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outubro 28, 2016
Em Bogotá, feira ArtBO tenta se firmar com obras políticas e minimalistas por Silas Martí, Folha de S. Paulo
Em Bogotá, feira ArtBO tenta se firmar com obras políticas e minimalistas
Matéria de Silas Martí, enviado especial a Bogotá, originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 27 de outubro de 2016.
Quase gritando para se fazer escutar num galpão alvejado pela chuva, María Paz Gaviria, a diretora da ArtBO, dizia que a feira que acontece agora na capital colombiana é a mais "refrescante" do circuito artístico latino-americano.
De fato, as temperaturas em Bogotá, cidade que roça uma cordilheira a alguns milhares de metros acima do nível do mar, são baixas e as tempestades são muitas. Meteorologia à parte, a ArtBO também conseguiu cravar um espaço na agenda apertada das feiras de arte com um programa mais enxuto, com galerias influentes e obras que fogem do espetáculo barato para vender a qualquer custo.
Nesta edição, que não coincidiu com a Fiac, em Paris, o evento colombiano tem presença recorde de galerias brasileiras, que vinham preferindo a feira francesa até então. Casas poderosas como Luisa Strina e Fortes Vilaça vieram a Bogotá, além de Raquel Arnaud e Vermelho.
Embora haja mais galerias paulistanas e uma carioca, o total de participantes da feira caiu em relação ao ano passado —de 84 foi para 74. Gaviria diz que essa foi uma decisão estratégica, que não tem a ver com qualquer sinal de crise econômica.
"Fizemos uma seleção cuidadosa para que tivéssemos um resultado mais potente no mercado", diz a diretora. "Esta é uma feira com um modelo único, que não enfatiza só as vendas, por isso podemos tomar a decisão de não aumentar o número de galerias e ter mais espaço para mostras institucionais."
Esse modelo único, no caso, depende do fato de a ArtBO não se ancorar na venda de estandes para se bancar, já que é organizada pela Câmara de Comércio de Bogotá, uma parceria público-privada que trabalha para lançar a capital colombiana também como destino cultural.
Mesmo sem uma estratégia para lucrar, a feira detonou uma onda de abertura de novas galerias e turbinou a cena de colecionadores na metrópole colombiana. Uma das galerias mais jovens da cidade, aliás, a Instituto de Visión surgiu há dois anos e já se tornou uma plataforma de peso, emplacando três de seus artistas —Alicia Barney, Carlos Motta e Carolina Caycedo— na atual Bienal de São Paulo.
Todos eles têm obras de alta voltagem política, algo que parece inevitável num país que está há 60 anos em guerra civil com narcotraficantes. Mas o estilo de arte política criado na Colômbia, como fica claro na feira, é menos panfletário e mais sutil.
Na visão de Johannes Vogt, galerista de Nova York, colecionadores colombianos têm um "gosto refinado" e preferem trabalhos na linha da abstração geométrica e do minimalismo. Isso explica o trânsito forte de brasileiros dessa mesma pegada no mercado colombiano —a diretora da ArtBO diz que a Colômbia é um dos principais destinos de exportação de arte nacional.
"Eles têm menos interesse pela estética, têm esse viés político e nada é muito contemplativo", diz Jaqueline Martins, galerista paulistana que participa da ArtBO há cinco anos. "Eles também vêm segurando o tamanho da feira para não se tornar uma 'big fair' num micromercado."
Ou seja, há um limite para o tanto de arte político-minimalista que as casas conseguem emplacar nas coleções locais. E a seleção mais criteriosa ajuda a navegar pela feira, com galerias bem espalhadas num enorme galpão, sem estandes abarrotados de tralha.
Na Fortes Vilaça, por exemplo, estão poucos trabalhos de Cristiano Lenhardt, outro artista da Bienal de São Paulo. Nas primeiras horas da feira, a casa paulistana também vendeu trabalhos de Rodrigo Cass, enquanto a Luisa Strina encontrou compradores para obras de Cildo Meireles e Eduardo Fraipont.
Famosa por sua seleção de trabalhos mais minimalistas e monocromáticos, a galeria Gregor Podnar, de Berlim, também mostrava obras pensadas de acordo com o perfil mais sóbrio da ArtBO, entre elas peças de Marcius Galan e Pablo Accinelli.
Entre os melhores trabalhos da feira, Laura Belém montou uma instalação com refugos de peças de pedra sabão de artesãos do interior de Minas Gerais na Athena Contemporânea. Sua série de esculturas quebradas e esbranquiçadas reflete o clima geral do evento, com poucas cores, zero estridência e muita geometria.
Na francesa Mor Charpentier, outra série de pequenas esculturas de Carlos Motta lembrava, de longe, estátuas de divindades gregas em miniatura, mas na verdade retratavam deuses e deusas hermafroditas —a transexualidade como metáfora de um mundo mergulhado em tempestades.
Nuno Ramos organiza ato contra a anulação do julgamento do Carandiru por Mariana Tessitore, ARTE!Brasileiros
Nuno Ramos organiza ato contra a anulação do julgamento do Carandiru
Matéria de Mariana Tessitore originalmente publicada na revista ARTE!Brasileiros em 27 de outubro de 2016.
A ação, que contará com a participação dos artistas José Celso, Paulo Miklos, Laerte e Bárbara Paz, terá duração de 24 horas e será transmitida pela internet
Em protesto à anulação do julgamento do Carandiru, em setembro, o artista plástico Nuno Ramos organiza uma intervenção para relembrar os nomes das 111 pessoas que foram assassinadas durante o massacre ocorrido na tarde de 2 de outubro de 1992, no Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru.
A ação acontecerá em um edifício na alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo, no qual 24 artistas se reunirão por 24 horas para lerem os nomes das vítimas. Em entrevista à ARTE!Brasileiros, Ramos explicou que cada artista lerá os 111 nomes durante uma hora. A performance acontecerá entre às 16h do dia 1/11, horário no qual ocorreu a invasão, e às 16h de 2/11, dia de finados, data que se cultua a memória dos mortos.
O diretor de teatro José Celso Martinez Correa vai abrir os trabalhos e, segundo a página do Facebook do evento, a ação também contará com a participação de Luiz Alberto Mendes Junior (escritor), Marcelo Tas (jornalista), Paulo Miklos (músico), Laerte (cartunista), Bárbara Paz (atriz), Isabela Del Monde (advogada), Ferréz (escritor), Carlos Augusto Calil (cineasta), Jean-Claude Bernardet (cineasta), Marina Person(cineasta), Rita Cadillac (dançarina), Luambo Pitchou (coordenador do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem-teto), Eliane Dias (advogada) e Caio Rosenthal (médico).
Nuno Ramos explica que a ação “será bem lenta, como uma vigília mesmo. Durante uma hora, cada pessoa lerá os nomes das vítimas várias vezes. Pode ser rápido, devagar, pode gritar. Cada um faz como quiser, a única coisa que eu pedi é que os nomes sejam repetidos”. O artista ainda ressalta que será “um evento público via internet”. O intuito não é que as pessoas compareçam ao ato em si, mas que assistam às cenas e compartilhem pela internet. “Ninguém vai visitar, é um evento fechado em um prédio pequeno, para ser transmitido. Será num apartamento no topo de um edifício, porque eu queria que tivesse São Paulo ao fundo, como uma espécie de testemunha silenciosa sabe?”, conta o artista, que já abordou a temática em 1992 na obra 111, na qual cada uma das vítimas do Massacre do Carandiru é representada por paralelepípedos cobertos por asfalto e breu. Atualmente, o trabalho está guardado. Segundo o Nuno, sempre pedem que ele exiba o trabalho novamente, porém “é uma obra enorme que não dá para ser montada de uma hora para outra”.
Questionando sobre a importância da ação, Nuno afirma: “Não quero discutir os meandros jurídicos. O que sei é que isso está acontecendo já faz muito tempo. São 24 anos sem que ninguém tenha passado 24 horas preso. Acho que a invasão do Carandiru representa muito do que nós somos. A dificuldade de gerir o nosso horror, de colocar a nossa violência entre linhas mais nítidas. São 111 pessoas que merecem ser lembradas”.
outubro 26, 2016
Laura Lima: ‘O trabalho é provocativo, mas não escandaloso como sugerem’ por Nani Rubin, O Globo
Laura Lima: ‘O trabalho é provocativo, mas não escandaloso como sugerem’
Entrevista de Nani Rubin originalmente publicada no jornal O Globo em 10 de julho de 2016.
Artista diz que ficar quebrando tabus ‘seria um exercício muito superficial’
RIO — A primeira individual da artista carioca Laura Lima numa instituição americana, The inverse, causou polêmica nos principais sites de artes visuais do mundo depois que uma das seis performers contou ter feito uma penetração vaginal com uma corda de nylon da instalação na noite de abertura, supostamente induzida pela artista. Leia abaixo a entrevista com Laura, que nega a acusação e fala sobre a controvérsia em torno da obra.
Uma das participantes da instalação “The inverse” acusou-a de tê-la induzido a fazer uma penetração vaginal com as cordas de nylon da obra. É verdade?
Cada participante tem a liberdade de decidir a maneira como vai aderir à obra e isso foi explicitamente dito durante as múltiplas preparações nos encontros do projeto. Nenhuma participante foi forçada ou pressionada a nada.
Como foi feita a seleção das participantes? E como você as orientou a atuar?
Primeiro, uma chamada distribuída em lugares de arte e universidades. Ao encontrar com as pretendentes, sempre em reuniões de grupo, é feita uma explicação minuciosa da construção da obra, seus contexto e conceito, e a maneira como pode ser realizada. Espaço para discussão e preparação é sempre fundamental. Só é possível construir a obra a partir da prerrogativa do livre arbítrio e da vontade.
Essa mesma participante disse que você pôs uma camisinha na extremidade de uma corda e lhe deu um lubrificante. Isso aconteceu?
Não. Nunca tive essa conversa com a participante.
Essa performer a procurou para tirar dúvidas?
Fiquei à disposição dos participantes para que entrassem em contato comigo quando quisessem. Nós primeiramente ouvimos sobre esse assunto através da repórter de um jornal. O museu se ofereceu prontamente a encontrar-se com a participante, e não teve resposta.
A polêmica foi assunto dos principais sites de artes visuais. Como você se sente com isso?
É constrangedor e infeliz ver como o trabalho foi distorcido dessa maneira, particularmente porque propõe visões de natureza distintas a estas, sobre a ideia de corpo e a participação de pessoas.
Na sua opinião, a polêmica faz parte da arte contemporânea, pelo que ela tem de intrigante e original?
O trabalho é provocativo, mas não é escandaloso como sugerem. Para mim, a integridade da obra vai sobreviver a essa reação. Uma obra de arte e a reação que causa podem criar diálogos, sublinhando os preconceitos que existem sobre o corpo, a nudez e até a arte contemporânea. Eu não tinha intenção de causar uma reação desse porte, e a qualidade do que está sendo discutido não toca em questões que realmente existem no meu trabalho.
Nudez e interação com objetos há muito deixaram de ser novidade na arte. Há ainda tabus a serem transpostos?
Acho que não pode haver tabus na arte. No entanto, não construo minha obra para ficar quebrando tabus, porque seria um exercício muito superficial. Tabus surgem e são quebrados por processos sociais, a arte pode ajudar nesse processo. No entanto, a noção de sexualidade tem muitas nuances, e é uma construção mais complexa, portanto, assumir que a nudez equivale somente a sexualidade é deixar de perceber que o humano faz muitas coisas nu que não são sexo.
A performance tem tido uma espécie de renascimento, com espaço em feiras de arte e disciplinas de formação em escolas. A que você atribuiria isso?
Não denomino meus trabalhos de performance. É preciso lembrar que as discussões sobre a materialidade sempre se reatualizam nas artes visuais. A participação de pessoas numa obra nem sempre precisa acessar o vocabulário disponível. Esse é o ponto nevrálgico que proponho no meu trabalho e que gera tanta curiosidade.
