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janeiro 15, 2019
Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance? por Ivana Bentes, Mídia Ninja
Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance?
Texto de Ivana Bentes originalmente publicado na Mídia Ninja em 15 de janeiro de 2019.
Sejamos literais! O que é chocante nessa performance que foi censurada na Casa França Brasil não são as baratas de plástico e nem a mulher de pernas abertas. O chocante é que o governador do Rio de Janeiro, o presidente da República, seus filhos parlamentares e parte do seu eleitorado defendem o torturador que colocava baratas e ratos nas vaginas das mulheres presas pelo regime militar. E a performance nos lembra dessa ignomínia e nos faz ver o horror e a demência desses que vestem camisetas com o rosto do Coronel Ustra e o chamam de herói.
Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance? Porque ela produz na sua literalidade e “mau gosto” a crueza e o horror desses atos. Diante do horror e das palavras e atos brutais de nossos governantes só nos resta o “choque do real” na mesma moeda e com o mesmo “mau gosto” e demência.
Censurada pelo governador, a performance aconteceu na rua e foi enviada a Polícia Militar para quem sabe nos impedir de ver o óbvio e/ou “tirar as crianças da sala”.
O que não podemos ver afinal que o Coronel Ustra fazia e gabava-se e seus seguidores celebram? Se celebram porque querem esconder? Por que sabem que é vergonhoso e a performance expõe o óbvio. Aliás as mulheres também eram mantidas nuas nas sessões de tortura! Porque agora querem censurar a nudez?
Se estamos em uma “guerra cultural” é a cultura que tem o maior poder de produzir um curto circuito em “tudo que está ai”. Uma arte sim brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror!
Performance cancelada pelo Governo do RJ é realizada no meio de rua do Centro por Matheus Rodrigues, G1
Performance cancelada pelo Governo do RJ é realizada no meio de rua do Centro
Matéria de Matheus Rodrigues originalmente publicada no portal G1 em 14 de janeiro de 2019.
Ato foi reproduzido em frente à Casa França-Brasil na tarde desta segunda-feira (14). PM chegou a informar que ato não seria realizado sem autorização, mas artista se deitou no chão.
A performance Literatura Exposta, que não pode ser apresentada na Casa França-Brasil, no Centro do Rio foi realizada na tarde desta segunda-feira (14) no meio da rua. O coletivo cultural És Uma Maluca teve a obra suspensa no domingo (13) pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, sob a alegação de descumprimento de contrato.
O ato foi acompanhado desde o início por uma equipe do 5º Batalhão da Polícia Militar. Os policiais chegaram a informar aos presentes que a manifestação não seria permitida sem a apresentação de uma autorização.
No entanto, o ato foi realizado com algumas alterações: a performance que estava prevista para ser feita com uma mulher nua, foi apresentada pela artista Juliana Varner vestida.
O ato foi uma crítica à tortura durante a ditadura militar, com uma mulher interagindo com a obra “A voz do ralo é a voz de deus”. A artista se deitou no chão ao lado de um bueiro com inúmeras baratas, que subiam pelo seu corpo. Uma intervenção sonora reproduzia falas do presidente da República, Jair Bolsonaro.
As frases “As ações de vocês será tipificadas como terrorismo” e “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra” eram reproduzidas durante o ato em frente à Casa França-Brasil.
O governador Wilson Witzel disse em entrevista neste domingo (13) que o cancelamento aconteceu devido a "descumprimento de contrato" porque supostamente os organizadores não avisaram o governo que haveria uma performance envolvendo nudez no espaço.
"A Casa França-Brasil é administrada pelo estado e havia sim uma exposição autorizada pelo secretário de Cultura e nessa exposição não havia nenhuma performance humana, muito menos com nudismo. Então a questão não é a performance, não é o coletivo e não se trata de de censura. Se trata do descumprimento do contrato. O contrato foi descumprido e uma vez descumprido ele não pode ser executado no espaço público", disse Witzel.
Secretaria de Cultura do Rio manda fechar exposição na Casa França-Brasil, Folha de S. Paulo
Secretaria de Cultura do Rio manda fechar exposição na Casa França-Brasil
Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 13 de janeiro de 2019.
Performance que faz alusão à tortura durante a ditadura militar seria encenada hoje na mostra 'Literatura Exposta', no Rio
A Secretaria de Cultura estadual do Rio de Janeiro ordenou que a exposição "Literatura Exposta" fosse encerrada neste domingo (13), um dia antes do previsto. Uma performance do coletivo de artistas És Uma Maluca, com nudez feminina e referências à tortura durante a ditadura militar no Brasil, encerraria a mostra.
A mostra estava em cartaz na Casa França-Brasil, que pertence à Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, desde 4 de dezembro.
O curador Álvaro Figueiredo publicou no Facebook: "Informamos que amanhã, domingo, dia 13 do corrente mês, a Casa França-Brasil estará fechada para o público, por ordem do excelentíssimo senhor Governador Wilson Witzel, considerando que a programação para o dia referido, conforme informada a direção do equipamento público, não se encontra presente no contrato previamente assinado".
Para Figueiredo, o ocorrido foi um ato de censura do governo. "Fecharam nossa exposição um dia antes da data oficial como forma de impedir que as performances [...] acontecessem", escreveu em sua página na rede social.
Em nota à imprensa, o secretário de Cultura e Economia Criativa, Ruan Lira, afirmou que o cancelamento aconteceu porque a programação de domingo não faria parte do contrato firmado.
"A decisão foi tomada devido ao descumprimento do contrato assinado entre as partes em 3 de julho de 2018 e que prevê o cancelamento unilateral em caso de descumprimento das obrigações estabelecidas. O referido contrato não inclui em seu objeto a programação informada para o último dia do evento. Também exige que as atividades sejam autorizadas pelo Iphan, com pedido feito com 45 dias de antecedência, o que não ocorreu –impedindo, portanto, a realização do programa agendado para este domingo", diz a nota.
Segundo a assessoria de imprensa do órgão, a performance jamais foi mencionada em contrato ou em qualquer pedido, e "o que vai ocorrer dentro de um equipamento público, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), precisa estar documentado".
Na sexta-feira (11), o secretário de Cultura teve acesso à informação de que uma performance com nudez seria exibida na exposição no domingo, ainda de acordo com a assessoria de imprensa.
"Isso teria que passar por uma classificação etária, que o governo tem que respeitar quando se trata de nudez."
"Jamais seria censurado, seria corretamente apresentado ao público", diz a assessoria. "Como só chegou para ele [Ruan Lira] na sexta, não haveria tempo hábil até domingo para passar pelos órgãos competentes. Teve que ser cancelado."
Em entrevista à imprensa na tarde deste domingo (13), o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, reafirmou o que a secretaria de Cultura já havia dito à Folha —que a performance não estava prevista em contrato, "muito menos com nudismo". Ele disse não se tratar de censura.
Em entrevista ao Fantástico, o curador da mostra afirmou ter um email em que a direção da Casa França-Brasil diz não se opor à performance com nus.
"Literatura Exposta" já havia sofrido intervenção antes mesmo de ser aberta. A obra “A Voz do Ralo É a Voz de Deus”, também do coletivo És Uma Maluca, foi vetada pelo diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak.
Na proposta original do grupo, fundado em 2014 na zona norte do Rio, milhares de baratas de plástico se espalham por cima e ao redor de um bueiro instalado sobre azulejos, no piso da instituição. Do mesmo buraco também sairia a voz do agora presidente Jair Bolsonaro (PSL).
Chediak proibiu o uso dos discursos. Uma receita de bolo entrou em seu lugar.
A proposta da exposição era apresentar criações baseadas em textos de escritores considerados periféricos.
Um conto do escritor Rodrigo Santos foi a inspiração para “A Voz do Ralo É a Voz de Deus”. O texto fala sobre uma mulher torturada durante a ditadura militar. Nas sessões de tortura, baratas eram introduzidas em sua vagina.
O coletivo publicou nota nas redes sociais, afirmando que sua manifestação foi censurada. Os artistas prometem realizar a performance nesta segunda (14), às 18h, em frente à Casa França-Brasil.
