Barsanelli e Rafael Gregorio originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de fevereiro de 2019.
Pente-fino realizado nas estatais prevê cortes e causa atraso de pagamentos
O governo Bolsonaro está causando apreensão por conta da revisão na política de patrocínio da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, do BNDES, da Petrobras e dos Correios, estatais que juntas destinaram ao menos R$ 128 milhões à cultura no ano passado.
A gestão está sendo marcada pela previsão de cortes e por atrasos em pagamentos em contratos em vigor com produtores. A Secretaria de Comunicação do governo (Secom), por meio de seu Departamento de Mídia, também vem solicitando às gerências de cultura dessas empresas detalhamentos mais completos dos projetos selecionados em editais.
A informação foi passada por diversos funcionários das estatais e também por produtores culturais que, de alguma forma, já se sentem atingidos pela redução de marcha no incentivo e no fomento às artes.
Segundo a Secom, porém, não se trata de cortes, mas, sim, de “uma reavaliação das aplicações de recursos”.
A secretaria explica também que participam dessa revisão as diretorias das próprias estatais e também a Secretaria de Governo, comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz. Deste grupo saiu, por exemplo, a decisão de suspender o programa “Sem Censura”, que era exibido pela TV Brasil. Neste ano, a emissora também deixa de exibir desfiles de escolas de samba do Rio e de São Paulo.
A Petrobras até agora é a estatal em que a desaceleração se deu com mais força, muito embora esse anúncio ainda não seja oficial. Por nota, a empresa apenas disse que “está revisando sua política de patrocínios, em alinhamento ao novo posicionamento de marca da empresa, com foco em ciência e tecnologia e educação, principalmente infantil”.
Sob a nova gestão de Roberto Castello Branco, a petroleira reduzirá drasticamente a verba destinada aos patrocínios nas áreas de artes cênicas e do audiovisual —a direção da Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, manifestou preocupação pela falta de retorno da estatal. Sabe-se que a ideia é preservar ao menos a Orquestra Petrobras Sinfônica.
Será um corte de impacto no setor. Os contratos, alguns deles vigentes até 2021, estão sendo respeitados, diz a assessoria de imprensa da empresa. Mas não há até o momento previsão nem de renovações com proponentes das áreas citadas nem tampouco projeção de novos contratos.
Entre os atuais beneficiados, estão a Companhia de Dança Deborah Colker, o Festival Anima Mundi, o Festival de Cinema do Rio, o Grupo Galpão e o Grupo Corpo.
A Cia. Deborah Colker recebeu a confirmação da Petrobras que seu patrocínio será mantido até o fim do ano, mas as verbas das próximas temporadas ainda não foram discutidas —antes dos cortes, a estatal tinha contrato com o grupo até junho de 2020.
Em sua conta no Twitter, no início do mês, o presidente Jair Bolsonaro disse que determinou a revisão de contratos de patrocínio e que o financiamento de atividades culturais “não deve estar a cargo de uma petrolífera estatal”.
Segundo o texto do presidente, “a soma dos patrocínios dos últimos anos passa de R$ 3 bilhões”. A Petrobras não confirma esse valor. Os contratos vigentes de patrocínio na área somam cerca de R$ 450 milhões —mais de 4.000 projetos foram patrocinados desde 2003.
Não foi o primeiro equívoco de Bolsonaro. Ele também divulgou, pelo Twitter, que a Caixa teria gastado R$ 2,5 bilhões em patrocínio e publicidade em 2018, montante que classificou como “absurdo”. O orçamento para tal finalidade do banco no ano passado, porém, foi de R$ 685 milhões.
Em 2018, os patrocínios na cultura da Petrobras consumiram R$ 39 milhões, tendo lucrado R$ 25, 7 bilhões. O valor já vinha sendo reduzido ano a ano. Em 2017, a empresa destinou R$ 62,5 milhões a projetos na cultura.
A situação é ainda mais incerta na gerência que responde pelos patrocínios da Caixa Econômica Federal. Nesta semana, o banco confirmou o fim de um patrocínio que mantinha desde 2014 ao Cine Belas Artes, em São Paulo, de quase R$ 2 milhões ao ano. O corte põe em risco as atividades da sala de cinema.
Diversos outros contratos estabelecidos em 2018 estão com pagamentos atrasados por parte do banco.
Os produtores culturais afetados, a maioria deles ligada às artes visuais e ao teatro, dizem que seus contratos preveem investimento inicial próprio e reembolso posterior pelo banco, o que seria feito em três ou quatro parcelas.
Parte do dinheiro é devolvido a eles nas aberturas e nas estreias, parte é depositada no curso dos eventos, e outra parte, ao fim da temporada.
Os que foram prejudicados por parcelas em atraso se reuniram em um grupo de discussão online. São cerca de 35 endereços de emails cadastrados, em diversas capitais, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Brasília.
Eles reclamam que precisam do dinheiro das parcelas para quitar débitos com prestadores de serviço contratados para que pudessem realizar suas produções.
Em nota, a Caixa informou que os contratos de patrocínio do banco, “os novos e os que ainda são vigentes”, estão sob análise. “As questões relacionadas aos projetos culturais e seus desdobramentos estão sendo tratadas, caso a caso, diretamente com os proponentes ou patrocinados.”
O BNDES e Correios também disseram que estão em fase de revisão de suas ações de patrocínio cultural. No ano passado, o banco destinou 4,4 milhões à área, e a companhia de serviço de postagem, R$ 1,87 milhão.
Há o esboço de uma reação a este cenário. Na Câmara, artistas e produtores culturais vêm tentando criar a Frente Parlamentar da Cultura, encabeçada pelo deputado Marcelo Calero (PPS-RJ). Até agora, foram recolhidas pouco mais de cem assinaturas de congressistas —para a criação, são necessárias 171.
Presidente da Associação dos Produtores de Teatro, entidade que participa do processo, Eduardo Barata diz que a ideia é formalizar, no legislativo, um baluarte contra possíveis cortes para a cultura.
fevereiro 24, 2019
Coletivo da Indonésia fará a curadoria da Documenta de 2022, Folha de S. Paulo
Coletivo da Indonésia fará a curadoria da Documenta de 2022
Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 22 de fevereiro de 2019.
Maior mostra de arte contemporânea do mundo, em Kassel, anunciou diretrizes da 15ª edição
Maior mostra de arte contemporânea do mundo, a Documenta, que acontece a cada cinco anos em Kassel, na Alemanha, será comandada pela primeira vez por um coletivo de artistas.
O comitê responsável pelo evento anunciou hoje que a curadoria de sua 15ª edição, em 2022, será de dez artistas do núcleo do ruangrupa, um coletivo de Jacarta, na Indonésia.
Falando em nome do grupo indonésio, os artistas Farid Rakun e Ade Darmawan disseram que ambicionam criar "plataformas artísticas interdisciplinares, cooperativas e de âmbito global que tenham impacto para além dos cem dias da Documenta".
"Se a Documenta nasceu em 1955 para curar as feridas da guerra, por que não deveríamos focar nos machucados de hoje, em especial aqueles enraizados no colonialismo, no capitalismo ou nas estruturas patriarcais, e contrastá-los com modelos baseados em cooperação e parceria que atualmente capacitam pessoas a terem uma visão diferente do mundo", disseram os artistas.
Em indonésio, a palavra "ruangrupa" significa algo entre "um espaço para a arte" e "uma forma artística".
"Escolhemos o ruangrupa graças à habilidade que o grupo demonstrou de promover compromisso e participação locais e de dialogar com diversas comunidades, incluindo grupos que vão além das audiências tradicionais do meio artístico", disseram, em um comunicado, os membros do comitê responsável pela escolha da curadoria do evento, cuja próxima edição acontecerá de 18 de junho a 25 de setembro de 2022, em Kassel.
Escultor Richard Serra leva lâminas de aço gigantes a museu da Paulista por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Escultor Richard Serra leva lâminas de aço gigantes a museu da Paulista
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 21 de fevereiro de 2019.
Pátio do Instituto Moreira Salles recebe peças de 19 metros de altura que pesam 140 toneladas
O escultor Richard Serra não gosta de monumentos. Nem do “brutalismo extremo, quadrado, sem nuances” de São Paulo. Mas sua primeira obra na cidade parece negar todo esse discurso.
Na contramão da ideia de leveza e transparência da torre envidraçada do Instituto Moreira Salles, as duas lâminas de aço que ele fincou no pátio do centro cultural numa das pontas da Paulista são lápides secas, duras, impenetráveis.
E, ao menos nas dimensões, monumentais —elas têm quase 20 metros de altura e juntas pesam mais de 140 toneladas. Tanto que tiveram de esperar dois anos para serem montadas, o tempo que engenheiros levaram para estudar as correntes de vento da avenida até ter certeza que as placas não tombariam sobre gente —uma peça do americano já desabou e matou um operário— nem sobre os prédios.
Serra, um dos maiores nomes da arte contemporânea, é da geração de autores que despontou na década de 1960 e então redefiniu a ideia de escultura, a maioria deles homens que fizeram de suas obras um desafio à escala da paisagem. Deixaram marcas gigantescas no horizonte, em rios, desertos, campos e praias, a chamada land art.
Mas não são monumentos. “É equivocado falar em monumentalidade em relação ao meu trabalho”, ele afirma. “Monumentos elogiam uma pessoa, um lugar, um acontecimento. Uma escultura em grande escala não significa monumentalidade.”
No caso de Serra, são obras que não expressam mais que o impacto acachapante do próprio peso, a força da matéria pura como espetáculo.
“O peso é um valor para mim”, diz. “Não é mais convincente do que a leveza, mas tenho mais a dizer sobre o equilíbrio do peso, a concentração do peso, o posicionamento do peso, os efeitos psicológicos do peso, a rotação do peso, a desorientação do peso.”
Toneladas à parte, Serra reconhece nessa nova escultura o efeito contrário. “A verticalidade faz o trabalho parecer mais leve que sua massa”, diz. “E a experiência da escultura vista do chão é inquietante por causa da agitação que ocorre ao olhar para cima.”
Ele fala da vertigem causada pelas placas, que se tornam blocos um tanto ameaçadores quando vistos contra o céu da cidade. Do quinto andar do Instituto Moreira Salles, no entanto, são só obstáculos meio carrancudos retalhando a vista da metrópole.
Muito antes de mover carregamentos mastodônticos de metal para forjar essas peças que já encheram o Grand Palais, em Paris, o Guggenheim de Bilbao, na Espanha, e praças públicas mundo afora, Serra já tentava traduzir a ideia de movimento mesmo em suas obras um tanto estáticas.
Os nomes de suas primeiras esculturas, por exemplo, eram verbos. Rolar, cortar, arremessar, escorar foram algumas das ações que embasaram as peças dos primórdios de seu trabalho. Num filme da mesma década de 1960, ele mostra mãos tentando agarrar um pedaço de chumbo em queda livre, tornando visível o atrito entre as ideias de peso e leveza, imobilidade e movimento, que embasam toda escultura.
Mais tarde, já na fase mais espetacular de sua obra, a preocupação com o movimento se desloca das peças para o corpo do espectador, que adentra seus labirintos metálicos. “O movimento corporal pela escultura é uma premissa básica do meu trabalho”, diz.
Serra nega, no entanto, uma dimensão política desse caminhar. Mesmo já tendo criticado em cartazes os abusos políticos do governo americano na Guerra do Iraque e fazendo questão de chamar o presidente Donald Trump de “mentiroso patológico” e “ditador narcisista”, ele diz que seria exagero pensar a forma como suas obras ditam os passos do público como metáfora para um comentário político qualquer.
“Isso seria hiperbólico”, diz o homem que passou suas mais de oito décadas de vida pensando e construindo coisas muito maiores do que ela.
Richard Serra
Quando Ter., qua. e sex. a dom.: 10h às 20h. Qui.: 10h às 22h. Abre sáb. (23)
Onde IMS - av. Paulista, 2.424, tel. (11) 2842-9120
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