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dezembro 15, 2016
Justiça autoriza venda de obras de Edemar Cid Ferreira que estão no MAC por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Justiça autoriza venda de obras de Edemar Cid Ferreira que estão no MAC
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 14 de dezembro de 2016.
Uma decisão judicial acaba de autorizar o leilão das obras de Edemar Cid Ferreira que estão sob a guarda do Museu de Arte Contemporânea da USP. Essas 600 peças avaliadas em R$ 6,1 milhões deverão ir a leilão, organizado pelo marchand Aloísio Cravo, o mesmo que conduziu a recente venda das obras que estavam na casa do ex-banqueiro em São Paulo, já em fevereiro ou março do ano que vem.
Isso encerra um período de mais de uma década em que os trabalhos, entre eles um painel de Frank Stella e uma extensa coleção de fotografia contemporânea, permaneceram no MAC. Há dois anos, a Justiça autorizou a retirada de dois deles, obras do americano Roy Lichtenstein e do uruguaio Joaquín Torres-García, para que fossem leiloados em Nova York.
Há anos agentes do MAC e do governo, em especial do Instituto Brasileiro de Museus, órgão responsável por essas instituições no Ministério da Cultura, vêm tentando evitar que isso acontecesse, argumentando que a conservação dessas obras ao longo dos anos teve um custo para o museu e que o interesse público deveria ser levado em conta antes dos interesses dos credores da massa falida do Banco Santos.
"Qualquer obra no museu exige conservação, cuidados. Então tudo isso gera custos não só para o MAC mas para qualquer museu que tenha obras em juízo guardadas", diz Carlos Roberto Ferreira Brandão, diretor do MAC e ex-presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). "Elas estão todas nas nossas reservas técnicas muito bem acondicionadas e cuidadas."
Brandão afirma que, quando presidente do Ibram, ele insistiu que ao menos os leilões fossem realizados no Brasil, para que o órgão federal pudesse exercer seu direito de preferência nesse tipo de venda e arrematar as peças para uma coleção pública, mas o juiz do caso foi contra a decisão e as peças acabaram sendo vendidas em Nova York.
Ele acrescenta ainda que a Universidade de São Paulo, responsável pelo MAC, já calcula o quanto a conservação dessas obras custou ao museu e estuda maneiras de reverter essa decisão ou ao menos conseguir que a instituição seja ressarcida pelos cuidados com esse patrimônio que agora será vendido.
"Essas obras que estão em poder de museus públicos serão devolvidas para ressarcir credores, que eram pessoas que estavam tendo lucros em relação a seus investimentos no Banco Santos, lucros extraordinários", diz Brandão. "Nossa estratégia é favorável ao interesse público. O que está em jogo é quais interesses serão satisfeitos. Eu advogo que o interesse público seja contemplado e não apenas o interesse privado."
Outras obras que pertenciam a Cid Ferreira vêm sendo vendidas em leilões no exterior ao longo dos últimos meses. Em outubro, uma tela de Jean-Michel Basquiat que pertencia ao ex-banqueiro foi vendida em Londres por cerca de R$ 42 milhões. Há um mês, as 917 obras que estavam na casa de Cid Ferreira foram leiloadas em São Paulo, arrecadando cerca de R$ 12 milhões, enquanto outras peças foram arrematadas em Nova York por mais R$ 9 milhões.
Quando o Banco Santos faliu, deixou um rombo de cerca de R$ 3,2 bilhões. As obras de arte de Edemar Cid Ferreira, ex-dono da instituição financeira, foram então lacradas em sua casa no Morumbi ou destinadas a museus. Sete instituições, entre elas o MAC, receberam as peças em juízo —sua coleção tinha então um valor estimado de R$ 30 milhões.
Os credores do banco receberão agora cerca de R$ 150 milhões, angariados com a venda de bens de Cid Ferreira, entre eles obras de arte. Será o primeiro pagamento realizado aos credores desde que o banco faliu.
dezembro 11, 2016
Depois da Bienal de São Paulo, Jochen Volz assume direção da Pinacoteca por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Depois da Bienal de São Paulo, Jochen Volz assume direção da Pinacoteca
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 8 de dezembro de 2016.
Jochen Volz, curador alemão à frente da atual Bienal de São Paulo e um dos diretores do Inhotim, vai assumir a direção geral da Pinacoteca em maio. Ele substitui Tadeu Chiarelli, que deixa o cargo depois de dois anos.
Chiarelli, que já esteve à frente do MAM e do Museu de Arte Contemporânea da USP, afirma que o acordado era que ele ficasse no máximo dois anos na função desde que assumiu e que agora vai voltar a dar aulas na universidade.
Volz vivia em Londres, onde era um dos diretores artísticos das Serpentine Galleries, antes de ser escalado para dirigir a 32ª edição da Bienal de São Paulo, que termina neste fim de semana.
Nos bastidores, a troca de comando é vista como reflexo da ambição da Pinacoteca de se firmar no circuito internacional. Volz, que também já foi curador-adjunto de uma edição da Bienal de Veneza, tem amplo trânsito no exterior e laços estreitos com outras instituições de peso no tabuleiro global, entre elas a Tate Modern, de Londres.
Ele também está à frente da seleção de artistas do pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Veneza, marcada para maio do ano que vem.
Sua mudança para a Pinacoteca, no entanto, não ocorre num momento fácil. O museu sofre com um aperto financeiro que deve se agravar.
Isso não impediu, no entanto, que Chiarelli levasse a cabo a reorganização do acervo, estabelecendo no prédio principal, na Luz, uma narrativa completa da evolução da arte no país do século 19 até a atualidade, abrindo duas novas alas permanentes.
"Executei um plano que vinha sendo gestado", diz Chiarelli. "Isso é um índice de maturidade da instituição. É claro que, quando o Volz assumir, haverá adaptações, mas ele foi pensado como alguém que pode dar continuidade aos planos do museu."
Volz toma as rédeas da instituição, no ano que vem, com um cronograma já em parte acertado. Estão nos planos mostras da fotógrafa alemã Candida Höfer, do belga David Claerbout e uma retrospectiva de Di Cavalcanti. Em 2018, o museu pretende inaugurar uma exposição com peças do Museu d'Orsay, de Paris.
O Inhotim, ciente da negociação de Volz com a Pinacoteca, ainda não acertou se ele deixará a instituição mineira ou acumulará os cargos.
Colecionadores poderosos de Miami destacam Brasil durante a Art Basel por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Colecionadores poderosos de Miami destacam Brasil durante a Art Basel
Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de dezembro de 2016.
Viciados na maior feira dos Estados Unidos, a Art Basel Miami Beach, notaram ausências nos corredores do centro de convenções que lembra um Carnaval de rua nessa época. O nervosismo com a eleição de Trump e um surto de zika no mais famoso balneário americano, de fato, espantaram colecionadores, mas o Brasil parece ter saído vencendo.
Duas das maiores coleções privadas de Miami, com influência inquestionável sobre o rumo dos acervos dos museus americanos, escolheram o momento da feira para montar exposições destacando trabalhos de seus artistas brasileiros, entre eles queridinhos da cena contemporânea e outros superconsagrados.
Depois de anunciar a construção de um novo museu, que deve ser inaugurado em dois anos, o casal Don e Mera Rubell, entre os mais poderosos mecenas americanos, abriram uma mostra com 12 artistas do Brasil no centro de Miami.
"Temos 7.300 obras de arte, mas esses trabalhos são alguns dos melhores que já mostramos", dizia Juan Valadez, diretor do museu da família, numa visita à mostra. "Somos fãs desses artistas."
Na mostra estão peças de nomes em ascensão no circuito global, como André Komatsu, Paulo Nazareth e Sônia Gomes. Uma enorme instalação de Thiago Martins de Melo, que estava na Bienal de São Paulo há dois anos, também foi comprada pelos Rubell e ocupa uma das maiores salas da exposição.
Não muito longe dali, Ella Fontanals-Cisneros, da mesma família que acaba de doar um acervo de mais de cem obras de arte latino-americanas ao MoMA, abriu uma mostra em sua fundação organizada por Eugenio Valdés e Katrin Steffen, que dirigiram a Casa Daros, no Rio.
Na abertura, colecionadores brincavam na instalação de Marcius Galan, nome forte do cenário brasileiro que montou ali uma sala que parece dividida por grandes chapas de vidro mas que não passa de uma ilusão de óptica criada com distintos tons de verde pintados na parede.
Também na mostra, trabalhos históricos de Hélio Oiticica, Mira Schendel e Anna Maria Maiolino despertavam a inveja de alguns colecionadores brasileiros no vernissage.
Essa presença de peso do Brasil no circuito americano, começando por Miami, se deve em grande parte ao poder da Art Basel, que virou a maior plataforma do mercado de arte latino-americana no mundo, e feiras paralelas como a Pinta, que começou em Nova York e migrou para o balneário no sul dos EUA depois do sucesso da feira principal.
"Temos um compromisso com o mercado latino e nos esforçamos para dar espaço a novas galerias", diz Noah Horowitz, diretor da Art Basel. "Estamos animados com a transformação de Miami, que virou um lugar de encontro."
