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agosto 21, 2018
TJ-RJ derruba liminar que proibia a entrada de menores de 14 anos na exposição 'Queermuseu', G1
TJ-RJ derruba liminar que proibia a entrada de menores de 14 anos na exposição 'Queermuseu'
Matéria originalmente publicada no portal G1 em 21 de agosto de 2018.
Mostra foi reaberta neste sábado (18) no Rio, após polêmica no Rio Grande do Sul e veto de Crivella à apresentação em instalações da Prefeitura.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) revogou, nesta terça-feira (21), a decisão do juiz Pedro Henrique Alves, da 1º Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio, que proibia a entrada de menores de 14 anos na exposição "Queermuseu - Cartografia da diferença na arte brasileira", em cartaz nas Cavalariças da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage desde sábado (18).
A decisão de voltar a permitir a entrada de menores de 14 anos foi tomada pelo desembargador Fernando Foch, da 3ª Câmara Cível.
O juiz Pedro Henrique havia proibido, por meio de liminar, a entrada de menores de 14 anos, ainda que acompanhados dos pais. Jovens de 14 e 15 anos podiam entrar na companhia dos responsáveis. Logo em seguida, advogados da EAV entraram com um agravo de instrumento contra a liminar, o que gerou a decisão do desembargador.
"Conseguimos, mais uma vez, derrubar a onda de censura que assola nosso país. Vou trazer meus filhos de 8 e 10 anos hoje mesmo à exposição”, comemora Fabio Szwarcwald, diretor da EAV.
A petição que gerou a proibição foi feita pelo deputado Márcio Pacheco (PSC), que também apresentou representação no Ministério Público no dia 11 de julho, pedindo que nenhum espaço público do estado do Rio de Janeiro recebesse a exposição e que também não fosse utilizada verba pública para a montagem da mostra.
"Acredito que o conteúdo da exposição não é adequado para menores de 18 anos, mas acolho a decisão da justiça. Além da questão do incentivo à pedofilia e zoofilia, claramente visível nas obras, também há peças que ofendem a fé e os símbolos religiosos", argumentou o parlamentar, em um comunicado.
A decisão da 1º Vara da Infância proíbe que menores de 14 acessem o conteúdo da exposição, além de determinar a proibição de venda de bebida alcoólica para menores de 18 anos, sob pena de multa de R$ 50 mil por dia para os organizadores.
No último dia 30, a EAV Parque Lage informou que não impediria o acesso de crianças de qualquer idade à exposição no Rio. A organização do evento iria destacar o seguinte anúncio na entrada da mostra:
"Esta exposição contém imagens que podem estar em desacordo com determinadas crenças, sensibilidades ou visões de mundo. Recomendamos aos pais ou responsáveis que tenham isso em mente, antes de decidir sobre o ingresso de seus filhos e/ou aqueles que estejam sob sua guarda."
Cancelamento no Rio Grande do Sul e veto de Crivella
Alvo de protestos no Rio Grande do Sul, onde foi cancelada, a mostra também teve sua exibição vetada no Museu de Arte do Rio, em outubro.
Na época de seu cancelamento em Porto Alegre, a mostra recebeu ataques em redes sociais de pessoas e movimentos que classificaram o conteúdo como um "incentivo à pedofilia, zoofilia e contra os bons costumes". O Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, porém, recomendou ao Santander Cultural a "imediata reabertura" da exposição, por entender que não haver crime de qualquer espécie na montagem da exposição.
Depois de ter sua exibição no Santander Cultural, em Porto Alegre, cancelada em meio a protestos e ataques em redes sociais, a exposição originalmente chegaria ao Rio no Museu de Arte do Rio, em outubro. Entretanto, as negociações para trazer a mostra também foram encerradas pelo Conselho Municipal do Museu de Arte do Rio (Conmar), após veto da Prefeitura do Rio.
O prefeito Marcelo Crivella (PRB), em entrevistas e mensagens em redes sociais, já havia se manifestado publicamente contra e disse que não permitiria a mostra.
"Aqui no Rio a gente não quer essa exposição. Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar, porque no Museu de Arte do Rio, não", disse Crivella, na época do cancelamento.
Serviço
A exposição Queermuseu pode ser visitada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no bairro Jardim Botânico, Zona Sul do Rio até o dia 16 de Setembro.
O horário de visitação será de segunda a sexta, das 12h às 20h. Aos sábados e domingos, das 10h às 17h. Entrada gratuita.
Falta queer em ‘Queermuseu’ por Daniela Name, O Globo
Falta queer em ‘Queermuseu’
Crítica de Daniela Name originalmente publicada no jornal O Globo em 19 de agosto de 2018.
Abordagem dispersa em múltiplos aspectos desvia a curadoria de seu eixo central
A abertura de “Queermuseu – Cartografias da diferença” entra para a história como o momento em que a Escola de Artes Visuais do Parque Lage e a população do Rio de Janeiro se levantaram contra a censura e a onda de intolerância que açoda o país. O financiamento coletivo para realizar o projeto, depois de sua proibição em setembro do ano passado no Santander Cultural, em Porto Alegre, afirma a liberdade de expressão e o poder transformador e questionador da arte. Não é um feito irrelevante. Também é importante pensar que a EAV e o grupo 342 Artes, líderes da campanha que viabilizou a exposição, trouxeram ao meio da arte contemporânea brasileira, combalido por anos de apatia, um senso de coletividade e projeto comum, grande legado da empreitada.
À parte isso, a arte é, acima de todas as bandeiras e causas, um campo de conhecimento atravessado por sua capacidade de transcendência. Pode partir dos prazeres e das dores do mundo, mas sua imensa força mobilizadora vem justamente da capacidade de ultrapassá-los. Uma exposição é um acontecimento que se dá em determinados tempo e espaço. A coragem da EAV ao abrigar “Queermuseu” nos oferece a oportunidade de avaliarmos este projeto artístico para além de sua superexposição midiática. Há 24 anos, quando em 1984 o Parque Lage sediou uma coletiva histórica – “Como vai você, Geração 80?”, que plasmou as contradições da Anistia brasileira –, a crítica de arte foi engolfada pelos holofotes da polêmica e se absteve de realizar o seu trabalho. Não é saudável que isso ocorra novamente.
A primeira sensação para quem entra no Parque Lage é a de que “Queermuseu” chega ao Rio dividida em dois universos distintos: as Cavalariças, que sediam a exposição original assinada por Gaudêncio Fidélis; e o palácio principal da escola, onde acontecem as ações concebidas pelo curador da EAV, Ulisses Carrilho. Durante a abertura, ficaram bastante claras as diferenças de conceito e capacidade de mobilização entre estes dois segmentos quase contraditórios, que, no entanto, convivem sob o mesmo título.
Nas Cavalariças, a exposição, com 214 obras e 82 artistas, é bastante prejudicada por três problemas. O primeiro, e menos grave, é espacial: apesar de reformadas e adequadas à museologia, as Cavalariças não comportam tamanha quantidade de trabalhos. A sensação visual é a de um abarrotado gabinete de curiosidades, sem que haja espaço para o visitante ser envolvido diretamente por cada obra. Há peças posicionadas muito acima do campo de visão e paredes cheias a ponto de causar um curto-circuito perceptivo.
A descompensação espacial fica clara na montagem de “Cena de interior II” (1994), de Adriana Varejão, pintura magistral que foi o alvo preferido dos fundamentalistas de internet. Por tudo que significa para a história recente da arte brasileira e por todos os ataques sofridos, a obra merecia frontalidade e destaque. Mas fica apertada no canto final de uma parede do primeiro módulo da exposição, sem trabalhos ao redor estabelecendo com ela uma interlocução potente. Ainda no campo da montagem, mas extrapolando para uma questão conceitual, as vestes de “Eu e tu” (1967), trabalho importantíssimo de Lygia Clark, são apresentadas em manequins, revelando uma incompreensão por parte da curadoria de que este trabalho não é formado por objetos, e sim por experiências. “Eu e tu” só se configura como obra quando vestido/usado pelo público, e o adequado seria oferecer as roupas em mesas ou cabides. Diante de uma impossibilidade, abrir mão da obra é sempre melhor do que atacá-la com uma montagem que a contradiz.
O segundo problema de “Queermuseu” é ainda parecer uma exposição diretamente ligada à história da arte em Porto Alegre, com os outros trabalhos orbitando em torno deste eixo principal. Isso apesar de, em meio à polêmica, ser anunciada como “a primeira exposição no Brasil pensada fora do eixo heteronormativo” pelo curador Gaudêncio Fidélis. Seria possível preservar toda a lista de nomes no projeto original para o Santander Cultural, mas aproveitar o tempo de reflexão entre setembro e agora para rever o número de trabalhos de cada um. Há exageros, por exemplo, na presença dos gaúchos Fernando Baril e Telmo Lanes. Baril, autor do Cristo/Shiva que causou furor na web, é um virtuose técnico que traz temas supostamente polêmicos para a atmosfera de um surrealismo tardio. Já Lanes, que fez parte do importante grupo Nervo Óptico nos anos 1970, comparece à exposição com trabalhos recentes que não fazem jus à sua relevância para a história da arte gaúcha.
O excesso de uns aponta para a ausência de outros: fazem falta, no conjunto da exposição, artistas que abordaram diretamente corpo e/ou gênero e/ou sexualidade, caso de Márcia X, Victor Arruda, Alex Vallauri e Letícia Parente. Hélio Oiticica, sobretudo o das obras sobre sua relação com o contraventor Cara de Cavalo, também poderia ter sido considerado. Mas a maior ausência é a de artistas trans e de trabalhos que apresentem os estados de fluidez e metamorfose de gênero de forma direta e visceral. A mostra ganharia muito se fosse apresentada a partir de pessoas que vivenciam o queer em seus corpos e suas biografias.
Mesmo no que diz respeito a ótimos artistas na seleção, a escolha das obras acaba por ter menos força do que poderia. É o caso, por exemplo, de Efrain Almeida e Rodolpho Parigi, dois criadores que, por motivos distintos, estão afinados com o debate sobre o “queer”. Parigi é autor do personagem artístico Fancy Violence, espelho para a fluidez sexual e as travessias de gênero que marcam nosso tempo. Na exposição, em vez da presença corporal e performática deste alterego do artista, opta-se por pintura. Já Efrain, um grande sintetizador da arte contemporânea com os saberes populares brasileiros, aparece na exposição com a escultura “Mulato”. É um trabalho contundente, que tangencia a importante questão racial do país, mas passa ao largo do problema central que a mostra deveria apresentar.
E é aí que se chega à terceira e maior falha da exposição nas Cavalariças. Falta “queer” ao “Queermuseu”, e entregar uma exposição que espelhasse o tema prometido no conjunto de obras e na presença plural de criadores era o mínimo que se esperava do curador. As ausências soam tão incongruentes quanto algumas presenças. A despeito da enorme qualidade das obras, o que estão fazendo na exposição o vídeo “Ilhas”, de Maurício Ianês e a dupla de desenhos “Galáxias”, de Montez Magno? Na leitura dos textos escritos para o catálogo do Santander, Fidélis aborda um escopo de questões que vai do conceito de informe ao passado colonial brasileiro. E é esta abordagem dispersa em tão múltiplos aspectos que desvia a curadoria de seu eixo central, tornando-o vazio.
Há uma indução do público a uma leitura superficial e gestáltica de alguns trabalhos. É o caso do “Retrato de Rodolfo Jozetti” (1928), de Portinari, e “Amnésia” (2015), de Flavio Cerqueira. A pintura de Portinari, que retrata um importante médico integralista gaúcho como um dândi, é levada a um encaixe no campo “queer”, como se o gesto dos corpos tivesse um glossário, um gabarito. Já a escultura de Cerqueira, exposto no momento também na exposição “Histórias afro-atlânticas”, no Masp, apresenta um menino de feições negras, vertendo um balde de tinta branca sobre a própria cabeça. Na mostra paulista, o que se destaca no trabalho é sua relação com o passado colonial; no Parque Lage, a tinta branca pode virar sêmen no diálogo com as obras vizinhas, atando o público a uma primeira camada de interpretação, aquela restrita às questões formais.
A ausência de uma pujança “queer” nas Cavalariças é parcialmente compensada pelo projeto educativo de Ulisses Carrilho. Foi na área do educativo que o Coletivo Seus Putos realizou, durante a abertura, a ação “Trouxamuseu (Ou Museu dos Trouxa)”, divulgando depois um texto nas redes sociais. Ele pergunta: “A exposição conta com artistas de renome como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Alfredo Volpi, e até Guignard. Aí você pensa que Queer é esse, não é mesmo?”. É uma angústia procedente. Mas o texto vai além, mostrando como as pesquisas acadêmicas têm se apropriado do universo queer e transformado em fetiche a complexidade de uma população que é alvo de preconceitos e violência no Brasil. “Pensar o Queermuseu é entender também como um curador pensa e define seus termos. Gaudêncio Fidelis define travesti como ‘um homem que se veste como mulher, que se sente mulher’. Talvez isso concretize algumas das críticas a esse espaço supostamente dissidente: como as pessoas trans são taxonomizadas, quem as classifica e como aparecem dentro do discurso queer”.
Sábado, na inauguração, a falta de criadores e criadoras trans e o esvaziamento temático da mostra principal teve como contraste as ações no palácio: um conjunto de boas performances e um Sarau Queer trouxeram pulsação, libido e frescor ao dia no Parque Lage. Talvez seja este outro “Queermuseu”, aquele organizado por Carrilho para o educativo da EAV, aquele capaz de abarcar a complexidade que se deseja em um projeto como este. A mediação da mostra foi entregue ao universo LGBTQI+, e é formada por gays, lésbicas, não binários e pessoas que fizeram a transição de gênero. Eles recebem o público exibindo em seus corpos indisciplina do desejo e a indeterminação da existência – aquilo que nos faz humanos. A indisciplina é, aliás, o mote do projeto educativo, o que soa bastante adequado para um lugar que é, acima de tudo, uma escola.
Ainda no segmento educativo, uma boa exposição documental tem a companhia de quatro trabalhos de Matheusa, artista não binária assassinada recentemente no subúrbio do Rio apenas por ser quem era. Uma presença-ausência dolorida e mobilizadora. Também serão importantíssimos os debates que a EAV vai realizar enquanto “Queermuseu” estiver em cartaz. Eles poderão aquecer a discussão que a mostra nas Cavalariças perdeu a oportunidade de realizar profundamente.
Cotação: Regular
* Daniela Name é crítica de arte
