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julho 12, 2018
Diretora indicada desiste de assumir Parque Lage, e Secretaria recua de exoneração, O Globo
Diretora indicada desiste de assumir Parque Lage, e Secretaria recua de exoneração
Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 12 de julho de 2018.
Após repercussão na classe artística, Fabio Szwarcwald segue no cargo
RIO — Após o anúncio da exoneração de Fabio Szwarcwald da direção do Parque Lage, nesta quarta-feira, a diretora indicada pela Secretaria de Cultura, Dinah Guimaraens, anunciou nesta quinta a sua desistência em assumir a função na instituição.
Segundo nota enviada pela Secretaria, a desistência se deu pela impossibilidade de a arquiteta e antropóloga conciliar a direção do Parque Lage com sua condição de funcionária da Universidade Federal Fluminense.
Nesta quinta, o Movimento #342Artes enviou a Leandro Monteiro uma carta manifestando preocupação com o afastamento de Szwarcwald, como noticiou o colunista do GLOBO Ancelmo Gois. A carta lembrava que Szwarcwald foi o responsável, ao lado da empresária Paula Lavigne e de um grupo representativo de artistas, críticos, curadores e pesquisadores, pela campanha de financiamento coletivo que assegurou a realização da exposição “Queermuseu” no Rio, e solicitava o cancelamento da exoneração.
Diante do impasse e da repercussão do caso entre a classe artística, o secretário de Cultura, Leandro Monteiro, anunciou, por meio de nota, a permanência de Szwarcwald à frente da Escola de Artes Visuais.
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ENTENDA O CASO
Há um ano e quatro meses à frente da EAV do Parque Lage, Fabio Szwarcwald foi informado nesta quarta por sua secretária que sua exoneração havia sido publicada no Diário Oficial. Segundo o secretário de Cultura, Leandro Monteiro, a decisão se deu por "motivos administrativos". Szwarcwald disse ter sido pego de surpresa, sem ter sido procurado anteriormente por Monteiro ou pelo deputado estadual André Lazaroni (MDB), antigo secretário de Cultura, que o indicou para a direção do Parque Lage.
— Não tenho ideia do motivo, uma vez que a Secretaria acompanhava de perto o trabalho e apoiava a gestão do Parque Lage e a realização da exposição ("Queermuseu"). Saí do mercado financeiro para ganhar um décimo do que ganhava por entender que poderia dar uma contribuição à cidade. Fiz muito além do que me foi pedido. Em um ano e quatro meses conseguimos transformar o Parque Lage em uma referência em gestão, sem precisar recorrer apenas à dotação econômica do Estado, em um momento de crise nas finanças — afirmou Szwarcwald ao GLOBO nesta quarta-feira.
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A pouco mais de um mês da abertura da "Queermuseu" na EAV, a mudança na direção da instituição lançou dúvidas sobre a realização da exposição, que tem abertura prevista para 18 de agosto. Cancelada no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS), em setembro do ano passado, e proibida pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, de ser remontada no Museu de Arte do Rio (MAR), a mostra foi viabilizada na EAV por meio de uma campanha recorde de financiamento coletivo, que arrecadou R$ 1,08 milhão, com doações realizadas por 1.677 colaboradores, vendas de obras doadas por 70 artistas e ingressos para show de Caetano Veloso.
— Já estamos com o calendário de coleta das obras fechado, temos toda uma agenda com os convidados que participarão do ciclo de palestras, não dá para mudar nada na logística a esta altura. Seria uma volta à estaca zero. Se o catálogo não for para a gráfica na próxima segunda-feira, ele não ficará pronto a tempo da abertura — destacou nesta quarta Gaundêncio Fidélis, curador da 'Queermuseu'.
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Contudo, tanto o secretário Leandro Monteiro quanto o deputado André Lazaroni garantiram a realização da mostra no prazo estipulado.
— A exposição foi planejada na época em que eu era secretário. Sofri pressão, sim, de políticos evangélicos. Mas nunca foi cogitado cancelá-la, assim como está fora de cogitação cancelá-la agora — afirmou na quarta Lazaroni.
A mudança na direção da EAV repercutiu na classe artística, e muitos nomes que colaboraram com o leilão beneficente para a "Queermuseu" manifestaram sua surpresa diante da decisão.
— Foi uma enorme surpresa esta substituição súbita, fico muito desconfiado. Não posso avaliar o trabalho da Dinah, que nem conheço, assim como suas propostas. Mas a EAV é um patrimônio cultural da sociedade carioca, e precisamos pensar como gerir um lugar tão importante. Acho que, para não dependermos de governos que mudam de quatro em quatro anos, o diretor da escola deveria ser escolhido por um conselho formado por artistas. Se não, ficamos à mercê de um secretário que nem o aval da classe artística tem — comentou o artista plástico Ernesto Neto.
Na carta encaminhada pelo Movimento #342Artes a Leandro Monteiro, artistas ressaltavam "alarme" e "indisposição" com a substituição do cargo, "tão estratégico para cultura e educação, sem qualquer debate prévio, aberto e transparente, com os diversos segmentos e agentes das artes e das culturas". No documento, também manifestavam preocupação com o destino da "Queermuseu".
"O valor arrecadado para 'Queermuseu' só poderá ser, de fato e de direito, destinado ao projeto global esmiuçado no processo de captação, com a Associação de Amigos da EAV responsável não apenas pela execução orçamentária, como também pela prestação de contas transparente e pública, realizada no fim do processo. O dinheiro, que foi doado por várias frentes da iniciativa privada, tinha este destino nominado e específico", ressalta um trechos da carta.
Com a desistência de Dinah Guimaraens em assumir a função, o secretário decidiu voltar atrás e reconduzir Szwarcwald à direção da EAV nesta quinta-feira.
LEIA ABAIXO A NOTA DA SEC NA ÍNTEGRA
"Após inúmeras manifestações favoráveis vindas principalmente da classe artística, e da recusa momentânea da Sra Dinah Guimaraens, o secretário de cultura do Estado Leandro Monteiro optou por reconsiderar o ato de exoneração do Sr. Fabio do cargo de diretor do Parque Lage.
'Infelizmente não poderei aceitar a indicação por parte da secretaria de cultura para o cargo por ser funcionária pública federal com dedicação exclusiva à universidade federal fluminense. Agradeço tal indicação e espero colaborar com a secretaria em outros projetos culturais futuros' — Dinah Guimaraens
'Fiquei honrado com as manifestações favoráveis e agradeço a reconsideração do secretário Leandro Monteiro, que vem fazendo uma bela gestão. Agora é tocar o 'Queermuseu' que está confirmado para o mês que vem e olhar para frente. Só tenho a agradecer' — Fabio Szwarcwlad."
Fabio Szwarcwald é exonerado da Escola de Artes Visuais do Parque Lage por Paula Autran e Nelson Gobbi, O Globo
Fabio Szwarcwald é exonerado da Escola de Artes Visuais do Parque Lage
Matéria de Paula Autran e Nelson Gobbi originalmente publicada no jornal O Globo em 11 de julho de 2018.
Em seu lugar, assume a arquiteta Dinah Guimaraens. A mostra 'Queermuseu' está mantida, segundo secretário estadual de Cultura
RIO — O diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Fabio Szwarcwald, foi exonerado do cargo nesta quarta-feira. Colecionador de arte contemporânea e atuante no mercado financeiro, Szwarcwald foi escolhido para assumir o cargo pelo então secretário estadual de Cultura, André Lazaroni, em março de 2017.
Em seu lugar, de acordo com o Diário Oficial do Estado do Rio, assume Dinah Guimaraens, que é arquiteta e urbanista. Técnica em museus desde 1983, Dinah é ex-vice-diretora do Museu Nacional de Belas Artes do Rio e foi arquiteta e antropóloga do Instituto Nacional do Folclore — Museu Edison Carneiro.
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Segundo o secretário de Cultura, Leandro Monteiro, a exoneração foi por “motivos administrativos”. Ele garante que a exposição “Queermuseu”, marcada para 18 de agosto, está mantida. Após ser censurada em Porto Alegre, a mostra foi vetada no Museu de Arte do Rio (MAR) pelo prefeito Marcelo Crivella, no ano passado, e acabou custeada por uma campanha de financiamento coletivo recorde para acontecer no Parque Lage. Com arrecadação de R$ 1,08 milhão, a campanha teve também doações realizadas por 1.677 colaboradores, vendas de obras doadas por 70 artistas e ingressos para show de Caetano Veloso.
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— A gente lutou muito para trazer a “Queer”. Isso começou quando eu ainda era subsecretário do Lazaroni. Foi ele quem me pediu para ligar para o Fábio e começar esta movimentação para trazê-la — diz Monteiro.
— A exposição foi planejada na época em que eu era secretário. Sofri pressão, sim, de políticos evangélicos. Mas nunca foi cogitado cancelá-la, assim como está fora de cogitação cancelá-la agora — acrescenta o deputado André Lazaroni (MDB).
Ainda que o secretário de Cultura garanta a montagem da “Queermuseu” no prazo, tanto o ex-diretor da EAV quanto Gaudêncio Fidélis, curador da exposição, têm dúvidas sobre a sua realização neste contexto. Fidélis, que afirma não ter sido procurado por ninguém da Secretaria, teme que a etapa final da produção seja prejudicada com a mudança.
— A exposição já passou por muitas coisas neste caminho, mas eu realmente não imaginava que uma mudança desta grandiosidade pudesse acontecer a quase um mês do seu início — destaca o curador. — Já estamos com o calendário de coleta das obras fechado, temos toda uma agenda com os convidados que participarão do ciclo de palestras, não dá para mudar nada na logística a esta altura. Seria uma volta à estaca zero. Se o catálogo não for para a gráfica na próxima segunda-feira, ele não ficará pronto a tempo da abertura.
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Para Fidélis, caso a mudança inviabilize a montagem, será um novo episódio de censura à “Queermuseu”:
— Há várias maneiras de se fazer censura, pode ser explícita como o Santander Cultural fez em Porto Alegre ou como a proibição do Crivella para a montagem da mostra no MAR. Me recuso a acreditar que a Secretaria de Cultura pudesse fazer algo para inviabilizar a exposição, até porque há uma responsabilidade não só com o dinheiro do contribuinte quanto de quem participou da campanha. Mas caso algo aconteça, com o histórico da mostra, certamente seria um novo episódio de censura.
DINAH GUIMARAENS NÃO RETORNOU PEDIDO DE ENTREVISTA
Graduada pela Universidade Santa Úrsula, com mestrado em Antropologia Social e em História Antiga e Medieval, além de doutorado e pós-doutorado em Antropologia, Dinah publicou, com Lauro Cavalcanti, "Arquitetura Kitsch Suburbana e Rural" (1979, 2006) e "Arquitetura de Motéis Cariocas: Espaço e Organização Social" (1980, 2007). Também organizou os livros "Estética Transcultural na Universidade Latino-Americana" (2016) e "Museu de Artes e Origens: Mapa das Culturas Vivas Guaranis" (2003).
Procurada pela reportagem, ela não retornou os pedidos de entrevista. (colaborou Berenice Seara, do "Extra")
'Foi uma surpresa total', diz Fabio Szwarcwald, exonerado da EAV do Parque Lage por Nelson Gobbi, O Globo
'Foi uma surpresa total', diz Fabio Szwarcwald, exonerado da EAV do Parque Lage
Matéria de Nelson Gobbi originalmente publicada no jornal O Globo em 11 de julho de 2018
Ex-diretor da escola disse que soube da demissão por uma de suas funcionárias
RIO — A exoneração da direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage pegou Fabio Szwarcwald de surpresa. Ele soube da demissão por sua secretária, que leu a decisão publicada no Diário Oficial do Estado do Rio desta quarta-feira.
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Arquiteta Dinah Guimaraes assume direção da EAV no lugar de Szwarcwald
— Não recebi nenhuma comunicação do Leandro ou do Lazaroni, foi uma surpresa total, ainda mais a quase um mês da abertura da exposição ("Queermuseu", cancelada em Porto Alegre e custeada, no Rio, após campanha de financiamento coletivo) — comenta Szwarcwald. — Não tenho ideia do motivo, uma vez que a Secretaria acompanhava de perto o trabalho e apoiava a gestão do Parque Lage e a realização da exposição. Saí do mercado financeiro para ganhar um décimo do que ganhava por entender que poderia dar uma contribuição à cidade. Fiz muito além do que me foi pedido. Em um ano e quatro meses conseguimos transformar o Parque Lage em uma referência em gestão, sem precisar recorrer apenas à dotação econômica do Estado, em um momento de crise nas finanças.
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Financiamento coletivo para a montagem de 'Queermuseu' permite também melhorias do Parque Lage
O ex-diretor da instituição garante sempre ter mantido bom trânsito com o atual e o antigo secretário, e não imagina que a decisão possa passar por algum incômodo em relação à projeção que a realização da exposição no Parque Lage possa ter lhe trazido:
— Sendo franco, minha atuação estava focada em criar um modelo de gestão para o Parque Lage. Nos últimos meses estava trabalhando dez horas por dia para resolver questões relacionadas à “Queer” e à EAV, temos uma série de outros projetos aqui dentro. E nunca deixamos de destacar o papel da Secretaria dentro deste processo. Se houve algum incômodo pela minha atuação, isso nunca me foi passado.
MANIFESTAÇÕES DE APOIO
Durante as horas em que recebeu O GLOBO no Parque Lage, nesta quarta-feira, Fabio Szwarcwald recebeu ligações e manifestações de apoio de conselheiros da instituição e de artistas. Um deles, Ernesto Neto, foi um dos que doaram obras para a realização da “Queermuseu”, em março deste ano:
— Foi uma enorme surpresa esta substituição súbita, fico muito desconfiado. Não posso avaliar o trabalho da Dinah, que nem conheço, assim como suas propostas. Mas a EAV é um patrimônio cultural da sociedade carioca, e precisamos pensar como gerir um lugar tão importante. Acho que, para não dependermos de governos que mudam de quatro em quatro anos, o diretor da escola deveria ser escolhido por um conselho formado por artistas. Se não, ficamos à mercê de um secretário que nem o aval da classe artística tem.
A reportagem solicitou entrevista com Dinah Guimaraens, mas não obteve retorno.
julho 9, 2018
Pinacoteca vai além dos muros para incluir moradores de rua por Thiago Amâncio, Folha de S. Paulo
Pinacoteca vai além dos muros para incluir moradores de rua
Matéria de Thiago Amâncio originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 8 de julho de 2018.
Museu de SP faz oficinas de arte e distribui ingressos à população do entorno
Do lado de dentro da Estação Pinacoteca, no centro de São Paulo, a exposição "Emannuel Nassar: 81-18" fazia uma retrospectiva da obra do artista plástico paraense e reunia numa tarde de junho de admiradores do pintor até excursões de estudantes mais interessados em um dia fora da escola que nas obras de arte.
Do lado de fora, moradores de rua limpavam a calçada e cuidavam das cerca de dez barracas erguidas sob a marquise do museu, que fica a 300 metros da cracolândia, local de uso e venda livre de drogas no centro da cidade, que vem sendo palco de ofensiva da PM e da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo.
Virgílio Dagoberto Rosa, 18 de seus 49 anos na rua, conta que já dormiu muito naquela calçada de onde no passado funcionava o Dops, equipamento de repressão da ditadura militar. "Eu pensava em entrar para conhecer, porque eu sou curioso, gosto de conhecer as coisas. Mas só passava na minha mente", conta ele.
Hoje, continua frequentando o local. Mas da porta para dentro. "Aí cumpri o desejo do meu coração e conheci."
Ele participa do Extramuros, uma ação educativa da Pinacoteca que realiza oficinas de produção artística com moradores de rua e os leva para dentro do museu.
O mesmo pensava Ernande José dos Santos, 54, na rua desde que deixou a prisão em 2012. "Olhava [a Pinacoteca] com outros olhos, com interesse de pedir dinheiro", diz. "E ficava reparando naquele lustre bonito", afirma, sobre uma peça na entrada do prédio principal da instituição, em frente à estação da Luz.
O Extramuros acontece há 11 anos e leva para o museu pessoas que não costumam frequentar esses espaços. Além das atividades guiadas, há também a distribuição de entradas para que a população de rua possa entrar no espaço quando quiser.
"Muitas vezes o público fica incomodado, mas visibilidade é o primeiro passo para dignidade humana, introduzir essas pessoas sistematicamente no museu dando-lhes voz", diz Mila Chiovatto, do núcleo educativo da Pinacoteca.
"Nos museus que eu já fui visitar tinha banheiro para usar, exposições e esculturas para olhar e muitas informações a respeito de muitos assuntos, e água para beber (...)", escreveu Tamara Gomes da Silva em um poema feito em uma oficina de texto em 2013.
Quem destaca o texto é Chiovatto. "Veja como eles percebem o museu. É um espaço com obras de arte, mas também com disponibilidade de água e banheiro", diz. Ela recorda-se também um debate sobre cidade feito com o público, em que um dos temas discutidos foi onde havia bons lugares para dormir.
"A proposta não é só trazê-los para ver a grande, boa e bela arte, mas também dar voz, dignidade e autoestima", diz.
É aí que entram as oficinas, coordenadas pelo artista e educador Augusto Sampaio, com moradores de rua na Casa de Oração do Povo da Rua e com idosos no lar de internação Sítio das Alamedas. De 15 a 20 pessoas frequentam as atividades semanais.
Já fizeram xilogravuras e estampas em tecidos e expuseram na Pinacoteca, em praças e no interior de SP. Neste ano, pediram que a produção fosse divulgada nas ruas que conhecem bem. Por isso, trabalham com cartazes e colagens.
Virgílio mostra à reportagem dois desses trabalhos: um representa o centro de SP. Outro, um carro, com o título "Eu Virgílio para casa".
Ele vive na rua desde que se viciou em crack após o fim de seu casamento, há 18 anos, e sonha em voltar para os filhos. Está há seis meses sem a droga. "Tô sem meus remédios, tenho que voltar a fazer o tratamento. Hoje tô com vontade de usar, sim. Mas tô me segurando", confessa.
Ernande mostra três cartazes. Um traz uma tartaruga, com o título "Devagar". Outro, uma balança, com um coração e um explosivo, representa a Justiça. O terceiro, uma máscara usada pelo assassino do filme "Pânico". Ele passou a maior parte da vida na cadeia, onde aprendeu o trabalho manual: fazia crochê com linha de blusa de lã desmanchada e agulha improvisada com escova de dente raspada. Com a costura que pretende sair da rua —vende um boné de crochê a R$ 50.
Ainda é dependente de crack, mas diz que a oficina é fundamental para que reduza o uso. "Isso aqui tem me tirado um pouco da minha drogadição. Na minha sobriedade, eu consigo fazer artesanato com as mãos. Se eu tiver bêbado ou drogado, já não faço."
A motivação é citada por diferentes artistas com quem a reportagem conversou.
"A elaboração do trabalho plástico é intrinsecamente terapêutica", diz Sampaio. "Nós não temos um objetivo terapêutico, não é um trabalho de arteterapia, de ocupação de tempo com uma tarefa artesanal, mas as consequências são as mais insuspeitadas".
"Você se dispor a pensar linguagem a partir da sua percepção, da sua história, do seu conhecimento, é algo que não tem contraindicação, só faz bem. E proporciona coisas inusitadas", conclui.
Os grafites de São Paulo inspiram a obra de Hugo Ramos, 57. Os cartazes têm tons escuros de azul e roxo, e mostram a noite e o mar. De Florianópolis e surfista, morou 25 anos na Europa, fabricando pranchas.
Está nas ruas desde que foi deportado, em 2012. Pretende fazer dinheiro com estampas de roupas após fazer uma oficina no Senai —já estudou também marcenaria.
Intitulou um trabalho como "Luar", "já aconteceu muito comigo de dormir debaixo de árvore, vendo a lua", diz, e chama outro, mais abstrato, de "Fragmentos": "São os fragmentos da minha vida, os pedaços que devem estar por aí".
