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dezembro 18, 2017
A crítica no Brasil nos últimos 10 anos por Patricia Canetti, seLecT
A crítica no Brasil nos últimos 10 anos
Texto de Patricia Canetti originalmente publicado na revista seLecT em 1 de dezembro de 2017.
Uma amostra do que saiu no blog Arte em Circulação, do site Canal Contemporâneo
O Canal Contemporâneo recebeu um convite da revista seLecT, para uma parceria na sua edição 37 sobre o estado atual da crítica: fazer uma seleção de textos de crítica contemporânea publicados no Canal nos últimos dez anos.
O convite pegou-me de surpresa duplamente, pois eu me encontrava mergulhada no blog “Arte em circulação”, pensando em um projeto editorial comemorativo para os 18 anos do Canal Contemporâneo. Há um mês eu estava me digladiando com a quantidade de textos do blog a serem analisados, com a dificuldade inerente a dados classificados ainda de modo incipiente, o terror do Big Data em nosso pequeno grande acervo.
Dos últimos dez anos, contando do primeiro texto, publicado em 2007, tínhamos 502 posts publicados até aquele momento. Portanto antes de definir critérios para a escolha dos “imperdíveis”, era necessário lidar com o problema tempo de escolha X quantidade de textos. Meus estudos atuais em estatística trouxeram a resposta: usaríamos uma amostragem sistemática, para diminuir a quantidade de textos a serem analisados e ao mesmo tempo manter uma representação estatística confiável do todo.
Com a tabela de posts extraída do banco de dados, os mesmos foram numerados de 1 a 10 sequencialmente, de 2007 a 2017, transformando-os em 10 grupos de 50 posts cada. Na sequência, um número de 1 a 10 foi sorteado, para definir os 50 textos que seriam objeto desta análise. Ou seja, a seleção de textos representativos dos últimos 10 anos se daria sobre 10% do total do período.
Sobre os critérios de nossa seleção é importante ressaltar que, ao escolhermos o blog Arte em circulação e não o Como atiçar a brasa, nós deixamos de fora as críticas dos grandes veículos de comunicação que estão republicados neste último, e delineamos um sentido mais amplo para a crítica de arte.
O Arte em circulação fala de encontros com a arte em qualquer circunstância, de um pequeno esbarrão que seja, quando este gera um atrito que produza faíscas de pensamento crítico. Os textos de Rubens Pileggi Sá, criador deste blog, imprimiram este sentido desde o seu início. (Falo mais deste começo na dissertação de mestrado Canal Contemporâneo: Memórias e Perspectivas, p. 51. – ver post no Arte em circulação de 2015.)
Em nossa seleção de quinze textos encontramos uma feliz conjunção de densidade e diversidade que representa o sentido do Arte em circulação. Desde o texto contundente e descontraído do curador Ricardo Resende de 2007, quando o Canal Contemporâneo era tratado como uma rede social por seus usuários, trazendo com isso o frescor dos textos informais, até o texto intenso e fluido da artista Lais Myrrha de 2010.
Seguimos por resenhas críticas (Juliana Monachesi sobre 80/90 Modernos, Pós-Modernos Etc. no Tomie Ohtake e Gabriela Motta sobre a Bienal Mercosul), relatos críticos (Ananda Carvalho sobre Seminário Internacional Criação & Crítica no Museu Vale), entrevistas (Luiz Camillo Osorio com o Hapax) , e textos de apresentação (Ana Maria Maia sobre Débora Bolsoni e Marília Panitz sobre Helô Sanvoy), para perceber uma preponderância nos textos curatoriais (Daniela Bousso sobre O tempo e os tempos; Felipe Scovino sobre Barrão; Frederico Morais sobre Abraham Palatnik; Moacir dos Anjos sobre Cães sem Plumas [prólogo]; Paula Alzugaray sobre Katia Maciel).
Para além da diversidade de textos, vale sublinhar o tom político encontrado nesta seleção de 3% de textos dos últimos dez anos cujo ápice são dois textos sobre a obra Inimigos, de Gil Vicente. De dois momentos diferentes: o primeiro de 2010, sobre a possível censura na 29ª Bienal de São Paulo (Daniela Labra), e o segundo de 2015, sobre o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça que adquiriu a obra para o MAMAM (Valquíria Farias). E agora, em 2017, voltamos a perceber que sentido fazem hoje estes desenhos do artista assassinando figuras políticas importantes.
Para concluir, acredito que esta seleção também representa bem a coletividade de profissionais que fazem uso do Canal Contemporâneo há quase duas décadas, para comunicarem entre si seus trabalhos e pensamentos sobre a arte contemporânea brasileira. Boa leitura!
Em ordem cronológica:
1.
26/03/2007
Fui ver e realmente não gostei, por Ricardo Resende
2.
10/07/2007
Da cultura da montagem ao imaginário do desmanche, por Juliana Monachesi
3.
07/04/2009
A criação da crítica, a crítica da criação, por Ananda Carvalho
4.
23/03/2010
Cosmococas e Objetos Relacionais: a participação na encruzilhada entre o público e o privado, por Lais Myrrha
5.
28/09/2010
Os Inimigos de Gil Vicente na Bienal de SP, por Daniela Labra
6.
19/03/2012
Conversa entre Ericson Pires e Ricardo Cutz, do grupo Hapax, e Luiz Camillo Osorio
7.
17/10/2012
Roteiro cronológico das invenções de Abraham Palatnik, por Frederico Morais
8.
08/09/2013
Cães sem Plumas [prólogo], por Moacir dos Anjos
9.
06/03/2015
O rapto, por Paula Alzugaray
10.
14/07/2015
O tempo e os tempos, por Daniela Bousso
11.
16/08/2015
O energúmeno, por Valquíria Farias
12.
10/02/2016
Notas sobre a Bienal do Mercosul, por Gabriela Motta
13.
10/05/2016
Verbo reduzido, nome suspenso, por Ana Maria Maia
14.
14/02/2017
O que não pode ser dito ou… sobre apagamentos, por Marília Panitz
15.
21/05/2017
Barrão, por Felipe Scovino
O espaço da crítica por Paula Alzugaray, seLecT
O espaço da crítica
Artigo de Paula Alzugaray originalmente publicado na revista seLecT em 1 de dezembro de 2017
seLecT reafirma a função crítica de publicações de arte e dedica sua 37ª edição ao estado atual da crítica de arte no Brasil
A revista de arte é espaço da reportagem de arte, da reflexão sobre arte e, em casos especiais, de intervenções artísticas. Periodicamente, seLecT convida artistas a intervir em suas páginas e nesta edição temos as participações de Fernanda Chieco e Bruno Moreschi. Chieco realiza a sexta edição do projeto de múltiplos colecionáveis, com a obra Trafficking for Time Trade. Moreschi criou, especialmente para a seLecT, uma versão do panfleto A História da _rte, um levantamento de dados que mostra o cenário excludente da história da arte estudada no País.
Mas é preciso reafirmar que a publicação de arte é também espaço da crítica e este é, definitivamente, o caso de seLecT, que endossa essa função dedicando a totalidade de sua 37ª edição ao estado atual da crítica de arte no Brasil.
Começamos por indicar ao leitor as revistas referenciais da arte e da crítica internacional hoje, na opinião de três leitores especialistas: o curador e crítico Tobi Maier, a gestora cultural Ada Hennel e o editor e curador Benjamin Seroussi. Seguimos por investigar os mecanismos da construção do texto crítico, consultando um grupo de profissionais, na seção Fogo Cruzado, sobre a importância, ou não, da interlocução direta com o artista para o processo da escrita.
As correspondências entre crítica e curadoria, e entre crítica e história, também são aqui iluminadas. No primeiro caso, contamos com a colaboração de Bernardo Mosqueira, que concebeu uma curadoria sobre a história e a atualidade da crítica institucional. Quando o foco é a linha de sucessão direta entre crítica e história, temos a reflexão de Michelle Sommer sobre a busca pioneira de Mário Pedrosa em inserir narrativas indígenas e afro-brasileiras na história da arte brasileira.
Contamos ainda com um texto sobre o projeto pedagógico das pesquisadoras Ana Magalhães e Ana Avelar, que criaram para a casa seLecT um corpo de cursos que propõem a montagem e a desmontagem da história da arte contemporânea brasileira, a partir de relatos críticos diversos, que dialogam entre si.
Paulo Bruscky, “o artista que escreve”, segundo a redatora-chefe Márion Strecker, que usou a Arte Correio a serviço da informação, do processo e da denúncia, também tem sua atividade crítica representada em capa e portfólio desta edição. Assim como Regina Vater, cuja obra ganha nova leitura à luz do pensamento sobre questões de gênero.
Para ampliar as redes críticas, convidamos o Canal Contemporâneo a selecionar dez críticas fundamentais da última década. A relação pode ser consultada em www.select.art.br/dezanosdecritica. E para reforçar nosso compromisso não apenas com a informação e a reflexão, mas também com a invenção, criamos a seção de Autocrítica. Enquanto Daniela Labra e Leno Veras se lançam ao desafio da autocrítica sobre as próprias curadorias, o filósofo francês Georges Didi-Huberman, que em entrevista afirma não ser capaz de escrever um texto crítico que tivesse como objeto a sua exposição Levantes, nos dá lenha para pensar o papel das publicações: “A exposição é menos que um texto. É algo que desaparecerá dentro de três meses, é uma experiência. E o texto existirá para sempre”.
