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setembro 25, 2017
Censurada em Porto Alegre, mostra 'Queermuseu' será exibida no Rio, O Globo
Censurada em Porto Alegre, mostra 'Queermuseu' será exibida no Rio
Matéria originalmente publicada no jornal O globo em 23 de setembro de 2017.
Exposição foi cancelada pelo Santander Cultura após protestos
RIO — Conforme informou o colunista Ancelmo Gois, a mostra "Queermuseu", censurada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, será exibida no Rio de Janeiro. O local será o Museu de Arte do Rio (MAR). Ainda não há informações sobre a data da exposição.
O MAR falará sobre o assunto no início da próxima semana. O diretor cultural do museu, Evandro Salles, confirmou as negociações e disse que "há um interesse mútuo" de trazer a mostra para o Rio.
Procurado pelo GLOBO, Gaudêncio Fidelis, curador de "Queermuseu" não foi localizado até o momento. Em entrevista no dia 15, Fidelis chegou a falar em exibir a mostra em outras cidades — além do Rio, há expectativa de a exposição ir para Belo Horizonte.
— Recebemos propostas de várias cidades e estamos estudando. De Belo Horizonte, recebemos uma consulta de um assessor da secretaria de Cultura para saber se haveria o interesse de transferir a mostra para lá, caso a negociação se concretizasse. Aliás, eles obedeceram ao protocolo mais elementar, de consultar o curador para falar sobre a exposição, coisa que o Santander Cultural não fez.
ENTENDA O CASO
O Santander Cultural, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, anunciou, no dia 10 de setembro, o cancelamento da exposição "Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira", após protestos na instituição e nas redes sociais. Em nota, o centro cultural afirmou ter entendido que as obras expostas "desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas", o que não estaria alinhado com sua "visão de mundo". Críticos da mostra afirmaram nas redes sociais que alguns quadros representavam "imoralidade", "blasfêmia" e "apologia à zoofilia e pedofilia".
Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a "Queermuseu" contava com mais de 270 obras, oriundas de coleções públicas e privadas, que exploravam a diversidade de expressão de gênero. Na época em que a exposição foi anunciada, o Santander informava que "valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa".
Entre os autores expostos na "Queermuseu", estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Candido Portinari, Clóvis Graciano e Lygia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos.
Após o cancelamento, ainda ocorreu uma tentativa de a mostra "Queermuseu" ser reaberta em Porto Alegre. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), no entanto, negou um pedido de tutela antecipada para a reabertura da exposição.
Ativistas usam bandeiras para cobrar museus sobre ausência de negros por Daniel Lima, Folha de S. Paulo
Ativistas usam bandeiras para cobrar museus sobre ausência de negros
Artigo de Daniel Lima originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo em 3 de setembro de 2017.
Ao invés de falar de memórias com personalidades, como é praxe neste espaço, recorro a anônimos e a encontros ocorridos a partir da intervenção da Frente 3 de Fevereiro, coletivo do qual participo há mais de 12 anos.
Em janeiro de 2015, instalamos uma bandeira gigante na fachada do Museu de Arte do Rio, localizado na praça Mauá, no centro da capital fluminense, voltado para o chamado Porto Maravilha. A flâmula questionava em letras garrafais: "ONDE ESTÃO OS NEGROS?".
O trabalho foi montado originalmente em 2006 para intervenções em estádios de futebol, em uma série da qual faziam parte outros dois estandartes: "BRASIL NEGRO SALVE" e "ZUMBI SOMOS NÓS".
Abrimos a bandeira pela primeira vez no jogo Corinthians x Ponte Preta, em Campinas. A Ponte foi, no futebol paulista, um dos primeiros times a aceitar negros na linha e, por isso, sua torcida ganhou a alcunha de macaca.
Na chegada dos jogadores para o segundo tempo, a frase se desfraldava sobre a arquibancada. Os jogadores se entreolhavam, trocando silenciosamente cúmplices perguntas: "É comigo?", "Sou eu esse negro?", "Somos nós?". O que uma pergunta tão embaraçosa fazia em um ambiente de fanáticas certezas?
No mesmo ano, em Buenos Aires, pusemos a bandeira no Palais de Glace. Foi a primeira vez que ela cobriu um museu. Deitada sobre a cúpula central, a frase ressoava por toda a exposição.
Alguns dias depois da abertura, um casal portenho nos abordou: "Aquí en el palais no los hay [negros]. Pero en las calles, los negros son los cabecitas negras". Eles se referiam a toda sorte de imigrantes da América do Sul vindos dos Andes. Bolivianos, peruanos, nativos.
Então, em 2015, estávamos montando a bandeira-pergunta na fachada do Museu de Arte do Rio para a exposição "Zona de Poesia Árida", da qual eu fazia a curadoria com Túlio Tavares. O vento da entrada da baía da Guanabara impunha um desafio único. Eis que um jovem negro que trabalhava como gari se aproximou:
– Sobre o que é isso?
Dei a resposta padrão artístico-pedagógica:
– Sobre o que você acha que é?
– Negros? Acho que é sobre o museu. Sobre a história da arte e o museu.
– Isso. Mas também onde estão os negros na sociedade.
– Essa pergunta também foi feita a um filósofo francês, Jean-Paul Sartre, quando veio ao Brasil –lançou o gari.
Lembramos a passagem da crônica "Onde Estão os Negros", de 1967, em que Nelson Rodrigues narra o incômodo do filósofo existencialista em sua visita ao Brasil. Depois de frequentar somente círculos sociais brancos, Sartre teria lançado a pergunta: "E os negros? Onde estão os negros?".
No dia seguinte, entretanto, a bandeira e a sua frase começaram a se rasgar com a força do vento. Ao meio-dia, sol a pino, trabalhadores em saída para o almoço, presenciei o suspiro derradeiro da bandeira. O rasgo se abriu de vez. Ato final da performance. Durante aquele adeus, chegou ao meu lado um homem:
– Que besteira é esta? Cada coisa que a gente vê! Não tem que fazer essa pergunta, não. Que coisa é essa de negro? Onde o negro tá? Vem com essa de direitos humanos, de Amarildo...
É a pergunta que não quer calar no Brasil, o país que mais recebeu negros escravizados em todo o mundo. O trabalho é uma luta para inscrever novas perspectivas e passa pela reinvenção dos conceitos que possam nos colocar todos num mesmo lado de uma mesma resistência. Convocar o negro não como fortaleza identitária, mas como ponto de partida comum, referência a partir da qual se tem aonde ir.
É como proclamava a Constituição do Haiti de 1805, após a revolta escrava ter tomado o poder: "Todos os cidadãos, de aqui em diante, serão conhecidos pela denominação genérica de negros". E aqui no Brasil: onde estão os negros?
DANIEL LIMA, 44, artista visual, é curador da mostra Agora Somos Todxs Negrxs?, em cartaz no Galpão VB, em São Paulo, até 16/12.
