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junho 9, 2017
A rainha da fuleragem. Bia Medeiros faz de Brasília uma cidade-menina por Sérgio Maggio, Metrópoles
A rainha da fuleragem. Bia Medeiros faz de Brasília uma cidade-menina
Matéria de Sérgio Maggio originalmente publicada no site Metrópoles em 8 de junho de 2017.
Fuleragem é uma gíria deliciosa e divertida que quer dizer “sacanagem das boas”. Reunir um monte de gente bacana e criativa para rir desse mundo careta que não deu certo é um exemplo magnífico de fuleragem. A performer Bia Medeiros tem pós-doutorado no assunto. Há 25 anos, com o coletivo Corpos Informáticos, tem ajudado a distrair Brasília dessa sina de ser uma capital do poder. Espalhou carcaças de kombis coloridas pela cidade, botou um monte de gente pelada para brincar no CCBB e passou até enceradeira no piso da Esplanada.
"Vinte e cinco anos é muita história. Não cabe nesse teclado de celular. Houve momentos extraordinários: em 1996, o balanço na Rodoviária é inesquecível. Balançar em um balanço com raio de 10 metros! Uau!"
Bia Medeiros
O Corpos Informáticos tem um forte elemento lúdico. Remete a brincadeiras da meninada. É comum encontrá-los quebrando o cotidiano de ir e vir com ações que tiram as pessoas da seriedade de viver. Outro dia, estavam no Setor Comercial Sul empurrando brincando artesanais de rodinhas bem na hora do almoço. Esse aspecto remete ao jeito moleca de Bia Medeiros.
Minha infância foi muito divertida. Tenho quatro irmãos homens. Brinquei com eles de boneca (já que sou a segunda filha), joguei futebol (até os 18). Vivemos há 300 metros da praia: pegamos muita onda (jacaré). Meu irmão, o terceiro é, até hoje, um palhaço. Sempre rimos muito em família
Com uma pesquisa ampla em videoarte e performance, Corpos Informáticos é uma referência nacional em arte contemporânea. O agrupamento de artistas faz um cruzamento híbrido de linguagens a partir de vertentes de ideias que refletem os eixos cidade, política, corpo e coletivo.
O Corpos, em geral, tem cerca de 10 pessoas. Agora, acho que somos 12. Mas, na real, somos 50. Quase todos que passaram pelo Corpos estão sempre disponíveis para ser Corpos quando necessário. Por exemplo, Camila Soato, nosso braço em São Paulo, e Carla Rocha, nossa perna estadunidense.
Professora de artes da UnB, Bia se aposentou neste ano e está morando no Rio. Mas o Corpos é mundão, como ela costuma dizer. Tem gente em Goiânia, Barbalha (CE), Estados Unidos, São Paulo e Bahia.
"Volto agora para Brasília. Dia 10.06, tem exposição com meu trabalho na Galeria Alfinete, Dia 14/6, abre mostra dos 25 anos de Corpos Informáticos, no Museu da República, com lançamento de catálogo"
Bia Medeiros
Bia começou a se enveredar pela arte ainda menina. Aos 13 anos, fez um desenho que a impressionou. Na mesma hora, decidiu: “Vou ser artista”. Aos 17, descobriu a gravura. Queria que sua arte fosse compartilhada sem restrições. Passou então a colar as gravuras nos pontos de ônibus da Lapa, no Rio.
Estávamos em plena ditadura. Quando fui para a França (com bolsa do governo francês) continuei a fazer gravura e colar nas rua. Mas lá tinha muito cartaz publicitário que as engolia. Daí me juntei com a Suzete Venturelli e começamos a rasgar esses cartazes, que logo viraram roupa e performance.
A rainha da fuleragem. Bia Medeiros faz de Brasília uma cidade-menina por Sérgio Maggio, Metrópoles
A rainha da fuleragem. Bia Medeiros faz de Brasília uma cidade-menina
Matéria de Sérgio Maggio originalmente publicada no site Metrópoles em 8 de junho de 2017.
Fuleragem é uma gíria deliciosa e divertida que quer dizer “sacanagem das boas”. Reunir um monte de gente bacana e criativa para rir desse mundo careta que não deu certo é um exemplo magnífico de fuleragem. A performer Bia Medeiros tem pós-doutorado no assunto. Há 25 anos, com o coletivo Corpos Informáticos, tem ajudado a distrair Brasília dessa sina de ser uma capital do poder. Espalhou carcaças de kombis coloridas pela cidade, botou um monte de gente pelada para brincar no CCBB e passou até enceradeira no piso da Esplanada.
"Vinte e cinco anos é muita história. Não cabe nesse teclado de celular. Houve momentos extraordinários: em 1996, o balanço na Rodoviária é inesquecível. Balançar em um balanço com raio de 10 metros! Uau!"
Bia Medeiros
O Corpos Informáticos tem um forte elemento lúdico. Remete a brincadeiras da meninada. É comum encontrá-los quebrando o cotidiano de ir e vir com ações que tiram as pessoas da seriedade de viver. Outro dia, estavam no Setor Comercial Sul empurrando brincando artesanais de rodinhas bem na hora do almoço. Esse aspecto remete ao jeito moleca de Bia Medeiros.
Minha infância foi muito divertida. Tenho quatro irmãos homens. Brinquei com eles de boneca (já que sou a segunda filha), joguei futebol (até os 18). Vivemos há 300 metros da praia: pegamos muita onda (jacaré). Meu irmão, o terceiro é, até hoje, um palhaço. Sempre rimos muito em família
Com uma pesquisa ampla em videoarte e performance, Corpos Informáticos é uma referência nacional em arte contemporânea. O agrupamento de artistas faz um cruzamento híbrido de linguagens a partir de vertentes de ideias que refletem os eixos cidade, política, corpo e coletivo.
O Corpos, em geral, tem cerca de 10 pessoas. Agora, acho que somos 12. Mas, na real, somos 50. Quase todos que passaram pelo Corpos estão sempre disponíveis para ser Corpos quando necessário. Por exemplo, Camila Soato, nosso braço em São Paulo, e Carla Rocha, nossa perna estadunidense.
Professora de artes da UnB, Bia se aposentou neste ano e está morando no Rio. Mas o Corpos é mundão, como ela costuma dizer. Tem gente em Goiânia, Barbalha (CE), Estados Unidos, São Paulo e Bahia.
"Volto agora para Brasília. Dia 10.06, tem exposição com meu trabalho na Galeria Alfinete, Dia 14/6, abre mostra dos 25 anos de Corpos Informáticos, no Museu da República, com lançamento de catálogo"
Bia Medeiros
Bia começou a se enveredar pela arte ainda menina. Aos 13 anos, fez um desenho que a impressionou. Na mesma hora, decidiu: “Vou ser artista”. Aos 17, descobriu a gravura. Queria que sua arte fosse compartilhada sem restrições. Passou então a colar as gravuras nos pontos de ônibus da Lapa, no Rio.
Estávamos em plena ditadura. Quando fui para a França (com bolsa do governo francês) continuei a fazer gravura e colar nas rua. Mas lá tinha muito cartaz publicitário que as engolia. Daí me juntei com a Suzete Venturelli e começamos a rasgar esses cartazes, que logo viraram roupa e performance.
junho 7, 2017
Contra 'neoescravismo', crítico Paulo Herkenhoff quer negros em museus por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Contra 'neoescravismo', crítico Paulo Herkenhoff quer negros em museus
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 5 de junho de 2017.
Um dos críticos de arte e pensadores mais relevantes do país, Paulo Herkenhoff vem liderando ao longo dos últimos anos uma batalha pela igualdade racial -não só nas ruas, mas também nas coleções dos grandes museus.
Na visão dele, a crise política e econômica que corrói o Brasil abala as instituições, mas ao mesmo tempo vem abrindo caminho para que "críticos, historiadores e curadores sérios" abandonem o mainstream e passem a estudar e valorizar trabalhos de nomes antes às margens, em grande parte de negros.
Em mais de três décadas de trabalho, Herkenhoff foi um dos curadores do MoMA, em Nova York, esteve à frente do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu Nacional de Belas Artes, foi diretor artístico de uma das mais celebradas edições da Bienal de São Paulo, em 1998, e comandou o MAR, o Museu de Arte do Rio, até o ano passado, quando pediu para deixar o cargo.
O estopim para a decisão foi um convite de outra liderança do museu ao sul-africano Brett Bailey para que encenasse ali sua polêmica peça de teatro em que atores negros são confinados, lembrando os zoológicos humanos criados para entreter a sociedade europeia do século 18.
"Ele foi impedido de fazer a peça por militantes do movimento negro", diz Herkenhoff. "É um diretor de teatro branco que discute racismo com negros dentro de gaiolas. Achei muito violento e racista, degradante a situação. Tinham posto ele lá à minha revelia, contra minha vontade."
Mesmo depois de deixar a direção do museu, o crítico continua sendo um consultor da coleção, numa tentativa de construir ali um dos maiores acervos de arte afro-brasileira contemporânea.
Ele também escreve um livro sobre a história dos negros nas artes visuais do país, analisando desde a obra de escravos até nomes em ascensão na atualidade. Alguns deles podem ser vistos agora na mostra com obras da coleção do Itaú Cultural, que Herkenhoff organizou na Oca.
Na montagem, ele defendeu que a esquerda faça um mea-culpa e analisou a presença de negros e índios nas artes visuais, em especial a polêmica performance na atual Bienal de Veneza, para onde Ernesto Neto levou índios que ocuparam uma oca de crochê.
Leia a seguir os principais trechos da conversa.
NEGROS NA ARTE
Falar de afrodescendentes com muita desenvoltura para mim é um pouco complicado porque não sou negro. Meu companheiro é negro, e volta e meia vejo lembranças de situações de racismo vividas por ele. As contradições da sociedade brasileira têm um de seus sintomas mais graves e profundos na situação dos negros. Ninguém precisa me dizer que há um racismo claro na sociedade brasileira. Vivemos um neoescravismo.
Mas há uma tomada de consciência dos artistas. Essa geração hoje é muito afirmativa da crítica que quer fazer, e essa crítica passa por questões e políticas do poder e pelo fortalecimento das religiões afro nesse momento profundo de intolerância. Estão construindo um discurso alegórico, às vezes mais direto, criando modelos de convivência.
Nunca vou achar que a arte muda a sociedade, mas pode mudar como as pessoas se aproximam da sociedade para além da arte, porque, no fundo, esses artistas fazem uma arte além da arte. É o direito de ser negro, afrodescendente pleno, igual como cidadão. Nesses termos, isso é diferente de uma obra cuja finalidade está em si mesma.
MODA E OPORTUNISMO
Se houver [oportunismo na inclusão desses artistas nas coleções], isso é algo que também está respondendo a pressões da sociedade. Há instituições sérias que, de repente, acordam. Claro que há interesses políticos, mas são instituições sérias, curadores, historiadores e críticos que abrem mão do mainstream.
Essa é uma linha de prioridade, que tem se expandido nos últimos tempos.
SITUAÇÃO DO MASP
Estou no conselho do Masp, e acho o Masp hoje um museu excepcional. Ele está buscando a sua história. Mas, como é uma história de 50 anos revista em quatro ou cinco, parece que está pensando só no próprio passado, mas isso no futuro vai mudar. O que não é respeitável vai ser esquecido, e o que fica é o melhor.
Há uma vontade de estabelecer novas dinâmicas, e o Masp está assumindo riscos.
POLÍTICA CULTURAL
Nós temos de ter a volta de um governo democrático honesto. O PT evita fazer um mea-culpa, mas tem de fazer. Não pode ser uma esquerda que rouba, mas faz. Isso é fundamental. Acho que é preciso uma revisão ética para não deixar dúvidas de que há novos valores para o país.
Não é questão de voto. É uma questão de voto por falta de escolha. Quais são as lideranças efetivas de direita, esquerda e de centro que estão surgindo? É trágico. Precisamos de esquerdas que possam fazer uma revisão.
Na minha visão, a grande figura do século 21 no Ministério da Cultura foi o Juca Ferreira. Não havia narcisismo.
O que era o Marcelo Calero como ministro? Ele não tinha nenhuma vontade museológica. Só preenchia os dotes físicos do secretariado do [ex-prefeito] Eduardo Paes, no Rio. Era bem-apessoado, como todos os "Dudu boys", os secretários do Paes, que eram jovens e bem-apessoados.
Na situação atual o Marcelo Araújo [ex-secretário de Estado da Cultura paulista e atual presidente do Instituto Brasileiro de Museus] é a melhor pessoa para ser ministro.
ÍNDIOS NA ARTE
Nos anos 1960, o Brasil tomou mais consciência do genocídio dos povos indígenas. E alguns setores da sociedade foram muito ativos, entre eles os artistas, como Claudia Andujar e Cildo Meireles.
Um segredo aí para a gente entender o que é razoável [na representação dos índios na arte] é a noção de gueto do Cildo. Ele diz que numa situação de isolamento e enclausuramento a energia circula com mais densidade, como se fosse um buraco negro. E os exemplos que ele cita são o Harlem no período entre as grandes guerras e os índios brasileiros na selva.
Quando, no século 19, levam índios americanos para a Bienal de Veneza, havia ali ainda um entendimento de que os índios são uma extensão da história natural. Hoje acho que existe outro grau de consciência dos índios.
Quando o Ernesto Neto, que é um leitor assíduo do [antropólogo] Eduardo Viveiros de Castro antes que isso virasse moda, leva índios para lá, ele está buscando criar uma possibilidade de um diálogo.
Entendo que os índios hoje têm uma relação com sua própria história e uma relação com a sociedade nacional e global. Eles estão repovoando a selva. Não querem comprar carne no supermercado, querem viver sua experiência.
Eu acho que a intenção do Ernesto é muito mais criar um território para uma cultura indígena específica. Ele levou uma etnia específica a Veneza. Dizer que eles estavam dentro de jaulas ali é fazer uma leitura mecanicista.
Com mais de mil itens, coleção de arte contemporânea do Santander está aberta para visitação por Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo
Com mais de mil itens, coleção de arte contemporânea do Santander está aberta para visitação
Matéria de Ubiratan Brasil originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo em 5 de junho de 2017.
O acervo é fruto da união das coleções que foram reunidas ao longo dos anos graças a uma sucessão de fusões entre bancos
Quando o trainel é puxado, surge o deslumbramento: o quadro Colheita de Café, que Manabu Mabe pintou em 1953, sobre uma tela formada por saco de arroz. “Trata-se de um exemplar de sua fase cubista”, avalia a pesquisadora Elly de Vries. Ela comanda um grupo de conservadoras, responsáveis por um verdadeiro tesouro: cerca de 1.200 obras (entre pinturas, gravuras, fotos, esculturas e desenhos) que compõem o Núcleo de Artes Visuais do acervo do Banco Santander. “Na verdade, a memória institucional soma mais de 200 mil itens, entre documentos, mobiliário, equipamentos e outros objetos ligados à história do sistema bancário brasileiro”, completa Elly, gerente de Marketing Cultural do banco.
Trata-se de uma coleção que, somente entre as artes visuais, traz obras representativas das correntes abstratas e figurativas que foram marcantes no Brasil a partir da década de 1940. “Um acervo tão valioso do ponto de vista cultural que o banco decidiu liberar a visitação pública”, informa Elly. Assim, quem desejar conhecer as peças desse tesouro necessita apenas agendar uma visita gratuita, o que pode ser feito via e-mail (acervo.cultural@santander.com.br). A equipe comandada por Elly pretende receber grupos formados em média por 15 pessoas que, durante quatro horas, poderão descobrir não apenas as obras disponíveis na reserva técnica (local normalmente invisível para o público, onde são guardadas peças artísticas que não estão em exposição) como também objetos antes comuns em bancos, de antigas calculadoras a monumentais relógios de parede.
O acervo do Santander é fruto da união das coleções que foram reunidas ao longo dos anos, graças a uma sucessão de fusões entre bancos nacionais, hoje agrupados sob a marca do grupo espanhol. Desde que se instalou no Brasil, em 1982, o Santander adquiriu diretamente cinco bancos, entre eles grandes instituições como Banespa (em 2000) e o ABN Amro Real (2008). “No meio dessas movimentações, eram incorporadas também as coleções artísticas que cada uma detinha”, conta Elly. Segundo ela, nos anos 1950 e 1960, quando o Brasil viveu um período desenvolvimentista, tornou-se um hábito dos proprietários de bancos a valorização de seus acervos de pinturas e esculturas, o que os impulsionava a adquirir obras que já despontavam como preciosas.
O processo de fusão permitiu também que as coleções se diversificassem. Quando adquiriu o ABN Amro Real, por exemplo, o Santander herdou o patrimônio de outras instituições que faziam parte do grupo, como o do Bando Sudameris que, ao longo de sua história, formou um invejável conjunto de obras de abstração informal de artistas japoneses, como Tomie Ohtake e o próprio Manabu Mabe. A miscigenação, aliás, marca o acervo do banco. Assim, além dos já citados, há obras de outros japoneses, como Tikashi Fukushima, Wakabayashi, Kaminagai e Flávio-Shiró; os italianos Volpi e Fúlvio Pennacchi, o suíço John Graz, a húngara Yolanda Mohalyi e a polonesa Fayga Ostrower.
O núcleo de gravuras ainda sedia obras de Lívio Abramo, Arthur Luiz Piza, Renina Katz, Maria Bonomi, entre outros. Essa coleção vem sendo ampliada com maior intensidade nos últimos anos, por meio de aquisições de arte contemporânea brasileira, com trabalhos de nomes celebrados e emergentes como Marcos Chaves, Ana Elisa Egreja, Cássio Vasconcellos, Luiz Braga, Paulo Almeida, Janaína Tschäpe, Oscar Oiwa, entre outros.
